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LITERATURA EM MINHA CASA
         Volume 1- POESIA


Tem Gato na Tuba e Outros Poemas


  Sidónio Muralha • Cecília Meireles
Menotti del Picchia • Casimiro de Abreu
     Olavo Bilac • Gonçalves Dias
     Braguinha • Alberto Ribeiro
       Cartola • Carlos Cachaça
     Hermínio Bello de Carvalho
    Marino Pinto • Paulo Soledade


            Ilustrações de
       GILBERTO MIADAIRA


               1ª edição




         Martins Fontes
           São Paulo 2002
Copyright© 2002, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
São Paulo, para a presente edição.
1ª edição
junho de 2002
Consultoria
Alba Regina Spinardi Bueno
Glossário
Alba Regina Spinardi Bueno
Preparação do original
Helena Guimarães Bittencourt
Revisão gráfica
Luzia Aparecida dos Santos
Ivete Batista dos Santos
Projeto gráfico
Katia Harumi Terasaka
Paginação
Moacir K. Matsusaki
Produção gráfica
Geraldo Alves

        Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
                (Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)
Tem gato na tuba e outros poemas / introdução e apresentação dos autores e
das obras Elias José : ilustrações Gilberto Miadaira. — São Paulo : Martins
        Pontes, 2002. — (Coleção literatura em minha casa : v. 1)

Vários autores.
ISBN 85-336-1581-7
      I. Poesia brasileira — Coletâneas — Literatura infanto-juvenil
              I. José. Elias. II. MIADAIRA, Gilberto, III. Série.
02-2612 CDD-028.5
                     Índices para catálogo sistemático:
          1. Poesia : Antologia : Literatura infanto-juvenil 028.5
              2. Poesia : Antologia : Literatura juvenil 028.5
                           ISBN 85-336-1581-7

          Todos os direitos para a presente edição reservados à
                 Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
   Rua Conselheiro Ramalbo. 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil
                Tel (11) 5241-3677 Fax (11) 5105-6867
   e-mail:info@martinsfontes.com.br http://www,.martinsfontes.com.br
Caro aluno,

     Você está recebendo uma coleção composta por cinco livros
de diferentes tipos de texto: poesia, conto, novela, literatura
universal e teatro ou literatura popular.
     A importância desses livros é muito grande: com eles, você
irá descobrir muitas coisas novas, conhecer pessoas diferentes e
mundos diferentes. Você também irá saber que existem muitas
maneiras de se escrever e que cada uma delas serve para passar ao
leitor, isto é; para você, um tipo de mensagem.
     Esta coleção foi feita para que você possa ler quando quiser e
o texto que quiser. Eles vão estar todos ali, aguardando uma
oportunidade para mostrar-lhe novos lugares, novas pessoas e
despertar novos — e velhos — sentimentos.
     Não esqueça, também, que esta é uma pequena coleção. Há
muitos outros livros mundo afora e você poderá descobri-los na
biblioteca de sua escola ou de sua cidade.
     Esperamos que esta coleção possa contribuir para aumentar
sua vontade de conhecer o mundo da leitura e aventurar-se no
universo das palavras.
     Aproveite para contar a seus amigos e parentes sobre essa
aventura, que está apenas começando.




               http://groups.google.com.br/group/digitalsource
Este livro pertence à

..........................................................................
Um recado
    Agora que você escreveu seu nome neste livro, ele é seu.
Guarde-o em casa, leve-o para a escola, leia-o quintas vezes
quiser. A cada leitura, você vai conhecê-lo melhor, compreendê-
lo melhor, como se fosse um amigo. Leia-o para seus pais, seus
irmãos, as crianças da vizinhança, enfim, para quem tiver vontade
de ouvir.
    Fazer um livro não é só escrever a história, os poemas ou os
contos que estão nele. Esses textos precisam ser apresentados de
um jeito agradável, para que sua leitura dê maior prazer. Observe
bem as formas e a cor das letras, o tipo de papel, as ilustrações
deste livro. Tudo isso foi resolvido e realizado por profissionais
preocupados em fazer um livro bonito. E, no fina1, ainda houve
gente que leu e revisou cada página, para verificar se estava tudo
correto. Todos trabalharam pensando no leitor, que é você.

           Chegou sua vez de aproveitar. Boa leitura!

