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história. E essa própria interpretação bíblica, além de sersubjetiva, está condicionada ao contexto. Veja, por exemplo,aqu...
mergulham sem lhe perceber a gravidade’. (...) A Igrejapreocupou-se mais, desde o princípio, em proibir os padres deterem ...
A fraude é um pecado, mas sempre pode ser usada em benefíciodo cristianismo.3ª) Mas o meu principal argumento contra o abs...
perguntar: “Mas se não há uma moral absoluta, comopoderemos saber o que é certo e o que é errado?”Bem, eu não acredito que...
É por isso que sou pessoalmente contra uma moral baseadanuma interpretação da natureza. À medida que vamosconhecendo a nat...
Não acho que o seu primeiro exemplo seja válido, pois como sepoderia tirar fotos de uma criança nua sem de alguma formamol...
masculino ou feminino. Não está escrito, por exemplo: “Amulher deve ter 1,80 de altura, seus seios devem caber naconcha da...
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Ai eu repito o que te disse acima. Se “não há um certo e umerrado absolutos” não seria incoerente por parte dos ateus emol...
A pergunta é: Independentemente do que eu, você ou o adultoda ilustração acima pensa a respeito, torturar uma criança dedo...
Somente um ser inteligente e pessoal é capaz de definir a noçãode valores e deveres morais objetivos.“Honestamente, não se...
Nós temos aqui duas escolhas. Permitir a morte do inocente oumentir para um sujeito que quer causar algum mal contra oinoc...
Para não colocarmos o Santo Agostinho em saia justa, vamostirar ele do nosso debate.“Você pode alegar que o Antigo Testame...
A Lei ordenava não trabalhar no sábado para proveito e lucropróprio.Desculpe-me a falta de referências, pois estou lhe esc...
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parte da humanidade como um todo. O que eu quero dizer é oseguinte: Não importa a minha ou a sua percepção de mundo ouo me...
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E isso possibilita, inclusive, um incrédulo de reconhecer e/ouseguir determinado valor e dever moral objetivo, ainda que e...
Inquisição em seu contexto”, “A Inquisição na Idade Moderna”, “AInquisição na época da Reconquista” etc., eu nem sequer pr...
objeções não invalidam ou coloca em descrédito a minhaalegação de que “existem valores e deveres morais objetivos”.Podemos...
Poderia até afirmar que a fraude era um aspecto cultural docristianismo, e, portanto, tem que ser respeitado, embora vocêp...
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“Como você vê, Hélio, não vejo qualquer motivo para acreditar queexista uma moral absoluta. Você então poderia me pergunta...
“Absoluto no sentido de que, enquanto o homem existir sobre a Terra,o mal sempre vai acompanhá-lo, independente da época e...
Qual o homem capaz de diferenciar aquilo que é bom daquiloque é mal usando para tanto a razão, a lógica e o “bom senso”hum...
Logo não é somente a religião que muda no decorrer do tempo.A própria razão humana passa pelo mesmo processo.Se a teoria d...
muito gente a pregar uma forma de darwinismo social ou de justificaras desigualdades sociais através do darwinismo”Uma dou...
“Com este raciocínio poderíamos justificar qualquer tipo deconduta,"desde que não aumente o fardo de seus semelhantes".   ...
Isso se chama hedonismo. E poderá, por vias lógicas, cair nodilema do pedófilo que propus acima em casos que não existenen...
Que diferença tem em eu falar “bondade e maldade absoluta”ou “moralidade ou imoralidade absoluta”? Obviamentenenhuma... “D...
Os religiosos sempre afirmam que não é possível deduzir um Bem e umMal da relatividade da moral. Parece-me que nisso apena...
Agora se valores e deveres morais objetivos não existem aojeriza que temos quando presenciamos um crime hediondocontra um ...
fato existissem, tamanho a sua indignação frente ao racismocriminoso da garota feia, cuja feiúra não fez você ficarindigna...
valores morais absolutos é uma falsa solução para o problema.Na verdade, apenas atrasa a descoberta de uma solução.Você ad...
O princípio ético que estabeleci – o de procurar o máximo deprazer sem causar sofrimento aos outros – é uma norma geralmui...
quais basear a nossa conduta e que, a partir deles, não se possaestabelecer um certo e um errado.Isso é similar ao seguint...
dias de hoje as pessoas parecem não saber. Elas sabem que eledeixa seqüelas, mas a maioria não sabe quais são essas seqüel...
tal valor venha se esvaecer entre a espécie humana devido asmudança das nossas “sinapses religiosas” e “sinapses da razão”...
Ora, o mal não é o contrário daquilo que é bom? Se nãopodemos saber de forma objetiva e absoluta aquilo que é bom(pois iss...
Já para as demais pessoas as sinapses do cérebro delas munidode uma série de fatores internos e externos as levaram aconcl...
de justiça. O universo que observamos tem precisamente aspropriedades que deveríamos esperar se, no fundo, não háprojeto, ...
norma independeria do contexto cultural. Assim, se um nativodas Ilhas Maurício disser que na sua terra estuprar crianças é...
lado esquerdo de quem entra é de vidro blindado, e atrás dele háuma espécie de arquibancada onde alguns oficiais do exérci...
estuprador comum. O contexto no qual esse estupro foipraticado muda todo o meu julgamento moral.É neste sentido que eu dig...
Estuprar é errado, mas também é errado eu obrigar ou induziralguém a cometer estupro.E se eu obrigo alguém a cometer um er...
Eu só posso aplicar determinado valor e dever moral nasociedade ao viver determinados contextos dentro dessa mesmasociedad...
composto por um amontoado de átomos que se ordenaram demaneira acidental e que deu origem à vida humana (de formaacidental...
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Debate ateu x cristão moralidade

  1. 1. 1) Rodrigo em resposta ao HelioHélio, você começou falando no seu último comentário sobre orelativismo moral e sobre a impossibilidade de determinar sealgo é certo ou errado sem uma “fonte de moralidade Absolutae Superior”.Acho que a nossa diferença está aqui. Eu realmente não acreditoque exista uma fonte de moralidade absoluta e superior. Paramim, a moral é relativa segundo a época e o lugar, comoprovam a História e a Antropologia. Se você pudesse voltar notempo e viver em várias épocas diferentes, veria que aquilo queé certo numa época é errado em outra. E se pudesse viver emoutras sociedades, constataria a mesma coisa. Não há um certoe um errado absolutos.A relatividade da moral é um fato. Não é meramente umaquestão de opinião. Não é uma questão do tipo: “A GiseleBundchen é bonita ou é feia?” Negar que a moral seja relativa écomo negar que a Terra gira em torno do Sol. É uma afirmação,digamos assim, anticientífica.Qual é a base que um religioso tem para afirmar que a moral éabsoluta? Honestamente, não sei. Nem a História, nem aAntropologia estão do seu lado nesse caso. E o pior de tudo éque a religião, apesar dos seus discursos contra o relativismomoral, também não fornece qualquer sustentação de que amoral é absoluta. Permita-lhe dar alguns exemplos.1ª) O livro sagrado do cristianismo, a Bíblia, é a pátria literáriado relativismo moral. No Gênesis, há uma cena em que Abraão,acossado pela fome, decide ir até o Egito com sua esposa Sara.Chegando lá, ele lhe diz mais ou menos assim: “Quando lheperguntarem alguma coisa, diga que você é minha irmã, paraque eles me poupem a vida. Se você disser que é minha esposa,eles vão querer me matar para ficar com você.” Ora, isso é um
  2. 2. exemplo clássico de relativismo. A moral da história pode serresumida assim: “Mentir é errado, mas se for para salvar a vidade alguém, tudo bem”.Num dos contos de Voltaire, cujo nome agora não lembro (masposso lhe dizer depois, quando for à biblioteca pública), diz-se oseguinte: consta que, certa vez, perguntaram a santo Agostinhose era certo praticar uma má ação por uma causa nobre. Elerespondeu que sim e, para apoiar a sua opinião, invocou oexemplo de Judith...Você pode alegar que o Antigo Testamento é o livro sagradodos judeus, mas isso contraria a tradição cristã, que sempre viuo Antigo Testamento como uma espécie de preparação para oNovo, sendo ambos livros divinamente inspirados. De qualquerforma, mesmo que nós não concordemos nesse ponto, isso nãomuda o fato de que também há exemplos de relativismo moralno Novo Testamento. Quando, por exemplo, censuram Jesuspor estar realizando uma cura no sábado, Jesus responde: “Háalguém entre vós que, tendo uma única ovelha e se esta cair nopoço no dia de sábado, não a irá procurar e retirar? (Mt 12,11)”Ora, isso também é exemplo de relativismo. A mensagemimplícita é: “trabalhar no dia de sábado é errado, mas se for pararealizar uma boa obra, tudo bem”.Observe que é só mediante a relativização da moral que seconsegue transformar o sacrifício de Cristo num gesto de amor.Aqui na Terra, se um pai matar um filho em benefício de umacausa, mesmo que seja a mais nobre das causas, esse pai seráconsiderado um criminoso. Deus, no entanto, sacrifica opróprio filho em benefício da pior de todas as causas, ou seja, ohomem...Em resumo: o livro sagrado do cristianismo não autorizaninguém a crer que a moral é absoluta. Mesmo que você nãoconsidere bons os meus exemplos, existe o próprio fato de que aBíblia costuma interpretada de modos muito diferentes por seusleitores, como se vê pelas cisões do cristianismo ao longo da
  3. 3. história. E essa própria interpretação bíblica, além de sersubjetiva, está condicionada ao contexto. Veja, por exemplo,aquele episódio famoso em que Josué pede a Deus queinterrompa a marcha do Sol. Antes de Galileu, esse prodígiosempre foi interpretado literalmente, como se o Sol tivessemesmo parado no céu. Mas, com os novos conhecimentoscientíficos trazidos por Galileu, tornou-se necessário interpretaresse episódio em termos alegóricos.A exegese bíblica não está condicionada apenas aoconhecimento científico de uma época, mas à própriamoralidade vigente no período. A Bíblia já foi usada, porexemplo, para justificar a escravidão. Hoje, porém, ninguém fazisso. Por quê? Porque a moral mudou.Aí eu lhe pergunto: o que adianta Deus registrar num livrosagrado uma moral absoluta, se essa moral depende de umainterpretação que só pode ser relativa?2ª) A própria história das instituições e das pessoas quedeveriam zelar pelo legado de Cristo também contradizem aideia de que a moral é absoluta.Senão vejamos: se a moral é absoluta, por que os ensinamentospregados pela Igreja Católica variaram tanto ao longo dotempo? Que eu saiba, a Igreja Católica não via qualquerproblema no aborto até 1876, se não me engano (essainformação está num livro do Carl Sagan que tenho aqui emcasa; se você quiser, especifico depois a fonte).Li em algum lugar que a Igreja Católica já celebrou casamentosentre homossexuais. Mas, mesmo que isso não seja verdade, elajá foi muito mais tolerante com os homossexuais do que é hoje.Veja esse trecho do livro Uma história íntima da humanidade, deTheodore Zeldin: “(...) em 1102, Santo Anselmo, arcebispo deCanterbury, pediu que o castigo para a homossexualidade fossemoderado porque ‘este pecado é tão público que dificilmentealguém enrubesce por sua causa, e muitos, portanto, nele
  4. 4. mergulham sem lhe perceber a gravidade’. (...) A Igrejapreocupou-se mais, desde o princípio, em proibir os padres deterem relações sexuais com mulheres; quando foi desfechadauma campanha contra isso, a homossexualidade tornou-seainda mais comum, especialmente nos monastérios, onde SantoAlfred de Rivaulx exaltou-a como uma forma de descoberta doamor divino”.Como se nada disso bastasse, existe ainda o fato de que a IgrejaCatólica sempre relativizou a moral em seu próprio benefício,seguindo piedosamente a opinião de santo Agostinho que citeihá pouco. Pergunte a um padre o que foi a Inquisição, e naprimeira frase ele irá lhe falar do contexto, mais ou menosassim: “Para saber o que foi a Inquisição, você precisa entendero contexto da época”. Quando entro numa livraria e vejo umlivro sobre Inquisição com os títulos “A Inquisição em seucontexto”, “A Inquisição na Idade Moderna”, “A Inquisição naépoca da Reconquista” etc., eu nem sequer preciso abri-lo parasaber qual é a intenção do autor... O autor é um católico quequer relativizar a moral para minimizar a responsabilidade daIgreja Católica.Também é tradição na Igreja Católica canonizar assassinos queagiram em benefício da fé cristã, caso, por exemplo, de Ináciode Loyola, entre outros. Matar pode ser errado, mas se for embenefício do cristianismo, aí tudo certo.Eu poderia multiplicar esses exemplos de relativismo até oinfinito, mas vou citar apenas mais um: o das falsificações embenefícios da religião. Esse comportamento sempre foi tãocomum na história do cristianismo que mereceu até umaexpressão própria: a pia fraus (fraude piedosa). Os cristãos dosprimeiros séculos falsificaram a Bíblia de acordo com os seusinteresses, chegando ao ponto, por exemplo, de inventar aqueleepisódio em que Cristo impede que uma adúltera seja lapidada.Isso para não falar das falsas relíquias sagradas, que sempreabundaram no mundo.
