Emily rodda deltora quest 4 - as dunas

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Emily rodda deltora quest 4 - as dunas

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...Quando as sete pedras preciosas do mágico Cinturão de Deltora foramroubadas, o maligno Senhor das Sombras invadiu o reino e escravizou o seu povo.Determinados a livrar o reino do tirano, Lief, Barda e Jasmine saíram numa perigosabusca para encontrar as pedras perdidas agora escondidas em locais aterrorizantesem todo o reino.Eles já encontraram três pedras e agora precisam encontrar a quarta, ocultaem um deserto desolado e iridiscente, mantido zelosamente por um guardiãodesconhecido. Separação, destruição e inimigos aterrorizantes e estranhos osaguardam na horripilante experiência nas Dunas.SUMÁRIOO vôoO fruto proibidoA estrada para RithmerePerdidos na multidãoGanhar ou perderBerry, Birdie e TwigProblemasOs JogosOs finalistasO campeãoNum piscar de olhosSem escolhaAs DunasTerrorO centroO cone
  2. 2. ATÉ AGORA...Lief, de 16 anos de idade, cumprindo uma promessa feita pelo pai antesque o filho nascesse, saiu em uma grande busca para encontrar as sete pedraspreciosas do mágico Cinturão de Deltora. As pedras — uma ametista, um topázio,um diamante, um rubi, uma opala, um lápis-lazúli e uma esmeralda — tinham sidoroubadas a fim de permitir que o desprezível Senhor das Sombras invadisse o reino.Escondidas em locais assustadores por todo o reino, elas devem ser recolocadasno Cinturão antes que o herdeiro do trono possa ser encontrado, para que a tiraniado Senhor das Sombras seja derrotada.Os companheiros de Lief são Barda, um homem mais velho que já foiguarda do palácio, e Jasmine, uma garota selvagem e órfã, da idade de Lief. Os
  3. 3. dois amigos a conheceram em sua primeira aventura nas temíveis Florestas doSilêncio.Até o momento, eles encontraram três pedras: o topázio dourado, símboloda lealdade, que tem o poder de fazer os vivos entrarem em contato com o mundoespiritual e de clarear e estimular a mente; o rubi, símbolo da felicidade, cuja corperde a intensidade na presença de ameaças e que serve também para repelirespíritos malignos e como antídoto para venenos; e a opala, pedra da esperança,que oferece vagas imagens do futuro.Em suas viagens, os companheiros descobriram um movimento deresistência secreto formado por pessoas que juraram opor-se ao Senhor dasSombras. Contudo, os servos do inimigo estão em todos os lugares. Alguns, comoos brutais Guardas Cinzentos, são facilmente reconhecidos. Outros mantêm suasombria lealdade muito bem escondida.Os três amigos tiveram sorte em escapar da Cidade dos Ratos com vida.Mas, agora, estão enfrentando dificuldades na planície estéril que a cerca, poisperderam todos os seus suprimentos. A opala ofereceu a Lief uma visão terrível deseu próximo destino: as Dunas.E agora, continue a leitura...
  4. 4. Lief tinha a impressão de que ele e os amigos estavam andando ao lado dorio há séculos. No entanto, somente uma noite e parte de um dia haviam se passadodesde que ele, barda e jasmine tinham deixado a cidade dos ratos em chamas. Oleve cheiro de fumaça ainda pairava no ar, embora a cidade agora fosse somenteuma mancha no horizonte.Fazia tempo que os companheiros haviam se livrado dos pesados trajesvermelhos que os haviam salvado dos ratos, portanto caminhar se tornara umatarefa mais fácil. Porém a fome e a exaustão estavam fazendo com que a jornadaparecesse interminável, e o fato de a paisagem não mudar nunca também não osajudava. Hora após hora, os três avançavam com dificuldade pela terra nua eressequida, cercada de ambos os lados pelas águas do Rio Largo — um rio tãoextenso que eles mal enxergavam a margem oposta.Embora todos precisassem muito de descanso, sabiam que tinham deprosseguir. A coluna de fumaça que manchava o céu atrás deles parecia um sinalde seus inimigos. Era um sinal de que algo muito importante ocorrera no horripilantelugar em que a terceira pedra do Cinturão de Deltora estivera escondida. Se oSenhor das Sombras tomasse conhecimento de que ela fora roubada, seus servoscomeçariam a procurar os ladrões.E os encontrariam facilmente naquela planície deserta.Barda caminhava de cabeça baixa, lenta e penosamente, ao lado de Lief.
  5. 5. Jasmine andava um pouco mais à frente. Ela mantinha os olhos fixos no horizonte,balbuciando, vez ou outra, algo para Filli, que se aninhara no ombro dela. Elaprocurava por Kree, o corvo, que voara para longe ao raiar do dia para inspecionar aregião e procurar comida.Ele havia partido há muitas horas, o que era um mau presságio. A longaausência significava que alimento e abrigo estavam muito longe. Mas nada havia aser feito além de continuar avançando. Não havia outro caminho a seguir alémdaquele que percorriam, pois a Planície dos Ratos encontrava-se numa curva do rioe era cercada, por três lados, por águas profundas."Durante séculos, os ratos foram prisioneiros do rio, que prescrevia curvasao redor da planície", Lief pensou carrancudo. E agora eles também estavampresos.De repente, Jasmine soltou um grito alto e penetrante. Um som fraco eáspero veio em resposta.Lief olhou para cima e viu um ponto negro aproximando-se deles atravésdo azul distante. A cada momento, o ponto se tornava maior até que, finalmente,Kree voou para baixo, grasnando asperamente.Ele aterrissou no braço de Jasmine e grasnou outra vez. Jasmine escutou.Seu rosto estava inexpressivo. Finalmente, ela se virou para Lief e Barda.— Kree diz que a planície termina numa ampla faixa de água quase tãolarga quanto o rio — ela informou.— O quê? — Consternado, Lief deixou-se cair no chão.— A planície é uma ilha? — resmungou Barda. — Mas não pode ser! — Elesentou-se ao lado de Lief e deu um profundo suspiro.Kree afofou as asas e emitiu um som aborrecido e cacarejante.— Kree a viu com os próprios olhos — disse Jasmine. — Uma faixa de águaune os dois braços do rio. Segundo ele, é uma faixa muito larga, mas talvez nãofunda o bastante para nos impedir de passar. Suas águas são mais claras que as dorio, e ele pôde ver cardumes de peixes não muito longe da superfície.— Peixe! — a boca de Lief encheu-se de água ao pensar em comida
  6. 6. quente.— E fica muito longe daqui? — ele ouviu Barda perguntar.— Kree acha que podemos chegar lá amanhã se não pararmos à noite —Jasmine respondeu, dando de ombros.— Então é o que faremos — Barda retrucou, sério, erguendo-se. — Pelomenos é mais difícil sermos vistos no escuro. E, afinal, não temos comida. Nãotemos abrigo nem onde nos deitar, a não ser a terra seca. Portanto, qual avantagem de pararmos? Podemos muito bem andar até cair.Assim, na manhã do dia seguinte, eles se encontravam no fim da planície,olhando fixamente, com olhos ardentes de cansaço, para o brilhante lençol de águaque lhes bloqueava a passagem.— Isso certamente não é obra da natureza — Lief arriscou. — As margenssão retas e uniformes demais.— Elas foram cavadas por mãos humanas — Barda concordou. — E eudiria que foi há muito tempo, para criar uma barreira contra os ratos.Kree voava acima deles, grasnando excitado.— Há árvores do outro lado — Jasmine murmurou. — Árvores e outrasplantas.Sem hesitação, ela entrou na água. Seu olhar ansioso estava fixado nalinha verde e irregular adiante.— Cuidado, Jasmine! — Lief gritou.Mas ela continuou a andar sem parar ou virar-se. A água subiu-lhe àcintura, depois ao peito, mas foi só. Ela começou a avançar firmemente em direçãoà margem oposta. Barda e Lief apressaram-se em segui-la, agitando a água friacom seus passos.— Quando eu tinha a missão de mantê-lo fora de perigo nas ruas de Del,Lief, pensei que você fosse o garoto mais impulsivo e desagradável do mundo —Barda balbuciou. — Me desculpe. Jasmine é tão ruim quanto você... ou ainda pior!Lief sorriu. Então, deu um salto e gritou quando algo lhe roçou levemente otornozelo. Ele olhou para a água e viu um movimento agitado e repentino provocado
  7. 7. por vários peixes grandes que se afastavam, disparando para as sombras.— Eles não vão machucá-lo — Jasmine avisou, sem se virar.— Como você sabe? — Lief retrucou. — Eles podem estar tão famintosquanto eu. Eles...O garoto interrompeu-se quando Kree gritou e mergulhou no ar na direçãodeles, tocando levemente a água e, em seguida, elevando-se para o ar novamente.Jasmine parou atenta e então se virou bruscamente para Lief e Barda.— Algo está vindo do céu — ela disse. — Kree...Soltando gritos estridentes, o pássaro preto voou na direção deles maisuma vez, claramente aterrorizado.— O que foi? — Lief vasculhou o céu freneticamente, mas nada conseguiuver.— Algo enorme! Algo muito ruim! — Jasmine arrancou Filli do ombro eergueu no ar o minúsculo pacote de pêlo cinzento, que chilreava assustado. —Kree! — ela gritou. — Pegue Filli e escondam-se.Nesse momento, o olhar atento de Lief vislumbrou um ponto negro nohorizonte, que ficava maior a cada instante. Em segundos, ele conseguiu enxergarum longo pescoço e enormes asas em movimento.— Ak-Baba! — Barda sussurrou. — Ele viu a fumaça.O sangue de Lief pareceu gelar em suas veias. Seu pai lhe contara sobreeles — pássaros gigantes, parecidos com abutres, que viviam mil anos. Seteserviam ao Senhor das Sombras e haviam carregado as pedras do Cinturão deDeltora para os perigosos esconderijos.Obedecendo à ordem de Jasmine, Kree apanhou Filli em suas garras eafastou-se depressa para o outro lado da faixa de água. Ali, ambos poderiamesconder-se entre o capim alto ou os galhos de uma árvore.Porém Lief, Barda e Jasmine não tinham onde se esconder. Atrás delesestava a terra nua da planície e, à sua frente, uma enorme extensão de água,brilhando à luz do amanhecer.Eles avançaram com dificuldade mais alguns passos, mas sabiam que
  8. 8. aquilo de nada adiantaria. O Ak-Baba voava com incrível velocidade e estaria sobreeles muito antes que pudessem chegar a um local seguro.Ele já podia ver a fumaça da cidade em chamas. Quando enxergasse trêsintrusos esfarrapados escapando pela planície, saberia, de imediato, que se tratavade inimigos do Senhor das Sombras.Ele iria atacá-los? Ou iria simplesmente mergulhar subitamente, apanhá-loscom suas garras enormes e carregá-los até o seu mestre? De um jeito ou de outro,estavam perdidos.O único esconderijo possível era embaixo da água. E, mesmo assim, Liefsabia que tal esconderijo era inútil. Do ar, o Ak-Baba poderia vê-los tão claramentequanto Kree vira os cardumes de peixes.— Ele ainda não nos viu — Barda avisou rapidamente. — Seus olhos estãofixos na fumaça na cidade. Lief, o seu casaco!Claro! Com dedos molhados e desajeitados, Lief puxou as tiras queprendiam o casaco ao redor de seu pescoço, até que ele flutuou livremente.— Para baixo! — Barda ordenou.Todos respiraram fundo e mergulharam na água do rio, segurando ocasaco sobre eles como se fosse um toldo. Ele flutuou sobre as cabeças dos três,quase invisível na água.Os amigos fizeram o melhor que podiam, mas será que isso seria suficientepara ocultá-los do olhar penetrante do Ak-Baba? Se estivesse mais escuro, talvez.Mas, certamente, sob a luz brilhante do amanhecer, a criatura não deixaria deperceber que havia uma mancha na água diferente de todo o resto. Desconfiada,ela circulava sobre o local, vigilante, à espera...Por quanto tempo Lief, Barda e Jasmine conseguiriam prender arespiração? Mais cedo ou mais tarde, eles teriam de subir ofegantes à superfície.Então, o monstro iria atacar.Os dedos de Lief procuraram o fecho do Cinturão que usava debaixo dacamisa. O Cinturão de Deltora não deveria ser apanhado. Se necessário, ele oabriria e o deixaria cair na lama do fundo do rio. Seria melhor permanecer ali do que
  9. 9. cair nas mãos do Senhor das Sombras outra vez.Seus pulmões já não resistiam à falta de ar. Seu corpo lhe ordenava quesubisse à superfície para respirar. Algo cutucou-lhe o ombro e ele abriu os olhos.Havia peixes nadando ao seu redor — grandes peixes prateados olhando-ofixamente com olhos vidrados. Suas nadadeiras e caudas roçavam-lhe a cabeça e orosto. Eles estavam se aproximando cada vez mais.E, então, tudo escureceu. Uma enorme sombra impediu a passagem do sol.O Ak-Baba voava acima deles.
