Emily rodda deltora quest 7 - o vale dos perdidos

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Emily rodda deltora quest 7 - o vale dos perdidos

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...Lief, Barda e Jasmine estão à procura das sete pedras perdidas do mágicoCinturão de Deltora e estão perto de atingir a sua meta. Seis pedras brilham agorano Cinturão, e a última deve ser encontrada para que Deltora possa ser libertada datirania do perverso Senhor das Sombras.Os companheiros enfrentaram vários terrores com força e coragem. Agoraestão prestes a conhecer os sombrios mistérios que não podem ser derrotadossomente com força e coragem. Se falharem, a sua busca estará perdida, e elesficarão aprisionados para sempre na atordoante névoa do Vale dos Perdidos.SUMÁRIOTerrores na noiteCompanhiaÀ derivaSilêncioO segredo de ToraOs recém-chegadosUma guerra de vontadesCaminhos separadosO Vale dos PerdidosO palácioO jogoA procuraFaíscas brilhantesO nomeO porta-jóiasRespostas
  2. 2. ATÉ AGORA...Lief, Barda e Jasmine partiram em uma grande busca pelas sete pedraspreciosas do mágico Cinturão de Deltora. Escondidas em locais assustadores portodo o reino, elas devem ser recolocadas no Cinturão para que o legítimo herdeirodo trono possa ser encontrado e a tirania do Senhor das Sombras, derrotada.Seis pedras já foram encontradas. O topázio, símbolo da lealdade, que temo poder de contatar o mundo espiritual e de aclarar e estimular a mente; o rubi,símbolo da felicidade, cuja cor perde a intensidade na presença de ameaças, repeleespíritos malignos e é um antídoto para venenos; a opala, pedra da esperança, queoferece vagas imagens do futuro; o lápis-lazúli, pedra celestial, que é um poderosotalismã; a esmeralda, símbolo da honra, perde o brilho na presença do mal; aametista, símbolo da verdade, acalma e tranqüiliza.
  3. 3. Os companheiros descobriram um movimento secreto de resistênciachefiado pelo misterioso Perdição. Outro membro da resistência, Dain, um jovemcom a mesma idade de Lief, foi seqüestrado por piratas, e os pais de Lief foramaprisionados.Sempre receosos dos Guardas Cinzentos que servem ao Senhor dasSombras e dos terríveis Ols, capazes de mudar de forma e aparência, os amigosprecisam agora cruzar o rio Tor e partir para a sua última meta, o Vale dos Perdidos,onde se encontra a última pedra, o grande diamante.E, agora, continue a leitura...
  4. 4. Estava escuro e muito silencioso. Lief, barda e Jasmine deslizavam pelanoite como sombras ao lado do Rio Tor, que também carregava os seus segredos.Por motivos de segurança, eles decidiram não viajar de dia, mas a noitetambém encerrava seus perigos, pois a Lua encontrava-se oculta atrás das nuvens,e eles não ousavam acender uma tocha para iluminar o caminho. Da mesma formaque a escuridão lhes servia de esconderijo, ela também ocultava o inimigo àespreita.E não era só isso que ela escondia, mas também buracos, pedras e valas,árvores, arbustos e pontos de referência. A cada passo que davam, iam rumo aodesconhecido.Os companheiros sabiam que não muito distante dali havia uma ponte e,quando a atingissem, poderiam finalmente cruzar o rio que lhes causara tantosofrimento. E, então, poderiam começar a jornada na direção do Vale dos Perdidos,onde se encontrava o grande diamante, a sétima pedra do Cinturão de Deltora.Contudo, seria extremamente fácil passar pela ponte sem notá-la, de modoque, por mais que detestassem até mesmo pensar no rio Tor, eles oacompanhavam de perto, certos de que aquelas águas escuras acabariam porlevá-los ao seu destino.Lief agarrava o Cinturão de Deltora oculto sob as roupas com uma dasmãos. Mas o Cinturão, apesar de todo o seu poder, não podia ajudá-lo enquanto ele
  5. 5. se esforçava para tentar enxergar na escuridão que cercava os amigos.— Já estamos perto — Jasmine sussurrou de repente.Lief percebeu uma certa palidez quando ela virou o rosto em sua direção.Filli, encolhido em seu casaco, emitiu um vago som sonolento. Kree encontrava-seem silêncio e invisível no ombro dela, as penas pretas ocultas pela escuridão.— Você consegue vê-la? — Barda indagou.— Não, mas sinto o cheiro de pessoas e animais, e a ponte fica logo depoisde uma vila, lembra?O grupo seguiu adiante, esgueirando-se até chegar a um trecho de terrenosem vegetação. Lief teve a impressão de ver um muro escuro erguendo-se àesquerda.Talvez houvesse habitantes armados do vilarejo atrás dele, em vigília,atentos a sinais de perigo. Talvez fosse esse o motivo pelo qual a vila ainda nãotivesse sido destruída, apesar dos piratas que navegavam nas águas do Tor e dosbandidos que rondavam as suas margens.Se ouvissem algum ruído, os guardas iriam averiguar. Atacariam deimediato, sem pena. Eles tinham aprendido com as tristes experiênciastestemunhadas ao longo do rio e sabiam que hesitar representava arriscar-se aperder tudo.Os amigos prosseguiram andando com cuidado, contendo a respiração.Mal o grupo atingiu a segurança de um bosque além do muro, as nuvens quecobriam a Lua se espalharam e o chão foi inundado pela luz.— Tivemos sorte — Jasmine comentou, prendendo a respiração. — Seisso tivesse acontecido somente alguns minutos antes...Barda tocou o braço de Lief e apontou para a frente. Por entre as árvores,ele pôde ver a ponte. Ela estava muito perto e parecia tranqüila sob o luar. Umpequeno rebanho de cabras de pêlo longo amontoava-se ao seu redor, algumas empé, outras repousando na grama.A ponte era sólida e larga o bastante para permitir a passagem de carroças.A seu lado, havia uma grande placa com dizeres um pouco apagados, o que, porém,
  6. 6. não impediu Lief de distinguir as palavras.PONTE DO REIAtravesse aqui para:ToraOnde as águas se EncontramRio LargoO coração de Lief bateu mais forte. Tora! A grande cidade do Oeste,profundamente leal aos reis e rainhas de Deltora. O local ideal para esconder oherdeiro do trono.Tora devia estar próxima, mas não havia nenhuma placa que indicasse apresença de uma cidade quando acompanharam o rio em direção à costa, apenasalguns dias antes. Na época, Lief não deu importância ao fato, pois tinha muitasoutras coisas com que se preocupar. Agora, porém, aquilo lhe parecia muitoestranho, pois certamente, segundo o nome indicava, Tora encontrava-se àsmargens do rio Tor.— Tora deve estar é bem longe do rio — Barda comentou, mostrando quepensava no mesmo assunto. — Mas é estranho que nem ao menos a tenhamosvisto a distância.Lief assentiu, ainda refletindo sobre o mistério.
  7. 7. — Talvez tenhamos passado por ela à noite, quando todas as luzesestavam apagadas. De qualquer forma, ainda podemos visitá-la quando estivermosa caminho do Vale dos Perdidos.— Para falar a verdade, seria prudente não fazermos isso, pelo menos atéque o Cinturão esteja completo — Jasmine murmurou. — Dain foi advertido...Ela se interrompeu, mordeu o lábio, e Lief e Barda também ficaram emsilêncio. Lembranças do garoto que tinham visto pela última vez amarrado eindefeso na caverna dos piratas invadiram a mente de todos.Dain desejara ir a Tora. Agora ele nunca a veria. Naquele momento, ospiratas certamente estavam navegando rio acima com ele. Em mais alguns dias,ele seria entregue aos Guardas Cinzentos. Embora Lief, Barda e Jasminesoubessem que não podiam salvá-lo, o seu olhar triste e assustado os perseguia.O rapaz faria de tudo para escapar, mas que esperança ele teria contrauma gangue de rufiões armados, ávidos pelo ouro do Senhor das Sombras?Jasmine sacudiu a cabeça como se quisesse afastar os pensamentosindesejáveis e voltou a atenção às cabras perto da ponte.— Vamos ter que andar mais devagar para não assustar os animais — eladisse. — Se elas fizerem qualquer som, estaremos perdidos.— Acho que elas estão acostumadas com as pessoas — disse Lief,observando as cabras, os pequenos chifres brilhantes, o pêlo longo e macio. — Masdevemos deixar que nos vejam agora que a Lua está brilhando. Se aparecermosdiante delas no escuro, elas irão se assustar.Ele deu um passo para a frente e parou abruptamente, os olhosarregalados. Havia algo de errado com uma das cabras! O corpo dela parecia seagitar e se encrespar como uma vela ao vento.Lief piscou depressa. Que peça o luar estava lhe pregando? Ele olhounovamente, e o animal estava exatamente como antes. No entanto, ele sentiuBarda agarrar-lhe o braço e viu outra cabra se agitando e mudando: a cabeça seesticando para cima, o corpo estremecendo para depois retomar a forma anterior. Eentão ele soube. Acabara de ver o que Dain chamara de o Tremor.
  8. 8. — Ols! — ele sussurrou. — Elas não são cabras, mas Ols! — um friopercorreu-lhe a espinha ao se dar conta do quanto haviam estado perto de semisturar ao rebanho e encontrar a morte sem de nada desconfiar.— Eles estão vigiando a ponte — Barda cerrou os dentes frustrado.— O que vamos fazer?— Um de nós terá de atraí-los para longe para que os outros dois consigampassar — Jasmine sugeriu. — Eu vou...— Eles são muitos, e o seu truque não vai funcionar, Jasmine. — Bardadiscordou com veemência. — Alguns a seguirão, outros ficarão. E, pensando bem,havia muitos pássaros aquáticos empoleirados do outro lado da ponte quandopassei a caminho da costa. Mais Ols, com certeza, embora eu não tivessepercebido isso na época. E tenho certeza de que eles ainda vão estar lá.— Então, precisamos continuar — Lief murmurou. — Dar a volta na pontepara que eles não nos vejam e encontrar outro modo de atravessar o rio, maisadiante.— Mas não há outro modo — protestou Jasmine. — Você sabe que eu nãosei nadar. E, mesmo que soubesse, os vermes assassinos...— Não podemos nadar, mas existem botes... — Barda interrompeu comcalma. — Temos dinheiro para pagar uma travessia. Ou podemos construir umabalsa. Qualquer coisa é melhor do que enfrentar dezenas dessas criaturas.Tão silenciosamente quanto haviam chegado, eles se afastaram eprosseguiram rio acima, descrevendo uma grande volta ao redor da ponte. Vez ououtra, por brechas entre as árvores, eles entreviam as cabras, ainda à espera,imóveis sob a luz da Lua.Quando o dia nasceu e o sol lutava para abrir caminho entre as nuvens, avila e a ponte haviam ficado para trás. Os amigos pararam para comer e descansare se ajeitaram sob uma moita de arbustos de folhas ásperas. Kree levantou vôo afim de caçar alguns insetos e esticar as asas enrijecidas.Lief assumiu o primeiro turno da vigília. Ele enrolou-se no casaco e tentouficar confortável. Seus olhos ardiam, mas ele não receou cair no sono, pois estava
  9. 9. com os nervos à flor da pele.As horas se arrastavam. Kree voltou e se empoleirou em um dos arbustos.As nuvens estavam baixas e se tornavam mais espessas a cada momento. "Vaichover", Lief pensou desanimado. Animais em fuga haviam criado trilhas estreitasentre a folhagem, mas naquele momento não havia nenhum à vista, e Lief sentiu-segrato por isso. Num lugar em que havia Ols em abundância, todos os seres vivoseram suspeitos.E Perdição afirmara que havia Ols que podiam assumir a forma de objetos:os Ols de Grau Três, a perfeição da arte perversa do Senhor das Sombras. Se ahistória era verdadeira e tais seres realmente existiam, até mesmo o arbusto emque Kree se encontrava ou o pedregulho aos pés de Lief podia ser um inimigosecreto. A qualquer momento, uma transformação terrível poderia ocorrer e umespectro branco e bruxuleante com a marca do Senhor das Sombras em suaessência poderia surgir e dominá-los.Nenhum lugar era seguro. Nada era confiável.Lief molhou os lábios, lutou contra o medo que lhe apertava o peito, masmesmo assim a sua carne parecia tremer sobre os ossos. Ele deslizou as mãospara debaixo da camisa e sentiu o Cinturão de Deltora que lhe pesava na cintura.Os seus dedos escorregaram até a sexta pedra, a ametista. Quando pousaramsobre ela, a sua magia percorreu-lhe o corpo, e o tremor desapareceu lentamente."Vamos encontrar um modo de achar um barco", ele disse a si mesmo."Vamos atravessar o rio, a nossa busca irá continuar e vamos sobreviver."Contudo, Lief não conseguiu livrar-se da sensação de que tinham sidoapanhados numa rede. Uma rede que o Senhor das Sombras puxava para si muitolentamente.
