Ficha formativa- os maias-2

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Teste formativo sobre Os Maias- a educação portuguesa de Eusebiozinho vs educação inglesa de Carlos- com proposta de correção.

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Ficha formativa- os maias-2

  1. 1. Agrupamento de Escolas de Ribeira de PenaFICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA- OS MAIAS DE EÇA DE QUEIRÓSVilaça, sem óculos, um pouco arrepiado, passava a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por trazda orelha, e ia dizendo:─ Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é ele quem governa... Mimos emais mimos, naturalmente...Mas o Teixeira muito grave, muito sério, desiludiu o Sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizias. S.ª? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao Sr. Vilaça!Não tinha a criança cinco anos já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, paradentro duma tina de água fria, ás vezes a gear lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grandepaixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara apensa-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar ás árvores, molhar-se,apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certascoisas... E ás vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza. […]─ Sabe V. S.ª, apenas veio o mestre inglês, o que lhe ensinou? A remar! A remar, Sr. Vilaça, como umbarqueiro! Sem contar o trapézio, e as habilidades de palhaço; eu nisso nem gosto de falar... Que eu sou oprimeiro a dizê-lo: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excelente músico. Mas é o que eu tenho repetidoà Gertrudes: pode ser muito bom para inglês, não é para ensinar um fidalgo português... Não é. […]Tanta vivacidade [de Carlos] surpreendeu também Vilaça. Quis ouvir mais o menino, e pousando oseu talher:─ E diga-me, Carlinhos, já vai adiantado nos seus estudos?O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das flanelas, e respondeu com umtom superior:─ Já faço ladear a Brígida. […]O bom Vilaça, no entanto, […] queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu Fedro, o seu TitoLiviozinho...─ Vilaça, Vilaça, advertiu o abade, […]não se deve falar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Nãoadmite, acha que é antigo... Ele, antigo é...─ Ora sirva-se desse fricassé, ande abade, disse Afonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá olatim...O abade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, iamurmurando:─ Deve-se começar pelo latinzinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basezinha!─ Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. ─Prrimeiro forrça! Forrça!Músculo... […]Afonso apoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era um luxo de erudito... Nadamais absurdo que começar a ensinar a uma criança numa língua morta quem foi Fábio, rei dos Sabinos, ocaso dos Grachos, e outros negócios duma nação extinta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber o que é achuva que o molha, como se faz o pão que come, e todas as outras coisas do Universo em que vive...─ Mas enfim os clássicos, arriscou timidamente o abade.─ Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte.Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolverexclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. Aalma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande... […]
  2. 2. Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, num sinal ao Vilaça, mostrou-lhe o neto que palravainglês com o Brown. […][…] E o abade, depois de dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bela frase,arranjada em máxima:─Esta educação faz atletas, mas não faz cristãos. Já o tenho dito... […]O bom homem achava horroroso que naquela idade um tão lindo moço, herdeiro duma casa tãogrande, com futuras responsabilidades na sociedade, não soubesse a sua doutrina. […] Não, o Sr. Afonsoda Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas duma coisa não o podia convencer, a ele pobrepadre que nem mesmo o Porto vira ainda, é que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem amoral do catecismo.E Afonso da Maia respondia com bom humor:─ Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que se não deve roubar odinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, por que isso é contra os mandamentos dalei de Deus, e leva ao inferno, hein? É isso?...─ Há mais alguma coisa...─ Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por ser um pecado queofende a Deus, já ele sabe que se não deve praticar, por que é indigno dum cavalheiro e dum homem debem...─ Mas, meu senhor...─ Ouça abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude ehonrado por amor da honra; mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodo de ir parao reino do céu...