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LOUS

RONDON
O Jornalista Assassino

1
Capítulo I
A relação entre seres humanos está fadada ao desacordo.
Tecnologia de consumo sempre causou ao pobre a ilusão de riqueza.
Há anos admito o meu fracasso em desenvolver boa convivência com a
sociedade. De portas fechadas para qualquer outra possibilidade de trocar de papel
nesta casta, assumi o que realmente nasci com a missão de cumprir.
Nunca fui senão um estereótipo rebelde. Que lutou até o último momento para
não fazer o que pediram-me. Sendo agora tarde demais para outras reflexões, tratei
de utilizar com extremo e zeloso cuidado a minha mente moralmente desequilibrada a
fim de planejar o assassinato dos meus colegas de trabalho.
Porém não me entendam mal. Não foi por nenhum motivo pseudoaltruísta, ou
pseudoanárquico, embora no começo pode parecer. A razão foi a mais ingênua e
romântica possível. A cretinice dos meus amigos retardados fez com que eles
abusassem diariamente da minha capacidade de discernimento, e sem bons critérios,
julgaram e presumiram que eu nunca poderia ser o que a minha carcaça não evidencia,
isto é, como dizia Pessoa, “gostaria de apresentar no exterior a qualidade dos meus
pensamentos.”
Culpem a Maria! Pelos encantadores e brilhantes olhos verdes, que refletiam
toda a minha vontade e transparecia a gentileza do seu carinhoso coração. Pelo
formato elegante de seu queixo abaixo dos simétricos dentes incisivos que ao
demonstrar o grande e feliz sorriso contagiava com total efetividade os que poderiam
vê-lo! Ah! Culpem a estatura mediana e o quadril delicadamente desenhado com
perfeição até nas imperfeições... que bela expressão... se eu puder repetí-la, por favor,
permitam-me, pois Maria era perfeita mesmo em seus defeitos que serviam somente
para caracterizar seu aspecto humilde.
Sinceramente gostaria de pô-la numa caixa de vidro. Para poder admirá-la
sempre que quisesse. Sempre que precisasse de consolo ou inspiração! Embora este
meu gosto pelo voyeurismo tenha sido criado pela impossibilidade de possuí-la,
também contribuiu o amor platônico e a minha contínua procura por Deus!, o que é a
natureza, senão a prova da existência Dele?, e obviamente a mais alta demonstração
de beleza, não seria para ser admirada como a qualidade mais sagrada no mundo?
Sou apenas número numa estatística de pobreza, violência e analfabetismo.
Meus conhecimentos jamais ultrapassarão o que está guardado em livros. Estes são
artigos de controle da educação. Uma barreira, e fronteira que pessoas como eu jamais
atravessarão. O pobre está limitado a livros.
Capítulo II
Os filhos deveriam servir a sociedade, de forma que prosperem e fortaleçam a
2
cultura, não para ser usados como escravos a pais fracassados. Esperar a morte é um
saco.
É estranhíssimo o poder de refletir a luz da pele de Maria! Diria, se houvesse
uma maneira de medir esta capacidade, estar próxima a cem por cento. Na cadeira ao
meu lado, ela olha meu texto de maneira séria, pelo menos finge. Seus pensamentos
devaneam em problemas pessoais. Termina com um singelo “bom.” A expressão do
seu rosto, é lividamente elegante, a gentileza é óbvia, e a todo tempo os músculos
faciais parecem querer se esticar num sorriso, está preparada para isso!, pero nada
fazem, está relaxada, cansada e tenta cumprir suas obrigações... tantas, ser mãe é
exaustivamente feliz.
Como se as qualidades não tivessem fim, ela planeja a confraternização de fim
de ano. Mestre em simpatia não conheço quem não a adore. Meu pensamento
pertinente de querer aparecer a ela elabora uma vaga ideia quanto a esta festa,
contarei mais tarde. Pedi licença, e ela deixou-me sair.
Ao tomar o ônibus para casa, o motorista me interroga,
“Primeira vez que faço essa linha, pode explicar-me em que rua entro?”
Fui responder quando uma mulher gorda desesperou-se, intrometendo na
conversa,
“O senhor vira ali na rua depois da igreja.”
Deixei que ela ensinasse o caminho a ele. Não faço questão e nem tenho senso
de direção apesar de pegar aquela linha todos os dias. Se alguém precisar de alguma
informação, por favor, pergunte a uma mulher! Elas olham tudo ao seu redor, observam
e intrometem-se sempre que surge oportunidade. Eu vejo pouco, minha vista é curta,
meus pensamentos mais longos, a rotina deixa meu corpo mover-se mecanicamente
como hábito. Enquanto fecho-me do exterior e penso em mim mesmo.
Depois de alguns minutos o ônibus está cheio, assenta-se ao meu lado uma loira
de pouca idade, extremamente gostosa. O short curtíssimo exibe uma bela tatuagem
preta e branca de uma áncora na excitante e claríssima coxa direita. Não consigo
deixar de mirar, e para disfarçar digo que tenho uma igual.
“Hã?” Ela tira os fones do ouvido, escutava música eletrônica. Volume alto.
“Eu tenho uma igual, pero sem a corda.”
“Hm.” Ela não quis puxar assunto, aquietei-me tratando de escrever.
Em casa cozinho o macarrão e mergulho dois ovos no molho de tomate. Cochilo
no mesmo sofá. Sonho que preciso escrever, se não me engano tenho dois sonhos
deste, depois acordo e percebo que a escuridão tomou conta da casa e minha mente
desperta rumo ao caderninho de anotações.
Júlia é outra figura bonita, fala palavrões e revela quando vai fazer xixi. Eu acho
tudo excitante. Trata-me estranhamente bem. Extrovertida como nunca vi igual.
