Emily rodda deltora quest 5 - a montanha do medo

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Emily rodda deltora quest 5 - a montanha do medo

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...Lief, Barda e Jasmine saíram em uma perigosa-busca para encontrar assete pedras perdidas do mágico Cinturão de Deltora. Mas o seu reino somente serálibertado do poder do cruel Senhor das Sombras quando todas as pedras tiveremsido recolocadas no Cinturão.Quatro pedras foram encontradas. Agora, embora notícias perturbadorasde casa tenham chegado até Lief e ele esteja ansioso por retornar, a busca precisaprosseguir. Para encontrar a quinta pedra, os heróis devem se aventurar até quasea fronteira das Terras das Sombras, e mergulhar na escuridão e no terror do reinodo monstruoso sapo Gellick — a Montanha do Medo.SUMÁRIOO refúgioAntes do amanhecerIntenções malignasO planoO inimigoA decolagemKinrestA montanhaMedoA lutaMistériosA subidaDo lado de dentroGellick
  2. 2. Os gnomos do medoFazer ou morrerA despedidaATÉ AGORA...Lief, de dezesseis anos, cumprindo uma promessa feita pelo pai antes deseu nascimento, saiu em uma grande busca para encontrar as sete pedraspreciosas do mágico Cinturão de Deltora. As pedras — uma ametista, um topázio,um diamante, um rubi, uma opala, um lápis-lazúli e uma esmeralda — foramroubadas para permitir que o maligno Senhor das Sombras invadisse o reino.Escondidas em terríveis locais por todo o reino, elas precisam ser recolocadas noCinturão a fim de que o herdeiro do trono seja encontrado, e a tirania do Senhor das
  3. 3. Sombras seja derrotada.Os companheiros de Lief são, Barda, um homem que já foi guarda dopalácio, e Jasmine, uma garota selvagem e órfã da mesma idade de Lief, queambos conheceram em sua primeira aventura nas temíveis Florestas do Silêncio.Em suas viagens, eles descobriram um movimento de resistência secretoliderado por Perdição, um homem misterioso, com uma cicatriz no rosto, que ossalvou quando foram capturados pelos brutais Guardas Cinzentos do Senhor dasSombras.Até o momento, os três amigos encontraram quatro pedras: o topáziodourado, símbolo da lealdade, que tem o poder de fazer os vivos entrarem emcontato com o mundo espiritual e de clarear a mente; o rubi, símbolo da felicidade,cuja cor perde a intensidade na presença de ameaças, repele espíritos malignos e éum antídoto para venenos; a opala, pedra da esperança, que oferece vagasimagens do futuro; o lápis-lazúli, pedra celestial, que é um poderoso talismã.A fim de encontrar a quinta pedra, eles devem viajar até muito perto dafronteira da Terra das Sombras — para a lendária Montanha do Medo...E agora, continue a leitura...
  4. 4. O dia havia sido bonito e claro e, naquele momento, um ar fresco osenvolvia. Tempo perfeito para uma caminhada, mas nada pode ser agradávelquando se está com sede, cansado e com medo. Lief avançava com dificuldade, acabeça curvada, os membros doloridos, e apenas vagamente ciente da presençade Barda e Jasmine ao seu lado.Os cantis estavam quase vazios. Desde que haviam deixado as Dunas, ostrês amigos vinham sobrevivendo às custas de alguns goles de água por dia.Contudo, a terra plana e marrom se estendia ao longe sem sinal algum de rio oucórrego, e o céu, agora alaranjado pelo pôr-do-sol, era imenso e sem nuvens.Lief caminhava de cabeça baixa para não ter que olhar a linha recortada dohorizonte. A Montanha do Medo ainda se encontrava distante, e os amigos levariamsemanas para atingi-la — se não morressem de sede antes, Lief pensou,melancólico —, mas só de pensar nela, ele ficava cheio de medo. Saber que cadapasso o aproximava da fronteira da Terra das Sombras era mais aterrorizadorainda.Lief curvou os ombros e pensou admirado no garoto que deixara Del tãocheio de entusiasmo diante da aventura que o esperava. Agora, aquele garoto lheparecia absurdamente jovem e aquela época, muito distante.No entanto, não se passara tanto tempo — apenas alguns meses —, emuita coisa havia sido conquistada nesse período. Quatro pedras brilhavam agora
  5. 5. no Cinturão de Deltora, oculto sob a camisa de Lief. Só faltava encontrar três pedras.Ele sabia que deveria estar se sentindo feliz, esperançoso e triunfante, comoJasmine. Em vez disso, lutava contra o desespero e a tristeza.Pois, ao olhar para trás, parecia um milagre que as pedras tivessem semantido seguras e que ele e os companheiros tivessem sobrevivido aos terroresque enfrentaram. Por quanto tempo mais duraria aquela boa sorte? O ânimo de Liefdiminuía ao pensar no que os aguardava.Além disso, até aquele momento, eles haviam escapado à vigilância doSenhor das Sombras, mas esse tempo certamente havia terminado. Perdição, ohomem com a cicatriz no rosto, líder da Resistência, havia dito que já seespalhavam rumores sobre eles. E, se Perdição ouvira comentários, o mesmocertamente acontecera com o Senhor das Sombras. No entanto, ali caminhavamLief, Barda e Jasmine sob o céu aberto, com Kree voando adiante deles. Queimportância tinha que ninguém soubesse seus nomes? A descrição era suficiente.Lief saltou assustado e quase tropeçou quando um vulto negro bateu asasao lado de sua cabeça, mas era somente Kree que pousava no braço de Jasmine. Opássaro grasnou. Filli colocou a cabeça cinza e peluda para fora do casaco de suadona e respondeu animadamente.— Kree disse que há água mais adiante — Jasmine gritou. — Umapequena lagoa, talvez uma fonte, pois ele não conseguiu ver nenhum córrego porperto. Fica num bosque perto da estrada.A expectativa de tomar água fez com que todos apressassem o passo, enão demorou para que Kree levantasse vôo outra vez e os conduzisse para fora daestrada. Desviando-se de arbustos e rochas, eles o seguiram até finalmente chegara um bosque formado de árvores claras e de aspecto antigo.E ali, de fato, bem no centro, encontrava-se uma pequena lagoa redondacercada de pedras brancas. Ansiosos, os companheiros correram em sua direção.Então, eles viram uma placa de bronze presa a uma das pedras, com algumaspalavras gravadas, palavras que eles mal conseguiam ver na luz que enfraquecia:
  6. 6. FONTE DOS SONHOSBEBA, GENTIL ESTRANHOE SEJA BEM-VINDOOS QUE TIVEREM INTENÇÕESMALIGNAS, TENHAM CUIDADO.Os amigos hesitaram. A fonte era clara e tentadora, e a sede era grande.Contudo, a inscrição na placa de bronze deixou todos nervosos. Seria seguro tomaraquela água?— Jasmine, o que dizem as árvores? — Barda indagou. Ele já duvidara dacapacidade de Jasmine de conversar com plantas e animais, mas isso fora há muitotempo.— Elas não dizem nada — Jasmine informou olhando ao redor, aexpressão séria. — Elas estão em completo silêncio. Não entendo...Lief estremeceu. O bosque era verde e tranqüilo e sob os seus pés cresciauma grama verde e viçosa. O local parecia um pequeno paraíso no entanto, pairavauma estranha sensação no ar. Ele passou a língua sobre os lábios secos.— Talvez seja melhor não bebermos dessa fonte — ele disse relutante. —Ela pode estar encantada... ou envenenada.— Não temos intenções malignas — Barda protestou. — Acho que ela ésegura para nós.Mas ele continuou onde estava e não se aproximou da fonte. Filli chilreava
  7. 7. impaciente no ombro de Jasmine.— Todos estamos com sede, Filli — Jasmine murmurou. — Masprecisamos esperar. Não temos certeza... Filli! Não!A pequena criatura pulou para o chão e correu até a nascente, ignorandoos gritos de Jasmine. Rapidamente, mergulhou a cabeça na água cristalina e bebeusofregamente.— Filli! — Jasmine chamou desesperada.Porém, desta vez, Filli não lhe deu atenção, mergulhado que se encontravana alegria de matar a sua terrível sede.E ele não passou mal, tampouco desfaleceu.Kree foi o próximo a voar até a fonte. Ele também bebeu, afundando o bicona água repetidas vezes. E também não apresentou nenhum efeito desfavorável.Depois disso, Lief, Barda e Jasmine não conseguiram mais esperar e correram paraa nascente.A água era fria e refrescante. Lief nunca provara algo tão bom. Em sua casa,em Del, a água era igualmente fresca, mas sempre tinha um gosto de metal que abomba produzia.Quando, finalmente, beberam até se saciar, os amigos encheram os cantisaté a borda, para o caso de terem de fugir depressa durante a noite. O bosqueparecia seguro, mas eles haviam aprendido que não era prudente confiar nasaparências.Sentaram-se na grama e comeram algo enquanto a Lua subia e as estrelasapareciam no céu acima deles. Estava frio, mas eles preferiram não acender umafogueira. Até mesmo uma pequena chama pareceria um farol sinalizando apresença deles. E também, por motivos de segurança, eles foram bem para debaixodas árvores antes de desenrolar seus cobertores. Outras pessoas poderiam terconhecimento da fonte e aparecer para tomar água durante a noite.— Ficamos muito cuidadosos — Jasmine bocejou, aconchegando-sedebaixo do cobertor. — Lembro-me de dias em que éramos mais ousados.— Hoje as coisas são diferentes — Lief murmurou. — Agora estão
  8. 8. procurando por nós — ele concluiu, estremecendo.Barda deu uma olhada para ele e virou-se rapidamente para ocultar o olharpreocupado.— Dormiremos em turnos. Eu fico de guarda agora — ele avisou. Kreegrasnou.— Você também precisa dormir, Kree — Jasmine sorriu. — Você está muitocansado e não pode nos vigiar a noite toda. Você e Filli e eu ficaremos de sentinelajuntos quando Barda nos acordar.Ela se virou e fechou os olhos, a mão deslizando no pêlo macio de Filli.Sonolento, Lief observou quando Kree começou a voar para um galho acima dacabeça de sua dona. Então, o pássaro pareceu mudar de idéia, desceu e pousou nagrama. Ele saltitou para perto de Jasmine e ajeitou-se perto dela, enfiando a cabeçasob a asa.Lief sentiu uma leve centelha de medo.— Barda — ele chamou baixinho. — Dê uma olhada em Kree. Barda,agachado sob o cobertor que jogara nas costas para se aquecer, virou-se paraolhar.— Por que ele está dormindo no chão e não num galho? — Lief sussurrou.— Talvez ele não goste de árvores — Barda sussurrou em resposta. —Jasmine disse que elas estavam em silêncio. E, de fato, elas são estranhas. Vocêpercebeu que elas são exatamente iguais?Lief olhou ao redor e se deu conta de que Barda estava certo. Aquela erauma das razões pelas quais as árvores pareciam tão estranhas. Todas tinham omesmo tronco reto e liso, os mesmos galhos apontando para o céu, o mesmoconjunto de folhas pálidas. Ele sentiu um frio na espinha.— Lief, pare de se preocupar, por favor! — Barda resmungou após uminstante. — Seja lá o que for que está preocupando Kree, não é suficiente paraimpedi-lo de descansar. Sugiro que você siga o exemplo dele. Se não dormir, vai searrepender. Logo vai ser a sua vez de ficar de guarda.Lentamente, Lief enrolou-se no cobertor e se deitou. Durante um ou dois
  9. 9. minutos, ele fitou o céu escuro pontilhado de estrelas, emoldurado pelas folhasclaras das estranhas árvores. Nenhuma brisa as balançava. Nenhum insetocricrilava. Não se ouvia nenhum som, exceto a respiração suave de Jasmine.Suas pálpebras começaram a pesar, e logo ele não conseguia mantê-lasabertas, tampouco tentou. "Se Kree não está com medo de dormir, eu também nãovou ficar", ele pensou. "Afinal, o que pode nos acontecer enquanto Barda fica desentinela?"Minutos depois, ele estava adormecido. Por esse motivo, não notou acabeça de Barda pender suavemente no peito, nem ouviu o leve ressonar do amigo.E não sentiu o passar de pés silenciosos quando os moradores do bosquese dirigiram à Fonte dos Sonhos.