  5. 5. A fraude é um pecado, mas sempre pode ser usada em benefíciodo cristianismo.3ª) Mas o meu principal argumento contra o absolutismo moralpode ser expresso na seguinte pergunta: como Deus pode ser ofiador de uma moral absoluta se ele próprio na escapa dorelativismo cultural?Religiosos tendem a falar de Deus como ele tivesse sempreexistido e fosse sempre existir. Mas Deus também é umaconstrução histórica. Ele nasceu no tempo e, como tudo o quenasce, também vai morrer.Há um texto do jornalista americano H. L. Mencken que sechama Cerimônia Memorial e que começa mais ou menos assim:“Onde fica o cemitério dos deuses mortos. Algum enlutadoainda se lembra de regar as flores do seu túmulo?” Ao longo doartigo, ele fornece uma lista de deuses que já existiram, queforam considerados invencíveis e imortais em suas épocas eque, no entanto, hoje estão mortos.Suponhamos que daqui a 2000 anos o cristianismo desapareça eque, no lugar dele, surja uma religião bem diferente. E digamosque o deus dessa nova religião pregue a vingança e o suicídio.Aí eu lhe pergunto: como você sabe que a vingança e o suicídiosão pecados? Por que o deus cristão diz que é pecado? Mas e opróximo deus?Além de não escapar desse relativismo histórico, Deus tambémnão escapa do relativismo geográfico. Há muitas religiões nosdias de hoje e algumas delas possuem um livro sagradocontendo normais morais – normas que contradizem as dosoutros livros. ***********************************Como você vê Hélio, não vejo qualquer motivo para acreditarque exista uma moral absoluta. Você então poderia me
  6. 6. perguntar: “Mas se não há uma moral absoluta, comopoderemos saber o que é certo e o que é errado?”Bem, eu não acredito que exista moral absoluta, mas acreditoem fatos absolutos. Por exemplo, a existência do mal é um fatoabsoluto. Absoluto no sentido de que, enquanto o homemexistir sobre a Terra, o mal sempre vai acompanhá-lo,independente da época e do lugar onde ele viva.Você pode alegar que a mera existência do mal não fornecequalquer princípio ético. Aliás, você usou um argumentoparecido com esse ao falar de uma ética que se pretende basearna natureza. Palavras suas: “A natureza (ou algo que o valha) écomo o ateísmo, possui caráter amoral. Ambos não falamabsolutamente nada sobre questões éticas e moral.”Num certo sentido, você está absolutamente certo. Normasmorais não brotam da pedra nem aparecem inscritas na encostade uma montanha. Mas a natureza pode ser estudada,conhecida, e dela os homens podem extrair certos princípioséticos. Não estou dizendo que a natureza seja um bomcandidato para substituir Deus. Estou apenas dizendo que oshomens sempre fizeram isso.Veja, por exemplo, o caso dos gregos. Os estóicosinterpretavam o universo como um cosmos, ou seja, um mundoordenado, racional e harmônico, o contrário do caos. Dessainterpretação eles tiraram uma moral segundo o qual o bemconsistia em agir conforme a natureza. Portanto, quando osestóicos falavam em agir conforme a natureza, eles não estavamfalando em oprimir os mais fracos, mas em agir com moderaçãoe equanimidade.Mas, depois de Darwin, a interpretação da natureza mudou.Hoje ela é vista mais um palco da luta dos fortes contra osfracos, o que já levou muito gente a pregar uma forma dedarwinismo social ou de justificar as desigualdades sociaisatravés do darwinismo.
  7. 7. É por isso que sou pessoalmente contra uma moral baseadanuma interpretação da natureza. À medida que vamosconhecendo a natureza, a interpretação sobre ela muda. E com ainterpretação muda também a moral.Procuro basear minha ética na existência do mal, que considero,como disse, um fato absoluto. Da forma como o homem é feito,acredito que nem mesmo no paraíso ele conseguiria ser feliz.Schopenhauer percebeu isso muito bem quando afirmou:“Coloque-se esta raça num país de fadas, onde tudo cresceriaespontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas aoalcance de todas as bocas, onde todos encontrariam semdificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível– ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e causarem-se mutuamentemais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe.”Você pode alegar de novo que a existência do mal é como oateísmo, que ela não possui caráter moral, nem fala nada sobrequestões éticas. Mas eu discordo disso. Se o mundo é uminferno, se os homens estão na Terra para sofrer, éabsolutamente indispensável que façamos o bem para aliviar osofrimento geral. Esta era a opinião de Schopenhauer, quetambém escreveu: “A convicção de que o mundo e, porconseguinte, o homem são tais que não deveriam existir, é demolde que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; quese pode esperar, de fato, de uma tal espécie de seres?”Se o mundo é como diz Schopenhauer, e eu não tenho qualquermotivo para duvidar dele, então estamos obrigados a aliviar onosso sofrimento sem causar sofrimento aos outros. A isso vocêobjetou: Com este raciocínio poderíamos justificar qualquer tipo deconduta,"desde que não aumente o fardo de seus semelhantes" "desde semelhantes".Poderíamos justificar, por exemplo, a conduta de um pedófilo quecoleciona fotos de crianças nuas em seu computador pessoal.Poderíamos, inclusive, justificar a conduta de um adultero que se dábem ao trair sua esposa sem que ela nunca descubra que foi traída. Oque os olhos não vêem...
  8. 8. Não acho que o seu primeiro exemplo seja válido, pois como sepoderia tirar fotos de uma criança nua sem de alguma formamolestá-la? Aliás, para o nosso atual Código Penal, isso já édefinido como estupro. Quanto ao caso do marido adúltero,posso dizer o seguinte: mesmo que ele consiga trair sua esposasem jamais ser descoberto, isso, no entanto, não invalida osriscos que ele corre. Suas infidelidades podem ser descobertas ecausar sofrimentos à esposa. Nesse caso, bastaria fazer aseguinte retificação: Todo homem tem o direito de procurar omáximo prazer, desde que não aumente (ou corra o risco deaumentar) o fardo de seus semelhantes.Observe que a existência do mal oferece um fundamento muitomais sólido para a moral do que a religião, e bem menos sujeitoaos caprichos do relativismo cultural do que ela. Dos gregosantigos até hoje o mal não desapareceu. A religião, no entanto,mudou bastante de lá para cá. Já não há tantos deuses, e o deuscristão é bem mais moral e indulgente do que aqueles deuses doOlimpo.Não estou dizendo que esse seja o seu caso, Hélio, mas acho queessa discussão sobre o relativismo foi criada apenas para mantero preconceito religioso contra os ateus. Sempre foi opiniãocorrente entre os religiosos que os ateus não podiam ser bons,não podiam ter caráter, nem se comportar de forma correta.Mas, como há um Dráuzio Varella e um Patch Adams paradesmentir esse mito, a religião foi obrigada a mudar deestratégia. Hoje ela já não diz que um ateu não pode ser bom,mas que ele não pode organizar uma sociedade justa.Os religiosos sempre afirmam que não é possível deduzir umBem e um Mal da relatividade da moral. Parece-me que nissoapenas seguem Nietzsche.O que eu acho muito curioso nisso é que ninguém acha que arelatividade é um problema quando o assunto é beleza. Ora, nãoexiste um padrão absoluto de beleza. Na Bíblia, por exemplo,não há qualquer trecho em que se define um ideal de beleza
  9. 9. masculino ou feminino. Não está escrito, por exemplo: “Amulher deve ter 1,80 de altura, seus seios devem caber naconcha da mão e estar separados três centímetros um do outro,suas coxas devem ter a circunferência tal e tal”. Tudo o que nóssabemos da beleza é que ela varia segundo o tempo e o lugar, ouseja, é um produto do relativismo cultural.Mas, embora não haja um padrão absoluto de beleza, nós jamaisrenunciamos aos conceitos de Belo e Feio. O fato de o padrãode beleza ser relativo jamais nos impediu de classificar oshomens como feios ou bonitos.Podemos então, com base nisso, fazer a seguinte pergunta: seum religioso acha que a relatividade da moral torna impossívelfalar em Bem e Mal, ele próprio não deveria renunciar aosconceitos de Belo e Feio, já que não existe um padrão absolutode beleza? ***********************************Caro Hélio, havia muito mais coisas que eu gostaria de discutircom você, como, por exemplo, aquela replicação que você fez deum comentário meu. Ali eu acho que você cometeu umpequeno erro.Porém, se eu fosse discutir cada um dos comentários que vocêfez, isso consumiria umas 120 páginas. Como você viu, escrevinove páginas só para me contrapor à sua primeira objeção...Lamento pela prolixidade, mas é que acho esse assuntofascinante, e já venho pensando nele há algum tempo. Por isso,me estendi um pouco sobre ele.Mas vamos devagarzinho mesmo. Com o tempo, certos temasvão voltar, e aí nós poderemos discutir maispormenorizadamente sobre eles.Abraços.