  10. 10. Lief lutou contra o pânico que ameaçava dominá-lo. A sombra do Ak-Babaescurecera a água,e ele não conseguia mais ver os peixes, mas sentia-lhes o peso.Naquele momento, dúzias deles nadavam sobre o casaco, afastando os trêscompanheiros da superfície e pressionando-os cada vez mais para baixo.A cabeça de Lief girava. Ele começou a lutar. Seu peito estava dolorido pelanecessidade de respirar. Desesperado, empurrou o casaco que se encontravasobre a sua cabeça, mas os peixes estavam de tal modo aglomerados sobre eleque mais pareciam um teto vivo e em movimento, impossível de ser rompido.Ele estava cada vez mais fraco e sentia que estava perdendo aconsciência, que sua mente afastava-se lentamente do corpo."Então, é assim que tudo vai terminar?", ele pensou. "Depois de tudo o queenfrentamos..." A imagem de seus pais atravessou rapidamente a sua mente.Naquele momento, estariam tomando o café da manhã na ferraria, talvez falando arespeito dele e de Barda."Eles nunca saberão o que aconteceu", Lief pensou. "Nossos ossos ficarãonesta lama para sempre e, com eles, o Cinturão de Deltora."Vagamente, ele sentiu cutucões insistentes nas pernas e no peito. Ospeixes chocavam-se contra ele e pareciam estar tentando empurrá-lo para cima. Eaqueles que se encontravam sobre sua cabeça afastavam-se para os lados.Com o que restava de suas forças, ele obrigou as pernas trêmulas a se
  11. 11. endireitarem. A cabeça rompeu a superfície, e ele encheu os pulmões com grandesgolfadas de ar.No princípio, Lief nada conseguiu ver, pois o casaco ainda se encontravaenvolto em sua cabeça e grudado em seu rosto. Quando ele finalmente sedesprendeu, o garoto viu, ainda atordoado, Barda e Jasmine, que se encontravamtão ofegantes e enlameados quanto ele.Aterrorizado, ele olhou para cima, mas o Ak-Baba havia passado o canalhá muito tempo e sobrevoava tranqüilamente a planície na direção da coluna defumaça.— Ele não nos viu! — disse Lief com voz rouca, tossindo. — Ele passou pornós e não nos viu! — repetiu, sem poder acreditar.— Claro — Jasmine retrucou rindo, formando uma trouxa com o casaco. —Quando ele olhou para a água, só enxergou um cardume de peixes igual aos queviu inúmeras vezes antes.Ela bateu as mãos na superfície encrespada.— Ah, peixes, vocês foram espertos — ela riu. — Souberam nos escondermuito bem.Os peixes nadaram ao redor dela, soltando bolhas preguiçosamente,parecendo muito satisfeitos consigo mesmos.— Pensei que eles estavam tentando nos afogar — Barda disse. — E, naverdade, eles só estavam nos escondendo do Ak-Baba. Vocês já ouviram falar depeixes que ajudam as pessoas?— Eles não são peixes comuns — Jasmine garantiu. — São velhos e sábios.Não gostam dos ratos que transformaram a planície de um dos lados de seu rionuma terra devastada. E também não gostam do Senhor das Sombras.— Eles contaram isso a você? — Lief indagou surpreso.— Eles não são peixes comuns — ela repetiu, dando de ombros. — Etambém falariam com você se quisesse ouvir.Lief olhou para os vultos debaixo da água e se concentrou com todas asforças. Mas tudo que conseguiu ouvir foram as ondas e o som de borbulhas.
  12. 12. — Eu deveria saber que não morreríamos no rio — ele murmurou. — Naplanície, a opala me permitiu ter uma visão, e eu me encontrava nas Dunas. Se tiverde morrer em algum lugar, será lá.Lief sentiu os olhos de Barda e Jasmine pousados nele.— A opala conta o que vai acontecer ou somente o que poderia acontecer?— Barda perguntou bruscamente.Lief deu de ombros, pois não sabia o que responder.— Precisamos continuar — Jasmine disse. — O Ak-Baba pode voltar pelomesmo caminho.Com os peixes nadando à frente deles a fim de facilitar-lhes a passagem,os três companheiros avançaram pelo canal. Quando finalmente atingiram amargem oposta, viraram-se e fizeram uma reverência em sinal de agradecimento.— Devemos nossas vidas a vocês, peixes — Jasmine disse comdelicadeza, enquanto Kree pousava em seu braço. — Somos gratos por suagentileza.Os peixes inclinaram as cabeças e se afastaram lentamente, agitando suascaudas num gesto de despedida.Kree grasnou e levantou vôo mais uma vez. Lief, Barda e Jasmine oseguiram na direção de uma árvore que crescia ao lado da água e cujos ramosverdes e cheios de folhas se curvavam, quase roçando o chão.Eles abriram caminho entre a folhagem e chegaram a uma pequenaclareira cercada por galhos pendentes de todos os lados. Era como se fosse umpequeno aposento. No centro, havia um tronco retorcido e, sentado sobre ele, Filliencontrava-se à espera de Jasmine. A criatura correu para ela e se aninhou em seuombro, chilreando satisfeito.Com um gemido de alívio, os três amigos deixaram-se cair no chão. Seusossos doloridos repousaram sobre uma espessa camada de folhas secas e macias.Acima, havia um teto verde e, ao redor deles, paredes sussurravam na brisa suave.— Salvos — murmurou Jasmine. Mas, desta vez, não foi preciso que elaexplicasse o que a árvore tinha dito, pois todos sentiam a paz que ela transmitia.
  13. 13. Em poucos momentos, adormeceram.Lief estava sozinho quando despertou. Pássaros cantavam acima dele, o arestava fresco, e estava quase escuro."O sol está se pondo", ele pensou, tremendo. "Dormi o dia inteiro."Onde se encontravam Barda, Jasmine, Kree e Filli? Lief arrastou-se até osramos pendentes que serviam de cortina ao abrigo, afastou as folhas com cuidado eespiou para fora. Assustado, deu-se conta de que o sol não estava se pondo, masnascendo. Ele não só dormira o dia todo, mas também mais uma noite.Jasmine e Barda caminhavam na direção da árvore. Lief imaginou que eleshaviam estado à procura de comida e esperou que tivessem encontrado algo. Seuestômago estava vazio, e ele se sentia como se não comesse há muito tempo. Abriucaminho entre os galhos e correu ao encontro dos amigos.— Maçãs! — Barda anunciou ao se aproximar. — Um pouco murchas, masbastante doces e matam a fome.Ele atirou uma fruta para Lief, que nela enterrou os dentes com vontade e adevorou em segundos, com sementes e tudo.— Dizem que as frutas roubadas são as mais doces — Barda riu,atirando-lhe outra maçã.— Roubadas? — Lief indagou de boca cheia.— Aquelas árvores ali fazem parte de um pomar — Barda contou,apontando o local. — Jasmine serviu-se à vontade sem se preocupar em encontraro dono e pedir permissão.— As árvores estão pesadas de tantas frutas — ela justificou. — Elas estãoimplorando para serem colhidas. E você viu como elas estão murchas. Quem iria sezangar conosco por apanhá-las?— Eu, não — Lief respondeu alegre. — A última vez em que comi umamaçã...Ele se interrompeu. De repente, a fruta doce pareceu seca em sua boca. Aúltima vez em que havia comido uma maçã, ele se encontrava em Del,banqueteando-se com os amigos no seu 16° aniversário. Foi o dia em que se
  14. 14. despediu da infância, da vida que conhecera, de seu lar e dos pais que amava.Como esse dia parecia distante agora...Jasmine o fitava com curiosidade. A expressão do garoto se enchera detristeza e, ao perceber isso, ele virou-se depressa. Jasmine vivera sozinha nasFlorestas do Silêncio, tendo somente Filli e Kree como companhia. Ela vira os paisserem levados pelos Guardas Cinzentos e enfrentara inúmeros terrores desde amais tenra infância. Lief tinha certeza de que as saudades que sentia pareceriamuma fraqueza e uma infantilidade para Jasmine.Ele deu outra mordida na maçã e ergueu-se num salto quando ouviu gritosestridentes.— Ladrões!Lief semicerrou os olhos na luz bruxuleante da manhã. Algo rolava em meioao capim alto na direção deles, soltando gritos raivosos. Quando o vulto seaproximou, Lief percebeu que se tratava de uma pequena velhinha. Ela era tãorechonchuda e estava de tal forma envolta e embrulhada em xales que pareciatotalmente redonda. Os finos cabelos castanhos estavam presos em um minúsculocoque no alto da cabeça. Seu rosto era todo enrugado e marcado, como uma maçãmurcha, e estava rubro de raiva. Ela agitava o punho no ar. Sua expressãomostrava que estava muito zangada.— Ladrões! — ela gritou. — Vagabundos! Devolvam-nas! Devolvam-nas!Os três companheiros a fitaram boquiabertos.— Vocês roubaram as minhas maçãs! — ela vociferou. — Vocês roubaramas minhas belezinhas enquanto os meus vigias dormiam. Onde elas estão?Devolvam-nas para mim.Em silêncio, Jasmine passou-lhe as três maçãs que continuavam em suasmãos. A mulher segurou-as junto ao peito e lançou-lhes um olhar feroz.— Impostores! Onde estão as outras? — ela gritou. — Onde estão asoutras seis? Todas as maçãs são numeradas. O paradeiro de todas deve serjustificado. Só assim consigo cumprir a minha cota. Vocês pegaram nove frutas, enove frutas devem ser devolvidas.
  15. 15. — Sinto muito, senhora, — Barda se desculpou, pigarreando — mas nãopodemos devolvê-las. Sinto lhe dizer que elas já foram comidas.— Comidas?!A velha senhora pareceu inchar e ficou tão vermelha que Lief temeu quefosse explodir.— Nós... nós imploramos que nos perdoe — ele balbuciou. — Estávamoscom tanta fome e...A velha mulher atirou a cabeça para trás, ergueu os braços, agitou os xalese emitiu um terrível grito estridente.Imediatamente, ela foi cercada por uma nuvem escura que zunia erodopiava.Abelhas. Milhares delas. Antes pousadas nas costas da velha senhora,amontoadas sob os xales, elas agora se atropelavam ao seu redor, esperando aordem para atacar.
  16. 16. Lief, Barda e jasmine cambalearam para trás. A nuvem de abelhasmovimentava-se como ondas e formava desenhos no ar atrás da cabeça da velhasenhora. Seu zumbido parecia o rugido ameaçador de um grande animal.— Vocês pensaram que eu estava desprotegida, não é? — gritou a velhamulher. — Vocês pensaram que poderiam me roubar sem medo. Os meus guardassão pequenos, mas são muitos e agem como se tivessem uma só mente. Vocêsencontrarão a morte em milhares de picadas para pagar pelo que fizeram.Jasmine remexia desesperadamente nos bolsos. Ela encontrou o queprocurava e estendeu a mão. Moedas de ouro e prata brilhavam sob a luz do sol.— Você aceitaria estas moedas em troca das maçãs? — ela indagou. Amulher se surpreendeu, e seus olhos se estreitaram.— Por que vocês roubam se têm dinheiro? — ela quis saber. Sua mãoenrugada estendeu-se rapidamente e apanhou as moedas.— Não! — Lief exclamou, dando um passo à frente sem pensar. — Esse étodo o dinheiro que temos! Você não pode aceitá-lo em troca de algumas maçãssecas!As abelhas investiram contra ele, zumbindo perigosamente.— Devagar, rapaz, devagar. E com delicadeza — a velha mulher cacarejou.— Meus guardas não gostam de movimentos bruscos e se zangam facilmente. Atéeu preciso usar fumaça para acalmá-los quando colho o mel de sua colméia. Até eu.