  10. 10. Lief estava sonhando. O sonho parecia muito real. Ele estava parado juntoà velha bomba no quintal da ferraria. O quintal estava escuro e deserto."É noite", ele pensou. "Papai e mamãe certamente estão dentro de casa aessa hora". Contudo, a casa também estava às escuras e, embora ele chamasse daporta e depois da cozinha, ninguém respondeu.Confuso, mas ainda não assustado, entrou na sala de estar. A luz da Luacheia brilhava pela janela. As cortinas estavam abertas, o que era estranho. E haviaobjetos jogados no chão: livros e papéis espalhados por todo o canto. Seus paisjamais os teriam deixado daquela maneira.O quarto deles encontrava-se vazio, a cama em desordem e desfeita, eroupas estavam caídas no chão. Sobre a cômoda, havia um vaso de flores mortas.Isso lhe deu a certeza de que algo estava errado. Assustado, Lief correu para foramais uma vez. A Lua brilhava sobre o quintal vazio. O portão da ferraria oscilava eexibia uma marca. Lief não conseguiu ver com exatidão do que se tratava e seaproximou, o coração aos pulos. E, então, ele viu.
  11. 11. Lief despertou sobressaltado. O suor molhava-lhe a testa, sua respiraçãoestava acelerada, e as mãos, trêmulas. Ele disse para si mesmo que fora somenteum sonho, que não havia nada a temer.Devagar, ele se deu conta de que o céu acima dele estava pálido e que asestrelas haviam quase desaparecido. O dia estava amanhecendo. Ele dormira anoite inteira. Mas será que Jasmine, que certamente assumira o segundo turno devigilância, se esquecera de chamá-lo?Ele deu uma olhada na direção em que tinha visto a amiga se ajeitar paradormir na noite anterior. Ela ainda se encontrava no mesmo lugar, respirando calmae regularmente. Kree encontrava-se encolhido ao lado dela e, não muito longe, eleviu Barda, as costas apoiadas numa árvore, a cabeça caída sobre o peito. Eletambém dormia profundamente.Lief quase riu. Então, apesar dos planos sensatos, todos haviam dormido.Talvez tivesse sido bom. Eles precisavam descansar e, de fato, nada os perturbaradurante a noite.Lief sentia sede. Em silêncio, saiu de sob as cobertas, levantou-se ecaminhou entre as árvores até a fonte. Seus pés descalços não fizeram nenhumruído na grama macia. Ele percebeu outro detalhe incomum no bosque — asárvores não deixavam cair folhas ou ramos.Ele estava quase chegando na nascente quando ouviu um leve ruído naágua — alguém estava matando a sede.A mão de Lief deslizou para o punho da espada. Ele fez menção de voltar,pensando em Barda e Jasmine, mas encontrava-se tão próximo da fonte que lhe
  12. 12. pareceu tolice não espiar e descobrir quem entrara no bosque. Prendendo arespiração, escondeu-se atrás da última árvore e olhou.Um vulto gorducho inclinava-se sobre a água e bebia. Parecia algum tipode animal do tamanho de um cachorro grande, mas muito mais gordo do quequalquer cão que Lief já tinha visto. Lief apertou os olhos e se esforçou para vê-lomelhor na penumbra. A pele da criatura era de um castanho escuro e não pareciaser coberta de pêlos. As orelhas eram pequenas e bem junto à cabeça. As pernastraseiras eram curtas e atarracadas, e as patas dianteiras, delgadas. A pele nascostas e nos lados tinha marcas estranhas, dobras e ondulações.O que seria?Lief deu um passo à frente e, no mesmo instante, a criatura endireitou ocorpo, virou-se e o viu.O olhar de Lief encontrou olhos grandes e assustados, bigodes eriçados,uma boca cor-de-rosa aberta e patinhas apertadas de medo, e uma estranhasensação de prazer e paz o invadiu. Ele não compreendeu o sentimento, massoube, com certeza, que a criatura era inofensiva, gentil e estava muito assustada.— Não tenha medo — ele disse em voz baixa e tranqüilizadora. — Não voumachucar você.A criatura continuou a fitá-lo, mas Lief teve a impressão de que parte domedo deixou o olhar dela e foi substituído pela curiosidade.— Não vou machucar você — Lief repetiu. — Sou um amigo.— Como você se chama? — a criatura indagou com voz aguda. Lief deu umsalto violento, pois não lhe ocorrera que a criatura pudesse falar.— Meu nome é Lief — ele respondeu, sem pensar.— Eu sou Little, isto é, Prin, filha dos Kins — a criatura informou. Elaendireitou o corpo e começou a andar cambaleante na direção de Lief, as pernascurtas movendo-se com dificuldade na grama, as patas dianteiras dobradas, a bocaexibindo um sorriso doce e esperançoso.Lief a olhava assombrado. Várias lembranças flutuavam em sua mente.Não era de surpreender que tivesse sido invadido por aquela sensação de paz
  13. 13. quando viu o rosto de Prin pela primeira vez. Como não percebera antes quem elaera?Kin! As célebres criaturas voadoras que todas as crianças de Delconheciam. Lief não tivera um Kin de brinquedo, Monty, com quem dormia quandoera pequeno? Sua mãe fizera Monty com um tecido macio recheado de palha e,com o passar dos anos, a pequena criatura ficou gasta e rasgada. Hoje, ficavaescondida numa gaveta misturada a outros tesouros, longe do olhar zombeteiro dosamigos. Contudo, antes fora um companheiro confiável e tranqüilizador quecarregava a todos os lugares. Quantas vezes, naqueles dias, Lief desejara queMonty criasse vida?E aquela criatura poderia ser a realização desse desejo, Lief pensou.Poderia ser Monty que caminhava na direção dele na grama. Mas, não era fato quelhe haviam dito que os gentis e delicados Kins haviam desaparecido há muito tempoe que agora só existiam em velhas histórias e nas ilustrações dos livros?Lief engoliu em seco e, por um instante, perguntou-se se ainda estavasonhando. Mas Prin encontrava-se em pé diante dele, grande como a vida. Agoraele podia ver que ela tinha pêlo sim, um pêlo curto e sedoso como musgo marrom.As asas fechadas junto ao corpo eram cobertas pela mesma penugem aveludada.Lief desejou acariciá-la e verificar se era tão macia quanto aparentava ser.— Você quer brincar comigo, Lief? — Prin convidou, estremecendo osbigodes e balançando o corpo para cima e para baixo. — Vamos brincar deesconde-esconde?Lief se deu conta de que ela era muito nova, e não poderia ser diferente,pois, em pé, ela somente chegava à altura de seu ombro. Haviam lhe dito que osKins adultos eram tão grandes que, antigamente, as pessoas, ao vê-los voando nocéu, confundiam-nos com dragões e tentavam abatê-los a tiros.— Onde está a sua família? — ele indagou, olhando ao redor. — Você nãodevia pedir...?— Eles ainda estão sonhando! — Prin informou zombeteira. — Eles só vãoacordar depois que o sol raiar, viu?
  14. 14. Ela apontou para o que Lief pensara serem grupos de imensas rochasespalhadas ao redor e além das árvores. Para sua surpresa, Lief constatou que nãose tratava de rochas, mas de Kins, de tal modo enrodilhados que tudo o que sepodia ver eram as suas costas curvadas.— Eu deveria ficar enrolada até eles acordarem — Prin explicou, baixandoa voz. — Mas não é justo, porque não tenho nada interessante para sonhar. Prefirobrincar. Agora, você se esconde enquanto eu canto. Prometo que não voutrapacear. Vou cantar devagar e vou fechar os olhos e também os ouvidos. Pronto?Vá!Ela colocou as patas sobre os olhos e começou a cantar.— Você pode se esconder, mas eu vou achar. Meus olhos atentos vãoprocurá-lo...Lief logo percebeu que os pequenos Kins cantavam em vez de contar. Nofinal da canção, Prin abriria os olhos e esperaria que ele tivesse se escondido. Semquerer desapontá-la, Lief fugiu depressa e se escondeu atrás de uma das árvoresna parte mais densa do bosque.Não era um esconderijo muito bom, mas ele não queria se afastar muito deonde Barda e Jasmine dormiam e, pelo menos, poderia mostrar à pequena Kin queera um amigo.Lief colou-se ao tronco da árvore e riu sozinho ao ouvir a voz estridente dacriaturinha terminando a canção.— ... você pode se esconder, mas eu vou te achar, Bata as asas, e você vaiestar fora!Você pode se esconder, mas eu vou te achar. Meus olhos atentos vão...ah!A canção foi interrompida com um grito abafado e seguiu-se de umagargalhada alta e áspera.— Peguei! — rugiu a voz. — Yo, me ajude! Ele está resistindo. Horrorizado,Lief saiu do esconderijo atrás da árvore e retornou sorrateiramente para a fonte.Dois Guardas Cinzentos encontravam-se curvados sobre um monte agitado nochão. O monte era Prin.
  15. 15. Eles haviam jogado um casaco sobre a cabeça dela e agora estavamamarrando-a com uma corda.— Dê-lhe um chute, Carn 4 — o segundo guarda vociferou. — Assim eleaprende.Lief abafou um grito quando Carn 4 chutou o montículo com selvageria ePrin parou de se mexer.Lief deu um paso à frente e se sobressaltou quando alguém lhe agarrou obraço. Era Barda, os olhos inchados de sono, acompanhado por Jasmine.— Vamos embora, Lief — Barda sussurrou. — Eles vão descansar e comer.Poderemos estar longe quando eles estiverem prontos para partir.— Não posso ir — ele disse, sacudindo violentamente a cabeça, os olhosfixos nos vultos junto à fonte. — Não posso deixá-los matar minha amiga.Ele percebeu Barda e Jasmine trocarem olhares e soube que elescertamente pensaram que havia perdido o juízo.— Não tenho tempo para explicações. Onde estão as bolhas? Vábuscá-las.Sem nada dizer, Jasmine desapareceu entre as árvores. Talvez elaconsiderasse Lief um tolo, mas não permitiria que ele enfrentasse os guardas com
  16. 16. somente uma espada para protegê-lo.Seguido de perto por Barda, Lief começou a se aproximar da nascente,correndo de uma árvore a outra até chegar perto de onde Prin se encontrava.— Bistecas para o café da manhã — anunciou Carn 4. — Não há nadamelhor.— Isso não é um porco — corrigiu o outro. — Olhe os pés dele.— Seja lá o que for, é bem gordo. Vai ser uma boa refeição — Carn 4endireitou as costas, foi até a fonte e destampou o cantil.— Descobrimos essa nascente bem a tempo, Carn 5 — ele disse, virandoo cantil e sacudindo-o para mostrar que estava quase vazio.— Eles fazem parte do grupo dos Carn — Lief ouviu Barda murmurar. —Como...— Eu sei — Lief respondeu em voz baixa. — Como os Guardas que noscapturaram em Rithmere.Ele segurava o punho da espada com a mão suada. Saberiam ouadivinhariam aqueles dois o que acontecera com seus irmãos nas Dunas? Teriameles assumido de onde Carn 2 e 8 pararam para salvar seu grupo da desgraça?Carn 5 caminhou até o colega na fonte, esfregando o nariz com as costasda mão.— Este lugar fede a carrapatos — queixou-se ele. Lief prendeu arespiração.— Mas não os nossos — Carn 4 curvou-se para encher o cantil. — Osnossos dois e o seu amigo já seguiram o seu caminho. Aquele grandão feiochamado Glock é muito lerdo. Pode-se sentir o cheiro de todos os passos que dá.Ele não veio para cá.O coração de Lief batia descompassadamente. Então, Perdição libertaraGlock e Neridah como planejara. Carn 4 e 5 devem ter sido os captores dos dois eagora os estavam perseguindo como Carn 2 e 8 haviam seguido Lief e seuscompanheiros após a sua fuga.Ambos os guardas estavam voltados para a nascente. Aquele era o
  17. 17. momento de tentar tirar Prin dali. Lief olhou ansioso sobre o ombro. Onde estavaJasmine com as bolhas?— Vamos alcançá-los no cair da noite — Carn afirmou confiante,ajoelhando-se ao lado do colega para encher o próprio cantil. — Eles e quem querque os tenha deixado fugir. E vamos fazer com que ele se arrependa...— Vamos nos divertir um bocado com ele — o outro concordou.Ambos riram e se inclinaram para beber, sorvendo a água ruidosamente.Lief soube que não podia esperar e desperdiçar aquela oportunidade.Ignorando a mão de Barda em seu ombro, disparou para fora do esconderijo,apanhou o pacote flácido que era Prin e começou a arrastá-lo.Logo em seguida, amaldiçoou-se por sua insensatez. Ele simplesmenteimaginara que Prin estava inconsciente, mas ela estava acordada, deitada imóvel,paralisada pelo medo. Ao sentir mãos desconhecidas em seu corpo, gritouaterrorizada.No mesmo instante, os Guardas ergueram-se de um salto e se viraram,ainda com água na boca, as bolhas e os estilingues já nas mãos molhadas. Elesviram Lief inclinado sobre Prin e correram na direção deles aos gritos.— Corra, Lief! — ele escutou Barda gritar, ao mesmo tempo em quesaltava para a frente e tentava puxá-lo para o bosque. Lief, porém, aterrorizado,parecia preso ao chão.Pois os Guardas estavam gritando, tropeçando, parando. De seus péssaíam raízes que penetravam na terra como cobras e os prendiam ao solo. Aspernas se juntaram e transformaram-se num tronco sólido. Seus corpos, braços epescoços estenderam-se para o céu, e folhas descoradas brotaram da pele, que setornava uma casca macia.E, em alguns instantes, duas árvores encontravam-se no lugar deles. Duasárvores novas para o bosque — tão silenciosas, imóveis e perfeitas como todas asoutras.Jasmine veio correndo com Filli chilreando assustado em seu ombro.— As pedras estão criando vida! — ela exclamou ofegante. — E estão
  18. 18. vindo para cá!Meia hora mais tarde, ainda atordoados, Lief, Barda e Jasmineencontravam-se sentados em meio a um grupo de enormes Kins. Filli fitava ascriaturas com olhos arregalados. Prin, muito a contragosto, fora obrigada a seabrigar na bolsa da mãe.— Você precisa ficar protegida até acordarmos, pequenina! — a mãerepreendeu. — Quantas vezes eu recomendei? Veja só o que aconteceu. Aquelesmalvados poderiam ter matado você!— Eles tomaram a água, mãe — Prin resmungou do fundo da bolsa.— Eu sabia que eles iam beber.— Você não poderia saber que eles beberiam da água antes de feri-la — amãe replicou zangada. — Fique quieta. As suas costas estão muito machucadas.— Nós também tomamos dessa água — exclamou Barda, cujo olharconfuso passava das estranhas criaturas às árvores imóveis.Prin espiou para fora da bolsa e torceu os bigodes.— Quem não tem intenção de cometer o mal pode beber sem receber o mal— ela cantarolou, certamente repetindo algo que aprendera.A mãe a ignorou e virou-se para Barda.— Nós soubemos que vocês tinham bom coração quando beberam da fontee não foram atingidos pelo mal — ela explicou com a voz lenta e grave. — Certos deque não representavam uma ameaça para nós, sonhamos tranqüilamente a noitetoda, sem saber que nossa filhinha poderia colocar vocês em perigo pela manhã.Nós sentimos muito.— Foi o meu amigo que ajudou a pequena — Barda retrucou, curvando-se.— Mas, de minha parte, foi um privilégio conhecê-los. Nunca imaginei que algumdia veria um Kin.— Hoje somos poucos — contou um velho Kin que se encontrava em pé aolado da mãe de Prin. — Desde que deixamos a nossa montanha...— A Montanha do Medo! Vocês antes viviam lá, não é mesmo? Por quepartiram? — Lief interrompeu, incapaz de continuar em silêncio.