  10. 10. ~*~2) Helio em resposta ao Rodrigo “Hélio, você começou falando no seu último comentário sobre orelativismo moral e sobre a impossibilidade de determinar se algo écerto ou errado sem uma “fonte de moralidade Absoluta e Superior”.Exatamente. Essa é minha linha de pensamento.“Acho que a nossa diferença está aqui. Eu realmente não acredito queexista uma fonte de moralidade absoluta e superior. Para mim, amoral é relativa segundo a época e o lugar, como provam a História ea Antropologia.”Agora ficou clara para mim a sua opinião sobre moralidade.Isso seria o mesmo que dizer que nós, como seres humanos, nãotemos valores e deveres morais objetivos a cumprir.E se não temos valores e deveres morais objetivos a cumprirqual o sentido de julgarmos este ou aquele grupo dentro dahistória, posto que não existe um caminho certo a seguir?Qual o sentido de certos ateus condenarem o cristianismodentro da história pelos atos que eles julgam como imoraispraticados por cristãos uma vez que a moralidade é subjetiva e,no final das contas, não existe “certo” ou “errado” no sentidoabsoluto do termo? “Se você pudesse voltar no tempo e viver em várias épocas diferentes,veria que aquilo que é certo numa época é errado em outra.”Sim. Justamente por causa do critério humano (que é subjetivo)em definir aquilo que é moralmente bom ou não.“E se pudesse viver em outras sociedades, constataria a mesma coisa.Não há um certo e um errado absolutos.”
  11. 11. Ai eu repito o que te disse acima. Se “não há um certo e umerrado absolutos” não seria incoerente por parte dos ateus emolharem para a história passada do cristianismo julgando oscristãos que cometeram, por exemplo, a Inquisição, como se amoralidade fosse algo absoluto?Ora, os inquisidores julgavam estar fazendo algo moralmentebom e louvável. Se “não há um certo e um errado absolutos”não cabe ao ateus julgá-los e muito menos classificar ocristianismo (e nem uma outra religião ou cultura) comomaléfica como se existissem valores e deveremos moraisobjetivos a serem cumpridos pelos homens, uns para com osoutros.O que eu estou querendo dizer é o seguinte: Grande parte dosateus críticos da religião negam a existência de valores edeveres morais objetivos, mas ao criticarem a religião de formatão hostil agem como se valores e deveres morais objetivosexistissem!Nesse sentido, não sei se é o seu caso, os ateus críticos dareligião são capazes de compreender, por exemplo, os romanosque promoviam a carnificina com lutas de gladiadores emarenas de combate ou o infanticídio promovido emcomunidades indígenas brasileiras alegando aspectos culturaisrelativos à época e ao lugar, mas não aplicam a mesmacomplacência na hora de destilar suas criticas contra ocristianismo ao longo da história.“A relatividade da moral é um fato. Não é meramente uma questão deopinião. Não é uma questão do tipo: “A Gisele Bundchen é bonita ou éfeia?”Quando um adulto em sã consciência causa dor e sofrimentoem uma criança com 2 meses de vida por prazer sádico pessoaltanto eu quanto você sabemos que isso é algo moralmenteinaceitável, mas o tal adulto pensa o contrário.
  12. 12. A pergunta é: Independentemente do que eu, você ou o adultoda ilustração acima pensa a respeito, torturar uma criança dedois meses de idade por puro sadismo é um ato moralmentebom ou não?O que você me diria?Se você afirmar que não tem como julgar isso em termosabsolutos, isto é, tirando todo e qualquer critério humano daequação (coisas como cultura, época, lugar e julgamentopessoal), apenas estará sendo coerente com suas afirmações.Agora se você afirmar que tal atitude é algo moralmenteinaceitável estará confirmando que existem valores e deveresmorais objetivos que nós, reles mortais, devemos seguir, aindaque não tenhamos em mente a lista completa daquilo que émoralmente bom ou não. O que eu afirmo é: Independentedisso existem valores e deveres morais objetivos que devemosseguir para o bem e paz de todos (ateus, cristãos, mulçumanos,budistas, espíritas, torcedores do palmeiras, etc.).“Negar que a moral seja relativa é como negar que a Terra gira emtorno do Sol. É uma afirmação, digamos assim, anticientífica.”A ciência é amoral, totalmente neutra em questões de ética erelacionamentos interpessoais. Não existe um métodocientífico para definir, por exemplo, se é moralmente aceitávelou não dar calotes nos outros ou bisbilhotar a mulher dovizinho trocando de roupa.“Qual é a base que um religioso tem para afirmar que a moral éabsoluta?”A existência de um deus como legislador moral e definidor - aoseu próprio critério e de acordo com a sua própria vontade - devalores e deveres morais objetivos que todos os homens devemcumprir.
  13. 13. Somente um ser inteligente e pessoal é capaz de definir a noçãode valores e deveres morais objetivos.“Honestamente, não sei. Nem a História, nem a Antropologia estãodo seu lado nesse caso.”Concordo. Mesmo por que nem a História e nem aAntropologia se ocupam em provar (ou desaprovar) aexistência de um ser superior que definiu valores e deveresmorais objetivos que devem ser seguidos pelos humanos.“E o pior de tudo é que a religião, apesar dos seus discursos contra orelativismo moral, também não fornece qualquer sustentação de que amoral é absoluta. Permita-lhe dar alguns exemplos.”Ok...“1ª) O livro sagrado do cristianismo, a Bíblia, é a pátria literária dorelativismo moral. No Gênesis, há uma cena em que Abraão, acossadopela fome, decide ir até o Egito com sua esposa Sara. Chegando lá, elelhe diz mais ou menos assim: “Quando lhe perguntarem alguma coisa,diga que você é minha irmã, para que eles me poupem a vida. Se vocêdisser que é minha esposa, eles vão querer me matar para ficar comvocê.” Ora, isso é um exemplo clássico de relativismo. A moral dahistória pode ser resumida assim: “Mentir é errado, mas se for parasalvar a vida de alguém, tudo bem”.”Neste caso em específico nós temos uma descrição (e não umaprescrição) a respeito da atitude de Abraão. Nada fala a respeitose o que ele fez foi certo ou errado, se é um exemplo a serseguido ou não.A bíblia sagrada, nessa passagem, apenas narra umacontecimento sem fazer juízo de valor a respeito.Mas responda você mesmo. Mentir para pessoas que queremcausar algum mal para um inocente é algo moralmenteaceitável ou não? Ou depende do critério de julgamento pessoalde cada um?
  14. 14. Nós temos aqui duas escolhas. Permitir a morte do inocente oumentir para um sujeito que quer causar algum mal contra oinocente.Qual a atitude correta? Favorecer o inocente ou favorecer quemquer tirar proveito do inocente?Não estamos analisando somente se “mentir é errado”. Juntocom isso temos: “mentir para alguém mal intencionado a fimde salvar a vida de um inocente é errado”? Quando as duassituações coabitam juntas o que fazer?Existe um caminho certo a seguir, ou todos os caminhos levamabsolutamente para um mesmo lugar?“Num dos contos de Voltaire, cujo nome agora não lembro (mas possolhe dizer depois, quando for à biblioteca pública), diz-se o seguinte:consta que, certa vez, perguntaram a santo Agostinho se era certopraticar uma má ação por uma causa nobre. Ele respondeu que sim e,para apoiar a sua opinião, invocou o exemplo de Judith...”Bem. Será que Santo Agostinho acharia algo moralmente legalse eu assaltasse um banco (uma má ação) para comprar umacasa para minha mãe que paga aluguel (uma causa nobre)?Será que ele concordaria que fazer uma criança berrar de tantador introduzindo nela um pedaço de metal pontiagudo sem asua expressa vontade (uma má ação) para salvar-lhe a vida(uma causa nobre) é algo moralmente bom?Mas como não foram especificados os contextos em que uma“má ação por uma causa nobre” é algo moralmente aceitável aresposta do Santo Agostinho não nos fornece norte algum paradiscussão.Se o Santo Agostinho fosse interpelado com essas e outrasquestões certamente poderia se explicar melhor a respeito. Nãofoi esse o caso.
  15. 15. Para não colocarmos o Santo Agostinho em saia justa, vamostirar ele do nosso debate.“Você pode alegar que o Antigo Testamento é o livro sagrado dosjudeus, mas isso contraria a tradição cristã, que sempre viu o AntigoTestamento como uma espécie de preparação para o Novo, sendoambos livros divinamente inspirados.”E é exatamente assim que eu penso.“De qualquer forma, mesmo que nós não concordemos nesse ponto, issonão muda o fato de que também há exemplos de relativismo moral noNovo Testamento.”Vamos analisar suas considerações... “Quando, por exemplo, censuram Jesus por estar realizando uma curano sábado, Jesus responde: “Há alguém entre vós que, tendo uma únicaovelha e se esta cair no poço no dia de sábado, não a irá procurar eretirar? (Mt 12,11)Ora, isso também é exemplo de relativismo. A mensagem implícita é:“trabalhar no dia de sábado é errado, mas se for para realizar uma boaobra, tudo bem”.Eu estou entendendo perfeitamente a sua linha de raciocínio.Esse exemplo recai no caso de Abraão.Não temos somente uma situação envolvida de trabalhar ounão no sábado. Temos, além dessa, ajudar alguém que lhe pedesocorro.E você não entende algo crucial nesta passagem. É que na LeiMosaica não existia proibição alguma quanto a realizar uma boaobra em dia de sábado. Esse tipo de ordenança foi acrescentadopelos fariseus ao longo do tempo sem o consentimento e o avaldivino. Era na verdade um acréscimo na Lei de Moisés. Vocêpode pesquisar no Pentateuco se existe alguma coisa do tipo:“não farás obras de caridade no sábado”.
  16. 16. A Lei ordenava não trabalhar no sábado para proveito e lucropróprio.Desculpe-me a falta de referências, pois estou lhe escrevendo deforma direta, sem o apoio de literaturas. Mas eu possoperfeitamente mostrar as referências depois, se desejar.“Observe que é só mediante a relativização da moral que se conseguetransformar o sacrifício de Cristo num gesto de amor. Aqui na Terra,se um pai matar um filho em benefício de uma causa, mesmo que seja amais nobre das causas, esse pai será considerado um homem. Deus, noentanto, sacrifica o próprio filho em benefício da pior de todas ascausas, ou seja, o homem...”Na literatura bíblica lemos que Jesus Cristo foi voluntário nestacausa e o fez por amor, não obrigado, forçado.Agora imagina a seguinte situação. Um homem quevoluntariamente decide dar a própria vida para salvar bilhões ebilhões da morte.Trazendo isso para o nosso mundo material, se tal situaçãohipotética existisse, tal homem seria alçado à posição de heróiem escala mundial.Você já assistiu ao filme “A Lenda”, com Will Smith? Existemoutros filmes sobre sacrifícios voluntários com o intuito desalvar a vida ou a pele de um grande número de pessoas.Não precisamos, no entanto, irmos tão longe. Ainda que sejapara salvar uma única vida, como a do seu filho por exemplo.É reprovável a atitude de um pai que para salvar a vida do seufilho que fora sequestrado por criminosos se oferece em trocapara ficar em cativeiro no lugar dele?E quanto a uma mãe que em face de um terremoto protegeu osseus filhos colocando-os por debaixo do seu corpo enquanto elarecebia concretos na cabeça?