Outro dia ficamos presos no corredor, esperando alguém vir abrir a porta do
escritório. Sentou-se no chão ao meu lado sem receio algum, foi logo perguntando se
tenho comida e abrindo minha bolsa. Ela salientou outra vez que adora pipoca.
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“Iai, você não tem comido pipoca?” perguntou-me.
“Como de vez em quando.”
Estava escrevendo e tirei uma dúvida,
“Você sabe o que é refração?” Ela não sabia.
“Escrevendo um livro?”
“Não. Algum conto.”
“Eu já tentei escrever um livro uma vez.”
“Você quis escrever tudo numa hora só?”
“É.”
“Não é assim. Tem que fazer de pouquinho em pouquinho.”
Mostrou sua coleção de livros best-seller que acabava de chegar dos correios.
“Fique com inveja!”
Não respondi, apenas sorri. Uma amiga dela passou e disse estar se tratando.
Júlia questionou do que, e a moça respondeu “câncer.” Então empolgada, como se
compartilhasse algum gosto noticiou que tinha lupus. A amiga foi embora.
Virou-me e disse, “eu tenho lupus, sabia?” Ela repetiu a pergunta seguindo de
um “você sabe o que é lupus?”
“Sim. A sua é grave?”
“Média.”
“Na primeira vez que atacou, prejudicou outros órgãos ou só a pele?”
“Só a pele, pero depois tive problema de rim. Estou tomando remédio.”
Os traços do rosto dela haviam ganhado um contorno mais arredondado,
tornando-a mais bonita. Mencionei isso e perguntei se era por causa do corticóide.
Respondeu que sim. Depois comentei sobre anticoncepcional e hormônio feminino, ela
explicou-se dizendo que precisava tomar apesar de qualquer risco, de uma forma que
preciso relatar fielmente:
“Melhor tomar o anticoncepcional do que ter por nove meses uma criança na
barriga.”
Um colega passou por nós e ela o convidou para ao aniversário da filha dela.
Não convidou-me. Senti um pouco de rejeição.
O pobre é um ser demasiadamente esperançoso, a vida é-lhe sofrida, cheio de
dívidas que nunca cessam, cheio da falta que nunca termina; contudo acha todos os
dias que o destino mudará num milagre, numa mágica.
Mais tarde no escritório propus aos colegas fazer a festa na minha casa,
localizada na Chapada. Lá teríamos piscina, churrasqueira...
“Poderemos levar bebida?”, perguntou Lucas.
“Claro que podem, levamos no carro.”
“E quanto as crianças?”, fitou-me Maria, dizendo numa doce voz. Demorei
alguns segundos a responder, contemplando o verde fluvial daqueles olhos, e a alvura
do rosto, como um papel. “Não há problema, finalmente disse. Teremos vários quartos,
onde poderão descansar ou pernoitar.”
“Lous, onde fica a sua casa?”, quis saber Camila. Uma loira alta, voz madura e
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belissimamente educada, aplicada. “Meu plano é que todos venham para cá, assim
podem juntar-se em dois carros, dou carona para alguns, e podem seguir-me.
Passaremos no mercado pra comprar bebida e comida e pronto.”
Todos gostaram, e por fim discutimos a melhor hora e data. Não conseguiram,
como sempre, enxergar por detrás da minha inocente aparência, que construí
pacientemente durante árduos anos de submissão a vaidade alheia, em que concordei
e agradei ao mais burro dos homens e a mais chata das mulheres, tudo para dissimular
a minha natureza homicida e sádica. Debaixo da roupa formal e personalidade
compreensível, guardei com afinco a cruel vontade que só deixei transparecer quando
muito, em contos, relatos fiéis dos assassinatos que realizei na periferia; se amo as
crianças, fora de vista amordaço-as e puno-as por todas as mazelas da sociedade,
mutilo-as e mato-as. Sem falar das prostituas que em minhas lisas mãos de voraz
leitor, tornam-se formigas, as quais destroço-as arrancando pedacinho por pedacinho
depois de furnicá-las e ejacular nelas meu desgosto e minha ira! Terei de conter-me
mais um pouco...
Capítulo III
Porém aos curiosos deixe-me relatar o que fiz a uma colega de trabalho, de
nome Paula, a quem enviei por e-mail meu excelente texto a fim que dê uma olhada e
admita a minha superioridade, louvando-me como a um Deus! e ela o trouxe
completamente mudado! Puta!, porca!, cachorra!, se falta-te uma pica, eu darei-te uma
facada na boceta!, donde não deixerei nenhum verme do seu sangue sair!
Aguardei que pegasse o material dela e encaminhasse para o carro cinza; era
noite e o vigia estava entretido na novela que assistia em sua guarita fechada; movi-me
como uma sombra, rastejando atrás de seus pés, camuflando-me por entre as árvores
e mais silencioso que o sopro do gélido vento da noite; enfim surpreendi-a já na porta
do carro, aberta, caí por cima dela e algemei-a sem resistência; depois tirei minha
própria camisa e amarrei sua boca cheia de bafo e dentes podres; os pretos e
profundos olhos fitaram-me apavorados e dei-lhe um soco na cara, caindo no banco,
passou a viagem toda quietinha como um gato acuado. Ao entrar na casa dela arrasteia pelos pés, seu corpo deslizando no frio piso fazia o som de um sofá velho sendo
movido. Movi-a até o banheiro, arranquei meu pinto da calça e mijei na cara dela, que
balançava de um lado ao outro querendo se livrar da urina, pero só espalhava entre o
cabelo e os miúdos seios.
