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INTRODUÇÃOExiste uma infinidade de definições e conceitos sobre a arte. Na perspectiva dosfilósofos, Platão considera-a "o...
1. Psicologia e Arte“Na literatura, percorro a mesma estrada sobre a qual Freud avança com umatemeridade de surpreender na...
Clarice Lispector declara que a arte possibilita que se compreenda melhor astransformações pelas quais o ser humano passa....
Museu de Imagens do InconscienteA crítica da produção de artistas profissionais costuma reforçar no público certomodo de v...
Obra de Adelina GomesMoça pobre, filha de camponeses, nasceu em 1916 na cidade de Campos (RJ). Fez ocurso primário e apren...
Dedicou-se também à pintura e à confecção de flores de papel, tornando-se uma pessoadócil e simpática, sempre concentrada ...
Octávio nasceu em 1916 no estado de Minas Gerais. Instrução Primária. Conseguiudurante tempo bastante longo reprimir pulsõ...
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Carlos desceu vertiginosamente à esfera das imagens arquetípicas, dos deuses, dosdemônios. Produziu com intensidade cerca ...
Esse trabalho nos permitiu observar que a arte pode estar a serviço do doente oudo tratamento da expressão desse sujeito c...
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Psicologia e arte nos processos de criação

  1. 1. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SULFACULDADE DE PSICOLOGIADISCIPLINA DE PSICOLOGIA SOCIAL IIPSICOLOGIA E ARTELuciano SouzaLucianosouza77@hotmail.co.ukPorto Alegre, 19 de novembro de 2008
  2. 2. INTRODUÇÃOExiste uma infinidade de definições e conceitos sobre a arte. Na perspectiva dosfilósofos, Platão considera-a "o esplendor do verdadeiro", Aristóteles descreve-a como"a ordem e a harmonia das partes" e para Leibniz "arte é a perfeição". Dessa forma,sabe-se que a arte tem sido uma forma de expressão do homem servindo como um jeitodeste registrar sua história.Sendo tão importante como a arte tem se mostrado ser, a psicologia tem tentadotambém usá-la para entender o funcionamento psíquico. Em Escritos Criativos eDevaneios, Freud (1908) compreende a obra de arte como substituto do que foi obrincar infantil, uma vez que aproxima o artista – o escritor criativo – da criança que, aobrincar cria um mundo próprio reajustando seus elementos de uma forma que lheagrade, mantendo assim uma nítida separação entre seu mundo de fantasia e a realidade.Sabe-se que alguns hospitais psiquiátricos usam a pintura, entre outras formasde arte, para dar espaço para seus pacientes se expressarem. Pesquisas nesta área aindasão escassas. No entanto, cada vez mais tem se dado importância para novas maneirasse de promover a saúde e de se compreender o doente mental. O presente trabalhobusca, portanto, trazer exemplos de como a arte, em especial a pintura, pode colaborarpara que o doente mental se expresse, sabendo da dificuldade de se usar uma linguagemverbal e convencional com os mesmos.Para tanto, será usado três casos de pacientes de um ateliê de pintura instaladonum hospital psiquiátrico.
