Dependendo de onde você obteve sua informação (digamos, a revista 
Cosmopolitan, a apresentadora do View ou minha tia Ina)...
diante da quitinete de 30 metros quadrados, com a qual eu estava tão 
empolgada, pois achava que o aluguel incluía ratos e...
gostava de revirar os olhos dizendo que minha língua sarcástica iria me fazer 
ficar solteira e fora do testamento de vovó...
namorado, a ponto de sair com o vizinho da minha avó. Não, obrigada. O cara 
levava o lixo na frente dos outros! E ter que...
eu estudamos juntas, no colégio? E que sempre odiei a cara dela, toda 
magrinha e lindinha, desde que eu tinha 12 anos de ...
Ouvi Eloise trancar o apartamento e subir pela escada correndo, rumo ao sexto 
andar. Depois a ouvi correr de volta para b...
meu pai, quando tinha nove. A mãe de Eloise falecera quando ela tinha 18. Ela 
nunca falava do pai, mas era muito próxima ...
garrafa de chá bem hora. Eu não podia comprar uma mesa de verdade até que 
tivesse um apartamento de verdade, com quarto. ...
Eu tinha mudado desde que me formara no colégio, pela Forest Hills High. 
Aquele velho ditado de que "tira-se uma boa garo...
desejei ter um daqueles gatos estereotipados para acariciar, como as mulheres 
solteiras têm. Não havia absolutamente nada...
tinha idéia do nome do homem da ópera, l >em, eu sabia que seu sobrenome 
era Martinelli. E sua primeira inicial,"A", pois...
Capitulo 2 
— Jaaane. 
Eu me virei e vi que estava perto demais de Morgan Morgan, a assistente que 
Remke e Jeremy dividia...
Limpei a garganta. 
— Hum, sim, bem, eu queria falar com você a respeito do meu futuro na Posh. 
— Apertei as mãos nas cos...
— Está bem ali, na sua mesa.Wiliaaam — disse ela, choramingando com 
aquela boca feia. Sempre tão eficiente, ela rapidamen...
— Diga a ele que temos que conversar sobre a assinatura daquele garoto do 
Backstreet.Traga o kit de imprensa também. E ma...
Eu só podia ficar agradecida por Morgan Morgan não estar por perto para me 
lançar sorrisos maldosos. 
—The Blue Water Gri...
O sol que brilhava através das janelas à esquerda do loft iluminava os cabelos 
ondulados, castanho-escuro, e fazia com qu...
Subitamente, uma pontada no fundo dos meus olhos, lágrimas que queriam 
surgir. Pare com isso! Pare agora! Eu ordenei a mi...
— Sem problema — eu disse, alegremente, apertando violentamente o botão, 
enquanto punha a língua para fora.Títulos e text...
Natasha acomodou seu corpinho magérrimo na cadeira oposta à minha, numa 
mesa nos fundos do Blue Water Grill. Eu não a via...
redonda de sexta-feira, e eu trabalhava em muitas biografias detalhadas. Mas, 
Natasha Nutley? Ela deveria permanecer a um...
— Bem, não o brownstone inteiro, é claro — eu corrigi, arrancando um pedaço 
de pão da cesta entre nós duas. — Apenas o ap...
O grosso do rascunho, sim, e o que mais eu precisaria saber para julgá-la 
como uma vadia oportunista, faminta por holofot...
— Não sou tão pequena — Dana falou, esfuziante. —Vou me casar em dois 
meses, no Plaza! — Como um sinal luminoso, as boche...
Minhas mãos começaram a suar. Eu as esfreguei no guardanapo em meu colo. 
— Natasha, sua vida que é interessante o suficie...
Capitulo 3 
Mesa-redonda da Paquera — Discussão n° 8.566.932: a questão do suposto 
namorado. Amanda, Eloise e eu estávamo...
Eloise e eu erguemos nossas sobrancelhas simultaneamente. I u já tinha 
passado por isso. E será que eu realmente ia quere...
seis quilos, quase que instantaneamente, porque não conseguia comer. Depois 
engordei os seis quilos de volta, porque não ...
Amanda desligou o celular, seus olhos azuis brilhavam. Ela inclinou-se à frente, 
junto à mesa, jogando o rabo-de-cavalo p...
— Ela é mesmo essa diva absoluta? Toda fabulosa e tragicamente na moda? 
Eu visualizei Natasha. 
— Sim e não. Ela é do tip...
- Ei, El, você sabe que dia é hoje? Eu quase esqueço. E o aniversário de 
casamento dos meus pais. 
Eloise deu um apertão ...
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Procura-se Um Namorado, Ultima Chamada - Melissa Senate

  1. 1. Dependendo de onde você obteve sua informação (digamos, a revista Cosmopolitan, a apresentadora do View ou minha tia Ina), poderia haver muitas formas prováveis de passar de solteira a casada, em Nova York, sem ter que: a) beijar 50 sapos, b) dormir, inadvertidamente, com um serial killer ou c) pagar. A não ser que você fosse eu. Eu já teria muita sorte se beijasse uns cinco sapos, antes de cair dura, pela síndrome da solidão de sábado à noite. Por que eu ainda estava solteira aos 28 anos? Minha amiga Amanda: —Você não precisa de um namorado para ser feliz, Jane. — Hum... na verdade, preciso sim. Cheguei a dizer que ela está morando com alguém? Gwen, minha chefe (sem ninguém perguntar): — Você vai encontrar o amor quando parar de procurar.—Mesmo? Puxa, essa eu nunca tinha ouvido! Minha amiga Eloise: — Você é muito exigente. Não que haja algo de errado nisso. — Sem comentários. Minha prima (mais nova) Dana, que está noiva: — Você é negativa, é por isso! — Espere até conhecê-la. A revista Cosmo: — Você precisa se mostrar no mercado, amiga! — Como se eu não tivesse um sutiã com enchimento de cada cor! Eu: — Porque você faz tudo que todo mundo sugere e, mesmo assim, não consegue fazer aquele homem com quem imagina ter filhos amá-la também. Ou ao menos convidá-la para um segundo encontro. Qual era mesmo a sugestão da minha tia Ina para achar o amor verdadeiro? Tinha algo a ver com um "sujeito perfeito" que ela havia encontrado no corredor do prédio da minha avó. Ele ia jogar o lixo no incinerador e... ah, esquece. E melhor que eu deixe que ela mesma conte a você. — É só um encontro! — Ina Dreer berrou no telefone. Eu segurei o sem-fio longe do ouvido.—Duas danças, num casamento, pouca conversa. E você ganha 300 mil dólares! Você não pode ir a uma porcaria de encontro para sua avó? Por mim? Por um dinheiro como esse? Por que será que ainda me dou ao trabalho? Diga, Jane, por que me dou ao trabalho? Mentalmente, eu terminei o monólogo da tia Ina para ela: "Vá em frente, Jane, continue solteira. Nunca se case. Acabe sozinha, como sua tia-avó Gertie, que Deus a tenha. E daí se eu prometi à sua mãe — que Deus a tenha — que cuidaria de você? E daí se ela trabalhou a vida inteira para sustentá-la depois que seu pai morreu tão jovem? E, afinal, para que você precisa de 300 mil dólares? Na verdade, a querida, doce, mortificada de culpa tia Ina fazia algum sentido. De fato, eu precisava de 300 mil. Meu apartamento era 750 pratas por mês (aluguel estável), o que era baratíssimo para os padrões da cidade de Nova York, mas, mesmo assim, era quase metade do meu salário bruto, embora estivesse de acordo com o guia das revistas Mademoiselle e Glamour — e, provavelmente, o The Wall Street Journal — para padrões mensais de moradia. Além disso, eu estava dormindo no mesmo colchão encaroçado há seis anos, desde que me mudara para Manhattan, deixando o quarto de hóspedes da tia Ina, quando me formei na faculdade. Com 300 mil pratas no banco eu poderia finalmente comprar um sofá-cama de verdade. Ina se apertou para me dar o colchão de presente de formatura, o primeiro presente para o apartamento. Ela também apertou os olhos azul-claros, eternamente receosos,
  2. 2. diante da quitinete de 30 metros quadrados, com a qual eu estava tão empolgada, pois achava que o aluguel incluía ratos e assaltantes. Depois encomendou barras de ferro anti-roubo para pôr na janela de incêndio e contratou uma dedetizadora para mim. E o que mais eu faria com essa sorte financeira inesperada? No mesmo instante voaria até a loja da DKNY para renovar meu guarda-roupa, atualmente limitado a umas pecinhas para o trabalho, compradas na Ann Taylor e na Banana Republic. Eu queria DKNY, mas isso estava a três promoções de distância. — Jane Gregg, eu estou aqui falando sozinha? — Esta frase foi seguida pelo habitual suspiro de tia Ina, sua marca registrada. O maço de Marlboro Lights em cima da mesa estava me afrontando. Eu estava morrendo por um cigarro, mas mataria tia Ina se ela me ouvisse tragando, e eu não queria decepcioná-la. Minha tia não sabia que eu voltara a fumar. Eu havia parado por um único dia, seis meses atrás, e cometi o erro de contar a ela sobre o grande feito. Jamais a vira tão feliz, bem, a não ser quando sua filha Dana ficou noiva, há dois anos. Como poderia dizer a ela que eu havia durado apenas sete horas como ex-fumante? —Tia Ina, eu até sairia com esse cara, mas estou meio que namorando uma pessoa agora. — Mentira. Mentira cabeluda. — Não seria certo sair com outro cara. Não, você não o conhece. Não, eu não quero falar muito para não dar azar. Sim, ele é legal. E dá para você parar de se preocupar com o dinheiro da vovó? Ela não vai me deserdar só porque eu não quero ir ao casamento da Dana com um bobão que mora ao lado da casa dela. E ele não faz meu tipo mesmo, está bem? — Meio que namorando, ela diz.—Tia Ina estava me imitando. Eu podia imaginá-la sacudindo a cabeleira avermelhada. Ela adorava repetir o que os outros falavam na terceira pessoa. — Não faz meu tipo. E o que você sabe? Você nunca nem viu o Ethan. Ele não é um bobão! É um jovem perfeitamente bem-apessoado. E tem um empregão, trabalha com dinheiro. Não é que nem esses exibidos estranhos, de cabelo engomado, com quem você e as suas amigas magrelas andam por aí. Ele é do Texas. Isso quer dizer que sabe respeitar uma jovem. Ah, mas para que eu estou aqui gastando a minha saliva? Vá em frente, Jane. Fique solteira! Nunca se case... Eu tentei formular uma visão de Ethan Miles, o homem do incinerador, dos 300 mil dólares. Eu duvidava que fosse algo parecido com Matthew McConaughey, ou qualquer dos outros atores bonitões vindos do estado da estrela solitária. E tudo bem que eu não estava prestes a ganhar o concurso de Miss Nova York, mas pelo menos ninguém me descrevia como "perfeitamente bem-apessoada". Faça-me o favor. Todo mundo sabe o que isso quer dizer. E Ethan Miles morava no Queens, pelo amor de Deus. Separado de minha avó apenas por um muro branco. Mas que homem e tanto para casar, hein? Principalmente sendo um texano transplantado, morando no Queens, no meio dos idosos. Se ele era tão bom partido, por que não morava em Manhattan? De fato, vovó havia herdado 300 mil de Gertie, sua irmã solteirona. Ina tinha medo de que vovó, viúva há muito tempo, deserdasse Dana e eu, por quase não a visitarmos. Vovó achava que as reuniões dominicais com sanduíches de pastrami, salada de batatas, biscoitos amanteigados e recitais de piano eram o fino da bossa. Discordar desse conceito era a única coisa em comum que eu tinha com minha prima Dana, filha única de Ina. Nas reuniões de família, Dana
  3. 3. gostava de revirar os olhos dizendo que minha língua sarcástica iria me fazer ficar solteira e fora do testamento de vovó. E isso deixava Ina agitadíssima, pensando em como eu passaria o resto da vida com meu salário de 26 mil dólares por ano. O que tia Ina parecia não entender era o fato de que eu tinha um megaplano. E, mesmo que meu plano desse miseravelmente errado, eu teria um aumento de 4%, em três meses. Se você somar meus 5% de gratificação de Natal, eu já estaria ganhando mais de 28 mil até o ano-novo. Até que não era mal, não é? Segundo minha amiga Amanda, sua carreira está indo bem se sua idade coincide com o salário anual, em milhares. Eu estava perto. Se bem que em fevereiro eu já teria 29. —Você já comprou os seus sapatos de dama da noiva? — perguntou tia Ina. — Se precisa de dinheiro, não seja orgulhosa. É muito abuso o que cobram por sapatos que nem são de couro! Claro, que tal 135 pratas. — Escarpin pêssego-claro, salto 5, modelo princesa. Eu sei. Vou comprá-los, não se preocupe. — Não se preocupe, diz ela. — Então tia Ina estourou. — Você tem uma última prova do vestido no próximo sábado, senhorita espertinha. O que está esperando? Que os sapatos apareçam misteriosamente no seu armário? Sim, para falar a verdade, era exatamente isso que eu estava esperando. — Vou comprá-los no fim de semana, está bem? Minha amiga Eloise vai fazer compras comigo. Ela conhece sapatos bons. — Aquela que namora os estrangeiros? Eu fui até a porta, na ponta dos pés, e bati com força. —Tia Ina, tenho que ir. Tem alguém na porta. — Meu bem, escute. — Tia Ina sussurrava, como se alguém além do meu tio Charlie estivesse lá com ela. —Você e o Ethan foram convidados para o casamento da Dana sem acompanhantes. O que há de tão terrível em vocês entrarem no Hotel Plaza juntos, sentarem à mesma mesa? Isso vai deixar sua avó feliz, e que crime pode haver se todos pensarem que vocês são um casal? Você se sentirá melhor, confie em mim. Só gente casada, ou solteiros que morassem com alguém importante podiam levar convidados ao casamento da princesa Dana. Derrotados como eu — e, aparentemente, Ethan Miles — tinham que ir sozinhos. O motivo parecia ser o fato de que o jantar de primeira, a 225 pratas por cabeça, não se destinava a trepadas casuais. — Devo dar seu número a ele? — perguntou Ina. — Na sua idade, você não deveria ir a um casamento sozinha. Eu compreendo que seja um pouquinho humilhante. Na verdade, afirmações como aquela eram um pouquinho humilhantes. Além disso, eu tinha 28, não 32, pelo amor de Deus! — Tia Ina, eu já disse. Estou saindo com uma pessoa. Não seria certo ir ao casamento com esse tal de Ethan, está bem? Eu realmente preciso ir. Te adoro! Tchau! Mesmo que eu nunca mais saísse com ninguém, não ia sair com o Sr. Incinerador. Nunca. E, certamente, não o levaria como meu acompanhante ao casamento de Dana, uma festa extravagante e cheia de ostentação, boa para arruinar o domingo perfeito, daqui a dois meses, dia 2 de agosto. Como se eu precisasse que a Srta. Superioridade soubesse do meu desespero por um
