Morte e vida de grandes cidades jane jacobs

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Morte e vida de grandes cidades jane jacobs

  1. 1. o RT E E v¡ DA D E CIDADES Jane Jacobs Tradução: Carlos S. Mendes Rosa Revisão da tradução: Maria Estela Heider Cavalheiro Revisão técnica: Cheila Aparecida Gomes Bailão Martins Fontes São Pau/ o 2003
  2. 2. ILUSTRAÇÕES ÍNDICE Todas as cenas que ilustram este livro nos dizem respeito. 5o quiser exemplos, por favor, observe atentamente as cidades reais. _i1 g, «¡, ¡¡ec¡, ,¡e, ¡¡¡, _« [x Ao fazer isso escute, concentre-se e retlita no que esta vendo. 1_ ¡, .,¡¡. ¡,(. ¡UÇ¡7U___ 1 PARTE 1 A natureza peculiar das cidades 2. Os usos das calçadas: segurança . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 29 3. Os Lisos das calçadas: contato . ... ... ... ... ... ... ... .. 59 '* 4. Os Lisos das calçadas: integrando as crianç 81 5. Os usos dos parques de bairro . ... ... ... ... ... ... ... .. 97 ó. Os usos dos bairros . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 123 PARTE 2 Condições para a diversidade urbana 7. Os geradores de diversidade . ... ... ... ... ... ... ... ... .. 157 8. A necessidade de usos principais combinado 167' 9. A necessidade de quadras curtas 197 10. A necessidade de prédios antigo. 207' ll. A necessidade de concentração z. 221 i2. Alguns mitos sobre a diversidade . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ., 245
  3. 3. PARTE 3 Forças de decadência e de recuperação l3. A autodestruiçãt) da diversidade . ... ... ... . . . 267 l4. A maldição das zonas de fronteira descr 235 15. Formação c recuperação de cortiços. .., _ 301 16. Capital convencional e capital espeeulativ 325 PARTE 4 Táticas diferentes 17. A subvenção de moradias . ... ... ... ... ... ... ... .. 357' 18. Erosão das cidades ou redução dos automov 377 19. Ordem visual: limitações e potencialidades . 20. Projetos de revitalização . ... ... ... ... ... ... .. 21. Unidades territoriais de gestão e planejamento 22. O tipo de problema que é a cidade . ... ... ... ... ... .. 451 477 Índice remissivo . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 501 AGRADECIMENTOS tão grande o número de pessoas que mc ajudaram neste li- vro, consciente ou inconscientemente, que nunca serei capaz de manifestar inteiramente o apreço que tenho e sinto. Sou particu- larmente grata às informações, ao auxílio e à critica que obtive das seguintes pessoas: Saul Alinsky, Norris C. Andrews, Edmund Bacon, June Blythe, John Decker Butzner, Jr. , Henry Churchill, Grady Clay, William C. Crow, Vernon De Mars, Monsenhor John J. Egon, Charles Farnsley, Carl Fciss, Robert B. Filley. Sra. Rosario Folino, ("hadbourne Gilpatric, Victor Gruen, Frank Ha- vcy, Goldie Hoffman. Frank Hotchkiss, Leticia Kent, William ll. Kirk. Sr. e Sra. George Kostritsky, Jay Landesman, Rev. Wilbur C. Leach. Glennie M. Lenear, Melvin F. Levine, Edward Logue. Ellen Lune, Elizabeth Manson, Roger Montgomery, Richard Nel- son, Joseph Passonneau, Ellen Perry, Rose Porter, Ansel Robison, .íamos W Rouse. Samuel A. Spiegel, Stanley B. Tankel, Jack Volkman. Robert C. Weinberg, Erik Wensberg, Henry Whitney, William H. Whyte. Jr. , William Wilcox, Mildred Zucker, Beda Zwic ('l o que nenhuma de pessoas c responsável ; melo que ese us. muitas tliscortlzim visecrzilinentc de meu ponto de vista. ImlS mesmo assim me zijudnrnm generosiimeiiie. Agradeço izinihém i1 Roeltcleller Iioiintlziiioii o apoio financei- m. que me deu condições dc iwsquisau* e escrever; f¡ New School
  4. 4. X MURH t VlDÂ DL GRANJLS UDADÉÉ lor Social Research [Nova Escola de Pesquisa Social] a hospi- talidade; e a Douglas Haskell, editor do Arc/ rirrvlrrrn/ Mrrrrrr. o encorajamento c a paciência. Acima do tudo. 'agradeço a meu ma- rido, Robert H. .laeohs, .Ir. »já não sei di/ er quais idéias no lix ro são minhas e quais são dele. JANE JACOBS , vllú _nur/ to rampa amis, rr rne/ /mr crrrlxrr que Uufi/ Í (II/ NI: do pensar' yrrr/ Lrvor' da vitrilizuçrío_ rr/ mu u rrCu/ trrçâzr irrestrita da rrrrlern do rrrrívcrtvo, jin' que chi tor/ mir postura¡ u existência do (rrrisrrr. Ju poeta, doji/ risrr/ ir e do cientista. Mas acho que isso não é 0 mel/ rar'. Hoje rrcrezfirr) que o rrre/ Íror' é aquilo que entra direto em nossa (rim. Quando se di: que exiirrrros muito acima- dur «um os rrreirrs de VÍL/ (l pari¡ torirogrrir* viver; responda que o pri/ refira¡ rar/ or' da ciiri/ rbrrçzirr ú . rirriplesrrrerrrc que ela farm¡ m* tire/ os de rir/ u rrruis vzrrrip/ eiiis: qirc c/ rr atrigc _grande rorrzliinrp (riu do arfbrçirs intelectuais', errr ve: de taxj/ bryos' , vimples' e (lex- nrort/ errtrdtrs'. para que u população possa . rar alirrrerzlarlcr, vcs- Iizlir. cr/ ›r*i'_grrda e lruri. r_r›r›rtadtr de um lugar' a (ruim. lzÍxj/ irrçoa* in- / e/UCIHUÍY HIUÍA' «amp/ erros c rmris intensos' Sigur/ intra¡ uma vida rrrrrrls plerrtr e mais rica. .Vigrii/ icurrr mais vida. A viria é rrrrr fim PIII v¡ rriexrrru, e (I única ([LlL”. 'l17(). '()Í)I”E u valor da iridcr é IÍIYIPLÍÚÍd o rrrárirrm prvi/ cito. Sri rrriris irma palavra. Evlrrrrrzrs' maior muito próximos* do de- xtcrpcrw. l proteção que IIONfÉIZfÍII/ lllll'X017!? as arrciai* de altares'- para cr›rrr¡rr'›e-. rr› de (expor-arma, m¡ ira/ nr ¡rrcxplirtáirc/ c' m) iles- flw/ ir) varrer/ r) da (av/ Eau) e ¡Jm/ irrida e . YIlÍ)<'()II. S'('l(? /1!e . rariajfrrçiirr que zrz/ iiirrr do t'. rrar'<: r'<'ir› do naun) potencial. OLIVER WÍiNDltLl. Hoi/ MUS. JR
  5. 5. 1. | NTRODUÇÃO Esle livro é um ataque aos fundamentos do planejamento urbano e da reurbanização ora vigentes. É também, e principalmente, uma tentativa de introduzir novos princípios no planciamento urbano e na reurbanização, diferentes daqueles que hoje são ensinados em todos os lugares. de escolas de arquitetura e urba- nismo a suplementos dominicais e revistas femininas, e ate' mes- mo eonllitantes em relação a eles. Meu ataque não se baseia em tergiversações sobre métodos de reurbanização ou minúcias so- bre modismos em projetos. Mais que isso. é uma ofensiva contra os principios e os objetivos que moldaram o planejamento urba- no e a reurbanização ¡nodernos e ortodoxos. Ao apresentar princípios diferentes, escrevcrei principalmen- le sobre coisas comuns e cotidianas, como, por exemplo, que Ii› pos de ruas são seguros e quais não são; por que certos parques são maravilhosos e outros são armadilhas que levam ae vicio e à morte; por que certos cortiços continuam sendo eortieos e ou- tros se recuperam mesmo diante de empecilhos financeiros e governamentais; o que faz o centro urbano deslocar-se; o que e' - se é que existe - um bairro, e que função - se é que há alguma - desempenham os bairros nas grandes cidades. Resumindo, cs- ereverei sobre o funcionamento das cidades na prática, porque essa é a única maneira de saber que princípios de planejamento e
  6. 6. Z MORlE EVDA DE GRANDES ClDÀDES que iniciativas de reurbanização conseguem promoi cr a vitali- dade sociocconñtniczi nas cidades e quais praticas e ivrincipios a inviahilizam. Há Lnn mito ttostzilgico de que bastaria¡ termos tliitltciro sufi- ciente - a cifra geralmente citada fica em torno dc uma ccntcna de bilhões de dólares -› para erradicar todos os nossos eortiços em dez anos. reverter a decadência dos grandes bolsões apaga- dos c monótonos que foram os subúrbios de ontem e de anteon- tem. fixar a classe media itinerante e o capital circulante de seus intpostos c talvez até solucionar o problema do transito. Mas veja só o que construímos com os printciros rários bi- lhões: coniutttos habitacionais de baixa renda que se to¡ 'iaram núcleos de delinqüêncitt, vandalismo e desesperança social ge- ncralixadzt, piores do que os corticos que pretendiam substituir: conjuntos habitacionais de renda media que são verdadeiros mo- numentos à monotonia e a padronização. fechados a qualquer tipo de exuberâncitt ou vivacidade da vida ttrbanzt: COIIjLIHIUS ha- bitacionais tle luxo que atenuam sua vacuidade. ou tentam ate- nuzi-la. com uma vulgaridadc insipida; centros culturais incapa- Les de comportar uma boa livraria; centros civicos evitados por todos, exceto desocupados, que tem menos opções de lazer do que as outras pessoas: centros comerciais que são fracas imita- ções das lojas de rede suburbanas padronizadas; passeios públi- cos que vão do nada a lugar nenhum e nos quais itão hà gente passeando; vias expressas que evisceram as grandes cidades. ls- so não é reurbanizar as cidades. e' saquea-lzis. Sob as aparências. essas façanhas mostram-se ainda mais po- bres que suas pobres pretensões. Raramente favorecent as áreas urbanas à sua volta. como teoricamente deveriam. Essas áreas amputadas são normalmente acometidas de gaitgrena fulminan- te. Para alojar pessoas desse modo planejado, pregam-se etique- tas de preço na população, e cada coletividade etiquetada e se- gregada passa a viver com suspcição e tensao crescentes cm re- lação a cidade circundantc. Quando duas ou mais dessas ilhas hostis são justapostas_ denomina-se o resultado "bairro equilibra- do". Os . shop/ mig camara monopolistas e os ntonuirteittais centros culturais, com o espalhafato das relações públicas. encobrem a INTRODUÇÃO 3 exclusão do comercio r c também da cultura 7 da vida intima e cotidiana tlas cidades. Para que tais maravilhas sejam executadas, as pessoas estig- mati/ .zttlas pelos ivlancjatlores são intimidadas. cxpropriadas e de- senraizadas. como se eles t' em o poder dominante. Milhares e tnilhares de pequenos itegóetos são destruídos. c seus proprietá- rios. arruinados. e dificilmente recebem qualquer compen. ão. Comunidades inteiras são arrasadas e lançadas ao vento. colhen- do um cinismo, um ressentimento e um desespero diticcis de acre- ditar, Um grupo de sacerdotes dc Chicago, cscandttlizados com os Frutos da reurhzutização tnlnnejada da cidade. perguntou: Estaria . ló pcltsülult) em (Êliicztgt) quatndo escreveu: Há os que iolam os limites do proximo ( . . . ) ignoram os necessitados, cottspittam para oprimir os desamparatlos. (Lilam o campo que irão lhes pertence. csbttlltam a vinha injusta- mente tomada ao seu dono (m) Um clamor eleva-sc das ruas da cidade, ottde gcmem, deitados os feridos t , . )'7 Se assim tosse, ele Íanlbéln teria em mente Nova York. Fila- délfia. Boston, Vvlashington. St. Louis, São Francisco e vários outros lugares. O raciocinio econômico da reurbanização atual é um embuste. A economia da reurbanização não se baseia unica- mente no investimento racional atraves de subsídios públicos, como proclama a teoria da renovação urbana, mas também em vastos e involuntários subsídios, arraneados de vitimas locais in- defesas. E os resultados da elevação de impostos nesses lugares, auferidos pelas municipalidadcs em resultado desse “investimen- to", são uma miragem, um gesto lamentável e contraditório em relação às somas de dinheiro público cada vez maiores necessá- rias para combater a desintegração e a instabilidade que emanam llLPCldHdC cruelmente abalada. Os meios que a reurbanização pla- nejada utiliza são tao dcploráveis quanto scus fins. Ao mesmo tempo, toda a arte e a ciencia do planejamento ur- bano são incapazes de conter a decadência c a falta de vitalida-