  17. 17. Ela emitiu um som suave, e a nuvem de abelhas encolheu e desapareceuquando as criaturas retornaram às dobras dos xales. Ela guardou as moedas comcuidado e lançou um olhar mal-humorado para os três.— Que isso sirva de lição para vocês — ela repreendeu. — E digam a todosos seus amigos vagabundos que não terei misericórdia dos próximos ladrões queaparecerem por aqui.Lief, Barda e Jasmine hesitaram.— Vão embora! — ela berrou, agitando o punho para eles. — Voltem para aestrada de onde vieram.— Não viemos da estrada, velha senhora! E também não somos ladrões! —Jasmine gritou.— Se vocês não vieram da estrada, então de onde vieram? — ela indagoudepois de um profundo silêncio. — Não há outro caminho para o meu pomar.Exceto...De repente, a velha estendeu a mão e agarrou a ponta do casaco de Lief.Ao sentir a umidade, ela abafou um grito, erguendo a cabeça devagar para olhar asuperfície da água e o horizonte, onde um pequeno fio de fumaça ainda se erguiasobre a Planície dos Ratos.Um olhar de medo cruzou-lhe o rosto enrugado.— Quem são vocês? — ela sussurrou, erguendo a mão logo em seguida. —Não... não me contem. Apenas vão embora. Se vocês forem vistos aqui, nemmesmo as minhas abelhas serão capazes de me proteger.— Como chegamos à estrada? — Lief perguntou apressado.— Atravessem o pomar — e indicou as árvores atrás dela. — Há um portãodo outro lado. Corram! E esqueçam o que eu disse. Não contem a ninguém queestiveram aqui.— Pode ficar sossegada — Barda garantiu. — Assim como podemos tercerteza de que você também vai esquecer que nos viu...A velha mulher assentiu em silêncio. Os três companheiros se viraram e seafastaram pela grama. Ao atingirem as árvores, escutaram um grito e se voltaram. A
  18. 18. estranha mulher se encontrava parada, redonda como uma bola, envolta numanuvem de abelhas, observando-os com atenção.— Boa sorte! — ela gritou, erguendo o braço.Os amigos acenaram em resposta e prosseguiram.— Agora, é fácil nos desejar boa sorte — Jasmine se queixou, enquantoavançavam com dificuldade entre as macieiras. — Há pouco, ela ameaçoumatar-nos com as picadas de suas abelhas. E não se ofereceu para devolver nossodinheiro.— Quem sabe que problemas ela enfrentou? — Barda comentou, dandode ombros. — Talvez ela tenha razão em suspeitar de estranhos. Exceto pelasabelhas, ela parece estar totalmente só aqui.— Ela falou de uma "cota" que deveria ser preenchida — Lief acrescentoudevagar, ao atingirem o fim do pomar e atravessarem o portão que conduzia a umatrilha sinuosa e ladeada de árvores. — Parece que ela precisa cultivar umdeterminado número de maçãs.— Ou fazer algo com elas — Barda concluiu. Ele fechou o portão atrás desi e mostrou, com um gesto de cabeça, a placa presa a um pedaço de madeiravelha.— A sidra Abelha Rainha era uma bebida muito apreciada entre os
  19. 19. guardas e acrobatas quando eu vivia no palácio de Del — Barda informou. — Eladava energia extra a quem a bebesse. Parece que ela é produzida aqui, por aquelanossa amiga que, sem dúvida, é a própria Abelha Rainha.— Gostaria que ela nos tivesse oferecido um copo ou dois antes de nosmandar embora — Lief desejou, suspirando.De fato, todos estavam cansados e desanimados, arrastando-se ao longoda trilha e falando em voz baixa. Eles sabiam que seu próximo objetivo eram asDunas. Mas como chegariam até elas era um mistério.Na mente dos três, vagueava o pensamento de que não tinham dinheiro,comida, cobertores nem mochilas — nada além do mapa que o pai de Lief haviadesenhado, das armas e das roupas maltrapilhas em seus corpos."Temos também o Cinturão de Deltora", lembrou Lief. Mas o Cinturão, comtodo o seu poder, com as três pedras que agora brilhavam em seus lugares, nãolhes podia encher os estômagos ou abrigá-los do mau tempo.— A opala oferece imagens do futuro — Jasmine disse após um momento.— Certamente ela poderá nos mostrar o que vai acontecer, não é mesmo?Porém Lief não estava disposto a tocar a pedra. A visão que tivera dasDunas ainda o perseguia, e ele não desejava reviver a experiência.— Não precisamos ver o futuro para saber que precisamos de ajuda— ele disse, olhando para a frente. — Precisamos de suprimentos e de umlugar seguro para descansar um pouco. Vamos nos concentrar nisso por enquanto.Ele esperou que Jasmine fosse discutir, mas, quando olhou para ela derelance, viu que ela tinha parado de ouvi-lo e que outra coisa lhe chamava aatenção.— Escuto o barulho de carroças e passos — ela anunciou finalmente.— Vozes também. Há uma estrada mais larga adiante.E, de fato, alguns minutos depois, a trilha sinuosa encontrou uma estradareta e larga. Com cautela, os amigos olharam para ambos os lados. Uma carroçapuxada por um cavalo aproximava-se pela direita, acompanhada por vários homense mulheres que caminhavam ao seu lado.
  20. 20. — Parece que há outras pessoas que vão pelo mesmo caminho que nós —Barda sussurrou. — Elas parecem bastante inofensivas, mas talvez seja prudenteesperar que passem. Não podemos nos dar ao luxo de responder a muitasperguntas até que estejamos bem longe daqui.Os companheiros agacharam-se entre as árvores e observaram a carroçase aproximar. Era um veículo acabado e frágil, e o cavalo que o conduzia estavavelho e cansado. Mas as pessoas, tanto as que viajavam na carroça quanto as quecaminhavam ao seu lado, conversavam e riam como se tudo corresse às milmaravilhas.Lief ouviu o nome Rithmere sendo repetido várias vezes enquanto acarroça passava. Estava claro que Rithmere era uma cidade e que as pessoasestavam ansiosas para chegar até lá. Ele ficou animado.— Acho que há um festival ou uma feira nessa tal de Rithmere — elesussurrou.— Um festival nestes dias? — resmungou Barda. — Acho que não. Mas,mesmo assim, se Rithmere fica à esquerda desta estrada, fica no caminho dasDunas. E uma cidade é do que precisamos. Quanto maior, melhor.— Por quê? — Jasmine, que preferia o campo aberto, indagou em vozbaixa.— Numa cidade, podemos nos misturar à multidão e ganhar dinheiro paranovos suprimentos. Ou mendigar por eles.— Mendigar? — Lief exclamou horrorizado.Barda o fitou com um sorriso triste no canto da boca.— Há momentos em que devemos deixar o orgulho de lado por uma boacausa — ele justificou.Lief balbuciou um pedido de desculpas. Como pôde esquecer que Bardapassara anos disfarçado de mendigo em Del?Quando a carroça estava a uma distância considerável, os companheirossaíram do esconderijo entre as árvores e começaram a segui-la. Não haviamandado muito quando Lief viu algo jogado no chão.
  21. 21. Era um folheto. Curioso, ele o apanhou.CAMPEÃOJOGOS DE RITHMEREVenham, venham todos!Testem a sua força ehabilidade!100 moedas de ouro para cada finalista!1.000 moedas de ouro para o grande vencedor!!!Lief mostrou o folheto a Barda e Jasmine. Seu coração batia muito forte,excitado.— Aqui está a resposta! — ele disse. — Esta é a nossa chance de ganhar odinheiro de que precisamos, ou mais! Vamos participar dos Jogos. E vamos ganhar!
  22. 22. Dias depois, quando Rithmere finalmente se aproximava, Lief já não estavatão esperançoso. A jornada tinha sido longa e exaustiva, e ele sentia muita fome. Aspoucas frutas silvestres que cresciam na beira da estrada foram toda a comida queos amigos haviam conseguido encontrar. Viajantes que passaram por ali antesdeles haviam deixado os arbustos praticamente nus.Quanto mais caminhavam, mais cheia de gente a estrada se tornava.Muitas outras pessoas se dirigiam a Rithmere, algumas tão mal preparadas para aviagem quanto Lief, Barda e Jasmine, com roupas em farrapos e pouco ou nadapara comer. Outras, famintas e exaustas, caíam na beira da estrada desesperadas.Os três amigos conseguiram continuar caminhando, parandofreqüentemente para descansar e conversando com os outros viajantes o menospossível. Embora se sentissem mais seguros estando ocultos em meio à multidão,ainda achavam mais sensato evitar perguntas sobre o local de onde tinham vindo.Entretanto, mantiveram os ouvidos abertos e, rapidamente, descobriramque os Jogos ocorriam já há dez anos. Sua fama havia crescido e se espalhado, econcorrentes esperançosos vinham de todos os lugares em busca de fortuna emRithmere. Os amigos também descobriram, aliviados, que os Guardas Cinzentosraramente eram vistos na cidade durante a realização dos Jogos.— Eles sabem que é melhor não interferir em algo de que o povo gostatanto — Lief escutou uma mulher alta e ruiva dizer ao companheiro, um homem
  23. 23. gigantesco cujos músculos pareciam querer saltar da camisa esfarrapada quandoele se abaixou para amarrar os cadarços das botas.— Mil moedas de ouro — o homem murmurou. — Ou mesmo cem! Pensena diferença que isso iria fazer para nós e para todos lá em casa. — Ele terminou dedar o laço, ergueu-se e rangeu os dentes, observando a cidade ao longe. — Nesteano, seremos pelo menos finalistas, Joanna. Tenho certeza.— Você está mais forte do que nunca, Orwen — a mulher concordouafetuosa. — E eu também tenho boas chances. No ano passado, não presteiatenção o bastante. Deixei aquela bruxa da Brianne, de Lees, me fazer tropeçar.Isso não vai acontecer outra vez.Orwen envolveu-lhe os ombros com o braço enorme.— Você não pode se culpar por perder para Brianne. Afinal, ela acabou setornando campeã. Ela é uma grande lutadora. E pense no quanto o povo de Lees seesforçou para prepará-la.— Dizem que ela foi tratada como uma rainha — Joanna comentou amarga.— Comida especial, nenhum dever além de treinar. Seus conterrâneos acreditaramque ela seria a sua salvação. E o que ela fez? Fugiu com o dinheiro assim que oteve nas mãos. Você acredita numa coisa dessas?— É claro — o homem replicou sombrio. — Mil moedas de prata é umagrande fortuna, Joanna. São poucos os campeões dos Jogos que voltam para suascidades depois que vencem. A maioria não quer dividir sua riqueza, então foge comela a fim de iniciar uma nova vida em outro lugar.— Mas você nunca faria isso, Orwen — Joanna protestou com firmeza. — Eeu também não. Eu nunca deixaria o meu povo na pobreza se pudesse ajudá-lo. Eupreferiria me atirar nas Dunas.Lief gelou ao ouvir as últimas palavras e olhou para Jasmine e Barda a fimde verificar se eles tinham ouvido.Joanna e Orwen continuaram a andar, ombro a ombro, sobressaindo-seem meio à multidão.— O fato de ela mencionar as Dunas não quer dizer nada, Lief. — Barda
  24. 24. garantiu em voz baixa, observando o casal. — As Dunas são tão temidas por quemvive nestas paragens quanto as Florestas do Silêncio pelo povo de Del.Sua expressão estava severa e profundamente marcada pela exaustão.— Agora, é mais importante decidir se vamos perder o nosso tempotentando competir com pessoas como Joanna e Orwen. No estado em que nosencontramos...— Precisamos tentar — Lief murmurou, embora ele próprio estivesse muitodesanimado.— Não adianta falar disso agora — Jasmine interrompeu impaciente.— Quer participemos dos Jogos ou não, precisamos entrar na cidade.Precisamos conseguir comida mesmo que tenhamos de roubá-la. O que maispodemos fazer?Rithmere fervilhava, cheia de pessoas. Barracas cobriam as laterais dasruas estreitas, próximas umas das outras, preenchendo todos os espaçosdisponíveis, enquanto seus donos ofereciam, aos gritos, o que tinham para vender evigiavam suas mercadorias com olhos de águia.O barulho era ensurdecedor. Músicos, dançarinos, comedores de fogo emalabaristas apresentavam-se em todas as esquinas, seus chapéus no chão parareceber as moedas atiradas pelos passantes. Alguns tinham animais — cobras,cachorros e até ursos dançarinos, além de criaturas estranhas que os três amigosnunca tinham visto antes — para ajudá-los a atrair atenção.O barulho, os cheiros, as cores vivas e a confusão fizeram Lief, já fracodevido à fome, sentir-se mal. Os rostos na multidão pareciam agigantar-se, e eleavançava com dificuldade. Reconheceu algumas pessoas da estrada, mas amaioria lhe era estranha.Em todos os lugares, havia vultos curvados de mendigos, faces magrasvoltadas para cima, com uma expressão suplicante, e mãos estendidas. Algunseram cegos, a outros faltava algum membro. Outros simplesmente passavam fome.A maioria das pessoas não lhes dava atenção, passando por cima deles como sefossem pilhas de lixo.