  3. 3. 1. Psicologia e Arte“Na literatura, percorro a mesma estrada sobre a qual Freud avança com umatemeridade de surpreender na ciência. Entretanto, ambos, o poeta e o psicanalista,olham através da janela da alma”.Arthru SchnitzlerA palavra arte vem do latim – ars, artis – raiz que originou artefato, artesão eartifício. Com o passar do tempo começou a se distinguir o fazer com arte do fazertécnico, uma produção com função meramente contemplativa, percebidasensorialmente, diferenciando-se do objetivo puramente utilitário (Read, 1978).Langer define a obra de arte como “uma forma expressiva criada para nossapercepção através dos sentidos ou imaginação, e o que expressa é o sentimentohumano”. Toda obra de arte expressa os ritmos de um mundo interno pouco acessível àlinguagem discursiva. Esse mundo vital trás, subjacente a si, o ritmo, uma condiçãoessencial da vida.Estética é o que trata substancialmente do fenômeno artístico. Do grego – arns –thétiké, ainsthásism – significando sensação ou percepção. Aisthetikós é o que sente,que compreende, “sensível”. A quantidade estética não é necessariamente o prazer dacontemplação do belo, mas também do feio (Read, 1978).Um contraponto é apresentado por Saldanha. Na expressão de pensamento belo,isto é pensamento capaz de despertar sentimento agradável, no sentido de gozo estético,encontra-se o conceito artístico. Arte é por tanto a produção da beleza. Ciência da arte éa análise psicológica do belo tomado em seu sentido mais limitado.Segundo Hauser (1998) se há uma explicação psicológica universalmente válidapara o impulso criador de obras de arte, não poderá começar a partir de outra coisa a nãoser esta tentativa de recuperar zonas perdidas ou esquecidas da vida consciente. Bolla(1992), ao tratar a questão do trauma e sua transformação em arte, sugere que umindivíduo pode lutar contra constelações interiores traumáticas e, por transformações dotrauma em obras de arte, alcançar certo domínio sobre seus efeitos.
  4. 4. Clarice Lispector declara que a arte possibilita que se compreenda melhor astransformações pelas quais o ser humano passa. A arte “é uma espécie de espelhomágico. Neste aspecto tem muito a ver com a psicologia, que é a arte de se investigar”.Afirmação análoga é feita por Camile Claudel “a arte é um retorno para dentro de sipróprio”. Isso remete ao que Kon (1996) descreve como a aproximação do espaço “psi”com o ato criativo, criam-se realidades inéditas, constroem-se as singularidades pelofazer artístico. Por assim dizer, novas territorialidades.
  5. 5. Museu de Imagens do InconscienteA crítica da produção de artistas profissionais costuma reforçar no público certomodo de ver que reconhece como arte aquilo que se diz arte, que se mostra em museus egalerias e que opera com códigos e meios de expressão consolidados. Nessa medida,trabalhos que por ingenuidade, ignorância ou resistência obstinada, não recorrem a essescódigos, obras singulares freqüentemente feitas em segredo para encantamento solitáriode seus próprios criadores, dispensando o aplauso de qualquer destinatário, ao ocuparlugar de honra num espaço cultural podem, às vezes, despertar no espectador um "olharcondescendente" que acaba por lhes conferir o estatuto de arte marginal. No entanto, ascoisas não são tão simples. Quando uma "produção desse gênero" migra de um lugarsinistro como o hospício, onde foi gerada durante anos, para o espaço branco de ummuseu de arte, onde fica exposta à visitação, o espectador poderá se surpreender com ovisível se, por acaso, vier a pensar não apenas naquilo que vê mas, sobretudo, no modocomo vê.O Museu de Imagens do Inconsciente teve origem nos ateliês de pintura e demodelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional, organizada por Nise da Silveira em1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II. Aconteceu que a produção desses ateliês foi tãoabundante e revelou-se de tão grande interesse científico e utilidade no tratamentopsiquiátrico que pintura e modelagem assumiram posição peculiar.Daí nasceu a idéia de organizar-se um Museu que reunisse as obras criadasnesses setores de atividade, a fim de oferecer ao pesquisador condições para o estudo deimagens e símbolos e para o acompanhamento da evolução de casos clínicos através daprodução plástica espontânea.A experiência mostra a forma com que a arte, mais especificamente a pinturapode ser utilizada pelo doente mental como um verdadeiro instrumento para reorganizara ordem interna e ao mesmo tempo reconstruir a realidade. Sendo muitas vezes difícilusar a linguagem verbal para se comunicar com doentes psíquicos, a arte entra comouma grande aliada servindo assim como forma de expressão. A seguir, exemplos depacientes que usaram a arte como intermédio para se comunicarem:Pacientes do ateliê de pintura de Nise da Silveira:
  6. 6. Obra de Adelina GomesMoça pobre, filha de camponeses, nasceu em 1916 na cidade de Campos (RJ). Fez ocurso primário e aprendeu variados trabalhos manuais numa escola profissional. Eratímida e sem vaidade, obediente aos pais, especialmente apegada à mãe. Aos 18 anosapaixona-se por um homem que não é aceito por sua mãe. Tornou-se cada vez maisretraída, sendo internada em 1937, aos 21 anos. Segundo depoimento de AlmirMavignier "agressiva e perigosa esta foi a descrição que recebemos dela e queaconselharia a não aceitá-la no ateliê. Interessado, porém, nas bonecas que ela fazia nohospital, fui buscá-la num dia chuvoso, protegendo-a com um guarda-chuva. Estaatenção, tão normal, naquelas circunstâncias deve ter contribuído para conquistar suaconfiança. Apesar de sua atitude agressiva, negativista, não houve dificuldade para queaceitasse pintar quando começou a freqüentar o ateliê de pintura da Seção deTerapêutica Ocupacional em 1946. Inicialmente dedica-se ao trabalho em barro,modelando figuras que impressionam pela sua semelhança com imagens datadas doperíodo neolítico.Na sua pintura ponde-se acompanhar passo a passo as incríveis metamorfoses vegetaisque ela vivenciou, originando famoso estudo da Dra. Nise da Silveira, comparando-ascom o mito de Dafne.