  19. 19. O velho Kin parou e fitou Barda, que sorriu.— Como vocês vêem, também tenho jovens sob meus cuidados — ele sedesculpou, para aborrecimento de Lief. — Por favor, desculpe a interrupção eprossiga.— Os gnomos da Montanha do Medo sempre tentaram nos caçar —contou a velha criatura. — Mas as suas flechas não nos faziam grande mal. Osmaiores perigos que enfrentávamos eram os Guardas Cinzentos e os monstrosVraal que vinham das Terras das Sombras. Mas há muito tempo, alguma coisamudou...A intensidade de sua voz diminuiu, e ele curvou a cabeça.— Os gnomos começaram a usar veneno na ponta das flechas — a mãe dePrin explicou, dando continuidade ao relato. — Era um veneno mortal que matavarápida e dolorosamente. Perdemos muitos dos nossos — a voz dela se transformounum sussurro. — Foi uma época terrível. Eu era muito jovem, então, mas melembro do que aconteceu.Os demais Kins assentiram e sussurraram entre si. Obviamente, tambémse lembravam.— Finalmente, os poucos que restaram decidiram que não poderiam maisficar na Montanha — o velho Kin contou. — Esse bosque costumava ser nossamoradia de inverno, um bom lugar para as crianças. Agora ficamos aqui o ano todo.Hoje podemos visitar a nossa Montanha, ver as árvores Boolong, ouvir os riachosondulantes e sentir o doce cheiro do ar fresco somente em nossos sonhos.Um sentimento de tristeza invadiu todo o grupo. Fez-se um longo silêncio,e Jasmine, irrequieta, mexeu-se pouco à vontade.— Tive um sonho estranho na noite passada — ela começou, tentandoalegrar um pouco a reunião. — Sonhei que vi Perdição. Ele se encontrava numacaverna cheia de pessoas. O garoto Dain também estava lá, juntamente comNeridah, Glock e muitos outros. Glock tomava sopa e a deixava escorrer queixoabaixo. Eu os chamei, mas eles não me ouviram. Parecia tão real.— Você não compreende? — o velho Kin perguntou, fitando-a. — Era real
  20. 20. — ele disse, apontando a fonte com uma das patas. — Esta é a Fonte dos Sonhos.Você irá visitar qualquer coisa ou pessoa durante o sonho, na qual pensar enquantoestiver bebendo.— Nós visitamos nossa Montanha todas as noites — acrescentou a mãe dePrin, quando Jasmine exibiu uma expressão incrédula. — É um grande consolo vercomo ela está agora. As árvores Boolong crescem fortes, muito mais do que antes.É verdade que não podemos comer os seus frutos, mas, pelo menos, estamos lájuntos.— Eu não! — Prin contestou em voz alta. — Eu não posso sonhar com aMontanha. Eu nunca a vi! Este é o único lugar que conheço, por isso não tenhonada com que sonhar. Isso não é justo!Sua mãe inclinou-se sobre ela e murmurou algumas palavras em seuouvido. Os outros adultos se entreolharam tristemente.— O que vi em meu sonho era real? — Jasmine indagou espantada.— Então Perdição, Neridah e Glock chegaram ao esconderijo daResistência em segurança! — Barda exclamou e olhou satisfeito para as duasnovas árvores junto à nascente. — E agora nenhum Guarda vai perturbá-los.— Eu sonhei com Manus e os Ralad — ele sorriu. — Eu me encontravaperto da fonte em sua cidade subterrânea. Eles cantavam, e tudo estava bem. Émuito bom saber disso.Lief, contudo, permaneceu calado, entorpecido pelo susto. Ele estava selembrando do próprio sonho e, lentamente, enfrentava a certeza de que ele tambémhavia sido verdadeiro.
  21. 21. Aos poucos, a reunião dos Kins terminou, e cada uma das criaturas seafastou para se alimentar da grama que crescia debaixo e ao redor das árvores.— Grama é tudo o que temos aqui — a mãe de Prin explicou a Lief, Barda eJasmine, enquanto se afastava carregando seu pesado rebento na bolsa. — Ébastante nutritivo, mas estamos cansados de seu sabor adocicado e ansiamos porcomer os frutos e folhas das árvores Boolong. As folhas das árvores deste bosquenão são comestíveis. Elas não estão realmente vivas.Kree, empoleirado no braço de Jasmine, grasnou enojado.— Kree sempre soube que as árvores não eram como deveriam ser —Jasmine contou, estremecendo ao olhar à sua volta. — Não é de surpreender queelas sejam silenciosas. É horrível pensar nelas paradas aqui, inalteradas porséculos.— E que sorte termos passado pelo teste da fonte — Barda ajuntousombrio. — Ou estaríamos fazendo companhia a elas.Lief não falara por um longo tempo. Quando, finalmente, o último Kin haviapartido, Jasmine virou-se para ele.— O que aconteceu? — ela quis saber. — Está tudo bem.— Não é verdade — Lief murmurou. — Os meus pais... — ele parou,engolindo em seco, tentando desesperadamente conter as lágrimas.— Jarred e Anna? — Barda exclamou atento. — O que você...? — de
  22. 22. repente, ao compreender, a sua expressão mudou e se encheu de medo.— Você teve um sonho! — ele deduziu. — Lief...— A ferraria está vazia — Lief confirmou devagar. — A marca do Senhordas Sombras está no portão. Acho... acho que eles estão mortos.Perplexo e consternado, Barda o fitou sem saber o que dizer, mas logo asua expressão mostrou firmeza.— É muito provável que não estejam mortos, mas simplesmente presos —ele consolou. — Não devemos perder as esperanças.— Ser prisioneiro do Senhor das Sombras é pior do que a morte— Lief murmurou. — Meu pai disse isso muitas vezes. Ele sempre meadvertiu... — as palavras ficaram presas em sua garganta, e ele cobriu o rosto comas mãos.Desajeitada, Jasmine deu-lhe um abraço, e Filli saltou em seu ombro eroçou-lhe o rosto com o pêlo macio. Kree cacarejou tristemente. Barda, porém,manteve-se afastado, lutando com o próprio medo e sofrimento.Finalmente, Lief ergueu o olhar, o rosto muito pálido.— Preciso voltar — ele anunciou.— De jeito nenhum — Barda retrucou, sacudindo a cabeça.— Preciso! — Lief insistiu zangado. — Como posso continuar sabendo oque sei?— Você só sabe que a ferraria está vazia — Barda argumentou comsuavidade. — Jarred e Anna podem estar nas masmorras do palácio em Del. Elespodem estar na Terra das Sombras. Eles podem estar escondidos. Ou, como vocêjá disse, podem estar mortos. Seja qual for a resposta, você não pode ajudá-los.Seu dever está aqui.— Não me fale em dever! — Lief gritou. — Eles são meus pais!— E são meus amigos! — Barda retrucou no mesmo tom de vozinexpressivo. — Meus queridos e únicos amigos, Lief, desde antes de seunascimento. E sei o que eles lhe diriam se pudessem. Eles lhe diriam que a nossabusca também é a busca deles e lhe implorariam para não abandoná-la.
  23. 23. A raiva de Lief arrefeceu e foi substituída por uma pesada tristeza. Ele fitouo rosto de Barda e viu a dor por trás da máscara sombria.— Você está certo — ele murmurou. — Me desculpe.— Uma coisa é certa — tornou Barda, colocando uma das mãos no ombrode Lief. — O tempo se tornou uma prioridade. Precisamos chegar à Montanha doMedo o mais rápido possível.— Não sei como podemos andar mais depressa do que temos feito atéagora — Jasmine argumentou.— A pé não podemos — Barda concordou. — Mas tenho um plano. — Asombra do sofrimento passou pelo rosto de Barda, mas, mesmo assim, eleconseguiu exibir um leve sorriso. — Por que os Kins devem sonhar sobre seu lar emvez de vê-lo com os próprios olhos? Por que andar se podemos voar?Barda conversou com os Kins durante longo tempo e apresentou seusmelhores argumentos, mas foi somente no fim do dia que três deles finalmenteconcordaram em carregar os companheiros até a Montanha do Medo.Eles eram Merin, Ailsa e Bruna e estavam entre os maiores do grupo. Eramtodas fêmeas, pois somente as fêmeas tinham bolsas para levar passageiros.As três concordaram por diferentes motivos: Merin, por ter saudades; Ailsa,por causa do espírito aventureiro; e Bruna, por achar que tinha uma dívida para comLief por ter salvo Prin.— Ela é muito querida para todos nós — Bruna explicou. — É o único filhoteque nasceu desde que nos mudamos para cá.— Nós precisamos do ar da Montanha e das árvores Boolong para nosdesenvolver — Merin contou. — Aqui, apenas existimos. Em nossa Montanha,podemos crescer e nos reproduzir. Deveríamos ter voltado há muito tempo.— Para morrer? Você está dizendo uma grande tolice, Merin — censurou omais velho, que ficara muito zangado com a decisão das três sobre ir até aMontanha. — Se você, Ailsa e Bruna forem em carne e osso à Montanha do Medo,certamente serão mortas. E então haverá menos Kins, e teremos mais três mortespara lamentar.