  7. 7. 4 MORTE E VllJA Dt GRANDES UDADES de que a precede - de porções cada vez maiores das cidades. Essa decadência não pode nem mesmo ser atribuida, como con- solo, à falta de oportunidade de aplicar a arte do tvlrrnejamento. Parece não importar' muito sc cla c ou não aplicadai. Considere o exemplo da area de Morningsidc Heights, na cidade de Nova York. De acordo com a teoria do planejamento urbano. ela não deveria ter problema algum, já que possui areas verdes em abun- dância, campus, playgrounc/ .r c outras áreas livres. Dispõe de muitos gramados. Ocupa um terreno elevado e agradável, com magnífica vista do rio. É um núcleo educacional renomado, com instituições csplôndidas -r a Universidade de Columbia. o Union Tltcological Seminary, a Juilliard School ol' Music e mais meia dúzia dc outras tantas, que gozam de grande respei- tabilidadc. Dcsfruta do bons hospitais c igrejas. Não tem indús- trias. Suas ruas são zoncadas com o objetivo de evitar que “usos incompatíveis” invadam a privacidade dos sólidos c cspacosos apartamentos de classe média c alta. Ainda a m. no inicio dos anos 50, Morningside Heights transformou-se com tal rapido¡ cm zona de cortiços - do tipo no qual as pessoas scntcm medo de andar nas ruas - que a situação desencadeou uma crise para as instituições. Elas e os setores de planejamento da prefeitura reuniram-se, aplicaram um pouco mais da teoria urbanística. demoliram a maior parte da arca degradada local e construí- ram enr seu lugar um empreendimento cooperativado de renda media dotado de . shopping center e um conjunto habitacional, tudo entremeado de areas livres, luz. sol e paisagismo. Ele foi aclamado como uma excelente tlenronstração de recuperação urbana. Depois disso, o Morningside Heights decaiu ainda mais de- pressa. Esse exemplo não é nem injusto nem absurdo. Num número cada vez maior de cidades, tomam-se decadentes *justamente as regiões onde menos se espera que isso aconteça, à luz da teoria do planejamento urbano. Fenômeno menos percebido mas igual- mente significativo, num número cada vez maior de cidades, as regiões mais suscetíveis à decadência, segundo a mesmo teoria. recusam-sc a decair. INTRODUÇÃO 5 As cidades são um imenso laboratorio de tentativa e erro, fra- casso c sucesso. em tcrmos dc construção c desenho urbano, É nesse laboratorio que o planejamento urbano deveria aprender, elaborar c testar suas teorias. Ao contrário, os especialistas e os professores dessa disciplina (se e' que ela pode ser assitir chama- da) têm ignorado o estudo do sucesso e do fracasso na vida real, não têm tido curiosidade a respeito das razões do sucesso ines- perado c pautam-sc por' principios tlerivados do comportamento e da aparência de cidades, subrlrbios, sanatórios de tuberculose, feiras c cidades imaginárias perfeitas qualquer' coisa qrre não as cidades reais. Não é de estranhar a sensação de que os segmentos reurbani- zados das cidades c os infindáveis novos empreendimentos que se espalham para além delas reduzem a área Lrrbana e a rural a uma papa monororta criada nutritiva. Em primeira, segunda, ter- ccira c tluarta mão. tudo provém da mesma gororoba intelectual. uma gororoba em que as qualidades, as necessidades, as vanta- gens e o comportamento das grandes cidades têrrr sido inteira- mente confundidos com as qualidades, as necessidades, as van- tagens e o comportamento de outros tipos de assentamentos me- nos ativos, Não há nada que seja econômica ou socialmente inevitável tanto em relação ao declínio das cidades tradicionais, como cm relação à recent-inventada decadência da nova urbanização inur- bana. Ao contrário, nenhum outro aspecto da nossa economia e da nossa sociedade tem sido mais intencionalmente manipulado por todo um quarto de século com o fim de atingir exatamente o que conseguimos. Tem-se exigido um volume extraordinário de incentivos financeiros governamentais para obter esse nivel de monotonia, cstcrilidadc e vulgaridadc. As várias décadas dc dis- cursos. textos e exortações de peritos serviram para convencer a nós e aos legisladores de que uma gororoba dessas deve fazer- nos bem, desde que esteja coberta de granrudos. w Os automoveis costumam ser convenientemente rotulados de vilões e responsab izudos pelos males das cidades e pelos insu- cessos e pela inutilidade do planejamento urbano. Mas os efeitos rtocivos dos automoveis são menos a causa do que um sintoma
  8. 8. E MORTE EVlDA DE GRANDFS FlDADFÉ de nossa incompetência no desenvolvimento Lirbano. ("litro que os planejadorcs_ inclusive os engenheiros de tráfego, que dis- põcm dc tíibulosas somas em dinheiro c poderes ilimitados, não conseguem compatibilizar automoveis c cidades. Eles irão sa- bem o que fazer com os automoveis nas cidades porque não têm a minima idéia de como projetar cidades funcionais e saudáveis - com ou sem automóveis. As necessidades dos automoveis são mais facilmente com- preendidas e satisfeitas do que as complexas necessidades das ci- dades, e um número crcsccntc dc urbanisias e projetistas acabou acreditando que, se conseguirem solucionar os problemas dc trân- sito. terão solucionado o maior problema das cidades, As cida- des apresentam preocupações econômicas c sociais muito mais complicadas do que o trânsito de automoi eis, Conto saber que solução dar ao trânsito antcs de saber como funciona u própria cidade c dc que mais ela necessita nas ruas? É impossivel. 'Talvez nos tenhamos tornado um povo tão displiccntc, que não mais nos importcinos com o funcionamento real das coisas. mas apenas com a impressão exterior imediata e lâcil que clas transmitem. Sc for assim, há pouca esperança para nossas cida- des e provavelmente para muitas coisas mais em nossa socieda- de. Mas não acho que seja assim. Especificamente no 'aso do planejamento urbano. é (Slwio que uma grande quíllllltllldc dc pessoas sérias c sinceras 'c prco- cupa ¡noftinilamentc com construção c renovação. Apesar dc al- guma corrupção c da considerável cobiça pela vinha do proxi- mo. as intenções cm meio às trapzillizitlus são. no cômputo geral. exemplares. Planejadores. arquitetos do desenho urbano e aque- les que os sogucm cm suas crenças não desprezam consciente- mente a importância de conhecer o funcionamento das coisas. Ao contrário. esforcarain-se muito para aprender o que os santos e os sábios do urbanismo moderno ortodoxo (ilSSCfállll a rcsjncito de como as cidades tÍBVU/ 'Ítllll funcionar e o que dever/ t( scr bom para o povo e os negocios tlcntro (lclas, l" cs se : :terrain ll isso com tztl tlevocào. que, quando Lima realidade contraditória sc iii- terpõe, aincaçaitdo destruir o zipreiidizado adquirido a duras pe- nas, clcs colocam u realidade de lado. iNtRoouçAo 7 Analise, por exemplo. a reação do jilzineizimento urbano orto- doxo a um distrito de Boston chamado North End'. Trata-se de uma arca tradicional, de baixa renda_ que se mistura à indústria peszula da orla c c considerada pelas ziutoridades como a pior zona de corticos de Boston c uma vergonha municipal. Possui caracteristicas que todas as pessoas esclarecidas sabem ser noci- vas porque diversos eruditos disseram que o são. O North End não somente sc encontra colado 'a indústria como também, o que e pior. tem todos os tipos de atividades de trabalho e comércio complexmneiite misturados com as residências. Aprcsciita a mais alta densidade habitacional dc Boston, considerando o solo destinado ao Liso residencial, na verdade uma das mais altas con- centrações entre todas as cidades americanas. Tcni poucas zireas vcrdcs. As crianças brincam na rua. Em lugar de supcrquadras, ou mcsmo dc quadras suficientemente longas, possui quadras curtas; no jargão urbttnistico. a região é “inaltracadat, com ruas cm exc o". Os edillcios são antigos. Tudo o que se possa ima- ginar esta prcsuinivclntente errado no North End, Em termos do planejamento urbano ortodoxo, trata-sc do manual cm três di- mcitsões. de uma "mcga| ópole” nos (ultimos estágios da dctcrio- ração. O North liiid c, portanto, uma tarefa recorrente dos estu- dantes de urbanismo c arquitetura do MIT e dc Harvard, os quais invariavcliiicntc sc laiicam. sob it orientação dc scus professores, ao estudo da conversão do bairro cm supcrquzidras c passeios ar- borizudos. cxtinguiitdo scus usos discrcpantcs, translormantlo-o num ideal dt: ordem e refinamento tão simples que poderia ser gravado na cabeca de um ailfinctc. llá vinte unos. quando vi pela primeira vez o North End, suas construções - casas geminadas de tipos c tamanhos (literentcs con- vertidas em apaitanicntos c cditlcios residenciais de quatro ou cinco pavimentos. construídos par: : zihrigar as levas de imigrantes vin- tios primeiro da irlanda, depois da Europa Oriental e por fim di¡ Êicilia eram supcrpovozidas, e o panorama gcral cru dc um dis- ii-iio muito inaltraitzido c iniscravclineiite pobre. l “oi iAJUl, “ii-c um esvutg; Lá' ilortlt klui lnrm limnienlw ielerênmas a ele neste livro
  9. 9. 8 MORTE E VIDA DE GRANDES ClD/ DES Quando visitei o North End novamente em 1959. fiquei es- pantada com a tnudança. Dezenas c mais dezenas dc prédios ha- viam sido relortnados. No lugar de colchões encostados : is jane- las havia venezianas e a aparência de tinta tiesca. Muitas das Cíl- sinhas reformadas acolhiam então apenas uma ou duas famílias. em vez das três ou quatro que as lotavam antes. Algumas das familias desses prédios (como vim a saber mais tarde. ao conhe- cê-Ios por dentro) abriram mais espaço juntando dois dos anti- gos apartamentos, e tinham instalado banheiros, cozinhas novas e similares. Espiei por uma viela estreita, esperando encontrar pelo menos at' o velho e comhalidt) North End, tnas não: mais alvenaria de tijolos com acabamento esmerado, cortinas novas c som de tnúsica cjuandt) uma porta sc abriu. Sem tlúvidu. cssc foi o único distrito quejá vi - pelo menos até hojc - no qual as late- rais dos prédiosjttnto a estacionamentos irão ticarant sem acaba- mento ou mutiladas, mas foram rebocadtts c jiintadas com capri- cho, como que para scrcm admiradas. Misturadas aos prédios residenciais havia uma quantidade incrível de excelentes mer- ccarias. assim como casas dc estofamcnto, Serralheria. carpinta- ria e processamento dc alimentos. As ruas tinham vida com crianças brincando. gente Iazendo compras. gente jaasscando, gen- te falaitdo, Não fosse um frio dia dc janeiro. certamente haveria pessoas sentadas às portas. A atmosfera de alegria, companheirismo c bem-estar nas ruas era tão contagiante que comecei a indagar o endereco de pessoas só pelo prazer de ¡auxar conversa. Eu tinha visitado xvzirios luga- res dc Boston nos últimos dias, a maioria dclcs muito (lcpritncit- tes, e esse me surpreendeu, com alivio. como o lugar mais sadio da cidade. Mas cu não conseguia imaginar de onde tinha vindo o dinheiro para a revitalização, porque hoje e' quase impossivel obter qualquer financiamento hipotecário considerável em dis- tritos dc cidades nortc-: tmcr anas que irão . sejam tlc alta renda ou então arremedos de subúrbios. Para saber a resposta, ttii a um bar-restaurante (onde acontecia uma conversa animada sobre pescaria) e chamei um planejador de Boston meu conhecido. “Como e' que você veio parar no North EndT'. perguntou ele. “DinheiroY Não houve nem dinheiro nem obras no