  10. 10. O sol já ia alto quando Barda acordou para substituir Lief na vigília. O garotoacordou no meio da tarde e constatou que o céu estava cinzento e o ar, pesado.Uma dor de cabeça maçante se manifestou quando se sentou. Ele tivera um sonopesado, pontilhado de sonhos confusos e perturbadores.Barda e Jasmine ajeitavam os seus pertences.— Acho que devemos prosseguir, Lief, assim que você estiver pronto —Barda sugeriu. — Já está muito escuro e, se esperarmos a noite cair, a nossajornada não vai render muito antes de a chuva cair.— A vila que vimos quando fomos até a costa não pode estar muito longe— Jasmine acrescentou, virando-se para espiar os arredores por entre os arbustos.— Se chegarmos até lá antes do anoitecer, talvez possamos convencer alguém anos levar para a outra margem do rio.Lief sentiu uma onda de irritação. Seus amigos estiveram conversandoenquanto ele dormia, fazendo planos sem consultá-lo. Certamente esperaram comimpaciência que acordasse, considerando-o um dorminhoco. Eles não sabiam oquanto ele estava cansado? Ele dormira durante horas e, no entanto, ainda sesentia exausto... tão exausto que achava que uma semana de sono não o satisfaria.Quase imediatamente, percebeu que o seu aborrecimento era resultadodesse mesmo cansaço. Ele observou as pálpebras pesadas de Jasmine e asmarcas escuras e profundas no rosto de Barda. Seus companheiros estavam tão
  11. 11. exaustos quanto ele. Lief obrigou-se a sorrir, assentiu e começou a reunir ospróprios pertences.Quando chegaram ao próximo vilarejo, estava mais escuro ainda, apesarde a noite ainda não ter caído. Os companheiros atravessaram cautelosamente oportão aberto no muro.O local estava em ruínas. Tudo que não era feito de pedra havia sidoqueimado e transformado em cinzas. Os conhecidos nomes "Finn", "Nak" e "Milne"estavam rabiscados nas paredes que permaneceram de pé.— Eles escreveram seus nomes aqui num gesto de triunfo, pensando quesão reis e não piratas, ladrões e assassinos — Jasmine murmurou enraivecida. —Estou feliz por eles terem morrido gritando.— E eu também — Barda ajuntou com veemência.Lief também desejou concordar. Houve uma época em que teria sido fácilfazê-lo, mas, ao pensar em como Milne, principalmente, fora ao encontro de seuterrível destino, tagarelando aterrorizado no Labirinto da Besta, algum motivodesconhecido o impediu. A vingança não mais lhe parecia doce. Tinha havidosofrimento demais.Ele se virou e começou a procurar entre as ruínas, mas nada havia paraencontrar. Não havia pessoas ou animais naquele lugar abandonado. Não haviaabrigo.E não havia barco.Com os corações pesados, Lief, Barda e Jasmine prosseguiram devagar.A chuva começou à meia-noite. Primeiro, ela caiu com força,golpeando-lhes as mãos e as faces, para depois se transformar em um fluxoconstante que os encharcou e enregelou até os ossos. Kree permaneciaempoleirado tristemente no ombro de Jasmine, e Filli molhado escondia a cabeçaem seu casaco.Eles caminhavam penosamente em meio à lama e à escuridão, tentandomanter-se alertas, procurando qualquer coisa que os ajudasse a atravessar o rio.Mas não havia árvores, apenas arbustos baixos. Não havia troncos de árvore nem
  12. 12. tábuas jogadas na praia pelas águas, e nada que encontravam servia para construiruma balsa.Ao amanhecer, conseguiram repousar um pouco, abrigando-se comopuderam embaixo de umas folhas que pingavam. No entanto, algumas horasdepois, o lugar onde estavam deitados ficou encharcado, e eles tiveram que selevantar e recomeçar a caminhada.E assim o tempo passou. No início da terceira noite de chuva, eles haviamparado de procurar um ponto onde cruzar o rio, agora inchado e com as margensalagadas. A chuva dificultava a visão da outra margem, mesmo durante o dia, masLief e Barda sabiam que já deviam ter atingido o lado oposto dos grandes canteirosde junco que haviam impedido que eles prosseguissem correnteza abaixo. De nadaadiantaria atravessar naquele ponto, mesmo que encontrassem um meio detransporte. Eles sabiam, a partir da experiência amarga que tiveram, o que erachapinhar naquele lodaçal.— Será que esse rio perverso vai barrar nossa passagem para sempre? —Jasmine resmungou, quando pararam para descansar mais uma vez. — E essachuva não vai parar nunca?— Se pudermos avançar mais um pouco, estaremos em frente ao local emque o rio Largo se une ao Tor — Barda afirmou. — Sei que lá, pelo menos, háárvores. Podemos construir um abrigo e descansar até que a chuva pare. Talvez atépossamos acender uma fogueira.E assim eles prosseguiram envoltos pela fria e úmida escuridão. Então,depois do que pareceu um tempo extremamente longo, Jasmine paroubruscamente.— O que foi? — Lief sussurrou.— Sshh! Escute! -Jasmine ordenou, agarrando a manga do casaco de Liefcom a mão molhada.Lief franziu o cenho, tentando se concentrar. No início, tudo que conseguiuouvir foi o tamborilar da chuva e o correr do rio intumescido mas, finalmente, asvozes chegaram até ele. Vozes ásperas, zangadas e irritadas.
  13. 13. Os companheiros avançaram devagar. E, não muito longe, viram uma luzque piscava, antes oculta pelas árvores.Árvores! Lief se deu conta de que finalmente haviam atingido o abrigo peloqual procuravam. Mas outros o haviam encontrado antes deles. A luz vinha de umalanterna pendurada em um galho, intermitente por causa dos vultos que se moviamà sua volta, bloqueando-lhe a claridade vez ou outra.As vozes aumentaram de intensidade.— Pois eu acho que devemos voltar! — um homem vociferou. -Quantomais penso no assunto, mais me convenço disso. Não deveríamos ter concordadoem deixar Nak e Finn sozinhos com o saque. Como sabemos que eles aindaestarão lá quando voltarmos?Lief balançou a cabeça. Será que estava imaginando coisas? Tinha ouvidoo homem dizer "Nak" e "Finn"? Seriam os vultos entre as árvores os piratas quehaviam partido para levar Dain até os Guardas Cinzentos? Mas o que estariamfazendo ali? Ele pensava que eles estariam muito mais longe naquele momento.— Nak e Finn vão estar esperando por nós, Gren — o outro pirataresmungou. — Pode ter certeza de que eles vão querer a parte do ouro que vamosreceber por aquele insignificante membro da Resistência.Eles falavam de Dain! Lief esforçou-se para enxergar melhor o rio além dasárvores e achou ter vislumbrado parte das velas do navio pirata que certamenteestava ancorado perto da margem. E Dain se encontrava nele!— Você é um idiota que confia demais nas pessoas, Rabin! — gritou Gren.— Se eu estiver certo, Nak e Finn têm muito mais para pensar do que num punhadode moedas de ouro! Por que outro motivo teriam deixado que subíssemos o riosozinhos? Você acredita mesmo que eles têm medo de Perdição? Ele não passa demais um infeliz integrante da Resistência!— Eles devem ter parado quando a chuva começou — Barda sussurrou. —Talvez a correnteza do rio tenha ficado forte demais para que pudessem enfrentá-la.E eles vieram até a terra firme em busca de abrigo.— Então deve haver um bote a remo aqui, na beira do rio — deduziu
  14. 14. Jasmine.— Nak e Finn não iriam nos trair! — gritou uma mulher com voz estridente.— Você é que é um traidor por pensar nisso, Gren. Cuidado! Lembre-se do queaconteceu com Milne.Outras vozes murmuraram zangadas.— Não me ameace, sua bruxa! — disparou o homem. — Você não temmemória? Você não se lembra de quando um dos prisioneiros da caverna disse queFinn havia encontrado uma grande pedra preciosa? E se for verdade?— Uma pedra encontrada no Labirinto da Besta? — Rabin zombou. — Ah,sim, tenho certeza de que isso é bem possível! Você está de miolo mole, Gren, seacredita nesses contos da carochinha!— Cale essa boca horrível, Rabin! — Gren devolveu, a voz carregada deraiva.— Cale a sua, gordo idiota!E, então, ouviu-se um movimento repentino e violento, seguido de umgemido de dor.— Ah, seu demônio! — a mulher gritou.Alguma coisa atingiu a lanterna. A luz balançou descontrolada e apagou.— Fique longe de mim! — Gren ordenou. — Ora, sua...— Tire as mãos dela! — gritaram várias outras vozes furiosas.E, de repente, o bosque pareceu explodir em sons quando o resto datripulação entrou na briga. Gritos e grunhidos, o tilintar do aço, o quebrar de galhos,passos pesados e gritos estridentes se sobressaíram em meio ao tamborilar dachuva.— Para o rio! — Barda sussurrou. — Depressa!
  15. 15. O bote cheio de água até a altura dos tornozelos balançava na beira do rio.Sem dúvida, ele tinha sido empurrado para a terra seca quando o último dos piratasdescera. Mas o rio havia subido e o fizera flutuar, se não estivesse amarrado a umaárvore, certamente teria sido levado pela correnteza.Barda precisou de apenas alguns instantes para desamarrar a cordaenquanto seus companheiros esgueiravam-se para dentro do barco seguidos porKree, que esvoaçava acima deles. Quando o grande homem subiu e apanhou osremos, o grupo já avançava para águas mais fundas.Gritos e brados vindos das árvores ainda se sobressaíam ao barulho dachuva. Não muito longe dali, o navio pirata puxava violentamente a âncora. Duasvigias na lateral cintilavam como olhos, fato que Lief não tinha notado antes.Freneticamente tirando água do fundo do bote, ele espiou para o convésprocurando sinais de movimento.Enquanto isso, Barda lutava com os remos. Contudo, essa era umahabilidade que ele não dominava, e as águas agitadas do rio erguiam-se ao redordo bote, resistindo a todos os movimentos dele e empurrando-os rio abaixo.— A correnteza é forte demais para mim! Não sei se vou conseguir chegaraté o navio — ele bradou, sacudindo a cabeça a fim de afastar os cabelos molhadosda testa.— Você precisa conseguir! — Jasmine insistiu. E somente então Lief se deu
  16. 16. conta do quanto ela queria que Dain fosse salvo. Ela não tinha dito nada antes eparecera aceitar a perda do rapaz com a calma que sempre exibia diante defatalidades. Contudo, naquele momento em que Dain se encontrava tão perto, elanão conseguia enfrentar o pensamento de deixá-lo para trás.Cerrando os dentes, Lief largou o balde e engatinhou até o banco doremador.— Passe para lá! — ele gritou, sentando-se ao lado de Barda e apanhandoum remo. Ele nunca remara antes, mas vira os piratas fazê-lo alguns dias antes eacreditou poder imitá-los. Juntos, ele e Barda curvaram-se para a frente e para trás,incessantemente.A força adicional nos remos começou a apresentar resultados. Devagar ecom dificuldade, o bote se aproximou do navio pirata. Nesse momento, eles ouviramum grito, não vindo da praia, mas do próprio navio.Lief olhou à sua volta. Um vulto parado no convés acenava freneticamente.Era Dain. Um vulto menor saltitava ao seu lado sacudindo violentamente umalanterna. Lief percebeu que era a pequena criatura estranha e tratante que Dainchamara de polípano. Os piratas certamente o haviam deixado a bordo com Dain eeste, de algum modo, convencera-o a libertá-lo.Dain erguera um rolo de corda presa ao convés do navio e começou abalançá-la como se fosse jogá-la.— Aqui! — Jasmine gritou. Ela se ergueu com dificuldade e estendeu asmãos. O bote jogava perigosamente.— Sente-se! — Barda ordenou com rispidez. — Você vai fazer o bote virar.Lief, reme!E, então, Jasmine soltou um grito, Kree gritou e o bote deu um solavanco egirou. Lief olhou novamente sobre o ombro. O contorno escuro do navio pirata comsuas vigias semelhantes a dois olhos brilhantes que os contemplavam fixamenteparecia muito próximo.Dain atirou a corda. Jasmine a apanhou e, apesar de as suas fibrasestalarem e se esticarem entre as duas embarcações dando a impressão de que
  17. 17. iam se romper, isso não aconteceu.— Não consigo segurar a corda! — Jasmine gritou. Ela já estavaperigosamente inclinada sobre a borda, a água quase lhe cobrindo a cabeça. Fillichoramingava assustado no ombro dela, incapaz de ajudar, apavorado com apossibilidade de cair. Kree esvoaçava ao lado deles, gritando aterrorizado.Barda largou o remo e rastejou até eles, tomou a corda nas mãos fortes epuxou. O bote balançou e se agitou nas ondas. Lief agarrou ambos os remos e fez oque pôde para lutar sozinho contra a correnteza.— Volte, Dain! — ele escutou Barda gritar. — Nós vamos subir a bordo. —Mais uma vez, Lief arriscou um olhar. Dain, acompanhado pelo polípano, desciafreneticamente uma escada de corda que pendia da lateral do navio exatamenteentre as vigias iluminadas. O polípano ainda segurava a lanterna que parecia uraterceiro olho com pouco brilho e oscilante.Contudo, ao se esforçar para enxergar melhor através da chuva, notou quea luz das vigias também oscilava e, sem dúvida, parecia muito mais brilhante do queantes.— Dain! — Barda vociferou. — Dain, esse bote é muito pequeno. Nãopodemos...É possível que Dain tenha ouvido, mas não lhe deu atenção. Ele se virou ese preparou para saltar, segurando-se à escada com uma das mãos. Seu cabeloestava encharcado e grudado na cabeça. A expressão de seu rosto, reluzindo sob aluz da lanterna, parecia desesperada. Acima dele, o polípano tagarelava ebalançava, sacudindo a escada apavorado.Então, Lief sentiu o cheiro de fumaça e entendeu.— Fogo! — ele gritou.Assim que as palavras lhe saíram da boca, ouviu-se um estrondo vindo dointerior do navio. As vigias se estilhaçaram e línguas de fogo saltaram para fora.Grandes fendas se abriram no casco do navio por onde se via o fogo queimarfuriosamente. A água da chuva chiava e se transformava em vapor assim quetocava a madeira incandescente.
