Cordel adolescente, ô xente!

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Em Cordel Adolescente, Ó Xente! Doralice, de 13 anos, é uma contadora de histórias em cordel. Ela retrata a primeira desventura amorosa de Bertulina, que se apaixona por um cangaceiro

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Cordel adolescente, ô xente!

  1. 1. CORDEL ADOLESCENTE, Ô XENTE! Sylvia Orthof
  2. 2. Sou mocinha nordestina, meu nome é Doralice, tenho 13 anos de idade, conto e reconto o que disse, pois me chamo Doralice, sou eu quem vende meu cordel nas feiras lindas de longe onde a poesia se esconde nas sombras do meu chapéu!
  3. 3. Eu falo tudo rimado no adoçado da palavra no Nordeste feiticeiro; no meu jeito brasileiro, aqui vim dizer e digo que escrevo muito livro que pinduro num cordel, todo fato acontecido eu coloco num papel!
  4. 4. Vim pra feira, noutro dia, armei a minha poesia num cordel de horizonte. Que passava defronte daquilo que eu vendia, parava e me escutava, pois sou mocinha falante, declamava o que escrevia!
  5. 5. Contei de uma garota que amava um cangaceiro, era um tal cabra da peste, um valentão do Nordeste que montava a Ventania, trazia susto e coragem por cada canto que ia! Virge Maria!
  6. 6. O nome da tal mocinha? Não digo...é um segredo, escrevo o que não devo, invento, pois tenho medo, de contar que a tal menina era...toda fantasia.
  7. 7. Era moça que esconde a tristeza na alegria morava no perto-longe daquilo que nunca digo seu nome era antigo... era...talvez...Bertulina... Quem sabe da tal menina?
  8. 8. Um dia de azul e noite, pernoite de cavalgada, na sombra, muito assustada, Bertulina viu o moço que, ao longe, galopava! Ó Xente! O luar se balançava num cordel adolescente!
  9. 9. O vento corria tanto Espanto: não alcançava a ligeireza perfeita que o galope desenhava!
  10. 10. Era um cabra cangaceiro, curtido e sertanejo, tinha olhos de lonjuras, verduras de olhar miragens, chapéu de couro, facão de abrir caminhos, viagens!
  11. 11. Tinha estrelas faiscantes, nos dentes do seu sorriso... Ai...me calo...quase falo!... Ó xente...perco o siso!
  12. 12. Nos cascos do seu cavalo tinha trovão e faíca, fósforo que queima e risca o escuro que ilumina a paixão em Bertulina.
  13. 13. O moço chegou, chegado, sorriu sua belezura, saltou fora do cavalo (vontade ninguém segura), roubou um beijo da boca de Bertulina, a donzela. Depois de assaltar o beijo, perguntou o nome dela.
  14. 14. - Eu me chamo Bertulina, moço, estou muito assustada, sou tão moça, inda menina, nunca antes fui beijada... O senhor me assaltou, não deu tempo pra mais nada... eu não sei o que faço, minha boca está molhada como orvalho da flor... Será que seu beijo, ó moço, em mim pousou... namorou? Será que o gesto louco teve um pouco de amor?
  15. 15. - Não sei se é fato ou fita, não sei se é fita ou fato, o fato é que você me fita, me fita mesmo de fato... - Respondeu o cangaceiro em brincadeira e risada, pulou sobre seu cavalo e partiu em galopada.
  16. 16. A lua tremeu nos olhos de Bertulina, em lágrimas... A mocinha ficou louca de gosto de amor partido no alto do céu da boca! Nem sabia que o amor podia ser cangaceiro, podia sonhar desejo roubando o beijo primeiro!
  17. 17. Porque o primeiro beijo é coisa muito esperada: tem que ser algo manso, remanso, lagoa d'água. Tem que ter um certo tempo, coragem não revelada, um perfume de jasmin, um não se esqueça de mim...
  18. 18. Quando numa noite quente a lua ficou inchada o cavaleiro voltou. Bertulina espiava dentro de uma paixão. O moço viu Bertulina e roubou outro beijo, foi aí que a mocinha falou assim para o rapaz:
  19. 19. - Antes de querer meu beijo, por favor, moço, me diga, se o beijo é verdadeiro ou se é ousadia de cangaceiro!
  20. 20. Eu me chamo Doralice Bertulina do Sertão, comigo só tem poesia se rimar no coração.
  21. 21. Aprendi uma verdade e verdade não se esquece: tudo aquilo que se aceita... pois é, a gente merece!

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