Puxei a calça dela para despí-la, algemada no chão ela ficou de ponta-cabeça
contorcendo-se. De pernas de fora vi a calcinha branca marcar a boceta, retirei o facão
que guardava comigo e cortei fora a roupa íntima. Depois mergulhei a afiada lâmina
dura de cinquenta centímetros na profunda vagina, os olhos da minha colega
começaram a virar para cima, parecia uma louca, até que o facão encontrou-se todo
dentro dela, o clitóris roçava na minha mão, então puxei de uma só vez para fora, saiu
acompanhado de um jato de sangue grosso que tomou conta do banheiro, ensopandoo. Minha amiga estava morta!
Ao regressar para casa tive de escrever no meu diário, que guardo como
5
recordação numa gaveta do guarda-roupa, junto de um punhado de fotos que tiro dos
corpos que matei, para depois masturbar-me.
Capítulo IV
Outro dia no escritório todos saudaram-me contentes, não poderiam ser hostís
com o dono da festa, pois agora que seria em minha residência, era minha. Com um
sorriso maior que o próprio rosto, Maria chegou até mim, os lindíssimos dentes bem
feitos ornavam brilhantemente com os olhos cor-de-oliva, que de tão grandes só
poderiam expressar a juventudade daquela pessoa, e a simpatia de menina!, ah!, a
pele tão lisa, tão nova, tão hidratada e lívida como as folhas do meu livro preferido,
contrastava com uma elegância teatral o cabelo escuro de ondas. Elogio, pois se um
dia este caderninho cair em suas mãos e questionar-me sobre as partes boas, eu direi,
“aqui estão!, sua ingrata!”
“Lous, a gente precisa ver o que vamos comer, vai ser churrasco mesmo?”
“Vocês decidem, o que sair mais barato para todos. Podem usar a minha
cozinha que estará livre.”
“Ah!, tudo bem então.”
Assim assentei-me perto da Júlia, que comia pipoca como sempre.
“Quer pipoca?”
“Não, obrigado.”
“Só uma!”
“Não, obrigado.”
“Só esta aqui, oh, está com pimenta!”
“Não, obrigado mesmo, eu comeria, pero é que está com bacon, não como
bacon. Poderemos fazer pipoca no dia da festa!” Assim ela contentou-se e continuou a
mastigar. De ora em ora cutucando o aparelho que tinha nos dentes para remover o
resto de milho que ficava entranhado. A sua expontaneidade e aparente felicidade
tornava-a uma das obras mais importantes de Deus, e eu logicamente como um bom
religioso sabia adorar aquela beleza.
Do outro lado da sala eu fitava Camila de relance, cuidando para que não me
visse. As mechas do dourado cabelo balançavam-se, a expressão séria era acentuada
pelos óculos; o olhar curioso e a boca que comumente se abria um pouco resgatando
um punhado de ar, como se esparasse por algo. Nunca tinha nada para lhe oferecer,
dessa maneira nos falávamos pouco; ela mais ainda, reservada. De pé ostentava a
grandiosidade da sua personalidade e uma roupa social sabia lhe servir bem; espantame pessoas tão dedicadas.
“Lous, quero saber se posso ir com você no dia da festa, não tenho carro.”, disse
Joana. Eis aqui uma negra baixinha, com um belo corpo magro e ainda sim com curvas
salientes que poder-se-iam notar ao longe. Se um dia foi-me muito atenciosa, agora
comporta-se com distância!, ah!, perdi a chance de conseguir mais leitores!
Capítulo V

6
Leio o livro pela forma da letra e das palavras, agradam-me com paixão. O
conteúdo só passo a conhecer depois da terceira leitura. Someday I'll stop writing, and
let the death take me. Sem assunto para grafar, recorri a um caderninho antigo. I wrote
about a homeless girl who I've stolen the virginity and the hope. But no one gave to the
girl a so good help than I did! I was driving when I saw her in the street, asking for
money between the cars. Ali estava minha princesinha magra, com a pele queimada de
sol, o cabelo sujo.
“Está com fome?”
Timidamente mirou-me com os olhos murchos, “estou.”
“Se entrar no carro eu te levo para jantar.”
“Não sei se minha mãe vai deixar.”
“Estará de volta antes que ela note pela sua ausência, confie em mim. Perderá a
chance de comer um bife bem gostoso e dormir de barriga cheia?”
Assim ela entrou no carro e dirigi-me para casa, não estava muito longe. Parei
na garagem e sugeri, “entre, fique a vontade.” Assim ela entrou e assentou-se a mesa,
meio sem jeito. Ao contrário dela eu tinha jeito, costume, estava tudo planejado, que
noite fantástica esperava por nós!
“Que tal um banho enquanto preparo a comida?”
“Não quero.”
“Vá, sentirá-se melhor, e depois, criança que não banha não come.”
Obediente ela foi. “Há uma toalha no banheiro que poderá usar. Também xampu
no armarinho atrás do espelho.” Ouvi a água do chuveiro cair por uns minutos. Então
ela saiu amarrada na toalha, com os belos cabelos pingando e o rosto magrinho a
mostrar a pele livre da sujeira e a tremer. “Tenho roupas de menina aqui no guardaroupa, te darei um vestido bonito e cheiroso, você quer?” Fez que sim com a cabeça,
que gatinha tímida!
Vestiu-se e sentou-se para comer. Serví-lhe um bife acebolado com arroz, as
cebolas ela deixou no prato, tomou e repetiu o suco de laranja.
“Agora preciso ir.”
“Não vá ainda. Tenho muitos brinquedos legais que mostrarei-te se ficar.”
“Acho que posso ficar mais cinco minutos.”
Dessa forma conduzi-a ao quarto, abri uma caixa e derramei um monte de
brinquedos sobre o tapete. Rapidamente ela agaixou-se fascinada, e começou a
brincar, montando e desmontando bonecas, experimentando roupinhas e perucas
coloridas.