  4. 4. namorado, a ponto de sair com o vizinho da minha avó. Não, obrigada. O cara levava o lixo na frente dos outros! E ter que ir ao casamento já era bem ruim. Mas havia coisa pior, sim. Eu era dama de honra da noiva. Pelo menos o vestido não era tão ridículo como poderia ser. Eu, pessoalmente, não teria escolhido pêssego, uma cor que não cai bem para ninguém, como cor predominante da minha festa de casamento, mas, afinal de contas, o casamento não era meu, como tia Ina me lembrava todas as vezes em que eu fazia um "comentário esperto" sobre as escolhas abomináveis de Dana. Pêssego fazia meus olhos castanhos parecerem duas manchas de lama, e o tom escuro de castanho do meu cabelo, desbotado como no "antes", daquelas transformações de "antes" e "depois". Eu já deveria estar muito grata por não ter um laço enorme na bunda. O Hotel Plaza. Quem se casa no Hotel Plaza? Ninguém. É insano. Um casamento no Hotel Plaza deve custar uns 500 mil dólares. Ninguém se casa ali. Bem, a não ser Ivanka Trump, talvez. E na época em que se casasse, nem o Donald teria mais condições de pagar um casamento no hotel que lhe pertencia. Dana Dreer, 24 anos, da família dos Dreers de Forest Hills, não era para se casar no Plaza. Cheguei a dizer que o noivo, de 30 anos, vindo da longínqua Rockaway, chamava-se Larry Fishkill, e fundou uma empresa de Internet cuja venda inicial de ações fez dele um multimilionário, quando isso ainda era possível? Graças a Deus eu não tinha permissão para levar ninguém. Quem eu levaria? Nem um amigo gay eu tinha. Não ter ninguém para levar, caso fosse permitido, isso sim seria humilhante. Ina finalmente se despediu, com seu típico suspiro sofredor e desligou. Coloquei o telefone sem-fio no carregador e voltei ao que estava fazendo antes da ligação dela, que era: escolher a roupa perfeita para o superdia de amanhã. Já eram 21h30, e isso significava que eu tinha quase dez horas para formar o conjunto perfeito que acompanharia as três coisas mais importantes da minha vida, que eram (não necessariamente nesta ordem): 1) Ser promovida: eu tinha um horário marcado amanhã de manhã, às 9h em ponto, com William Remke, presidente e editor da Posh Publishing. Eu vinha ralando na Posh há seis anos, sem reconhecimento, três como assistente editorial e três como editora assistente. Se eu não fosse promovida a editora associada, eu... bem, quem sabe o que eu faria? Talvez tirasse meia hora a mais de almoço, ou usasse papel timbrado para rascunho, um montão. Mas faria algo. 2) Pegar o Homem: por anos a fio eu fantasiava com Jeremy Black, meu chefe substituto (minha verdadeira chefe estava de licença maternidade). Jeremy era vice-presidente da Posh e diretor editorial. Solteiro (e hetero), 37 anos, e a cara do Pierce Brosnan. Ele tinha uma beleza tão cinematográfica que eu me enrolava para achar as palavras e, ao mesmo tempo, olhá-lo nos olhos. O que provavelmente se dava pelo fato de ele me ignorar completamente. Exceto quando enchia minha caixa de entrada com bobagens manuscritas (enviadas por multidões de pretendentes a escritor, que não tinham agentes). 3) Pegar o inimigo: bem pego. Ela era grande parte do motivo por eu estar farta do meu cargo humilde. Natasha Nutley era uma celebridade fajuta, cujo "livro de memórias contando tudo" incluía minha escalação como editora de projeto. Será que cheguei a mencionar que "Natraça" — ops, quero dizer, Natasha — e
  5. 5. eu estudamos juntas, no colégio? E que sempre odiei a cara dela, toda magrinha e lindinha, desde que eu tinha 12 anos de idade? Sem chance, que eu deixaria Natraça (a traça, para encurtar) pensar que eu era algo inferior a editora sênior, ganhando 100 mil dólares por ano, passando ferias nos Hamptons, com um namorado lindo, muito bem-sucedido e adorável, que... — Jane! Bem na hora. Eu corri pelo corredor de um metro de comprimento por meio de largura e entrei na cozinha minúscula, ajoelhei no chão preto-e-branco de placas de vinil e abri o armário embaixo da pia. — Oi! — berrei por cima da latinha de lixo. — Sobe aí, eu preciso de ajuda! Não se esqueça do creme de massagem que deixa o cabelo superliso, tá? — Me dá dez minutos! — Eloise Manfred gritou de volta, das profundezas do armário. Eloise morava no apartamento embaixo do meu. As paredes, piso e teto eram tão finos no prédio de seis andares, sem elevador, que nós descobrimos que poderíamos papear a noite toda se ela gritasse na direção do teto da cozinha e eu abrisse a porta do armário da pia. Se qualquer uma das duas, um dia, estivesse sendo assassinada em nossas cozinhas, a outra poderia ligar para a polícia. Um dia eu contei isso para tia Ina, achando que ela fosse parar de se preocupar com meu prédio sem porteiro. Não aconteceu. Eloise e eu trabalhávamos juntas, na Editora Posh. Durante minha primeira semana na editora, eu mencionei que estava à caça de um apartamento e Eloise me falou sobre este, que estava vago, bem acima do dela. Ela havia me mostrado uma foto e dissera que a quitinete no andar superior tinha a mesma disposição. O aluguel era estável, e isso era tudo que eu precisava ouvir. Corri até o escritório do senhorio, com todas as minhas economias de vida, em espécie, que representava quase o equivalente a um mês de aluguel e mais um de depósito (ainda tive que pegar 200 emprestados com Ina). Com a entrega do dinheiro e a constatação do meu crédito limpo, a caixinha de fósforos era minha. Meu quitinete não se parecia em nada ao de Eloise, em termos decorativos. Não era à toa que ela ocupava o cargo de assistente associada de artes (um título quase pior que o meu). Eloise tinha feito as coisas mais incríveis com telas, cortinas de seda e fotos em preto-e-branco, tudo comprado nas feiras de coisas usadas. Há seis anos, meu endereço era 818 Leste, rua 81, e eu ainda tinha a mesinha rosa-choque de plástico, comprada para o meu dormitório da faculdade. Se você está se perguntando como eu podia pagar o apartamento com meu salário, que era, acredite, bem mais horrível íeis anos atrás, foi tudo na base de orçamentos e cartão de crédito. Tia Ina me ensinou algo sobre fazer orçamentos que eu, por acaso, prestei atenção. E realmente deu certo. Eu recebia duas vezes por mês, então punha de lado metade do que teria que pagar com o aluguel e as contas, e separava a outra metade no segundo pagamento. Então, guardava 50 pratas na poupança c o resto era dinheiro circulante, para comida, metro, essas coisas. Fora isso, jogava tudo nos cartões de crédito. Eu tinha quatro: o Visa, o cartão da loja AnnTaylor, um da Macy's e um da Bloomingdale's. A única coisa que comprei na vida, na Bloomies, foi maquiagem MAC, mas eu gostava de ter o cartão. De qualquer forma, graças ao sistema de Ina, quando era hora de pagar as contas, eu sempre tinha a grana.
  6. 6. Ouvi Eloise trancar o apartamento e subir pela escada correndo, rumo ao sexto andar. Depois a ouvi correr de volta para baixo e destrancar a porta. Ela devia ter esquecido o creme de cabelo. Uma das inúmeras coisas que eu adorava em Eloise Manfred era o fato de ela ser dois anos mais velha que eu (a dureza do "três ponto zero") e não se importar em ser solteira. Aliás, ela tinha prazer com a liberdade e as opções que esta oferecia. Ela saía e namorava sempre. Homens mais jovens, mais velhos, bonitinhos, horrorosos, musculosos, baixinhos, carecas, gostosões. Todas as nacionalidades, cores e profissões. Uma vez tia Ina encontrou Eloise. Nós três marcamos em meu apartamento para uma ida até as pontas de estoque de Seacaucus, em Nova Jersey. Isso foi durante a fase em que Eloise estava curtindo uns morenos. Ela levou o Abdul até lá em cima para nos apresentar e coincidiu com a chegada de Ina que deu uma olhada em Abdul e o instruiu a pegar a rua 42, depois atravessar o Lincoln Tunnel. Abdul, que não tinha lá um inglês muito bom, não fazia a menor idéia do que ela estava falando. E, para falar a verdade, Eloise e eu, muito menos. Até que Ina cochichou para mim: — Esse é o motorista que vai nos levar, não é? Eu prendi a respiração. Mas Eloise deu uma gargalhada e beijou Ina no rosto. Segundo Eloise, tia Ina era um clássico. Esta era outra razão por eu tanto adorá-la. No momento, Eloise estava saindo com um imigrante russo, cabeleireiro, chamado Serge. Ele parecia um John Travolta europeu, se é que você consegue imaginar. Eles já estavam se vendo há três meses e ele a adorava. Serge era do tipo cavalheiro à moda antiga. Levantava quando uma moça entrava na sala, trazia flores para Eloise todas as vezes em que saíam e elogiava suas tentativas ridículas de cozinhar. Um mês antes, ele parecia delirante, falando do estilo de cabelo que estava na moda em Moscou, e Eloise, sempre pronta para tudo, o deixou mostrar a que veio. Quando ele a rodopiou triunfante de volta ao espelho, ela tinha o penteado de Jennifer Aniston, da época de Friends, uns seis anos antes. Ela não teve coragem de dizer a Serge que Friends já estava uns anos à frente na América. Nem que já tinha usado aquele exato penteado, como todas as outras mulheres dos Estados Unidos. Eloise deu sua batidinha tripla especial e eu destranquei o ferrolho, as três voltas da chave e deslizei a correntinha. Ela estava radiante, seus olhos castanhos brilhavam, o que significava que estava prestes a me fazer um grande favor. Ela gostava de fazer as pessoas felizes. — Não diga não — ela ordenou. Então esticou as mãos, abrindo-as. Em cada uma delas reluzia um brinco de diamante de um quilate. Sua mãe lhe dera como herança, apenas algumas semanas antes de morrer de um câncer no ovário. Aqueles diamantes eram as coisas mais valiosas que Eloise possuía. Eu sabia o que era estimar algo deixado pela mãe. Eu fechei os olhos bem apertados por um momento. Eloise deu sua gargalhada de não-me-faça-chorar- também. Uma vez eu perguntei se ela achava que seríamos melhores ' amigas se não tivéssemos em comum a perda de nossas mães (para o câncer). Eloise respondeu que decididamente sim. Eu concordei. Minha mãe morreu quando eu tinha 19 anos e estava no segundo ano da faculdade. Eu já havia perdido
  7. 7. meu pai, quando tinha nove. A mãe de Eloise falecera quando ela tinha 18. Ela nunca falava do pai, mas era muito próxima à avó por parte de mãe. —Você vai usá-los amanhã, e fim de papo. — Eloise anunciou, fechando a porta atrás de si. Ela puxou o tubo de creme para o cabelo da cintura da calça jeans e o colocou sobre a mesa. — Natasha certamente irá notá-los. E eles "dizem" editora sênior. Eu peguei os brincos e botei nas orelhas, puxando o cabelo para trás, fazendo pose para Eloise. Eu disse obrigada, depois admirei as pedras no espelho grande, pregado na parte de trás da porta do banheiro. — Mas El, eles também dizem "Meu-Super-Bem-Sucedido-Namorado-Que-Me- Deu, Engole Essa, Natasha Nutley"? Eloise deu uma gargalhada. "Dizer" era "A" palavra na Posh Publishing. Assim que os figurões (ou seja,William Remke e Jeremy Black) decidiam se um livro valia ser publicado. Ele tinha que "dizer" algo que fizesse com que todos comprassem. Ano passado, Gwendolyn Welle, editora sênior e minha chefe, me empurrou uma autobiografia de um ex-ator infantil, que dizia: se você ler, vai ficar deprimida por uma semana. Sitcom Kid: No Laughing Matter (O garoto da comédia: nada de engraçado) havia emplacado a lista do New York Times de mais vendidos, na 23a colocação, mas, para a pequena Editora Posh, isso era tão bom quanto o primeiro lugar. Remke estava vibrando. Ele deu uma festança no loft do escritório para comemorar. Como editora de projeto da autobiografia, eu ganhei duas horas de almoço (oba). Gwen, que havia comprado o manuscrito (mas fez um quarto do trabalho), ganhou um aumento gigantesco. Jeremy, que não fez nada além de dar sinal verde para fechar o negócio, ganhou uma caneca linda e uma entrevista especial na Publishers Weekly, na qual foi homenageado como "a chancela da mente brilhante por trás do sucesso dos livros de não-ficção da Posh". Chancela da Posh. Sei. E Remke recebeu zilhões de ações, concedidas pela matriz. Uma grande rede de televisão estava transformando o Sitcom Kid na sessão especial de fim de semana. Eu e Eloise ficamos de sacanagem, dizendo que a criança que fizesse o papel do garoto, um dia também acabaria sem teto, viciado em drogas. Não que isso fosse engraçado. Ah, espere. Isso me lembra de outra coisa. Eu ganhei sim, mais uma coisa, por ser editora do projeto do livro: depressão por uma semana. Eloise foi até a cozinha e olhou a geladeira. Voltou para a sala com uma garrafinha de chá gelado e sentou no colchão, que ocupava quase todo o espaço do pequeno cômodo. Recostou-se nas almofadas, abraçando uma delas. — Certo. Agora vamos nos concentrar. O que é mais importante? — Eloise perguntou, colocando as madeixas de Jennifer Aniston atrás da orelha. — Impressionar a Traça, ser convidada para tomar um drinque com Jeremy ou ganhar .aquela promoção do Remke? Isso era fácil. Eu agarrei a garrafa de chá e tomei um gole, depois devolvi a Eloise. Para começar, a promoção já dispensaria a necessidade de mentir para a quase famosa ex-companheira de colégio sobre o meu cargo patético, aos 28 anos de idade. E impressionaria Jeremy, que talvez me convidasse para sair e comemorar, pelo meu trabalho árduo e dedicação à família Posh. — A promoção dá jeito em todo o resto — eu expliquei, pegando o maço de Marlboro Lights. Quase derrubei a mesa barata de plástico e Eloise salvou a
