Ficha formativa- os maias- as corridas no hipódromo

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Ficha formativa- As corridas no Hipódromo- Os Maias

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Ficha formativa- os maias- as corridas no hipódromo

  1. 1. Agrupamento de Escolas de Ribeira de PenaFICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA- OS MAIAS DE EÇA DE QUEIRÓSAs corridas do Hipódromo151015202530354045Diante deles, o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeiradaquente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já umpouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragemlarga e repousante chegava vagarosamente do rio.No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do sol, um magoteapertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, de onde sobressaíam tons claros desombrinhas, o faiscar dum vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos doislados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duastribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial. A da esquerdavazia, por pintar, mostrava à luz as fendas do tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azulclaro, havia uma fila de senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadaspelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, dum tomalvadio de madeira, que abafava as cores alegres dos raros vestidos de verão. Por vezes a brisa lentaagitava no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas. Um grande silêncio caía do céu faiscante.[…]No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a gente do Grémio, dasSecretarias e da Casa Havanesa; a maior parte à vontade, com jaquetões claros, e de chapéu coco;outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo a tiracolo, pareciam embaraçados e quasearrependidos do seu chic. Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças decigarro. Aqui e além um cavalheiro, parado, de mãos atrás das costas, pasmava languidamente paraas senhoras. Ao lado de Carlos dois brasileiros queixavam-se do preço dos bilhetes, achando aquilo«uma sensaboria de rachar.»Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados: e junto à corda, dooutro lado, apinhava-se o magote de gente, com as carruagens pelo meio, sem um rumor, numapasmaceira tristonha, sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoavaágua fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como o céu, numa pulverizaçãofina de luz. […]Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhandovagamente, como duma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêem no high-life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior partetinha vestidos sérios de missa. Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados àGainsborough, que então se começavam a usar, carregava duma sombra maior o tom trigueiro dumacarinha miúda. E na luz franca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apareciammurchas, gastas, moles, com um baço de pó de arroz.Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamentevestidas de xadrezinho: depois a viscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negroreluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna insuperável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia,com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, asbanqueiras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mão, a outra de pé ede binóculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal,desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada, em silêncio, Vilaça com duasdamas de preto.A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava também aquela que os olhos de Carlosprocuravam, inquietamente e sem esperança.- É um canteirinho de camélias meladas, disse o Taveira, repetindo um dito do Ega.Carlos, no entanto, fora falar à sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia momentos, ochamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã. Era a única senhora que ousaradescer do retiro ajanelado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ela disse,não aturara a seca de estar lá em cima perfilada, à espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bela
  2. 2. ainda sob os seus cabelos já grisalhos, só ela parecia divertir-se ali, muito à vontade, com os péspousados na travessa duma cadeira, o binóculo no regaço, cumprimentada a cada instante, tratandoos rapazes por meninos... Tinha consigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhoraespanhola, que seria bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. ApenasCarlos se sentou ao pé dela, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega. Esseaventureiro, disse Carlos, estava em Celorico compondo uma comédia para se vingar de Lisboa,chamada o Lodaçal...- Entra o Cohen? perguntou ela, rindo.- Entramos todos, Sr.ª D. Maria. Todos nós somos lodaçal...(Cap. X)1. Atenta à descrição do hipódromo (seis primeiros parágrafos).1.1.Sublinha todas as palavras e expressões indicadoras de cor e luz.1.2.Sublinha os casos em que a característica cromática ou luminosa do objeto (nome) surjaanteposta ao nome que o designa.1.3.Releva algumas expressões que conferem à descrição esbatimento translúcido, transpar~encia,falta de nitidez.1.4.Faz o levantamento de algumas hipálages.1.5.Considerando as características detetadas, avalia o caráter impressionista da descrição.2. Aguardadas com entusiasmo pela sociedade lisboeta que esperava um momento chic, as corridas decavalos à inglesa ficaram muito aquém das expetativas.2.1. Releva do texto expressões que mostrem a falta de elegância do espaço físico.2.2. Seleciona passagens reveladoras da inadequação dos fatos usados (ou demasiado sérios oudemasiado chiques).2.3. Sublinha agora as passagens que melhor traduzam a tristeza provinciana de um evento que seesperaria festivo e alegre.2.4. Recorda a confusão com que terminaram as corridas. Tendo em conta esse facto, bem como astrês respostas anteriores, propõe uma interpretação para a intencionalidade crítica e satíricadeste episódio da crónica de costumes.3. “Todos nós somos lodaçal”. São palavras de Carlos a propósito do título da peça que Ega querescrever.• Comenta-as, do ponto de vista da dimensão crítica de Os Maias.BOM TRABALHO!!!!A PROFESSORA: Lucinda CunhaPROPOSTA DE CORREÇÃO (ficha e proposta de correção retiradas do manual “Plural 11” da LisboaEditora, p. 221):1.1. reverberação da cal, relva já um pouco crestada pelo sol, vermelhejando, verde, negrejava, brilho do sol, tonsclaros, faiscar dum vidro de lanterna, branco, vermelho, por pintar, luz azul claro, escuro, tom alvadio, cores
  3. 3. alegres, azul, faiscante, lampejando ao sol, branco, claros, sol, faiscava, azul, azul, luz, sombra, tom trigueiro,luz.1.2. "cruas reverberações”; “leves fumaraças”; “o azul das bandeirolas”.1.3.“poeirada quente”; “faiscar dum vidro de lanterna”; “leves fumaraças de cigarro”; “pulverização fina de luz”.1.4.com passos lentos; voz dolente.1.5.É uma descrição fortemente impressionista.2.1. “dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duas tribunaspúblicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial. A da esquerda vazia, por pintar,mostrava às luz as fendas do tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azul claro.”2.2. “uma fila de senhoras quase todas de escuro”; “as cores alegres dos raros vestidos de verão”; “metido dentrodum enorme colete (…) que lhe chegava até aos joelhos”; “outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo atiracolo, pareciam embaraçados e quase arrenpendidos do seu chic”; “A maior parte tinha vetsidos sérios demissa”; “a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias”.2.3. “Aqui e além (…) uma sensaboria de rachar”; “numa pasmaceira tristonha”; “numa fila muda, olhandovagamente, como duma janela em dia de procissão”.2.4. Este episódio visa criticar o provincianismo e atraso português, com vontade de imitar oestrangeiro, mas fazendo-o de uma forma parola e desajeitada.3. É o país todo que tem que ser criticado, ou, pelo menos, a elite social. Segundo Carlos, é esse o“lodaçal”.

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