  7. 7. Dedicou-se também à pintura e à confecção de flores de papel, tornando-se uma pessoadócil e simpática, sempre concentrada em suas atividades, produzindo com intensa forçade expressão cerca de 17.500 obras.Adelina faleceu em 1984. Sua produção plástica, e as importantes pesquisas daídesenvolvidas pela Dra. Nise ao longo de muitos anos, tornaram-se objeto deexposições, filmes documentários e publicações.Obras de Octávio Ignácio
  8. 8. Octávio nasceu em 1916 no estado de Minas Gerais. Instrução Primária. Conseguiudurante tempo bastante longo reprimir pulsões homossexuais. Casou-se, teve um filho.Sua profissão de serralheiro, trabalho que lida com ferro e fogo, implica em afirmaçãode masculinidade.Mas no carnaval de 1950 ocorreu-lhe fantasiar-se vestindo roupas femininas. Diante doespelho, vendo-se naquele travesti, Octávio foi tomado de súbita e frenética excitação.Resultado: internação, quarto forte. Sua folha de observação clínica registra violentaexcitação psico-motora, idéias delirantes de perseguição; diagnóstico: esquizofrenia.
  9. 9. Seguem-se mais 12 reinternações, sendo a última em dezembro de 1966. Octávio vemfreqüentar, em regime de externato, o atelier de pintura do Museu. Somente umareinternação ocorreu, desde que ele pratica as atividades expressivas de desenho epintura.O problema crucial de Octávio é o conflito entre os opostos básicosmasculino/feminino, de onde irrompem intensos desejos Muitos de seus desenhosrevelam este drama em um nível próximo à consciência, quando os opostos assumemforma humana. Aparecem sob a forma de casais em luta ou de seu corpo masculinoadquirindo características femininas. No caso de Octávio a supremacia do feminino nãoé aceita, ao contrário do que aconteceu no famoso caso Schreber, estudado por Freud.Raramente Octávio se rende. Sente-se ameaçado, percebe dentro de si mesmo a força dofeminino, mas apesar disso, luta para que o princípio masculino não seja completamentevencido.Sob a pressão desse violento conflito a psique cindiu-se. Cindiu-se mas não se anulou.O dinamismo das forças inconscientes é constante - instintivamente desenvolve-se umprocesso no sentido de promover reconciliação entre esses opostos em guerra. Nalinguagem arcaica das imagens simbólicas, deu forma às tumultuosas emoções queabalavam sua psique, despotencializando suas forças, bem como as tentativas instintivaspara saída do impasse em que se encontrava. Configura então o pássaro de duascabeças, símbolo do hermafrodita, de união de opostos, segundo representaçõesencontradas em tratados de alquimia.O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da criação das imagenssimbólicas. Jung diz que "o símbolo é o mecanismo psicológico que transformaenergia." Assim, a objetivação de imagens simbólicas no desenho ou na pintura poderápromover transferências de energia de um nível para outro nível psíquico. A imagemnão é algo estático. Ela é viva, atuante e possui mesmo eficácia curativa. Suas melhorasclínicas comprovam essa afirmação.Obras de Carlos Pertuis