De pé atrás dela eu já estava despido, esticando e analisando com zelo meu
cinto preto de couro grosso. Ao virar o rosto pude ver que ela levantou rápido, fitando
minhas pernas cabeludas e meu pinto longo, meu corpo todo tatuado e esperando
ação! Então aguerrei-a nos bracinhos, segurando com uma mão, e chicoteei a sua
cabeça, soando alto, seguido de um grito de choro desesperado. Empurrei-a ao chão e
fi-la engatinhar, puxando sua cinturinha e rasgando o vestido. Aaaaaaaaah!, perfurei a
vagininha, alarguei aquele nunca usado buraco!, ela gritava e queria sair, impossível
minha companheira!, dizia para acalmá-la, “fique calma!, é para isso que serve
mesmo!, tenha paciência que logo mais te mato e acabo com toda a chatice da sua
7
vida!, e nem precisa agradecer-me!, estou aqui para corrigir o erro que seus pais
cometeram ao ter-lhe colocado nesta bosta!”
Depois de gozar, levantei-a pelo pescoço, dei três murros na cara dela e pisoteei
aquele magro estômago, ela até cagou um pouco. No chão, em cima do guarda-roupa
apanhei meu facão, retirei a bainha e meti-lhe na garganta que abriu facilmente, sem
resistência alguma como um pudim de leite sendo cortado!, que fio!, que belo
instrumento!
A emoção foi como se todo o poder do mundo tomasse conta do meu corpo,
estava eletrizado!, sorrindo para mim mesmo, finalmente tinha tudo em minhas mãos!,
nada era-me impossível, como foi fácil subjulgar o outro!, o que são além de meus
objetos, animais que sacrificam-se ao meu deleite!, eu sou o rei deles, jamais iriam
contrariar-me! Ah!
Dessa forma parti os membros, abri a barriga e retirei os órgãos, que tratei de
colocar numa sacola de lixo. Depois bati várias fotos do cadáver fresquinho e delicioso!
Capítulo VI
Não aguento mais. Quero morrer. Não sei se conseguirei viver mais alguns dias.
Deixo tudo anotado neste diário. Pretendo em breve matar-me. Escrever
definitavamente não serve como consolo. Estou desmoronando, não tenho mais nada
por dentro. Hoje é o dia da confraternização. Vou e volto para relatar o que sucedeu-se.
Os rondões deveriam deixar este mundo. Nascer foi meu único castigo!
Júlia, Maria, Camila e Joana entraram no meu carro. Ao volante conduzi-as a
minha casa na Chapada, seguido de mais dois automóveis com o resto dos colegas.
Eu estava feliz, é bom estar perto dos outros, deixar a solidão de escritor para outro
dia.
Maria estava mesmo bonita, vestida com calça jeans e uma blusa clara.
Paramos num supermercado, onde os rapazes (sim, infelizmente havia homens)
compraram carne e carvão. Além de caixas e mais caixas de cerveja estrangeira.
Camila com seus pequenos óculos retangulares, formidavelmente elegante e sensual.
Júlia desceu para pegar pipoca, e Joana continou no banco de trás, esperando. Então
partimos.
Ao chegar mostrei a eles a cozinha, em que empolgadamente empurraram as
latinhas para dentro do congelador e começaram a preparar os espetos do churrasco.
Tudo aconteceu com fluidez, começaram a festa como se fosse algo trivial e rotineiro.
Quem precisa do texto para viver está condenado ao fracasso e a vergonha por
suas ideias. Ensinar o pobre a ler é uma grande covardia, pois ele morrerá no desejo e
na desilusão de sua comunidade, de sua vida e seu Deus. Bendito é aquele que nasce
e morre rápido, sem deixar ao mundo um descendente seu!
Porém agora, com a cerveja na mão e rodeado das mais maravilhosas
mulheres, perdia-me naqueles sorrisos, os quais faziam-me viajar na brancura de
tantos dentes amigáveis e contentes. Gostaria que tudo ficasse assim para sempre.
Nas moças agrada-me tudo, o cheiro, a pele, a simples presença, a existência delas
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me consola. As vozes delas aliviam-me; os olhos fascinam-me; os longos cabelos
amarram-me; os traços finos e delicados do rosto feminino podem ser comparados a
nuvens; os dedos graciosamente etéreos, angelicais, aaaaaaah!, delas amo até os
gases!
Pedi licença e fui ao banheiro. Lavei o rosto e mirei meus olhos castanhos.
Tomei coragem. O escritor é um louco, um feto defeituoso que não estava preparado
para a vida!, e por isso tenta reescrevê-la sem êxito.
Abri o armário e tirei o revolver e uma sacola de balas. Municiei-o e guardei o
resto no bolso. De trás da pia retirei o meu lindo facão na banhia de couro, já afiado e
chairado.
Lá fitei de longe três colegas na cozinha, provando a carne. Encostei-me na
parede, na sombra. Agaixei para ter maior precisão no disparo, apontei para eles e
atingi o trio, um seguido do outro com tamanha perfeição e tranquilidade que senti-me
admirado. Com o barulho outros chegaram, eu havia tratado de repor as balas. Não
viram-me e facilmente tomei a liberdade de matá-los como queria. Então saí para os
fundos onde encontrei as meninas.
Elas gritaram ensurdecedoramente ao verem-me armado. Sem hesitar as
assassinei, sobrando apenas Maria, que tentou estabelecer um curto e vago diálogo
com a minha pessoa,
“Lous, por que está fazendo isso?!”
Não pude conter as lágrimas que escorreram dos meus olhos, pero minha mão
continuava firme,
“Perdoe-me!, pra vocês é fácil julgar-me!, pero eu ainda precisava de algo para
escrever ou não me aguentaria!”
“Não precisa matar todo mundo!”