North End. INTRODUÇÃO 9 Não acontece nada por aqui. Quem sabe vá aicomcccr, mas ate' agora nada. Isto aqui e uma zona de cortiços! ” “A mim irão parece”, disse eu. “Ora. e' a pior zona de cortiços da cidade! Tem sessenta e sete ntoradias em cada mil metros quadrados! É terrivel admitir que temos uma coisa assim em Boston. mas e' verdade. " “Você tem outros dados sobre o bairroT', perguntei. “Sim, que engraçado! Figura entre os bairros da cidade que têm os menores indices de delinqüêtteia, doenças e tnortalidade infantil. Puxa. cssc jnessoal deve estar fazendo barganhas. Veja- mos. .. a população infantil está quase na média da cidade. A taxa de tnortalidttdc c baixa, 8,8 por mil. contra uma taxa média da cidade dc 11.2. O indice de Inortes por tuberculose é bem baixo. menos de uma por IO mil - não entendo como, é ainda mais baixa que a dc Brookline. Nos velhos tempos, o North End em o lugar da cidade em que mais havia tuberculose, mas isso mudou. Bom, vai ver que são pessoas fortes. Claro que c uma zona de cortiços horrivel. ” "Vocês precisavam' tcr mais zonas de cortiços como esta". disse eu. "Não mc diga que plancjant demolir tudo. Você devia ficar aqui para aprender o máximo possivel. ” “Eu sei o que você quer dizer”, disse ele. “Costumo vir até aqui só para andar pelas ruas e sentir cssc clinta maravilhoso das ruas. alegre. Olhe. sc gostou daqui agora, precisa voltar no ve- rão. Você ficaria doida por este lugar no verão. Mas claro que a gente vai ter de acabar reurbanizando o bairro. Temos de tirar essas pessoas das ruas. ” Aí está o curioso da coisa. Os instintos do meu amigo lhe diziam que o North End e' um ótimo lugar, c suas estatísticas so- ciais reafirntavam isso. Porém, tudo o que ele havia aprendido como urbanista sobre o que é bom para o povo e bom para os bairt s. tudo o que fazia dele um especialista, dizia-lhe que o North hnd tinha dc scr um lugar ruim. “ O principal banqueiro de crédito imobiliario de Boston, “um homem lá no topo da estrutura dc poder”. a quem fui indicada por meu amigo para realizar uma entrevista sobre dinheiro, con- firmou-me o que eu soube. nessc intcrim, das pessoas do North
  10. 10. 10MORTE E VlD/ DE GRANDES ClD/ DÉS End. 0 (lÍIIhCÍTO não tinha vindo pela graca do grande sistema bancário nortc-zimcricano. quc atualmente sabe distinguir um cortiço tào bem quanto os Lirbanistas. “Não tein sentido empres- tar dinheiro no North End". disse o banqueiro. “E um Cortiço! E ainda está recebendo imigrantes! Além do mais. na época da De- pressão houve um número enorme de hipotecas protestadas; Lima ficha ruim. " (Eu também ouvira falar disso, nesse meio tempo, e de como as familias tinham trabalhado e juntado recur- sos para comprar dc novo zilguiis desses prédios hipoteeadosrl O mais alto empréstimo hipotecário concedido nesse (llSlfllO de cerca de 15 mil habitantes, no quarto de século a contar da Grande Depressão. foi de 3 mil (lolarcs, revelou o banqueiro, “e para bem poucos dclcs”. llouvc outros dc mil c de 2 mil dólares. A obra dc revitalização foi quase toda financizicizi com a renda de negócios e aluguéis do próprio distrito. que foi rcinvestida. c com o traballio dc mutirão dos moradores e seus parentes. Nesse momento eu já sabia que a impossibilidade de pedir empréstimos para melhorias era um problema que exasperara os moradores do North End e que, alem do mais, alguns deles se sentiam incomodados pelo fato de parecer impossivel construir prédios novos no local, a não ser ao preço de eles iaroprios, e toda a comunidade, 'serem expulsos, de acordo com o sonho dos estri- dantes de um Eden urbano. destino que eles sabiam não ser só teórico. pois quase havia destruído completamente um distrito vizinho com caracteristicas sociais similares r embora fisica- mente maior r, chamado West End. Eles estavam preocupados também por saber que a tática de remendai' não podia durar eter- namente. “Existe alguma possibilidade de empréstimo para no- vas construções no North End? ”, perguntei ao banqueiro. “Não absolutamente nenhumaP', respondeu, denotando impa- ciência com minha estupidez. “Aquilo é uma zona de cortiços! " Os banqueiros, assim como os planejadores, agem de acordo com as teorias que têm sobre as cidades. hles chegaram a elas pelas mesmas fontes intelectuais dos planeiadores. Os banquei- ros e os oficiais administratii/ ris que garantem hipotecas não in- ventam teorias de planejamento, nem mesmo, surpreendentemen- te, uma Lloutrina econômica a respeito das cidades. lloie eles são lNl RODUÇAO H esclarecidos e tiram suas ideias dos idcalistas, com uma geração de atraso. Ja' q ue a teoria do planejamento urbano não ussimilou ideias novas importantes por hein mais que Lima geração, urba- nistzis, linaiicistas e burocratas praticamente sc cquiparain hoje em dia, Falando em termos mais Liiretos. todos clcs se encontram no mesmo estágio de elaborada superstição em que se encontrava a medicina no começo do filtimo seculo. quando os medicos acre- ditavam na sangria como recurso ; iara pllrgal' os humores noci- vos. os Liiiais. achava-sc, provocavzini a tloença, (Íoin relação à sangria. leram necessarios anos dc aprendizado para tletcrmiiiar prceiszimcntc quais teias. com quais procedimentos, Licveriani scr ziberleis. de 'acordo com quais sintomas. Moiitou-sc uma comple- xa supcrestriitura tecnica, e detalhada com tal cinismo, que a lí- tcratura a respeito ainda parece quase plausível. Todavia, dcvido ao fato de as pessoas. ainda quc inteiramente imersas em descri- ções da realidade que a contradigam, estarem ainda mais rara- mente privadas do poder de observação e discernimento, a cien- cia da sangria, durante a maior parte de seu longo dominio, pare- ce ter sido temperada em geral com certa dose de bom senso. Ou foi temperada até que atingisse o auge da técnica nos jovens Estados Unidos. mais que em outros lugares. A sangria foi Lima febre aqui. 'leve no Dr. Benjamin Rush um defensor de enorme influência, ainda reverenciado como o maior estadista médico do nosso periodo revolucionário e fedcralista e um gênio na ges- tão da saúde: o Di: Rush-Faz. Entre as coisas que ele fez, algu- mas boas e úteis, estão aprimorar, praticar, ensinar e difundir o costume da sangria nos casos em quc a prudência e a compaixão tinham restringido seu uso. Ele e seus alunos drenavam o sangue de crianças bem pequenas, de tuberculosos, dos muito idosos, de quase todos aqueles que tivessem a infelicidade de adoceer em sua área de influência. Suas praticas radicais provocaram alanne e horror nos medicos llebotomistzis europeus. Apesar disso, ain- da cm l85l_ nina comissão designada pela Assembleia Legisla- tiva dc Nova York corroborou o uso intensivo da sangria. (Íom coiituiidêncin_ a comissão ridieularizou e ccnsiirou um médico, Vvilliain Turner. que teve a ziiidácia de escrever um panfleto criti-
  11. 11. 12 MORTE E VIDA DE GRANDES CIDADES cando os métodos do Di'. Rush e definindo “o procedimento de tirar sangue de doentes como contrário ao senso comum, à expe- riência geral, às mentes esclarecidas e às leis mzmifestas da div i- iia Providência”. Os doentes precisavam ganhar forças c não per- der sangue, afirmou o Dr. Turner, posteriormente obrigado a calar-se. Analogias médicas, transpostas para os organismos sociais, tendem ao artificialismo, e não há como confundir a quimica dos mamíferos com o que acontece numa cidade. Mas são vali- das, sim, as analogias sobre o que se passa no cérebro de pessoas sérias e cultas que lidam com tenômenos complexos, não os compreendem e tentam contentar-se com uma pseudociêneia. Como na pseudociência da sangria, também na pseudociôncia da reurbanização e do planejamento urbano, anos de aprendiza- do e uma infinidade de dogmas misteriosos e intrincados apoia- ram-se num alicerce de absurdos. Os instrumentos tecnicos foram constantemente aperfeiçoados. Naturalmente, com o tempo, ho- mens dedicados e capazes, administradores admirados. depois de engolir as premissas falaciosas e dispondo dos instrumentos c da confiança pública, cometem logicamente excessos o mais destrutivos possivel. que teriam sido anteriormente desaconse- lhados pela prudência e pela compaixão. A sangria só curava por acaso ou na medida em que desrespeitasse : is regras. até que foi substituída pela dificil e complexa atividade de reunir, Lisar e comprovar pouco a pouco descrições verdadeiras da realidade. baseadas não em como ela deveria ser, mas em como ela e. A pseudociência do planejamento urbano e sua compaitheira. a arte do desenho Lirbzino. ainda não se alustarziin do conforto ilu- sório das vontades, das superstições conhecidas, do siinplisino e dos simbolos e ainda não se lançaram na aventura de investigar o mundo real. Assim. neste livro (lCVCFUITlUS começar tl zlYCIlltIFtlF-IIOS nos mesmos no mundo real, *ainda que modcstamcnte. A maneira de tleciliai' o que ocorre no Ct)I'I1p0|'l2II¡lCl1l() aparentemente miste- rioso e indomavcl das cidades e. em niiiilizi opinião. observar mais de perto. com o mínimo de expectativa possiicl. as cenas e INTRODUÇÃO 13 os acontecimentos mais comuns_ tentar entender o que signifi_ cam e ver se surgem explicaçfies entre eles. E isso o que procuro fa7er na primeira parte deste livro. ã Um. dos principios mostra-se tão onipresente, e em formas tao variadas e tão complexas, que volto minha atenção para sua natureza na segunda parte deste livro, a qual constitui o cerne da minha argumentaçao. Esse principio onipresente é a necessidade que as cidades tem de uma diversidade de usos mais com exa a t ' ~ p e 31156. que propicie entre eles uma sustentaçar) mútua e constan- te, tanto economicaquanto social. Os componentes dessa diver- sidade podem diferir muito, mas devem complementar-se con- eretamente. Acho que as zonas urbanas malsucedidas são as que care- cem desse tipo de sustentação mútua complexa e que a ciência do planejamento urbano e a arte do desenho urbano, na vida real e em cidades reais, devem tornar-se a ciência e a arte de catali- sar e nutrir essas relaçoes funcionais densas. Pelas evidências de queldisponho. concluo que existem quatro condições pri. mordiais para gerar diversidade nas grandes cidades e que o planeiamento urbano, por meio da indução deliberada dessas quatro condiçoes, pode estimular a vitalidade urbana (coisa que os planos dos urbanistas e os desenhos dos projetistas em si “uma Wnscgulrãül. enquanto a Parte 1 enfoca principalmente o comportamento social da população urbana e é imprescindí- vel para compreender as seguintes, a Parte 2 aborda principal- mente o desempenho economico das cidades e e a mais impor- tante deste livro. As cidades são locais tantastieamente dinâmicos, o que se aplica inteiramente a suas 'zonas prósperas, que propiciam solo lertil para os planos de milhares de pessoas. Na terceira parte do livro. examino alguns aspectos da decadencia e da revitalização. a lll/ de como as cidades são usadas e como elas c sua população se comportam. na vida real, A última parte tlestc livro sugere mudanças nas práticas de 1511171111050.trânsito. projeto, planeiameiito e zidministraeão. c dis- LUiL'. por liin. o ! um de problema que as cidades apresentam iini prolilciiiix de maiieizir a eoiiiplexidzitle ordenada.