  10. 10. Carlos nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de dezembro de 1910. Seus avós eram franceses,bem como seu pai que veio ainda menino para o Brasil. Foi o único filho homem dafamília, havendo três irmãs. Era muito apegado a mãe. Era de estrutura física frágil,psicologicamente imaturo. Uma natureza sensível e religiosa. Sua instrução eraprimária, entretanto gostava de ler. Com a morte do pai, deixou de estudar e foitrabalhar numa fábrica de sapatos.Certa manhã, raios de sol incidiram sobre um pequeno espelho de seu quarto: brilhoextraordinário deslumbrou-o, e surgiu diante de seus olhos uma visão cósmica - "OPlanetário de Deus”, segundo suas palavras. Gritou, chamou a família, queria que todosvissem também aquela maravilha que ele estava vendo.Foi internado no mesmo dia no velho hospital da Praia Vermelha, em setembro de 1939.Tinha então 29 anos.Em 1946, veio freqüentar o ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional, trazido porAlmir Mavignier, que soube que ele guardava em caixas de sapatos na enfermaria,desenhos que fazia.Carlos amava o museu, o ateliê de pintura, a oficina de encadernação. Aí passava o diainteiro, aí se sentia em sua casa. No museu conserta tacos soltos, verifica no fim doexpediente se as janelas estão fechadas. Esses fatos surpreendiam e eram comentados nohospital, dada a expressão verbal de Carlos ser praticamente ininteligível. O grandenúmero de neologismos tornava ainda mais difícil a compreensão da sua linguagem.
  11. 11. Carlos desceu vertiginosamente à esfera das imagens arquetípicas, dos deuses, dosdemônios. Produziu com intensidade cerca de 21.500 trabalhos - desenhos, pinturas,modelagens, xilogravuras, escritos - até sua morte em 21 de março de 1977.Participou de diversas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior. Suavida e obra foram registradas no filme de Leon Hirszman "A Barca do Sol".CONCLUSÃO
  12. 12. Esse trabalho nos permitiu observar que a arte pode estar a serviço do doente oudo tratamento da expressão desse sujeito com problemas mentais a fim de atingir umestado saudável pra si mesmo. Por muito tempo essas pessoas ficaram sem voz devido asua condição. Com a arte, eles podem voltar a se expressar.Para que se possa entender a essência da arte, há que se estudar com olhosinternos aquilo que não está visível e que nem sempre é reconhecido intelectualmente.A obra de arte toca por ter vida, ela sustenta sonhos e tentações. A função do processode criação pode ser entendida como a possibilidade de resgatar metaforicamente arealidade através da inscrição da pulsão no psiquismo. Quando essa força é submetidaao trabalho de ligação e simbolização, capacita o artista a dotar de significado sua obraou experiência criativa. Dessa forma, pode-se compreendera doença psíquica como umaespécie de desencadeante do imaginário e consequentemente, do ato de criar. O artistacom doença psíquica pode estar buscando a construção de si próprio nas suasmanifestações artísticas e, a partir do momento em que se expõe a admiração doespectador, realizar uma tentativa de se constituir através do olhar do outro. Ocorre aí abusca incessante do viver criativo e da capacidade de se gerar obras de arte, quer sejamessas obras telas, esculturas, livros ou até mesmo músicas. No entanto, a história dessesartistas transcende para o fato de que o processo de criação está relacionado com asatisfação da necessidade humana de expressar-se transmitindo assim suas emoções epensamentos mais profundos através dos símbolos intrínsecos em suas obras de arte,transformando seus sentimentos em algo concreto e sofrimentos em grandes apreciaçõescom significados únicos.Criar é mais do que expressar. É tornar possível a maior de todas as obras dearte: a própria vida. Sendo assim, obra de arte sempre transcende a si mesma, assimcomo o homem transcende infinitamente o homem.

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