  24. 24. — De que adianta ficarmos aqui e morrermos lentamente? — disparouAilsa, erguendo as grandes asas. — Sem filhotes para dar continuidade à nossaespécie, não temos futuro. Os Kins estão acabados. Prefiro morrer rapidamente poruma boa causa a permanecer aqui. Temos os nossos sonhos, mas estou cansadade sonhar! — Ailsa exclamou.— E eu, que nunca posso sonhar! — Prin ajuntou. Ela correu para junto deAilsa e juntou as patas. — Leve-me à Montanha, Ailsa — ela implorou. — E entãoeu também a terei conhecido e poderei acompanhá-las em seus sonhos.— Você não pode ir, pequenina — Ailsa recusou. — Você é preciosademais. Mas pense nisso: você pode sonhar conosco e então verá onde estamos eo que estamos fazendo. Isso não é tão bom quanto viajar?Evidentemente, Prin não concordava, pois começou a se lamentar e chorarsem dar atenção às ordens e pedidos da mãe. Finalmente, a mãe levou-a embora,mas, mesmo quando estavam fora de vista, o som de suas vozes zangadas flutuavapor entre as árvores. Os demais Kins pareciam aflitos.O velho Kin exibia uma expressão carrancuda.— Viram o que fizeram? — ele resmungou para Barda, Lief e Jasmine. —Estávamos felizes e tranqüilos antes de vocês aparecerem. Agora, estamoszangados uns com os outros, e a pequenina está infeliz.— Não é justo culpar os estranhos, Crenn — Bruna objetou. — Merin, Ailsae eu concordamos em ir à Montanha por nossa própria vontade.— Isso é verdade — Merin concordou. — E a pequenina só disse o que vemdizendo há anos, Crenn. E quanto mais ela crescer, mais ela repetirá essaspalavras. A vida dela aqui, sem companheiros da mesma idade, é monótona demaispara ela. Ela é muito parecida com Ailsa — entusiasmada e aventureira.— E ela não tem sonhos para embalá-la como nós — Ailsa acrescentou.Seus olhos brilhantes voltaram-se para Jasmine, Barda e Lief.— Acho que devo agradecer aos visitantes por perturbar a minha paz. Estedia fez com que eu me sentisse viva novamente.Crenn sentou-se, endireitando o corpo. A sua face envelhecida, os bigodes
  25. 25. brancos, o olhar amortecido e cheio de saudade estavam voltados para aMontanha. O sol havia mergulhado no horizonte quando ele finalmente falou.— De fato, todas vocês estão dizendo a verdade — ele concordou relutante.— E se está escrito que isso deve acontecer, que assim seja. Eu apenas rezo paraque vocês fiquem em segurança e lhes imploro para que se cuidem e voltem paranós o mais depressa possível.— É o que faremos — Ailsa prometeu e deu um sorriso para os que acercavam. — Agora vou beber da fonte, mas não beberei mais nada esta noite. Eentão tirarei apenas um cochilo. Um de nós deve estar acordado para chamar osdemais amanhã cedo. Devemos partir antes do amanhecer.
  26. 26. Naquela noite, Lief sonhou outra vez. Ele planejara o sonho — tomarabastante água e pensara nos pais enquanto o fazia. "Se estiverem mortos, serámelhor enfrentar o fato", pensou. "Se estiverem vivos, esta é a chance de descobrironde se encontram".Quando ele e os companheiros se preparavam para dormir, pensar no queele estava prestes a descobrir o deixou silencioso e tenso. Ele nada disse a Bardae Jasmine, mas, talvez, eles tivessem adivinhado o que ele planejava, poisestavam igualmente silenciosos, desejando uma boa-noite a todos e nada dizendodepois. Lief ficou agradecido, pois aquilo era algo que tinha que enfrentar sozinho efalar a respeito não ajudaria em nada.O sono demorou a chegar. Lief permaneceu acordado durante um longotempo, fitando o céu. E, finalmente, a sonolência causada pela água da fonte tomouconta dele.Desta vez, o sonho começou quase que imediatamente.O cheiro foi a primeira coisa que notou — o cheiro de umidade edecomposição. Depois, seguiram-se os sons — pessoas gemendo e chorando nãomuito longe, as vozes abafadas que ecoavam, fantasmagóricas. Estava muitoescuro."Estou em um túmulo", ele pensou, com um estremecimento de horror. Maslogo os seus olhos se acostumaram à escuridão, e ele se deu conta de que se
  27. 27. encontrava numa masmorra. Um vulto de cabeça baixa estava sentado no chão aum canto.Era seu pai.Esquecendo completamente que se encontrava na cela apenas em espírito,Lief o chamou, correu até a figura caída e segurou-lhe o braço. O pai continuoucurvado, infeliz, evidentemente nada ouvindo ou sentindo. Lágrimas quentesbrotaram nos olhos de Lief, e ele chamou mais uma vez. Desta vez, o pai virou eergueu a cabeça. Ele olhou diretamente para o filho, um olhar levemente perplexono rosto.— Sim, pai, sim! Sou eu! — Lief gritou. — Ah, tente meu ouvir! O queaconteceu? Que lugar é esse? A mamãe está...?Contudo, o seu pai suspirava profundamente e curvava a cabeça outra vez.— Sonho — ele murmurou para si mesmo.— Não é um sonho! — Lief gritou. — Eu estou aqui! Pai...Jarred ergueu a cabeça de repente. Uma chave girava na fechadura daporta da cela. Lief virou-se quando a porta abriu com um rangido. Havia três vultosali parados: um homem alto e magro vestindo uma longa túnica, cercado por doisguardas imensos que empunhavam tochas acesas. Por um momento, Lief foitomado pelo medo, convencido de que os seus gritos tinham sido ouvidos, maspercebeu imediatamente que os recém-chegados estavam tão alheios à suapresença quanto o seu pai.— Pois então, Jarred! — o homem com a túnica apanhou a tocha da mão deum dos guardas e foi até o centro da cela. Iluminado pela luz bruxuleante da chama,o seu rosto parecia anguloso, os ossos da face estavam sombreados, e a boca finatinha uma expressão cruel.— Prandine! — reconheceu o pai de Lief.O coração de Lief bateu com um som surdo. Prandine? O conselheiro-chefedo rei Endon, o servo secreto do Senhor das Sombras? Mas ele estava morto.Certamente, ele...— Prandine, não, ferreiro — o homem respondeu, sorrindo. — Aquele que
  28. 28. se chamava Prandine mergulhou, para a morte, da torre deste mesmo palácio, hádezesseis anos, no dia em que o Mestre reclamou o seu reino. Prandine foidescuidado — ou infeliz. Talvez você saiba algo sobre isso...— Não sei de nada.— Veremos. Mas, quando alguém morre, sempre há outra pessoa paratomar o seu lugar. O Mestre gosta deste rosto e formato. Ele decidiu repeti-los emmim. Meu nome é Fallow.— Onde está a minha mulher?Lief prendeu a respiração. O homem magro riu.— Você gostaria de saber? Talvez eu lhe diga... se você responder àsminhas perguntas.— Que perguntas? Por que fomos trazidos para cá? Não fizemos nada deerrado.Fallow virou-se para a porta onde os guardas vigiavam.— Saiam! — ele ordenou. — Vou interrogar o prisioneiro sozinho. Osguardas assentiram e se retiraram.Assim que a porta foi firmemente fechada, o homem magro apanhou algodas dobras de sua túnica. Um pequeno livro azul-claro.Era o livro 0 Cinturão de Deltora, que Jarred encontrara escondido nabiblioteca do palácio. O livro que o próprio Lief tantas vezes estudara enquantocrescia e que lhe ensinara tanto sobre o poder do Cinturão e suas pedras.Lief contorceu-se por vê-lo nas mãos do homem. Desejou poder arrancá-lodas mãos de Fallow, salvar o pai do sarcasmo cruel. Mas ele não conseguia. Tudo oque podia fazer era ficar ali e observar.— Este livro foi encontrado em sua casa, Jarred — Falow dizia. — Comofoi parar lá?— Não me lembro.— Talvez eu possa ajudá-lo. Nós o conhecemos. Ele veio da biblioteca dopalácio.— Quando jovem, vivi no palácio. Talvez eu o tenha levado comigo quando
  29. 29. parti. Isso foi há muito tempo. Eu não sei.Fallow tamborilou no livro com os dedos ossudos. O sorriso cruel nãodeixava o seu rosto.— O Mestre acha que você nos enganou, Jarred — ele disse. — Ele achaque você mantém contato com o seu tolo amigo, rei Endon, e que no final ajudoupara que ele, a sua estúpida mulher e a criança não nascida pudessem escapar.O pai de Lief negou, balançando a cabeça.— Endon foi tolo o bastante para acreditar que eu era um traidor — elecontou em voz baixa e inalterada. — Endon nunca me pediria ajuda, nem eu adaria— Assim nós pensávamos. Mas agora não temos tanta certeza. Coisasestranhas vêm ocorrendo no reino, ferreiro. Coisas que não agradam ao Mestre.Lief viu um repentino lampejo de esperança nos olhos baixos do pai. Olhourápido para Fallow. Teria ele visto o mesmo que Lief?Ele viu. Seus próprios olhos exibiam um brilho frio quando prosseguiu.— Certos aliados, prezados pelo Mestre, foram cruelmente mortos.Certos... bens... também valorizados pelo Mestre foram roubados -Fallow continuou.— Suspeitamos que o rei Endon ainda esteja vivo. Suspeitamos que ele estejarealizando um último e inútil esforço para reaver o trono. O que você sabe sobreisso?— Nada. Como todas as outras pessoas em Del, acho que Endon estámorto. Foi isso que nos disseram.— De fato — Fallow fez uma pausa e, então, se inclinou para a frente demodo que o seu rosto e a tocha ficassem muito próximos do homem sentado nochão. — Onde está o seu filho, Jarred? — ele disparou.Lief sentiu sua boca ficar seca. Ele observou o pai olhar para cima e sentiuo coração apertado ao notar as profundas marcas de exaustão, dor e sofrimento noamado rosto tão parecido com o dele.— Lief deixou a nossa casa há vários meses. O ofício de ferreiro oaborrecia. Ele preferiu correr desvairadamente pela cidade com os amigos. Não
  30. 30. sabemos onde ele se encontra. Por que quer saber o seu paradeiro? Ele partiu ocoração da mãe e o meu também.O coração de Lief encheu-se de orgulho diante da coragem do pai. A vozera alta e queixosa, a voz de um pai magoado, nada mais. O seu pai, sempre tãosincero, estava mentindo como se tivesse nascido para aquilo, determinado aproteger o filho e a sua causa a qualquer preço.Fallow examinava atentamente a expressão desesperada. Teria sidoenganado, ou não?— Dizem que um garoto da idade de seu filho é um dos três criminosos queestão vagando pelo reino, tentando impedir os planos do Mestre — disse elelentamente. — Ele anda acompanhado por uma garota e um homem mais velho.Um pássaro preto voa junto deles.— Por que está me contando isso? — o homem no chão mexeu-se inquieto.Ele parecia meramente impaciente, mas Lief, que o conhecia tão bem, sabia que eleestivera ouvindo atentamente. Sem dúvida, estava se perguntando quem seriam agarota e o pássaro preto. Ele nada sabia a respeito de Jasmine e Kree, ou o queocorrera nas Florestas do Silêncio.— Esse garoto — Fallow prosseguiu — pode ser o seu filho. Você é umaleijado e pode tê-lo enviado em alguma busca inútil no seu lugar. O homem... podeser Endon.O pai de Lief riu. O seu riso parecia totalmente natural, e não poderia serdiferente, pensou Lief. Era absurdo pensar em Barda ser confundido com o delicadoe cauteloso rei Endon.Os lábios finos de Fallow formaram uma linha dura. Ele abaixou a chama datocha até que bruxuleasse perigosamente diante dos olhos do homem que ria.— Tenha cuidado, Jarred — ele rosnou. — Não submeta a minha paciênciaà prova. A sua vida está em minhas mãos. E não somente a sua.O riso parou. Lief cerrou os dentes quando viu o pai curvar a cabeça maisuma vez.— Eu vou voltar — Fallow disse em voz baixa, dirigindo-se à porta. —
  31. 31. Pense no que eu disse. Na próxima vez, vou querer respostas. Se você fez o quesuspeitamos, o simples sofrimento não fará com que conte a verdade. Mas talvez osofrimento de alguém que você ama seja mais convincente.Ele ergueu o punho e bateu na porta. Quando ela se abriu, ele saiu ebateu-a atrás de si. A chave virou na fechadura.— Pai! — Lief gritou para o vulto encolhido junto à parede. — Pai, não sedesespere. Encontramos quatro pedras e hoje iremos até a Montanha do Medopara encontrar a quinta. Estamos agindo o mais depressa possível.Mas o pai continuou sentado imóvel, fitando a escuridão sem nada ver.— Eles estão vivos — ele sussurrou. — Vivos e vitoriosos.Os olhos dele brilharam. Correntes chocalharam quando ele fechou ospunhos.— Ah, Lief, Barda — boa sorte! Estou enfrentando minha luta aqui damelhor forma possível. Vocês devem enfrentar a de vocês. Minhas esperanças eorações os acompanham.