  18. 18. Dain e o polípano saltaram juntos e caíram dentro do bote. Este osciloupara o lado, formando uma grande onda que jogou Lief para trás e arrancou-lhe osremos das mãos.O bote tornou a se endireitar, mas balançava ao sabor das ondas erapidamente inclinou para um lado, pressionado para baixo pelo peso adicional demais dois passageiros e da água que entrava. Atordoado pela queda, Dain ficouencostado ao banco, enquanto Jasmine tentava freneticamente tirar a água dofundo do bote, e Lief e Barda procuravam os remos. O polípano gritava agarrado àproa. Ele conhecia barcos e sabia muito bem o que podia acontecer com aquelebote.Gritos furiosos atravessaram o ar vindos da margem do rio. Os piratasescutaram o barulho, descobriram a perda do bote e viram o fogo. Lief, ao mesmotempo em que tentava bravamente manter o equilíbrio do bote, notou-lhes assombras saltando à luz da lanterna que haviam tornado a acender. Mas aquelebrilho tênue não era nada em comparação ao inferno em que o navio setransformara.Parecia inacreditável que o fogo pudesse queimar apesar da chuvatorrencial e da água que corria por baixo do navio. Mas o fogo começara abaixo doconvés e engolia descontrolado as provisões.— Foi o polípano! — Dain acusou, erguendo-se. — Ele jogou uma lanternana cabine debaixo do convés, onde eram armazenados o óleo, a gordura e as tintas.A chuva e as batidas dos piratas o deixaram maluco!"Assim como o desejo de mastigar a goma marrom de que ele tanto gosta",pensou Lief olhando para a figura de braços longos que se agarrava à proa, aosgritos. O polípano, certamente, desejava nunca ter deixado o Rainha do Rio.— Precisamos nos afastar do navio — Barda gritou. — Se ele afundar, vainos puxar com ele.Barda e Lief curvaram-se outra vez sobre os remos, mas os seus esforçosdesajeitados foram inúteis. Nada parecia conseguir impedir o bote de serperigosamente levado pela correnteza. E, quanto mais água Jasmine tirava do
  19. 19. fundo, mais entrava pela borda.O polípano soltava gritos estridentes, os olhos vidrados de pavor. Então,sem aviso, ele saltou repentinamente de onde se encontrava para junto de Lief eBarda, empurrando-os para o lado e apossando-se dos remos.Blasfemando, Barda tentou tirá-los dele.— Não! — Lief gritou. — Deixe-o! Ele sabe remar muito melhor do que nós.Ele pode nos salvar!Com dois hábeis impulsos nos remos, o polípano virou o bote, então,inclinou-se para trás, contraiu os braços fortes e começou a remar. E, como se obote reconhecesse que finalmente se encontrava nas mãos de um perito, começoua cortar as ondas com velocidade surpreendente. Alguns momentos depois, ele seafastara do navio em chamas e se dirigia para o outro lado do rio.Jasmine continuava a tirar água do barco e, à medida que ela desapareciadevagar, a velocidade da embarcação aumentava. Logo o navio em chamas ficoupara trás. Eles sabiam que adiante estavam as águas largas e tranqüilas do rioLargo e a ponte em arco que o cruzava. Mais adiante, também se encontrava otriste vilarejo de Onde as Águas se Encontram e o pequeno píer que exibia a placaRainha do Rio.Filli chiava, excitado, farejando o ar.— Estamos muito próximos! — Jasmine exclamou. — Estamos quase namargem.O polípano virou, mostrando os dentes marrons. Os seus braços nãopararam de trabalhar nem por um momento, mas seus olhos pareciam pegar fogoenquanto perscrutavam a escuridão.O rio estava agitado onde as águas dos dois rios se encontravam, mas obote avançava depressa. "É como atravessar um redemoinho", Lief pensouagarrando-se ao banco. Se o polípano não estivesse remando, eles nuncasobreviveriam a essa turbulência.No momento seguinte, porém, o polípano parou de remar. Ele deixou o seulugar, abandonando os remos e correu para a proa, passou por Jasmine e Dain e
  20. 20. saltou para a escuridão.Os companheiros ouviram um baque e o som de passos apressados.— O píer! — Jasmine gritou.Desesperada, ela se inclinou para a frente, tentando agarrar os pilares dovelho píer ou o poste que sustentava a placa Rainha do Rio. Contudo, as águasturbulentas puxaram o bote para longe antes que ela conseguisse o seu intento. Obarco estava sendo arrastado rio abaixo, girando sem parar. Um dos remos afundouna água, soltou-se, girou na correnteza agitada e se perdeu.Barda estendeu a mão para o outro, mas não foi rápido o bastante. Antesde poder apanhá-lo, ele seguiu o mesmo destino do primeiro.E não havia nada que os companheiros pudessem fazer, além deagarrar-se às bordas da embarcação à deriva, enquanto as águas traiçoeiras oslevavam para longe.
  21. 21. Tranqüilidade. Silêncio. Uma luz rosada através das pálpebras fechadas.Lief acordou confuso. Amedrontado, permaneceu deitado. A última coisa quelembrava era o bote se chocando contra algo, girando e depois prosseguindo alouca trajetória na escuridão."Será que eu adormeci?", ele pensou. "Como isso aconteceu?"Mas ele tinha dormido ou perdido a consciência. Não havia dúvidas quantoa isso, pois ali se encontrava ele, despertando. A chuva tinha parado, a terrível noitetinha passado."Ou... será que eu morri? Esta luz, flutuando tranqüila... é assim que toda aluta termina?"Lief abriu os olhos. O céu acima dele estava rosado. Estava amanhecendo.Lentamente, ele se sentou. Diante dele, havia um lago imenso, liso comoum espelho. Jasmine dormia ao seu lado, o rosto apoiado nas bordas duras de umbanco, enquanto Kree permanecia ao lado dela, vigilante. Barda encontrava-sedeitado não muito longe, respirando serenamente. E Dain... Dain estava sentado naproa, os olhos escuros repletos de admiração.— Onde estamos? — Lief indagou com voz rouca, molhando os lábios. —O que aconteceu?— Batemos em alguma coisa... talvez um banco de areia formado pelaságuas — Dain respondeu devagar. — Acho que fomos conduzidos para um canal
  22. 22. separado do rio principal. Devemos ter flutuado até este grande lago, em vez desermos carregados correnteza abaixo.— Mas não há nenhum lago ao lado do rio Tor! — Lief protestou. Elesacudiu a cabeça incapaz de acreditar nos próprios olhos. No entanto, eleconseguiu ver, a distância, o largo braço do rio dirigindo-se para o mar.— Parece que antigamente havia — Dain disse suavemente. — E, porcausa da enchente, ele se formou outra vez. Você não está vendo? Isto aqui são oscanteiros de junco que agora foram cobertos pelo lago, como era antigamente. Eagora não há nenhuma neblina para esconder o que existe na beira do lago.Ele apontou. Lief virou-se e ali, exatamente às suas costas, havia terrafirme e uma extensão de luz resplandecente.— É Tora — Dain sussurrou. — Tora.Lief apertou os olhos por causa do brilho atordoante e finalmente discerniuas formas cintilantes de torres, torreões e muros. Em meio ao seu assombro, eleprimeiro pensou que os próprios edifícios cintilavam com um brilho vindo do seuinterior por algum tipo de mágica. Depois, ele se deu conta de que o brilho eraprovocado pelos raios do sol da manhã batendo contra milhares de superfíciesbrancas e polidas.Lief desviou o olhar e esfregou os olhos úmidos. Era impossível ver acidade com clareza. Mesmo assim, ele tinha visto o suficiente para ficar surpreso echeio de admiração diante de sua beleza silenciosa e intocada.— Tora foi escavada numa montanha de mármore com o auxílio da magia— Dain contou. — Ela é perfeita. Um bloco único, sem nenhuma fenda ou emenda.A voz do rapaz parecia mais forte e grave. Lief olhou para ele intrigado eviu que ele estava sentado com o corpo bem reto. Como já tinha acontecido umaoutra vez, desde que Lief o conhecera, de repente ele parecia mais velho,orgulhoso e menos frágil. A boca estava firme, os olhos brilhavam. Era como seuma máscara tivesse caído de seu rosto, revelando-o.Dain sentiu o olhar de Lief e virou o rosto rapidamente.— Agora seria uma boa hora para entrar na cidade — ele disse com a voz
  23. 23. habitual. — É muito cedo, e a maior parte das pessoas ainda deve estar dormindo.Sem esperar uma resposta, ele rastejou para a extremidade do bote esaltou para a praia. O barco balançou levemente, e Jasmine e Barda abriram osolhos, sentando-se assustados.— Está tudo bem... — Lief garantiu. — Estamos em segurança. Ainundação tornou a encher um velho lago. E parece que chegamos a Tora.Assim como Dain fizera, ele apontou para longe. E, como ele mesmo fizeramomentos antes, Barda e Jasmine se viraram e piscaram diante das luzesexuberantes.— Então Tora realmente fica perto do rio! — Jasmine exclamou.— Ou, pelo menos, junto a um lago ao lado do rio.— E Dain acha que podemos entrar calmamente na cidade sem sermosdetidos? — Barda murmurou. — Tora é controlada pelo inimigo.— Isso foi o que Perdição disse — Lief lembrou, franzido o cenho.— Mas começo a me perguntar se ele estava dizendo a verdade. Nãoconsigo ver a cidade com clareza, mas não parece haver Guardas Cinzentos noportão, marcas do Senhor das Sombras nas paredes, tampouco sinais de danos oudestruição, ou detritos. E ela tem uma aparência tão pacífica, Barda. Você já viualgum lugar ocupado pelos Guardas igual a esse?Barda hesitou e depois passou a mão sobre a boca seca.— É possível — ele sussurrou. — Será que a magia dos toranos tem sidoforte o bastante para repelir até a maldade do Senhor das Sombras? Nesse caso,Lief... nesse caso...O coração de Lief acelerou excitado.— Nesse caso, o herdeiro de Deltora pode estar aqui. Esperando por nós.A cidade se descortinava diante deles silenciosa, à espera, envolta em luz.As margens do lago se estendiam vazias e convidativas diante deles. No entanto,assim que Lief pousou os pés em terra firme, o seu entusiasmo desapareceu e elefoi tomado pelo medo.De cabeça baixa, ele seguiu Dain devagar, lutando contra o medo, tentando