“Preciso infelizmente. Pois nada disso duraria para sempre. Agora estarão todos
felizes no meu caderninho, você, tão bonita, de quem eu tanto gosto, viverá para
sempre comigo!”
Retirei meu facão rapidamente da cintura, ergui o máximo que pude e desferi
com toda força no pescoço dela, que fez voar a cabeça, caindo na piscina. Reservei a
última bala para mim. Depois de anotar neste caderninho, matei-me.

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  • 2. Capítulo I A relação entre seres humanos está fadada ao desacordo. Tecnologia de consumo sempre causou ao pobre a ilusão de riqueza. Há anos admito o meu fracasso em desenvolver boa convivência com a sociedade. De portas fechadas para qualquer outra possibilidade de trocar de papel nesta casta, assumi o que realmente nasci com a missão de cumprir. Nunca fui senão um estereótipo rebelde. Que lutou até o último momento para não fazer o que pediram-me. Sendo agora tarde demais para outras reflexões, tratei de utilizar com extremo e zeloso cuidado a minha mente moralmente desequilibrada a fim de planejar o assassinato dos meus colegas de trabalho. Porém não me entendam mal. Não foi por nenhum motivo pseudoaltruísta, ou pseudoanárquico, embora no começo pode parecer. A razão foi a mais ingênua e romântica possível. A cretinice dos meus amigos retardados fez com que eles abusassem diariamente da minha capacidade de discernimento, e sem bons critérios, julgaram e presumiram que eu nunca poderia ser o que a minha carcaça não evidencia, isto é, como dizia Pessoa, “gostaria de apresentar no exterior a qualidade dos meus pensamentos.” Culpem a Maria! Pelos encantadores e brilhantes olhos verdes, que refletiam toda a minha vontade e transparecia a gentileza do seu carinhoso coração. Pelo formato elegante de seu queixo abaixo dos simétricos dentes incisivos que ao demonstrar o grande e feliz sorriso contagiava com total efetividade os que poderiam vê-lo! Ah! Culpem a estatura mediana e o quadril delicadamente desenhado com perfeição até nas imperfeições... que bela expressão... se eu puder repetí-la, por favor, permitam-me, pois Maria era perfeita mesmo em seus defeitos que serviam somente para caracterizar seu aspecto humilde. Sinceramente gostaria de pô-la numa caixa de vidro. Para poder admirá-la sempre que quisesse. Sempre que precisasse de consolo ou inspiração! Embora este meu gosto pelo voyeurismo tenha sido criado pela impossibilidade de possuí-la, também contribuiu o amor platônico e a minha contínua procura por Deus!, o que é a natureza, senão a prova da existência Dele?, e obviamente a mais alta demonstração de beleza, não seria para ser admirada como a qualidade mais sagrada no mundo? Sou apenas número numa estatística de pobreza, violência e analfabetismo. Meus conhecimentos jamais ultrapassarão o que está guardado em livros. Estes são artigos de controle da educação. Uma barreira, e fronteira que pessoas como eu jamais atravessarão. O pobre está limitado a livros. Capítulo II Os filhos deveriam servir a sociedade, de forma que prosperem e fortaleçam a 2
  • 3. cultura, não para ser usados como escravos a pais fracassados. Esperar a morte é um saco. É estranhíssimo o poder de refletir a luz da pele de Maria! Diria, se houvesse uma maneira de medir esta capacidade, estar próxima a cem por cento. Na cadeira ao meu lado, ela olha meu texto de maneira séria, pelo menos finge. Seus pensamentos devaneam em problemas pessoais. Termina com um singelo “bom.” A expressão do seu rosto, é lividamente elegante, a gentileza é óbvia, e a todo tempo os músculos faciais parecem querer se esticar num sorriso, está preparada para isso!, pero nada fazem, está relaxada, cansada e tenta cumprir suas obrigações... tantas, ser mãe é exaustivamente feliz. Como se as qualidades não tivessem fim, ela planeja a confraternização de fim de ano. Mestre em simpatia não conheço quem não a adore. Meu pensamento pertinente de querer aparecer a ela elabora uma vaga ideia quanto a esta festa, contarei mais tarde. Pedi licença, e ela deixou-me sair. Ao tomar o ônibus para casa, o motorista me interroga, “Primeira vez que faço essa linha, pode explicar-me em que rua entro?” Fui responder quando uma mulher gorda desesperou-se, intrometendo na conversa, “O senhor vira ali na rua depois da igreja.” Deixei que ela ensinasse o caminho a ele. Não faço questão e nem tenho senso de direção apesar de pegar aquela linha todos os dias. Se alguém precisar de alguma informação, por favor, pergunte a uma mulher! Elas olham tudo ao seu redor, observam e intrometem-se sempre que surge oportunidade. Eu vejo pouco, minha vista é curta, meus pensamentos mais longos, a rotina deixa meu corpo mover-se mecanicamente como hábito. Enquanto fecho-me do exterior e penso em mim mesmo. Depois de alguns minutos o ônibus está cheio, assenta-se ao meu lado uma loira de pouca idade, extremamente gostosa. O short curtíssimo exibe uma bela tatuagem preta e branca de uma áncora na excitante e claríssima coxa direita. Não consigo deixar de mirar, e para disfarçar digo que tenho uma igual. “Hã?” Ela tira os fones do ouvido, escutava música eletrônica. Volume alto. “Eu tenho uma igual, pero sem a corda.” “Hm.” Ela não quis puxar assunto, aquietei-me tratando de escrever. Em casa cozinho o macarrão e mergulho dois ovos no molho de tomate. Cochilo no mesmo sofá. Sonho que preciso escrever, se não me engano tenho dois sonhos deste, depois acordo e percebo que a escuridão tomou conta da casa e minha mente desperta rumo ao caderninho de anotações. Júlia é outra figura bonita, fala palavrões e revela quando vai fazer xixi. Eu acho tudo excitante. Trata-me estranhamente bem. Extrovertida como nunca vi igual. Outro dia ficamos presos no corredor, esperando alguém vir abrir a porta do escritório. Sentou-se no chão ao meu lado sem receio algum, foi logo perguntando se tenho comida e abrindo minha bolsa. Ela salientou outra vez que adora pipoca. 3