  17. 17. http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1851315&seccao=EuropaEla morreu, os filhos sobreviveram...“Em resumo: o livro sagrado do cristianismo não autoriza ninguém acrer que a moral é absoluta.”A partir daqui eu posso expressar melhor o conceito demoralidade absoluta.Quando eu afirmo que “existem valores e deveres moraisobjetivos que todo ser humano deve seguir” não estouafirmando que:1 – Não existe moralidade relativa.2 – Toda e qualquer atitude humana deve ser classificada(moralmente e eticamente falando) de maneira absoluta.A alegação de que existem valores e deveres morais objetivosnão implica necessariamente que certas atitudes humanas nãopodem ser classificadas de maneira relativa.Eu não mudei o rumo dos meus argumentos. Parece-me queesse ponto não ficou perfeitamente claro da minha parte.Esclareço aqui para que futuros espantalhos não sejam criados.O que eu venho afirmando desde o princípio é: “Existemvalores e deveres morais objetivos que todo e qualquer serhumano deve cumprir para o bem e a paz de todos”.Se os egípcios não tivessem o costume de matar os homens paraseqüestrarem para si a sua esposa Abraão não precisaria mentir.Esse é o resultado quando as pessoas seguem determinadosvalores.Agora um ponto importante. A existência de valores moraisobjetivos não implica o conhecimento pleno de tais valores por
  18. 18. parte da humanidade como um todo. O que eu quero dizer é oseguinte: Não importa a minha ou a sua percepção de mundo ouo meu e o seu julgamento sobre questões morais, se certas ouerradas. Independentemente da percepção humana paraquestões desse tipo existem valores e deveres morais objetivosque todo e qualquer ser humano deve seguir.Duas pessoas podem concordar entre si que entrar em umaarena para se digladiarem até a morte é algo moralmenteaceitável, mas não será o consenso e o consentimento deles quetornará o ato como algo moralmente aceitável, pois taljulgamento não depende deles.Para finalizar essa parte eu afirmo que as escrituras sagradasdeixam sim perfeitamente claro que existem valores e deveresmorais objetivos que os homens devem seguir. Eu poderia aquicitar uma meia dúzia desses valores que se fossem seguidos portoda a humanidade o mundo seria bem melhor.Não são necessariamente “valores cristãos”, não estou dizendoisso. São valores e deveres morais objetivos e que, inclusive, atémesmo os ateus concordariam em afirmar que tais valores sãorealmente bons.E podemos perfeitamente encontrar tais valores impressos emlivros sagrados de outras religiões ou nos moldes de viver dedeterminadas culturas e civilizações que não sejamnecessariamente de bases cristãs.“Mesmo que você não considere bons os meus exemplos, existe opróprio fato de que a Bíblia costuma interpretada de modos muitodiferentes por seus leitores, como se vê pelas cisões do cristianismo aolongo da história.”Realmente. Mas isso não prova que valores e deveres moraisobjetivos não existem. Isso prova somente que o ser humano éum péssimo legislador moral e que os cristãos não entram emum consenso a respeito do seu livro sagrado. Nada mais queisso.
  19. 19. “E essa própria interpretação bíblica, além de ser subjetiva, estácondicionada ao contexto. Veja, por exemplo, aquele episódio famosoem que Josué pede a Deus que interrompa a marcha do Sol. Antes deGalileu, esse prodígio sempre foi interpretado literalmente, como se oSol tivesse mesmo parado no céu. Mas, com os novos conhecimentoscientíficos trazidos por Galileu, tornou-se necessário interpretar esseepisódio em termos alegóricos.”Eu não entendi sua objeção sobre esta passagem bíblica.Seja lá como for a bíblia sagrada está repleta de exemplos quedesafiam a ciência e o bom senso. Afinal de contas ela narra asações de um Deus onipotente.“A exegese bíblica não está condicionada apenas ao conhecimentocientífico de uma época, mas à própria moralidade vigente no período.A Bíblia já foi usada, por exemplo, para justificar a escravidão. Hoje,porém, ninguém faz isso. Por quê? Porque a moral mudou.”A escravidão existente nos templos bíblicos não era praticadanos mesmos moldes da escravidão dos tempos do Brasil colônia.Sobre este tema muito teria a falar, mas o farei em outraocasião. Na verdade, é um tema para um novo debate. Não ireicomentar aqui para não desviar o foco da nossa conversa.“Aí eu lhe pergunto: o que adianta Deus registrar num livro sagradouma moral absoluta, se essa moral depende de uma interpretação quesó pode ser relativa?”Mais uma vez a questão da “interpretação”. Mais de 2 bilhõesde cristãos no mundo e eles não entram em um consenso sobrequais são os valores e deveres morais objetivos estabelecidos porDeus na pessoa de Cristo e impressa nas escrituras sagradas.Mas isso ainda não invalida a minha alegação de que,independentemente da falta de consenso entre os sereshumanos, valores e deveres morais objetivos existem e sóexistem por que existe um deus por onde tais valores sãoemanados.
  20. 20. E isso possibilita, inclusive, um incrédulo de reconhecer e/ouseguir determinado valor e dever moral objetivo, ainda que elenão saiba explicar de onde este valor vem. “2ª) A própria história das instituições e das pessoas que deveriamzelar pelo legado de Cristo também contradizem a idéia de que a moralé absoluta.”Isso é verdade. Mas isso não prova que não existem valores edeveres morais objetivos.“Senão vejamos: se a moral é absoluta, por que os ensinamentospregados pela Igreja Católica variaram tanto ao longo do tempo? Queeu saiba, a Igreja Católica não via qualquer problema no aborto até1876, se não me engano (essa informação está num livro do Carl Saganque tenho aqui em casa; se você quiser, especifico depois a fonte).Li em algum lugar que a Igreja Católica já celebrou casamentos entrehomossexuais. Mas, mesmo que isso não seja verdade, ela já foi muitomais tolerante com os homossexuais do que é hoje. Veja esse trecho dolivro Uma história íntima da humanidade, de Theodore Zeldin: “(...)em 1102, Santo Anselmo, arcebispo de Canterbury, pediu que o castigopara a homossexualidade fosse moderado porque ‘este pecado é tãopúblico que dificilmente alguém enrubesce por sua causa, e muitos,portanto, nele mergulham sem lhe perceber a gravidade’. (...) A Igrejapreocupou-se mais, desde o princípio, em proibir os padres de teremrelações sexuais com mulheres; quando foi desfechada uma campanhacontra isso, a homossexualidade tornou-se ainda mais comum,especialmente nos monastérios, onde Santo Alfred de Rivaulx exaltou-a como uma forma de descoberta do amor divino”.Como se nada disso bastasse, existe ainda o fato de que a IgrejaCatólica sempre relativizou a moral em seu próprio benefício, seguindopiedosamente a opinião de santo Agostinho que citei há pouco.Pergunte a um padre o que foi a Inquisição, e na primeira frase ele irálhe falar do contexto, mais ou menos assim: “Para saber o que foi aInquisição, você precisa entender o contexto da época”. Quando entronuma livraria e vejo um livro sobre Inquisição com os títulos “A
  21. 21. Inquisição em seu contexto”, “A Inquisição na Idade Moderna”, “AInquisição na época da Reconquista” etc., eu nem sequer preciso abri-lo para saber qual é a intenção do autor... O autor é um católico quequer relativizar a moral para minimizar a responsabilidade da IgrejaCatólica.Também é tradição na Igreja Católica canonizar assassinos queagiram em benefício da fé cristã, caso, por exemplo, de Inácio deLoyola, entre outros. Matar pode ser errado, mas se for em benefíciodo cristianismo, aí tudo certo.”Até aqui você falou da Igreja Católica. Creio que o que eu jáescrevi desde então estabelece contra pontos em cima das suasalegações acima escritas.E sobre as suas afirmações a respeito da Igreja Católica poderiaestabelecer algumas considerações. Pode ser que futuramenteconversemos somente sobre o catolicismo romano.No entanto é comum quando eu debato com um ateu questões arespeito da moralidade ele me oferecer contra exemplos decristãos que ao longo da história defenderam como atosmoralmente bons atrocidades diversas, coisas intragáveis.E se eu fosse um politeísta, espírita ou adepto da religião domonstro do espaguete voador, como você se portaria?E se eu fosse somente um teísta sem religião?Aqui eu percebo um erro em sua estratégia de argumentação aotentar afirmar que não existem valores e deveres moraisobjetivos mostrando as falhas dos cristãos no decurso dahistória.Ainda que o cristianismo seja falso e toda e qualquer religião domundo falhasse em definir quais são os valores e deveresmorais objetivos que os homens devem cumprir uns para comos outros ou ainda que os religiosos não sigam determinadosvalores que você reconhece como moralmente bons tais
  22. 22. objeções não invalidam ou coloca em descrédito a minhaalegação de que “existem valores e deveres morais objetivos”.Podemos não saber defini-los em sua completude, muitos não opraticam, mas eles existem e a existência de tais valores edeveres são independentes da percepção humana sobre eles.“Eu poderia multiplicar esses exemplos de relativismo até o infinito,mas vou citar apenas mais um: o das falsificações em benefícios dareligião. Esse comportamento sempre foi tão comum na história docristianismo que mereceu até uma expressão própria: a pia fraus(fraude piedosa).”Vamos ver...“Os cristãos dos primeiros séculos falsificaram a Bíblia de acordo comos seus interesses, chegando ao ponto, por exemplo, de inventar aqueleepisódio em que Cristo impede que uma adúltera seja lapidada. Issopara não falar das falsas relíquias sagradas, que sempre abundaram nomundo.”Opa. Alegação interessante e surpreendente. Nesse caso eugostaria de analisar as suas evidências de que a bíblia sagrada éum produto falsificado dos cristãos do primeiro século.ps.: Isso daí já é tema para um outro debate. Caso desejarpoderemos discutir sobre isso futuramente. Como eu disseanteriormente, ainda que você prove que o cristianismo é umafalsa religião, isso não implica logicamente que não existemvalores e deveres morais objetivos que devemos seguir.“A fraude é um pecado, mas sempre pode ser usada em benefício docristianismo.”Se você afirma que não existem valores e deveres moraisobjetivos não pode afirmar que a fraude é um pecado, mas simque a fraude, na sua limitada visão, é um pecado.