  25. 25. — Ei, garota! Você com o pássaro preto! Aqui!O grito rouco tinha vindo de algum lugar muito próximo. Eles procuraram aoredor, assustados.Um homem gordo, com cabelos longos e sebosos, acenava para Jasminecom insistência. Os três companheiros avançaram lentamente em meio à multidãona direção dele, imaginando o que ele queria. Quando se aproximaram,constataram que se encontrava sentado diante de uma pequena mesa coberta poruma tolha vermelha que chegava ao chão. Atrás dele, encostadas à parede,estavam duas muletas. Sobre a mesa, havia um poleiro, um cesto com pássaros demadeira e uma roda decorada com desenhos coloridos de pássaros e moedas.Era evidente que se tratava de algum tipo de jogo.— Gostaria de ganhar algum dinheiro, queridinha? — o homem gritou parase fazer ouvir no barulho da multidão.Jasmine franziu a testa e nada respondeu.— Ela não pode jogar — Lief gritou de volta. — A menos que seja de graça.— Desse jeito, como eu ganharia a vida, meu jovem rapaz? — o homemresmungou. — Não, não. Uma moeda de prata para um giro da roda, esse é o meupreço. Mas não estou convidando a sua amiga a jogar. Ninguém pode jogar no
  26. 26. momento. Meu pássaro acaba de morrer. Viu? — Ele tinha erguido um pombomorto pelos pés e balançava-o diante de seus narizes.Jasmine encarou-o com expressão dura. O homem fez uma careta depesar.— Triste, não é? — ele disse. — Triste para Beakie-Boy, mais triste aindapara mim. Preciso de um pássaro para girar a roda. Esse é o jogo. Vença o pássaro,entendeu? Tenho outros dois pombos em meu alojamento, mas, se eu for buscá-losagora, vou perder meu lugar e a metade dos rendimentos de um dia. Não possodeixar isso acontecer, certo?Seus olhos miúdos estreitaram-se ao examinar Jasmine de cima a baixo.— Você e seus amigos parecem estar precisando encher os estômagoscom uma boa refeição — ele continuou matreiro. — Pois bem, eu vou ajudá-los.Ele jogou o pombo morto no chão, chutou-o para debaixo da mesa eapontou Kree.— Eu compro o seu pássaro. Quanto você quer por ele?
  27. 27. Kree não está à venda — Jasmine respondeu com firmeza, sacudindo acabeça. Ela se virou para partir, mas o homem gordo agarrou-a pela manga docasaco.— Não vire as costas para mim, queridinha — ele se queixou. — Não vire ascostas para o pobre e velho Ferdinand, por misericórdia.Kree inclinou a cabeça para o lado e observou o homem com cuidado.Então, pulou na mesa e saltou diretamente para ele, inspecionando-o com atenção,a cabeça virando de um lado para o outro. Após alguns instantes, ele grasnou alto.Jasmine olhou para Lief e Barda e novamente para Ferdinand.— Kree quer saber quanto nos daria por sua ajuda no dia de hoje? — elafalou.— Ele fala com você, é? — o homem gordo riu, sem acreditar. — Bem, issoé algo que não se vê todos os dias.Ele tirou uma latinha do bolso, abriu-a e tirou uma moeda de prata.— Diga-lhe que eu lhe darei isto se ele girar a roda até o pôr-do-sol. É osuficiente para ele?Kree voou de volta para o braço de Jasmine e grasnou novamente. Elaassentiu, devagar.— Por uma moeda de prata, Kree vai girar a roda 30 vezes. Se quiser queele trabalhe mais, terá de pagar novamente.
  28. 28. — Isso é um roubo! — Ferdinand exclamou.— É o preço dele — Jasmine retrucou com calma.A expressão de Ferdinand se entristeceu, e ele enterrou o rosto nas mãos.— Ah, você é uma garota cruel! Cruel com um pobre infeliz que tentaganhar a vida — ele se lastimou. — Minhas últimas esperanças se foram. Eu emeus pássaros vamos morrer de fome — seus ombros foram sacudidos pelossoluços.Jasmine deu de ombros, aparentemente indiferente. Lief, vendo as muletasde Ferdinand encostadas à parede, sentiu-se incomodado.— Você foi muito dura, Jasmine — ele sussurrou ao ouvido dela.— Você não poderia...?— Ele está representando. Ele pode pagar dez vezes o que ofereceu— Jasmine sussurrou em resposta. — Kree diz que ele tem uma bolsapresa ao cinto estourando de moedas. A toalha que cobre a mesa a esconde denós. Espere só para ver.E, de fato, após alguns instantes, o homem gordo espiou por entre os dedose se convenceu de que Jasmine não iria mudar de idéia. Parou de fingir e de soluçare tirou as mãos do rosto.— Muito bem — ele disparou, num tom de voz totalmente diferente. —Para um pássaro, até que ele é um bom negociante. Coloque-o no poleiro.— Primeiro o dinheiro, por favor — Barda disse depressa. Ferdinandlançou-lhe um olhar zangado e, com suspiros e gemidos, entregou a Jasmine amoeda de prata que tirara da lata. Satisfeito, Kree esvoaçou até o poleiro.— Saiam daí, vocês três — Ferdinand ordenou bruscamente. — Abramcaminho para os clientes.Os companheiros obedeceram, mas permaneceram nas proximidades afim de observar o que ocorria. Nenhum deles confiava em Ferdinand. O cheiro decomida que flutuava no ar, vindo de uma barraca próxima, fez com que Lief ficassecom água na boca, mas ele sabia que não podiam comprar nada com a moeda deprata até que Kree tivesse retornado à segurança do braço de Jasmine.
  29. 29. — Venham, venham! — Ferdinand chamava. — Vençam o pássaro eganhem! Uma moeda de prata por um giro da roda! Todos os jogadores ganham umprêmio.Uma pequena multidão se aglomerou ao redor da mesa quando o homemcomeçou a apontar os números das moedas pintadas em volta da roda.— Duas moedas de prata por uma! — ele gritava. — Ou vocês preferemtrês moedas? Ou quatro? Sim, senhoras e senhores, garotos e garotas. Quatromoedas em troca de uma!As pessoas começaram a procurar moedas em seus bolsos. A mãorechonchuda de Ferdinand movia-se em volta da roda, o dedo apontando umnúmero após outro.— Mas por que parar em quatro? — ele gritou. — Hoje é o seu dia de sorte!Ora, vocês podem ganhar cinco, seis ou até dez moedas! — ele puxou os cabelos,revirou os olhos e sua voz tornou-se esganiçada. — Dez moedas de prata por uma!Prêmios para todos os jogadores! Por que estou fazendo isso? Devo estar ficandolouco!Várias pessoas se empurravam, estendendo o dinheiro. Lief moveu-seinquieto.— Talvez devêssemos usar a moeda no jogo — ele murmurou para Barda.— Poderíamos dobrar o nosso dinheiro. Ou ganhar bem mais!— Ou, o que é mais provável, poderíamos perder a moeda e acabar comum pássaro de madeira inútil — Barda retrucou, sorrindo para ele com pena. — Se aroda parar num pássaro e não numa moeda...Lief não se convenceu, especialmente quando viu Kree girar a roda pelaprimeira vez, batendo nela fortemente com o bico e fazendo com que se movessesuavemente por alguns instantes. A jogadora, uma mulher de olhar ávido e cabelosesvoaçantes, que observava com ansiedade, gritou deliciada quando a roda parou,e o marcador mostrou que ela ganhara duas moedas.— Ela venceu o pássaro! — gritou Ferdinand, remexendo em sua lata dedinheiro e entregando o prêmio à mulher. — Oh, tenham pena de mim! — ele se
  30. 30. voltou para Kree e agitou o punho. — Tente com mais afinco! — ele ameaçou. —Você vai me arruinar!A multidão riu. Outro jogador se adiantou, e Kree girou a roda mais uma vez.O segundo jogador teve ainda mais sorte do que o primeiro e ganhou três moedas.— Esse pássaro é um caso perdido! — Ferdinand uivou desesperado. —Oh, o que farei?Depois disso, Ferdinand precisou de muita agilidade e rapidez parareceber o dinheiro dos clientes, pois as pessoas amontoavam-se em frente à mesae esperavam ansiosas a sua vez de jogar.Kree girou a roda repetidas vezes. Mas ninguém mais teve a sorte dos doisprimeiros jogadores, não se sabe por quê. A roda parava na figura de pássaro comfreqüência cada vez maior, e o desapontado jogador se afastava levando umpássaro de madeira. O marcador indicou a figura de moeda somente poucas vezese, quando isso ocorreu, a moeda exibia o número 1 ou o 2.Sempre que isso acontecia, Ferdinand fazia um enorme estardalhaço,cumprimentava o vencedor, dizia que estava arruinado, gritava com Kree por nãosaber girar a roda e anunciava que, da próxima vez, o prêmio seria ainda maior.Contudo, a pilha de moedas de prata na caixa de dinheiro aumentava. Devez em quando, Ferdinand pegava algumas e enfiava-as na bolsa presa ao cinto.Mesmo assim, os jogadores empurravam-se uns aos outros, ansiosos por tentar asorte.— Não é de surpreender que a bolsa dele esteja estourando — Jasminesussurrou aborrecida. — Por que essas pessoas lhe dão dinheiro? É evidente quealgumas são muito pobres. Será que elas não vêem que ele ganha muito mais doque elas?— Ferdinand faz estardalhaço somente quando os jogadores ganham —Barda comentou com severidade. — Os perdedores são ignorados e rapidamenteesquecidos.Jasmine fez uma careta de desagrado.— Kree girou a roda 29 vezes — ela disse. — Mais uma e podemos
  31. 31. buscá-lo. Não quero continuar com isso. Não gosto de Ferdinand nem de sua roda.Vocês concordam?Barda assentiu, e Lief fez o mesmo. Por mais que precisassem de dinheiro,nenhum deles queria continuar ajudando Ferdinand.Barda apontou para uma faixa presa no alto de um edifício, um pouco maisadiante.— Acho que encontraremos abrigo e comida ali — ele sugeriu. — Talvezeles nos deixem trabalhar para pagar pela estadia. Pelo menos, podemos tentar.Kree girou a roda pela última vez. O jogador, um homem de rosto magrocom profundas olheiras, observou-a desesperado, à medida que desacelerava.Quando a roda parou na figura de um pássaro, e Ferdinand lhe entregou abugiganga de madeira, sua boca tremeu, e ele se afastou furtivamente, os ombrosossudos curvados.Jasmine aproximou-se da mesa e estendeu o braço para Kree.— As 30 voltas foram dadas, Ferdinand — ela informou. — Agora,precisamos ir.Porém Ferdinand, com sua face gorducha brilhando de suor e avidez,voltou os olhinhos para ela e sacudiu a cabeça com violência.POUSADA OFICIAL DOS JOGOS• Cama e comida• Somente para participantes• Preços excepcionais!
  32. 32. — Você não pode ir — ele disparou. — Preciso do pássaro. Ele é o melhorque já tive. Veja essa multidão! Você não pode levá-lo.Ele estendeu o braço como um raio e tentou agarrar os pés de Kree. Opássaro, porém, voou do poleiro a tempo e pousou na beira da mesa.— Volte para cá — Ferdinand rosnou, tentando apanhá-lo.Kree inclinou a cabeça e, com o bico afiado, puxou a toalha vermelha quecobria a mesa. Nesse momento, a multidão espantou-se e logo começou a rugirenraivecida, pois, no chão, sob a mesa, havia um pedal e alguns fios que subiamaté o topo e estavam ligados à roda.— Ele pode parar a roda e fazê-la girar conforme sua vontade! — alguémgritou. — Ele usa os pés, viram? É um trapaceiro!A multidão aproximou-se, furiosa. Kree saltou depressa para o braço deJasmine. Ferdinand agarrou a roda, ergueu-se de um salto e pulou sobre a mesa.Os pássaros de madeira e a lata de moedas caíram no chão quando ele saiu emdisparada, correndo com uma rapidez surpreendente, levando a roda sob o braço earrastando os fios trapaceiros. Alguns dos clientes pararam para apanhar o dinheiroque caía por todos os lados. A maioria disparou em perseguição ao fugitivo,gritando furiosamente.