  8. 8. garrafa de chá bem hora. Eu não podia comprar uma mesa de verdade até que tivesse um apartamento de verdade, com quarto. Todas as noites, eu precisava tirar a mesa do lugar para poder desdobrar o colchão, que era dobrado novamente, todas as manhãs. Assim era a vida, numa quitinete. — Ai! Só tem mais um — reclamei, acendendo o cigarro. Dei uma tragada comprida, prazerosa, soltando a fumaça em direção ao teto. Eloise tirou o cigarro da minha mão e deu uma tragada igual, depois o devolveu a mim. —A gente precisa parar.—Ela dissera isso uma vez, há uma semana e pouco. — É. Subir e descer seis lances de escada para comprar um maço é um problema. — Eu traguei, depois soltei a fumaça. — Talvez a gente possa conseguir que a lojinha da Primeira Avenida entregue. — Um maço de cigarros? — Eloise perguntou, olhando as pontas do cabelo, à procura de fios duplos. — O atendente da noite tem uma queda por você — eu a lembrei. — Ele sempre fica olhando para o seu peito, quando entramos lá. Que, por sinal, era bem menor que o meu. Mas ela atraía mais os homens.Talvez porque vestisse blusas apertadas, de gola alta. Eu já era mais do estilo sério, dos blazers da Ann Taylor. Como era da área artística e esse era seu estilo, Eloise não precisava se vestir de forma muito comportada. Ela olhou para cima e gesticulou para que lhe passasse o cigarro. Deu um trago. — Então sua grande reunião com Remke será logo de manhã, certo? Nervosa? Eu concordei com a cabeça, olhando a fumaça subir e desaparecer. Talvez arranjar essa reunião para discutir o meu destino na sexta-feira não tivesse sido uma idéia tão boa. Se Remke risse na minha cara (ou um profissional equivalente), arruinaria o meu fim de semana. Eu mordi o lábio e me olhei no espelho. — Você vai conseguir a promoção — ela me assegurou.— Você a conquistou. Só precisa entrar lá e expor seu caso. Não deixe que ele a intimide, Jane. Ah! Isso era piada. Intimidação era o nome do meio de William Remke. Ele era bem Nova York, muito sofisticado. Parecia uma versão não tão bela de Blake Carrington, de Dinastia, aquele antigo programa de televisão. Remke era meticuloso, com seu cabelo, seus ternos, até com sua caixa de entrada. Ele gostava que sua equipe tivesse um certo estilo, para ter certeza de que éramos o tipo de gente de que ele gostava. Por essa razão, todos na Posh tinham uma aparência bem-composta, e vestiam cores neutras. Eu me espelhava em Gwen, já que ela tinha o mesmo cargo que eu aspirava. Ela nunca vestia jeans no trabalho; eu também não. Ela trabalhava até as 19h, então eu trabalhava até 19h01. Ela bebia chá verde e pedia saladas exóticas no almoço. Eu parei com a Coca-Cola e com os sanduíches de presunto e queijo, que trazia de casa. Ela vestia DKNY. Eu fazia o melhor para ficar parecida. Eu não era muito boa de estilo, mas tinha Eloise para me ajudar. Eloise adaptava o visual naturalmente, mas isso porque ela era daqui, de Manhattan, eu quero dizer. Freqüentou colégio particular no Upper East Side e tudo mais. Ela havia sido obcecada pela Anna Wintour, na adolescência. Natasha Nutley e Fran Dresher de The Nanny haviam sido meus exemplos durante o colégio. Natasha porque era tudo que eu gostaria de ser. E Fran por ser de Queens.
  9. 9. Eu tinha mudado desde que me formara no colégio, pela Forest Hills High. Aquele velho ditado de que "tira-se uma boa garota de qualquer lugar, mas não é qualquer lugar que se tira de uma garota", não era para mim. Não dá para ter sucesso no mundo editorial da cidade de i Nova York com o espírito provinciano dentro de você. Então trabalhei duro. Não havia nem um pingo do Queens em mim, inclusive no sotaque. Ninguém jamais desconfiaria das minhas origens de além dos túneis e pontes. Às vezes eu penso se minha própria mãe me reconheceria. Isso, se ainda fosse viva. Acho que ficaria orgulhosa. Virgina Gregg sempre disse que algum dia eu seria alguém importante. Tia Ina sempre dizia que eu me esforçava demais. Mas, nem de longe ela sabia o quanto eu me esforçava. — Eu não agüento — anunciou Eloise, soltando um círculo perfeito de fumaça, amassando a bagana no cinzeiro. —Vou descer para comprar um maço. Já volto. Eu destranquei a porta para ela, agradecida. Eu precisava de cigarros para passar a noite. O amanhã seria grandioso. Eu tinha o horário marcado com Remke, minha primeira reunião com Natasha (no almoço) e, por ser sexta-feira, seria a última chance para que Jeremy percebesse que eu tinha peitos e uma vagina, e me chamasse para sair no sábado à noite. Como se isso fosse acontecer algum dia! Vi meu reflexo, pensando no que mais poderia fazer para me tornar atraente para Jeremy Black. Gwen certa vez me disse que eu era parecida com a moça do antigo seriado That Girl. Tudo que me lembro do programa era que minha mãe costumava assisti-lo e morrer de rir, quando eu era bem pequena. Acho que devia haver alguma semelhança entre mim e Mário Thomas, quando jovem, exceto seus cabelos esvoaçantes. Mas eu realmente tinha olhos castanhos e brilhantes, cabelos castanhos bem escuros, até os ombros, e pele clara como a dela. Mas não chegava a ser "aquela garota", estava mais para garota invisível. Para Jeremy Black, pelo menos. Talvez eu estivesse me esforçando demais mesmo, como tia Ina pensava. Para ficar com um ar mais "editorial", algumas vezes por semana eu usava óculos sem receita, que imitavam um par usado por Julianne Moore, na revista Style, Gwen também usava óculos, mas acho que ela realmente precisava. Minhas unhas estavam sempre curtinhas, pintadas de rosa-claro, de acordo com um artigo sobre Jacqueline Kennedy Onassis, que minha mãe leu um dia, no qual ela dizia que as unhas das mãos devem ser da cor de sapatilhas de bale, e as dos pés, de 11 m vermelho clássico. Minha mãe idolatrava Jackie O., assim como eu idolatrava Fran Dresher. Graças a Deus eu não havia baseado meu estilo de vestir em The Nanny. Eu olhei para o espelho, virando para a esquerda, depois para l direita. E cheguei à conclusão de que era bonitinha. Bem bonitinha, até. Mas não era uma gostosona. Nem de longe. Alguns meses atrás, eu vira Jeremy saindo de um restaurante com o braço em volta de uma mulher que parecia Heidi Klum. Ela não tinha nada arredondado, a não ser a bunda perfeita.A quem leu estava querendo enganar? Jeremy Black jamais olharia para mim duas vezes, exceto para me pedir que fizesse uma cópia ide um manuscrito, ou lesse algum material do amigo da irmã da prima do irmão da namorada dele, para depois escrever uma crítica cuidadosa. Eu mostrei a língua a mim mesma, como a menina de 12 anos que me sentia, e despenquei em cima do colchão, suspirando bem alto. De repente,
  10. 10. desejei ter um daqueles gatos estereotipados para acariciar, como as mulheres solteiras têm. Não havia absolutamente nada de aconchegante em meu apartamento. A não ser a minha foto, com meus pais, quando eu tinha oito anos. Mas não dá para abraçar uma foto. — Voltei! — Eloise gritou, já na porta. Eu a destranquei e ela entrou cambaleado, quase sem fôlego. — Essa escada vai nos matar antes do cigarro. —Ela atirou o maço novo em cima da mesinha. — Certo. É hora de promoção! Vamos fazer primeiro sua maquiagem, depois o cabelo, depois você vai se vestir. Eu estava pensando naquele terninho preto de blazer bem cortado e... Eu botei os braços ao redor dela e apertei. Às vezes, Eloise era todo o consolo de que eu precisava. Cada urna de nós acendeu um cigarro. — Ah, espera! — eu disse. — Precisamos da última inspiração. Em grandes momentos, eu colocava o CD Millennium, dos Backstreet Boys, para tocar no último volume, bombando o apartamentinho. Eloise riu. Remke estava tentando articular para que um dos garotos da banda, que fosse menos conhecido (como se houvesse algum), escrevesse uma biografia detalhada, ou, na verdade, contasse detalhadamente. Remke não tinha muita certeza se cantores bonitinhos, de 19 anos, sabiam escrever. Eu e Eloise cantávamos, enquanto ela começava a fazer sua maquiagem mágica, me mostrando no espelho, a cada etapa. O objetivo era algo sofisticado, chique, porém natural. O pó em tom claro de bronze que ela passou no meu rosto dava uma aparência ligeiramente bronzeada, de uma executiva esperta, que não se expunha demais ao sol, durante o fim de semana passado na região dos Hamptons, ao lado do namorado bem-sucedido. Meu vizinho ao lado esmurrou a parede. Eloise e eu viramos os olhos simultaneamente, e eu abaixei o som do CD player. Uma hora depois, eu estava diante do espelho, sorrindo para Eloise. Ela me olhou através da fumaça de um trago e arrumou meu blazer preto e o lencinho no meu pescoço. —Você certamente está dizendo "Promova-me". Agora tudo que eu tinha a fazer era recriar isso amanhã, às 7h30. Rinc, rinc, rinc. — Ah, ah, aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh! Eu abri um dos olhos exaustos e espiei o despertador. Os números vermelhos eram reluzentes demais. Eram 6h38. A vida sexual do homem da ópera arruinaria minha chance de ser promovida. Eu precisava, desesperadamente, daquela 11 ora de sono que me restava. Durante a noite toda, eu virei de um lado para o outro, aperfeiçoando o meu discurso para William Remke. Já eram quase 2h da manhã quando eu finalmente apaguei. Peguei no sono com o ranger da cama do homem da ópera e os acordes de Aída. Eu já deveria estar contente por ter dormido durante o orgasmo da namorada dele, já que o dessa manhã fora tão alto que eu pude ouvir sua respiração ofegante, alternando os "ahs". O homem da ópera morava do outro lado do corredor e nós compartilhávamos uma parede comprida,bem onde ficava meu colchão. Eu não
  11. 11. tinha idéia do nome do homem da ópera, l >em, eu sabia que seu sobrenome era Martinelli. E sua primeira inicial,"A", pois estava escrito na etiqueta adesiva da caixa de correio e na porta do apartamento. Eu ouvia quase tudo que passava lá dentro. Até sua obsessão com ópera, às vezes, irritante, mas, a maioria delas, confortante. Eu escutava todas as grandes apresentações. Era muito topete da parte dele esmurrar a parede por causa de uma musiquinha " adolescente, se ele colocava Carmem para arrebentar e fazia um sexo tão barulhento. Eloise e eu imaginamos que ele devia ser parecido com Ricky Martin. Quem mais faria uma mulher gritar daquele jeito? Nesses dois anos que ele morava ali ao lado, eu nunca o havia visto. Com exceção de Eloise e outras tinas mulheres solteiras — uma no segundo andar e uma no quarto —, eu não conhecia nenhum dos meus vizinhos, e raramente esbarrava com eles. — Ah, ah, aaaaahhhhhhh! PENA ela não gritar o nome dele, assim eu saberia o que significa o "A". Talvez o homem da ópera tivesse me feito um favor, ao me acordar tão cedo. Seria bom ter uma hora a mais para me aprontar e comer alguma coisa, além do pãozinho com requeijão. — Ah, ah, ééé, aaaaahhhhhhh! Às vezes eu me perguntava se todo mundo em Nova York tinha uma vida sexual melhor que a minha. A última vez em que eu havia ficado nua com um homem foi quando estava saindo com o cara do Soldado da Fortuna, depois de ser convencida por Eloise.Ele era amigo e colega de trabalho de Jeff, namorado de Amanda, nossa amiga. Nós saímos duas vezes e, na segunda e última vez, eu infringi a regra, ao dormir com ele antes da saída número quatro. De manhã, ele me serviu café instantâneo e um bolinho inglês, numa mesa improvisada que, na verdade, era urna pilha de revistas do Soldado da Fortuna, datadas da era de Neanderthal. Eu cometi o engano de demonstrar meu choque. Nós começamos uma grande discussão, que os dois finalizaram com um "Ótimo" e eu saí do apartamento dele batendo a porta. Ele foi o quarto cara arranjado pelo namorado da Amanda para mim. Isso tinha sido há quase dois anos. Depois daquele episódio, Jeff parou de me oferecer seus amigos. Eu já não fazia sexo há quase dois anos. E aquela última vez, por sinal, nem tinha sido tão bom. — Ah,ah,ah! O próprio homem da ópera nunca fazia barulho, só suas parceiras. Meu despertador disparou e eu resolvi deixá-lo tocando para abafar os "ahs" do meu ouvido. O homem da ópera esmurrou a parede imediatamente. Eu desliguei o despertador. Talvez o "A" fosse de Abestado. Fiquei deitada na cama, de olhos fechados. Eu tinha coisas mais importantes a fazer do que desejar ter uma vida sexual. Como fantasiar que Jeremy era o homem da ópera e eu, sua garota do "ah".