  24. 24. compreendê-lo. Seria aquela uma cautela natural, uma relutância em mergulharmeio às cegas num lugar em que, apesar das aparências, os inimigos poderiamestar à espreita? Seria medo da poderosa magia de Tora?Ou seria porque, agora que o momento havia praticamente chegado, eletemia encontrar o herdeiro de Deltora?Ele ergueu a cabeça e espantado viu que Dain já se encontrava no fim dapraia. A figura solitária hesitou por uma fração de segundos, então, avançou para aluz atordoante e desapareceu. Lief piscou e esfregou os olhos que começaram alacrimejar outra vez, toldando-lhe a visão.Ele caminhou aos tropeços, puxando a capa ao redor do corpo a fim deocultar a espada. "Não devemos parecer inimigos", ele pensou confuso."Precisamos..."— Lief! — ele escutou Barda chamá-lo ansioso e percebeu que oscompanheiros o haviam perdido de vista. Cada fio de sua capa reluzia,envolvendo-o em luz. Ele respondeu ao chamado e aguardou. Barda e Jasminealcançaram-no rapidamente, os braços protegendo os olhos ofuscados.Juntos, eles percorreram os últimos metros que os separavam dos murosda cidade. Aos poucos, acostumaram-se à luz, e ela não mais os cegou. Oscompanheiros chegaram ao final da praia. Tora erguia-se diante deles em todo oseu vasto esplendor.Tora foi escavada numa montanha de mármore com o auxílio da magia. Elaé perfeita. Um bloco único, sem nenhuma fenda ou emenda.Eles pararam por um momento impressionados. E, então, com as mãosestendidas diante deles, a fim de demonstrar que não desejavam causar nenhummal, os amigos passaram pelo amplo arco branco que era a entrada da cidade.No mesmo instante, foram percorridos por um profundo calafrio como setivessem sido mergulhados num banho de água fria e límpida. Por um momento, otempo parou, e Lief perdeu toda a noção de onde se encontrava ou do que deveriafazer. Quando voltou a si, percebeu que os seus olhos ofuscados o haviamenganado. Lief havia pensado que o arco era simplesmente uma passagem, mas
  25. 25. ele era muito mais profundo do que imaginara. Em vez de caminhar diretamentepara dentro da cidade, ele e os companheiros viram-se parados na sombra de umtúnel reverberante. Um espaço branco, liso e arredondado os cercava.Kree murmurava e grasnava, oscilando levemente no braço de Jasmine.— O que foi isso? — Jasmine sussurrou. — Essa... sensação?Lief balançou a cabeça, sem saber o que dizer. Mas ele não sentia medo.Na verdade, jamais se sentira tão tranqüilo em toda a vida.Devagar, eles caminharam até o fim do túnel e, finalmente, saíram para aluz da cidade.Nenhuma figura de túnica esperava por eles. Nenhum Guarda Cinzentosaltou com ar zombeteiro, no caminho deles. O silêncio era sinistro. As botas delesecoavam na rua ampla e reluzente.Virando-se para um dos lados, Lief puxou a camisa e observou o Cinturãode Deltora. O rubi estava mais brilhante do que nunca, de modo que eles ainda nãose encontravam em perigo. Mas... a esmeralda!Lief olhou fixamente para a pedra preciosa. A esmeralda perdera toda a core estava completamente embaçada e sem vida como quando se encontrava empoder do monstro Gellick, na Montanha do Medo. O que aquilo significava?Estariam cercados por algo maligno? Ou... ele pareceu se lembrar de que algo maisera capaz de tirar o brilho da esmeralda. Mas o que era?Ele e os companheiros continuaram a andar. Salões e casas, torres epalácios erguiam-se cintilantes de ambos os lados. Pelas janelas e portas abertas,viam-se cortinas suntuosas, tapetes de seda e móveis finos. Em todos os lugares,jardineiras floridas enfeitavam as janelas reluzentes e cercadas de abelhas. Árvoresfrutíferas cresciam vigorosamente em vasos imensos, arrumados ao redor depátios nos quais mesas com comida e bebida se encontravam postas, e fontesespirravam água para o alto.Contudo, não havia ninguém sentado junto das fontes, cuidando dasárvores ou servindo-se da comida. Ninguém falava pelas ruas ou espiava dasjanelas das casas. Ninguém andava pelos tapetes de seda ou repousava nas
  26. 26. refinadas poltronas. A cidade estava totalmente deserta.— É como Onde as Águas se Encontram — Jasmine sussurrou.— Não — Barda murmurou sombrio. Lá, a cidade se encontrava em ruínas.Mas aqui... bem, parece que as pessoas acabaram de partir. Será que a mágica dostoranos é tão poderosa que eles podem ficar invisíveis? — ele indagou, olhandosobre o ombro. — E onde está Dain?Intrigados, um frio percorrendo-lhes a espinha, eles prosseguiram pelasruas de mármore vazias.Finalmente, o grupo chegou a uma enorme praça no centro da cidade e alipelo menos uma das perguntas de Barda foi respondida, pois encontraram Dain.Grandes salões decorados com altas colunas cercavam a praça. O maiorencontrava-se no alto de um majestoso lance de largos degraus. No último deles,havia uma caixa esculpida que parecia deslocada ali, como se tivesse sido levadapara lá com um propósito e, depois, abandonada.Dain, porém, não havia subido os degraus. Ele estava agachado aos pés deum imenso pedaço de mármore que se encontrava no centro da praça. Lief soubeno mesmo instante que se tratava da pedra que o pai vira no quadro do palácio emDel. Contudo, não havia chamas verdes sendo lançadas do topo. E ela estavarachada de um lado a outro.Dain não se moveu quando Lief, Barda e Jasmine caminharam em suadireção. Mesmo quando se aproximaram e o chamaram, ele pareceu não lhes notara presença. Os seus olhos inexpressivos e desesperançados estavam fixos napedra.Havia palavras gravadas no mármore e a fenda irregular atravessava-ocomo uma ferida.
  27. 27. Nós, povo do Tora,juramos lealdade a Adia, rei de Deltora,e a todos de sou sangue que o sucederem.Se algum dia esse juramento for quebrado,que esta pedra, coração da cidade,também se quebre e sejamos nós eliminados parasempre para que lamentemos a nossa desonra.
  28. 28. Lief olhou para a pedra fosca e quebrada, o coração partido ao se lembrar,enfim, das palavras de o Cinturão de Deltora que descreviam os poderes daesmeralda.A esmeralda, símbolo da honra, perde o brilho na presença domal e quando um juramento é quebrado.— Tora quebrou o seu juramento — Lief murmurou, sem necessidade deobter mais provas do que tinha ocorrido. — Mas por quê? Por quê?Com um gemido de frustração e desapontamento, Barda se afastou. Lief eJasmine, contudo, não conseguiram acompanhá-lo. Não ainda.Lief pousou a mão no ombro de Dain.— Levante-se, Dain — ele pediu baixinho. — Não há nada para você, aqui.E nada para nenhum de nós. Tora está vazia. Tudo está preservado porencantamento, mas está sem vida. E acho que já faz muito tempo. É por essemotivo que o lago secou, e a cidade foi separada do rio.— Não pode ser — Dain murmurou tomado pela tristeza. — Esperei tantotempo — a expressão de seu rosto denotava o seu sofrimento e perturbação. Todoo seu corpo tremia.— Dain, por que você tinha que vir a Tora? — Jasmine perguntou,
  29. 29. ajoelhando-se ao lado dele. — Conte-nos a verdade.— Achei que os meus pais estariam aqui — ele respondeu com a voz muitobaixa. — Minha mãe sempre me disse que, se algum dias fôssemos separados,eles me encontrariam em Tora. Ela disse que sua família vivia aqui e que eles nosabrigariam. Eu contei isso a Perdição, um ano atrás, quando ele me encontrou lá,largado para morrer pelos bandidos que atacaram a nossa fazenda — eleprosseguiu, os punhos fechados. — Ele disse para não contar isso a ninguém, poismeus pais poderiam correr perigo quando chegassem a Tora se alguém ficassesabendo que o filho deles estava com a Resistência.— Como alguém ficaria sabendo? — Lief indagou intrigado.— Perdição teme que exista um espião entre nós. Pelo menos, foi isso oque ele me disse — Dain olhou a pedra destruída, o olhar sombrio. — Mas eletambém me contou que Tora estava tomada por espiões, infestada de GuardasCinzentos e Ols. Ele mentiu. O tempo todo em que ele me deteve com falsaspromessas, ele sabia que a cidade estava deserta e que eu alimentava falsasesperanças — ele respirou fundo. — Nunca mais vou voltar para a fortaleza. Nuncamais.Dain deixou pender a cabeça e não mais a ergueu. Lief o observou epercebeu, vagamente, que já ficara irritado antes porque Dain responsabilizavaPerdição por todos os seus problemas, pois, afinal, o rapaz não era prisioneiro dele.Ele poderia ter deixado a Resistência a qualquer momento e viajado para Torasozinho.Mas naquele momento Lief não sentia irritação, somente uma profundatristeza. E perguntou-se por que motivo estaria se sentindo daquele modo.— Vejam, ali!A voz de Barda tinha um som estranho. Lief ergueu o olhar e viu que oamigo tinha subido os degraus do grande salão. Atrás dele, elegantes colunasbrancas erguiam-se na direção do céu, mas ele olhava para baixo, para a caixaesculpida e aberta que segurava nas mãos.— Vá — disse Jasmine em voz baixa. — Vou esperar aqui.
  30. 30. Lief se ergueu, atravessou a praça e subiu as escadas. Barda estendeu acaixa para que ele a visse. Em seu interior, havia inúmeros rolos de pergaminho.Lief escolheu um e o desenrolou.O Rei agradece a sua mensagem.Ele vai atender ao seu pedido assim que possível.BrandonLief remexeu na caixa, apanhou outros rolos e os leu. Todos eram iguais,exceto pelas assinaturas. Alguns estavam assinados pela rainha Lilia, outros pelorei Alton, pai de Endon. Outros, ainda, exibiam a assinatura do próprio Endon.— Essas mensagens são parecidas com as que meu pai me mostrou— Lief comentou sem entusiasmo. — As mensagens que o povo de Delrecebia quando enviava pedidos e reclamações ao rei.— Parece que os toranos também enviavam esses mesmos tipos demensagem e recebiam as mesmas respostas — Barda conjeturou.— Imagino que, assim como o povo de Del, eles se sentiram abandonados.Assim, quando chegou a última mensagem... — ele estendeu dois pedaços depapel amassados para Lief. — Estes também estavam na caixa — ele dissecarrancudo. — Em cima de todos os outros.Os pedaços de papel eram as duas metades de um bilhete. Lief as reuniu eleu a mensagem escrita às pressas.
  31. 31. Povo de Tora:O Cinturão de Deltora está perdido, o Senhor das Sombras retornou. Com aajuda de um verdadeiro amigo, escapei com a rainha e nosso futuro filho. Eu lhespeço que nos ofereçam refúgio em honra de seu antigo juramento.Enviar resposta pelo mensageiro.Não percam tempo, eu lhes imploro.Endon,Rei de Deltora— Mensageiro? — Lief indagou e olhou fixamente para o bilhete. — Quemensageiro? — balbuciou.— Um pássaro, sem dúvida — Barda afirmou. — Um pássaro preto comoKree, é quase certo. Houve época em que havia muitos em Del e, antigamente,acreditava-se que eles eram pássaros reais, devido à sua inteligência. É por issoprovavelmente que a feiticeira Thaegan os detestava tanto e gostava de comê-los.
