Ficha formativa- memorial do convento

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Ficha formativa sobre Memorial do Convento- José Saramago- corrigida.

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Ficha formativa- memorial do convento

  1. 1. Agrupamento de Escolas de Ribeira de PenaFICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA- MEMORIAL DO CONVENTO DE JOSÉ SARAMAGO151015202530354045Tornou o padre aos estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarda, enquanto Baltasarchega os ferros à forja e os tempera na água, enquanto Blimunda raspa as peles trazidas doaçougue, enquanto ambos cortam o vime e trabalham a bigorna, segurando ela a lamela com atenaz, batendo ele o malho, e têm de entender-se muito bem para que não se perca nenhumapancada, ela apresentando o ferro rubro, ele desferindo o golpe certo, em força e direção, nemprecisam falar. Assim foi o inverno passando, assim a primavera, algumas vezes veio o padre aLisboa, chegava, guardava na arca as esferas de âmbar amarelo que trazia sem dizer donde,perguntava pelas vontades, olhava por todos os lados a máquina que ganhando dimensão e forma,a ponto de exceder o que era quando Baltasar a desmanchou, enfim dava conselhos e avisos, eregressava a Coimbra, às decretais e aos decretalistas, agora deixara de ser estudante, já estavalendo nas aulas, Iuris ecclesiastici universi libri tre, Colectanea doctorum tam veteram quamrecentiorum in ius pontificum universum, Reportorium iuris civilis et canonici, et coetera, porém nadaem que estivesse escrito, Voarás.Aí está Junho. Corre por Lisboa a não fausta notícia de que este ano a procissão do Corpo deDeus não trará as antigas figuras dos gigantes, nem a serpente silvante, nem o dragão flamejante, eque não sairão as tourinhas, e também não haverá danças da cidade, nem marimbas, nemcharamelas, e não virá o rei David dançando adiante do palio. Pergunta-se então o povo queprocissão vem a ser essa, se não podem sair os foliões da Arruda atroando as ruas com o seupandeiro, se estão as mulheres de Frielas proibidas de dançar a chacoina, se também não darão adança das espadas, se não saem castelos, se não tocam a gaita e o tamboril, se não vêm brincandoos sátiros e as ninfas os encobertos modos doutra brincadeira, se não se faz mais a dança daretorta, se não navegará aos ombros de homens a nau de S. Pedro, que procissão teremos, quegosto nos vão tirar, ainda se nos deixassem o carro dos hortelões, não tornaremos o ouvir o silvo daserpe, meu primo, que toda me arrepiava quando ela passava assobiando, nem sei explicar astremuras que sentia, ai.Desce o povo ao Terreiro do Paço, a ver os preparos da festa, e não está mal, não senhor,com esta colunata de sessenta e uma colunas de catorze pilares, que não têm menos de oito metrosde altura, e em extensão excede o arranjo os seiscentos metros, só de frontispícios são quatro, enão têm conto as figuras, os medalhões, as pirâmides e mais ornatos. Começa o povo a apreciar onovo aparato, que por aqui se não fica, basta olhar essas ruas, todas toldadas, e os mastros quesustentam os toldos são enfeitados de seda e ouro, e os medalhões, que dos ditos toldos sedependeram, dourados, tendo de um lado o Sacramente entre resplendores e do outro o brasão dopatriarca, isto uns, quanto aos outros, levam os brasões do Senado da Câmara, E as janelas, olha-me estas janelas, tem razão quem o disse, regalam-se os olhos nas cortinas e sanefas de damascocarmesim, franjado de ouro, Nunca tal víramos, já o povo se está meio conformando, tiraram-lheuma festa, outra lhe darão, não é fácil decidir com qual delas se perde ou se ganha, se calhar éconsoante, por alguma razão disseram já os ourives do ouro que vão iluminar todo o arruamento, etalvez seja por razão igual que estão cobertas de sedas e damascos as cento e quarenta e novecolunas dos arcos da Rua Nova, porventura serão maneiras de vender, hoje assim, amanhã pior.Passa o povo, chega ao fim da rua e volta, mas não estende, sequer, a ponta dos dedos para tocartantas riquezas de panos, contenta-se com espairecer os olhos neles e nos outros de rás queenfeitam as lojas debaixo dos arcos, parece que vivemos no reino da confiança, porém cada lojatem seu escravo preto à porta, de pau numa mão e espadim na outra, se alguém se atrever levauma varada pelos lombos, e se a ousadia for a mais, não tardam aí os quadrilheiros, já não usamviseira nem elmo, nem escudo trazem, mas, dizendo o corregedor, Alto, para o Limoeiro, queremédio senão obedecer e perder a procissão, talvez por isto é que não haja muitos furtos no Corpode Deus. (SARAMAGO, José, Memorial do Convento)