  12. 12. |4 MORIE EVllJA DE GRANDES ClD/ DES A aparência das coisas c o modo como ñlnClUndlYi estão inse- parzivelmente unidos. c muito mais nas cidades do que em atual- quer outro lugar. Porem, quem está interessado apenas em como uma cidade “deveria” parecer e Llesintcrc *ado de como funciona ficará desapontado com este livro. É tolicc jalaneiur a aparência de uma cidade sem saber que tipo de ordem inata e funcional ela possui. Encarar a aparência como objetivo primordial ou como preocupação central não leva a nada, anão ser a problemas. No East Harlem dc Nova York há um conjunto habitacional com um gramado retangular bem destacado que sc tornou alto da ira dos moradores. Uma a. tcntc social quc está sempre no conjunto ficou abismadzi com o número dc vezes que o assunto do gramado veio à lvailzi. em geral gratuitamente. jiclt» que ela podia perceber. e com a intensidade com que os moradores o detestavam e exigiam que fosse retirado. Quando ela perguntava qual a causa disso, a resposta comum era: "Para que serveil". ou “Quem foi que pediu o gramado? ” Por fim. certo dia uma mora- dora mais hein articulada que os outros disse o seguinte: “Nin- guém se interessou em saber o que queriamos quando construi- ram este lugar. Eles demoliram nossas casas e nos puseram aqui e puseram nossos amigos em outro lugar. Perto daqui não hd um único lugar para tomar um café, ou comprar um jornal, ou pedir emprestado alguns trocados. Ninguém se importou com o que precisávamos. Mas os poderosos vêm aqui, olham para esse gra- mado e dizem: “Que maravilha! Agora os pobres tem de tudol' "' Essa moradora estava dizendo o que os moralistas disseram por milhares de anos: as aparências enganam. Nem tudo o que reluz e' ouro. E dizia mais: há um aspecto ainda mais vil que a feiúra ou a desordem patentes. que e a mascara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprczo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir c ser atendida. Na tentativa de explicar 21 ordem subjacente das cidades. uti- lizo muito mais exemplos de Nova York porque c iii que moro. (Íontitdo, a Inaioriii das ideias básicas presentes neste livro vem de pztrticularitliitles que percebi em outras cidades ou que me lio- ram contadas. Por exemplo, meu primeiro vislumbro sobre os lNTRODUC/ Cl 15 poderosos efeitos de certos tipos de combinações funcionais nas cidades deve-se u Pittsburgh; minhas primeiras especulações sobre u segurança nas ruas, a Filadélfia e Baltimore: minhas primei us noções dos meandros do centro urbano, :i Boston; mi- nhas primeiras pistas sobre erradicação de cortiços. a Chicago. A maior parte do material para essas retlexõcs estava diante da porta de casa. mas talvez seja mais fácil perceber as coisas pri- meiro onde elas ttâo são familiares. A ideia fundauneiital - tcn- tar entender a mtrinczida ordem social c econômica sob a apa- rente desordem das cidades não era ntinlia. mas de William Kirk, chefe do Núelct) Comunitário Llnion, no East l-larlem. Nova York, o qual. ao me mostrar o East llarlem. ntostrou-me uma tnaneira de observar também outros bairros e centros urbanos. Lin todos os casos. tentei cotejar o que vi ou ouvi nas cidades ou nos bairros para descobrir a relevância dessas lições em ou- tros contextos. Concentrci-me nas cidades grandes e em suas áreas internas porque essa e' a questão mais constantemente negligenciada na teoria urbanística. Acredito que isso possa ter uma utilidade aiitda maior à medida que o tempo passar. já que várias das áreas urbanas de hoje com os piores problemas - e nitidamente os mais embaraçosos - eram subúrbios e áreas residenciais nobres e tranqüilas ha não muito tempo; é provável que muitos dos novos subúrbios ou semi-subúrbios venham a ser engolidos pelas cida- dcs c tenham sucesso ou não enquanto tais, de acordo com sua adaptação ou não à função de distritos urbanos. Além do mais. pai *er franca, prefiro as cidades densamente povoadas e me importo mais com elas. No entanto, espero que o leitor não entenda minhas observa- ções como um guia do que ocorre nas cidades, nas pequenas ci- dades ou nos subúrbios que se mantêm periféricos, Cidades, su- búrbios e ate' mesmo cidadczinhas são organismos totalmente diferentes das metrópoles. Já estamos numa ettrascada enorme por tentar entender as cidades grandes com base no comporta- metito e no suposto funcionamento das cidades menores. Se len- tarnios entender as cidades menores com base nas metrópoles, a confusão será ainda maior.
  13. 13. 16 MORTE E VIDA DE GRANDES ClDADES Espero quc todos os leitores dcstc livro comparem constante c ccticamcnte o que digo com seu próprio conhecimento acerca das cidades c dc scu funcionamento. Caso haja imprecisões nas observações ou erros nas inferências c conclusões a que che- guci, espero que tais falhas sejam rapidamente rctificzidas. O cerne da questão e' que precisamos urgentemente adquirir e apli- car o mais rapido possivel todo conhecimento sobre as cidades que seja útil e verdadeiro. Tenho feito afirmações àsperas a respeite da teoria Ltrbanisti- ca ortodoxa c devo voltar a faze-las quando isso se mostrar ne- cessário. lloje em dia, essas idéias ortodoxas fazem parte do nos- so folclore. Elas são prejudiciais porque as encaramos como na- turais. Para mostrar como surgiram e evidenciar sua parca rele- vância, exporei aqui as linhas gerais das ideias mais influentes que contribuiram para as verdades do planejamento e do dese- nho arquitetônico urbano ortodoxos modernos', A vertente mais importante dessa inllttênciat começa mais ou menos com Ebenezer Howard, repórter britânico de tribunais, cujo jaassatempo era o urbanismo. Howard observou as condi- ções de vida dos pobres na Londres do final do seculo XIX c com toda razão não gostou do que cheirou, viu e ouviu. Ele detestava não só os erros c os equívocos da cidade. mas a própria cidade, e considerava uma desgraça completa c uma ati*ottte1 à natureza o fato de tetntus 17035035 terem de conviver aglomeradas. Sua recei- ta para a salvação das pessoas cra acabar com a cidade_ Ele propôs, em 1898. um plano para conter o crescimento dc Londres c também¡ repovoar a zona rural. onde as vilas estavam 7. os leitores que auiseiem um relato mais Lulllplttk) t' llmd abordagem Willi : oncoideins o que a minha não b, devam ir direto as toutes, que sao bem irteiessaiitos, .Jllllílort mcme Cai- den Cities ol foiriorrcivt' [A5 (idades Jardins de amaiihàl, de FDEPEZEl Hoxvaid lhe Culture oi' Cities lA cultura das cidadesl, do LOWH Mtiirlord, Cities in Evolution líioaoes em ÊlrOiULdUi de sir vaiiiit tir-ativa, It/ lor/ rrn Hotisiiiq [Hüullglgdo lllLlliUYllt-ll, tir» i, it'ililrll(' Hi iii Ínwartf Art-N low/ i: iai Aiiiorira iroi novm t-iiiaiies nm rLi/ xi_ de C aierite sieiri, /VuYii/ 'it/ /Iti/ “Utf . lzy Ól/ UHiUWd/ Hg iN. io ii. 'i vantagens na SUpEIOlLiÇJDI, tie sir lin/ 'Yriliti uiwiii e me c i rir Tomorrow and its F/ aIHl/ nt] lA iitirttil' (iU dlllillliltl ri *mil pltillqümüñlül, de Le 'iilr L' o 'Melhor apanhado que (OUHOÇO e Lim roniunto de terms soh o 'lltlitl 'A”i^iii'tin'ltlt" rl «i Gnrrils ot í ity itlaiinirig" Piemissas e tutela: (IU piaiitiiaiiieiito Ufiidllüj, ieuvicius LN iaiiii-tre Piiliitwig¡ A (a-, utrooi rm IÍIt' im / Wiñtlxb and Rei-use of Urban Land lPla ltljcltülill. do iSU do : oo estudos de (E205 sobre ttso, matt iitti r- remo do mio irhanol_ rle Cliai e: 'ti Hmil lNlRODUÇAO |7 cm decadência, construindo um novo tipo de cidade. a (lidade- . lardim, onde os pobres da cidade poderiam Voilíll' a viver em contato com a natureza. Assim, eles ganharinm a vida; a indús- tria sc instaleirizt na LÍidade-Jardim. visto que Howard não proje- tava cidades. nem cidades-dormitórios. Sua meta era criar cida- dezinhas auto-suficientes, cidades realmente muito agradáveis se os moradores fossem dóceis. não tivessem projetos de vida próprios e não se incomodassetn em levar a vida em meio n pes- soas sem projetos de vida proprios. Como ein todas as utopias, o direito de possuir projetos de qualquer significado cabia apenas aos ttrbaitistas de plantão. A Cidadc-Jttrditn deveria ser rodeada por um cinturão agricola. A indústria ficaria em território prede- terminarlo: as escolas, as moradias e as áreas verdes. ettt territó- rios residenciais predetertninados; c no centro ficariam os esta- belecimentos comerciais. esportivos e culturais, partilhados por todos. O conjunto da cidade c do cinturão verde deveria ser pcr- manentemcttte gerido pela administração pública sob a qual a cidade tivesse itascido. de tnodo a evitar a especulação ou mu- danças supostamente descabidas no uso da terra, c também a afastar' a tentação de aumentar sua densidade - resumindo, a evi- tar que ela se tornasse uma cidade grande. A população tnáxima não deveria Liltrapas '30 mil habitantes. Nathan Glazer resumiu bcm essa visão em / lrv/ iitccIu/ ul Fo- rum: “A aparência era a de uma cidade rural inglesa. com a man- são senhorial c scus jardins substituídos por um centro comuni- tzirio c algumas fábricas escondidas atras de uma cortina de air- vorcs para gerar trabalho. " 0 equivalente ttorte-amcricano mais próximo talvez 'cja o da cidade empresarial modelo, com distribuição de lucros, e a ges- tão da vida politico-cívica cotidiana a cargo da Associação de Pais c Mestres. Howard vislumbrava não apenas um novo am- biente e uma nova vida social, mas uma sociedade politica e eco- nomicamente paterna] ista. lirduvitt, como Glnzer assinalou, tt Cidade-Jardin¡ foi "con- cebida como uma alternativa a cidade c como uma solução para os pFDbiClnálS ttrbanus: cssc foi, e ainda é_ o ttliccrce de seu imcn- so poder conto conceito dc planejamento ttrbniio”. Howard con-
  14. 14. 18 MOR"? E Vl7^ DE bR/ NDESClD/ DES seguiu que se construissem duas Cidade rdins. LCÍClIVtUFIlI e Welwyn, e e claro que a Inglaterra e a Suecia eriginutt. depois da Segunda (iuerra Mundial. várias cidades-satélites baseadas nos principios da (lidade-Jardim. Nos listados Unidos, o sitbrtrbio do Kadburn, Nova Jersey, e as cidades de cinturóes verdes t na verda» de, subúrbios), financiadas pelo governo e construídas durante 2 Depressão, foram todas adaptações incompletas daquela idéia. Porem, a intluôttcia do plano de Howard, que teve aceitação cx- preSsa. ou razoavelmente expressa_ não *a nada em comparação com sua influência nos conceitos subjacentes a todo o jalaneja- mento urbano itorte-antericaito atual. Plancjztdorcs itrhanos e jarojetistas sem interesse pelo modelo da (Íidttrle-. larditn ainda se pautam intelectualmente por seus princípios littndamentais. Howard trouxe a baila ideias efetivas para a destruição das cidades: ele compreendeu que a melhor maneira de lidar com as funções da cidade era selecionar e separar do todo os Lisos sim- ples e dar a cada um deles uma independência relativa. Cotteen- trou-se na oferta de moradias adequadas como Ljuestãt) prioritá- ria, à qual todas as outras se subordinavatn: além do mais. defi- niu uma moradia adequada de acordo com as caracteristicas lisi- cas dos núcleos suburbanos e com as características sociais das cidades de pequeno porte. Ele achava que o comercio deveria fa- zer o fornecimento rotineiro e padronizado de mCFCLtdttfÍilS e mClldCl' a um mercado restrito. Concebia o planejamento como uma serie de ações estáticas: em cada caso. o plano deveria pre- ver tudo o que fosse necessário e. depois de posto em prática, deveria ser protegido contra quaisquer alterações. ainda que mi- nimas. Também entendia o planejamento como essencialmente paternalista. quando não rtutoritario. Não se interessava pelos as- pectos urbanos que não pudessem ser abstraidos para servir a sua utopia, Descartou particularmente a complexa e multi faceta- da vida cultural da metrópole. Não tinha interesse em questões como segurança pública, troca de idéias. funcionaunenttt politico ou criação de novas saidas econômicas nas grandes cidades, nem dava atenção à criação de rtovas maneiras de Fortalecer essas atribuições, porque, afinal, esse tipo de vida não estava em seus planos. WTRODIJCAO 19 'latnto em suas preocupações quanto em suas omissões, Iloward era justitcavel sob seu ponto de vista. mas não soh o ponto de ista urbautistictt. Ainda assint. praticamente lodo o planejamen- to urbano moderno e' uma adaptação ou um