  33. 33. Lief observou a cena boquiaberto.— Ora vejam só, não há nada de errado com as pernas de Ferdinand! —exclamou. — Ele deixou as muletas para trás... e está correndo!— Um trapaceiro a toda prova — Barda resmungou. — Espero que seusclientes o peguem. Felizmente, eles não culparam Kree e não se voltaram contranós.— Ainda bem que você obrigou Ferdinand a nos pagar adiantado —Jasmine murmurou. Ela examinava a estrada à procura de moedas. Mas a multidãolimpara o chão, e tudo o que a garota encontrou foi um pássaro de madeira. Ela oapanhou e enfiou no bolso com os demais tesouros. Para Jasmine, tudo era útil, pormenor que fosse.Guiados pela faixa que ondulava acima da multidão, eles se dirigiram àPousada do Campeão. Atravessaram a porta e, para sua surpresa, viram-se numpequeno aposento fechado. Uma senhora rechonchuda, que usava um vestidoverde enfeitado com muitos babados e fitas, surgiu detrás de um balcão e caminhouaté eles. Ela tinha, preso à cintura, um punhado de chaves, que tilintavamostensivamente.— Bom dia! — cumprimentou em voz alta e amigável. — Eu sou MãeBrightly, a proprietária. Por favor, me perdoem, mas, antes que eu lhes dê asboas-vindas, preciso saber se são participantes dos Jogos.
  34. 34. — Queremos ser — Barda começou com cautela. — Mas somos estranhosnestas paragens e não sabemos o que fazer para participar.— Pois então vieram ao lugar certo! — Mãe Brightly anunciou. — Esta é apousada oficial dos Jogos. Aqui vocês podem se inscrever e ficar até amanhã,quando os Jogos começam.Os companheiros trocaram olhares. Tudo parecia maravilhoso, mas...— Temos somente uma moeda de prata — Barda admitiu relutante. —Esperávamos poder trabalhar para pagar nossa estadia.A mulher agitou as mãos e sacudiu a cabeça.— Trabalhar? Claro que não! — ela exclamou. — Vocês precisam édescansar e comer para estar em ótima forma para os Jogos. Se vocês só têm umamoeda de prata, uma moeda de prata é o preço que pagarão. Na Pousada doCampeão, os participantes só pagam o que podem.Antes que os três amigos pudessem dizer mais alguma coisa, ela voltoudepressa para o balcão, sinalizando para que a seguissem. Sentou-se, abriu umgrande livro e apanhou uma caneta.— Nome e cidade? — perguntou com vivacidade, fitando Barda. Liefprendeu a respiração. Ele, Barda e Jasmine haviam decidido que seria imprudentedar os verdadeiros nomes quando se inscrevessem nos Jogos, mas nãoimaginaram que teriam de pensar em nomes falsos tão depressa.Mãe Brightly esperava, a caneta em posição e as sobrancelhas erguidas.— Ah... eu me chamo... Berry. De Bushtown — balbuciou Barda. A mulherescreveu, mostrando uma expressão intrigada.— É a primeira vez que ouço falar de Bushtown — ela comentou.— Fica... no norte — Barda explicou. — Meus amigos, Birdie e... e Twig...também são de lá.Ele olhou nervosamente para Jasmine e Lief, que o fitavam com insistência,mas Mãe Brightly assentiu com um gesto e escreveu depressa, aparentementesatisfeita.— Agora, — disse ela, levantando-se com o livro sob o braço — queiram
  35. 35. me seguir.Tudo aconteceu muito depressa. Um tanto atordoados, Lief, Barda eJasmine seguiram-na para outro aposento, no qual havia várias balanças, umarégua comprida e um grande armário.— Por favor, entreguem-me as suas armas — Mãe Brightly pediu,apanhando uma chave do chaveiro preso à sua cintura e abrindo o armário. Então,diante da hesitação dos companheiros, ela bateu palmas com vigor e ergueu a voz.— Vamos, entreguem! É proibido andar armado na Pousada do Campeão.De má vontade, Lief e Barda soltaram as espadas, e Jasmine entregou aadaga que usava presa ao cinto. Mãe Brightly trancou as armas no armário com umgesto de aprovação.— Não tenham medo — ela os confortou mais calma. — Elas estarão bemseguras aqui e serão devolvidas antes de partirem. Agora... as suas medidas.Ela pesou Lief, Barda e Jasmine, mediu-lhes a altura e anotou todos osdetalhes em seu livro. Sentiu-lhes os músculos e examinou-lhes as mãos e os péscom atenção. Então, fez um sinal de assentimento satisfeita.— Vocês precisam de comida e descanso, meus queridos, mas, fora isso,são fortes e devem se sair bem — ela garantiu. — Foi o que pensei quando os vipela primeira vez. Uma última pergunta. Quais são seus talentos especiais?Ela aguardou, inclinando a cabeça para o lado. Lief, Barda e Jasmine seentreolharam, pois não tinham muita certeza do que a mulher estava falando.— Eu... sei escalar — disse Jasmine, hesitante. — Posso me equilibrar emlugares altos, balançar, saltar...— Excelente, Birdie! — disse Mãe Brightly, escrevendo "AGILIDADE" aolado do nome falso de Jasmine. Ela se voltou para Barda. — E você, Berry?Deixe-me adivinhar. O seu talento é a força, acertei?Barda deu de ombros e assentiu. A mulher exibiu uma expressão exultantee tomou nota outra vez. Então, olhou para Lief.— E quanto a Twig? — indagou.Lief sentiu o rosto se aquecer e soube que estava enrubescendo. O que
  36. 36. passara pela cabeça de Barda para dar-lhe um nome tão absurdo? E qual era o seutalento especial? Ele não tinha certeza se dispunha de algum.— Velocidade — Barda respondeu depressa. — Meu amigo parece terasas nos pés. Salta, esquiva-se e corre como ninguém.— Perfeito! — Mãe Brightly gritou, escrevendo "VELOCIDADE" ao lado donome "Twig, de Bushtown". -Agilidade, força e velocidade. Ora, vocês três juntosdevem formar uma equipe e tanto. Agora, esperem aqui um momento. Eu já volto.Ela deixou o aposento afobada. Os companheiros se entreolharam,confusos com a súbita mudança em sua sorte.— Não é de espantar que todo mundo venha a Rithmere — Lief comentouem voz baixa. — É estranho que o povo de Deltora não esteja aqui. Afinal, nomínimo, é possível conseguir cama e comida de graça por um tempo.— Contanto que estejam dispostos a competir — Barda sussurrou emresposta. — Tenho a sensação de que esses Jogos devem ser mais difíceis oumais perigosos do que imaginamos.— Nenhuma corrida de velocidade ou de obstáculos pode ser maisperigosa do que as aventuras que vivemos — Jasmine murmurou. — O mais difícilnesta história será lembrar os nomes idiotas que você escolheu para nós, Barda.— Sim — Lief concordou. — Twig! Você não conseguiu pensar em nadamelhor?— Fui pego de surpresa e disse as primeiras coisas que me vieram àcabeça — Barda resmungou. — Se tivesse hesitado, ela saberia que eu estavamentindo.Nesse momento, Mãe Brightly voltou ruidosamente ao aposento trazendotrês faixas coloridas de tecido — uma vermelha, uma verde e outra azul. Elaamarrou a vermelha no pulso de Barda, a verde no pulso de Lief e a azul emJasmine. Seus nomes falsos haviam sido escritos nelas, além de seu peso e altura.— Não tirem as faixas nem mesmo para dormir — Mãe Brightly aconselhou.— Elas indicam que vocês são participantes oficiais, mostram o seu talento especiale lhes dão direito a comida, bebida e entrada nos Jogos. Agora... tenho certeza de
  37. 37. que vão querer comer e descansar após a viagem. A moeda de prata, por favor.Jasmine entregou-lhe a moeda e, em troca, recebeu uma chave com umaetiqueta de número 77.— Essa é a chave para o quarto de vocês — a mulher explicou. — De fato,um número de sorte. Guardem-na bem.Quando eles fizeram um gesto de as sentimento, ela hesitou, mordiscandoo lábio inferior, como se tentasse decidir algo. Então, de repente, olhou para tráspara certificar-se de que estavam a sós e inclinou-se na direção deles, com umfarfalhar de babados verdes.— Olhem bem... eu não digo isso a todos os participantes, mas vocês nãoconhecem os Jogos, e eu gostei de vocês — ela sussurrou. — Não confiem emninguém, por mais simpáticos que sejam. E mantenham a porta trancada sempre,principalmente à noite. Não queremos nenhum... acidente.Ela colocou o dedo sobre os lábios, virou-se e saiu apressada, sinalizandopara que a seguissem.Curiosos, eles a seguiram por um corredor até um amplo salão de refeiçõesonde várias pessoas com faixas coloridas nos pulsos comiam e bebiam com gosto.Muitos dos presentes ergueram o olhar e os fitaram, os rostos cheios de curiosidade,desafio, desconfiança ou ameaça. A maioria era muito grande e pareciaextremamente forte, embora também houvesse alguns homens e mulheresmenores e mais magros.Lief ergueu o queixo e olhou ao redor com orgulho, determinado a mostrarque não estava nervoso nem com medo. Numa mesa central, ele reconheceuJoanna e Orwen, o casal que vira na estrada. E, em seguida, levou um grande susto.Sentada perto deles, estava outra pessoa conhecida.Era o viajante moreno com uma cicatriz no rosto, que os companheiroshaviam visto na loja de Tom em seu trajeto para a Cidade dosRatos. Os olhos frios do homem estavam fixos nos recém-chegados, masele não demonstrou sinais de tê-los reconhecido.— Sirvam-se do que quiserem, meus queridos — ofereceu Mãe Brightly,
  38. 38. apontando um balcão comprido na lateral do aposento no qual as travessas erammantidas aquecidas sobre fogo baixo. — Comam e depois descansem. Façam tudoque puderem para estar em forma para amanhã. Tenho grandes esperanças emrelação a vocês três. Para mim, vocês têm aparência de finalistas. E eu já vi muitosparticipantes!Ela não se importara em baixar a voz, e Lief ficou irrequieto, pois o olhar dosdemais competidores estava ainda mais atento. Todos ouviram o que ela disse.— Bem, agora devo voltar ao meu posto — avisou Mãe Brightly. — Estáficando tarde, mas novos concorrentes ainda podem chegar. Um sino irá acordá-lospara o café da manhã. Um segundo sino, uma hora mais tarde, irá chamá-los paraos Jogos.Ela se virou para sair. Repentinamente, relutante em ser deixado sozinhonaquele ambiente hostil, Lief continuou a falar, para que ela se demorasse umpouco mais.— Antes que se vá, Mãe Brightly, você poderia nos aconselhar sobre asmodalidades de que deveríamos participar? — pediu.A mulher ergueu as sobrancelhas e olhou-o fixamente.— Mas você não sabe? Você não escolhe com quem vai lutar.— Lutar? — Lief repetiu debilmente.— Você vai lutar com os que forem escolhidos para você — ela respondeu,fazendo um gesto de cabeça. — Concorrentes cujo peso, altura e talento especialcorrespondam aos seus — ela explicou. — Pelo menos no início. É claro que, sevocê vencer os primeiros rounds, no final lutará com concorrentes de todas ascategorias.A mulher juntou as mãos. Seus olhos brilhavam.— Esses eventos são sempre os mais excitantes. Agilidade contra força.Velocidade contra agilidade. Esperteza contra peso. Grande contra pequeno. Àsvezes, as provas duram várias horas. Há dois anos, houve uma final que durou umdia e uma noite... ah, foi uma batalha sangrenta. O perdedor, pobre coitado, acabouficando sem uma perna, que foi totalmente esmagada. Mas, pelo menos, ele
  39. 39. ganhou 100 moedas de ouro para consolá-lo. E foi uma diversão e tanto, eugaranto!Ela cumprimentou-os com um aceno de cabeça e deixou a sala compassos rápidos, fechando a porta atrás de si.Os três amigos olharam-se em silêncio.— Pois bem — Barda murmurou enfim. — Agora sabemos por que o povode Deltora não participa dos jogos Rithmere. A maioria das pessoas não gosta deser usada como saco de pancadas.Lief olhou para o lugar onde o homem com a cicatriz estava sentado,pronto para mostrá-lo a Jasmine e Barda, mas a cadeira encontrava-se afastada damesa e vazia. O homem tinha ido embora.— Acho que devemos sair daqui — ele disse devagar. — Não podemosnos arriscar a ficar gravemente feridos só para ganhar dinheiro. Teremos deconseguir suprimentos de outra forma.— Não vou embora antes de comer — retrucou Jasmine inflexível.