  • 4. “Iai, você não tem comido pipoca?” perguntou-me. “Como de vez em quando.” Estava escrevendo e tirei uma dúvida, “Você sabe o que é refração?” Ela não sabia. “Escrevendo um livro?” “Não. Algum conto.” “Eu já tentei escrever um livro uma vez.” “Você quis escrever tudo numa hora só?” “É.” “Não é assim. Tem que fazer de pouquinho em pouquinho.” Mostrou sua coleção de livros best-seller que acabava de chegar dos correios. “Fique com inveja!” Não respondi, apenas sorri. Uma amiga dela passou e disse estar se tratando. Júlia questionou do que, e a moça respondeu “câncer.” Então empolgada, como se compartilhasse algum gosto noticiou que tinha lupus. A amiga foi embora. Virou-me e disse, “eu tenho lupus, sabia?” Ela repetiu a pergunta seguindo de um “você sabe o que é lupus?” “Sim. A sua é grave?” “Média.” “Na primeira vez que atacou, prejudicou outros órgãos ou só a pele?” “Só a pele, pero depois tive problema de rim. Estou tomando remédio.” Os traços do rosto dela haviam ganhado um contorno mais arredondado, tornando-a mais bonita. Mencionei isso e perguntei se era por causa do corticóide. Respondeu que sim. Depois comentei sobre anticoncepcional e hormônio feminino, ela explicou-se dizendo que precisava tomar apesar de qualquer risco, de uma forma que preciso relatar fielmente: “Melhor tomar o anticoncepcional do que ter por nove meses uma criança na barriga.” Um colega passou por nós e ela o convidou para ao aniversário da filha dela. Não convidou-me. Senti um pouco de rejeição. O pobre é um ser demasiadamente esperançoso, a vida é-lhe sofrida, cheio de dívidas que nunca cessam, cheio da falta que nunca termina; contudo acha todos os dias que o destino mudará num milagre, numa mágica. Mais tarde no escritório propus aos colegas fazer a festa na minha casa, localizada na Chapada. Lá teríamos piscina, churrasqueira... “Poderemos levar bebida?”, perguntou Lucas. “Claro que podem, levamos no carro.” “E quanto as crianças?”, fitou-me Maria, dizendo numa doce voz. Demorei alguns segundos a responder, contemplando o verde fluvial daqueles olhos, e a alvura do rosto, como um papel. “Não há problema, finalmente disse. Teremos vários quartos, onde poderão descansar ou pernoitar.” “Lous, onde fica a sua casa?”, quis saber Camila. Uma loira alta, voz madura e 4
  • 5. belissimamente educada, aplicada. “Meu plano é que todos venham para cá, assim podem juntar-se em dois carros, dou carona para alguns, e podem seguir-me. Passaremos no mercado pra comprar bebida e comida e pronto.” Todos gostaram, e por fim discutimos a melhor hora e data. Não conseguiram, como sempre, enxergar por detrás da minha inocente aparência, que construí pacientemente durante árduos anos de submissão a vaidade alheia, em que concordei e agradei ao mais burro dos homens e a mais chata das mulheres, tudo para dissimular a minha natureza homicida e sádica. Debaixo da roupa formal e personalidade compreensível, guardei com afinco a cruel vontade que só deixei transparecer quando muito, em contos, relatos fiéis dos assassinatos que realizei na periferia; se amo as crianças, fora de vista amordaço-as e puno-as por todas as mazelas da sociedade, mutilo-as e mato-as. Sem falar das prostituas que em minhas lisas mãos de voraz leitor, tornam-se formigas, as quais destroço-as arrancando pedacinho por pedacinho depois de furnicá-las e ejacular nelas meu desgosto e minha ira! Terei de conter-me mais um pouco... Capítulo III Porém aos curiosos deixe-me relatar o que fiz a uma colega de trabalho, de nome Paula, a quem enviei por e-mail meu excelente texto a fim que dê uma olhada e admita a minha superioridade, louvando-me como a um Deus! e ela o trouxe completamente mudado! Puta!, porca!, cachorra!, se falta-te uma pica, eu darei-te uma facada na boceta!, donde não deixerei nenhum verme do seu sangue sair! Aguardei que pegasse o material dela e encaminhasse para o carro cinza; era noite e o vigia estava entretido na novela que assistia em sua guarita fechada; movi-me como uma sombra, rastejando atrás de seus pés, camuflando-me por entre as árvores e mais silencioso que o sopro do gélido vento da noite; enfim surpreendi-a já na porta do carro, aberta, caí por cima dela e algemei-a sem resistência; depois tirei minha própria camisa e amarrei sua boca cheia de bafo e dentes podres; os pretos e profundos olhos fitaram-me apavorados e dei-lhe um soco na cara, caindo no banco, passou a viagem toda quietinha como um gato acuado. Ao entrar na casa dela arrasteia pelos pés, seu corpo deslizando no frio piso fazia o som de um sofá velho sendo movido. Movi-a até o banheiro, arranquei meu pinto da calça e mijei na cara dela, que balançava de um lado ao outro querendo se livrar da urina, pero só espalhava entre o cabelo e os miúdos seios. Puxei a calça dela para despí-la, algemada no chão ela ficou de ponta-cabeça contorcendo-se. De pernas de fora vi a calcinha branca marcar a boceta, retirei o facão que guardava comigo e cortei fora a roupa íntima. Depois mergulhei a afiada lâmina dura de cinquenta centímetros na profunda vagina, os olhos da minha colega começaram a virar para cima, parecia uma louca, até que o facão encontrou-se todo dentro dela, o clitóris roçava na minha mão, então puxei de uma só vez para fora, saiu acompanhado de um jato de sangue grosso que tomou conta do banheiro, ensopandoo. Minha amiga estava morta! Ao regressar para casa tive de escrever no meu diário, que guardo como 5