  32. 32. Lief acordou com o som de vozes quase ao amanhecer. Jasmine e Bardajá se movimentavam, pegavam as suas armas e prendiam as latas com as bolhasaos cintos. Ailsa, Merin e Bruna voltavam da fonte. Lief ficou quieto, recordando osonho que tivera. Embora tenha, provavelmente, dormido muitas horas depois queo sonho acabou, todos os detalhes estavam nítidos em sua mente.Ele teve a impressão de que um terrível peso o empurrava para baixo. Era opeso do perigo e do sofrimento do pai, que temia por Anna. E então ele se lembroudo brilho no olhar de Jarred e de suas palavras finais.Estou enfrentando a minha luta aqui da melhor forma possível. Vocêsdevem enfrentar a de vocês...— Jarred e Anna sempre souberam que isso poderia acontecer— Barda encontrava-se parado ao lado dele com uma expressão triste ecansada no rosto.— Você viu meu pai? — Lief exclamou, erguendo-se de um salto.— Você também?Eles apanharam as cobertas, ajeitaram as mochilas nos ombros ecomeçaram a caminhar juntos até a nascente, conversando em voz baixa. Jasmineos seguiu atenta.— Sonhei assim que adormeci — Barda contou. — Eu sabia que vocêplanejava fazer o mesmo, Lief, mas eu queria ver com meus próprios olhos o que
  33. 33. estava acontecendo a Jarred. Não fiquei sabendo de muita coisa, mas eu o vi. Eleestava sentado, acorrentado à parede de uma masmorra — os punhos de Barda sefecharam diante da lembrança. — Eu nada pude fazer. Se, pelo menos, eu pudesseter contado...— Ele sabe! — Lief exclamou. — Ele sabe que estamos tendo êxito. E issolhe deu esperança.— Ele ouviu você?— Não. Ele encontrou um outro meio.Os amigos chegaram à fonte e, enquanto comiam rapidamente frutas secase biscoitos e bebiam água fresca, Lief contou da visita de Fallow à cela. Barda riutristemente quando ouviu que estava sendo confundido com o rei Endon.— Minha querida e velha mãe ficaria orgulhosa de ouvir isso — ele disse.— Então eles não notaram o desaparecimento do mendigo das portas daferraria?— Não — Lief respondeu. — Ou, se perceberam, devem pensar que vocêsimplesmente mudou para outra parte da cidade — ele franziu o cenho. — Mas ahistória é diferente comigo. Quando os problemas começaram, eles foram até aferraria por causa da história de meu pai. Eles descobriram que eu partira,vasculharam a casa...— E encontraram o livro — Barda murmurou. — Há muito tempo, eu dissea Jarred para destruí-lo, mas ele não me ouviu. Ele disse que era muito importanteLief ouviu um leve ruído atrás de si e se virou. Jasmine mexia em suamochila. Seus lábios estavam firmemente cerrados, o olhar triste. Ele achou quesabia o porquê.— Não tive nenhum sonho na noite passada — ela disse, respondendo àpergunta não proferida. — Tentei visualizar o meu pai quando bebi água da fonte,mas eu era tão pequena quando ele foi capturado que não consegui lembrar de seurosto. Ele é apenas uma imagem indistinta agora. Portanto, perdi minha chance.— Sinto muito — Lief murmurou.Jasmine deu de ombros e atirou a cabeça para trás.
  34. 34. — Talvez seja melhor assim. Meu pai está prisioneiro há tanto tempo...Quem sabe o que ele está sofrendo? Saber que não posso fazer nada por eleapenas iria me atormentar. É melhor pensar que ele está morto, como minha mãe.Ela se virou bruscamente.— É melhor nos apressarmos. Estamos perdendo tempo com essaconversa inútil.Ela se afastou, acompanhada de Kree. Barda e Lief embrulharam seuspertences e a seguiram. Ambos sabiam do grande sofrimento que se ocultava portrás das palavras ásperas de Jasmine e ambos desejaram poder ajudá-la.Mas não havia nada a fazer. Nada a ser feito por Jasmine, seu pai ou ospais de Lief, ou qualquer uma das milhares de vítimas da crueldade do Senhor dasSombras. Exceto..."Exceto o que iremos fazer agora", Lief pensou, ao se aproximar do localperto do bosque em que as Kins e Jasmine aguardavam. "O Cinturão de Deltora éa nossa missão. Quando estiver concluída, quando o herdeiro de Endon forencontrado e o Senhor das Sombras, derrubado, todos os prisioneiros serãolibertados."Os Kins aguardavam além das árvores, no topo de uma colina coberta degrama, reunidos para se despedir dos viajantes, exceto Prin.— A pequenina não veio — a mãe explicou. — Peço desculpas por ela.Geralmente, ela não fica zangada por muito tempo, mas, desta vez, foi diferente. —Desta vez, o desapontamento foi muito grande — Ailsa murmurou. — Pobrepequenina, sinto por ela.Merin olhou para o céu que clareava e virou-se para Barda.— Eu sou a maior, então vou levá-lo — ela disse educada, evidentementeansiosa para partir.Um tanto nervoso, Barda entrou na bolsa dela. Lief sorriu diante da cena e,apesar de seus receios, muitos dos que a assistiam também riram.— Que bebê grande você está carregando, Merin — a mãe de Prin brincou.— E muito bonito!
  35. 35. Lief iria viajar com Ailsa e Jasmine, com Bruna, a menor das três. Elesentraram em suas respectivas bolsas, enquanto Filli chilreava animado no ombro deJasmine. Ele certamente considerava os Kins maravilhosos e se mostravaentusiasmado por se encontrar tão próximo de um deles.A bolsa de Ailsa era quente e macia como veludo. No início, Lief teve receiode que o seu peso pudesse machucá-la, mas logo percebeu que sua preocupaçãoera infundada.— Um filhote de Kin é muito mais pesado do que você na época em quedeixa a bolsa da mãe para sempre — Ailsa esclareceu. — Fique bem confortável.Contudo, conforto foi o que Lief menos sentiu logo depois. Ele seperguntara como criaturas tão pesadas conseguiam levantar vôo e descobrirpessoalmente foi uma experiência assustadora.O método era bastante simples. Ailsa, Merin e Bruna ficaram em fila,estenderam as grandes asas e então correram o mais depressa possível colinaabaixo. Seus passageiros, impiedosamente sacudidos, só podiam se segurarofegantes. E então viram o que havia adiante — elas corriam diretamente para abeira de um penhasco.Lief gritou e fechou os olhos quando Ailsa se lançou ao espaço.Seguiram-se alguns momentos atordoados de pânico enquanto as imensas asasbatiam com força acima de sua cabeça. Logo depois, sentiu um impulso para o altoe um golpe de ar frio no rosto e percebeu que o som do bater de asas se estabilizoue atingiu um ritmo regular. Lief abriu os olhos.A terra abaixo parecia uma colcha de retalhos adornada em vários pontoscom pequenas árvores e caminhos estreitos e sinuosos. Mais adiante, a Montanhado Medo já parecia mais próxima, ainda envolta em névoa, mas aparentando sermaior, mais escura e sinistra do que antes. Atrás dela, viam-se as concavidades dacadeia de montanhas que marcavam a fronteira com a Terra das Sombras, quetambém pareciam mais próximas.— Em quanto tempo chegaremos à Montanha? — Lief gritou, tentadofazer-se ouvir apesar do barulho do vento.
  36. 36. — Teremos que parar quando começar a escurecer — Ailsa informou. —Mas, se o bom tempo continuar, chegaremos lá amanhã."Amanhã!" Lief pensou. "Amanhã saberemos, sejam quais forem asconseqüências, se os gnomos da Montanha do Medo ainda vigiam os céus embusca de Kins. Em caso positivo, isso significará a nossa morte. Os gnomosderrubarão Ailsa, Merin e Bruna, e nós nos espatifaremos no solo com elas."Lief estremeceu. Sua mão deslizou até o Cinturão preso à cintura e roçoulevemente as quatro pedras ali engastadas. Elas se aqueceram ao seu toque: otopázio, para a lealdade, o rubi, para a felicidade, a opala para a esperança, e omisterioso lápis-lazúli, a Pedra Celestial.Certamente tudo ficaria bem, Lief disse a si mesmo. Certamente, aquelaspedras, juntas, os manteriam em segurança. Mas mesmo enquanto procurava teresses pensamentos tranqüilizadores, palavras do Cinturão de Deltora passaramrapidamente por sua mente.Cada pedra possui sua própria magia, mas as sete juntas têmuma força muito mais poderosa que a soma de suas partes. Somente oCinturão de Deltora completo, como foi inicialmente criado por Adin e usadopelos seus verdadeiros herdeiros, tem o poder de derrotar o Inimigo.A advertência era clara. As pedras que Lief e seus amigos tinham em mãosaté o momento poderiam ajudá-los a seu próprio modo, mas não poderiamsalvá-los.Lief cuidou para que seus dedos não se demorassem sobre a opala, poisnão queria ter nenhuma visão do futuro. Se fosse assustadora, não queria vê-la. Eleenfrentaria qualquer coisa que o destino lhes reservasse no momento certo.
  37. 37. Quando o sol mergulhou numa névoa vermelha, as Kins voaram emcírculos, diminuindo cada vez mais a altitude, à procura do local que haviamescolhido para passar a noite.— Ali há água, comida e abrigo — Ailsa contou a Lief. — É uma pequenafloresta onde, há muito tempo, sempre interrompíamos a nossa jornada entre aMontanha e o bosque. Nós a chamamos de Kinrest.Estava quase escuro quando elas pousaram no solo, batendo as asas comforça ao mergulharem entre as árvores altas para o macio abrigo abaixo.Lief, Barda e Jasmine saltaram desajeitadamente para o chão e foraminvadidos por uma sensação estranha ao pisarem em terra firme novamente. Oscompanheiros olharam ao redor. Kinrest era realmente um local tranqüilo.Samambaias cercavam densamente o pequeno riacho que borbulhava ali perto ecogumelos cresciam amontoados sob as árvores enormes. De algum lugar próximo,vinha o som de uma cachoeira.— Como as árvores cresceram! — espantou-se Merin excitada, limpandofolhas e galhos do pêlo. — Elas escondem totalmente o riacho. E, veja só, Ailsa, aentrada da grande caverna em que costumávamos brincar está coberta desamambaias.— Tudo parece muito diferente — Ailsa concordou. — Não é desurpreender que levássemos tanto tempo para encontrá-la. Deveríamos tê-la
  38. 38. visitado em sonhos há muito tempo em vez de ir sempre à Montanha.Fatigados, Lief, Barda e Jasmine sentaram-se junto ao riacho eobservaram as três Kins começarem a explorar. Jasmine inclinou a cabeça para olado, atenta ao farfalhar das árvores.— O que elas dizem? — Lief quis saber ansioso. — Estamos em segu-rança?— Acho que sim — Jasmine respondeu séria. — As árvores estão felizesem rever as Kins. Muitas delas são centenárias e se lembram claramente de épocaspassadas. Mas também senti tristeza e medo nelas. Algo ruim aconteceu aqui.Sangue foi derramado, e alguém de quem gostavam morreu.— Quando? — Barda indagou, repentinamente alerta.— Árvores como essas não falam do tempo como nós, Barda — Jasmineexplicou paciente. — A tristeza de que se lembram pode ter sido causada há umano ou vinte. Para elas, tudo significa a mesma coisa.— Acho que é seguro acendermos uma pequena fogueira — ela sugeriu,estremecendo. — As árvores certamente esconderão a luz. E eu preciso de algoque me anime.Os amigos encontravam-se agachados junto às chamas aconchegantes dofogo e comiam frutas secas e fatias de bolo de mel e nozes, quando Ailsa oschamou da escuridão além do córrego, com uma voz estranha. Erguendo-se de umsalto assustados, eles acenderam uma tocha e foram ter com ela e as demais Kinsjunto a uma grande caverna totalmente coberta por samambaias.— Estivemos explorando a nossa caverna — Ailsa disse em voz baixa. —Costumávamos brincar aqui quando éramos crianças. Encontramos... algumascoisas dentro dela. Achamos que vocês gostariam de ver o que é.Os três companheiros seguiram-nas para o interior da caverna. A luz datocha bruxuleava sobre as paredes rochosas e o chão arenoso, mostrando osobjetos que lá se encontravam: algumas tigelas e panelas, uma caneca, algunsvelhos cobertores caídos em meio ao pó que antes fora um monte de folhas desamambaias secas, uma trouxa de roupas velhas, uma cadeira feita de galhos
  39. 39. caídos, uma tocha apagada presa à parede...— Alguém esteve morando aqui — deduziu Lief.— E não foi há pouco tempo — Barda ajuntou, apanhando um cobertor edeixando-o cair novamente numa nuvem de poeira. — Eu diria que foi há muitosanos.— Há mais uma coisa — Ailsa contou em voz baixa.Ela os conduziu de volta à entrada da caverna e afastou as samambaiasque cresciam fortes num dos lados, revelando uma pedra achatada e coberta demusgo, firmemente enterrada no chão como um marco.— Há algo escrito nela — Bruna sussurrou.Barda abaixou a tocha, e os três companheiros constataram que realmentehavia palavras cuidadosamente esculpidas na rocha.AQUI JAZ PERDIÇÃO DE HILLS,QUE ABRIGOU UM ESTRANHO DESPROTEGIDOE ASSIM FOI AO ENCONTRO DA MORTE.ELE SERÁ VINGADO.