  40. 40. — Eu e Filli estamos com muita fome.Barda e Lief se entreolharam. A idéia de comer era muito tentadora.— Mãe Brightly está com a nossa moeda de prata — Lief lembrou.— Certamente é o suficiente para pagar uma refeição.Então, decidiram ficar. Os amigos serviram-se de comida, colocandoporções generosas em seus pratos, encontraram um lugar para sentar-se ecomeçaram a comer agradecidos. A comida era muito boa, e, sobre a mesa, haviajarros de sidra Abelha Rainha, cuja doçura borbulhante eles saborearam à vontade.Concentrados na refeição, eles pouco conversaram no início, e ninguémlhes dirigiu a palavra. Contudo Lief sentiu a nuca formigar e soube que dezenas deolhos ainda encontravam-se pousados sobre ele. Os outros participantes tentavamavaliar que perigo ele representava como oponente. "Vocês não precisam sepreocupar", o garoto lhes disse em silêncio. "Logo não estaremos mais aqui."A sala de refeições estava quase vazia quando eles terminaram o jantar.Finalmente satisfeito, Lief sentiu vontade de dormir. Barda e Jasmine tambémbocejavam, mas eles sabiam que não poderiam permanecer na pousada. De mávontade, ergueram-se e caminharam até a porta pela qual tinham entrado, cientesde que seus passos estavam sendo vigiados.— Vou ficar feliz em sair daqui, mas não estou ansioso por contar a MãeBrightly que mudamos de idéia — Lief murmurou constrangido.— Pelo fato de que ela vai se zangar conosco? — Jasmine riu. — Queimportância isso tem?Barda empurrou a porta, mas ela não se moveu. Parecia estar trancadapelo lado de fora.— Não é esse o caminho — avisou uma voz lenta e grave atrás deles.— Os dormitórios e áreas de treinamento ficam por ali. — Eles se voltarame viram a enorme silhueta de Orwen, apontando para outra porta na extremidade doaposento.— Não queremos ir para os dormitórios nem para a área de treinamento —Jasmine respondeu com aspereza. — Queremos sair da pousada.
  41. 41. Orwen lançou um olhar confuso para ela e, finalmente, sacudiu a cabeça.— Vocês são competidores — ele disse. — Não podem sair. Lief concluiuque o homem não era muito esperto.— Nós mudamos de idéia, Orwen — ele explicou com delicadeza.— Não queremos mais participar dos Jogos. Queremos partir de Rithmere eseguir nosso caminho.— Vocês não podem mudar de idéia — ele disse, acenando com a cabeçamais uma vez. — Os seus nomes estão no livro. Vocês receberam as faixas para opulso, comeram e beberam na sala de refeições. Eles não vão permitir que partam.— Você quer dizer que somos prisioneiros? — Barda disparou.— Estamos aqui porque queremos — Orwen retrucou dando de ombros. —Não nos consideramos prisioneiros. Mas é verdade que não somos livres para ir evir quando quisermos.Com um gesto de despedida, ele se virou e os deixou. Zangada, Jasminebateu na porta com os punhos. Ela estremeceu, fazendo barulho, mas ninguémapareceu.— O que vamos fazer agora? — Lief indagou.— Vamos calmamente para o quarto — Barda aconselhou em voz baixa.— As nossas mentes estão trabalhando devagar agora porque estamos cansados.Vamos dormir. Quando acordarmos, descobriremos um meio de sair.O aposento estava em silêncio, e todos observaram os três se dirigirem àporta nos fundos da sala de refeições e saírem. Sinais nas escadas lhes indicavamo caminho dos dormitórios no andar superior. Uma vez lá, começaram a caminharpor um labirinto de corredores repletos de portas à procura do quarto 77.Tapetes abafavam-lhes os passos, e os corredores eram bem iluminados esilenciosos, mas, enquanto andavam, Lief começou a se sentir cada vez maisinquieto. Correntes de ar súbitas faziam com que arrepios lhe subissem pelaspernas, e sua nuca formigava. Ele tinha a nítida impressão de que as portas eramabertas furtivamente às suas costas e que olhos hostis os espiavam. Várias vezesele se virou repentinamente a fim de flagrar os espreitadores, mas não conseguiu
  42. 42. ver ninguém.— Continue andando — Barda ordenou em voz alta. — Deixe os tolosolharem. O que isso nos importa?— Estamos sendo seguidos — Jasmine sussurrou. — Posso sentir. Aquelamulher não devia ter dito o que disse a nosso respeito. Receio que alguém tenharesolvido nos tirar do caminho antes mesmo do início dos Jogos.Automaticamente, a mão de Lief moveu-se para a espada, mas,evidentemente, não a encontrou, pois ela estava trancada no armário de MãeBrightly.Eles passaram pelos números 65 e 66. Mais adiante, havia uma curva nocorredor.— Nosso quarto não deve estar muito longe — murmurou Lief.— Estaremos a salvo quando chegarmos lá.Os amigos aceleraram o passo e atingiram a curva em instantes, chegandoa um pequeno corredor sem saída. Ao constatar que o quarto 77 se encontrava nofinal dele, começaram a andar em sua direção.E então a luz se apagou.Kree grasnou, advertindo-os. Na escuridão, Lief girou rapidamente o corpo,saltou para o lado e colou-se à parede. Ele sentiu um golpe rápido no ombro e ouviuBarda gritar. Ouviu também uma queda, um estrondo e um gemido zangado de dor.Seguiu-se um ruído de luta, até que se ouviu o som de passos afastando-serapidamente. Em seguida, o silêncio.— Lief! Barda! — Jasmine chamou. — Vocês estão...?Lief respondeu e, para seu alívio, ouviu Barda balbuciar algo. Então, a luzse acendeu novamente, tão rapidamente quanto havia se apagado. Protegendo osolhos da claridade repentina, Lief olhou para Barda, que se esforçava para ficar empé e tirava um papel amassado do bolso.Atrás dele estava Jasmine, com os cabelos totalmente desgrenhados. Amão esquerda estava erguida, protegendo o local onde Filli se escondia sob seucasaco. Na mão direita, ela segurava a segunda adaga, que geralmente mantinha
  43. 43. oculta. Sua ponta estava manchada de sangue. A garota examinou o corredor comuma expressão sombria. Lief seguiu-lhe o olhar e percebeu que uma trilha de gotasvermelhas marcava o piso até a curva.— Ótimo! Eu não tinha certeza de ter conseguido tirar sangue. Isso vai lhesensinar que não estamos para brincadeira — Jasmine resmungou.— Covardes que atacam pelas costas e no escuro!— Roubaram a nossa chave — informou Barda sério. — E deixaram isto nolugar — acrescentou, mostrando o papel que segurava.Os companheiros olharam ao redor. O corredor estava mergulhado nosilêncio, e nenhuma das portas se abrira.— E agora? O que vamos fazer? — Lief perguntou.Mas já sabia a resposta. Ele podia sentir a raiva se acumulando dentro dele,o fogo no olhar de Jasmine e a expressão obstinada de Barda.— Quem nos atacou cometeu um erro — Jasmine avisou em voz alta paraque todos pudessem ouvir. — Não importa o que pensamos antes, mas tenhamcerteza de que agora não vamos fugir desta competição.— E não seremos nós que iremos nos arrepender! — Barda acrescentou,também em alto e bom som.Os amigos caminharam até a porta de número 77. Ela se abriu quandoBarda virou a maçaneta, e eles entraram no quarto pequeno e arrumado.
  44. 44. O aposento era claro e bem iluminado. Um tapete de cores alegres cobria ochão, mas as grades na janela faziam com que parecesse a cela de uma prisão. Osúnicos móveis eram três camas com cobertores vermelhos e um armário pequeno epesado.— Quem quer que tenha apanhado a nossa chave deve estar pensandoque ficaremos acordados a noite toda temendo um ataque — Lief murmurou.— Então ele é um idiota — Barda disparou zangado. — Vamos dormir muitobem. Não vamos ter medo de nada — ele encostou o ombro no armário e oempurrou de encontro à porta.Aliviados, os três caíram nas camas e adormeceram. Como Barda previra,dormiram profundamente. Se houve sons do lado de fora na escuridão da noite,eles não os perturbaram. Os amigos continuaram dormindo, seguros de queninguém conseguiria entrar no aposento sem despertá-los.Porém, como Barda dissera, eles estavam muito cansados, e suas mentesfuncionavam devagar. Concentrados no perigo de um ataque, esqueceram-se deum detalhe: da mesma forma que uma chave pode destrancar uma porta, podetambém trancá-la. Quando o sino de despertar soou pela manhã, e elesempurraram o armário para o lado, constataram que a porta estava chaveada.O inimigo desconhecido encontrara outra forma de garantir que eles nãovencessem os Jogos. Decidira impedi-los definitivamente de participar.
  45. 45. Durante muito tempo, os três companheiros gritaram e bateram na porta,porém sem resultado.Finalmente, barda investiu contra a porta com fúria e tentou derrubá-la como ombro, mas a madeira era espessa, a tranca era pesada, e seus esforços foramem vão.Por fim, eles admitiram a derrota e voltaram a jogar-se em suas camas.— Fomos bobos em não prever isto — Barda reclamou ofegante. Jasmineestava silenciosa. Lief sabia que ela lutava contra o pânico.Para ela, ficar aprisionada era a pior das torturas. Depois de algunsinstantes, ela ergueu-se de um salto e correu para a janela, sacudindo as grades egritando para o céu vazio. O vento, porém, agarrava-lhe as palavras e as sopravapara longe, sem serem ouvidas.— Será que Kree consegue passar pelas grades? — sugeriu Lief. Jasminefez um aceno negativo com a cabeça, mas a pergunta lhe deu uma idéia. Ela puxoua coberta da cama e passou a metade pelas grades para que fosse agitada pelovento como uma bandeira.O segundo sino tocou. O tempo se arrastava. Lief rangia os dentes de raiva,pois o inimigo devia estar se divertindo com o fato de tê-los enganado tãofacilmente.De repente, ouviu-se uma forte batida na porta e um ruído na maçaneta. Os
  46. 46. três gritaram e imediatamente ouviram uma chave girar na fechadura. A portaabriu-se com um movimento rápido, revelando Mãe Brightly, que usava um vestidovermelho e uma touca para protegê-la do sol, amarrada com fitas verdes e azuis.Suas faces estavam coradas, e ela respirava com dificuldade.— Eu estava saindo para assistir aos Jogos quando vi um de meuscobertores balançando na janela! — ela exclamou. — Mal pude acreditar no que vi evim correndo imediatamente.Rapidamente, Lief, Barda e Jasmine explicaram o que acontecera. Amulher ouviu tudo com várias exclamações de horror e desalento.— Ah, estou envergonhada que isso tenha acontecido em minha pousada— ela gritou. — Espero que o aborrecimento não afete o desempenho de vocês. Eudisse a todos que vocês serão, no mínimo, finalistas.— Mas... não é tarde demais? — Lief quis saber.— De jeito nenhum — ela disparou, sacudindo a cabeça decidida. —Sigam-me.Deixando Kree e Filli no quarto, Lief, Barda e Jasmine acompanharam amulher pelas escadas até a sala de refeições vazia. Ela lhes serviu comida egrandes canecas da espumante sidra Abelha Rainha.— Comam e fiquem fortes — disse ela com determinação. — Vamosmostrar ao seu maldoso inimigo que não se deve brincar com os favoritos de MãeBrightly.Depois de terem comido e bebido à vontade, ela os conduziu através dassalas de treinamento nos fundos da pousada, por um corredor coberto, até umaarena. A cerimônia de abertura dos Jogos ainda estava em andamento, e muitascabeças se voltaram para observar os recém-chegados. Barda, Jasmine e Liefergueram os queixos e ignoraram os olhares fixos e os sussurros.— Boa sorte! — Mãe Brightly desejou e se afastou com passos rápidos,deixando os companheiros sozinhos.A arena era um campo de areia grande e redondo cercado por filas debancos que se erguiam, uma após a outra, até o alto. Os bancos estavam lotados