remetido desse ma- terial absurdo. A intlttencizi de Howard no planejamento urbano norteame- rieano chegou a cidade por duas xrertcittes: de um lado. urbanis- tas regionais e de cidades tnenores e. de outro. arquitetos. Na tri- lha do ttrbttnismo. Sir PLlÍYÍCl( Geddes, biólogo e filósofo esco- cês. via a ideia da (Éidade-Jztrtlim não conto um tnodo fortuito de a similar o crescimento populacional que de outra lorma se diri- giria a uma grande cidade. mas como juonto de partida para um modelo tnuiio mais grandioso e álbfílllgcllle. lile imaginatva o plklllejamettlo de cidades em termos do planejanteittt) de regiões inteiras. Com o planejantento regional, as (Iidades-Jarditts podc- riam ser distribuidas racionalmente por amplos territórios, im- trieando-sc com recursos ttztturais. em equilibrio com a agricul- tura e os bosques. formando um todo lógico e esparso. As idéias de Hotvard e (ieddes foram *adotadas com entusias- mo nos Estados Unidos durante os anos 20 e ampliadas por um grupo de pessoas extremamente eficientes c dedicadas, entre elas _ewis Mumford. Clarence Stein, o fetlceido Henry Wright e Ca- therine Butter. Embora se definisscitt como planejadores regio- nais_ tnais recentemente (l : tltcrine Bauer denominou esse grupo os “descentralizadores", ttome mais acertado, uma vez que o re- sultado imediato do planejamento regional, segundo a visão de- cs, deveria ser descentralizar as grandes cidades, reduzi-las, e dispersar as empresas e a população em cidades menores e sepa- radas. Naquela época. tinha-se a impressão de que a população itorte-atneriearta estava envelhecendo e parando de crescer, e o wroblema parecia ser não acomodar uma população em rápido crescimento_ mas redistribuir uma população estática. Como ocorreu com o próprio Howard, a intluência desse gru- vo lTtLlIe1'iá1li7_0l| ›'C menos na obtenção da aceitação expressa a seu plano - que não deu em nada r do que no plancjantento ur- 721110 e na legislação relereittc n ltztbitaçãr) e a recursos financei- ros habitacionais. Os projetos residenciais ntodclo de Stein e
  15. 15. zo MORTE e VlDA DE GRANDES ClDADES Wright, feitos principalmente para ambientes suburbanos ou para a periferia das cidades, juntamente com apontamentos e diagra- mas, esboços e fotografias fomecidos por Mumford e Bauer, de- monstraram e popularizaram idéias como estas, que hoje são rnquestronáveis no urbanismo ortodoxo: a rua e' um lugar ruim para os seres humanos; as casas devem estar afastadas dela e voltadas para dentro, para uma área verde cercada. Ruas nume- rosassão um desperdício e só beneficiam os especuladores imo- biliários, que determinam o valor pela metragem da testada do terreno. A unidade básica do traçado urbano não e' a rua, mas a quadra, mais particularmente, a superquadra. O comércio deve ser separado das residências e das áreas verdes. A demanda de mercadorias de um bairro deve ser calculada “cientificamente”, e o espaço destinado ao comércio deve ater-se a isso, e a nada mais. _A presença de um número maior de pessoas e', na melhor das hipóteses, um mal necessário, e o bom planejamento urbano deve almejar pelo menos a ilusão de isolamento e privacidade, como num subúrbio. Os descentralízadores também insistiram nas premissas de Howard de que uma comunidade planejada deve ser ilhada, como uma unidade auto-suficiente, deve resistir a mudanças futuras e todos os detalhes significativos devem ser controlados pelos planejadores desde o inicio e mantidos dessa maneira. Em suma, o bom planejamento era o planejamento pre- viamente projetado. Para reforçar e intensificar a necessidade de uma nova ordem das coisas, os descentralizadores continuaram martelando na tecla do desprezo às cidades antigas. Não tinham curiosidade acerca dos sucessos das metrópoles. Interessavam-se apenas pe- los fracassos. Tudo era fracasso. Um livro como The Culture of Cities, de Mumford, era em grande parte um catálogo mórbido e tendencioso de mazelas. A cidade grande era a Megalópole, a Tiranópole, a Necrópole, uma monslruosidade, uma tirania, uma morta-viva. Deve desaparecer. A área central de Nova York era o “caos petrificado” (Mumford). A forma e a aparência das cida- des não era senão “um acidente caótico (. ..) um apanhado dos caprichos fortuitos e antagônicos de pessoas individualistas e mal avisadas" (Stein). Os centros urbanos resumiam-se “à pre- INTRODUÇÃO 21 ponderância de barulho, sujeira, mendigos, suvenires e anúncios competitivos e insistentes" (Bauer). Como pode valer a pena tentar compreender uma coisa tão ruim? As análises dos descentralizadores, os projetos arquitetô- nicos e habitacionais que acompanhavam essas análises e deri- vavam delas, a legislação federal de habitação e de financiamen- to habitacional diretamente influenciada por cssa visão -- ne- nhum deles tinha relação alguma com a compreensão das cida- des ou a manutenção de metrópoles prósperas, nem tinham tal intenção. Eram justificativas e meios para descartar as cidades, e. os descentralizadores eram francos a esse respeito. Contudo, nas escolas de arquitetura e urbanismo, e também no Congresso, nas assembléias legislativas e nas prefeituras, as idéias dos descentralizadores foram sendo gradativamente assimiladas como as linbas-mestras de uma abordagem construtiva das pró- prias metrópoles. Esse é o acontecimento mais espantoso de toda essa lamentável história: as pessoas que queriam sinceramente fortalecer as cidades grandes acabaram adotando as receitas niti- damente arquitetadas para minar sua economia e destroi-las. O homem que teve a idéia mais espantosa a respeito de como colocar todo esse planejamento anticidade diretamente dentro das próprias cidadelas da iniqüidade foi o arquiteto europeu Le Corbusier. Ele planejou nos anos 20 uma cidade imaginária que denominou Ville Radieuse, composta não dos prédios baixos, tão caros aos descentralizadores, mas principalmente de arra- nha-céus dentro de um parque. “Imagine que estamos entrando na cidade pelo Grande Parque”, escreveu Le Corbusíer. “Nosso carro veloz toma a rodovia elevada especial entre os majestosos arranha-céus; ao chegar mais perto, vemos contra o céu a suces- são de vinte e quatro arranha-céus; à esquerda e à direita, no en- torno de cada àrea especifica, ficam os edificios municipais e administrativos; e circundando esse espaço, os prédios universi- tários e os museus. A cidade inteira e um Parque. ” Na cidade vertical de Le Corbusier, a massa da população seria alojada a uma taxa de 296'habitantes por mil metros quadrados, uma den- sidade urbana sem dúvida fantasticamente alta, mas, em virtude das construções altas, 95 por cento do solo permaneceria livre.
  16. 16. 22 MORTE E VlDA DE LrRANDES UDADES Os arranha-céus ocupariam apenas 5 por cento do solo. As pcs- soas de alta renda ficariam nas moradias mais baixas e luxuosos. ao redor de pátios, com 85 por cento de área livre. Aqui e acolá lrziverin restaurantes e teatros. Le Corbusicr planejava não apenas um ambiente fisico: pro- jetava também uma utopia social. A utopia de Lc Corbusier era uma condição do que cle chamava dc liberdade individual máxi- ma. com o que elc aparentemente sc referia não à liberdade de fazer qualquer coisa, mas a liberdade em relação à rcspoirsabili- dade cotidiana. Em sua Ville Radieuse, supostamente ninguém teria mais a obrigação dc sustentar o irmão. Ninguém teria de sc preocupar com planos próprios. Ninguém deveria ser lollrírlo. Os descentralizadores c outros leais defensores da Cidade- Jardim ficaram pasmos com a cidade dc Le Corbusier -- cspigõcs num parque - e ainda estão. A reação delcs foi. e continua sen- do, muito parecida com a de professores de uma escola maternal progressista diante de um orfanato profundamente burocrático. F, apcsar disso, ironicamente, a Ville Radieuse provem direta- mente da Cidade-Jardim. Le Corbusier assinriloir a imagem fun- damental da Cidade-Jardim. ao menos superficialmcrrte, e em- penhou-se em torna-la prática em locais densamente povoados. Definiu sua criação como uma Cidade-Jardim factível. “A Cida- de-Jardim é uma quimcra", escreveu. “A natureza desintegra-sc com a invasão de ruas c casas, e o prometido isolamento trans- forma-se numa comunidade superlotada f. ..) A solução está na “Cidade-Jardim vertical ' Tambem em outro sentido, na acolhida relativamente fácil do público, a Ville Radieuse de Le Corbusier dependia da Cidade- Jardim. Os planejadores da Cidade-Jardim e um séqttito cada vez maior de reformadores habitacionais, estudantes e arquitetos popularizavam sem descanso os conceitos de superquadra. bair- ro projetado, plano imutável, e granmdos, gramados, gramados; além do mais, estavam conseguindo firmar esses aspectos como simbolos de um urbanismo humano, socialmente responsavel, funcional c magnânimo. Le Corbusier não precisarva de lbrmu alguma justificar sua visão com argumentos humanos ou funcio- nais. Se o grande proposito do ¡ilancjzmrento urbano era Christo- iNTRODUC/ XO 23 phcr Robin poder dar pulinhos no gramado, qual era o erro de Le Corbusic i7 Os protestos dos (iescentrzilizadores contra a parlroirizncão, a mecnni ' ao, a despersonificação soaram para zilguirs como um scctarisnio tolo. A cidade dos sonhos de Le Corbusier teve enorme impacto cm nossas cidades, l-'oi aclamada delirantemente por arquitetos c acabou assimilada em inúmeros projetos, de conjuntos habita- cionais de baixa renda n edificios de escritórios. Alem dc tornar pelo menos os principios superficiais da Cidade-Jardim superfi- cialmentc aplicáveis a cidades densnmente povoadas. o sonho de le Corbusicr continha outras maravilhas. Elc procurou fazer do planejamento para automoveis um elemento essencial de seu projeto, c isso cru Lima idéia nova e empolgante nos anos 20 e início dos anos 30. Elc traçou grandes artérias de mão única para trânsito expresso. Reduziu o número de ruas, porque “os cruza- mentos são inimigos do tráfego”. Propõs r as subterrâneas para veiculos pesados e transportes de mercadorias, e claro, como os plartejadores da Cidade-Jardim, manteve os pedestres fora das runs e dentro dos parques. A cidade dele era como um brinquedo mecânico maravilhoso. Além do mais, sua concepção, como obra arquitetônica, tinha uma clareza, uma simplicidade e Lima harmonia fascinantes. Era muito ordenada, muito clara, muito fácil de entender. Transmitia tudo num lampejo, como um bom airúrtcio publicitário. Essa visão e seu ousado simbolismo eram absolutamente irresistiveis para urbanistas, construtores, proje- tistas e também para empreiteiros, financiadores e prefeitos. Ela deu enorme impulso aos “progressistas” do zoneamento, que redigiram normas elaboradas para encorajar os construtores a reproduzir ainda que parcialmente o sonho. Não importava quão vulgar ou acanhado fosse o projeto, quão árido ou inútil o espa- ço, quão monótona fosse a vista, a imitação de Le Corbusier gri- tav “Olhem o que eu fiz! ” Como um cgo visível e enorme, ela representa a realização de um individuo. Mas, no tocante ao fun- cionamento da cidade, tanto cla como a C idade-Jardim só dizem mentiras. Embora os descentralizadores, devotados an ideal de uma vida cômoda de cidade do interior, irunca tenham concordado com a