  12. 12. Capitulo 2 — Jaaane. Eu me virei e vi que estava perto demais de Morgan Morgan, a assistente que Remke e Jeremy dividiam. Morgan Morgan era seu nome verdadeiro, por tudo que é sagrado. Ela afirmava que Morgan era o nome de solteira da mãe e também o sobrenome de seu pai, então eles acharam que chamá-la de Morgan Morgan era algo predestinado. Eu também achava... —William está pronto para vê-la agora, Jaaane. Morgan sempre pronunciava meu nome com um tom meio choramingado, da forma como se falava em Long Island. Ela tinha 22 anos, acabara de sair da Barnard. Tinha alguma beleza, mas uma beleza meio eqüina, e estava de olho no meu emprego. Ela não era confiável. Eu dei uma olhada no relógio. Eram exatamente 8h59. Minha reunião com Remke estava marcada para as 9h. O homem nunca, jamais, se atrasava para nada. Corri os olhos ao redor da editora para ver se Eloise estava por perto, só para me dar um aceno de incentivo. Ela e Daisy, a diretora de arte que também era sua chefe, estavam às voltas com uma pilha de slides, na sala de projeções de frente para o departamento de arte. Dei um sorriso gelado para Morgan e passei por ela, que estava em seu cubículo insignificante, e parei um instante na porta de Remke. Esta é a hora.Você está entrando no escritório do homem. Vai exigir seus direitos! Respire fundo, respire fundo, respire fundo.Você consegue. Não o deixe intimidá-la! A porta subitamente se abriu. — Ah, aí está você, Gregg. — Remke saiu enquanto eu cambaleava para entrar. — Morgan! — ele gritou, passando por mim, e pôs a cabeça para fora da porta. — Café! Vamos, vamos — ele disse para mim. — Eu tenho uma reunião em 15 minutos. Quinze minutos. Eu tinha 15 minutos para mudar o curso da minha vida inteira. Eu fechei a porta atrás de mim e dei alguns passos adentrando o escritório gigantesco. Sem brincadeira, era maior que o meu apartamento. O sol entrava pelas janelas que iam do teto ao chão, localizadas atrás da mesa de Remke. Os raios refletiam nos cabelos grisalhos abastados, e no prateado da armação dos óculos. Ele pegou uma pilha de memorandos da caixa de entrada e acomodou seu 1,92m no sofá caramelo, ao lado da mesa. Será que eu deveria sentar ao seu lado? Ou numa das poltronas de visita, em frente à mesa, evitando ficar diretamente de frente para ele? Eu mordi meu lábio inferior, efetivamente comendo o batom. Eu havia feito a solicitação da conversa com tanto cuidado e Remke estava folheando papéis. Comecei a suar nas palmas das mãos. Uma gota também escorreu por entre os meus seios. Respire fundo, respire fundo. Dei uma olhada para a parede de vidro. Dava para ver o topo do Chrysler Building, o Empire State e... —Vamos, vamos — resmungou ele, com os olhos nos memorandos. Ele falava muito isso.Vamos, vamos. Falava pelo menos umas 100 vezes por dia. Isso intimidava tanto as pessoas que, quando começavam a falar, Remke já estava na metade do corredor.
  13. 13. Limpei a garganta. — Hum, sim, bem, eu queria falar com você a respeito do meu futuro na Posh. — Apertei as mãos nas costas, sem ter certeza do que fazer com elas. Eu gostaria de transmitir uma postura confiante, como Morgan sabia fazer. Eu era seis anos mais velha que ela, com seis anos de experiência na casa, e ainda falava "hum", e suava nas mãos. Morgan era muito articulada. Eu duvidava que ela tivesse glândulas de suor. — Seu futuro? — Remke repetiu, afastando os papéis. — Por que está falando comigo? Fale com Black. Ele é seu supervisor direto, agora que Gwen está de licença. Aliás, você deveria esperar até que Gwen retorne. Remke referia-se a todos pelo sobrenome, exceto a Gwendolyn Welle, o que me causava uma irritação sem fim. Eu imaginava que fosse um certo cavalheirismo e consideração. Remke gostava de Gwen, a respeitava. Eu mal suportava a senhorita mascarada e estava radiante com a prorrogação de sua licença maternidade. Quatro meses, em vez de três, o que significava mais três meses sem sua presença sufocante. Mas isso certamente não significava que eu teria que sofrer por mais três meses, sem uma promoção. Grande parte da carga de trabalho de Gwen recaiu sobre mim, exceto dois grandes talentos que ela andara cortejando (Jeremy tinha conseguido assinar com ambos — mulheres, é claro — no mesmo instante em que pegou um vôo e foi encontrá-las pessoalmente, o que deixara Gwen furiosa). Eu vinha trabalhando em jornada dupla por seis anos, passando a jornada tripla no momento em que Gwen saiu pela porta carregando seus presentes do chá de bebê. Eu merecia a promoção e já tinha tocado no assunto com ela, antes de sua saída. Ela veio com aquele papo de "continue a fazer o que você está fa-zendo" e me deu uma dispensada, dizendo que eu tinha sua bênção para falar com Jeremy e Remke, enquanto ela estivesse de licença. Uma das coisas que eu mais detestava em Gwen era o fato de ela ser quase decente comigo. Mas isso era somente por ela não me ver como uma ameaça. Era muito pouco caso. Por que eu não era ameaçadora? Eu era jovem, inteligente e ambiciosa. Não era? Remke olhava um memorando com cara de poucos amigos. Algumas rugas se formaram em sua testa. Eu me sentei numa das cadeiras e virei, com dificuldade, para ficar de frente para ele. — Sim, bem, hum, eu cheguei a falar com Gwen e ela sugeriu que eu falasse diretamente com Jeremy ou com você. — Será que eu soava como uma idiota? Eu nunca tinha certeza se estava fazendo sentido quando falava com determinadas pessoas, como Remke e Jeremy, ou qualquer um que me in-timidasse. Pela minha incapacidade de falar com Jeremy e olhá-lo ao mesmo tempo, você pode imaginar como havia sido minha conversa com ele. Ele mal deixou que eu terminasse a frase. Talvez porque eu estivesse olhando para os seus sapatos. — Morgan! — Remke gritou em direção à porta. — Onde está o material de imprensa do negócio fechado com Natasha Nutley? Morgan! Duplamente irritante era a impossibilidade de saber se Remke estava chamando Morgan pelo nome ou pelo sobrenome. Eu preferia pensar que era pelo sobrenome. Uma batida rápida antecedeu a abertura da porta. Morgan Morgan entrou com uma caneca de café, que entregou a Remke.
  14. 14. — Está bem ali, na sua mesa.Wiliaaam — disse ela, choramingando com aquela boca feia. Sempre tão eficiente, ela rapidamente pegou o papel e entregou a ele. Remke correu os olhos no press release das memórias de Natasha Nutley de cara fechada. — Quem escreveu isso? Minhas bochechas queimavam. Eu senti os olhos de Morgan na minha direção, e dei uma olhada rápida. Eu podia jurar que ela sorriu. Ela disfarçou, mas eu vi. A piranha sorriu! Limpei a garganta. — Hum, eu escrevi? —Você está me perguntando ou me dizendo? — indagou Remke, bruscamente. Seus olhos azuis de gelo se estreitaram para mim, por cima da armação dos óculos. Eu passara quatro dias (bem, na verdade, foram quatro noites em claro, em casa), escrevendo e aperfeiçoando as 350 palavras naquele pedaço de papel. Gwen geralmente escrevia o material de assessoria de imprensa para projetos grandes, principalmente os press releases que anunciavam uma venda expressiva. Mas, graças à sua ausência, eu tive que escrever sobre a publicação iminente do livro de memórias da Traça, ainda sem título. O que eu poderia ter feito de errado? Jeremy aprovara o press release, que já fora editado e revisado.Toda a informação pertinente estava ali, e eu contei a história de maneira bastante inteligente — como estou dizendo. Esta era outra frase da Posh, que dava ênfase aos elementos-chave. Será que havia algo errado com a impressão? Ou talvez eu o tivesse chamado de brochura comercial, em vez de produto para o mercado popular? Ou não dera tanto enfoque à natureza escandalosa do caso que Natasha mantivera com um ator famoso? Essa seria a essência — ou a falta dela — na biografia da Traça. Ai, meu Deus! Seria possível que eu tivesse me referido a Natasha como a Traça, no material de imprensa? — Quero dizer, sim, eu escrevi — retifiquei. Eu podia dar adeus à promoção. Eu seria uma editora assistente para o resto da vida. Os temores de tia Ina haviam se concretizado. De agora em diante, eu teria que passar os domingos com vovó, comendo pastrami e biscoitos amanteigados, mantendo minha boca sarcástica fechada, para que ela não me deserdasse. Eu teria que convidar Ethan Miles para o casamento de Dana. Seria obrigada a assistir à ascensão meteórica de Morgan Morgan de assistente editorial a editora, pulando a função de editora assistente, porque... — Está bom pra cacete! — disse Remke, batendo no papel com a caneta timbrada da Posh. Morgan franziu o rosto. Eu sorri. — Se você ajudar Nutley com a autobiografia tão bem quanto escreveu este release, vamos ver sobre sua promoção a editora assistente, Gregg. Morgan sorriu. Meu estômago revirou. — Hum,William? Eu, hum... já sou editora assistente.Eu... hum... estava esperando ser promovida a associada. — Morgan, chame Black aqui. — Remke interrompeu.