  32. 32. — Os toranos rasgaram o bilhete — Lief sussurrou. — Eles se recusaram aajudar e quebraram o juramento. Como puderam arriscar-se tanto?Barda deu de ombros. O seu rosto estava sombrio e denotava a suadecepção.— A pedra na praça data dos tempos de Adin. Talvez os toranos nãoacreditassem mais naquelas palavras, mas a antiga magia ainda era poderosa. Elesforam condenados no momento em que rasgaram o bilhete. O seu pai não contavacom isso, Lief — Barda comentou, fitando a caixa esculpida nas mãos. — O rei e arainha deixaram Del apressadamente, muito antes que qualquer resposta pudesseter retornado de Tora. Sem dúvida, eles imaginaram que receberiam algumamensagem durante a viagem e que a magia de Tora os ajudaria em seu trajeto.Mas o plano falhou.— Isso quer dizer que durante todo esse tempo meu pai acreditou que oherdeiro se encontrava a salvo em Tora, esperando por nós — Lief murmurou. —Esse era o seu segredo. Ele pensou que nos encontraríamos aqui e também nosprimeiros dias de nossa jornada. Você lembra? Segundo os planos dele, o Vale dosPerdidos seria a nossa primeira meta, não a última. Se fosse, certamente teríamospassado por Tora no caminho para o Labirinto da Besta.Lief pousou as mãos no Cinturão em busca de coragem.— O plano de se esconder em Tora pode ter falhado, mas de alguma formaEndon e Sharn encontraram outro lugar seguro — ele deduziu. — O Cinturão estáintacto. O meu pai me disse que isso significa que o herdeiro está vivo, onde querque esteja. Quando o Cinturão estiver completo, ele nos mostrará o caminho. Meupai tem certeza disso e precisamos acreditar nele.Lief tornou a guardar as duas metades do bilhete na caixa esculpida,fechou a tampa com firmeza e a recolocou na escada.Quando levantou a cabeça, Barda exibia uma expressão séria e seu olharesquadrinhava a grande praça e os prédios que a circundavam, as imensas colunas,as estátuas de pássaros e animais, as urnas esculpidas transbordantes de flores.Lief perguntou-se o que ele estaria fazendo. Exceto pela pedra quebrada, junto da
  33. 33. qual Dain ainda se encontrava agachado, tomado pelo sofrimento e acompanhadopor Jasmine, nada havia para ver.— Se a cidade está vazia, por que tudo está tão perfeito e intacto, Lief? —Barda perguntou de repente. — Por que não foi destruída por saqueadores eanimais? Os piratas, os bandidos... o que os impediu de pilhar este lugar à vontade?Ele apontou a caixa.— Até mesmo ela é uma obra de arte. Deve valer uma fortuna para umcomerciante. E, sem dúvida, a cidade está repleta de objetos como este. E, noentanto, ninguém os roubou? Por quê?Ele falava em voz baixa, mas mesmo assim a sua voz pareceu ecoar napraça.— Você acha que Tora está... protegida? — Lief sussurrou, sentindo umcalafrio percorrer-lhe a espinha.— Lief! Barda! — Jasmine chamou.Perplexos, ambos olharam para baixo. Jasmine ainda se encontravaagachada junto de Dain e acenava com insistência. Lief e Barda desceram osdegraus correndo e atravessaram a praça na direção dela.Dain não ergueu a cabeça, embora certamente tivesse ouvido aaproximação deles. Jasmine envolvera-o com um cobertor, mas mesmo assim eletremia.— Ele não se move — Jasmine sussurrou assustada. — Ele não consegueparar de tremer e não aceita nem mesmo um pouco de água. Estou com muitomedo por ele.— Levem-me embora daqui, eu imploro — Dain murmurou com os lábiosdescorados. — Não consigo suportar. Por favor, levem-me embora.
  34. 34. Os companheiros começaram a deixar a cidade. O olhar de Dain, quecaminhava sustentado por Lief e Barda, era triste e inexpressivo. Ele se arrastava,aos tropeços. Sua testa estava molhada com um suor frio, e o corpo frágil aindacontinua tomado por um intenso tremor.Lief assistia com pesar ao sofrimento do rapaz, mas, em algum lugar, nofundo de sua mente, ele estranhava a prostração de Dain. Não tinha o garoto sidotreinado por Perdição e pela Resistência durante um ano? Não tinha ele enfrentadoOls e outros perigos assustadores no dia-a-dia?Dain esperara encontrar os pais em Tora, e isso não aconteceu. Entretanto,por que motivo o choque e desapontamento o haviam abalado tão profundamente?Era como se o coração dele tivesse se partido como a pedra de Tora, e a luz de seuespírito tivesse sido apagada como as chamas verdes.O grupo prosseguiu e, com exceção de Dain, todos olhavam para as casasà medida que passavam. Através das janelas reluzentes, viam-se claramente ostristes sinais de uma vida que se fora: alimentos tão frescos quanto no dia em quehaviam sido preparados, travessas e louças lindamente pintadas, almofadas ecortinas bordadas. Em quase todas as casas, havia teares dos quais pendiamtecidos de milagrosa delicadeza à espera de que o tecelão, há muito desaparecido,retornasse.Os teares fizeram Lief lembrar-se da mãe. Quantas vezes a vira sentada
  35. 35. tecendo tecidos para os seus trajes e artigos domésticos? Lief sabia que a mãe eramuito habilidosa, pois outras pessoas a elogiavam. Mas os fios que ela era obrigadaa usar eram ásperos e descorados, em nada parecidos com os de Tora quebrilhavam como jóias.A coisa mais fina que ela havia feito era a capa que ele usava agora. Suamãe colocara toda a sua habilidade naquela peça e, segundo as palavras dela,também amor e lembranças.Onde estaria a mãe naquele momento?"Eu, entre todas as pessoas, deveria compreender o sofrimento de Dain",Lief pensou. "Sei o que é sentir a falta e temer pelo bem-estar de pais muitoamados.""Mas você não perdeu as esperanças", sussurrou uma voz no fundo de suamente. "Você não se abandonou ao desespero, tampouco adoeceu de corpo e alma.E quanto a Jasmine, ela desistiu e morreu quando os pais foram levados? Barda sedesesperou quando a mãe foi morta e seus amigos, assassinados?"Lief sacudiu a cabeça para afastar a voz. "As pessoas têm diferentes forçase fraquezas", ele disse a si mesmo. "Eu não devo culpar..."Os pensamentos dele tomaram outro rumo quando uma nova idéia surgiuem sua mente. Talvez houvesse outro fator que justificasse a prostração de Dainque ele ainda não compreendia. Todos os sinais indicavam que o rapaz não estavasimplesmente tomado pelo sofrimento e pela decepção, mas sim profundamentechocado. Mais chocado do que seria razoável, se ele lhes contara toda a verdade.A entrada do túnel encontrava-se diante deles. O grupo atravessou a suasombra fresca e, mais uma vez, Lief sentiu o misterioso formi-gamento percorrer-lheo corpo. Ele caminhou num sonho e lamentou passar para o espaço ensolarado.Ele e Barda pousaram Dain no chão com delicadeza. O rapaz continuavatremendo como se estivesse com frio, os grandes olhos fitando o sol brilhante semvê-lo.— Dain, tente ser forte — Barda incentivou. — Assim você vai acabarficando doente.
  36. 36. Ele repetiu essas palavras várias vezes até que, finalmente, Dain reagiu.Lentamente, o olhar vago recuperou o brilho. O garoto moveu-se e molhou os lábiossecos.— Sinto muito — ele murmurou. — Encontrar a cidade vazia foi um grandechoque para mim. Mas isso não é desculpa.Kree grasnou e bateu as asas num gesto de advertência.— Alguém está se aproximando! -Jasmine exclamou, empunhando aadaga.Lief olhou para o lago, mas este permanecia imóvel. Isso significava que operigo se aproximava por terra, pelas colinas que se erguiam ao lado e atrás dacidade.Kree voou para o alto, preparando-se para investigar.— Não, Kree! — Jasmine ordenou. — Eles podem ter arcos e flechas. Fiqueconosco.O pássaro pairou no ar por um instante e, então, com relutância, voltou parabaixo.— Jasmine, eles são muitos? — Barda perguntou preocupado. Como fizeratantas vezes antes, Jasmine se ajoelhou e colou o ouvido ao chão.— Acho que são apenas dois — ela informou depois de um momento. —Ambos são altos, um mais pesado do que o outro.Dain a observava com atenção, claramente impressionado. Lief percebeuque o tremor nos membros do rapaz havia diminuído. "Ter algo a mais em quepensar parece ser exatamente o que Dain precisa", Lief pensou. Mas, apesar daconstatação, sentiu-se um tanto aborrecido."No entanto, por que não deveria Dain admirar Jasmine?", pensou dirigindoa irritação para si mesmo. "Qualquer um admiraria suas habilidades." Então lheocorreu que, se ainda estivesse no interior de Tora, não estaria zangado, mas simbastante calmo."O encantamento da cidade está se esvaindo", pensou. "Estou voltando aonormal."
  37. 37. E, finalmente, compreendeu o que significava o formigamento que sentirano túnel. Ele compreendeu por que Tora permanecia perfeita e intocada apósdezesseis anos de abandono.— Lief! — Barda chamou insistente. — Depressa!— Lief empunhou a espada e correu a reunir-se aos amigos. Estesencontravam-se parados, lado a lado, formando uma barreira entre Dain e doisvultos altos que se aproximavam, vindos das colinas. Os recém-chegadospareciam brilhar na ofuscante luz do sol.Seriam bandidos? Ols?— Tora está protegida por magia — Lief disse rapidamente. — Uma magiaque age sobre corações e mentes. O túnel afasta todo o mal. Se voltarmos para lá,nada poderá nos prejudicar.Barda olhou rapidamente para ele e depois para os muros reluzentes dacidade. Lief percebeu que ele media mentalmente a distância e tentava decidir sedeveriam arriscar-se a voltar e correr para a segurança. Mas era tarde demais. Osestranhos já os tinham visto e apressavam o passo.Inquieto, Dain apoiava o peso do corpo ora num pé, ora no outro.— Dain, volte para Tora — Barda ordenou.Mas Dain negou com um gesto obstinado ao mesmo tempo em queprocurava sua adaga.— Dain! — Jasmine exclamou. — Vá!— Se eles forem Ols, posso ajudar — Dain retrucou entre dentes. — Oufico com vocês, ou morro. Estou cansado de demonstrar fraqueza.Ele se postou ao lado dela e mostrou uma expressão carrancuda para osestranhos que se aproximavam. De repente, o seu olhar ficou mais atento, e a suaboca se transformou numa linha dura.— Perdição! — ele balbuciou, virando-se.Perplexos, Lief, Barda e Jasmine se deram conta de que ele estava certo.Agora eles podiam ver que o mais alto dos estranhos era quem se intitularaPerdição das Colinas. Perdição, que tinham visto pela última vez na fortaleza da
  38. 38. Resistência e que os mantivera prisioneiros durante três dias.Para sua surpresa, constataram que Neridah, a Veloz, o acompanhava.Por que a escolhera como companheira? À medida que se aproximavam, Lief notouque Neridah sorria, ao passo que a expressão de Perdição continuava séria.— Não relaxem! — Barda murmurou. — Eles podem ser Ols tentando nosenganar.Era evidente que Dain e Lief não compartilhavam da mesma opinião, masmesmo assim suas mãos apertaram-se sobre o punho da espada. À sua maneira,Perdição tinha provado ser tão perigoso quanto, qualquer Ol e que não eraconfiável.Quando a dupla se aproximou, Perdição não perdeu tempo comcumprimentos.— Então, Dain — ele grunhiu —, você está onde queria. Está satisfeito?— Você sabia! — Dain explodiu. — Você sabia o tempo todo o queaconteceu aqui, Perdição. Você mentiu para mim!— Claro! — Perdição retrucou com frieza. — O que mais o mantinha fortealém da esperança? Constatar que você alimentava falsas esperanças o fezsentir-se melhor ou pior?O rosto de Dain mostrava claramente a resposta. Perdição assentiu comamargura.— Tenho procurado seus pais desde que o levei à fortaleza, Dain. Euesperava ter êxito antes que você descobrisse que eles não estavam em Tora. Masvocê não conseguiu esperar.— Não, não consegui! — Dain gritou desafiador. — Mas não é minha culpa.Eu não conhecia os verdadeiros acontecimentos. Não sou uma criança que precisaser protegida e alimentada com contos de fadas! Foi me enganando que você melevou a fazer o que fiz.Perdição fitou-o durante um longo momento. Então, para surpresa de todos,a sua expressão se descontraiu e ele quase exibiu um sorriso.— Houve uma época em que você não teria falado com os mais velhos
  39. 39. dessa maneira — ele começou. — Quando o conheci, você era uma criançaeducada e obediente.— Não sou uma criança! — Dain gritou furioso.— Não, parece que não. Talvez... — Perdição pareceu refletir. — Talvez eutenha me enganado. Isso não acontece com freqüência — ele admitiu contrariado.— Mas é possível. Será que pode me perdoar e voltar para a fortaleza conosco?Sentimos muito a sua falta.Dain hesitou.Barda, Lief e Jasmine entreolharam-se. Em pensamento, todosconcordavam com o fato de que muitos problemas se resolveriam se Dain partissecom Perdição. Mas eles não tinham certeza de que o rapaz estaria em segurança.— Desde a última vez em que o vimos, aprendemos que não devemosconfiar nas aparências — Lief disse com calma, dando um passo à frente. — Antesque Dain decida o que pretende fazer, gostaríamos que você e Neridah tambémentrassem em Tora.Os olhos escuros de Perdição, então frios e destituídos de humor,voltaram-se para ele.— Você não precisa ficar mais do que alguns instantes — Lief continuou,recusando-se a ser intimidado. — O túnel de Tora revela o mal muito mais depressado que a sua sala de teste.— Então... vocês descobriram o segredo de Tora! — Perdição resmungou.— Parabéns! Mas o que vai acontecer se eu me recusar a atender ao seu pedido?