  23. 23. Poderia até afirmar que a fraude era um aspecto cultural docristianismo, e, portanto, tem que ser respeitado, embora vocêparticularmente não concorde. “3ª) Mas o meu principal argumento contra o absolutismo moral podeser expresso na seguinte pergunta: como Deus pode ser o fiador de umamoral absoluta se ele próprio não escapa do relativismo cultural?”Eu estava aguardando você chegar nesse ponto.“Religiosos tendem a falar de Deus como ele tivesse sempre existido efosse sempre existir. Mas Deus também é uma construção histórica.Ele nasceu no tempo e, como tudo o que nasce, também vai morrer.”Você está convicto de que Deus não existe. Eu estou convictode que ele existe.Mas não estamos debatendo se Deus existe ou não. Muitomenos se o Deus judaico-cristão existe ou não. Estamosdebatendo se valores e deveres morais objetivos existem.Eu não estou tentando provar, a priori, a existência de Deuscom os meus argumentos (e muito menos a existência do Deusjudaico-cristão).Os meus argumentos seguem a seguinte linha lógica:Premissa 1 - Se Deus não existe, valores e deveres moraisobjetivos não existem;Premissa 2 - Valores e deveres morais objetivos existem;Conclusão: Portanto, Deus existe.Tanto eu quanto você concordamos com a primeira premissa eestamos debatendo se a premissa número 2 é verdadeira ou não.Note que não estamos tentando provar se Deus existe ou nãopor meio de premissas e argumentos que dão suporte às
  24. 24. premissas. Tal conceito a respeito da existência ou não de Deusbrotará naturalmente como conclusão lógica das premissas 1 e 2.“Há um texto do jornalista americano H. L. Mencken que se chamaCerimônia Memorial e que começa mais ou menos assim: “Onde fica ocemitério dos deuses mortos. Algum enlutado ainda se lembra de regaras flores do seu túmulo?” Ao longo do artigo, ele fornece uma lista dedeuses que já existiram, que foram considerados invencíveis e imortaisem suas épocas e que, no entanto, hoje estão mortos.Suponhamos que daqui a 2000 anos o cristianismo desapareça e que, nolugar dele, surja uma religião bem diferente. E digamos que o deusdessa nova religião pregue a vingança e o suicídio. Aí eu lhe pergunto:como você sabe que a vingança e o suicídio são pecados? Por que o deuscristão diz que é pecado? Mas e o próximo deus?Além de não escapar desse relativismo histórico, Deus também nãoescapa do relativismo geográfico. Há muitas religiões nos dias de hojee algumas delas possuem um livro sagrado contendo normais morais –normas que contradizem as dos outros livros.”Deuses vão e vem. Religiões idem. Não se sabe quanto tempo ocristianismo irá persistir. Pode ser que daqui a 10.000 anos aindaexistam cristãos, pode ser que o cristianismo seja extinto daquia 100 anos. Pode ser que ele seja extinto e volte depois dedeterminado tempo. Pode ser que ele nunca seja extinto. Nãosei, não sou vidente...Mas falando como cristão eu acredito que o cristianismo nuncaserá extinto até que o advento de Cristo seja concluído.Mas e então? Independente do que os deuses das religiõesafirmam a pergunta fica:Existem valores e deveres morais objetivos que devemoscumprir? ***********************************
  25. 25. “Como você vê, Hélio, não vejo qualquer motivo para acreditar queexista uma moral absoluta. Você então poderia me perguntar: “Mas senão há uma moral absoluta, como poderemos saber o que é certo e o queé errado?Bem, eu não acredito que exista moral absoluta, mas acredito em fatosabsolutos. Por exemplo, a existência do mal é um fato absoluto.”A existência do mal é um desvio de valores e deveresmoralmente bons. Um desvio de como as coisas devem ser. Senão existem valores e deveres moralmente bons que devemosfazer, a própria noção de mal é, de igual modo, algo relativa evazia.Falando sobre beleza e feiúra em comparação com o bem e omal.Pela sua lógica a beleza é relativa, mas a feiúra é algo absoluto.Ou seja, quando você acha uma pessoa bela o seu parecer érelativo, pois alguém poderá discordar de você, mas quandovocê acha uma pessoa feia o seu parecer é absoluto e todos irãoconcordar com você.Existe uma falha lógica em sua alegação a respeito da existênciado mal, pois só definimos o mal quando contrapomos comaquilo que é bom.Se o que é bom é relativo, o que é mal também é relativo.Não há como escapar desse truísmo.Assim como as pessoas relativizam a bondade podemperfeitamente relativizar a maldade. Chamar o bem de mal evice-versa.
  26. 26. “Absoluto no sentido de que, enquanto o homem existir sobre a Terra,o mal sempre vai acompanhá-lo, independente da época e do lugar ondeele viva.”Mas o que é o mal se não o contrário daquilo que é moralmentebom? E se o mal existe é por que certas coisas devem ser dedeterminado jeito, isto é, manifestar aquilo que é moralmentebom. Elas DEVEM ser assim e ponto. Para que os homensvivam bem e em paz uns com os outros.Quando alguém deixa de manifestar aquilo que é moralmentebom, manifesta aquilo que é mal, imoral, nefasto, desprezível,repugnante, abominável.E se você tem essa noção daquilo que é moralmente bom ou male consegue fazer distinção entre um e outro a ponto de fazerjulgamentos sobre a Igreja Católica ter colocado hereges nafogueira ou do bispo da Universal que comete estelionatocontra o pobre fiel e defende tais atos como abomináveis é porque, dentro de você, existe a noção de que valores moraisobjetivos existem, ainda que você não os reconheça como tal.Tais valores existem e são bons. O contrário disso é mal e deveser evitado.“Você pode alegar que a mera existência do mal não fornece qualquerprincípio ético. Aliás, você usou um argumento parecido com esse aofalar de uma ética que se pretende basear na natureza. Palavras suas:“A natureza (ou algo que o valha) é como o ateísmo, possui caráteramoral. Ambos não falam absolutamente nada sobre questões éticas emoral.”Acho que você entendeu errado o que eu disse. A existência domal como valor absoluto (um valor negativo) corrobora comminhas alegações, posto que o mal é o inverso do bem.E quem é capaz de definir o que é o “bem ou mal”estabelecendo tais conceitos como regra pétrea? Eu? Você?
  27. 27. Qual o homem capaz de diferenciar aquilo que é bom daquiloque é mal usando para tanto a razão, a lógica e o “bom senso”humano a tal ponto da sua definição ter que ser aceita perantetodos os demais homens da face da terra e se tornar como umvalor e dever moral a ser seguido pelas gerações futuras?O pensamento evolucionista alega que não passamos de umafeliz combinação de átomos e nossos pensamentos e crençasnada mais são do que interações químicas favoráveis àsobrevivência, portanto essas sinapses religiosas teriam sidomuito úteis até aqui. Mas, alegam alguns ateus, atingimos umgrau de evolução que nos permite abrir mão dessas sinapsesreligiosas e seguirmos adiante acreditando apenas na razão.A imagem abaixo, retirada do site do Paulo Lopes, é bastanteintuitiva quanto a isso.O problema é que, neste caso, as sinapses da razão não serãodiferentes das sinapses da religião, pois a construção desseraciocínio fundamenta-se em reações químicas do cérebro tantoquanto a construção do raciocínio religioso. Se assim for, o quegarante que amanhã não iremos chegar a uma nova conclusãode que a crença na razão não passou de um período evolutivoquando isso era importante para a sobrevivência de nossaespécie? Mesmo assim, o próximo raciocínio também estarácomprometido pela mesma lógica. E assim sucessivamente.
  28. 28. Logo não é somente a religião que muda no decorrer do tempo.A própria razão humana passa pelo mesmo processo.Se a teoria da evolução é verdadeira em todos os seus aspectos,é certo que quando o homem evolui, o seu cérebro tambémacaba evoluindo junto com ele. Como podemos estar segurosde que as conclusões que produzimos com o nosso cérebro emprocesso de evolução sejam definitivas?Mas quando falamos na existência de valores e deveres moraisobjetivos, tal conceito é independente das afirmações dasreligiões e da razão humana. Esses valores existem por si só.“Num certo sentido, você está absolutamente certo. Normas moraisnão brotam da pedra nem aparecem inscritas na encosta de umamontanha. Mas a natureza pode ser estudada, conhecida, e dela oshomens podem extrair certos princípios éticos. Não estou dizendo que anatureza seja um bom candidato para substituir Deus. Estou apenasdizendo que os homens sempre fizeram isso.”Questões de ética e moral são de caráter pessoal. A natureza éimpessoal, portanto, uma péssima candidata a ser mantenedorade valores e deveres morais objetivos.“Veja, por exemplo, o caso dos gregos. Os estóicos interpretavam ouniverso como um cosmos, ou seja, um mundo ordenado, racional eharmônico, o contrário do caos. Dessa interpretação eles tiraram umamoral segundo o qual o bem consistia em agir conforme a natureza.Portanto, quando os estóicos falavam em agir conforme a natureza,eles não estavam falando em oprimir os mais fracos, mas em agir commoderação e equanimidade.”Uma tentativa infrutífera de achar a fonte de valores moraisobjetivos. A natureza não é racional. Para a natureza tanto fazse um meteoro cai no meio do oceano, em um jardim deinfância ou em uma penitenciária cheia de assassinos.“Mas, depois de Darwin, a interpretação da natureza mudou. Hoje elaé vista mais um palco da luta dos fortes contra os fracos, o que já levou
  29. 29. muito gente a pregar uma forma de darwinismo social ou de justificaras desigualdades sociais através do darwinismo”Uma doutrina infinitamente mais perigosa do que o estoicismo.“É por isso que sou pessoalmente contra uma moral baseada numainterpretação da natureza. À medida que vamos conhecendo anatureza, a interpretação sobre ela muda. E com a interpretação mudatambém a moral.”Sim.Procuro basear minha ética na existência do mal, que considero, comodisse, um fato absoluto. Da forma como o homem é feito, acredito quenem mesmo no paraíso ele conseguiria ser feliz. Schopenhauerpercebeu isso muito bem quando afirmou: “Coloque-se esta raça numpaís de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde ascalhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todosencontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o maisfacilmente possível – ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ouenforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e causarem-semutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe.”Você pode alegar de novo que a existência do mal é como o ateísmo,que ela não possui caráter moral, nem fala nada sobre questões éticas.Mas eu discordo disso. Se o mundo é um inferno, se os homens estão naTerra para sofrer, é absolutamente indispensável que façamos o bempara aliviar o sofrimento geral. Esta era a opinião de Schopenhauer,que também escreveu: “A convicção de que o mundo e por conseguinteo homem são tais que não deveriam existir, é de molde que nos deveencher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, deuma tal espécie de seres?”Isso recai no que eu já lhe disse acima.“Se o mundo é como diz Schopenhauer, e eu não tenho qualquer motivopara duvidar dele, então estamos obrigados a aliviar o nossosofrimento sem causar sofrimento aos outros. A isso você objetou: “
  30. 30. “Com este raciocínio poderíamos justificar qualquer tipo deconduta,"desde que não aumente o fardo de seus semelhantes". "desde semelhantes"Poderíamos justificar, por exemplo, a conduta de um pedófilo quecoleciona fotos de crianças nuas em seu computador pessoal.Poderíamos, inclusive, justificar a conduta de um adultero que se dábem ao trair sua esposa sem que ela nunca descubra que foi traída. Oque os olhos não vêem...“Não acho que o seu primeiro exemplo seja válido, pois como sepoderia tirar fotos de uma criança nua sem de alguma forma molestá-la?”Colocando uma câmera escondida onde ela toma banho. Comela dormindo, etc.E pedófilos que praticam sexo oral em bebes (que nojo!)? Osinfantes “chupam” o penis do infeliz como se chupassem umachupeta ou uma mamadeira, eles nem percebem. Se o pedófilodeixar de fazer isso com a criança quando ela crescer e tomarconsciência das coisas que estão à sua volta ela não carregaráconsigo nenhum trauma.Isso é algo moralmente bom? Não fazer isso com bebês recémnascidos é um valor moral objetivo que deve ser seguido peloshomens, ainda que eles não sofram nenhum trauma com isso?“Aliás, para o nosso atual Código Penal, isso já é definido comoestupro. Quanto ao caso do marido adúltero, posso dizer o seguinte:mesmo que ele consiga trair sua esposa sem jamais ser descoberto, issono entanto não invalida os riscos que ele corre. Suas infidelidadespodem ser descobertas e causar sofrimentos à esposa. Nesse caso,bastaria fazer a seguinte retificação:Vamos ver...“Todo homem tem o direito de procurar o máximo prazer, desde quenão aumente (ou corra o risco de aumentar) o fardo de seussemelhantes.”