  15. 15. — Diga a ele que temos que conversar sobre a assinatura daquele garoto do Backstreet.Traga o kit de imprensa também. E mais café. — Ele recostou no sofá e começou a folhear mais papel. — Gregg, como eu disse — ele deu uma olhada para mim e voltou a olhar para baixo — vamos ver como se sai com o manuscrito de Nutley. Ela acrescenta um nível de sofisticação, uma distinção de celebridade. E uma celebridade traz outra. Temos um orçamento que permite uma promoção maciça do livro de Nutley, então não há razão para não entrarmos na lista prorrogada do Times, Gregg. E se Jeremy conseguir assinar com o garoto do Backstreet, vamos para as cabeças. E estar nas cabeças significa grandes orçamentos que proporcionam benefícios, como promoções. Mas não se preocupe com isso, Gregg. Apenas continue com o que você já está fazendo. Morgan sorriu. Por que será que os figurões gostam de dizer isso? Eu ouvia essa enrolação do "apenas continue com o que você está fazendo" em todas as avaliações de desempenho. Só faz com que você se sinta mais impotente e pior do que já estava. Afinal de contas, o que você estava fazendo não o estava levando a lugar algum, exceto ser posto de escanteio. Talvez Gwen, Jeremy e Remke fossem gostar de tentar morar em Nova York com 26 mil por ano, lendo manuscritos no metrô, indo e voltando do trabalho. Talvez Remke adorasse ser obrigado a escolher entre comprar cigarro ou jantar, por estar totalmente quebrado na noite anterior ao pagamento. Está bem, está bem. Agora chega de resmungar. E se eu parar de fumar, posso até comprar um burrito de frango reforçado, no Blockheads, o restaurante mexicano que eu e Eloise sempre freqüentamos, certo? Eu sei disso. Mas como é que eu poderia parar de fumar se nem sequer conseguia manter uma conversa com Remke sem dizer "hum". Remke batia com a caneta na coxa revestida de Armani. — O que é que vocês duas ainda estão fazendo aqui? Xô. Vão. Já terminamos. Onde está Black? Morgan empinou o nariz ao passar por mim, saindo do escritório de Remke. — Obrigada William — eu disse. — Sobre o release de Nutley. Eu fiquei, hum, também fiquei muito orgulhosa e... —Tudo bem, Gregg. Obrigada. Feche a porta na saída, faz esse favor? — Bem, pelo menos eu ganhara um elogio. E um "talvez". Bem, era mais uma meta. O meu astral caído deu uma levantada. Eu tinha ouvido algo além de "apenas continue com o que você já está fazendo". Mas percebi tudo. Remke já tinha tudo bem esquematizado quanto ao que queria que eu fizesse: colocar o livro de Natasha na lista prorrogada dos mais vendidos do The New York Times. Esta seria a única forma de conseguir minha promoção Só se Jeremy realmente conseguisse assinar com o Backstreet Boy, elevando o orçamento para todos. Mas, a não ser que o garoto fosse gay eu duvidava que Jeremy pudesse fazer sua mágica com tanta rapidez, se é que conseguiria. — Gregg, aonde você vai levar Natasha para almoçar hoje? A mão já estava na maçaneta, eu me virei. — Hum, no Blue Water Grill? Ele parou de folhear os papéis. —Você está me perguntando ou me dizendo? O que havia de errado comigo? Por que eu estava sendo um desastre com esse homem? Por que estava tão insegura o tempo todo?
  16. 16. Eu só podia ficar agradecida por Morgan Morgan não estar por perto para me lançar sorrisos maldosos. —The Blue Water Grill — eu corrigi, acenando firme com a cabeça. — Certo. Mantenha um teto de 100 dólares. E também a mantenha falando. Essa é a hora, Gregg. Natasha é peixe grande para a Posh.Eu preferi confiá-la a você em vez de Black porque você tem o vínculo do colégio. Mulheres gostam de fofocar, principalmente quando voltam ao passado. Faça com que ela confie em você. O objetivo é fazê-la revelar todos os detalhes sórdidos do caso e fazer com que assine uma continuação, enfocando os meses que passou na reabilitação. Reabilitação agora é sexy. Faça o melhor, Gregg. Talvez ele tivesse esquecido que já fizera esse discurso cinco vezes, desde a semana passada, quando me incumbiu da autobiografia. .. — Farei — eu disse, e saí rapidamente do escritório. Reabilitação agora é sexy. Remke era tão babaca! Às vezes me dava vontade de fechar a mão e dar-lhe um soco bem no meio daquela cara esticada de lifting! Mas, no momento, eu tinha problemas maiores. Como, por exemplo, levar Natasha para almoçar no Blue Water Grill sem ultrapassar 100 pratas. Eu teria que recusar uma entrada, ou salada, pediria um filé de linguado sofrível, com um copo d’água, e assistiria Natasha comendo as garfadas do melhor salmão do universo, com sua boca perfeitamente delineada. Correção: eu teria que assisti-la fazer o pedido, depois dar só três garfadas, para manter seu corpinho de supermodelo. Eu ia me entupir com aquele pão inacreditável do Blue Water. O pão era de graça. — Morgan! — Remke gritou atrás de mim.— Café! Onde está Black? Eu segui na direção da minha salinha. O monólogo de Remke borbulhando na cabeça. Uma continuação. Distinção de celebridade. Por favor. Natasha era uma atrizinha, escrevendo uma autobiografiazinha, sobre o seu casinho com um ator, cuja identidade ela nem tinha permissão para revelar. Está bem, diziam que o ator era famoso. E daí? Ela se aproveitara até a última gota da identidade misteriosa e de supostamente ter ficado de coração partido. Depois vendera a história comovente a revistas femininas, e até conseguiu articular sua aparição em algumas entrevistas, em programas de segunda categoria. O negócio todo era quase inacreditável. O ator havia se resguardado ao fazê-la assinar, estupidamente, alguns documentos legais. A Traça estava — sob pena da lei — proibida de jamais discutir, ou escrever a respeito do cara, ou sobre seu caso com ele, em qualquer tipo de mídia, incluindo impressa, rádio e televisão. Ela se esquivava com destreza ao redor do assunto, referindo-se a ele como O Ator e criando um certo rumor sobre quem ele era. Essa era a história, o escândalo por trás do escândalo. E quem se importava? Potencialmente, meio milhão de pessoas, segundo Remke. Motivo pelo qual eu teria que devotar os próximos dois meses para conduzir Natasha na elaboração do esboço, para escrevermos os três primeiros capítulos. Morgan vinha correndo da cozinha com outra caneca de café para Remke. Jeremy Black estava bem atrás dela. Ele acenou com a cabeça para mim e seguiu rumo à sala de Remke. De repente, tudo começou a passar em câmara lenta, e o som era quase inaudível.
  17. 17. O sol que brilhava através das janelas à esquerda do loft iluminava os cabelos ondulados, castanho-escuro, e fazia com que seus olhos cor de caribe ficassem mais... caribenhos na cor. Nunca, jamais, em tempo algum, houve um homem mais lindo no mundo. Ele era lindo de morrer, cinematograficamente lindo. Lindo como James Bond, 37 anos, l,85m, 80 quilos. Formado e pós-graduado em... Harvard. Ele era mais inteligente e sarcástico do que legal, mas o diretor vice-presidente de uma pequena editora de nichos de mercado tinha de ser um pouquinho cruel. Ele morava em um loft em Tribeca (a algumas quadras de onde John E Kennedy Jr. e Carolyn Bessette moravam), malhava na Reebok Sports Club, ao lado de gente como Jerry Seinfeld, e saía com mulheres que pareciam modelos, mas também eram vice-presidentes. A única coisa que eu tinha em comum com Jeremy Black era a Posh Publishing.E isso não queria dizer nada. Entrei rapidamente na minha sala minúscula e sem janela e gemi ao ver a nova pilha de textos que Jeremy provavelmente deixara no caminho da sala de Remke. Ótimo. Bem a tempo do fim de semana. Jeremy geralmente deixava os textos que chegavam na caixa de entrada de Gwen. Ela escolhia os que queria ler depois jogava os fracassos na minha caixa. Então agora ali poderia ter algum "talvez". Se eu conseguisse achar um campeão de vendas em potencial na pilha, certamente seria promovida a editora associada num piscar de olhos. E a minha vida não estaria mais sujeita ao sucesso de Natasha Nutley. Mas havia uma grande chance. Os livros da RealLife não eram somente de celebridades. Eu tinha que penar com as autobiografias pessimamente escritas, por um monte de zeros à esquerda, sobre cirurgias no colo do útero (não muito sexy para Remke), viciados em cocaína (dispensáveis, segundo Jeremy), as tendências "eu odeio minha mãe" (nhenhenhém, segundo eu) e "eu cresci pobre e feia até me transformar numa super-modelo" (ah, por favor!, segundo Eloise e sua chefe). Poupem-me. Poupem a nós todos. Era muito improvável que a próxima lista de mais vendidos estivesse esperando o meu reconhecimento naquela pilha. Para fazer meu nome na Posh, eu teria que tirar o melhor trabalho possível da Traça, não que fosse me emocionar vê-la triunfar. A mulher estava extraindo os seus 15 minutos de fama dos 15 minutos de alguém! Sua celebridade era fajuta. Então, por que eu não deveria tirar dela minha promoção a editora? Seria tão errado assim? Afinal de contas, eu havia sido instruída pelo presidente e editor da minha empresa a fazer exatamente isto. E será que eu ainda não tinha aprendido que ser a senhorita boazinha me levara até onde estou hoje? Lugar algum. A linha interna de viva voz do meu telefone soou. —Jaaane — era a voz intolerável de Morgan. — Sua prima Dana ligou enquanto você estava na sala de Remke. Ela disse que você tem o número. — Obrigada. — Eu virei os olhos para o alto e quase furei o telefone com o dedo, apertando o botão para desligar. Ótimo. Agora eu teria que retornar a ligação de Dana antes de sair para almoçar com Natasha. Falar com a minha prima geralmente me deixava enjoada. Mas, ligar para ela agora talvez não fosse má idéia, eu não podia comer nada no almoço mesmo. O interfone tocou novamente. —Jaaane, eu esqueci de dizer. Ela disse para você ligar para o celular. Ela está no Plaza até meio-dia. É algo sobre um ensaio de entrada.
  18. 18. Subitamente, uma pontada no fundo dos meus olhos, lágrimas que queriam surgir. Pare com isso! Pare agora! Eu ordenei a mim mesma. Não perca as estribeiras.Você tem uma reunião importante pela frente. E daí que Dana está tomando chá no Plaza, andando de um lado para o outro com seu celular, en-quanto flutua pelo salão onde será sua festinha estúpida?Você está tão bem quanto Dana. Na verdade, melhor. Dana nunca nem trabalhou, a não ser que aconselhar os vizinhos sobre tons e cores pudesse contar. Até que não parecia nada mal. Eu desabei sobre a mesa, arrasada. Meus olhos estacionaram na pequena foto dos meus pais comigo, no porta-retrato dado por tia Ina. Meu pai, bonito e sorridente, me erguia nos braços, e minha mãe apertava-lhe o braço. Eu tinha três anos, segundo tia Ina, que bateu a foto. Eu me perguntava como meu pai se sentiria se soubesse que Dana era quem se casaria no Plaza, dentro de dois meses. Será que ficaria decepcionado? Sacudiria a cabeça, dizendo à minha mãe que eu o havia desapontado? Talvez seja melhor eu explicar. Marvin Gregg foi exatamente quem me mostrou o Hotel Plaza pela primeira vez. — Está vendo aquele hotel luxuoso, princesa? — disse ele, apontando para o outro lado da rua, ao caminharmos pela 5a Avenida. Estávamos a caminho do Zoológico do Central Park, só nós dois, para "um dia de Jane com seu paizinho". —Aquele é o Plaza. Custa 1 milhão só para entrar ali. Mas é ali que você vai se casar. Um dia, eu vou entrar de braços dados com você, no salão de festas do Hotel Plaza! O que acha disso, princesa? — Papai, eu só tenho nove anos! — contestei, com as mãos nos quadris. Lembro-me que fiquei olhando para o hotel, achando que parecia um castelo. Aquilo não era fantasia infantil. O Hotel Plaza realmente parecia um castelo. — Sim, mas um dia você vai estar crescida, princesa — disse ele, apertando minha mão. — E você merece um casamento de 1 milhão de dólares. Vamos fazer o seguinte: você encontra o cara e eu verei o que posso fazer. Como te parece, princesa? — — Papai, quero ver os macacos! Vamos? Eu me lembro de ter resmungado. E lembro dele rindo. Ele me rodopiou na esquina da 5a Avenida com a Rua 59, como se estivéssemos dançando no salão de baile. Marvin Gregg morreu no dia seguinte, de ataque do coração. Ele tinha 36 anos. Eu jamais havia contado essa conversa a ninguém. Nem para minha mãe, nem para tia Ina, nem para nenhuma das minhas amigas. Não era o tipo de coisa que se contasse a alguém. Era algo para ser guardado junto ao coração. As vezes, conforta; às vezes, faz chorar. — Jaaane! O que é, agora? Apertei o botão do interfone com força. — Sim? — Remke disse que você deve arranjar algumas sugestões de título para a biografia de Nutley e escrever para a contracapa do catálogo de vendas, antes de sair para o almoço. Ele quer as duas coisas na mesa dele até meio-dia. Eu podia ouvir o tom triunfante de "Você nunca vai conseguir fazer isso" na voz de Morgan.