  40. 40. Neridah deu um passo e se postou ao lado de Perdição. Barda e Jasminecolocaram-se ao lado de Lief. Ambas as partes se entreolharam. E então Bardafalou.— Se você se recusar a entrar em Tora, temos o direito de pressupor quevocês são Ols e tomar as medidas necessárias.Perdição agarrou a espada no mesmo instante.— Não! — Dain gritou, atirando-se na frente de Barda. — Vocês não devemlutar! Vocês não são inimigos, vocês estão do mesmo lado.— Ainda não tenho certeza disso — Perdição afirmou, a expressãocarrancuda.— Nós também não — Jasmine replicou. — Pois, se você é realmentePerdição, tratou-nos muito mal e não confiamos em você. E, se você é um OI queassumiu a aparência de Perdição, representa um perigo para todos nós.Os olhos de Perdição cintilaram. Era evidente que ele podia perceber queas palavras de Jasmine estavam repletas de bom senso. No entanto, ele não baixoua espada.— Que mal pode haver em provar ser o que parece? — Lief murmurou,deliberadamente mantendo a voz baixa e regular.— Não temos que provar nada a vocês! — Neridah gritou zangada.— Perdição e eu estamos juntos desde que deixamos a fortaleza. Podemos
  41. 41. jurar...— O que podemos jurar não significa nada — Perdição disse, estendendo amão para calá-la. — Ols geralmente viajam aos pares, não é mesmo?E, então, como se a interrupção de Neridah de certa forma o tivesseajudado a tomar uma decisão, ele deu de ombros, guardou a espada e começou acaminhar na direção da luz cintilante da cidade. Neridah, claramente surpresa ezangada, hesitou por um instante e depois se virou e o seguiu com passos firmes.Os amigos os seguiram. Ao atingirem o túnel, aguardaram enquantoPerdição e Neridah prosseguiam sozinhos. Lief também se viu tentado a entrar notúnel, mas algo lhe dizia que essa não seria uma atitude sensata. Ele não podiapermitir que todas as suas emoções se dissipassem naquele momento. Um poucode ira servia para mantê-lo alerta e nunca era demais ficar atento quando se lidavacom alguém como Perdição.Assim sendo, ele ficou e observou, e viu o que de outra forma não teriavisto. Quando os dois vultos caminharam pelo túnel, o ar começou a se encher defaíscas coloridas que giravam no ar como grãos de poeira iluminados pelo sol.— Não vi nada parecido quando atravessamos — Jasmine comentou.— Eu só... senti.— Talvez elas sejam invisíveis para quem está lá dentro — Barda esfregouos olhos atordoados com a mão e se virou.Perdição e Neridah desapareceram em questão de segundos numa nuvemde luz em movimento, mas tornaram a aparecer apenas alguns momentos depois,voltando lentamente pelo caminho que haviam percorrido.Ambos pareciam aturdidos quando saíram novamente para a luz do sol. Osseus rostos estavam tranqüilos e estranhamente imóveis.— Então... estão satisfeitos agora? — Perdição indagou. Suas palavras,porém, não continham sarcasmo e o seu olhar parecia perdido. Gemendo, ele sesentou com as costas recostadas aos muros da cidade.Neridah, Dain e os outros fitaram-no confusos. Fatigado, ele ergueu osolhos.
  42. 42. — Depois que a raiva, o ódio e a amargura deixaram um homem que tempouco incentivo para viver, o que resta para ele além do vazio? — ele perguntoucom um leve sorriso. — É por esse motivo que não gosto de visitar Tora. Eu estiveaqui somente uma vez e foi suficiente.— Quem é você, Perdição? — Lief perguntou de repente.Por um instante, acreditou que o homem não iria responder. E entãoPerdição deixou cair os ombros e fechou os olhos, como se não tivesse forças pararecusar.— Não sei quem sou — ele disse. — Não sei o que perdi, além de meunome. Minhas lembranças começam nas Terras das Sombras. Eu lutava contra umVraal na Arena das Sombras e fui ferido. Tudo o que aconteceu antes disso está naescuridão.A sua mão moveu-se lentamente até a cicatriz recortada que trazia norosto.— Mas você escapou? — Lief continuou. Talvez fosse cruel usar a atualfraqueza de Perdição para descobrir mais a seu respeito, mas era umaoportunidade que não iria se repetir.— Escapei da Arena das Sombras — Perdição prosseguiu. — Eles nãoesperavam por isso. Eles pensaram que eu estava acabado. Fugi pelas montanhas,perseguido e sem ter noção de nada além de que Deltora era o meu lar. NaMontanha do Medo, enfrentei meus perseguidores. Escapei mais uma vez, mas opreço que paguei foi muito alto.Perdição soltou um profundo suspiro.— Continuei minha jornada, mais morto do que vivo. Finalmente, um bomhomem me encontrou, deu-me abrigo e cuidou de meus ferimentos.— Um homem que vivia num lugar chamado Kinrest — Jasmine murmurou.Perdição lançou-lhe um olhar rápido e sorriu mais uma vez, embora os seusolhos estivessem tomados pela tristeza.— Então vocês viram o seu túmulo e sabem que assumi o seu nome — eledisse. — Ele me salvou, mas eu provoquei a sua morte. Os Guardas Cinzentos que
  43. 43. não morreram na Montanha do Medo me perseguiram até a caverna que eleocupava. Perdição era um homem pacífico e não teve a menor chance contra eles.Mas, graças a ele, eu tinha recuperado as minhas forças. Matei todos os Guardas eespalhei os seus ossos pela floresta.Vestígios da antiga selvageria tomaram conta de sua voz quando eleproferiu essas últimas palavras. Lief se deu conta de que o efeito tranqüilizador dotúnel de Tora se dissipava gradativamente. Perdição ficou em silêncio por ummomento e, quando tornou a sorrir, esse sorriso não passava de uma amargacontração dos lábios.— Acho que vocês se aproveitaram de mim — ele constatou, erguendo-se.— Espero que tenha satisfeito a sua curiosidade — sua boca endureceu, seu olhartornou-se sombrio. A conhecida máscara impiedosa voltou a cobrir seu rosto.— Perdição, sei que você passou por maus bocados — Neridah murmurou.— Mas eu não tinha idéia... — ela se calou quando Perdição disparou-lhe um olharfrio. Estava claro que ele não queria sua solidariedade ou admiração. Neridah corou,mas logo sacudiu a cabeça num gesto irritado e se afastou deles.— Não me meti em seus assuntos por pura curiosidade, Perdição— Lief explicou em voz baixa.— Não? — o homem fitou-o longamente e então virou-se para Dain.— Combinei com Steven, o mascate, para encontrá-lo dentro de algunsdias — ele comunicou simplesmente. — Ele tem novos suprimentos para nós. Vocêvai me acompanhar? Ou prefere ficar com seus novos amigos?— Ele não tem escolha, Perdição. Dain precisa ir com você — Bardaajuntou rapidamente. — Temos uma longa e difícil jornada à nossa espera.— Não quero ser uma carga para ninguém — Dain respondeu aborrecidocorando. — Vou com você, Perdição, para encontrar Steven.Perdição assentiu com um leve gesto de cabeça. E então, como se tivesseficado ressentido por ver Dain ser deixado de lado com tanta facilidade, ergueu umasobrancelha e disse:— E que lugar é esse que torna a jornada de vocês tão difícil? — ele quis
  44. 44. saber.Mesmo muito tempo depois, Lief não soube explicar a resposta que dera aPerdição naquele momento. Ele seguira um impulso, talvez por querer dar a elealguma informação como sinal de confiança. Ou talvez estivesse simplesmentecansado de mentiras.— Nós vamos para o Vale dos Perdidos — ele disse claramente. Barda eJasmine viraram-se para ele surpresos por vê-lo falar tão francamente. Dainpareceu curioso, mas Perdição apenas assentiu, a expressão sombria.— Imaginei que iriam para lá. E aconselho, do fundo do coração, quedesistam desse plano. O Vale não é para gente como vocês.— O que você sabe? — Barda indagou irritado.Perdição olhou para onde Neridah se encontrava sentada, observando aágua do lago, e baixou a voz.— É um lugar maligno. Um lugar de sofrimento e de almas perdidas. Sei demuitos que lá entraram em busca da grande jóia, o prêmio de seu Guardião.Lief olhou rapidamente para Barda e Jasmine. Ambos pareciam perplexose atentos. Ele molhou os lábios.— Uma grande jóia? — ele perguntou cauteloso. Perdição fitou-o com umquê de sarcasmo.— Não me insultem tentando fingir que nada sabem. Eu sei que essa é asua meta. Dizem que se trata de um diamante maior e mais poderoso do quequalquer outro já visto. Maravilhoso. Puro. Sem preço. Isso não é segredo por essasbandas. A sua fama atraiu muitos antes de vocês para as garras do Guardião.Todos entraram esperançosos no Vale. Todos desejaram amargamente nunca tê-lovisto.