  47. 47. de pessoas, muitas das quais agitavam bandeiras vermelhas, verdes e azuis queexibiam uma medalha dourada, símbolo dos Jogos.Os competidores, reunidos na areia, erguiam as mãos, comprometendo-sea lutar da melhor forma possível. Entre eles, facilmente visíveis devido à altura,encontravam-se Joanna e Orwen. Não muito longe de Lief, também se encontrava oestranho com a cicatriz no rosto. Um trapo envolvia o seu pescoço como se fosseum lenço.Seria para protegê-lo do sol? Ou para ocultar um ferimento feito pela adagade Jasmine no corredor, na noite anterior?Lief fechou o punho quando ergueu a mão. Todos os seus receios edúvidas haviam desaparecido. Agora, ele estava apenas zangado e determinado amostrar que não podia ser derrotado tão facilmente.Logo depois, pares de nomes começaram a ser chamados, e as provastiveram início. As regras eram simples: todos os pares lutavam ao mesmo tempo.Cada par deveria lutar até que um dos competidores não conseguisse mais semanter em pé.O perdedor era retirado da arena. O vencedor, após somente algunsminutos de descanso, formava par com outro vencedor para lutar novamente, poisresistência era tão importante quanto força, agilidade, velocidade e astúcia.Lief, Barda e Jasmine logo aprenderam que o conceito de competição justanão fazia parte dos Jogos de Rithmere. Os competidores lutavam com fúriaselvagem, mordendo e arranhando, dando cabeçadas, puxando cabelos, enfiandoos dedos nos olhos e desferindo socos e pontapés. Exceto o uso de armas, nadaera proibido.A multidão rugia e agitava suas bandeiras a fim de incentivar seus favoritos,gritando e vaiando os que não apresentavam bom desempenho. Vendedores dedoces, lanches e sidra Abelha Rainha faziam bons negócios enquanto percorriamos corredores entre os bancos de cima a baixo, anunciando as suas mercadorias.À medida que um número cada vez maior de participantes derrotadosdeixava a arena, desapontados e cuidando dos ferimentos, o espaço entre os pares
  48. 48. ficava maior. Cada luta era mais difícil que a anterior, mas Lief, Barda e Jasmineconseguiram sobreviver a cada round.Ao contrário dos rivais, eles estavam acostumados a lutar pela própria vida.Os três haviam aprendido muito desde que se conheceram. Mas até mesmo asprimeiras lições os ajudavam naquele momento.Lief não passou a infância nas perigosas ruas de Del em vão. Como Bardadissera a Mãe Brightly, ele sabia se esquivar e correr muito bem, além de usar aesperteza para derrotar inimigos muito maiores do que ele. Lief era jovem, mas, porcausa do trabalho realizado junto ao pai na ferraria, seu corpo era forte, e seusmúsculos estavam habituados a trabalhar arduamente.Desde jovem, Barda fora treinado como guarda do palácio, e os guardaseram os melhores lutadores de Deltora, apenas derrotados no final pela feitiçaria doSenhor das Sombras. Durante muitos anos, Barda lutara e treinara com os colegascomo parte de seu treinamento. E mesmo na época em que vivera disfarçado demendigo fora dos portões da ferraria, ele manteve a forma, seguindo Lief pelacidade e protegendo-o dos perigos.E Jasmine? Mesmo sendo pequena e franzina, ninguém ali enfrentara asmesmas dificuldades ou vivera os mesmos perigos que ela. A astuta Mãe Brightlyvira a força daqueles braços magros e a determinação nos olhos verdes. Mas osoponentes de Jasmine freqüentemente achavam que seu tamanho pequenosignificava fraqueza e pagavam por isso.O sol já estava baixo no céu quando os oito finalistas, os que lutariam suasderradeiras batalhas no dia seguinte, foram anunciados.Barda, Lief e Jasmine encontravam-se entre eles, como também Joanna eOrwen. Os outros três eram um homem baixo e musculoso, chamado Glock, umamulher, Neridah, cuja velocidade surpreendera a multidão, e o estranho com a facemarcada por uma cicatriz, cujo nome os amigos agora ouviam pela primeira vez:Perdição.— Um nome que combina muito bem com a sua personalidade sombria —Barda murmurou, quando Perdição se adiantou, sem sorrir, e ergueu os braços
  49. 49. para saudar a multidão animada. — Não me agrada a possibilidade de lutar comele.A idéia também não agradava a Lief, mas lhe ocorrera algo que opreocupava ainda mais.— Eu não esperava que nós três fôssemos finalistas — murmurou.— E se tivermos de lutar um contra o outro?Jasmine olhou-o fixamente.— Ora, decidiremos quem deverá vencer e apenas fingiremos lutar— ela concluiu. — Como, aliás, devemos fazer em todas as lutas amanhã.Precisamos deixar nossos oponentes vencerem e evitar contusões. Já garantimos100 moedas de prata cada um, pois somos finalistas. E esse é todo o dinheiro deque precisamos, nada mais.Barda moveu-se inquieto. Era evidente que a idéia de fingir perder oofendia tanto quanto a idéia de fingir vencer.— Não seria uma atitude honrada... — ele começou.— Honrada? — Jasmine vociferou. — O que honra tem a ver com isso? —ela se virou bruscamente para Lief. — Diga a ele! — ela insistiu.Lief hesitou. Ao contrário de Barda, ele não se sentia incomodado pela idéiade enganar os organizadores dos Jogos ou mesmo a multidão. Nas ruas de Del,honra entre amigos era tudo o que se exigia, e a única regra era sobreviver. Masparte de sua mente — a parte que ainda fervilhava de raiva por causa do bilheteameaçador e da porta trancada — se rebelava contra o plano de Jasmine.— Nossos rivais perceberão. Se não tentarmos vencer, vai parecer queestamos nos curvando diante de suas ameaças — ele respondeu em voz baixa.— Você é tão tolo quanto Barda! — ela retrucou irritada. — Você querarriscar a nossa missão por causa de seu orgulho? Ah, você me faz perder apaciência!Ela virou as costas e se afastou.Naquela noite, os finalistas comeram juntos no salão de refeições, servidospor Mãe Brightly, sorridente e colorida em seu vestido vermelho franzido. Foi uma
  50. 50. refeição estranha, já que, somente uma noite antes, o aposento estiveramovimentado e repleto de ruídos, enquanto naquele momento encontrava-se vazioe silencioso. Aparentemente, os competidores derrotados já haviam sido mandadosembora. Lief se perguntou como eles estariam, pois muitos haviam sido feridos, e amaioria não tinha dinheiro.Jasmine ainda estava zangada. Ela comeu pouco e bebeu apenas água.— Essa sidra Abelha Rainha é forte demais para mim -justificou. —Sinto-me mal só de pensar nela. Na arena, tudo tinha esse cheiro. As pessoas abeberam o dia todo.— Essa bebida não deveria ser vendida para elas — Barda censurou sério.— Ela é destinada aos lutadores que precisam de muita energia, não para os que sóficam sentados, assistindo. Não é de surpreender que eles queiram ver o sanguedos lutadores.Nesse exato momento, Mãe Brightly tocou um pequeno sino.— Uma palavra antes que vocês se retirem para os seus quartos, meusqueridos — disse a mulher quando todos os finalistas se voltaram para ela. — Nãoquero armadilhas nem problemas esta noite, de modo que eu mesma vou pegar aschaves e trancar as portas. E vou destrancá-las logo cedo, imediatamente após otoque do sino de despertar.Houve um silêncio profundo no aposento. A mulher olhou ao redor. Seurosto rechonchudo estava muito sério.— Portanto, durmam bem e recuperem as forças — prosseguiu. —Amanhã vocês não devem mostrar nenhum sinal de fraqueza ou falta dedeterminação. A multidão... Bem, ela sempre fica muito excitada no último dia.Excitada demais. Sabe-se que alguns finalistas que não apresentaram bomdesempenho foram atacados e despedaçados. Eu não gostaria que issoacontecesse a nenhum de vocês.Lief sentiu um embrulho no estômago. Ele não ousou olhar para Jasminenem para Barda. Então, era dessa forma que os organizadores dos Jogosgarantiam que todos os finalistas tentassem dar o melhor de si na última luta. A sua
  51. 51. arma era a multidão — agitada, agindo como se fosse composta de uma só mente,excitada ao extremo e sedenta de sangue.A arena já estava ficando quente quando eles chegaram pela manhã. O solbrilhava sobre um dos lados da areia recém-nivelada. A outra extremidadeencontrava-se debaixo de sombra. Nos bancos lotados, a multidão fervilhava deexcitação.Os oito finalistas ergueram as mãos e reafirmaram o seu compromisso delutar da melhor forma possível. Em seguida, um a um, escolheram um cartão nocesto trançado estendido pela sorridente Mãe Brightly.Com o coração na boca, Lief viu que o seu cartão exibia o número 3.Aliviado, notou que os cartões de Barda e Jasmine marcavam os números 1 e 4,respectivamente. Portanto, pelo menos naquele round, eles não iriam lutar umcontra o outro. Porém quem seriam os seus oponentes?Ele olhou ao redor e foi tomado pelo desânimo ao notar Perdiçãocaminhando na direção de Barda, erguendo o seu cartão no alto para que todos
  52. 52. pudessem ver o número 1. O gigante Orwen havia tirado o segundo número 4 e jáse encontrava parado ao lado de Jasmine, que parecia uma criança perto dele.Glock e Joanna haviam tirado cartões com o número 2, portanto sobrara apenasNeridah, a Veloz. De fato, lá estava ela, correndo na direção de Lief, exibindo ocartão de número 3.A multidão urrou quando os quatro pares de oponentes jogaram os cartõesno chão e se encararam.Neridah olhou para as próprias mãos e depois para Lief.— Confesso que estou com um pouco de medo — ela disse em voz baixa.— Nem sei como cheguei às finais. E você é um dos favoritos de Mãe Brightly, nãoé mesmo?Lief devolveu-lhe o olhar desajeitado. Ele lutara com várias mulheres no diaanterior e aprendera que era insensato encará-las como outra coisa senãoperigosas oponentes. Além disso, qualquer um que tivesse visto Jasmine em açãosabia que não se devia subestimar uma lutadora pelo simples fato de ser mulher.Contudo, Neridah parecia tão delicada. Ela tinha a mesma altura de Lief, mas eramagra e graciosa como uma gazela e tinha olhos grandes e escuros.— A... multidão — ele balbuciou. — Precisamos...— Claro! — Neridah sussurrou. — Sei que devo tentar fazer o melhor. Enão vou censurar você por fazer o que deve. Seja lá o que for que aconteça comigo,minhas pobres irmãs e minha mãe terão as 100 moedas de prata que já ganhei.Mãe Brightly prometeu.— Não tenha receio... — Lief começou gentil.Mas, nesse momento, o sino de início tocou e, como se fosse uma serpente,Neridah estendeu o pé, atingindo-o no queixo e atirando-o ao chão.A multidão riu e vaiou.Lief ergueu-se com dificuldade, sacudindo a cabeça atordoado. Seusouvidos zuniam, e ele não conseguia enxergar a oponente. Com velocidadesurpreendente, ela se colocou atrás dele. De maneira selvagem, chutou-lhe a parteposterior dos joelhos, fazendo-o cambalear para a frente, gemendo de dor.
  53. 53. Segundos depois, ela corria ao redor dele, saltando e chutando-lhe os tornozelos,os joelhos, a barriga, as costas, obrigando-o a se virar como um palhaço confuso,que desferia golpes com os braços sem conseguir alcançá-la.Ela o estava fazendo de bobo. A multidão o escarnecia, entoando aquelenome tolo, "Twig", e rindo. Uma onda de raiva clareou um pouco a mente de Lief. SeNeridah era rápida, ele também era. O garoto saltou para trás, para longe, de modoque ela foi obrigada a encará-lo. Com cautela, ambos ficaram andando em círculos,um de frente para o outro. Então, inesperadamente, ele saltou para a frente eagarrou-a pela cintura, atirando-a ao chão.A mulher caiu e ali ficou ofegante, um braço imóvel e impotente. Tudo o queLief tinha de fazer era desferir o golpe final. Impedi-la de erguer-se, chutar, bater...Lágrimas corriam dos olhos da mulher enquanto ela se esforçavadebilmente para erguer-se na areia.— Por favor... — ela sussurrou.Por uma fração de segundos, Lief hesitou. E foi o bastante. No momentoseguinte, o braço "impotente" de Neridah atirou-se para a frente e agarrou o garotopelo tornozelo. A multidão urrou quando ela se ergueu de um salto e puxou-lhe ospés. Lief cambaleou, caiu na areia e desfaleceu.Enquanto isso, Barda e Perdição lutavam, tentando derrubar um ao outro. Acompetição estava equilibrada. Barda era mais alto, contudo os músculos dePerdição pareciam de ferro, e a sua vontade era ainda mais forte. Os dois semoviam de um lado para o outro, para a frente e para trás, às vezes oscilavam, masnenhum cometia erros, tampouco desistia."Seja lá de onde tenha vindo, Perdição de Hills, você certamente teve umavida de lutas e de muito sofrimento", pensou Barda. Ele se lembrou do sinal que ohomem da cicatriz havia feito na poeira do balcão da loja na primeira vez que o vira.O sinal secreto dos que juraram lutar contra o Senhor das Sombras.— O que você está fazendo aqui, Perdição? — Barda indagou arque-jante.— Por que perde o seu tempo lutando comigo quando tem um trabalho maisimportante a fazer?