  19. 19. — Sem problema — eu disse, alegremente, apertando violentamente o botão, enquanto punha a língua para fora.Títulos e texto de contracapa até meio-dia. Ótimo. Eu tinha apenas uma centena de outras coisas para fazer, sem falar na revisão das minhas anotações para o almoço com a Traça. Olhei meu e-mail: 16 novas mensagens. Nove eram de Morgan: a ditadura de Remke com seus empregados. O uso de canetas azuis agora era contra o regulamento da empresa, já que não saía legível nas cópias como a tinta preta. Os editores jamais deveriam usar lápis para correções, já que os que editavam as cópias usavam caneta vermelha. O horário de almoço estava limitado a uma hora, exceto em almoços com autores e agentes literários, que deveriam ser previamente aprovados. O uso de papel timbrado para rascunho era terminantemente proibido. E assim ia. O meu favorito era: o uso frívolo do e-mail é estritamente proibido. Eu cliquei numa mensagem de Eloise: "Conte-me como foi com Remke no nosso intervalo para o cigarrinho! E." O que eu faria sem Eloise? Ignorei todas as mensagens de trabalho e abri uma de Amanda Frank, que também fora enviada a Eloise. Nós três nos encontrávamos, infalivelmente, toda sexta-feira à noite, para a "Sexta na mesa-redonda da paquera", que incluía fofoca, desabafos do trabalho, drinques de nove dólares, caça aos rapazes e, obviamente, flertes. Amanda e o namorado tinham ido morar juntos um ano atrás, então ela estava fora da paquera. Mas ela nunca perdia uma sexta-feira. Bem, na verdade, nós não paquerávamos tanto assim (na maioria das vezes, só olhávamos os caras bonitinhos e, de vez em quando, tentávamos conhecê-los). Eloise foi a responsável pelo título do encontro, "Sexta da Paquera", e eu, a editora, incluí "na mesa-redonda", já que discutíamos sobre paquera, bem mais que paquerávamos. O nome pegou. Já fazia seis anos que toda semana nós nos alternávamos para a escolha do lugar e combinávamos o encontro. Ei, meninas, que tal o Tapas Tapas, aquele lugar novo, na Rua 16, ao lado da Union Square, para o encontro de hoje à noite? Dizem que é o mais novo point de gente bonita e servem ótimas tapas. E supercaro, mas, jazer o quê? Mesmo horário de sempre. Vejo vocês mais tarde! Amanda. Amanda era uma vaqueira da Louisiana, que se mudara para cá. Sério, ela morava num rancho e tudo mais. Tinha cabelo comprido e louro, algo raro na cidade de Nova York, e sempre que saíamos, atraía muitos caras para nossa direção, o que eu e Eloise agradecíamos penhoradas. Digitei "mal posso esperar", e entrei no word, para começar a escrever os rascunhos dos títulos e a contracapa da autobiografia da Traça. Sugestão de título: A Traça Ataca. Cabeçalho da contracapa: A verdadeira história de Natasha Nutley, uma chupadora de sangue esmigalhada no auge de sua forma. Leia e derrame lágrimas de prazer por não ser ela! Eu sorri. Quem dera. Natasha Nutley beijou o ar próximo à minha bochecha. Eu nem podia ironizar, porque todas as pessoas que eu conhecia beijavam assim. Bem, exceto as minhas amigas. Os conhecidos e colegas de trabalho beijavam o ar, chegando ao extremo de, às vezes, beijar o ar dos dois lados do rosto, como se fossem europeus. Se alguma delas estivesse disposta a borrar o batom Bobbi Brown para realmente beijar sua cara, esta era sua amiga de verdade.
  20. 20. Natasha acomodou seu corpinho magérrimo na cadeira oposta à minha, numa mesa nos fundos do Blue Water Grill. Eu não a via há uns dez anos, desde o dia de nossa formatura, na Forest Hills High School. Ela estava exatamente igual... bem, mais ou menos. Mas não parecia ter 28. Talvez tivesse dado uma guaribada nos olhos. —Ai, meu Deus! — Ela disse vibrando, um segundo depois. — Estou vendo o meu agente. Eu preciso dar um oi! Com licença,Janinha? Eu consenti com a cabeça, forçando um sorriso. Janinha. Que nome pouco apropriado para uma grande editora sênior como eu. (Eu não ia contar a Traça o meu título verdadeiro.) Fiquei olhando Natasha deslizar até uma mesa cheia de homens bronzeados. Mais beijos no ar. Eu era grata pelo alívio temporário da minha pena. Quando a recepcionista trouxe Natasha até minha mesa, meu coração parecia que ia explodir no meu peito. De repente, eu não era mais Jane Gregg, editora assistente de uma casa editorial respeitada de Nova York. Eu era Jane Gregg, acéfala do Colégio Forest Hills. A imagem de Robby Ever surgiu diante dos meus olhos, com seu rosto de 16 anos, seu corpo alto e desajeitado. Meu coração se apertou com simpatia, pela adolescente apaixonada que havia sido um dia. A adolescente de coração doente, graças a Traça. Como eu a havia odiado. Dei uma olhada na direção dela, que ria com os homens bronzeados. Como era possível ela estar mais linda do que nunca? Estava dez anos mais velha que na época em que tinha todos da Forest Hill jogados aos seus pés. Porém, agora ela tinha a beleza, o corpo e o mistério de uma mulher. Uma mulher realmente linda. Na verdade, a Traça se parecia muito com Nicole Kidman, nos cachos vermelhos estilo Botticelli, o nariz ligeiramente arrebitado,a beleza e a altura.A única coisa que faltava era ter o Tom Cruise, como ex. Se bem que, se os boatos que circulavam fossem verdade, O Ator com quem Natasha tivera um caso também era bem famoso. Natasha Nutley tinha aquele je-ne-sais-quoi das celebridades. Sempre que eu via pessoas famosas em Nova York, era como se elas flutuassem em luz própria. Não se pareciam com pessoas comuns. E a Traça era tudo, menos comum. Pessoas comuns não se envolvem com atores de televisão que figuram na lista dos homens mais sexies do mundo, da revista People. Pessoas comuns não se tornam famosas apenas por dormirem com os homens que figuram na lista, mas por terem um relacionamento com eles. Segundo o rascunho de Natasha para a autobiografia detalhada, ela, e somente ela, fora exclusividade dele por sete semanas. No primeiro encontro, que foi na cama dele (cachorra!), ele a fez assinar (assim como aparentemente fez com todas as outras) O Documento, que basicamente dizia que, caso Natasha falasse sobre ele ou a respeito do relacionamento que tiveram, em qualquer mídia, ou até mesmo com seus amigos, O Ator poderia processá-la por tudo que ela tem, e tudo que viesse a ganhar no futuro. Inclusive os royalties da autobiografia. Então, por que ela assinou um papel tão ridículo e insultante? Por que chegou a dormir com um homem que lhe entregara documentos enquanto desabotoava seu sutiã? Todas as respostas, sedentas pelos holofotes, estavam contidas na autobiografia. Argh. Era tudo tão pessoal! Eu não costumava ficar melindrada com detalhes íntimos da vida de outras pessoas, afinal, nada era íntimo demais na mesa-
  21. 21. redonda de sexta-feira, e eu trabalhava em muitas biografias detalhadas. Mas, Natasha Nutley? Ela deveria permanecer a uma certa distância. Eu não deveria saber nada a seu respeito, exceto o que eu achasse ou julgasse importante. E era assim que eu queria. O fato de sua existência neste planeta ter causado decepções maiores do que a própria vida deveria fazer com que eu me sentisse triunfante, mas não era o caso. Eu me sentia estranha. E não sabia direito porquê. — Desculpe-me por isso! — disse ela de forma meio cantada, deslizando ao seu lugar, e jogando os cachos vermelhos. A coleção de berloques de prata em sua pulseira tilintava. — Meu agente é tão querido. Ele ficou radiante por estarmos almoçando e prometeu vir dar um alô antes de ir embora. Eu sorri e dei um gole em minha água. — Ótimo — eu disse, tentando não encará-la. Como será que o Sr. e a Sra. Nutley, uma gente tão comum, que morava virando a esquina do prédio onde eu cresci, foram capazes de criar um ser humano tão impressionante? Judith Nutley tinha 1,60m, no máximo, embora tivesse os cabelos vermelhos cacheados. O Sr. Nutley, cujo primeiro nome eu me esqueço, era alto e magro e tinha os olhos verdes da Traça. Mas nenhum dos dois era boa-pinta. Não como Marvin e Virgínia Gregg. — Então, hum, Natasha, por que não começamos a conversar sobre minhas idéias para conduzir o primeiro capítulo, conforme o seu rascunho. Como você sabe, a Posh está vibrando porque iremos ter esse primeiro capítulo na Marie Claire, e nós precisamos... — Só negócios! — Natasha me repreendeu com um tom de deboche, seus dentes mais brancos que o branco cintilando à minha frente. — Nós não nos vemos há dez anos? Eu tenho que admitir Janinha Gregg, você está adorável! Aquilo era um insulto. Não havia nada mais condescendente do que ser chamada de adorável. — Obrigada, Nat. — eu disse, lembrando de como ela detestava que seu nome fosse abreviado. Ah, se ela pudesse me ouvir chamando-a de Traça... — Você também está ótima. — Estou, não estou? — ela deu uma gargalhada, os olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Era muita injustiça. — Eu tenho um dermatologista incrível. Vou lhe dar o número, se quiser. Ele vai acabar com essas linhazinhas embaixo dos seus olhos. Que linhazinhas? — Ainda não consigo acreditar! — Natasha exclamou, espremendo um limão na água mineral de seis dólares.—Quero dizer, eu assino com a Posh e quem mais poderia ser a grande editora de lá a não ser Janinha Gregg, de Forest Hills! — Agora, eu sou daqui — eu disse. Muito na defensiva, Jane. Acalme-se. — Eu moro no Upper East Side. Meu namorado comprou um brownstone* no Upper West, mas eu sempre preferi o East Side. — Por que eu disse isso tudo? Um namorado é uma coisa, mas eu precisava falar cada detalhe falso? Parece que sim. — Ah, um namorado! E ele tem um brownstone! Muito bem, Jane! Sim, muito bem, eu pensei, me encolhendo. Não me pergunte seu nome, eu disse a ela, por telepatia. Eu não tinha a energia mental para inventar um nome muito bom.
  22. 22. — Bem, não o brownstone inteiro, é claro — eu corrigi, arrancando um pedaço de pão da cesta entre nós duas. — Apenas o apartamento. São dois quartos, então ele fez um escritório. Eu tenho uma quitinete adorável, da qual gosto demais para me desfazer, mas é realmente um desperdício, já que eu fico a maior parte do tempo na casa dele. ______________________________ * Construções típicas do Upper West side com as fachadas revestidas por arenito castanho-avermelhado. (N. da T) Quando você começa, não consegue parar. Sério. Os cachos de Natasha balançavam, à medida que ela concordava acenando a cabeça. — Eu sei exatamente o que você quer dizer. Eu e meu namorado moramos no barco dele, que está atracado em Santa Bárbara. Quem conseguiria morar em terra firme depois disso? Pois é, quem? Agora você entende por que eu enjôo a ponto de ter diarréia pela boca? — E o que aconteceu com aquelas gêmeas quietinhas com quem você tinha amizade? — Natasha perguntou. —Vocês ainda são amigas próximas? Eu visualizei as gêmeas Miner. Lisa e Lora. Altas, magras e quietas, como a Traça surpreendentemente lembrou. Elas haviam sido as minhas únicas amigas de adolescente no colégio. Lisa e Lora me ouviram resmungando e reclamando da Traça por anos a fio, sem parar, depois que ela me roubou Robby Evers. Agora, mais ou menos a cada seis meses eu mandava um e-mail para uma das duas, e elas respondiam. Tinham se mudado para São Francisco para fazer faculdade e acabaram ficando por lá. As duas estavam casadas, já tinham dois filhos e um terceiro a caminho. Havíamos permanecido próximas durante uns anos, mas a distância e as vidas diferentes causaram o término da amizade. — Na verdade, não — eu disse.—As pessoas acabam se afastando, você sabe como é. Natasha me olhou nos olhos por um instante. Eu me perguntava em que ela estaria pensando. Em como eu havia sido uma adolescente patética, calada e boboca? Que eu jamais tivera um namorado? Que eu tinha só duas amigas? E que não fui capaz de manter nem mesmo essas amizades? Natasha tivera a escola inteira à sua disposição, para amizade ou namorados. Ela que definia quem era a galera legal. —Tenho um ótimo círculo de amizades agora — eu acrescentei, esticando o braço para pegar meu copo d'água.—Amigos são tudo. Eu não sei o que faria sem Eloise e Amanda.—Nossa! Uma afirmação verdadeira! Será que eu ganharia uma medalha por isso? Ela concordou com a cabeça. — Bonitos nomes. Ah, eu cheguei a mencionar que também tenho um apartamento no Upper East Side? É só um quarto-e-sala, e eu raramente estou na cidade, mas, assim como você, eu não consigo me desfazer dele. E o meu santuário. Não seria demais se fôssemos vizinhas? Eu estou na 64, entre a Park e a Madison. — Ela deu um gole na água. — Mas você já sabe disso, já sabe da história da minha vida! Bem, não tudo! Só o grosso do meu rascunho, ou algo que tenha lido a meu respeito na imprensa.