  2. 2. 1. Delimita, de acordo com o conteúdo do excerto, as duas partes distintas que o constituem. Justificaa tua resposta.2. Atenta no primeiro parágrafo.2.1. Insere-o na estrutura interna da obra.2.2. Cada elemento do trio apresentado tem a sua função.2.2.1. Neste excerto, quais são as funções de Baltasar e Blimunda?2.2.1.1. Mas a maior importância de Blimunda no projeto vai ser outra. Explicita-a.2.2.1.2. Demonstra a presença, neste excerto, de marcas de cumplicidade que existeentre o casal Baltasar/Blimunda, verificável também ao longo da obra.3. Ainda no primeiro parágrafo, o advérbio conectivo “porém” (l. 12) introduz uma ideia que estabeleceuma relação de contraste com a ideia anterior. Explicita as duas.4. Identifica os tempos e os espaços presentes no texto.5. Identifica sinais de fausto, ostentação e exagero presentes na descrição da procissão.6. Indica a tipologia textual dominante no terceiro parágrafo. Justifica essa dominância.7. Constata a presença de contrastes sociais (riqueza/ pobreza) no excerto.8. Identifica, no excerto apresentado, um exemplo de discurso direto livre.BOM TRABALHO!!!A PROFESSORA: Lucinda CunhaPROPOSTA DE CORREÇÃO (ficha de trabalho e proposta de correção retiradas do livro “Exercícios dePortuguês, 12º ano”, de Ana Casimiro e Fernanda Lamy, da Asa)1. Pode-se dividir o excerto em duas partes distintas, sendo o primeiro parágrafo a primeira parte e ossegundo e terceiro parágrafos a segunda parte. Na primeira parte são apresentados algunspormenores relativos ao fabrico da passarola, como seja a divisão de tarefas e informações acercado passar do tempo. A segunda parte é dedicada à procissão do Corpo de Deus, são-nosapontadas diferenças entre esta e as procissões dos anos anteriores.2.1. O primeiro parágrafo, na estrutura interna da obra, insere-se na fase da construção dapassarola, por Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu de Gusmão.2.2.1. Neste excerto, Baltasar e Blimunda dedicam-se à construção da estrutura física da máquinavoadora.2.2.1.1. Blimunda vai ser quem recolhe as vontades das pessoas, vontades essas que servirão de“combustível” para que a máquina possa efetivamente voar.2.2.1.2. Neste excerto, como em toda a obra, é-nos apresentado um casal cúmplice, em sintonia dedesejos e sentimentos. Prova dessa sintonia é o modo como eles desempenham, no excerto emquestão, tarefas físicas da construção da máquina em que há, mesmo sem serem precisaspalavras para combinar/ preparar os movimentos, uma perfeita sincronização dos mesmos, comose pode verificar no excerto “segurando ela a lamela com a tenaz, batendo ele o malho, e têm deentender-se muito bem para que não se perca nenhuma pancada” (ll. 3-5).3. O advérbio conectivo na expressão “porém nada em que estivesse escrito, Voarás.” (l. 12)introduz uma ideia de oposição, presente em toda a narrativa, entre os valores defendidos pela Igreja, etudo o que ela representa na obra (ideias retrógradas, fechamento a ideias novas e diferentes), e ossonhos e desejos do padre Bartolomeu de construir uma máquina para voar.4. Tempo da historia: inverno, primavera, junhoTempo do discurso: no primeiro parágrafo verifica-se um resumo;Espaço físico: Lisboa, Coimbra;Espaço social: não representando o espaço social da procissão, há já algumas marcas do mesmo,nomeadamente do ponto de vista da representação do povo.5. Existem marcas de fausto, ostentação e exagero na descrição dos preparativos para aprocissão, veja-se: “colunata de sessenta e uma colunas de catorze pilares, que não têm menos de oito
  3. 3. metros de altura, e em extensão excede o arranjo os seiscentos metros, só de frontispícios são quatro, enão têm conto as figuras, os medalhões, as pirâmides e mais ornatos.” (ll. 27-29); “os mastros quesustentam os toldos são enfeitados de seda e ouro, e os medalhões, que dos ditos toldos se dependeram,dourados” (ll. 30-32).6. Verifica-se a predominância do texto descritivo. Assim, verifica-se a existência de enumerações(“as figuras, os medalhões, as pirâmides e mais ornatos” l. 29); uso de verbos de estado (“está”-l. 26-“têm”- l.27);… a dominância desta tipologia justifica-se pelo facto de o narrador estar a apresentar aprocissão, ou melhor, os preparativos para a procissão; ao querer dar uma panorâmica da cidade deLisboa aquando da preparação para este evento, o narrador recorre à tipologia que melhor serve essepropósito - o texto descritivo.7. Para começar, verificam-se estes contrastes no deslumbramento do povo face ao que vê; alémdisso, no meio de tanta opulência e riqueza, encontramos, em cada loja, um “escravo preto à porta, de paunuma mão e espadim na outra” (l. 43).8. “Pergunta-se então o povo que procissão vem a ser essa, se não podem sair os foliões da Arrudaatroando as ruas com o seu pandeiro, se estão as mulheres de Frielas proibidas de dançar a chacoina, setambém não darão a dança das espadas, se não saem castelos, se não tocam a gaita e o tamboril, se nãovêm brincando os sátiros e as ninfas os encobertos modos doutra brincadeira, se não se faz mais a dançada retorta, se não navegará aos ombros de homens a nau de S. Pedro, que procissão teremos, que gostonos vão tirar, ainda se nos deixassem o carro dos hortelões, não tornaremos o ouvir o silvo da serpe, meuprimo, que toda me arrepiava quando ela passava assobiando, nem sei explicar as tremuras que sentia,ai.” (ll. 17-25)

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