  40. 40. — Estranho nome para ser encontrado numa lápide — Barda murmurou,lançando um olhar significativo para Lief e Jasmine. — E acompanhado por umaestranha mensagem.Perplexo, Lief olhou fixamente para as palavras.— Perdição de Hills está morto! — ele balbuciou. — Mas este túmulo éantigo... deve ter uns dez anos, no mínimo, pelo aspecto da rocha. Então o homemque conhecemos como Perdição...— É outra pessoa — Jasmine concluiu com vivacidade, o rosto corado deraiva. — Ele está usando um nome falso. Eu sabia que não podíamos confiar nele.Pelo que sabemos, ele é um espião do Senhor das Sombras.— Não seja tola! O fato de ele não usar seu nome verdadeiro não significanada — Barda resmungou. — Nós mesmos usávamos nomes falsos quando oconhecemos.— Ele tinha que manter a sua identidade em segredo. Por isso ele assumiuo nome do homem que está enterrado neste lugar — Lief concluiu.— Talvez um homem que ele traiu e assassinou — Jasmine ajuntou. —Pois ele esteve aqui, posso sentir.Barda não respondeu. Delicadamente, começou a limpar as samambaiasao redor da pedra, e Lief inclinou-se para ajudá-lo. Jasmine permaneceu parada aolado deles, o olhar frio e zangado.As três Kins olhavam sem saber o que fazer. Finalmente, Merin pigarreou ejuntou as patas.— Está claro que a nossa descoberta lhes causou sofrimento e sentimospor isso — ela disse com suavidade. — Comemos muitas folhas e tomamos águano riacho. Agora vamos nos enrodilhar e dormir. Precisamos partir amanhã cedo.Com essa deixa, ela, Bruna e Ailsa se afastaram e desapareceram naescuridão. Logo depois, Barda e Lief terminaram seu trabalho e voltaram para ooutro lado do córrego, seguidos por uma silenciosa Jasmine. Quando chegaramjunto da fogueira, as três Kins encontravam-se encolhidas e juntas, como um montede grandes pedras e, aparentemente, dormiam profundamente.
  41. 41. Lief enrolou-se no cobertor e também procurou dormir. Contudo, de repente,a floresta pareceu menos acolhedora do que antes. Um véu de tristeza pairavasobre as árvores, e ruídos podiam ser ouvidos na escuridão: o quebrar de galhos eo farfalhar de folhas, como se alguém, ou algo, os estivesse vigiando.Ele não pôde evitar pensar no homem que se chamava Perdição. Apesar doque dissera a Jasmine, ficara abalado com as palavras inscritas na lápide. Perdiçãoos ajudara e os salvara dos Guardas Cinzentos. Isso era um fato. Mas teria tudosido parte de uma conspiração maior? Uma conspiração para conquistar-lhes aconfiança? Para arrancar-lhes o segredo sobre a sua busca?... o Inimigo é esperto e astuto, e diante de sua ira e cobiça, mil anos sãoiguais a um piscar de olhos.Teria sido por acaso que Perdição reapareceu em suas vidas? Ou estariaele obedecendo a ordens?Não tinha importância. "Nós não lhe contamos nada", Lief pensou, puxandoo cobertor para mais perto de si. Mas ainda havia dúvidas que o perseguiam, a noiteparecia um peso, e a escuridão era cheia de mistério e ameaças.Nesta noite, todos bebemos água no córrego, Lief disse a si mesmo. Nãofomos drogados pela Fonte dos Sonhos e acordaremos se o inimigo se aproximar.Kree está vigilante, e Jasmine disse que as árvores acham que estamos emsegurança.Mesmo assim, ele demorou a dormir. E, quando conseguiu, sonhou comum túmulo solitário e um homem misterioso e cruel cuja face estava oculta por umamáscara. Uma névoa espessa o rodeava, ora se fechando em volta dele, ora seafastando.Quem estaria atrás da máscara? Seria o homem amigo ou inimigo?
  42. 42. Os viajantes puseram-se a caminho outra vez, uma hora antes doamanhecer. Ailsa, Bruna e Merin saltaram do topo da cachoeira, planando atravésde um estreito vale para depois ganhar altura. Elas voavam muito rápido. As horaspassadas em Kinrest pareciam tê-las enchido de novas energias.— É a água da fonte — Ailsa explicou a Lief. — Pela primeira vez, emmuitos anos, dormi sem sonhar ou, pelo menos, sem os sonhos especiais que elaproporciona. Nesta manhã, estou me sentindo jovem outra vez.— Eu, também — contou Bruna, que voava ao lado deles. — Embora eutenha ficado um pouco inquieta durante a noite. Pensei ter sentido a proximidade datribo e tive a sensação de que eles estavam tentando me dizer algo. É claro que nãopude ver ou ouvir nada e logo a impressão se foi.Ela e Ailsa não conversaram mais, mas Lief, ao observar a Montanha doMedo, que se tornava cada vez maior no horizonte, ficou preocupado. Os Kinsdevem ter tentado arduamente se comunicar com Bruna para que ela sentisse apresença deles. Teriam eles informações que precisavam contar? Notíciasalarmantes?Ele fechou os olhos e tentou relaxar. Em breve, descobriria o que aMontanha do Medo reservava para eles.Ao meio-dia, a Montanha assomava diante deles — uma massa vasta eescura que lhes enchia os olhos. A sua superfície recortada estava coberta de
  43. 43. rochas cruéis e árvores espinhentas de folhas verde-escuras. Nuvens se juntavamao redor de seu cume. Uma estrada partia sinuosa do sopé e desaparecia entre acadeia de picos mais além. A estrada para a Terra das Sombras, Lief imaginou comum frio no estômago.Era impossível ver entre as folhas das árvores densamente agrupadas e,provavelmente, os gnomos já os tinham avistado. Talvez eles estivessemescondidos, apontando flechas mortais, esperando que as três Kins ficassem aoseu alcance. Os olhos de Lief se esforçaram para vislumbrar o brilho de metal ouqualquer sinal de movimento. Ele nada conseguiu ver, mas ainda estava receoso.— Esta é a hora perigosa — Ailsa avisou. — Preciso começar a dificultar atarefa dos gnomos de fazer pontaria. Aprendi isso há muito tempo, mas é algo quenão se esquece. Segure firme!Ela começou a prescrever giros e a mergulhar no ar para, logo em seguida,arremeter para cima e cair em seguida. Ofegante, segurando-se com firmeza, Liefviu que Merin e Bruna seguiam Ailsa e executavam os mesmos movimentosrepentinos.E o momento não poderia ter sido mais oportuno. Instantes depois, aprimeira flecha disparou na direção deles, não atingindo Ailsa por um triz. Um débilcoro de gritos esganiçados veio da montanha. Lief olhou para baixo e sentiu a pelearrepiar. De repente, as rochas ficaram cobertas por criaturas de olhos fundos epele clara, todas exibindo caretas cruéis e empunhando arcos. Repentinamente,centenas de flechas dispararam na direção deles, como uma chuva mortal.Ailsa voava para baixo, para cima e para a direita desviando-se das flechas,mas sem deixar de se aproximar de seu objetivo. O grupo chegava cada vez maisperto da Montanha, até que tiveram a sensação de que as copas das árvores seapressavam ao encontro deles e que parecia impossível uma das flechas nãoatingir o alvo.— Todos os gnomos se encontram no alto, perto de sua fortaleza! — Brunagritou. — Vamos mais para baixo, amigas, para onde as árvores Boolong são maisdensas. Eles não vão se arriscar ali.
  44. 44. O ar estava tomado pelos gritos altos e estridentes dos gnomos e pelossuaves grunhidos das Kins enquanto elas dirigiam os imensos corpos numadireção ou outra. Lief pôde ouvir o bater do coração de Ailsa e, vagamente, os gritosde Barda e de Jasmine, instando Merin e Bruna a prosseguir.— Cubra o rosto — Ailsa ordenou. E, com um estrondo, ela atingiu a copadas árvores, despedaçando folhas e galhos e derrubando tudo em seu trajeto para osolo.— Lief, você está bem?Com o corpo dolorido, Lief descobriu o rosto e piscou para os olhosescuros e ansiosos de Ailsa. Ele engoliu em seco.— Estou muito bem, obrigado — ele gemeu. — Tão bem quanto se podeestar depois de passar por uma árvore espinhenta.— Não foi minha melhor aterrissagem — Ailsa concordou compreensiva. —Mas aqui não há clareiras entre as árvores Boolong. É por isso que estamos a salvodos gnomos. Eles não gostam de espinhos.Eu também não gosto muito deles — resmungou Barda, que se encontravasentado no chão ao lado de Jasmine e inspecionava vários arranhões feios nascostas das mãos. Ele se levantou e foi até um pequeno riacho que borbulhava aliperto e começou a banhar os ferimentos.Merin e Bruna haviam mergulhado entre as densas árvores retorcidas quese projetavam sobre o fio de água e puxavam, alegremente, pequenos frutosescuros de entre as folhas espinhentas, que nasciam em todos os troncos, emastigavam-nos como se fossem doces.— Então essas são as árvores Boolong — Barda comentou. — Não possodizer que sejam agradáveis. Nunca vi espinhos como esses.— Eles não nos machucam — Ailsa contou. Ela apanhou algumas dasfolhas presas ao pêlo aveludado, enfiou-as na boca e mastigou com prazer, apesardos longos espinhos afiados que nasciam em suas bordas.— Quando vivíamos aqui, não existiam tantas árvores Boolong e haviamuitas trilhas sinuosas entre elas — ela continuou com a boca cheia. — Os
  45. 45. córregos eram largos e havia clareiras por toda parte. Sem precisar nos alimentar,as árvores cresceram e se espalharam de uma forma maravilhosa. As frutas estãocheias de sementes, que é o que as torna tão saborosas.Acima deles, ouviu-se o ribombar de um trovão. Ailsa parou de mastigar,farejou o ar e correu até onde Merin e Bruna ainda se banqueteavam com os frutos.— Precisamos ir — os amigos a ouviram chamar. — Uma tempestade seaproxima. Encham as bolsas com frutos. Nós os levaremos para casa, para osoutros.— Os gnomos devem estar com a pedra — Jasmine deduziu. — Mas nãosei como poderemos escalar até a fortaleza deles por esta floresta — ela murmurou.— Se tentarmos, seremos despedaçados. Só estamos sentados aqui agora porqueas Kin esmagaram a vegetação e criaram uma clareira quando aterrissaram.— Talvez possamos abrir caminho com fogo — Lief sugeriu.Kree grasnou, Filli chilreou nervosamente, e Jasmine sacudiu a cabeça.— Isso seria perigoso demais — ela opinou. — Nunca poderíamoscontrolar um incêndio numa floresta grande como esta. E poderíamos serfacilmente queimados.As três Kins, com as bolsas abauladas pelos frutos e galhos repletos defolhas espinhentas, aproximaram-se deles com uma expressão de quem tinhadiscutido.— Viemos nos despedir — Ailsa disse. — Precisamos partir agora paraestarmos longe quando a tempestade cair. Tempestades aqui são violentas epodem durar dias.— Não deveríamos deixar nossos amigos sozinhos tão depressa — Merinexclamou. — Há muita coisa que eles desconhecem.— Merin, prometemos a Crenn que voltaríamos o mais rápido possível —Bruna lembrou, torcendo os bigodes. — Se ficarmos isoladas aqui...— Isso não vai acontecer — Merin exclamou. — Este é nosso lar. É aquique deveríamos ficar para sempre. Percebi isso quando chegamos — os olhos delabrilhavam de entusiasmo. — Deveríamos ficar e os demais podem se unir a nós. Os
  46. 46. gnomos não podem nos fazer mal aqui, na parte mais baixa da montanha.— Merin, nós pousamos com segurança por milagre — Ailsa argumentou,suspirando. — Você quer que nossos amigos corram esse perigo? Quantos vocêacha que iriam sobreviver?— E mesmo que somente metade conseguisse chegar, — Brunaacrescentou — as árvores Boolong ficariam reduzidas à quantidade normal dentrode poucos anos. As trilhas ficariam abertas novamente, os gnomos voltariam, e amatança recomeçaria.— É cruel — Merin sussurrou de cabeça baixa. — Mas Lief, Barda eJasmine perceberam que ela sabia que as amigas tinham razão.Acima deles, os trovões rugiam. Ailsa fitou o céu nervosa.— Há uma rocha enorme perto daqui — ela disse depressa. — Eu a viquando aterrissamos. Se decolarmos de lá, sairemos mais depressa. Vai ser umatarefa árdua, mas acho que somos fortes o bastante para chegar até lá.Seguidas de Lief, Barda e Jasmine, as três Kins abriram caminho entre asárvores e logo atingiram as rochas de onde se podia ver o céu aberto. Nuvensescuras se aproximavam do sul.— As nuvens irão nos esconder depois que levantarmos vôo — Ailsa disse.— E, se eu estiver certa, os gnomos não vão estar olhando para cá. Eles vão estarcom a atenção voltada mais para cima, imaginando que mais de nós irão chegar.— Então, adeus, amigas — Barda se despediu. — Nunca poderemosagradecer o que fizeram por nós.— Não precisam agradecer — Bruna respondeu. — Nós estamos maisfelizes por termos visto o nosso lar outra vez, mesmo que por tão pouco tempo.Tudo que pedimos é que vocês tenham cuidado para que possamos nos reveralgum dia.As três se inclinaram, fazendo com que suas cabeças tocassem a testa deLief, Barda e Jasmine. Em seguida, viraram-se, estenderam as asas e lançaram-separa o céu.Durante alguns momentos tensos em que as asas bateram vigorosamente,
  47. 47. elas lutaram para não cair de volta no solo. Os companheiros observavam numsilêncio ansioso, certos de que, a qualquer momento, os gnomos iriam ouvir o baterde asas, olhar para baixo, atirar...Mas tudo correu bem. Não houve gritos, tampouco flechas sendo lançadasno ar, e finalmente as Kins se estabilizaram e começaram a voar de volta. Oscontornos de seus corpos ficaram cada vez mais nebulosos à medida que asnuvens se fechavam ao redor delas. E então elas desapareceram.Barda se virou com um suspiro de alívio e começou a descer os rochedos.Lief estava prestes a segui-lo quando vislumbrou algo com o canto do olho. Eleolhou para o alto e, para sua surpresa, viu um vulto escuro emergindo vacilante dasnuvens acima de suas cabeças.— Uma das Kins está retornando — ele sussurrou. — Mas por que está tãoalto? Ah, não!Os três amigos olharam para o alto horrorizados e viram a Kin voando àscegas e entrando diretamente na linha de fogo dos gnomos. Não se tratava de Ailsa,Merin ou Bruna. Era...— Prin! — Lief gemeu aterrorizado.A pequena Kin viu a clareira de árvores quebradas criada pela ater-rissagem anterior e voou em sua direção, as asas batendo fracamente. Nomomento seguinte, ouviu-se um grito estridente e triunfante e uma gargalhada vindade um ponto mais elevado da Montanha. Algo disparava pelo ar, e Prin começou acair e a cair, cora uma flecha no peito.