  23. 23. O grosso do rascunho, sim, e o que mais eu precisaria saber para julgá-la como uma vadia oportunista, faminta por holofotes? Eu já havia sido forçada a admitir que a Traça escrevera um rascunho decente de sua história de vida. Tinha todos os elementos necessários de uma autobiografia que faria os lei-tores virarem as páginas sem parar. Dos farrapos à riqueza, e, supostamente, de volta aos farrapos (eu reconhecia Agnes B. se visse), com toda a importância sobre a auto-estima. Eu diria que Natasha Nutley possuía uma auto-estima ligeiramente excessiva. Portanto, se estiver achando que há algo nela além do que nossa vista invejosa pode ver, esqueça. Rua 64. Ninguém morava na Rua 64, principalmente entre a Park e a Madison. Isto era como se casar no Plaza. Simplesmente, não existe, a não ser que você seja um trilionário. Então me diga, como duas garotas do Queens como Dana Dreer e Natasha Nutley conseguiram o impossível? Talvez fosse preciso ter nome e sobrenome com as mesmas iniciais. — Ai, meu Deus! Natasha? Natasha Nutley? Era ai meu Deus mesmo. Aquela voz pertencia à minha prima Dana. Eu me virei para encontrar ninguém menos que Dana Dreer, olhando boquiaberta para a Traça, a boca escancarada e os olhos esbugalhados de prazer explícito. Dentre todos os restaurantes para alguém almoçar, Dana tinha que escolher o Blue Water Grill? Natasha encarava Dana, que se aproximava com seus olhos azuis enormes, emoldurados pelos cabelos louros, seu tipinho mignon, vestida de Prada da cabeça aos pés (com os cumprimentos do milionário da Internet e futuro marido). De repente, Natasha abriu um sorriso imenso. — Dana? A pequena Dana Dreer? Ambas deram um gritinho. Dana veio correndo, a Traça se levantou e as duas se abraçaram. Natasha tinha sido babá de Dana durante um tempo, quando Dana tinha oito, nove e dez anos. E claro que você pode imaginar como este detalhe trivial era algo compartilhado por Dana com todos, sempre que ia a Forest Hills para visitar os pais ou vovó. —Jane me contou que estava editando sua autobiografia! — exclamou Dana. — Que emocionante! Acrescentar um autor ao seu currículo impressionante! Natasha reluzia. — Bem, escrever sempre foi minha paixão número 1. E mesmo? Eu pensei que sua paixão número um fosse roubar os quase namorados de outras garotas, às vésperas das grandes festas da escola. Sem nem saber, ou ligar. —Jane! — Dana falou debochada, voltando os olhos azuis ainda esbugalhados para mim. — Eu liguei esta manhã e você não me ligou de volta. Eu queria lhe dizer que encontrei sapatos cor pêssego perfeitos para você. Tem uma loja na Lexington, com a 77, bem na saída do metrô. — E novamente dirigiu sua atenção a Natasha. — Que coincidência dar de cara com vocês duas aqui! Vou almoçar com o encarregado pelo meu bufe. Um garçom com pinta de modelo veio nos perguntar se estávamos prontas para fazer o pedido. Eu disse que precisávamos de mais alguns instantes e percebi que ele olhava Natasha com admiração. — Nossa! A pequena Dana Dreer! — disse Natasha, sacudindo a cabeça. — Não posso acreditar!
  24. 24. — Não sou tão pequena — Dana falou, esfuziante. —Vou me casar em dois meses, no Plaza! — Como um sinal luminoso, as bochechas de Dana ficaram vermelhas. Natasha puxou o ar com a intensidade apropriada. — O Plaza! Sem miséria, hein? O que aconteceu? Seus pais ganharam na loto? — Na verdade, eu estou me casando muito bem, é o que eu lhe digo! — Dana cochichava enquanto dava umas risadinhas e exibia seu diamante de dois quilates e meio, sacudindo a mão esquerda. Será que eu poderia vomitar agora? —Ai, meu Deus, Natasha, você tem que ir! Por favor, diga que vai! O casamento é dia 2 de agosto, um domingo. — Bem, eu vou precisar ver minha agenda... — Natasha disse isso jogando um dos cachos. Depois largou a mochila Louis Vuitton na mesa e puxou de dentro a agenda de couro, com centenas de letrinhas LV impressas. Folheou algumas páginas.— Vamos ver... 2 de agosto, 2 de agosto... estou livre! - anunciou ela, fechando o livro. — Fico na cidade por dois meses para trabalhar nos dois primeiros capítulos com a ajuda especialíssima de Janinha, depois pego um vôo de volta a Santa Bárbara para escrever, escrever, escrever. Então, pode incluir meu nome! Eu estava chocada. Por que Natasha Nutley, uma celebridade forjada, gastaria seis horas de sua vida fabulosa no casamento de Dana Dreer e Larry Fishkill? Mesmo sendo no Plaza? — Eu posso levar um acompanhante, não é? — Natasha perguntou a Dana. — Sam está indo voar decolando da Costa durante todo o mês de agosto, então... Dana sorriu. — É claro! Eu encarei Dana. Sua ex-babá, a quem não via nos últimos dez anos, podia levar um acompanhante, mas sua própria prima não podia? Dana provavelmente imaginou que qualquer companhia de Natasha seria alguém famoso, reconhecível ou, pelo menos, tão fabuloso que daria mais glamour à lista de convidados. — Então, vou poder conhecer o namorado de Jane e seu futuro marido! — disse Natasha. — Eu simplesmente adoro romance! Agora era a vez de Dana ficar olhando chocada. — O namorado de Jane? — Ele não vai com você ao casamento? — Natasha me perguntou. — Bem eu... —Jane! — disse Dana, com as mãos nos quadris. —Por que não me disse que tinha ficado sério? Mamãe falou que você estava saindo com alguém, mas eu não sabia... claro, leve-o! Eu engoli. — Então está tudo certo — declarou Dana, batendo as mãos. —Vocês duas levarão seus homens. Vou colocar os quatro numa mesa só para vocês. Ainda bem que vou almoçar com o banqueteiro. Vou acrescentar três à lista, agora mesmo. Nossa, eu mal posso esperar para contar a todos que Natasha Nutley vai ao meu casamento! Mamãe e vovó vão pirar! Mais beijos no ar. E, então, Dana finalmente se foi. Natasha apoiou os cotovelos na mesa e pousou a cabeça nas mãos. — Estou morta de curiosidade para saber mais sobre seu namorado. Onde o conheceu? O que ele faz?
  25. 25. Minhas mãos começaram a suar. Eu as esfreguei no guardanapo em meu colo. — Natasha, sua vida que é interessante o suficiente para uma autobiografia, não a minha! Nossa — eu disse, olhando o relógio —, está ficando tão tarde! Acho que devemos fazer o pedido e começar o planejamento para o Capítulo 1. No rascunho há uma ressalva mencionando que você quer começar com as aulas de interpretação que teve quando era criança, mas eu acho que deveria começar com o seu encontro com O Ator, depois trabalhar em sentido contrário. Entende, revelando a história de sua vida de acordo com a relevância. —Você é a editora! — disse Natasha, sorrindo ao abrir o cardápio. — Mas eu vou querer saber do namorado durante a sobremesa. Ele parece delicioso! Que bom que ela achava. Pois eu teria que comer cada palavra inventada.
  26. 26. Capitulo 3 Mesa-redonda da Paquera — Discussão n° 8.566.932: a questão do suposto namorado. Amanda, Eloise e eu estávamos debruçadas em nossa mesinha-redonda, em frente ao balcão do bar, no Tapas Tapas, e uma sósia de Angelina Jolie servia nossos drinques. Com uma das mãos, Amanda abanava um fio de fumaça do cigarro e com a outra, ela mexia o Tanqueray com tônica. — Ei, talvez você possa fazer o Jeremy Black se passar pelo seu "adorável namorado"! Agora que Natasha também vai, o casamento é quase um compromisso de trabalho. Aposto que ele iria com você. Convide-o, Jane! Eu nem conseguia perguntar a Jeremy se ele teve um bom fim de semana, em nossas reuniões editoriais de segunda-feira. Como, de uma hora para outra, eu ia convidá-lo para um casamento em família? Suspiro profundo. — Não posso. — Pelos "colhões" do touro! — Amanda insistiu. — Faz anos que você está morrendo de vontade de sair com ele. É a oportunidade perfeita. Eu o convidaria. Cheguei a dizer que Amanda Frank — que soltava frases como "Pelos 'colhões' do touro" — parecia uma versão (um pouco mais baixa, porém ainda mais loura) de Faith Hill? Ela poderia convidar para sair até um homem que fosse confundido com Pierce Bronsnan. Eu, no entanto, havia sido descrita pela notável Natasha Nutley como adorável. O que significava que eu estava fora, totalmente fora da estratosfera do mundo de Jeremy Black. Eloise deu um gole em seu merlot, depois tragou o Marlboro. — Ela não pode levar Jeremy mesmo que tivesse coragem para convidá-lo. A Traça sabe quem ele é. — E virou-se para o lado, soltando a fumaça longe de Amanda. — Acontece que Jane foi brilhante em não mencionar o nome do namorado — Amanda ressaltou. — Quando ela aparecer com Jeremy Black, a Traça vai cair da cadeira, assim como Dana! Ambas irão pensar que você foi bem humilde para não mencionar que o poderoso Jeremy era o seu homem. Além do mais, você nem precisaria inteirá-lo do que está fazendo, Jane. Ele jamais terá que saber que foi o seu falso namorado. — Mas eu disse que o meu namorado mora no Upper West Side — lembrei a Amanda.—E Natasha sabe que Jeremy mora em Tribeca. Eu ouvi parte de sua conversa com ele na semana passada, quando ele estava fechando a assinatura dela com a Posh. Eles estavam falando de onde são, e onde moram, e blablablá. E, para início de conversa, foi assim que surgiu a ligação com Forest Hills. Amanda mexeu o gim com tônica. Eloise mordia o lábio inferior. Eu mastigava a ponta do misturador do drinque. — Bem, você pode conhecer alguém a tempo para o casamento, você tem dois meses inteiros — disse Amanda, apertando o longo rabo-de-cavalo que havia afrouxado, mas prendia o cabelo louro.—Talvez até esta noite. Nós podemos dar um tempo no bar, dar uma paquerada. Ou então eu posso te arranjar com um dos amigos de Jeff.
  27. 27. Eloise e eu erguemos nossas sobrancelhas simultaneamente. I u já tinha passado por isso. E será que eu realmente ia querer me sentir ainda pior do que já estava, com um encontro arranjado horrendo, sem conhecer o cara, um encontro às escuras? Até Eloise já havia saído com os amigos de Jeff Jorgesen. Ele era bonitinho e normal, talvez um pouquinho inclinado ao estilo de vida das fraternidades universitárias, mas os caras que ' i rodeavam no trabalho não podiam ser classificados como bonitinhos, ou normais, muito menos as duas coisas juntas. — Ele está trabalhando na Ernst & Young agora — Amanda acrescentou. — É a empresa de contabilidade mais quente do mundo. O que representa um novo leque de grandes possibilidades. Nunca se sabe. — Ela deu uma olhada para o meu copo de Cosmopolitan. — Eu devia ter pedido isso. Depois do dia merda que eu tive, seria bom beber alguma coisa rosa e forte. Eu dei um gole no drinque e deslizei o copo até Amanda. Ela tinha aprendido a falar merda comigo e Eloise. Nós duas tentamos usar um pouco do vocabulário country dela, mas não dá para falar coisas do tipo "pelos 'colhões' do touro", a não ser que você seja uma vaqueira de verdade. Amanda era assistente no Lugworth & Strummold, um dos maiores escritórios de advocacia de Nova York. Ela não tinha nenhum interesse em se tornar advogada, mas adorava o emprego. Às vezes falava que ia ver se tinha a mão boa para escrever um romance no estilo de John Grisham, fazendo uso de seus contatos nas editoras. Eloise e eu conhecemos Amanda um dia depois que eu comecei a trabalhar na Posh, quando fumávamos em frente ao prédio. Amanda deixara de fumar e não trabalhava mais no prédio. A L&S havia se mudado para a área de Wall Street, quatro anos atrás. De qualquer forma, duas, três ou dez vezes por dia nós três dávamos nossas baforadas, ali em pé, na esquina da Avenida Lexington com a Rua 57. Algumas semanas de um papo furado, que levou a convites para drinques, que levaram a convites para encontros nos fins de semana, que resultaram na formação das reuniões semanais da mesa-redonda da paquera. — Ou você poderia ligar para o Max — sugeriu Eloise, me observando atentamente, para ver minha reação. — Você tem andado curiosa para saber que fim ele levou, então, essa é uma boa forma de descobrir. Imediatamente sacudi a cabeça negativamente. Por que será que só a menção do nome dele ainda doía tanto? Eu jamais ligaria para Max. Eu não poderia. Quem sabe ele ainda estaria com aquela tal? Ou com outra pessoa? E se ele soubesse que eu estava tão desesperada por uma companhia, a ponto de ter que chamar um ex-namorado para participar de um evento comigo? Pior ainda, um evento em família? Max e eu nos conhecemos no departamento masculino da Macy's. Ele estava lá comprando uma camisa. Eu procurava um presente de aniversário para o meu tio Charlie. Quando avistei Max, com aquele ar desconsolado e confuso, olhando a arara de calças, eu fiquei encantada. Encantada a ponto de ir perguntar a ele se um tio poderia gostar do suéter que eu estava segurando. (Esta era uma ótima forma de conhecer homens "casáveis" em Nova York. Só os caras solteiros compram roupa sozinhos.) Ah, não, espere um minuto. Apaga tudo. Eu estou me esquecendo que Max Reardon não era um homem casável. Depois de um ano de convivência, até bem séria, ele se apaixonou por alguém no trabalho, e acabou. Bem, pelo menos acabou para ele. Eu fiquei com o coração partido, aos 23 anos. Perdi
  28. 28. seis quilos, quase que instantaneamente, porque não conseguia comer. Depois engordei os seis quilos de volta, porque não parava de me consolar com o sorvete Hãagen-Dazs que Eloise e Amanda traziam para mim, todos os dias. Terminei exatamente como havia começado: com três quilos e meio acima do peso. Depois de passar duas semanas me vendo chorar, assoar o nariz e me lastimar, Eloise resolveu que ela, Amanda e eu deveríamos fingir que éramos turistas em Nova York todos os fins de semana. Cada mês nós íamos a uma área diferente da cidade. Eloise e Amanda me passavam os lencinhos de papel e eu chorava subindo os degraus da Estátua da Liberdade, olhava com os olhos inchados pela luneta no alto do Empire State Building e soluçava na balsa, rumo à Staten Island. Eu chorava olhando o globo pendurado na Feira Mundial do Meadow Park, em Flushing, chorava durante o jogo do Mets, no Shea Stadium e no show de Lilith Fair, em Jones Beach. Só lá pelo quinto mês meus rios de lágrimas haviam secado. Eu já tinha superado Max a ponto de perceber a beleza do Jardim Botânico do Bronx, e como havia yankees incrivelmente bonitinhos. Eu até tentei persuadir Gwen com a idéia de fazer um Guia Nova-iorquino Para Garotas de Coração Partido,mas ela disse que isso era muito pejorativo. Max foi meu primeiro namorado para valer e, desde então, eu não tive mais nenhum relacionamento. Com exceção do cara do Soldado da Fortuna e dois outros romances de vida curta, e alguns encontros aqui e ali, eu havia ficado totalmente sozinha. Por quê? Amanda tinha Jeff. Eloise tinha o seu russo. E eu estava num bar que servia tapas, cheio de mulheres sentadas com homens. Qual era o meu problema? Motoristas de caminhão e operários de obras pareciam me achar bonitinha, pois assobiavam para mim. Então, por que eu não conseguia ter um homem ao meu lado, como as minhas amigas? Como Natasha Nutley? Amanda puxou de novo o meu copo de Cosmopolitan e deu um golão. — Risque a possibilidade de ligar para o Max, Jane — disse Eloise. — Eu esqueci completamente que sua família o conhece. Você não pode fazê-lo passar pelo novo amor de sua vida, e também não pode fingir que vocês voltaram. Má idéia. Eu sinto muito por ter levantado a possibilidade. Eu lancei um olhar de "sem problemas" para Eloise. E voltamos aos comes e bebes. Amanda apontou para mim com o misturador de seu drinque. — Faça o negócio do encontro às escuras, Jane.Tudo de que você precisa é um cara para levar ao casamento. O que você tem a perder? Eu e Eloise olhávamos para ela. Não havia necessidade de um comentário sarcástico. Porém, meu silêncio já era uma resposta suficiente para Amanda. Ela pegou o celular com um safanão. —Jeff, adivinhe quem quer voltar a ter encontros-surpresa? Jane! Cala a boca, isso foi dois anos atrás! Tem alguém para apresentar a ela? — Nós todas esperávamos. — Ah, não, ele é Careca! Não, não, muito baixinho, Jane tem l,70m. Hmmm. Ah, aquele cara? Sem chance, ele é bonitinho,mas é um idiota! Jane é uma editora, tem que ser um cara inteligente. Ah, sim! Alia, ahã, ahã... esse parece muito bom! Pode combinar. Parece bom? Então Amanda nunca pusera os olhos no Sr. Ahã?