  17. 17. 24 MORTE E VIDA DL GR/ NDEÊ CIDADES visão do Le Corbusier, a maioria dc seus discípulos concordou. Hoje, praticzimente todos os projetistas urbanos requintados har- monizam vários aspectos das duas concepções. A tecnica de reurbanização que leva nomcs variados, comi) “remoção seleti- va" ou “revitalização localizada" ou “plano de revitalização" ou “conservação planejada" - querendo referir-se à proibição de erradicação total de uma área degradada - c' principalmente uma artimanha para vcr quantos prédios antigos serão mantidos em pé e ainda assim converter o local numa versão aceitável da Cidade-Jardim Radicuse. Tecnicos cm zoneamento. engenheiros de tráfego, legisladores, técnicos do Liso do solo urbano c plane- jadores de parques e playgrouncls - nenhum dos quais vive num vazio ideológico - utilizam constantemente. como pontos de referência fixos, essas duas concepções influentes e a concepção mista, mais sofisticada. Eles podem ir de uma visão à outra, po- dem usar uni mcio-terino, podem vulgarizá-las. mas clzis são os pontos de partida. Vamos abordar rapidamente outra vcrtcntc do planejamento urbano ortodoxo, menos importante. Ela lCC inicio mais ou menos na Columbian Exposition dc (Íhicago. ein 1893, quase na mesma época em quc Iloward formulavu as idéias da Cidade- . lardim. A exposição do (Íhicago (lesconsidcrott a sugestiva ar- quitetura moderna quc dcspontara na cidadc c prcfcriu colocar em cena uma imitação rctrógriitla do estilo reitascentista. No pa- vilhão da exposição. alinhavam-sc monumentos pesados c gran- diosos, como telhados congelados dispostos numa bandeja. nu- ma especie de premoiiição tlecorzitla c esparrainuda das ultima- mcntc repetitivas fileiras dc espigões de Lc Corbusier num par- que. Essa reunião orgiiisticrt do opulento c do monumental atraiu a atenção tanto dos planejadores quanto do público. Deu impul- so a um movimento chamado City Beautiful, e, aliás. a organiza- ção da exposição foi comandada pclo homem que se tornaria o ¡iriiicipal planejador do City Beautiful. Daniel Buriiliain. de (Íhicago. A meta do City Beautiful cra a Cidade Monumental. Foram traçados projetos dc um complexo de bulevarcs barrocos. a maio- ria dos quais não rcsultou em nada. O que resultou do movimen- lNTRODUCAÔ 25 to foi o Centro Monumental, apresentado em maquete na . expo- sição. (lidade apos cidade construiu seu centro administrativo ou seu centro cultural. Esses edificios foram dispostos ao longo de hulevares, como o Benjamin Franklin Parkway, cm Filadélfia, ou em esplanadas, como o Government Center, de Cleveland. ou eram ladcados por um parque. como o Civic Center de St I:0u1S. ou se inisturavain a uma espécie de paique. como o Civic (enter de São Francisco. Não importa onde estivessem. o ccritu da questão era que esses edificios monumentais haviam sido apar- tados do rcsto da cidade e agrupados para criar Lim efeito o mais grandioso possivel. dando ao conjunto um tratamento de unida- de completa. separada e bcm definida. ç ü A A população orgulhava-se dclcs, mas esses conjuntos irao ti- vcram sucesso. Em primeiro lugar, invariavelmente a cidade normal à volta deles decaia em vez dc prosperar. e elcs sempre ; iti-aiam uma vizinhança incongrucnte de salões de tatuagem wjos e lojas de roupas usadas. quando não apenas uma decaden- cia indescritivcl. c deprimente. Em segundo lugar: as pessoas ficavam visivelmente longe deles Quandoa cxposlçfio S? 10mm' parte da cidade. por alguma razao as coisas nao luncionaram como na exposição. _ _A _ _ _ A zirquitetura dos centros monumeittais da City Bcautitul saiu dc moda. Mas a concepção não foi tjuestionaditc nunca teve tanta força quanto hoje. A idéia dc separar certas funçoes publi- cas e culturais c tlcscontaminá-las da cidade rcal casava-_sc bcm com os preceitos da Cidade-Jardim. Os conceitos tundiranÀi-sc harmoniosamente. quzise como a Cidadc-Jardime a Ville 'Radieu- se se fundiram. numa espécie de Cidade-Jardim Beautiful Ra- dieuse. como o imenso empreendimento da Lincoln Square dc Nova York, no qual o monumental centro _cultural do City _Beau- tiful integra uma serie de construções vizinhas residenciais, co- merciais e uni'ei'sit2iri'as nos moldcs da Villc Rzidieuse e da Ci- dade-Jardim Radieusc, ~ Analogamcntc, o pressuposto da separação c da ohtençatv da ordem por meio da repressão a tjuaisquei' planos, menos os dos Lirbiniistas r foi transposto com facilidade pstra todos os tipos dc funções Lirbanas; até hoje o plano tllretor de USO dO 5010
  18. 18. 26 MORlt E VlDA DE ( R/ NDES (lDADES * das metrópoles constitui-sc basicamente dc propostas de locali- zzição de atividades - geralmente levando ein conta os transpor- tes de varias dessas escolhas “tlescontaminadzn . De uma ponta a outra, dc Howard e Burnliam ! i mais recente emenda à lei de renovação urbana, toda a train-a e absurda para o funcionamento das cidades. Não estudadas. desprezadas. as ci- dades têm servido de cobaia. PARTE l A NATUREZA PECULIAR DAS CIDADES
  19. 19. 2. os USOS DAS CALÇADAS: SEGURANÇA As ruas das cidades servem a vários fins além de comportar veí- culos: c as calçadas - a parte das ruas que cabe aos pedestres - servem a muitos fins allóm de abrigar pedestres. Esses Lisos estão relacionados à circulação. mas não são sinônimos dela, e cada um em si. tão limdaiiiental quanto a circulação para o limeio- nanieittr) adequado das cidades. A calçada por si só irão é nada. É uma abstração, Ela só signi- fica alguma coisajunto com os edificios e os outros Lisos limí- trofes a ela ou a calçadas próximas. Pode-se dizer o mesmo das ruas. no sentido de servirem a outros fins, além de suportar o trânsito sobre rodas em seu leito. As ruas e suas calçadas, princi- pais locais públicos de uma cidade, são seus órgãos mais vitais, Ao pensar numa cidade, n que lhe vem à cabeça? Suas ruas. Se as ruas de uma cidade parecerem interessantes, a cidade parece- ra interessante; se elas parecerem monótonas, a cidade parecerá monótona, lvIais do que isso. e retornando ao primeiro problema, se as mas da cidade estão livres da violência e do medo, a cidade está, portanto, razoax clmente livre da violencia e do medo. Quando as pessoas dizem que uma cidade, ou parte dela, e perigosa ou selvagem, o que querem dizer basicamente c quc não se sentem seguras nas calçadas.
  20. 20. 30 MORTE t VIDA DE GRANDÍÊ ClDADES w tlontudo, as calçadas e aqueles que as usam não são benefi- ciarios passivos da segurança ou vitimas iiidefesas do perigo. As calçadas. os usos que as limitam e seus usuários são protagonis- tas ativos do drama itrhano da civilização VU/ ?Yl/ A' a barbárie. Man- ter a segurança urbana é uma função fundamental das ruas das cidades e suas calçadas. ~ Essa funçao e' completamente diferente dc qualquer atribui- çao quc se exija das calçadas e das ruas de cidades pequenas ou de subúrbios verdadeiros. As metrópoles não são apenas maio- res que as cidades pequenas. As metrópoles não são apenas su- burbios mais povoados. Diferem das cidades pequenas e dos subúr- bios em aspectos fundamentais. c um deles e que as cidades gran- des estão, por definição, cheias de desconhecidos. Qualquer 17655021 sente que os desconhecidos são muito mais presentes nas cidades grandes que os conhecidos -mais presentes não apenas nos locais de concentração popular, mas diante de qualquer casa. Mesmo morando próximas umas das outras, as pessoas são desconheci- das, e não poderiam deixar de ser, devido ao enorme número de pessoas numa área geográfica pequena. O principal atributo de um distrito urbano próspero é que as pessoas se sintam seguras e protegidas na rua em meio a tantos desconhecidos. Não devem se sentir ameaçadas por eles de ante- mão. O distrito que falha nesse aspecto também tracassa em ou- tros e passa a criar para si mesmo, e para a cidade como um to- do, um monte de problemas. A barbárie hoje tomou conta de várias ruas. ou as pessoas sentem dessa maneira, o que da' no mesmo. “Eu moro num bair- ro residencial maravilhoso, tranqüilo", me diz um amigo que está procurando outro local para morar. “O único barulho desagradá- vel durante a noite. de vez em quando, são os gritos de alguém sendo assaltado. ” Não e' preciso haver muitos casos de violência numa rua ou nnin distrito para que as pessoas temain as ruas. IE. quando temem 'ls' ruas, as pessoas as usam menos. o que torna as ruas ainda mais nseguras. Para se sentirem seguras. algumas pessoas criam fantasmas na cabeça e nunca se sentirão seguras independentemente das circunstancias reais. Mas cssa e uma questão di ferentc do medo A NN URWA FECULlAR DAS ClDADES 31 que persegue as pessoas normalmente prndentes. tolerantes e alegres, que (lcmonstram nada mais do que o bom senso de evi- tar, depois de escurecer r ou, certos lugares. de dia -. ruas onde possam ser a ltadas, sem que ninguém as veja ou socorra. A VÍOlÊUCIíl e a insegurança real, não a imaginária. que de- sencadeiam tais medos não podem ser rotuladas como um pro- blema caracteristíco dos cortiços. O problema e mais sério, na verdade. cm "bairros residenciais tranquilos" que parecem dis- tintos, como aquele que meu amigo estava Llcixanrlo. Não pode sei' rotulado como um problema das áreas mais an- tigas das cidades. O problema atinge dimensões alarmantes em certas areas da cidade que foram rcurbanizadas. incluindo su- postamente os melhores exemplos de reurbanização, como os conjuntos habitacionais de renda média. O chefe do distrito poli- cial de um empreendimento desse tipo, elogiado em todo o pais (pelos Lirbanisias e pelos financiadores) não só censurou recen- temente alguns moradores por ficarem fora de casa depois do anoitecer, como também recomendou que nunca abrissein a porta para desconhecidos. A vida nesse caso tem muito em co- mum com a dos três porquinhos e a dos sete anões das histórias infantis. O problema da insegurança nas ruas e na porta de casa é tão serio em cidades que empreenderam iniciativas de revitaliza- ção conscientes quanto naquelas que ficaram para trás. E tam- bém não resolve nada atribuir a grupos minoritários, aos pobres ou aos marginalizados a responsabilidade pelos perigos urbanos. Há variações enormes no nivel de civilidade e de segurança en- tre tais grupos e entre as zonas urbanas onde eles vivem. Al- gumas das ruas mais seguras de Nova York, por exemplo, a qual- quer hora do dia ou da noite, são as habitadas pelos pobres e pelas minorias. E algumas das mais perigosas são aquelas ocu- padas pelos mesmos tipos de pessoas. O mesmo pode ser dito de outras cidades. Há males so 'ais profundos e complexos por tras da delin- qiiência e da criminalidade, tanto nos subúrbios e nas cidades de pequeno porte quanto nas metrópoles Fste livro não irá explorar as razões prolundas da QUCSÍÕO. É su ciente. por enquanto, di- zer que. se pretendemos preservar uma sociedade urbana capaz
  21. 21. o 32 MORlE E VlDA DE GRANDFS ÚDADÉS dc diagnosticar problemas sociais profundos e mêlllÍÊ-ÍOS sob controle, o ponto de partida deve ser, cm qualquer * 'cunstameiim encorajar as forças viáveis para a preservação da segurança c a idades que temos. Construir distritos onde co- mumente são praticados crimes banais é idiotice, Ainda assim, é isso o que fazemos. A primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem iaúbliea - a paz nas calçadas c nas ruas ›- não é mantida basicamente pe a policia, sem com isso neg' ua necessidade. lã mantida funda- mentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de con- troles e padrões de comportamento espontâneos presentes cm meio ao próprio povo e por ele aplicados. Em certas áreas urba- nas - conjuntos habitacionais mais antigos e ruas com gran c rotatividade populacional são exemplos sempre famosos a a manutenção da lei e da ordem pública fica quase inteiramente a cargo da policia e de guardas particulares. Esses locais são se - vagens. Força policial alguma consegue manter a civilidade onc e o cumprimento normal e corriqueiro da lei foi rompido, A segunda coisa que sc deve entender é que o problema c a insegurança não pode ser solucionado por meio da dispersão das pessoas, trocando as caracteristicas das cidades pelas caracteris- ticas dos subúrbios, Sc isso solucionasse o problema do perigo nas ruas, Los Angeles deveria ser uma cidade segura, porque superficialmente e quase um subúrbio. Ela praticamente não tem distritos concentrados o suficiente para serem considerados zonas de alta densidade, Mesmo assim. da mesma forma que qualquer outra cidade grande, Los Angeles não pode furtar-se à verdade de que, como cidade, é composta de desconhecidos. e nem todos eles são confiáveis. Os indices de criminalidade de Los Angeles são assustadores. Situada entre as dezessete áreas metropolitanas com população acima de um milhão de pessoas. Los Angeles destaca-sc de tal maneira no que sc refere à crimi- nalidade, que constitui uma categoria à parte. E isso diz respeito especialmente i1 crimes contra a pessoa, o tipo de crime que leva a população a temer as ruas, Los Angeles tem, por exemplo, uni índice fiinesto de estu- pros de 31,9 por 100 mil habitantes (dados de 1958). mais que o A NATUREZA PECLIl IAR DAS TlD/ DFS 33 dobro do indice das cidades seguintes, que são St. Louis e Fila- délfia; três vezes o indice de l0,l de Chicago, e mais de quatro vezes o indice de 7.4 de Nova York. Em assaltos à mão