  48. 48. Com gritos de horror, Lief, barda e Jasmine desceram das rochas ecorreram até a clareira. Prin lutava debilmente no chão junto ao córrego. As suasasas encontravam-se dobradas sob o corpo, e ela emitia leves e comoventes sons.Os olhos dela estavam vidrados de dor.A flecha que lhe perfurara o peito já havia caído, e a ferida que deixara erapequena, mas o veneno que a arma carregava agia rapidamente e sua terríveltarefa já estava quase concluída. Os olhos agonizantes de Prin se fecharam.— Criança tola — Barda gemeu. — Jasmine, o...— O néctar — Lief gritou no mesmo instante. Mas Jasmine já arrancava ofrasco minúsculo do pescoço e emborcava-o sobre o pequeno peito de Prin. Asúltimas gotas douradas do néctar dos Lírios da Vida caíram no ferimento. Três gotas,e nada mais.— Se isso não for suficiente, não haverá mais nada que possamos fazer —Jasmine murmurou, sacudindo o frasco para mostrar que estava vazio, rangendo osdentes enraivecida. — Ah, o que eles imaginaram que iriam ganhar abatendo-a?Eles sabiam que ela cairia aqui, onde não poderiam alcançá-la. Eles matam porpura diversão?— Parece que sim — concluiu Barda. — Você não os ouviu rir? Liefaconchegou a cabeça de Prin nos braços, chamando-a de volta à vida como, certavez, fizera com Barda nas Florestas do Silêncio, como Jasmine fizera com Kree no
  49. 49. caminho para o Lago das Lágrimas e como tinham feito com ele na Cidade dosRatos. O néctar que Jasmine havia colhido, quando ele escorria dos Lírios da Vidaem flor há tanto tempo, salvara três vidas. Poderia salvar mais uma?Prin se mexeu. Lief prendeu a respiração quando o pequeno ferimento nopeito dela começou a cicatrizar e desaparecer. Ela abriu os olhos, piscou e fitou Liefsurpresa.— Eu caí? — ela perguntou.— Prin, o que você está fazendo aqui? — Lief vociferou.Ele a viu encolher e se censurou, percebendo que caíra na armadilha depermitir que o medo e o alívio o deixassem zangado. Barda fizera o mesmo nãomuito tempo atrás, nas Dunas, e Lief havia decidido que nunca agiria da mesmaforma. "Que bela resolução!", pensou aborrecido.— Sinto muito, Prin — ele se desculpou num tom mais suave. — Não tive aintenção de gritar, mas ficamos com muito medo. Você voou até aqui sozinha?— Eu segui vocês — ela disse, fitando-o ainda desconfiada. — Não pude.suportar a idéia de perder a única oportunidade de ver a Montanha.Ela olhou ao redor da clareira, fascinada com o que via. A voz dela ficavamais forte a cada instante.— Dormi perto de vocês em Kinrest e vocês não perceberam — Prinprosseguiu alegremente. — Mas hoje elas voaram tão depressa que fiquei para trás.E eu estava tão cansada... E então vieram as nuvens e eu me perdi. Então...Os olhos dela se arregalaram de terror. Ela agarrou o peito, olhou parabaixo e abafou um grito ao constatar que não havia nenhum ferimento.— Pensei que eu tinha sido ferida — ela sussurrou. — Mas acho que foi umsonho.— Não foi sonho — Lief disse gentilmente, depois de fitar os companheiros.— Você se feriu, mas nós tínhamos... uma poção que a curou.— Você não deveria ter vindo, Prin — repreendeu Barda. O que a sua tribofaria se perdesse seu único filhote?— Eu sabia que não me perderia — Prin retrucou confiante. Ela se ergueu e
  50. 50. olhou ao seu redor. — Onde está Ailsa? — ela perguntou, balançando para cima epara baixo na ponta dos pés. — E Merin e Bruna? Elas vão ficar surpresas em mever! Elas não imaginavam que eu podia voar tão longe.Sem esperar pela resposta, ela pulou por cima do córrego e começou aremexer nas árvores do outro lado, chamando.— Prin não se deu conta de que elas partiram — Barda murmurou para Liefe Jasmine. — Está claro que ela esperava voltar para casa com elas. Ela nunca vaiencontrar o caminho de volta sozinha. O que vamos fazer com ela?— Ela vai ter que nos acompanhar — Jasmine replicou com calma.— Mas é perigoso demais! — Lief exclamou.— Ela decidiu vir para cá — Jasmine devolveu, dando de ombros. — Elaprecisa aceitar as conseqüências de seus atos. Os Kins a mimam e a tratam comoum bebê. Mas ela não é mais um bebê. Ela é jovem, mas não é indefesa. E pode serútil para nós.Jasmine fez um gesto na direção em que Prin dançava no riacho, colhiafrutos e folhas das árvores e comia vorazmente. Em instantes, a pequena Kin abriuum amplo espaço entre os espinhos.— Viu só? Ela pode nos ajudar a abrir uma trilha — Jasmine mostrou. — Seseguirmos o riacho...— Está fora de questão — Barda interrompeu com firmeza. — Eu merecuso a ser atormentado por outra criança teimosa que tem mais energia que bomsenso. Dois já são suficientes!Lief não ficou ofendido com a brincadeira impiedosa como teria ficadoantigamente, mas também não sorriu. A idéia de levar Prin até o topo da Montanhaera tão desagradável para ele quanto era para Barda.Trovões ribombavam sobre suas cabeças. A clareira ficara muito escura, eo ar estava abafado e pesado.— Antes de tudo, precisamos encontrar um abrigo — disse Jasmine. — Atempestade... — de repente, ela enrijeceu, a cabeça inclinada para o lado, e ouviuatentamente.
  51. 51. — O quê...? — Lief começou devagar.E então ele percebeu que o som do riacho ficara mais alto e aumentava acada instante. Dentro de segundos, a clareira foi invadida pela água. "Umainundação?", ele pensou, confuso. Mas ainda não chovera, e o som descia pelamontanha. Como...? Então ele se esqueceu de tudo quando viu Prin parada, muitoquieta, no meio do riacho, olhando perplexa na direção do som que se aproximava.— Prin! — ele gritou. — Saia daí! Saia daí!Prin soltou um grito agudo e saiu do córrego meio que voando, meio quesaltando, para a margem. No mesmo instante, ouviu-se um rugido, e um enormemonstro de formas humanas surgiu saltando e pousou exatamente onde a pequenaKin havia estado, não a apanhando por um triz. Rosnando por ter sido enganado eter perdido o seu prêmio, a coisa virou-se e ergueu a cabeça horripilante.— Vraal! — Prin gritou aterrorizada, enquanto tropeçava para trás,afastando-se do riacho. — Vraal!O sangue de Lief gelava nas veias quando ele apanhou a espada. Asescamas do Vraal, semelhantes às de uma serpente, de um verde desbotado comlistras amarelas, emitiam um brilho malévolo na fraca luz da floresta. O monstro eratão alto quanto Barda e duas vezes mais largo, com ombros imensos e curvados,uma cauda que se movimentava como um chicote e braços poderosos queterminavam em garras, lembrando facas recurvadas. Porém, a característica maistenebrosa do animal era que ele parecia não ter face — apenas uma massa decarne coberta de escamas e caroços, sem olhos, nariz ou boca.E então a criatura rugiu. Amassa pareceu dividir-se ao meio como uma frutaque explodia no chão quando as suas mandíbulas vermelhas se abriram mostrandoo interior vermelho. No mesmo instante, os seus olhos se tornaram visíveis —fendas alaranjadas que brilhavam por entre dobras e sulcos protetores. Ela saltoudo riacho e pousou na margem com um único movimento.Agora Lief podia ver que, no lugar de pés, a criatura tinha cascos fendidos,que se encontravam firmemente enterrados na terra úmida e macia. Eles pareciamdelicados demais para sustentar aquele corpo enorme, mas, quando o monstro
  52. 52. rugiu novamente e saltou para a frente, esse detalhe deixou de ter importância paraLief.A criatura era uma máquina assassina, isso era claro como o dia. Ela nãodeu atenção aos trovões que ribombavam sobre as árvores, e os seus olhosmalignos não abandonavam Prin.— Prin! Para baixo! — Barda grunhiu. Vendo-se obrigada a obedecer deimediato por causa do pavor, Prin jogou-se ao chão quando uma bolha voou sobrea sua cabeça na direção do Vraal. Barda havia atirado o projétil com todas as suasforças, mas a criatura saltou para o lado com velocidade surpreendente, e a bolha,sem lhe causar danos, foi esmagada de encontro a uma árvore, o veneno em seuinterior emitindo um som sibilante ao atingir o chão.Praguejando, Barda atirou outra bolha, a última de que dispunha, Lief sedeu conta aterrorizado. A pontaria do grande homem era boa, mas novamente acriatura saltou para o lado no momento exato, os cascos formando enormesburacos na terra, e pousou com firmeza em outro local longe de Prin, porém maisperto de Barda.Lief viu Prin rastejando para longe e rolando para dentro do riacho. Ela nãoestaria a salvo ali! Ele quis mandá-la correr, mas não quis que a atenção do monstrose voltasse para ela. Então, ao hesitar, percebeu que o Vraal se esqueceratotalmente da pequena Kin. Os seus olhos alaranjados pareciam queimar quandoele se voltou para encarar o homem que tentara matá-lo com o veneno dos GuardasCinzentos. O homem que agora se encontrava parado à sua frente, espada empunho.A boca sem lábios da criatura abriu-se numa careta horrenda, e ela rugiu aoestirar as garras, desafiando Barda a lutar.