  54. 54. — Que trabalho? — sussurrou Perdição. A cicatriz longa e brancacontrastava com a pele brilhante. — Meu trabalho agora... é transformá-lo em pó...Berry, de Bushtown — os lábios de Perdição formaram um sorriso sombrio quandoele pronunciou esse nome. Era evidente que sabia tratar-se de um nome falso. — Oseu amigo Twig foi derrubado e não vai mais se levantar — rosnou. — Está vendo,atrás de você? Está ouvindo a multidão?Barda esforçou-se para manter-se concentrado, recusou-se a olhar aoredor e tentou fechar os ouvidos para os urros do povo. No entanto, ele ainda podiaescutar os gritos frenéticos: "Neridah! Neridah! Chute! Isso!! Outra vez! Acabe comele!"Perdição agarrou Barda com mais força e jogou o peso de seu corpo sobreo oponente. Este vacilou, mas somente por alguns segundos.— Não vai ser tão fácil, Perdição! — murmurou Barda, cerrando os dentes econtinuando a lutar.Jasmine nada conseguia ver além do enorme vulto de Orwen rode-ando-a,nada podia ouvir além dos grunhidos selvagens dele, quando investia contra ela, e obater do próprio coração quando saltava para os lados. Sua mente trabalhava tãodepressa quanto seus pés.Todos os competidores que havia enfrentado no dia anterior eram maioresdo que ela, mas nenhum com peso e altura iguais aos de Orwen. Se ele aapanhasse com aquelas mãos gigantescas, quebraria os seus ossos. Ela sabia queteria de agir como uma abelha que zune ao redor da cabeça de um grande animal— teria de irritá-lo e cansá-lo até que ele cometesse um erro.Orwen, porém, não era tolo. Ele percebeu o plano de Jasmine. Durantemuito tempo, ela se manteve fora do alcance dele, girando e saltando, desferindopequenos chutes fortes e doloridos nos tornozelos e joelhos do homem. O rostodele encontrava-se molhado de suor, mas o seu olhar firme não vacilava.Jasmine saltou para longe dele mais uma vez. Há longos minutos, ela vinhatentando fazer com que ele virasse o rosto na direção do sol. E estava quaseconseguindo. Mais um ou dois movimentos...
  55. 55. Então, de repente, a expressão de Orwen mudou, e ele olhou por cima doombro de Jasmine. Seus olhos estavam tomados pelo pânico. Seria um truque?Ou...Atrás dela, se ouviu um som terrível — o som de alguém sufocando, emagonia. E a multidão urrava: "Glock! Glock! Mate! Mate! Mate!"Orwen investiu para a frente. Jasmine disparou para o lado, mas quaseimediatamente percebeu que o homem, esquecido de sua presença, não olhavapara ela.Joanna encontrava-se caída, presa ao chão, e Glock estava ajoelhadosobre ela, as mãos enormes e peludas agarrando-lhe o pescoço, sacudindo,apertando, os dentes à mostra num prazer selvagem, enquanto observava a vidadela se esvair.Não demorou muito para que Orwen pulasse em cima dele, arras-tando-opara o lado como se fosse um monte de trapos. O público gritou excitado. Orosnado de choque e raiva de Glock foi interrompido quando ele caiu pesadamenteno chão. Orwen atirou-se ao lado de Joanna, aninhando-a nos braços.O corpo dela estava tão mole e imóvel que Jasmine pensou, a princípio,que ela estava morta. Mas, quando Orwen chamou o seu nome, as pálpebras damulher estremeceram, e ela pôs a mão hesitante na garganta machucada. Orweninclinou a cabeça com um gemido de alívio, alheio a tudo que não se referisse àesposa.Portanto, não percebeu que Glock se erguia com dificuldade e investiacontra ele. Não ouviu o grito agudo de advertência de Jasmine. Não deu atenção àmultidão, que se levantou num excitamento febril. No momento seguinte, os punhosfechados de Glock golpearam a nuca de Orwen como se fossem duas enormespedras. Orwen caiu para a frente sem um grito sequer e não se moveu mais.Barda e Perdição ainda lutavam, presos num abraço que nenhum dos doispretendia afrouxar. Eles se encontravam sozinhos na arena. Barda teve a leveimpressão de ter visto duas pessoas sendo carregadas para longe, enquanto Glock,contido por três fortes funcionários, ainda vociferava para eles com uma ira
  56. 56. mortífera.— Glock é louco! — Perdição rosnou com a voz repleta de ódio.— E nós? Não somos loucos? — Barda retrucou ofegante. — Um de nósdois vai vencer e certamente terá de enfrentá-lo. Você quer mil moedas de pratatanto assim?— E você? — Perdição retrucou, os olhos escuros faiscando. — Eu precisoestar aqui, não tenho escolha. Mas você... certamente não. Nós demos umaexcelente demonstração. Se um de nós cair agora, estará livre para seguir o seucaminho. Pense!Barda pensou e vacilou.Foi somente um instante de hesitação. Uma pequena brecha naconcentração que o protegera por tanto tempo, mas foi o suficiente para Perdição.Uma torção, um forte empurrão, e Barda perdeu o equilíbrio e cambaleou.O punho de seu oponente o golpeou na mandíbula, fazendo com que visseestrelas. De repente, o chão se aproximou dele como um raio e, em segundos, elese encontrava deitado com o rosto na areia, atordoado, a cabeça girando, todo ocorpo doendo, escutando a multidão berrar o nome de Perdição. Em meio à dor,Barda se perguntou se Perdição o havia enganado ou se lhe fizera um grande favor.Aquela derrota tinha ocorrido por vontade do oponente ou pela sua própria?
  57. 57. Eram quatro os finalistas: neridah, Perdição, Glock... e Jasmine, pois ela foiconsiderada vencedora em seu assalto, embora Orwen tenha sido derrubado poroutro competidor.Jasmine teve somente alguns instantes para descobrir como Barda e Liefestavam passando. Ambos se encontravam em péssimo estado, mas Mãe Brightly,dançando ao redor deles, assim como de Joanna e Orwen, disse-lhe que eles serecuperariam em breve. Seus ferimentos não eram muito graves e não ficariampiores por causa da derrota.Certa de que seus amigos se encontravam em boas mãos, Jasminepermitiu ser levada para o centro da arena para juntar-se a Glock, Neri-dah ePerdição.Canecas espumantes de sidra Abelha Rainha foram trazidas para eles. Ojovem de cabelos escuros que os servia estava claramente entusiasmado por estaratendendo a lutadores tão excelentes. Ele ofereceu a bandeja a Perdição, que seserviu de uma caneca com uma palavra de agradecimento.— Por que você o serviu primeiro? — Glock gritou furioso e apanhou outracaneca da bandeja, esvaziando-a num instante.O jovem rapaz, evidentemente desconcertado e assustado, começou abalbuciar palavras de desculpas.— Está tudo bem — Perdição garantiu com calma. — Não fique aborrecido.
  58. 58. Ruborizado, o rapaz ofereceu outra bandeja a Neridah e Jasmine. Neridahaceitou uma caneca e esvaziou-a de um só gole. Jasmine, contudo, recusou comum aceno.— Obrigada, mas não gosto dessa sidra — ela disse. — Eu tomei água, e éo bastante.Enquanto o jovem a olhava fixamente, Glock agarrou a caneca rejeitada.— Melhor para mim! — exultou Glock, engolindo a sidra com sofreguidão.Ele se virou para Jasmine, enxugando a boca molhada nas costas da mão.— Reze para não me enfrentar no próximo round, pequena Birdie tomadorade água. Vou quebrar os seus ossos como se fossem cascas de ovos. Eu vou...Uma expressão estranha passou-lhe pelo rosto. Nesse exato momento,Neridah deixou escapar um leve e curioso suspiro. Então, ficou de joelhos e caiu nochão. Glock olhou para ela e depois para a caneca vazia que segurava. Em seguida,levou a mão à garganta.— Veneno! — ele balbuciou. — Virou-se vacilante e apontou o dedotrêmulo para o jovem rapaz que segurava a bandeja. — Você... — conseguiu dizer.O jovem soltou a bandeja e correu. Quando Glock caiu no chão semsentidos, ele já havia se perdido em meio à multidão.Pessoas corriam na direção deles, gritando e apontando. Jasmine nãotirava os olhos de Perdição.— Isso é obra sua! — ela sussurrou. — Aquele rapaz... você o conhece!— Você está dizendo bobagens — ele se defendeu.— Você tem certeza de que vai vencer se os outros estiverem fora docaminho e se lutar somente comigo nas finais — ela disse devagar. — Mas vocêestá enganado, Perdição.Ele virou-se para que Jasmine não visse o seu rosto. Os funcionários seaproximaram deles e sacudiram Glock e Neridah, tagarelando e exclamando.Somente Jasmine ouviu a resposta de Perdição.— Veremos — ele disse com suavidade. — Veremos."Se lutar contra Orwen é o mesmo que lutar contra um urso, lutar com
  59. 59. Perdição é como enfrentar um lobo", Jasmine pensou, enquanto ela e o adversáriogiravam, um de frente para o outro, no centro da arena. "Um lobo magro e esperto."O homem era perigoso. Muito perigoso. Todos os seus instintos lhe diziamisso. Ela o temia como nunca temera outro ser humano antes, no entanto não sabiapor quê. Procurou um motivo e, então, imaginou tê-lo encontrado."Para ele, tanto faz viver ou morrer", Jasmine pensou e, sem querer,estremeceu de pavor. Ela percebeu uma pequena centelha no olhar de Perdição eesquivou-se bem a tempo de fugir de uma investida dele.A multidão, sentindo-se enganada nas semifinais e zangada porque seufavorito, Glock, não poderia lutar de novo, estava de péssimo humor. O rugido devaias e xingamentos se intensificou quando a presa de Perdição lhe escapou porum triz. A platéia estava cansada desses rodeios e escapadas. Queria sangue.Com a respiração ofegante, Jasmine girou para ficar de frente para oinimigo outra vez. Ele deu um sorriso zombeteiro.— Onde está o seu orgulho agora, passarinho? — provocou em voz baixa.— Ora, você não consegue dominar o seu medo nem para fazer uma boaapresentação para o povo. Corra para casa e esconda a cabeça no colo da mamãe!Uma chama de raiva incontida invadiu o corpo de Jasmine e expulsou omedo. Ela ergueu o olhar para Perdição e percebeu satisfeita que o sorriso dohomem havia desaparecido, pois ele sentira a mudança nela. Jasmine notou-lhe aboca tensa, e uma expressão cautelosa havia tomado conta de seu olhar.— Você está cansado, meu velho — ela rosnou. — Morrendo de cansaço.E, ao dizer isso, percebeu que tinha razão. A longa luta de Perdição comBarda drenara-lhe as forças e entorpecera-lhe os reflexos. Por que outro motivo nãoa atingira ao atacar?— Pegue-me se for capaz! — ela riu, dando meia-volta como se fossecorrer.Tomado de surpresa, Perdição deu um passo incerto para a frente. Jasminegirou como um raio e chutou, depois girou e chutou mais uma vez. Afastou-se delecom um salto quando ele tentou pegá-la, deixando-o agarrar o vazio. Então saltou e
  60. 60. atacou-o repetidas vezes.Com um prazer selvagem, ela ouviu os gemidos de dor e raiva doadversário e escutou a multidão começar a aplaudir. O entusiasmo do povo seintensificara tanto quanto o dela. A luta prosseguiu, mas Perdição não conseguiusequer tocar Jasmine.A arena parecia enevoada. A pequena garota não sentia nada além dopróprio desejo de punir e ferir. Era como se o seu sangue estivesse borbulhando,como se a sua raiva se tivesse transformado em energia e estivesse percorrendo oseu corpo, fazendo com que seus pés e suas mãos formigassem. Rindo, elamoveu-se para trás quase dançando quando Perdição se aproximou mais uma vezalto e furioso. A multidão uivava. Os urros eram ensurdecedores. Eram tão altosque... por que estariam tão altos...?Ela deu um passo para trás e sentiu o calcanhar bater em um objeto demadeira. Assustada, Jasmine olhou para trás e viu uma parede; acima dela, haviauma massa de rostos vermelhos, aos gritos. Somente então ela se deu conta decomo havia sido enganada, do quanto a sua raiva a levara a agir de modo tolo.Pouco a pouco, Perdição a obrigara a ir para a extremidade da arena. Ela seencontrava de costas para a parede baixa que a circundava, e o oponente estava seaproximando.Ela saltou para cima e para trás e aterrissou no alto da parede, como tantasvezes fizera nos galhos das árvores nas Florestas do Silêncio. Atrás dela, amultidão urrava. Porém Perdição estava cada vez mais perto e se inclinava para afrente, as mãos estendendo-se para os tornozelos de Jasmine. Mãos que pareciamgigantescas aranhas, braços que lembravam trepadeiras grossas e famintas...Foi puro instinto que fez Jasmine atirar-se sobre Perdição. Durante umafração de segundo, os ombros curvados de seu oponente foram como galhos deárvores para ela. Em seguida, ela deu um impulso para trás com os pés e se lançouao ar mais uma vez, fazendo-o tombar para a frente. Jasmine o ouviu gritar e caircontra a parede, enquanto ela dava uma volta no ar e aterrissava levemente naareia bem atrás dele.

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