armada, Los Angeles tlcióm um indice de 185. comparado com 149,5 de Baltimore e 139,2 de St. Louis (as cidades seguintes com taxas altas) c com 90,9 de Nova York e 79 de Chicago. O indice total de crimes graves em Los Angeles é de 2.507,6 por 100 mil habitantes, muito à frente de St. Louis e Houston. que vêm a seguir com 1,6345 e l,54l. l, e Novo York e Chicago, com indices de l . |45.3 e 943.5, Os motivos do, altos indices de criminalitlaide de Los An- geles são sem ilúxidti complexos c. tio menos em parte. desco- nhecidos. De uma coisa podemos ter certeza: reduzir o adensa- mento de uma cidade não garante a segurança contra o crime nem previne o temor ao crime. Essa é Lima das conclusões a que se pode chegar também em cidades menores, onde os pseudo- subúrbios ou os subúrbios de aposentados são o cenário ideal para cstupros, roubos. espancamentos, assaltos à mão armada e similares. Estamos aqui diante de uma questão sumamente importante a respeito de qualquer rua: que oportunidades ela oferece para o crime? Pode ser que haja uma latência de criminalidade em toda cidade que encontrara alguma válvula de escape (não acredito nisso). Seja como for, ruas de tipos diferentes encerram modali- dades diferentes de violência c medo da violência. Certas vias públicas não dão oportunidade alguma à violên- eia urbana. As ruas do North End de Boston são exemplos paten- tes, Nesse aspecto, nelas talvez haja tanta segurança quanto em qualquer lugar da Terra, Embora a maioria dos moradores do North End sejam italianos e descendentes de italianos. as ruas ilcsse distrito são constantemente usadas por um grande número de pessoas de todas as raças e aseendências. Alguns dos desco- nhecidos trabalham no distrito ou próximo dele: outros vão la a passeio ou para fazer compras; muitos, inclusive integrantes de minorias que lierdaram os ilislritos perigosos deixados por ou- tras pessoas. fazem questão de descontar o cheque do szilario cm
  22. 22. 34 MORIE t VIDA Dl GRANDTS (lD/ DES lojas do North End e em seguida fazer as grandes compras se- manais em ruas onde sabem que seu dinheiro não sera mal- emprcgado. J Frank Havey, diretor da União do North End. associação co- munitária local, afirma: “Moro no North End ha 28 anos, e em todo esse tempo não ouvi falar de um só caso de estupro, roubo, abuso de criança ou outro crime urbano desse tipo. Se tivesse havido algum, eu teria sabido mesmo que os jornais não tives- sem publicado. ” Meia dúzia de vezes, nas três últimas décadas, diz Havey, supostos molestadores tentaram seduzir Lima criança ou, altas horas da noite. atacar uma mulher, Em todos os casos, a tentativa foi frustrada por transeuntes, pessoas nas janelas e co- merciantes. Ao mesmo tempo, na região da Avenida Elm l-lill, em Rox- bury, bairro da zona urbana de Boston que superfieialmente pa- rece um subúrbio, os assaltos nas ruas e a constante possibilidade de outros assaltos, sem ninguém que defenda as vitimas, induziram as pessoas prudentes a não andar de noite nas ruas. Por esses e outros motivos correlatos (desalento e monotonia), não é de sur- preender que a maior parte de Roxbury se tenha degradado. Tor- nou-se um lugar para não morar. Não tenho intenção de particularizar Roxbury ou a outrora distinta região da Avenida Elm Hill como locais especialmente vulneráveis. Suas ileficiências. e principalmente sua Grande Pra- ga da Monotonia, são bastante comuns também em outras cida- des. Porém, são dignas de nota as diferenças de seguranca da po- pulação numa mesma cidade, como as citadas. Os problemas fundamentais da região da Avenida Elm l-lill não se devem a uma população com tendências criminosas, tliscriminada ou depau- perada. Seus problemas provêm do fato de ela não ter condições tisi as de funcionar com a seguranca e a conseqüente vitalidade de um distrito urhzino. líxistem diferenças rlrústicus na segurança da ¡topulacão até mesmo em zircas supostamente parecidas (le lugares supostamen- te pztrccidos. 11m incidente ocorrido nas Nashingtoti llouscs. conjunto habitztciinial de Nova York, ilustra essa situa ã grupo de moradores do conjunto, na tentativa de marcar presen- / N/ TURFZA PECULIAR DAS CiD/ DES 35 ça, promoveu comemorações em meados de dezembro de 1958 e ergueu três arvores de Natal. A árvore maior, muito pesada e di ñcil de transportar, plantar e enfeitar. ficou numa “ruzf” dentro do conjunto: uma calçada c uma esplanada central ajardinada. As outras duas árvores, cada uma com menos dc dois metros de altura, ambas fáceis de transportar, foram plantadas em cantei- ros num canto extremo do terreno do conjunto, por onde passam uma avenida movimentada e ruas agitadas da cidade tradicional. Na primeira noite, a arvore maior e toda a sua amamentação foram roubadas. As duas árvores menores ficaram intactas, com as luzes, os enfeites e tudo o mais, até que foram retiradas no ano-novo. “O local de onde a árvore foi roubada, teoricamente o mais seguro e protegido de todo o conjunto, é o mesmo lugar em que as pessoas não tem segurança, especialmente as crianças", diz uma assistente social que atendia o grupo de moradores, “Naquela esplanada. as pessoas não têm mais segurança do que a árvore de Natal. Por outro lado, o local onde as outras árvores ficaram intactas. que vem a ser uma das quatro esquinas do con- junto, mostra-se o mais seguro para as pessoas. " É uma coisa que todos já sabem: uma rua movimentada con- segue garantir a segurança; uma rua deserta, não. Mas como c que isso ocorre. na verdade? E o que faz uma rua ser movimen- tada ou evitada? Por que se evita a esplanada das Washington Houses. que deveria ser uma atração? Por que as calçadas da cidade tradicional, logo na face oeste do conjunto, não são evita- das? E por que certas ruas são movimentadas num período do dia e de repente sc csvaziam? Uma rua com infra-estrutura para receber desconhecidos e ter a seguranca como um trunfo devido à presença deles -- como as ruas dos bairros prosperos - precisa ter três caracteristicas principa Printer i. deve ser nítida a scpu "to entre o espaco público c o espaço ])l'l"(lll0. t) espaço público c o privurltt não ¡iodom m¡ turar-se. como normahncnte ocorre cm subúrbios ou em conj un- tos ltnbitucionaiis. Scguinla. tlevcm existir olhos para a rua, os olhos daqueles que podemos eltunnn* de proprietários naturais da rua. Os cdili-
  23. 23. 36 MORTE E VlDA DE GRANDES ClDADES cios de uma rua preparada para receber estranhos e gatrnntit' a segurança tanto deles quanto dos moradores devem estar volta- dos para a rua. Tales não podem estar com os fundos ou um lado morto para a rua e deixa-la cega. E terceira, a calçada deve ter usuários transitandõ ininterrup- tamente, tanto para aumentar na rua o número dc olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas de dentro dos edificios da rua a observar as calçadas, Ninguem gosta dc ficar na soleira de uma casa ou najanela olhando uma rua vazia. Qttasc ninguém faz isso. Ha muita gente que gosta de entreter- se, de quando cm quando, olhando o movimcitto da rua. Em assentamentos urbanos dc pequeno porte. mais sinzples do que as metrópoles, o controle sobre o comportamento aceita- vcl cm público, quando não sobre a criminalidade. parece fun- cionar com mais ou menos êxito por meio de um emaranhado de condutas, comentários, aprovação, dcsaprovzição e sanções - to- dos aspectos importantes quando as pessoas sc conhecem c as noticias correm de boca cm boca. Contudo. as ruas da cidade, que precisam controlar não só o comportamento dos habitantes, mas também o de visitantes dos subúrbios ou de cidades dc pc- queno porte que queiram aproveitar-se porque estão distantes dos comentários e das repreensões do local onde residem. de- vcm atuar com métodos mais diretos e objetivos. É estranho quc as cidades tenham conseguido solucionar por completo um pro- blema tão dificil. Mesmo assim, em várias ruas elas dão conta dele magnificamcntc. inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cereadas. Por defini- ção, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumbência de lidar com desconhecidos. já que e' por elas que clcs transitam. As ruas devem não apenas resguardar a cidade de estranhos que depredam: devem também proteger os infimeros desconhecidos pacifícos e bem-intencionados que as utilizam, garantindo também a segurança deles. Além do tnaís, nenhuma pessoa normal pode pa. ar a vida numa rcdonta, e ai se incluem as crianças. Todos precisam usar as ruas. A NATURWA PE( ULlAR DAS ( HJADES 37 Por alto, parece que temos algumas metas simples: tentar dar segurança às ruas em que o espaço publico seja inequivocamen- te público, fisicamente distinto do espaço privado c daquilo que nem espaço e, de modo que a área que necessita de vigilância te- nha limites claros c praticáveis; e assegurar que haja olhos aten- tos voltados para esses espaços públicos da rua o maior tempo possivel, 'foduvia não é tão simples atingir essas metas, especialmente a ultima. Não se podem forçar as pessoas a utilizar as ruas sem tnotivo. Não sc podem forçar as pessoas a vigiar ruas quc não querem vigiar. Pode parecer inconveniente manter a segurança das ruas com a vigilância c o policiamento tnútuos, mas na reali- dade não é. A segurança das ruas e mais efi "tz, mais informal c em olve menos traços de hostilidade e desconfiança exatamente quando as pessoas as utilizam e ttsufrttenr espontaneamente e estão menos conscientes, de maneira geral, dc que estão poli- ciando. 0 requisito básico da vigilância c' um número substancial de estabelecimentos e outros locais públicos dispostos ao longo das calçadas do distrito: deve haver entre eles sobretudo estabeleci- mentos e espaços públicos que sejam utilizados de noite. Lojas, bares e restaurantes. os exemplos principais, atuam de forma bem variada e complexa para aumentar a segurança nas calçadas. Em primeiro lugar, dão as pessoas - tanto moradores quanto estranhos - motivos concretos para utilizar as calçadas onde es- ses estabelecimentos existem. Em segundo lugar, fazem com que as pessoas percorram as calçadas, passando por locais que, em si, não têm interesse para uso público, mas se tornam freqüentados e cheios de gente por serem caminho para outro lugar. Essa influência não vai muito longe geograficamente; portanto, devem existir muitos estabele- cimentos comerciais no distrito para preencher com pedestres os trechos da rua que não dispõem dc espaços públicos ao longo das calçadas. Dex c haver, além do mais, um COIHÓTCÍO bcm va- riado, para levar as pessoas a circular por todo o local. Em terceiro lugar. os próprios lojistas e outros pequenos co- merciantes costumam incentivar a tranqüilidade c a ordem; de-