  45. 45. Lief sentiu uma pontada de medo, mas endireitou os ombros. Barda estavaparado como uma rocha, a mão pousada na espada. Mas Jasmine atirou oscabelos para trás e ergueu o queixo.— Mesmo assim, precisamos ir — ela disse desafiadora. Perdiçãoestendeu as mãos e agarrou-a pelos ombros.— Você não precisa! — ele falou entre os dentes cerrados. — Escute o queestou dizendo! A busca de vocês já está perdida. Se insistirem, também seperderão. E para quê? Por causa de um sonho. Por nada!Jasmine soltou-se com um safanão e deu um passo para trás,colocando-se ao lado dos amigos. Perdição fitou-os por um momento, ergueu asmãos, mas logo as deixou cair novamente, num gesto de derrota.— Fiz o que pude — ele murmurou. — Não há nada mais que eu possafazer. Mas é um desperdício. Vocês já têm muitos seguidores. Juntos, poderíamoster incitado o povo. Poderíamos ter nos unido para combater o Senhor das Sombras.Poderíamos ter salvado Deltora.— É verdade que, por ora, devemos seguir caminhos separados — Bardaafirmou. — Mas, no momento certo, iremos nos unir e lutar juntos.— No momento certo... — Perdição repetiu, virando-se. — Temo que essemomento nunca chegue para vocês, amigos. Não agora.Com uma expressão sombria, ele jogou a mochila sobre os ombros e fez
  46. 46. um sinal para Dain.— Diga a Neridah que estamos partindo — ele ordenou. — Já perdi muitotempo aqui, e Steven não vai esperar.Com um último olhar para Lief, Barda e Jasmine, Dain caminhou vacilanteaté a beira da água.— Você sabe mais do que está nos contando, Perdição! — Jasmineexclamou. — Se puder nos ajudar, faça-o!— Vocês recusaram a única ajuda que posso lhes oferecer — elemurmurou. — Vocês não têm o direito de pedir mais do que isso.Ele fitou-a carrancudo, e Jasmine devolveu-lhe o olhar, seus olhos verdestomados pela raiva. E então, inesperadamente, ele soltou uma breve risada.— Há uma coisa que posso fazer por vocês — ele disse condescendente.Perdição puxou um gorro de lã preta do bolso e jogou-o para ela. Você e o pássarofazem com que o seu grupo seja reconhecido. Cubra os seus cabelos com isso.Você já está vestida como um garoto, bem esfarrapado, para falar a verdade. É oseu cabelo que a denuncia.Jasmine fitou-o longamente, como se não tivesse certeza de aceitar opresente, mas finalmente o bom senso superou o orgulho. Ela ergueu os cabelos eajeitou-os sob o gorro, cobrindo as orelhas com ele. A transformação foi instantânea.Foi como se um garoto mal-humorado estivesse parado diante deles.Kree gritou, numa evidente demonstração de que a mudança não lheagradara. Perdição, contudo, fez um gesto de aprovação.— Assim está melhor — ele elogiou.Ele se voltou assim que Dain se aproximou e exibiu uma expressãocarrancuda ao notar que o garoto vinha sozinho.— Por que Neridah não está com você? — ele disparou.— Ela... ela não vai conosco — Dain balbuciou. — Ela disse que vaicontinuar a viagem até a casa dela.— Então foi por isso que ela insistiu em me acompanhar — Perdiçãoresmungou zangado. Tenho certeza de que ela nunca teve a intenção de voltar. A
  47. 47. vida na fortaleza não agrada a ela. É muito difícil e perigosa e não há dinheiro paragastar com os luxos aos quais uma atleta mimada se acostumou.— Mas... ela não tem medo de que os Guardas Cinzentos a sigam? — Liefse espantou.— Certamente ela pensa que será capaz de persuadir você aacompanhá-la em pelo menos parte do trajeto. E ela está convencida de que vaiestar em segurança quando chegar em casa — Perdição disse com certa ironia. —Ela é tola. Mais uma que insiste em não ouvir conselhos.Sem dizer mais nada, ele se virou a começou a se afastar na direção dascolinas. Dain hesitou por um momento, depois murmurou uma despedidaapressada e correu atrás dele.Como Perdição havia previsto, Neridah fez o que pôde para convencer osamigos a permitir que ela os acompanhasse. No fim, ela não resistiu e chorou nosbraços de Barda, alegando que deixara a Resistência apenas porque Perdição lhepartira o coração.— Eu o amo — ela soluçou. — Mas ele é cruel e não liga para mim. Não vouficar onde posso vê-lo todos os dias. É impossível.Barda deu-lhe tapinhas desajeitados no ombro, mas Jasmine a observavacom uma surpresa fria e Lief... Lief conhecia muito bem as manobras enganosasde Neridah para acreditar que as lágrimas dela fossem verdadeiras.Finalmente, cedendo à insistência de Barda, eles concordaram em deixá-laviajar com o grupo por um ou dois dias.— Mas, depois disso, precisamos nos separar, Neridah — Barda avisoucom gentileza. — Nosso destino é um local assustador e perigoso.— O Vale dos Perdidos — ela sussurrou. — Eu sei. Eu ouvi o nomeenquanto vocês conversavam com Perdição. Vocês são tão corajosos... muito maisdo que ele imagina.Mais uma vez, Lief se perguntou o que significava a atitude dela. Ela nãodera nenhum sinal de que ouvira o que haviam falado com Perdição. Ela ficarasentada, bastante quieta, fitando o lago como que perdida em pensamentos. E
  48. 48. durante todo o tempo ela estivera ouvindo. Ela ouvira o nome do Vale dos Perdidos.O que mais teria escutado?Ela é astuciosa, Lief concluiu. Precisamos ter cuidado.No final, Neridah viajou com o grupo cerca de uma semana. Ela protestoucom veemência quanto a viajar à noite e foi uma companheira mal-humorada eirritada. Contudo, embora passassem por várias estradas que levavam à casa dela,ela se recusou a segui-las. Sempre que Lief, Barda e Jasmine tentavam separar-sedela, ela chorava e corria atrás deles. Ela grudava neles como mel e acabou porperder até a simpatia de Barda.— Estou começando a achar que ela não está sendo sincera conosco —ele sussurrou certo dia, depois que Neridah enfiou-se amuada sob seu cobertor. —Ela disse que queria ir para casa. Por que não faz isso?— Não sei — Lief sussurrou em resposta. — Mas precisamos dar um jeitonela depressa. Eu não confio nela e não a quero conosco quando chegarmos aoVale dos Perdidos. Segundo o mapa e os nossos cálculos, ele não fica longe daqui.— Uma coisa é certa: de bom grado, ela não vai deixar que continuemossem ela — Jasmine afirmou aborrecida. — Portanto, temos duas opções. Oubatemos na cabeça dela e corremos, ou esperamos até que ela estejaprofundamente adormecida e nos afastamos pé ante pé.Ela pareceu um tanto desapontada quando Lief e Barda escolheram asegunda opção.Algumas horas depois, eles puseram o plano em prática, esgueirando-separa longe do acampamento como ladrões. Caminharam depressa o dia todo,tentando não ser vistos e, quando o sol se pôs, chegaram a uma cadeia demontanhas escarpadas e densamente arborizadas.— O Vale fica nessa cadeia, tenho certeza — Barda afirmou.— Vai ser uma escalada longa e difícil — Lief suspirou, analisando asmontanhas. — E perigosa também, pois a floresta é muito densa e escura. A Luaestá em seu quarto minguante e amanhã não poderemos contar com a luz do luar.— Não consigo escutar nada com essa lã grossa cobrindo os ouvidos —
  49. 49. Jasmine reclamou impaciente, arrancando o gorro e sacudindo os cabelos aliviada.— E então, o que você estava falando? Que vai estar escuro de noite? E que afloresta é muito densa? É verdade. Que tal dormirmos a noite toda desta vez, já quepodemos escalar durante o dia escondidos pelas árvores?O plano parecia excelente e eles fizeram exatamente o que Jasminesugeriu. Assim sendo, foi somente no final do dia seguinte que os amigos atingiramo cume da montanha escarpada e conseguiram ver a enorme fenda na terra queera o Vale dos Perdidos.Uma névoa espessa arrastava-se taciturna no fundo do vale. Agitada peloslentos movimentos de vultos quase invisíveis que se aglomeravam nas profundezas,ela recobria o topo das árvores. Um calor leve e úmido cheirando a folhas e madeiraem decomposição e vidas sufocadas roçou o rosto dos amigos como um ecoenviado pela névoa.Jasmine estava irrequieta. Filli choramingava em seu ouvido, e Kree, apósum leve e único pio, sentou-se imóvel em seu braço.— Eles não gostam do Vale — ela murmurou.— Eu também não posso dizer que estou maravilhado — Barda devolveusecamente.
  50. 50. Jasmine curvou os ombros e estremeceu. E então, sem dizer nada,virou-se e voltou para a maior das árvores que circundavam a beira do penhasco.Surpresos, Lief e Barda observaram quando ela ergueu Filli e o colocou no galhomais alto que pôde alcançar. Kree voou e pousou ao lado dele.— Sei que vocês vão cuidar um do outro — Jasmine disse. — Tomemcuidado.Ela se virou e, sem olhar para trás, voltou para a companhia de Lief e Barda,e encontrou seus olhares interrogativos.— Eu disse... Kree e Filli não gostam do Vale. Eles não podem descer atélá.— Por quê? — Lief indagou, intrigado. Ele olhou para o galho em que Kreee Filli encontravam-se pousados, olhando desamparados para Jasmine.— Se eles descerem, morrerão — Jasmine explicou simplesmente, dandode ombros. — E qualquer outra criatura. A névoa os matará.Um calafrio percorreu o corpo de Lief.— E quanto a nós? — ele indagou bruscamente.— Há pessoas lá embaixo. Posso ver suas sombras em meio à neblina —Jasmine contou. — E, se elas podem sobreviver, nós também podemos. Vamosdescer até onde a névoa começa. Lá, decidiremos o que fazer.Bruscamente, ela se virou e ergueu a mão para Kree e Filli. Então se voltounovamente, ajeitou o gorro com firmeza sobre as orelhas e caminhou até a beiradado penhasco.Lief e Barda a seguiram. O chão sob seus pés era íngreme, traiçoeiro,escorregadio e coberto de pedras soltas. Andando e escorregando, sempre searriscando a cair, eles desciam cada vez mais. Depois de apenas alguns minutos,Lief perdeu a noção de que estava caminhando por sua livre vontade. As pedrasescorregadias e o declive fortemente inclinado faziam o trabalho por ele. Visto dabeira do penhasco, o Vale tinha parecido muito distante. Agora ele se aproximavarapidamente.Uma vez ele olhou para trás. O cume do penhasco assomava alto sobre
  51. 51. eles. Impossivelmente alto e distante. Era difícil acreditar que ele e os amigoshaviam estado lá em cima, que tinham tido a opção de descer, ficar onde seencontravam ou até dar as costas ao Vale e partir.Parecia que, naquele momento, não havia escolha. Quanto mais seaproximavam da pesada neblina, mais ela parecia atraí-los e mais íngreme setornava o declive. Era preciso muito mais energia para parar do que para prosseguir.Os companheiros apoiavam-se uns nos outros para não cair, mas pouco podiamfazer para se ajudar mutuamente.E, antes que se dessem conta, estavam envolvidos pela névoa. Era comose ela tivesse se erguido para encontrá-los, roçando-lhes os rostos com dedosquentes e úmidos, turvando-lhes os olhos. Lentamente, ela se insinuou em seusnarizes e bocas, enchendo-os com seu cheiro exageradamente adocicado e seusabor de deterioração."Não era esse o plano", Lief pensou confuso. Ele tentou parar em meio a umpasso, escorregou e caiu, rolando cegamente ofegante, debatendo-se nas pedras.Ele ouviu Barda e Jasmine chamá-lo assustados, mas não conseguiu interromper aqueda.Quando finalmente parou, percebeu que se encontrava no fundo do Vale. Anévoa espessa o circundava. Árvores espectrais, cobertas de musgo denso,repletas de trepadeiras que pendiam de seus galhos estendiam-se sobre suacabeça. Grandes porções de um fungo vermelho escuro e reluzente saíam salientesdas raízes retorcidas ao lado de seu rosto. Samambaias viçosas arqueavam-se aoseu redor, tocando-lhe o rosto e as mãos enquanto ele se esforçava para erguer-seofegante.E em toda a sua volta ouvia-se um suave suspirar, como uma leve brisasoprando entre as árvores. Mas não havia vento. O som parecia vir de todos oslados, do interior do espaço cinzento e inquietante onde sombras ainda maisescuras deslizavam, contorciam-se e se aproximavam.— Barda! Jasmine! — Lief chamou tomado por repentino pavor. Contudo, anévoa abafou-lhe a voz, e ela lhe pareceu fina e estridente. E, quando seus amigos
  52. 52. responderam, as vozes deles pareceram estar muito, muito distantes.Lief tornou a chamá-los. Ele imaginou ter ouvido um grito de dor e sentiu opeito apertar. Mas então viu os amigos saídos da escuridão, aproximando-se aostropeços. Ele se inclinou para a frente, agarrando-lhes os braços, agradecido.— Bem, pelo menos ainda estamos vivos — Barda resmungou. — A névoaainda não nos matou.Jasmine, porém, nada disse. Ela havia empunhado a adaga e seencontrava parada, muito quieta, todos os músculos tensos.O som murmurante e plangente estava mais alto. A névoa que os cercavagirava e crescia, e as sombras escureciam e se aproximavam.— Afastem-se! — Jasmine gritou, erguendo a adaga num gestoameaçador.As sombras vacilaram por um momento para logo em seguida avançaremnovamente. E então Lief pôde ver que eram pessoas, multidões de homens,mulheres e crianças atravessando a neblina, vindas de todas as direções.Elas não pareciam inamistosas. Na verdade, à medida que se aproximavamdevagar, os seus rostos pálidos pareciam acolhedores e tomados por umaansiedade tímida, enquanto as mãos longas e finas se estendiam na direção doscompanheiros. Os dedos eram de um cinza-claro, quase transparentes, assimcomo as roupas compridas que esvoaçavam ao redor delas. Os cabelos pendiamescorridos pelas costas. Não era de surpreender que parecessem fazer parte danévoa.Elas sussurravam enquanto se moviam, o som de suas vozes erasemelhante ao de folhas secas farfalhando ao vento, mas Lief não compreendianada do que diziam. Ainda assim, ele não se sentiu ameaçado. Mesmo quando elaschegaram muito perto e a primeira delas tocou-lhe o rosto, as roupas e os cabeloscom dedos ressecados e leves como asas de uma mariposa, ele não sentiu medo,somente uma repugnância que o fez retrair-se.E ainda mais e mais pessoas chegaram. Os trapos descorados queusavam cobriam membros que pareciam apenas pele e osso. As suas formas
  53. 53. davam a impressão de se misturar e se unir, e de se sobrepor à medida queavançavam, cada mão movendo-se em cima de dezenas de outras, tocando,apertando...Barda e Lief estavam rigidamente imóveis, enquanto Jasmine tremia, aboca apertada e os olhos fortemente cerrados.— Não posso suportar isto — ela sussurrou. — Quem são eles? O que háde errado com eles? — ela segurava a adaga frouxamente na mão e não fezmenção de usá-la. Estava muito claro que aquelas pessoas eram totalmenteinofensivas e que passavam por terríveis dificuldades.Houve uma agitação em meio à multidão. Ela se inclinou e estremeceucomo um pasto verdejante varrido pelo vento. E então as mãos irrequietas foram seretraindo, as pessoas se afastaram, sussurrando em meio à névoa, os olhoscinzentos tomados por um anseio desesperançado.O medo pairava no ar. Lief podia senti-lo, até quase cheirá-lo. E então eleviu quem o provocava. Uma sombra alta e escura, perfurada por dois pontosvermelhos de luz que brilhavam como carvões incandescentes, atravessava aneblina na direção deles.Lief tentou colocar a mão sobre a espada, mas não conseguiu movê-la. Eleprocurou recuar, porém os seus pés não obedeceram. Um simples olhar o avisou deque Barda e Jasmine estavam igualmente enfeitiçados.A sombra tomou forma, e Lief pôde constatar que os carvõesincandescentes eram olhos, olhos que queimavam no rosto devastado de umhomem alto e barbado que vestia uma túnica longa e escura. Ele segurava, emcada uma das mãos, duas correias grossas e cinzentas que desapareciam nanévoa atrás dele como se estivessem presas a alguma coisa, mas pareciaignorar-lhes a existência. O seu olhar penetrante estava fixo em Lief, Barda eJasmine.Os amigos lutaram para se libertar, e os lábios finos do recém-chegadocurvaram-se num sorriso maldoso.— Não desperdicem as suas forças — ele disse num tom satisfeito. —
  54. 54. Vocês não podem fazer nada, a menos que eu permita. É uma lição que vocês logoaprenderão. Sejam bem-vindos ao meu vale. Há muito não tenho o prazer dereceber visitantes e agora tenho a felicidade de receber quatro.Ele observou com vivo prazer quando Lief, Barda e Jasmine seentreolharam surpresos. Quatro visitantes? Do que ele estava falando?— Talvez vocês tenham pensado em me enganar ao se dividirem emgrupos, não é? — ele perguntou. — Ah, como gosto disto. Visitantes que apreciamjogar. Isso fará com que tudo seja mais agradável para todos nós.Ele curvou um dedo magro e, para surpresa dos companheiros, do meio danévoa saiu Neridah aos tropeços, a expressão desnorteada, ferida e sangrando.Obstinada, ela os seguira, apesar de tudo que haviam feito, e agora tinham,além de si mesmos, mais uma pessoa com que se preocupar. Rangendo os dentese enraivecido, Lief lembrou o grito que ouvira. Sem dúvida, Neridah tropeçara aodescer sozinha o íngreme declive.Ele olhou para a mulher com irritação inútil, quando ela parou ao seu lado.Mas Neridah não lhe devolveu o olhar. Ela olhava para a frente, os olhos cheios demedo e confusão.O homem que os torturava esfregou as mãos.— Quem é você? — Lief indagou. O homem sorriu zombeteira.— Eu? — ele replicou sarcástico. — Ora, vocês não adivinharam? Eu sou oGuardião.Com um movimento esvoaçante das túnicas, ele se virou e afastou-se paradentro de névoa. Exatamente quando os companheiros iam perdê-lo de vista, elefez um gesto indiferente com uma das mãos e curvou o dedo indicador.E, incapazes de impedir, os pés se arrastando como se lutassem pararesistir à ordem, Neridah, Lief, Jasmine e Barda o seguiram desajeitadamente.