[…]A viúva, D. Eugénia, […] tinha dois filhos, a Teresinha, a “noiva” de Carlos, uma rapariguinhamagra e viva com cabelos negros como tinta, e o morgadinho, o Euzebiozinho, uma maravilha muito faladanaqueles sítios.Quasi desde o berço este notável menino revelara um edificante amor por alfarrábios e por todas as coisasdo saber. Ainda gatinhava e já a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado numcobertor, folheando in-fólios, com o craniozinho calvo de sábio curvado sobre as letras garrafais de boadoutrina: depois de crescidinho tinha tal propósito que permanecia horas imóvel numa cadeira, deperninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhecadernos de papel, onde o precoce letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçaralgarismos, com a linguazinha de fora. […]Afonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, recomeçara a falar do Silveirinha.Tinha três ou quatro meses mais que Carlos, mas estava enfezado, estiolado, por uma educação àportuguesa: daquela idade ainda dormia no choco com as criadas, nunca o lavavam para não oconstiparem, andava couraçado de rolos de flanelas! Passava os dias nas saias da titi a decorar versos,páginas inteiras do Catecismo da Perseverança. Ele, por curiosidade, um dia abrira este livreco e vira lá “queo Sol é que anda em volta da Terra (como antes de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá asordens ao Sol, para onde há de ir e onde há de parar, etc., etc.,” (capítulo III)1. Explicite a opinião de Teixeira sobre o método pelo qual Carlos era educado e os argumentos queapresenta para se justificar.2. Aponte os argumentos apresentados por Afonso da Maia para demonstrar que a educação dascrianças não se deveria iniciar com o estudo do latim.3. Explique de que forma contrastam os pontos de vista de Afonso e do abade Custódio em relação àeducação religiosa de Carlos.4. Enuncie os pontos de contacto entre a educação de Pedro e a de Eusebiozinho.5. Identifique neste excerto marcas que comprovem que o narrador é irónico na descrição deEusebiozinho e da sua educação.6. Explicite as críticas tecidas por Afonso da Maia à educação de Eusebiozinho.7. Preencha o quadro tendo em conta o que leu sobre a educação:
  3. 3. Educação tradicional portuguesa(Pedro/ Eusebiozinho)Educação inglesa(Carlos)Aprendizagem de uma língua morta (latim). 12Aquisição de conhecimentos sobre “coisas práticas”,de modo a levar a criança a compreender o mundo quea rodeia.Baseada na memorização acrítica de informação. 34 De caráter laico: a criança é ensinada a amar a virtudee a honra.Superproteção da criança. 56 Valorização do exercício físico.BOM TRABALHO!!!!A PROFESSORA: Lucinda CunhaPROPOSTA DE CORREÇÃO( ficha e respostas retiradas do manual “Portugu~es 11º ano” da santillanaConstância, pp. 198-200):1. Teixeira não concordava com o método utilizado na educação de Carlos, afirmando que aquele eraeducado com excesso de disciplina e que o avô lhe permitia realizar atividades e aprender adesempenhar tarefas consideradas inadequadas para uma criança de origem fidalga.2. Na opinião de Afonso, não fazia sentido começar por ensinar a uma criança acontecimentos dopassado numa língua morta sem a fazer compreender primeiro a realidade que a rodeava. Alémdisso, também acreditava que a preparação inicial de uma criança deveria visar o seudesenvolvimento saudável a nível físico.3. O abade Custódio considerava que, tendo em conta a posição social de Carlos, era indispensávelque ele aprendesse a doutrina católica e que não era possível alguém ser feliz sem estesensinamentos. Em contrapartida, Afonso acreditava que era suficiente transmitir a Carlos a morallaica, ensinando-o a amar a virtude sem o objetivo de obter uma recompensa após a morte, algo emque ele não cria.4. Tal como sucedera com Pedro, também a educação de Eusebiozinho fora orientada para o saberlivresco, levando a criança a adquirir apenas conhecimento de caráter teórico. A ausência deexercício físico e a superproteção levaram-no a tornar-se uma criança passiva e apática em relação àrealidade circundante.5. A abundância de diminutivos é, desde logo, uma marca de ironia. Além disso, o facto de se afirmarque um dos indícios da sua boa educação era o facto de passar “horas imóvel numa cadeira (…)” eque “passava dias a traçar algarismos, com a linguazinha de fora” cria um efeito de cómico. Destaforma, os adjetivos e expressões que poderiam apontar para uma adesão do narrador a este tipo deeducação são, na realidade, usados de forma irónica.6. Afonso da Maia critica o facto de a educação portuguesa impedir o desenvolvimento das crianças anível físico, de as proteger em excesso (inclusivamente em detrimento da sua higiene) e de se basearnuma formação religiosa obsoleta.7. 1. Aprendizagem de línguas vivas (inglês); 2. Aquisição de conhecimentos ultrapassados,associados a uma visão obsoleta da doutrina religiosa; 3. Baseada na compreensão: incentivo aodesenvolvimento da curiosidade natural da criança; 4. De caráter religioso; 5. Incentivo à autonomiae ao contacto com o ar livre; rigor e disciplina; 6. Inexistência de atividade física.

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