  24. 24. 38 MORTE E VIDA DE GRANDES CIDADES testam vidraças quebradas e roubos; detestam que os clientes fi- quem preocupados com a segurança. Se estiverem em bom nú- mero, são ótimos vigilantes das ruas e guardiões das calçadas. Em quarto lugar, a movimentação de pessoas a trabalho ou que procuram um lugar para comer e beber constitui em si um atrativo para mais pessoas. Este último item, de que a presença de pessoas atrai outras pessoas, é uma coisa que os planejadores e projetistas têm difi- culdade em compreender. Eles partem do princípio de que os habitantes das cidades preferem contemplar o vazio, a ordem e o sossego palpáveis. O equívoco não poderia ser maior. O prazer das pessoas de ver c movimento e outras pessoas é evidente em todas as cidades. Esse hábito chega a um extremo quase absurdo na alta Broadway, em Nova York, onde a avenida é dividida por uma estreita ilha central, bem no meio do tráfego. Nas esquinas das ruas transversais a essa ilha, que fica no sentido norte-sul, foram colocados bancos atrás de enormes defensas de concreto, e em qualquer dia, mesmo quando o clima beira o insuportável, esses bancos enchem-se de pessoas em todas as quadras, que ñ- cam olhando os pedestres que atravessam a avenida diante delas, olhando o tráfego, olhando as pessoas nas calçadas repletas, olhan- do-se umas às outras. Pela Broadway se alcança a Universidade de Colúmbia e o Barnard College ~ um à direita, outro à esquer- da. Aí, tudo transpira a ordem e a serenidade palpáveis. Já não há estabelecimentos comerciais, já não há o movimento gerado por eles, quase nenhum pedestre de passagem - e nenhum espec- tador. Há bancos, mas ficam vazios, mesmo com tempo bom. Sentei-me neles e entendi por quê. Não existe lugar mais ente- diante. Até os estudantes dessas instituições fogem da solidão. Eles matam o tempo ao ar livre, fazem a lição de casa ao ar livre e acompanham o movimento sentados nas escadarias que se vol- tam para a via mais movimentada do campus. A mesma coisa acontece nas vias públicas de qualquer lugar. Uma rua viva sempre tem tanto usuários quanto meros especta- dores. No ano passado estive numa rua dessas, no Lower East Side de Manhattan, esperando um ônibus. Não fiquei lá mais que um minuto, pouco tempo para começar a perceber a movi- A NATUREZA PECULIAR DAS CIDADES 39 mentação de transeuntes, crianças brincando e desocupados sen- tados diante de casa, quando minha atenção foi atraída por uma mulher que abriu a janela do terceiro andar de um prédio do outro lado da rua e gritou um “Ei! " bem alto para mim. Quando percebi que era comigo e respondi, ela berrou de volta: “O ôni- bus não passa aqui aos sábados! ” Depois, com uma mistura de gritos e mímica, me mandou virar a esquina. Essa mulher era uma de milhares e milhares de pessoas em Nova York que tomam conta das ruas, sem compromisso. Elas notam os desconhecidos. Elas observam tudo o que acontece. Se precisarem intervir, seja para orientar um estranho esperando no lugar errado, seja para chamar a polícia, elas intervém. Sem dúvida, a intervenção sem- pre requer certa autoconfiança, por parte de quem age, sobre sua convicção como co-proprietário da rua e sobre o auxílio que terá em caso de necessidade - assuntos presentes no final deste livro. No entanto, ainda mais fundamental do que a intervenção e im- prescindivel a ela e' a própria vigilância. Nem todo o mundo nas cidades ajuda a tomar conta das ruas, e muitos moradores ou trabalhadores não têm consciência do motivo pelo qual seu bairro e' seguro. Outro dia ocorreu um inci- dente na rua onde moro que me interessou justamente por isso. Minha quadra, é bom explicar, é pequena, mas possui ex- traordinária diversidade de construções, variando de prédios de apartamentos de diferentes épocas a casas de três ou quatro pa- vimentos convertidas em apartamentos de baixa renda, com es- tabelecimentos comerciais no térreo, ou utilizadas por apenas uma família, como a nossa. Do outro lado da rua havia prédios de apartamentos de quatro andares, de tijolos aparentes, com comércio no térreo. Ha' doze anos, contudo, vários prédios, da esquina até a metade da quadra, foram transformados num único edificio, com pequenos apartamentos de alta renda, equipados com elevador. O incidente que me chamou a atenção foi uma discussão aha- fada entre um homem e uma menina de oito ou nove anos de idade. Aparentemente, o homem tentava convencer a menina a ir com ele. Por vezes, era todo lisonjeiro com ela, às vezes demons- trava indiferença. A menina tinha ficado dura contra o muro de
  25. 25. 40 MORTE É VIDA DE GFANDES ClDADES um dos prédios de apurtznncnlos do outro lado da rua, como as crianças fazem ao resistir, 1 Enquanto eu obseriaxa da janela do nosso segundo andar, tentando imaginar como intervir se precisasse. percebi qL1e não seria necessário. Do açougue de baixo do predio, saiu a mulher que cuida do estabelecimento com o marido; ficou parada a curta distância do homem, com os braços cruzados e expressão muito decidida. Joc Cornacchia, que cuida da confeitaria com seus gcnros, saiu quase ao 111es1no tempo e ficou firme, do outro lado. Várias cabeças despontaram nasjanelas mais altas do pre'- dio; uma delas saiu rápido dajanela, e essa mesma pessoa reapa- receu um momento depois na porta, atrás do homem, Dois ho- mens do bar tiziitho ao açougue vieram à porta e ficaram olhan- do. Do meu lado da rua, vi que o chaveiro, o quitandeiro e o dono da lavanderia tinham saído de seus estabelecimentos e que a cena também era acontpanhada de várias janelas vizinhas à nossa. O homem não percebera. mas estava cercado. Ninguém ia permitir que uma garotinha fosse levada, ainda que ninguém sou- besse quem era ela. Sinto muito ~ digo isso só como forca de expressão ter de contar que a menina era filha daquele homem. Enquanto durou esse pequeno drama. talvez uns cinco minu- tos, ninguém apareceu nas janelas do prédio dc apartamentos de alta renda. Foi o único prédio cm que isso aconteceu. Quando mudamos ¡aara este quarteirão tinha grandes esperanças de que logo todos os prédios fossem revitalizados como aquele. lloje tenho outra opinião. c só posso encarar com tristeza c mau pres- sentimento tl noticia recente de que todo o resto da quadra vizi- nha ao predio de alta renda sofrerá exatamente a mesma trans- formação. Os inquilinos de alta renda, a maioria dos quais é tão passageira que nem conseguintos guardar sua fisionomíal, não têm a menor ideia de quem toma conta da rua nem dc como isso é feito, Um bairro como o nosso coitseguc 11trt1ir e proteger gran- de quunlitlttde rlessns aves imgrnttirins. M11 e e quando o bair- ro for ¡gnu! 41 esses moradores_ eles ílCilllFLlLl 11s r1121s cutlzi vc¡ mc- t Sotnnnln u~. riuu1«u, .n1«-1 llllllllwtltlltüVlvlllilit “mw,1xt11111v1s«_111n1 lvmtn)H1lt11rnt1rtu1I mminIililnttnipivu11101.11(1111111141imociaaltvv1l111l11_11'1'111t11 1.›.11,,1u1~1 A NATUREZA PECULi/ ÃR DAS ClDADES 41 nos seguras, semirão um mal-estar indefinido e, se as coisas fi- carem muito feias, migrarão para outro bairro que seja inexpli- cavelmentc mais seguro. Em alguns banrros ricos. onde existe pouca vigilância do tipo faça-vocô-mcsitto. como a parte residencial da Park Avenue ou o trecho de cima da Quinta Avenida. em Nova York. são coittrata- dos vigilantes de rua. As calçadas monotonas do trecho residen- cial da Park Avenue, por exemplo, são incrivelmente pouco utili- zadas: seus supostos usuários lotam as atraentes calçadas cheias de lojas, bares e restaurantes das avenidas Lexington e Madison, a leste e a oeste. e as travessas que levam a elas. Uma profusão de portciros e zeladores, entregadores e babás, numa espécie de rede de vizinhança, mantem a faixa residencial da Park Avenue bem provida de olhos. De noite, com a proteção dos porteiros servindo de barricada, as pessoas saem em segurança com seu cachorro e complementam 21 turtção dos porteiros. Mas essa rua é tão desprovida de olhos próprios, tão dcstituida de motivos concretos para ser utilizada e observada. em vez de se dobrar a primeira esquina para ir embora, que. se seus aluguéis caissem a ponto de não mais ser possivel sustentar essa rede de porteiros e ascensoristas, ela sem dúvida se tornaria uma rua lamentavel- mente perigosa. Desde que a rua esteja bem prcpttruda para lidar com estra- nhos, desde que possua uma demarcação boa c eficaz dc areas privadas e públicas c um suprintcnto básico de atividades e olhos, quanto mais estranhos houver, mais divertida ela será. Os estranhos são um trunfo enorme na rua onde moro, sem contar a conseqüente motivação. principalmente de noite, quan- do a segurzntça e tttais necessaria. Temos muita sorte de existir em nossa ruu um bar freqüentado por moradores e outro. viran- do a esquina. além de um bar famoso que atrai uma freguesia constante dc cstrtinltos dos bairros vi/ ,inhos c até dc fora da cida- de. Ele c'- [Eunoso ¡aorque o poeta [)ylt111Tho1n:1s costumava fre- qücittzi-Io c o citou em sun obrat, e bar. aliás. tem dois turnos distintos. De 11111111151 c no comeco da lnrdc é. como sempre foi. 11m ponto dc encontro do: : estivaulores da 2111tig11 colônia irlande- sa e de outros trabalhutlorcs da região. lvlns_ 21 partir do meio da
  26. 26. 41 MORTE EVlDA DE (JRANDES ClDADES tarde o bar ganha Lima vida diferente, que faz lembrar uma mis- tura dc bate-papo de universitários regado a cerveja com coque- tel literário, c isso vai ate' o começo da madrugada. lunta noite fria de inverno, quando se passa pelo White Horse e us port: se abrem. somos atingidos por uma onda compacta de conversas e risadas; muito acolhedor. O entra-e-sai desse bar contribui 'em muito para manter nossa rua razoavelmente movimentada ate as três da manhã, c não lia perigo em voltar tarde para casa. .Que eu saiba, a única vez que ocorreu uma briga na nossa rua foi no pe- riodo entre o fechamento do bar e a aurora. A briga foi interrom- pida por um de nossos vizinhos, que a viu pela janela e inter- veio, inconscientcmentc convencido dc integrar a sólida rede da Ici e da ordem urbana. Tenho um amigo que mora numa rua afastada do centro¡ onde uma congregação de jovens e uma associaçao eoniunitaria que promovem bailes noturnos e outras atividades atuam da tnesma forma que o White Horse na nossa rua. O planejamento Lirbano ortodoxo está muito imbuido de concepções puritanas utopieas acerca de como as pessoas devem gastar seu tempo livre, e, na área do planejamento, esse moralismo sobre a vida pessoal con- funde-sc com os conceitos referentes ao funcionamento das cidades. O bar White Horse e a congregação de jovens mantida pela igreja, tão diferentes como sem dúvida são, prestam quase o mesmo serviço na manutenção da civilidade nas ruas. As cida- des não apenas têm espaço para essas diferenças e outras mais em relação a gostos. propósitos e ocupações; tambem precisam de pessoas com todas essas diferenças de gostos e propensocs. As preferências dos utopistas - e de outros gestores compulsivos do lazer de terceiros - por um tipo de empreendimento justo em detrimento de outros são mais do que absurdas. São daninhas. Quanto maior e mais diversificado o leque de interesses legiti- mos (no estrito sentido legal) que a cidade e as empresas possam satisfazer. melhor para as ruas, para a segurança e para a ClVlll- dade das cidades. Os bares e, na verdade, todo o comércio, são tnalvistos em va- rios bairros precisamente porque atraem estranhos. e estes de for- ma alguma são encarados como uma vantagem. A NATUREZA PECULlAR DAS ClDADES 43 Essa triste circunstância ziplica-se especialmente aos bolsões apagados e desvitalizados das metrópoles e às áreas residenciais internas outrora atraentes, ou ao menos sólidas, que entraram em decadência. Como esses bairros são perigosos, e as ruas caracte- risticamente tão escuras, costuma-se acreditar que o problema se deva à falta de iluminação. A boa iluminação e importante, mas não se pode atribuir apenas à escuridão a enfermidade grave e funcional das áreas apagadas. a Grande Praga da Monotoiiia. O valor da iluminação forte nas ruas de áreas apagadas e des- vitalizadas vem do reconfortt) que cia proporciona às pessoas que precsam anular nas calçadas, ou gostariam de andar, as quais não o tariam se não houvesse boa iluminação. Assim, as luzes induzem essas pessoas a contribuir com seus olhos para a ntanu- tcncâo da rua, Alem do mais, como e obvio, a boa iluminação amplia cada pill' de olhos - faz com que os olhos valham mais porque seu alcance é maior. Cada par de olhos a mais e qualquer aumento em seu alcance representam um trunfo para as áreas apagadas e desvitalizadas. Porém, as luzes não têm efeito algum se não houver olhos e não existir no cérebro por trás dos olhos a quase inconsciente reconfirmaçãt) do apoio geral na rua para a preservação da civilidade. Quando não há olhos atentos, podem ocorrer crimes liorrorosos em público, e ocorrem, nas bem ilu- ininadas estações do metrô. Quase nunca ocorrem crimes em sa- las de espetáculos escuras, ondc muitas pessoas e muitos olhos estão presentes. As luzes da rua podem ser comparadas àquela famosa pedra que cai num deserto ondc não há ouvidos para ouvi- la. Será que faz barulho? Sem olhos atentos para enxergar, a luz ilumina? Para fins práticos, não. Para explicar o efeito perturbador dos estranhos nas ruas de áreas urbanas apagadas, destacarei primeiro, como analogia, as peculiaridades de outra espécie tipica de rua - os corredores dos conjuntos habitacionais em prédios de apartamentos, aqueles derivados da Ville Radieuse. Em certo sentido, os elevadores e os corredores desses conjuntos são ruas. São ruas empilhadas cm direção ao céu. de lorma que sejam eliminadas as ruas no chão, e do chão se focam parques desérticos, como a csplzutada das Washington l louses de onde roubaram a arvore de Natal.

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