  53. 53. Barda se manteve firme em sua posição. Ele sabia que se virar, dar umpasso para o lado ou mostrar medo seria fatal. Atrás dele, Lief e Jasmine seentreolharam. A Criatura movia-se como um raio. As bolhas restantes, que seencontravam em poder de Jasmine, seriam inúteis enquanto Barda se mantivesseentre ela e o inimigo. A única esperança era chegar até o outro lado sem ser vista.Sem aviso, o Vraal atacou. Barda ergueu a espada, defendendo-se, e asgarras da criatura tocaram o aço reluzente. Barda virou-se e investiu contra omonstro que, desta vez, se defendeu, atingindo a arma com um violento golpe quefez Barda cambalear.Lief saltou para o lado do amigo empunhando a própria espada. O Vraalrosnou com prazer. Dois adversários eram ainda melhor que um só. Ele não lutavahá muito tempo e era para isso que nascera.Ele sentira falta de usar suas habilidades, da alegria da batalha e dos gritosdos inimigos derrotados. Agarrar gnomos que gritavam e se retorciam quando seinclinavam no riacho para beber não era esporte. Desviar-se de flechas era fácildemais. Mas aquilo... aquilo aquecia o seu sangue enregelado.Rugindo, ele saltou na direção das duas espadas, afastando-as semesforço com um safanão, obrigando os dois fracos oponentes que as seguravam arecuar cada vez mais. Por duas vezes, as armas perfuraram a pele espessa, fatoque em nada abalou o monstro. Ele tampouco deu atenção ao pássaro preto que
  54. 54. mergulhava sobre a sua cabeça, atacava-o com o bico pontiagudo e se afastavapara arremeter novamente.O Vraal não receava a dor nem a morte. A sua mente não era direcionadapara esses pensamentos ou para qualquer tipo de pensamento, exceto um — quetodas as criaturas de outra espécie eram inimigos e deviam ser combatidas ederrotadas. Na Arena das Sombras ou ali, não importava.Em toda a vida, ele perdera somente uma luta, mas aquilo fora há muitotempo, na Terra das Sombras. O Vraal não se lembrava mais da derrota ou daperseguição que provocara o seu abandono, fazendo-o ficar vagando naquele lugar.Ele não mais se lembrava dos Guardas que o haviam acompanhado. Seus ossoscorroídos haviam desaparecido sob a terra da floresta há muito tempo. O anel deaço que pendia da parte posterior de seu pescoço era tudo o que restava de suaantiga vida. Isso e a necessidade de matar.Ele viu que o terceiro inimigo, a pequena fêmea com a adaga em uma dasmãos e o veneno dos Guardas na outra, movia-se por trás dos amigos e se afastava.Ela ia atacar pelas costas ou pela lateral. Movimentava-se devagar e com cautela.Acreditava que o Vraal, ocupado com seus companheiros, não a notaria. Estavaenganada. O monstro ia cuidar dela imediatamente.O Vraal saltou de repente e atacou. Satisfeito, viu o menor dos inimigoscambalear e sentiu o cheiro do sangue fresco e vermelho. O cheiro reavivou vagaslembranças de tempos há muito passados. O sangue dos gnomos era fino e amargo,e lembrava águas paradas. Aquilo era melhor. Muito melhor.A pequena, a fêmea, afastara-se dos demais. Onde estava ela? O Vraalabriu um de seus olhos laterais. Profundamente enterrados em sulcos de peleescamosa acima dos ouvidos, os olhos laterais não enxergavam tão bem quanto osfrontais, mas eram úteis.Ah, sim, ali estava ela. Erguendo o braço, fazendo pontaria. Era o momentode livrar-se dela. Um único golpe com a cauda... pronto!Quando a fêmea caiu, o pássaro preto que voava sobre ela grasnou, e orapaz ferido gritou — uma única palavra. O Vraal conhecia poucas palavras e nunca
  55. 55. ouvira aquela, mas ele conhecia o medo e o sofrimento quando os via. A boca domonstro abriu-se num sorriso largo e cruel.— Jasmine! — Lief chamou novamente. Mas sua amiga permaneciadeitada onde caíra, silenciosa e imóvel como a morte.Barda soltou um grito de advertência. Lief agachou-se, desviando-se dasgarras em movimento do Vraal no momento exato, tropeçou e caiu de costas,batendo no chão com força. Com dificuldade, pôs-se de joelhos. Sua cabeça doía, eo sangue escorria do profundo corte em seu braço. Ele mal conseguia segurar aespada.— Lief! — Barda chamou ofegante, saltando à sua frente e fazendo o Vraalrecuar enquanto este atacava novamente, com chutes de seus cascos duros emortais.— Vá! Fuja com o Cinturão!— Não vou deixar você! — Lief retrucou. — E Jasmine...— Faça o que lhe digo! — Barda rugiu ferozmente. — Você está ferido. Nãovai ajudar a nenhum de nós. Fuja! Agora!Barda girou a enorme espada e atacou com todas as suas forças, fazendoo monstro recuar um passo e depois outro.Lief começou a rastejar penosamente para longe. Espinhos das árvoresBoolong caídas e esmagadas perfuravam-lhe as mãos, ardendo e queimando. Eleergueu-se com esforço e deu mais alguns passos. E então parou e se virou.Era inútil fugir. Não havia para onde ir, nenhum lugar para se esconder.Quando o Vraal tivesse derrotado Barda, viria atrás dele. Certamente, era melhormorrer lutando do que encolhido atrás das árvores Boolong, prensado entre osespinhos.Um raio iluminou a clareira por um instante e revelou a cena com horrendaclareza. Barda lutava com o imenso e reluzente Vraal, Jasmine permanecia deitadano chão. E Prin... Prin andava com dificuldade no riacho, os olhos arregalados depavor, as patas dianteiras juntas diante do peito, agarrando uma porção de musgoroxo. Enquanto Lief a observava assombrado, ela estendeu as asas.
  56. 56. E então o ar explodiu com o tremendo estrondo de um trovão. A própriaterra pareceu tremer. Barda cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos. OVraal saltou, os estreitos olhos alaranjados brilhando. Com um golpe do braçoenorme, arrancou a espada das mãos do oponente. O aço reluzente girou no aruma, duas vezes, e caiu no chão fora de seu alcance, a ponta enterrada no solo. OVraal grunhiu, preparando-se para o ataque final.— Barda! — Lief chamou apavorado. Ele se aproximava com dificuldade.Mas Prin... de repente, Prin saltou para a frente e para cima direto sobre o Vraal,pousou em sua nuca e lá se agarrou, as patas cheias de musgo envolvendo-me acabeça, as asas batendo furiosamente.O Vraal rugiu e cambaleou. Suas terríveis garras agitavam-se ao redor dacabeça, agora toda lambuzada com o musgo roxo. Prin saltou para trás, caindosobre as pernas fortes e andou sem firmeza para o córrego enquanto estendia paraa frente as patas ainda sujas de musgo.— Não, Prin! Corra até as árvores! Ele vai vê-la aí! — gritou Lief. Mas eleestava enganado, pois o Vraal não podia ver nada. Ele atirava a cabeça para trás,gritando de raiva e dor.— É o musgo — Prin soluçou, lavando as patas freneticamente. — Nosseus ouvidos, nos seus olhos. É o musgo roxo! O musgo verde cura, o roxo fere.Eles me contaram. Eles me disseram tantas vezes, e é verdade.Raios iluminaram o céu, seguidos de mais trovões ensurdecedores. Então,como se o céu tivesse se partido ao meio, a chuva começou a cair torrencialmente— uma chuva dura e gelada, misturada a granizo. Barda cambaleou e foi até a suaespada aos tropeços. Lief também caiu em si e recomeçou a caminhar. No chão,Jasmine se mexeu ao ouvir os grasnados frenéticos de Kree.Porém, o Vraal estava derrotado. Com um último rugido, ele se virou e,quando Prin saltou para o lado, andou às cegas para o riacho, caiu nele e foicarregado pelas águas.Mais tarde, ensopados, exaustos e enregelados, os companheirosagacharam-se juntos no abrigo de uma pequena caverna formada por uma rocha
  57. 57. que se projetava sobre o córrego. O granizo inclemente ainda caía pesadamente dolado de fora. Eles haviam conseguido acender uma fogueira, mas até aquelemomento ela não tinha sido suficiente para aquecê-los. No entanto, nenhum delestinha vontade de se queixar.— Pensei que a nossa hora tinha chegado — Barda murmurou, acendendouma tocha. — Aquele monstro não teria parado até que todos estivéssemos mortos.Lief, como está o seu braço?— Já está muito melhor — o rapaz respondeu. Ele estava no chão,recostado à mochila. O seu braço encontrava-se envolto com o que parecia umaatadura verde, mas, na verdade, eram pedaços de musgo verde recém-tirados doriacho e presos sobre o ferimento com trepadeiras.Ao ver o efeito do musgo no Vraal e as terríveis bolhas que haviaprovocado nas patas de Prin, no início Lief não queria que ele fosse usado em suapele. Prin, contudo, lhe assegurou que o musgo verde tinha surpreendentespoderes de cura e, para prová-los, cobriu a própria pele queimada com o remédio epediu que Jasmine o prendesse com firmeza.— Muitas vezes ouvi falar sobre o musgo verde e roxo — ela contou,quando Barda ergueu a tocha para iluminar melhor a caverna. — Os gnomos ousam em seus ferimentos, e os Kins que foram atacados pelo Vraal no passadotambém foram salvos pelo musgo verde. O musgo gruda e queima somente quandoé velho e está ensopado de água, quando caiu sob as pedras que beiram o córregoe adquiriu uma cor roxa. Obviamente, não se trata de veneno, como o que osgnomos utilizam nas flechas, e ele apenas prejudica o Vraal quando passado nosolhos e orelhas. E, mesmo assim, ele se recupera rapidamente. Nosso Vraal estarápronto para lutar novamente em poucos dias.Lief fitou-a. Ela sorriu para ele, as patas envoltas em ataduras enfiadas nabolsa quente e aconchegante.— Você foi muito corajosa, Prin — ele cumprimentou. — Você nos salvou.O seu povo ficaria muito orgulhoso de você.— É verdade — Jasmine acrescentou com entusiasmo, enquanto Filli
  58. 58. chilreava para demonstrar sua aprovação.— Os Kins sempre usaram o musgo roxo para se defender dos Vraals edos Guardas Cinzentos que costumavam vir aqui em grande número — Prin contou,endireitando o corpo, claramente orgulhosa de seus conhecimentos. — Minha mãee Crenn contaram essas histórias muitas vezes.— Por que será que Ailsa, Bruna e Merin não o mostraram para nós? —Jasmine indagou séria.— Elas nunca viram um Vraal ou um Guarda Cinzento em seus sonhos —Prin informou. — Nas manhãs, falamos somente das árvores Boolong. Elaspensam que os gnomos são os únicos perigos existentes na Montanha atualmente.— Talvez seja esse o problema de sonhar — considerou Barda. — Você vêsomente o que o sonho mostra e, mesmo assim, apenas por alguns momentos. Porexemplo, o seu povo já lhe contou sobre algum viajante de nossa espécie naMontanha?— Eles dizem que ninguém vem aqui agora. E que as flechas envenenadasmantêm todos afastados.— Parece que nem todos — tornou Barda devagar. Ele virou a cabeça parao fundo da caverna e ergueu a tocha.Todos se viraram para olhar. Lief respirou fundo. Havia palavrasdesbotadas na pedra clara e lisa. Escritas, Lief tinha certeza, com sangue.
  59. 59. QUEM SOU EU? ESTÁ TUDO ESCURO.MAS EU NÃO VOU ME DESESPERAR.DE TRÊS COISAS TENHO CERTEZA:SEI QUE SOU UM HOMEM,SEI ONDE ESTIVE,SEI O QUE DEVO FAZER E,POR ORA, ISSO É SUFICIENTE.
  60. 60. Lief, Barda e jasmine olharam fixamente para as palavras rabiscadas naparede da caverna. Todos estavam imaginando o homem solitário e sofrido que,aparentemente, usara o próprio sangue para escrever a mensagem.Por que ele a escrevera? Talvez para manter a sanidade, pensou Lief.Para convencer-se de que, no pesadelo de terror e perplexidade que a sua vidatinha se tornado, algumas coisas eram reais. Que ele próprio era real.— Quem era ele? — Jasmine perguntou baixinho. — Onde ele está agora?— Morto, talvez — arriscou Barda. — Se ele estava ferido, então...— Ele não morreu aqui, pois não há ossos na caverna — Lief interrompeu.— Talvez tenha se recuperado e escapado da Montanha — Lief continuou,desejando vivamente que isso tivesse ocorrido, apesar de improvável.— Ele diz “Sei onde estive" — Jasmine murmurou. — Isso certamentesignifica que ele veio até aqui de algum outro lugar, não muito antes de escrever amensagem.— Ele pode ter vindo da Terra das Sombras, como o Vraal — Prin tentouadivinhar.— Isso é impossível. Ninguém escapa da Terra das Sombras — Bardaresmungou.Lief recostou-se na mochila, a cabeça girando. Ele sentiu a mão deJasmine em seu braço e esforçou-se para olhar para ela.

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