  31. 31. Isso se chama hedonismo. E poderá, por vias lógicas, cair nodilema do pedófilo que propus acima em casos que não existenenhum risco de aumentar o fardo do seu semelhante (no casoa criança que nem se dará conta do que sofreu).Poderia levantar mais uma série de outros dilemas, mas ficareipor aqui...E existe um problema com o pensamento hedonista como fontede exemplo a ser seguido. O máximo prazer para satisfaçãopessoal poderá trazer graves consequências em curto, médio oulongo prazo para o próprio praticante do hedonismo.Eu não executo uma maldade somente quando causo mal aoutras pessoas. Posso executar uma maldade fazendo o mal paramim mesmo ou influenciando outras pessoas a se degradaremsobre a máxima de que ele não estará fazendo mal a terceiros aobuscar o máximo de prazer para si próprio.“Observe que a existência do mal oferece um fundamento muito maissólido para a moral do que a religião, e bem menos sujeito aoscaprichos do relativismo cultural do que ela.”O mal nada mais é do que o desvio de um valor objetivomoralmente bom.Se determinado valor moralmente bom não é absoluto por queo seu inverso – o mal – seria?Se você classifica atitudes humanas como maléficas e fixa talconceito como tendo caráter absoluto, estará com issoadmitindo o inverso. Ou seja, se ele fizesse o contrário do quefez estaria fazendo algo de bom. Se o que ele fez é mal e talclassificação tem caráter objetivo, atitudes inversas são, de igualmodo, portadoras de caráter objetivo também e devem serseguidas por todos os homens, posto que são bons valores.Acredito que você trocou seis por meia dúzia. O mal só existepor que aquilo que é bom existe.
  32. 32. Que diferença tem em eu falar “bondade e maldade absoluta”ou “moralidade ou imoralidade absoluta”? Obviamentenenhuma... “Dos gregos antigos até hoje o mal não desapareceu. A religião, noentanto, mudou bastante de lá para cá. Já não há tantos deuses, e odeus cristão é bem mais moral e indulgente do que aqueles deuses doOlimpo.”Concordo...“Não estou dizendo que esse seja o seu caso, Hélio, mas acho que essadiscussão sobre o relativismo foi criada apenas para manter opreconceito religioso contra os ateus.”Mas isso é uma percepção pessoal sua. É tarefa impossívelevidenciar sua suspeita. Quem resolveu falar sobre valoresmorais objetivos com o intuito de reforçar preconceito contra osateus. Quando ele fez isso?Eu acho que esse tipo de discussão é antigo e não teve comomotivação reforçar preconceito contra ateus (eu também nãotenho evidências desta alegação, rsrs).Eu acho que o preconceito contra ateus por certos religiosos temoutras causas.“Sempre foi opinião corrente entre os religiosos que os ateus nãopodiam ser bons, não podiam ter caráter, nem se comportar de formacorreta. Mas, como há um Dráuzio Varella e um Patch Adams paradesmentir esse mito, a religião foi obrigada a mudar de estratégia.”Parece que os religiosos seguiram as evidências que apontavampara o sentido contrário ao de suas crenças. “Hoje ela já não diz que um ateu não pode ser bom, mas que ele nãopode organizar uma sociedade justa.
  33. 33. Os religiosos sempre afirmam que não é possível deduzir um Bem e umMal da relatividade da moral. Parece-me que nisso apenas seguemNietzsche.O que eu acho muito curioso nisso é que ninguém acha que arelatividade é um problema quando o assunto é beleza. Ora, não existeum padrão absoluto de beleza. Na Bíblia, por exemplo, não háqualquer trecho em que se define um ideal de beleza masculino oufeminino. Não está escrito, por exemplo: “A mulher deve ter 1,80 dealtura, seus seios devem caber na concha da mão e estar separados trêscentímetros um do outro, suas coxas devem ter a circunferência tal etal”. Tudo o que nós sabemos da beleza é que ela varia segundo otempo e o lugar, ou seja, é um produto do relativismo cultural.Mas, embora não haja um padrão absoluto de beleza, nós jamaisrenunciamos aos conceitos de Belo e Feio. O fato de o padrão de belezaser relativo jamais nos impediu de classificar os homens como feios oubonitos.Podemos então, com base nisso, fazer a seguinte pergunta: se umreligioso acha que a relatividade da moral torna impossível falar emBem e Mal, ele próprio não deveria renunciar aos conceitos de Belo eFeio, já que não existe um padrão absoluto de beleza?”Não. E explico por que.Negar a existência de valores e deveres morais objetivos éperder o referencial de bem e mal, já que tal referencial nãoexiste. Se valores e deveres morais objetivos não existem vocênão deve julgar as atitudes de absolutamente ninguém comoque querendo impor ou persuadi-lo a fazer aquilo que você achaque é bom, honesto e justo. Você pode sim falar em “bem emal”, você só não pode julgar os outros como se conceitos como“bem e mal” fossem objetivos.E é exatamente isso que você faz quando estabelece conceitosde “belo e feio”. Você estabelece tais conceitos por si mesmo epara si mesmo e não age como que os conceitos estabelecidospor si e para si sejam de valor absoluto.
  34. 34. Agora se valores e deveres morais objetivos não existem aojeriza que temos quando presenciamos um crime hediondocontra um inocente, que faz emanar em nós certa indignaçãocontra o criminoso, torna-se algo vazio em si mesmo, semsentido. Sendo assim é até injusto você condenar o criminoso,já que não existe nenhum valor e dever moral objetivo que nós,seres humanos, devemos cumprir.Se valores e deveres morais objetivos não existem, o fato devocê olhar para a história e sentar na cadeira de juiz a fim dejulgar “os crimes das religiões” se torna uma atitude incoerentee arrogante da sua parte.Esse tipo de reação não se verifica quando comparamos beleza.E sabe por quê? Por que, de fato, não existe um padrão de belezaque todos deveríamos seguir.Padrão de beleza realmente não existe. É por essa razão que eudesconheço no mundo um tribunal que condena pessoas pelo“crime” delas serem feias.Padrão de beleza realmente não existe. É por essa razão quevocê não fica indignado quando encontra uma moça que vocêacha feia e a acusa perante o público dela não estar encaixadaem seu padrão de beleza.Valores morais objetivos existem. É por essa razão que vocêfica indignado quando encontra a mesma moça feia afirmandoque os negros são seres inferiores aos brancos e que elesmerecem ser espancados até a morte.Você simplesmente não diz: “Tranquilo, isso é relativo mesmo.Não existe um padrão de moralidade que ela deve seguir. Eladeve ter vindo de uma cultura em que espancar negros até amorte é algo moralmente bom. Eu não concordo com isso, masdevemos respeitar”.Apesar de você acreditar que não existem valores e deveresmorais objetivos acaba agindo como se tais valores e deveres de
  35. 35. fato existissem, tamanho a sua indignação frente ao racismocriminoso da garota feia, cuja feiúra não fez você ficarindignado com ela, posto que não existe um padrão de belezaabsoluto que ela deveria seguir.Abraços. ~*~3) Considerações finais do RodrigoHélio, me parece que nós temos duas divergências principais,que podem ser expressas assim: 1) a moral é relativa ouabsoluta; 2) se ela for relativa, é possível fundamentá-la dealguma forma? – ou, dizendo de outra forma, ainda é possíveltecer juízos morais?Quanto à primeira dessas divergências, mantenho a minhaafirmação de que a moral é relativa, o que pode ser comprovadotanto pela História quanto pela Antropologia. E Deus não podeser um fiador de uma moral absoluta porque ele próprio nãoescapa do relativismo. Imagine um ídolo que estivesse sobreuma prancha de madeira e que esta prancha estivesse sobre asondas de um mar. O ídolo, por estar apoiado sobre a prancha,parece ser estável, mas a prancha está sujeita ao movimento dasondas. Os valores morais da religião são como esse ídolo sobre aprancha. Eles parecem ser estáveis, mas, quando a prancha(religião) é destruída pelas ondas (os humores do tempo), elestambém desaparecem.Assim, a relatividade da moral não é um problema que os ateustêm que enfrentar. É um problema com o qual a humanidadetem de lidar. Colocar um Deus no céu e dizer que dele derivam
  36. 36. valores morais absolutos é uma falsa solução para o problema.Na verdade, apenas atrasa a descoberta de uma solução.Você admite que as religiões possuem uma história, ou seja, queelas nascem e morrem no tempo, e que o cristianismo poderiadesaparecer em 2000 anos. Neste caso, você não tem comogarantir que as normas morais contidas na Bíblia são ascorretas, as definitivas, já que o próximo deus da próximareligião poderia pregar o contrário do que prega o deus cristão.Essa impossibilidade se estende, no entanto, a todos osreligiosos de todas as religiões que já existiram ou ainda vãoexistir. Mesmo que exista um Deus que tenha fixado normasmorais absolutas, ninguém teria acesso a elas. Essas normasseriam tão misteriosas para você quanto o são o próprio Deusdo qual elas emanaram. Portanto, mesmo acreditando em Deus,você ainda está obrigado a fundamentar a sua ética em qualquerlugar que não seja Deus.Uma ética baseada na religião é necessariamente uma coisatransitória. Veja o que aconteceria se eu e você pudéssemosviver eternamente (toc, toc). Em poucos séculos, a sua éticateria que mudar. A minha, que é baseada na existência do mal,permaneceria a mesma. Se o próximo deus for a favor dahomossexualidade, sua posição a respeito do tema terá que seralterada. A minha, no entanto, continuará a mesma. O malfornece um fundamento muito mais sólido para a moral do quea religião.Você se esforçou para mostrar que uma ética baseada naexistência do mal é insustentável e, para apoiar sua opinião,citou alguns exemplos. Mas nenhum deles me pareceuconvincente. Antes você tinha falado do adultério e do estupro.Agora tornou a falar do estupro, mas com um exemplo umpouco diferente. Pelo que sei do abuso sexual, é improcedente aafirmação de que um pedófilo poderia de alguma forma fazersexo oral num bebê sem lhe causar sérios danos psicológicos.