  55. 55. A névoa girava ao redor deles enquanto caminhavam. Samambaias etrepadeiras roçavam-lhe braços e pernas. Sombras tremeluzentes eram percebidascom o canto dos olhos. O povo do vale observava, mas não ousava se aproximar.O Guardião caminhava diante deles alto, as costas eretas.— Se o Guardião está nos levando para a sua caverna, cabana ou ondequer que more, melhor para nós — Jasmine sussurrou. — Pois é lá que eleguarda...Ela se interrompeu olhando para Neridah, que virou a cabeça zangada.— Eu sei sobre o grande diamante — ela disse em voz alta. — Por queacha que os segui até aqui? Por causa da excelente companhia? — ela lançou umolhar assustado para o Guardião. — Eu achei que vocês tinham condições de obterêxito, não importa quem tivesse falhado — continuou com voz trêmula. — Nuncaimaginei que vocês nos levariam a ser capturados assim que pisássemos no Vale!— Já fomos capturados antes e escapamos — Jasmine sussurrou.— E vamos conseguir outra vez. Ainda temos as nossas armas.— Ele falou de jogos — Lief ajuntou devagar. — Ele gosta de jogos. O queserá que ele quer dizer?— Nada agradável, imagino — Barda respondeu com uma careta. — Mas,pelo menos, isso prova que ele é um homem e não um Ol ou qualquer outro animalcom forma humana. São os seres humanos que gostam de jogos.
  56. 56. — E, se ele é somente um homem, podemos derrotá-lo, apesar de toda amágica que usar — Jasmine completou. — Derrotá-lo e tomar-lhe a pedra. Sótemos que esperar e descobrir qual é o seu ponto fraco.Lief hesitou. Ele também acreditava que o Guardião sob a aparência dopoder mágico era um ser humano. Mas não tinha certeza de que esse fato facilitariaa tarefa deles. E alguma coisa ainda o estava incomodando na sua memória. Algoque fazia com que ele se arrepiasse cada vez que pensava no diamante.O grupo caminhou durante um tempo que pareceu longo, cruzou um riachofundo e, finalmente, chegou a uma clareira. Bruscamente, o Guardião parou eergueu a mão. Luzes começaram a brilhar através da névoa. Quando oscompanheiros se aproximaram, viram que as luzes brilhavam no interior de umpalácio de vidro em forma de domo.A neblina girava fora das paredes de vidro, refletindo a luz e emitindo umbrilho sinistro. Centenas de vultos cinzentos envoltos em sombras moviam-se nanévoa. Dentro do palácio, porém, cores vivas reluziam. Os diversos aposentos eramdecorados com móveis refinados, tapetes e quadros coloridos, estátuas de prata eouro, almofadas e cortinas de seda. Todo o local brilhava como uma jóia.O Guardião deu um passo para o lado para que os prisioneiros tivessemuma visão melhor das maravilhas do palácio. Ele sorria orgulhoso ao ver os rostosperplexos.— Vocês hão de concordar que é uma morada digna de um rei — ele disse.Como ninguém lhe respondeu, o sorriso desapareceu de seu rosto e foisubstituído por uma expressão de escárnio.— Nós vamos entrar. Talvez isso solte as suas línguas e torne vocês maisagradáveis — ele puxou as correias que segurava nas mãos e quatro vultossurgiram de trás dele, saídos da névoa.Lief percebeu que Neridah reprimia um grito e, na verdade, ele mesmo malse conteve quando viu as criaturas que emergiram da neblina cinzenta.Calvos, grosseiros, deformados, cobertos por chagas e abscessos, osbraços retorcidos pendendo quase até o chão, os monstros sorriam e babavam
  57. 57. enquanto fitavam os prisioneiros. As correias flexíveis que os prendiam ao seumestre saíam de pontos inchados e vermelhos na parte posterior de suas nucas.Repugnado, Lief se deu conta de que as correias faziam parte deles. Carne de suacarne.— Esses são os meus bichos de estimação... meus companheiros — oGuardião apresentou. — Eu os mantive escondidos até agora para não assustá-los.Mas vocês aprenderão a amá-los, assim como eu. Talvez já gostem deles, apesarde não saber. Eles são monstros bons e fortes, não é mesmo? Eles me protegem eme fazem companhia. Eles se chamam Vaidade, Egoísmo, Rancor e Ganância.Enquanto falava, deu uma leve pancadinha na cabeça de cada um. Nomomento em que sentiram o toque do mestre, as criaturas se inclinaram e deixaramescapar um gemido de prazer.— Seus nomes são uma pequena brincadeira que inventei — ele disse,sorrindo. — Pois cada um tem uma das imperfeições que mencionei, mas nenhumrecebeu o nome daquela que apresenta. Ganância não é ganancioso, Vaidade nãoé vaidoso, Egoísmo não é egoísta. Rancor também não é invejoso, de jeito nenhum.E, o que é mais importante, ele nunca sentiu rancor em toda a vida. Vocês nãoacham isso divertido?Novamente sem resposta, ele se virou e caminhou até uma porta instaladanuma das paredes do palácio. A porta se abriu e ele recuou.Lief, Barda, Jasmine e Neridah caminharam até a entrada ao mesmo tempo.Logo depois, estavam no interior do palácio seguidos pelo Guardião. Os monstrosamontoaram-se atrás dele, grunhindo, as correias balançando terrivelmente emseus pescoços. Ao se chocarem, três deles começaram a rosnar e mostrar asgarras uns aos outros.O mestre gritou uma ordem zangada, chutando-os com selvageria. Quandoeles finalmente se aquietaram, ele voltou a atenção aos prisioneiros.— Assim como ocorre com crianças, às vezes os meus bichinhosdiscordam e precisam de uma mão firme — ele disse com suavidade. — O egoísta eo vaidoso têm muito medo de Ganância. Mas eles lutam, se for preciso, pois, afinal,
  58. 58. eles estão presos uns aos outros e não podem escapar.A porta se fechou com um suave clique.Lief olhou ao redor, piscando na luz brilhante. O aposento em que haviamentrado era amplo e luxuosamente decorado. No centro, uma fonte jorrava ecintilava. Almofadas de veludo formavam pilhas sobre o piso reluzente. Umamúsica suave pairava no ar, embora Lief não pudesse constatar de onde o somvinha.Numa extremidade do aposento, havia uma longa mesa coberta por umatoalha branca que reluzia com baixelas de prata e copos de cristal. Longas velasbrancas queimavam em castiçais sofisticados entre travessas repletas de pratosfumegantes e cheirosos.Cinco lugares haviam sido postos. Dois em cada lado da mesa e um nacabeceira.O Guardião esfregou as mãos com um som seco e irritante.— Bem, agora estamos a sós — ele disse. — Agora podemos aproveitar acompanhia uns dos outros. Boa comida e bebida. Música. Conversa. E, depois,talvez, o jogo.A aparência e o aroma da comida eram ótimos, mas para os companheiroso seu sabor lembrava poeira e cinzas, e eles pouco comeram. Eles falaram pouco,também, pois ficara claro desde o início que o anfitrião não buscava umaconversação, mas sim um público.A voz do Guardião continuou ininterrupta, quando ele se sentou à cabeceirada mesa, suas terríveis criaturas agachadas atrás de sua cadeira.Lief notou que as correias eram atadas aos punhos do Guardiãocertamente por tiras ocultas debaixo das mangas. Dessa forma, as mãos deleficavam livres enquanto os monstros continuavam sob seu controle.— Nasci em meio a grandes riquezas, mas, devido à maldade e à inveja deterceiros, perdi tudo — ele contou, despejando um vinho dourado num cálice decristal. — Fui expulso de minha casa. Ninguém ergueu um dedo para me ajudar.Sozinho, sofrendo, desesperado e desprezado, refugiei-me neste vale. No início, os
  59. 59. meus únicos companheiros eram os pássaros e outras pequenas criaturas. Mas...— Não há pássaros ou pequenas criaturas neste vale — Jasmineinterrompeu. — Pelo menos que eu tenha visto.O Guardião fitou-a por sob as sobrancelhas, claramente aborrecido com ainterrupção.— Eles foram embora — ele disparou irritado. — Não havia mais lugar paraeles, aqui, depois que eu me transformei e este se tornou o Vale dos Perdidos — elese inclinou para a frente, os olhos vermelhos emitindo um brilho quente sob a luzdas velas. — Vocês não querem saber como esse milagre aconteceu? — eleperguntou. — Vocês não querem saber como eu, um pária, reuni novas riquezas,um novo reino e poderes milhares de vezes mais fortes do que aqueles que perdi?Ele não esperou a resposta e prosseguiu como se não tivesse havidonenhuma interrupção.— Um voz me falou quando eu estava mergulhado no sofrimento. Elasussurrava palavras nos meus ouvidos, dia e noite. Ela me lembrava de como eutinha sido enganado. De como fora traído. Do que eu tinha perdido. Primeiro,pensei que iria ficar louco. Mas então...Os olhos brilhantes assumiram um ar vidrado. E, quando ele tornou a falar,foi como se tivesse se esquecido dos visitantes que estavam em sua companhia,como se estivesse contanto a história para si mesmo, uma história que ele contaramuitas e muitas vezes antes.— Então, eu vi a resposta — ele murmurou. — Vi que a luz havia me traído,mas que a escuridão iria dar-me força. Vi que durante toda a vida eu vinha trilhandoo caminho errado. Vi que o mal teria êxito onde o bem tinha fracassado. E, então,aceitei o mal. Acolhi-o em meu coração e, assim, renasci como o Guardião.Bruscamente, os seus olhos perderam o ar vidrado e se concentraram nosestranhos ao redor da mesa. Ele notou os rostos rígidos e sérios, os pratos quaseintocados.— Por que não comem? — ele indagou irritado. — Vocês desejam meinsultar?

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