  • 6. recordação numa gaveta do guarda-roupa, junto de um punhado de fotos que tiro dos corpos que matei, para depois masturbar-me. Capítulo IV Outro dia no escritório todos saudaram-me contentes, não poderiam ser hostís com o dono da festa, pois agora que seria em minha residência, era minha. Com um sorriso maior que o próprio rosto, Maria chegou até mim, os lindíssimos dentes bem feitos ornavam brilhantemente com os olhos cor-de-oliva, que de tão grandes só poderiam expressar a juventudade daquela pessoa, e a simpatia de menina!, ah!, a pele tão lisa, tão nova, tão hidratada e lívida como as folhas do meu livro preferido, contrastava com uma elegância teatral o cabelo escuro de ondas. Elogio, pois se um dia este caderninho cair em suas mãos e questionar-me sobre as partes boas, eu direi, “aqui estão!, sua ingrata!” “Lous, a gente precisa ver o que vamos comer, vai ser churrasco mesmo?” “Vocês decidem, o que sair mais barato para todos. Podem usar a minha cozinha que estará livre.” “Ah!, tudo bem então.” Assim assentei-me perto da Júlia, que comia pipoca como sempre. “Quer pipoca?” “Não, obrigado.” “Só uma!” “Não, obrigado.” “Só esta aqui, oh, está com pimenta!” “Não, obrigado mesmo, eu comeria, pero é que está com bacon, não como bacon. Poderemos fazer pipoca no dia da festa!” Assim ela contentou-se e continuou a mastigar. De ora em ora cutucando o aparelho que tinha nos dentes para remover o resto de milho que ficava entranhado. A sua expontaneidade e aparente felicidade tornava-a uma das obras mais importantes de Deus, e eu logicamente como um bom religioso sabia adorar aquela beleza. Do outro lado da sala eu fitava Camila de relance, cuidando para que não me visse. As mechas do dourado cabelo balançavam-se, a expressão séria era acentuada pelos óculos; o olhar curioso e a boca que comumente se abria um pouco resgatando um punhado de ar, como se esparasse por algo. Nunca tinha nada para lhe oferecer, dessa maneira nos falávamos pouco; ela mais ainda, reservada. De pé ostentava a grandiosidade da sua personalidade e uma roupa social sabia lhe servir bem; espantame pessoas tão dedicadas. “Lous, quero saber se posso ir com você no dia da festa, não tenho carro.”, disse Joana. Eis aqui uma negra baixinha, com um belo corpo magro e ainda sim com curvas salientes que poder-se-iam notar ao longe. Se um dia foi-me muito atenciosa, agora comporta-se com distância!, ah!, perdi a chance de conseguir mais leitores! Capítulo V 6
  • 7. Leio o livro pela forma da letra e das palavras, agradam-me com paixão. O conteúdo só passo a conhecer depois da terceira leitura. Someday I'll stop writing, and let the death take me. Sem assunto para grafar, recorri a um caderninho antigo. I wrote about a homeless girl who I've stolen the virginity and the hope. But no one gave to the girl a so good help than I did! I was driving when I saw her in the street, asking for money between the cars. Ali estava minha princesinha magra, com a pele queimada de sol, o cabelo sujo. “Está com fome?” Timidamente mirou-me com os olhos murchos, “estou.” “Se entrar no carro eu te levo para jantar.” “Não sei se minha mãe vai deixar.” “Estará de volta antes que ela note pela sua ausência, confie em mim. Perderá a chance de comer um bife bem gostoso e dormir de barriga cheia?” Assim ela entrou no carro e dirigi-me para casa, não estava muito longe. Parei na garagem e sugeri, “entre, fique a vontade.” Assim ela entrou e assentou-se a mesa, meio sem jeito. Ao contrário dela eu tinha jeito, costume, estava tudo planejado, que noite fantástica esperava por nós! “Que tal um banho enquanto preparo a comida?” “Não quero.” “Vá, sentirá-se melhor, e depois, criança que não banha não come.” Obediente ela foi. “Há uma toalha no banheiro que poderá usar. Também xampu no armarinho atrás do espelho.” Ouvi a água do chuveiro cair por uns minutos. Então ela saiu amarrada na toalha, com os belos cabelos pingando e o rosto magrinho a mostrar a pele livre da sujeira e a tremer. “Tenho roupas de menina aqui no guardaroupa, te darei um vestido bonito e cheiroso, você quer?” Fez que sim com a cabeça, que gatinha tímida! Vestiu-se e sentou-se para comer. Serví-lhe um bife acebolado com arroz, as cebolas ela deixou no prato, tomou e repetiu o suco de laranja. “Agora preciso ir.” “Não vá ainda. Tenho muitos brinquedos legais que mostrarei-te se ficar.” “Acho que posso ficar mais cinco minutos.” Dessa forma conduzi-a ao quarto, abri uma caixa e derramei um monte de brinquedos sobre o tapete. Rapidamente ela agaixou-se fascinada, e começou a brincar, montando e desmontando bonecas, experimentando roupinhas e perucas coloridas. De pé atrás dela eu já estava despido, esticando e analisando com zelo meu cinto preto de couro grosso. Ao virar o rosto pude ver que ela levantou rápido, fitando minhas pernas cabeludas e meu pinto longo, meu corpo todo tatuado e esperando ação! Então aguerrei-a nos bracinhos, segurando com uma mão, e chicoteei a sua cabeça, soando alto, seguido de um grito de choro desesperado. Empurrei-a ao chão e fi-la engatinhar, puxando sua cinturinha e rasgando o vestido. Aaaaaaaaah!, perfurei a vagininha, alarguei aquele nunca usado buraco!, ela gritava e queria sair, impossível minha companheira!, dizia para acalmá-la, “fique calma!, é para isso que serve mesmo!, tenha paciência que logo mais te mato e acabo com toda a chatice da sua 7