  37. 37. O princípio ético que estabeleci – o de procurar o máximo deprazer sem causar sofrimento aos outros – é uma norma geralmuito útil, a meu ver, mas que certamente não abrange todas aspossíveis situações. Mas isso se pode dizer a respeito dequalquer mandamento cristão, como, por exemplo, o “nãomatarás”. Eu poderia lhe perguntar: “quer dizer então que eunão posso matar o psicopata que atenta contra a minha vida?”Mas eu não usaria essas limitações (inevitáveis) paradesqualificar o mandamento. Como regra geral, ele funcionamuito bem.Você condena o hedonismo que há no meu princípio ético,dizendo que ele pode prejudicar o próprio hedonista, além deservir de péssimo exemplo. Mas, se alguém tem o direito debuscar o máximo de prazer sem causar sofrimento, é claro queisso inclui o próprio hedonista. Eu não aconselharia ninguém aser alcoólatra, glutão ou promíscuo, por mais que a bebida, acomida e o sexo dêem prazer.Quanto à segunda questão, deixe-me repetir, antes de começarminha defesa, o que disse há pouco. Não acredito que a religiãosolucione o problema da relatividade da moral. Como ela nãotem acesso à verdadeira moral absoluta, que é monopólio da“religião verdadeira”, ou seja, da religião que não está sujeita aorelativismo cultural, então tudo o que ela tem a oferecer é aafirmação de que existem valores morais absolutos. Afirmação,aliás, não provada.Você levanta a objeção de que, sem um padrão moral absoluto,não é possível tecer juízos éticos, criticar coisas como estupro,infibulação ou canibalismo. Isso, admito, parece ser verdade.Mas só parece, não chega mesmo a ser verdade.Quando se fundamenta a moral na existência do mal, como eufaço, todas essas práticas se tornam condenáveis, mesmo que seseja um relativista. E todas são condenáveis porque causamsofrimento à humanidade. Que não exista uma moral absolutanão significa que seja impossível encontrar critérios válidos nos
  38. 38. quais basear a nossa conduta e que, a partir deles, não se possaestabelecer um certo e um errado.Isso é similar ao seguinte: não existe uma normalidade sexual.Se perguntarmos para cem pessoas o que é normal em matériade sexo, obteremos cem respostas diferentes. Mas, se umhomem tem cinqüenta relações sexuais por dia, se não usacamisinha e se expõe a toda espécie de riscos, nenhuma dessascem pessoas irá dizer que esse é um comportamento sexualnormal. E nenhuma fará isso porque seu julgamento se baseianum critério, que é o do interesse humano. Se você tem umcomportamento sexual que lhe causa prejuízo, isso deve serconsiderado errado.Muitas vezes nós não sabemos o que é certo, mas sabemosexatamente o que é errado. Por estranho que pareça, nunca foinecessário haver um normalidade sexual para que fosse fácildeterminar a anormalidade. Também nunca foi preciso haverum padrão absoluto de beleza para que criássemos os conceitosde Belo e Feio. Da mesma forma, nunca foi preciso haver umpadrão absoluto de moralidade para que criássemos os conceitosde Bem e Mal.Aliás, acho que o critério que a humanidade sempre usou atéhoje é o do interesse humano. Por que o incesto é errado? Porque Deus disse que é errado? Não. Porque a humanidadepercebeu que os resultados do incesto eram terríveis. Não foipreciso nenhum deus para nos ensinar o que a experiência jáhavia nos ensinado. (A propósito, parece-me um insulto àhumanidade dizer que a moral procede de Deus. Isso equivale adizer que o homem pratica o incesto, vê os seus maus resultadose, depois disso tudo, ainda precisa que um Deus baixe umdecreto contra o incesto.)É verdade que o estupro já foi considerado certo em outrasépocas e talvez ainda o seja em alguns lugares, mas eu duvidoque nessas épocas e nesses lugares os homens soubessem quaiseram os danos que o estupro causa a uma criança. Mesmo nos
  39. 39. dias de hoje as pessoas parecem não saber. Elas sabem que eledeixa seqüelas, mas a maioria não sabe quais são essas seqüelas.Para terminar, gostaria de lhe agradecer pela oportunidadedessa discussão. Só receio que não tenhamos falado da mesmacoisa. Acho que houve uma certa incompreensão da sua partequanto à minha expressão “fato absoluto” (talvez por minhaculpa mesmo). Eu não estava dizendo existe um mal absoluto,apenas que a existência do mal é um fato absoluto. Sãoafirmações diferentes, mas exigiria outra página para que eupudesse explicar.De qualquer forma, foi um prazer. Um abraço. ~*~4) Considerações finais do HelioVou iniciar minha conclusão replicando algo que disse ao longodo debate e que segue abaixo:Quando eu afirmo que “existem valores e deveres morais objetivos nãoestou afirmando que:1 – Não existe moralidade relativa.2 – Toda e qualquer atitude humana deve ser classificada (moralmentee eticamente falando) de maneira absoluta.A alegação de que existem valores e deveres morais objetivos nãoimplica necessariamente que certas atitudes humanas não podem serclassificadas de maneira relativa.Foi baseado nesse pensamento que eu teci todo o arcabouço deminhas ideias. Eu me pautei que existem valores, deveres eprincípios morais objetivos, coisas que podemos perfeitamenteclassificar como valores realmente bons, ainda que futuramente
  40. 40. tal valor venha se esvaecer entre a espécie humana devido asmudança das nossas “sinapses religiosas” e “sinapses da razão”frutos das descargas elétricas e reações químicas que ocorremem nosso cérebro que esta em constante evolução.Por isso eu escrevi: “Se a teoria da evolução é verdadeira em todosos seus aspectos, é certo que quando o homem evolui, o seu cérebrotambém acaba evoluindo junto com ele. Como podemos estar segurosde que as conclusões que produzimos com o nosso cérebro em processode evolução sejam definitivas?Mas quando falamos na existência de valores e deveres moraisobjetivos, tal conceito é independente das afirmações das religiões e darazão humana. Esses valores existem por si só.”Ainda que as religiões mudem seus códigos morais, ainda que arazão humana sofra constantes alterações, valores e deveresmorais realmente bons continuarão a existir.E por que eu defendo que a origem de tais valores esta em deus?Por que somente um ser inteligente e pessoal para ser guardiãoe definidor de tais valores.Como classificar o amor fraternal, a honestidade nos negócios,a amizade sincera, a solidariedade, a compaixão, a fidelidadeconjugal para com o parceiro que te ama, o altruísmo e orespeito entre os homens? Podemos classifica-los como valoresobjetivos? Esses valores são realmente bons valores, mausvalores, ou são valores neutros? Ou essa definição é relativa,estando condicionada à cultura, época, sinapses da mentereligiosa e sinapses da razão humana?Se você afirma que tais valores são relativos irá perder o seuprincipal referencial para a definição dos seus valores, que é aexistência do mal.E perdendo o seu referencial sobre o que é o mal você perde aprincipal plataforma do seu argumento que reside na...existência do mal.
  41. 41. Ora, o mal não é o contrário daquilo que é bom? Se nãopodemos saber de forma objetiva e absoluta aquilo que é bom(pois isso é relativo), como classificaremos o mal?E quem definiu aquilo que é bom?Que tipo de mente inteligente humana, que estaobrigatoriamente sujeita às alterações das sinapses do cérebro,irá definir aquilo que é bom para que o mal seja, por tabela,identificado?Como podemos estar seguros de que as conclusões queproduzimos com o nosso cérebro em processo de evoluçãosejam definitivas?Eu prometi não refutar partes da sua conclusão, mas a tentaçãofoi grande, me desculpe.Quando você diz: “Por que o incesto é errado? Por que Deus disseque é errado? Não. Porque a humanidade percebeu que os resultadosdo incesto eram terríveis.”Ora, você fala como se existisse um consenso entre todos oshomens a respeito disso.A humanidade quem? Eu, você e todas as pessoas queconcordam que o incesto é errado.Os demais que não concordam com isso estão fora dessa.E quem somos nós para afirmar perante aqueles que acham oincesto correto que eles estão errados?Ou vamos apelar para a falácia do “ad populam”. Isso não serianada honesto.As sinapses do nosso cérebro munido de uma série de fatoresinternos e externos nos levaram a concluir que o incesto éerrado.