  29. 29. Amanda desligou o celular, seus olhos azuis brilhavam. Ela inclinou-se à frente, junto à mesa, jogando o rabo-de-cavalo para trás. — Kevin Adams. 33 anos. Consultor sênior. Mora num brownstone, próximo ao Central Park. Jeff disse que todas as garotas do escritório babam por Kevin. Eu quase cuspi meu gole de Cosmopolitan. Era o destino. Kevin Adams era exatamente quem eu havia descrito para Natasha! Até o detalhe do brownstone, no Upper Side. — Ele parece bom, Jane — disse Eloise, concordando com a cabeça. — Bom pra caramba. —Vai fundo, Jane. — Amanda reforçou. — Ou, então, é só dizer a Dana e a Traça que você mentiu. Vai ter que ir com o homem do incinerador! Elas confundiram minha expressão de choque, com desdém, Eu abri um sorriso radiante para Amanda. — Diga ao Jeff para dar meu telefone a ele. De casa e do trabalho. Eloise e eu demos beijos de verdade no rosto de Amanda e desaparecemos escada abaixo, na estação do metrô da Union Square. Tanto vovó quanto tia Ina me fizeram prometer que eu jamais pegaria o metrô. Elas se recusavam a acreditar que o metrô de Nova York não era mais o poço de crimes dos anos 1970, época em que elas eram "mulheres de carreira" com empregos no setor de vestuário. Eloise e eu passamos nossos cartões do metrô e rumamos para a linha da cidade alta. Uma mulher fingia ser a Estátua da Liberdade, imóvel, emcima de uma plataforma (ela estava pintada de prateado), e 1 segurava uma tocha. A sua frente, um chapéu de boca para cima já continha algumas notas. Alguns metros adiante, uns adolescentes tocavam bateria, a embalagem do instrumento estava aberta, sem uma moeda sequer. Eloise e eu paramos um instante para ouvir o cantor gospel, que estava bem acima do peso. j Nós pegamos alguns trocados no fundo da bolsa e jogamos dentro de algo que parecia uma valise de amplificador. Entramos rápido no trem da linha 6, quando as portas já iam se fechando, e conseguimos dois lugares nas cadeiras laranja. Um grupo de adolescentes jogava videogame de mão. Um idoso cortava as unhas. Dois ou três entediados liam jornais, ou os anúncios ridículos expostos no alto do vagão. E umas seis mulheres atraentes, todas com vinte e tantos, ou trinta e poucos anos, estavam espalhadas, segurando suas bolsas Kate Spade firme contra o corpo, lendo relatórios, livros, ou olhando para o nada, através da janela escura. Olhar para elas me deprimia. Eu era uma delas. Assim como eu, elas provavelmente teriam passado algumas horas com as amigas, após o trabalho, talvez até tivessem tido um encontro, e agora seguiam para casa. Sozinhas. Em plena sexta-feira, às 22h30. Para abrir a caixa de correio, ver o que está passando na TV a cabo, dar uma olhada na geladeira, folhear a Vogue, fan-tasiar sobre promoções, namorados, pedidos de casamento e ficar deprimida até que o sono viesse. Uma das "eus" me pegou encarando, então desviei o olhar para o alto, onde estava o anúncio de um podólogo. — Então, conte mais sobre ela — disse Eloise, enquanto o trem seguia. — A Traça? Eloise concordou com a cabeça.
  30. 30. — Ela é mesmo essa diva absoluta? Toda fabulosa e tragicamente na moda? Eu visualizei Natasha. — Sim e não. Ela é do tipo superfabulosa, como você se refere, mas há algo sobre ela que eu não sei explicar. Eu ainda não consegui decifrá-la. — Mas vai conseguir. Você vai conhecê-la pelo avesso, depois de trabalhar com ela na autobiografia. E, afinal, por que ela vai ao casamento de Dana? Eu dei de ombros. É. Por quê? Eloise estava apoiada em mim quando o trem deu uma freada na estação da Rua 42. —Talvez ela queira a birita grátis. Ela ainda tem problema com a bebida? — Segundo o rascunho do livro, não — eu disse. — E ela não bebeu nada no almoço.— Que, por sinal, acabou ficando abaixo de 85 pratas.Talvez, amanhã à noite, eu pudesse me dar de presente um salmão grelhado com os 15 que restaram. Isso seria praticamente a cura para a Síndrome da Solidão de Sá-bado à Noite, mesmo que fosse para comê-lo sozinha, assistindo a um vídeo alugado. Eu olhei em volta no vagão, para as mulheres "eus". Nenhuma delas exibia em seus rostos "adoráveis"aquele contentamento que diz "eu tenho um encontro amanhã à noite". — El? — Hein? Eu dei um pequeno chute no chão sujo, com a ponta da sandália. —Você não acha que foi patético, o que eu fiz? Quero dizer, de falar para Natasha e para Dana que eu tenho esse namorado maravilhoso? Eloise suspendeu uma sobrancelha. —Patético? Que tal necessário? E você não disse nada a Dana. Foi Natasha quem disse. Você não tinha escolha. Não se preocupe, Jane. Aposto que Kevin vai ser tudo que você descreveu, ou até mais. Ele vai te convidar para sair de novo, vocês vão começar a se ver e, de repente, você irá levar o seu namorado ao casamento de Dana. Eu ri. Eloise estava se esquecendo que coisas assim só aconteciam com ela. Serge tinha se declarado no quinto encontro. (Aliás, ela ainda não tinha retribuído.) — Não vou ficar muito esperançosa sobre Kevin. Ele é só uma possibilidade. Eloise ergueu novamente a sobrancelha. — Está bem, eu estou esperançosa — eu admiti. —Você vai cuidar do meu visual, não é, Eloise? — Ela concordou com a cabeça. — Agora pense, essa tarde eu não tinha nenhum namorado, depois tinha um namorado falso e agora tenho um encontro-surpresa, com a possibilidade de vir a ter um namorado de verdade. Se é que ele vai ligar. Na verdade, isso sim, era patético. Esperar que um cara que você nunca viu ligasse para você, e depois gostasse de você o suficiente para querer vê-la de novo. Tudo isso, para que você pudesse dançar com ele no salão de festas de um hotel, num casamento que foi prometido a você, muito tempo atrás. Mas se você deixasse de ter esperança, parasse de acreditar, e de jogar o joguinho bobo, por um segundo que fosse, estaria acabada.Você não podia desistir, nunca. Porque, se o fizesse, ficaria sozinha para o resto da vida, como Gertie, minha tia-avó. E todo o seu trabalho duro seria deixado na forma de herança aos seus parentes pouco prestativos. Meus olhos passaram pela data no relógio e meu coração parou por um segundo.
  31. 31. - Ei, El, você sabe que dia é hoje? Eu quase esqueço. E o aniversário de casamento dos meus pais. Eloise deu um apertão caloroso em minha mão. O trem adentrou a estação da Rua 77 com tanta violência que tivemos que nos segurar na beirada de nossas cadeiras. Nos levantamos e esperamos que as portas se abrissem. —Vamos parar para tomar frozen yogurt — sugeriu Eloise. - A Tasti D-Lite agora tem calda de chocolate quente, sem gordura. Ao sairmos da estação, entramos na Tasti D-Lite, na Lexington Avenue. Eu pedi chocolate com marshmallow. Eloise escolheu um misto de baunilha e chocolate, com uma imitação do Snickers. E ambas pedimos um montão de calda de chocolate sem gordura. Contentes, lambíamos nossas casquinhas e olhávamos as pessoas, enquanto passeávamos seguindo pela Primeira Avenida, depois rumando norte, na Rua 79, para que Eloise pudesse comprar o novo exemplar da In Style, no quiosque da esquina. Catherine Zeta-Jones estava na capa. Eloise sorriu para um indiano bonitinho que estava atrás do balcão do quiosque. —Você faria a imensa delicadeza de colocar o troco e a revista na minha sacola? — Ela mostrou que segurava o sorvete. — É claro, por você, qualquer coisa — ele disse, os olhos escuros faiscando.Ele debruçou no balcão e pôs a revista grossa e algumas notas dentro da sacola. —Você é um anjo. — Ela mandou um beijo, enquanto nos afastávamos. Eu, geralmente, adorava ver Eloise em ação. Mas naquela hora meu coração parecia ter uma bolha imensa e dolorida. — Ei, Jane, vamos dar uma passada na Igreja de Santa Mônica, no domingo de manhã, para acender velas para nossas mães e seu pai? — disse Eloise, enquanto passávamos pela igreja enorme. Eu balancei a cabeça agradecida e lambi um fio de chocolate que escorria da casquinha. Acendíamos velas uma vez por mês, embora nenhuma de nós fosse católica. A idéia tinha sido de Eloise. Ela dizia que você não precisa ser algo, para fazer algo. Bastava querer uma das duas coisas. E eu sabia disso. No sábado de manhã, Eloise e eu fomos comprar sapatos na loja que Dana havia indicado. Eu saí com um par de sapatos revestidos de tecido pêssego, de 125 dólares, que eu jamais voltaria a usar e não poderia devolver. Depois dali Eloise ia se encontrar com Serge para almoçarem, assim que ele saísse da aula de inglês. Ele estava estudando para se tornar um cidadão americano. Os amigos com quem Serge trabalhava no cabeleireiro disseram que as mulheres americanas temiam que os estrangeiros estivessem apenas interessados em obter seus green cards. Então, apesar de Eloise ter dito que queria manter o relacionamento apenas casual, ele foi direto à Imigração e preencheu os papéis necessários para obter o green card pelo meio mais difícil. E eu seguia para o meu encontro-surpresa com Kevin Adams! Ele havia me surpreendido com uma ligação às 10h da manhã, que, segundo Eloise, era um bom sinal. Significava que ele estava a fim de conhecer alguém, estava disponível para um relacionamento. Kevin me dissera que jogaria squash até 11h30, depois tinha planos para um brunch, mas adoraria me

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