  • 8. vida!, e nem precisa agradecer-me!, estou aqui para corrigir o erro que seus pais cometeram ao ter-lhe colocado nesta bosta!” Depois de gozar, levantei-a pelo pescoço, dei três murros na cara dela e pisoteei aquele magro estômago, ela até cagou um pouco. No chão, em cima do guarda-roupa apanhei meu facão, retirei a bainha e meti-lhe na garganta que abriu facilmente, sem resistência alguma como um pudim de leite sendo cortado!, que fio!, que belo instrumento! A emoção foi como se todo o poder do mundo tomasse conta do meu corpo, estava eletrizado!, sorrindo para mim mesmo, finalmente tinha tudo em minhas mãos!, nada era-me impossível, como foi fácil subjulgar o outro!, o que são além de meus objetos, animais que sacrificam-se ao meu deleite!, eu sou o rei deles, jamais iriam contrariar-me! Ah! Dessa forma parti os membros, abri a barriga e retirei os órgãos, que tratei de colocar numa sacola de lixo. Depois bati várias fotos do cadáver fresquinho e delicioso! Capítulo VI Não aguento mais. Quero morrer. Não sei se conseguirei viver mais alguns dias. Deixo tudo anotado neste diário. Pretendo em breve matar-me. Escrever definitavamente não serve como consolo. Estou desmoronando, não tenho mais nada por dentro. Hoje é o dia da confraternização. Vou e volto para relatar o que sucedeu-se. Os rondões deveriam deixar este mundo. Nascer foi meu único castigo! Júlia, Maria, Camila e Joana entraram no meu carro. Ao volante conduzi-as a minha casa na Chapada, seguido de mais dois automóveis com o resto dos colegas. Eu estava feliz, é bom estar perto dos outros, deixar a solidão de escritor para outro dia. Maria estava mesmo bonita, vestida com calça jeans e uma blusa clara. Paramos num supermercado, onde os rapazes (sim, infelizmente havia homens) compraram carne e carvão. Além de caixas e mais caixas de cerveja estrangeira. Camila com seus pequenos óculos retangulares, formidavelmente elegante e sensual. Júlia desceu para pegar pipoca, e Joana continou no banco de trás, esperando. Então partimos. Ao chegar mostrei a eles a cozinha, em que empolgadamente empurraram as latinhas para dentro do congelador e começaram a preparar os espetos do churrasco. Tudo aconteceu com fluidez, começaram a festa como se fosse algo trivial e rotineiro. Quem precisa do texto para viver está condenado ao fracasso e a vergonha por suas ideias. Ensinar o pobre a ler é uma grande covardia, pois ele morrerá no desejo e na desilusão de sua comunidade, de sua vida e seu Deus. Bendito é aquele que nasce e morre rápido, sem deixar ao mundo um descendente seu! Porém agora, com a cerveja na mão e rodeado das mais maravilhosas mulheres, perdia-me naqueles sorrisos, os quais faziam-me viajar na brancura de tantos dentes amigáveis e contentes. Gostaria que tudo ficasse assim para sempre. Nas moças agrada-me tudo, o cheiro, a pele, a simples presença, a existência delas 8
  • 9. me consola. As vozes delas aliviam-me; os olhos fascinam-me; os longos cabelos amarram-me; os traços finos e delicados do rosto feminino podem ser comparados a nuvens; os dedos graciosamente etéreos, angelicais, aaaaaaah!, delas amo até os gases! Pedi licença e fui ao banheiro. Lavei o rosto e mirei meus olhos castanhos. Tomei coragem. O escritor é um louco, um feto defeituoso que não estava preparado para a vida!, e por isso tenta reescrevê-la sem êxito. Abri o armário e tirei o revolver e uma sacola de balas. Municiei-o e guardei o resto no bolso. De trás da pia retirei o meu lindo facão na banhia de couro, já afiado e chairado. Lá fitei de longe três colegas na cozinha, provando a carne. Encostei-me na parede, na sombra. Agaixei para ter maior precisão no disparo, apontei para eles e atingi o trio, um seguido do outro com tamanha perfeição e tranquilidade que senti-me admirado. Com o barulho outros chegaram, eu havia tratado de repor as balas. Não viram-me e facilmente tomei a liberdade de matá-los como queria. Então saí para os fundos onde encontrei as meninas. Elas gritaram ensurdecedoramente ao verem-me armado. Sem hesitar as assassinei, sobrando apenas Maria, que tentou estabelecer um curto e vago diálogo com a minha pessoa, “Lous, por que está fazendo isso?!” Não pude conter as lágrimas que escorreram dos meus olhos, pero minha mão continuava firme, “Perdoe-me!, pra vocês é fácil julgar-me!, pero eu ainda precisava de algo para escrever ou não me aguentaria!” “Não precisa matar todo mundo!” “Preciso infelizmente. Pois nada disso duraria para sempre. Agora estarão todos felizes no meu caderninho, você, tão bonita, de quem eu tanto gosto, viverá para sempre comigo!” Retirei meu facão rapidamente da cintura, ergui o máximo que pude e desferi com toda força no pescoço dela, que fez voar a cabeça, caindo na piscina. Reservei a última bala para mim. Depois de anotar neste caderninho, matei-me. 9