  42. 42. Já para as demais pessoas as sinapses do cérebro delas munidode uma série de fatores internos e externos as levaram aconcluírem que o incesto não é errado.E já que existe um conflito de oposição de valores que emanamdo nosso cérebro, por que as nossas conclusões são as certas e adeles erradas?Esse tipo de conflito sempre vai existir entre a humanidade e,neste ponto, você concorda comigo, pois escreveu:(...)“enquanto o homem existir sobre a Terra, o mal sempre vaiacompanhá-lo,acompanhá-lo independente da época e do lugar onde ele viva.”O mal sempre vai acompanhar os homens por um únicomotivo. Por que os próprios homens não praticam aquilo que ébom.Para não me estender concluo dizendo mais uma coisa ecompartilhando uma frase de um famoso ateu critico da religiãoque não acredita que existem valores e deveres moraisobjetivos:1 – Eu acho interessante a atitude dos ateus que afirmam quevalores e deveres morais objetivos não existem e que aocriticarem de maneira tão hostil as religiões se comportamcomo se valores e deveres morais objetivos existissem. Quandovocês falam dos conceitos de “belo e feio” vocês não agem comose existisse um padrão absoluto de beleza. Por que com questõesreferentes à moralidade seria diferente?2 – “Se o universo fosse constituído apenas por elétrons e genesegoístas, tragédias sem sentido como o desastre deste ônibusseriam exatamente o que esperaríamos, junto com uma boasorte igualmente destituída de significado. Este universo nãoteria intenções boas ou más. Não manifestaria qualquer tipo deintenção. Em um universo de forças físicas e replicação genéticacegas, algumas pessoas serão machucadas, outras pessoas terãosorte, você não achará qualquer sentido nele, nem qualquer tipo
  43. 43. de justiça. O universo que observamos tem precisamente aspropriedades que deveríamos esperar se, no fundo, não háprojeto, propósito, bem ou mal, nada a não ser uma indiferençacega, impiedosa. Como o infeliz poeta A. E. Housman colocou:O ADN não sabe e nem se importa. O ADN apenas é. E nósdançamos de acordo com a sua música” Richard Dawkins, em“O rio que saia do Éden, pg 70. ~*~5) Última troca de emails entre oRodrigo e o Hélio após a conclusãodo debate acima RODRIGOHélio, me deixe explicar o que eu entendo pela expressãovalores morais absolutos e por que não acredito que isso exista.Não quero que haja dúvidas nem confusões a respeito dasminhas ideias.Sempre que ouço a expressão valores morais absolutos, vem-meà mente alguma coisa que se parece com o Mundo das Ideias doPlatão, no caso um Mundo dos Valores onde haveriaplaquinhas com as normas morais eternas fixadas por Deus.Não estou dizendo que você dê uma realidade física a taisvalores, mas me parece que a ideia de valores morais absolutos éinspirada no Mundo das Ideias do Platão. No sentido de queexiste uma realidade que nos transcende, uma coisa que é maiordo que nós, algo eterno e imutável, alheio às idiossincrasiashumanas.Penso que, se houvesse um Mundo dos Valores, haveria lá umaplaquinha com a seguinte norma: “Estuprar é errado”. E essa
  44. 44. norma independeria do contexto cultural. Assim, se um nativodas Ilhas Maurício disser que na sua terra estuprar crianças éum hábito sancionado, nós seríamos obrigados a retrucar: “Nãoimporta que vocês estuprem crianças, porque estuprar é errado.Existe uma norma moral que é maior do que a diversidade dasnossas opiniões”.Bem, se a expressão valores morais absolutos significasse sóisso, eu até poderia concordar de bom grado que tais valoresexistem. (Mas, mesmo neste caso, não diria que isso tenhaalguma coisa a ver com Deus. Não acho que a existência devalores morais absolutos implique a existência de Deus.)O que torna, para mim, muito difícil aceitar a existência devalores morais objetivos é o seguinte: a religião usa essaexpressão de forma muito mais ampla, fazendo-a abranger nãosó o contexto cultural, mas até mesmo as chamadas situações-limite. Lembro-me de um livro que li uma vez chamado Em quecreem os que não creem, uma correspondência entre o cardealMartini, o escritor Umberto Eco e outros personagens na qualse discutiam as mesmas questões que estamos discutimos agora.Numa de suas cartas, o cardeal Martini citou uma passagem doteólogo Hans Kung, na qual este desafeto de Bento XVI diziamais ou menos o seguinte: “A religião continua indispensávelporque ela fornece um critério ético absoluto que pode ser usadoem situações-limite”.É aqui que começa a minha incredulidade...Imagine a seguinte situação: seu país está em guerra com o paísvizinho, e você foi capturado e trancafiado numa prisãosubterrânea junto com vários de seus compatriotas, incluindomulheres, velhos e crianças. Certo dia, um dos soldadosinimigos vem abrir a porta da sua cela, e ordena que você e umagarotinha de cinco anos se levantem. Em seguida, ele os escoltaaté uma ampla sala localizada num compartimento isolado doedifício, onde nenhum dos outros prisioneiros pode vê-los ououvi-los. A sala tem uma peculiaridade: a parede que fica do
  45. 45. lado esquerdo de quem entra é de vidro blindado, e atrás dele háuma espécie de arquibancada onde alguns oficiais do exércitorival estão reunidos. O único móvel presente é uma mesa demadeira, sobre a qual descansa um revólver. Nem você e suacompanheira, que podem ver pelo vidro transparente a estranhaaudiência, conseguem imaginar o que estão fazendo ali, até quede repente ouve-se uma voz soturna vinda de um alto-falanteposicionado no alto de uma parede: “Fulano, você irá participaragora de um experimento psicológico. Na mesa que está ao seulado, há uma arma com uma única bala. Você irá pegá-la eescolher uma dessas duas opções: a primeira é dar um tiro natesta da menina que se encontra a sua frente. Se você fizer isso,nós o libertaremos de imediato. Sua segunda opção é estuprá-la.Se você escolher essa alternativa, prometemos libertar você eela sem demora. Mas, se por covardia ou por esperteza você serecusar a fazer uma escolha, isto é, se usar a arma para cometerum suicídio, essa linda criança será estuprada por todos nós edepois ainda será assassinada”.Pergunto a você, Hélio. Se você estivesse no lugar desse infeliz,o que faria? Mataria para não estuprar? Estupraria para nãomatar? Ou se suicidaria?Creio que, numa situação como esta, muitos homensprefeririam estuprar a garota a assassiná-la ou a permitir que elafosse estuprada e assassinada. E creio que seria a escolha certa.Se o tempo mostrasse que isso foi um erro, a vítima poderiacorrigi-lo com um suicídio; mas se a escolha recaísse sobre oassassinato e isso se mostrasse um erro, como ela haveria decorrigi-lo?Por mais trágico que isso possa parecer, o fato é que hásituações em que o estupro seria moralmente justificável.Portanto, a norma moral “estuprar é errado” não é válida emtodas as situações. Ela pode ser válida em 99,99999% dos casos.Mas no 0,000001% restante ela não pode ser aplicada. Eu nãoteria coragem de condenar um homem que cometesse umestupro nessa situação da mesma forma que condeno um
  46. 46. estuprador comum. O contexto no qual esse estupro foipraticado muda todo o meu julgamento moral.É neste sentido que eu digo que não existem certo e erradoabsolutos. Certo e errado dependem fundamentalmente docontexto. Uma coisa pode ser certa numa determinada situaçãoe errada em outra, ou errada numa situação e certa em outra.Mas, pelo que eu entendo, essa é uma posição que umabsolutista moral não poderia aceitar. Um absolutismo não temnem o direito de falar em contexto... HÉLIO COMENTARodrigo,Preste atenção nesta minha alegação.“Existem valores e deveres morais objetivos que devemoscumprir.”A situação limite levantada por você só é possível de acontecerse determinada pessoa (ou um grupo de pessoas) não seguiremdeterminados valores e deveres morais.Se o grupo de soldados não trancafiassem eu e a menina de 5anos dentro da sala me obrigando a decidir entre 3 situaçõesnefastas eu não precisaria fazer absolutamente nada de malcontra mim ou contra a garota.Se todos os homens do planeta seguissem determinados valorese deveres morais objetivos esse tipo de dilema proposto porvocê não ocorreria em nenhum lugar deste mundo, emnenhuma época, em nenhuma circunstância, em nenhumacivilização, em nenhuma cultura.Não ocorreria nem mesmo a guerra que culminou na minhaprisão e na prisão desta garota.
  47. 47. Estuprar é errado, mas também é errado eu obrigar ou induziralguém a cometer estupro.E se eu obrigo alguém a cometer um erro como esse, não lhefacultando saída, a própria pessoa não pode ser acusada decometer erro algum, conforme você mesmo reconheceu.Ele foi forçado a isso. E não é exatamente isso que ocorre comalguém que foi vítima de estupro?Nesse caso o sujeito que é obrigado por meio de uma pressãopsicológica como a descrita acima a fazer que ele não queirafazer sofre uma espécie de “estupro mental”.Quando uma mulher é estuprada não costumamos falar “ela fezsexo com outro homem”. Antes, simplesmente falamos: “ela foiestuprada”, que é o que realmente aconteceu. Ela é isentadainclusive de ter realizado alguma ação, é como se ela não tivessefeito absolutamente nada.A mesma lógica pode ser aplicada para o sujeito da ilustraçãoacima vítima de um estupro mental ao ser forçado a fazer algoque ele não queria fazer, não lhe sendo facultado uma únicasaída.Mas seja lá como for, ainda que a minha lógica falhe, quando euafirmo que “existem valores e deveres morais objetivos” naprópria frase já estamos implicando que tais valores e deveresestão inseridos dentro de um contexto.Como falar em “dever objetivo” (a coisa certa a se fazer) semum devido contexto por onde eu aplicarei determinado valor edever?O contexto (1) onde eu aplicarei o valor e o dever objetivo (2)são duas coisas indissolúveis (1 e 2 são indissolúveis).
  48. 48. Eu só posso aplicar determinado valor e dever moral nasociedade ao viver determinados contextos dentro dessa mesmasociedade.Agora, excluindo qualquer situação em que eu sou colocado naobrigação de estuprar alguém, o meu dever é não cometerestupro e isso é um valor e dever moral objetivo.Resumindo, poderia dizer:Quando eu estou com vontade de fazer sexo, estuprar alguémpor livre e espontânea vontade é errado? (note que eudetermino um contexto pelo qual farei a minha escolha)A resposta pode ser:a) Simb) Nãoc) Tanto faz, não existem valores e deveres morais objetivosque devemos seguir.Qual seria a sua resposta?“Bem, se a expressão valores morais absolutos significasse só isso, euaté poderia concordar de bom grado que tais valores existem. (Mas,mesmo neste caso, não diria que isso tenha alguma coisa a ver comDeus. Não acho que a existência de valores morais absolutos impliquea existência de Deus.)”.Se a partir desse momento você reconhecer que valores edeveres morais objetivos de fato existem deverá mostrar queisso não implique a existência de um deus ou ainda que isso nãoimplique a necessidade de se invocar um deus como legisladormoral e mantenedor de valores e deveres morais objetivos.Sendo assim o nosso debate mudaria de rumo e você teria queme explicar como é possível existir algum tipo de valor e devermoral objetivo neste mundo sendo que todo o universo, sendo
  49. 49. composto por um amontoado de átomos que se ordenaram demaneira acidental e que deu origem à vida humana (de formaacidental também, sem nenhum propósito), possa terestabelecido regras pelas quais toda a humanidade deveriaseguir.É como se o nosso universo, de alguma forma, revestido deimpessoalidade, irracionalidade e sem nenhum senso de razão ejustiça fosse capaz de no decorrer do seu processo micro emacro evolutivo projetar sobre nós um conjunto de valores edeveres morais objetivos pairando sobre nossas cabeças.Eu, na contramão, iria tentar provar que a noção de deus para aexistência de valores e deveres morais objetivos é muito maisracional do que a crença de que esse universo irracional,impessoal e sem nenhum senso de razão e justiça pudesse serlegislador e mantenedor de valores e deveres morais que osseres humanos devem cumprir. ~*~O Rodrigo e o Helio prometeram voltara debater a questão em janeiro de2013.Agora uma pausa para descanso ecomemorações das festas de fim deano.Oferecemos esse debate para todos osque se interessam no assunto: teistas,ateus ou agnósticos.

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