                      A Turma da Editora
Por que ler poesia
Amigo leitor

     Por que ficamos comovidos quando ouvimos uma música
bonita, quando vemos um bom filme, quando apreciamos uma
pintura? Porque em tudo isso existe poesia, uma beleza difícil de
explicar mas que nos emociona.
     Os textos de novelas, romances e contos são textos em prosa.
Eles podem ser cheios de poesia. Mas há um tipo especial de
texto, em que o autor emprega as palavras, as frases e os
parágrafos de um jeito diferente. Ele escreve em versos, usando o
ritmo para transmitir os sentimentos de um modo mais forte. Ele
usa as palavras com um sentido mais rico, como se elas quisessem
dizer alguma coisa a mais. Esse tipo de texto é o poema. Aqui
vamos falar da poesia em forma de poema.
     As linhas de um poema chamam-se versos. Cada verso tem
uma beleza especial, mesmo que não tenha sentido completo. Um
grupo de versos, que forma um sentido mais completo, chama-se
estrofe. A divisão em versos e em estrofes é que marca o ritmo do
poema.
     No poema, a divisão em versos e estrofes forma um desenho
na página, que muitas vezes também ajuda a compor a beleza do
poema.
     Ler poesia, então, é se emocionar com as palavras, é ouvir o
ritmo das frases, é ver o desenho dos versos.
     Neste livro você vai encontrar vários poemas, de diferentes
poetas brasileiros, todos eles belas obras de poesia.

                                                       Elias José
Os poemas e seus autores
     Este livro é uma antologia, uma reunião de poemas. Ele foi
feito para que você tenha uma idéia dos melhores poemas
brasileiros escritos nas várias épocas.
     Você vai encontrar primeiro obras de autores mais modernos,
de um tempo mais próximo do nosso, como Sidónio Muralha,
Cecília Meireles e Menotti dei Picchia.
     Em seguida, vêm poemas de autores mais antigos,
considerados grandes clássicos da nossa literatura. E o caso de
Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias e Olavo Bilac.
     Mas a poesia brasileira não são só os poemas que estão nos
livros. Nesta antologia você também vai encontrar obras de
alguns poetas chamados populares, poetas-compositores que
descrevem com beleza e poesia as coisas simples da vida. Você
talvez já tenha ouvido e até cantado algumas dessas músicas. Mas
será que percebeu que suas letras tão lindas são pura poesia?
                                                         Elias José

MODERNOS

SIDÓNIO MURALHA nasceu em 29 de julho de 1921, em
Portugal. Faleceu em 1982. Depois de viajar pelo mundo,
escolheu o Brasil para morar. Fixou-se em Curitiba, atraído por
uma bela médica paranaense, com quem se casou. Ele dizia
"Escrevo como quem respira. Escrever é participar..." Seus livros
para crianças mais famosos são: A televisão da bicharada, A
dança dos pica-paus, A revolta dos guarda-chuvas e Os três
cachimbos.

CECÍLIA MEIRELES nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio
de Janeiro. Foi jornalista, professora de alunos de 1ª a 4ª série e de
Literatura na Universidade. Após ficar viúva, casou-se novamente
com um professor universitário e teve a oportunidade de viajar
pelo mundo, divulgando nossa cultura, em palestras e
publicações. Sua obra e extensa e Ou isto ou aquilo, seu maior
sucesso para o público infantil, foi editada em 1964. Neste mesmo
ano, faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de novembro.

MENOTTI DEL PICCHIA, escritor, jornalista e político, nasceu
em São Paulo (SP) em 20 de março de 1892 e faleceu na mesma
cidade, em 23 de agosto de 1988. Foi advogado, agricultor,
deputado estadual e federal. Seu poema mais conhecido e
apreciado é Juca Mulato (l917). Escreveu vários romances,
contos. crônicas, novela, além de livros para crianças.


CLÁSSICOS

CASIMIRO DE ABREU nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de
janeiro de 1839. Tinha saúde fraca e levava vida boêmia. Morreu
jovem, vítima de tuberculose, em 18 de outubro de 1860, na
cidade de Nova Friburgo (RJ). Seu maior sucesso foi a obra As
primaveras, livro de poemas. Publicou também ficção e peças de
teatro.

OLAVO BILAC nasceu no Rio de janeiro em 16 de dezembro de
1865 e morreu na madrugada de 28 de dezembro de 1918, de
edema pulmonar, em conseqüência de problemas cardíacos. Foi
eleito Príncipe dos Poetas brasileiros. Ficou famoso por seus
discursos nacionalistas.

GONÇALVES DIAS nasceu em Boa Vista, no Maranhão, em 10
de agosto de 1823. Aos 7 anos é alfabetizado e aos 9 já fazia a
escrituração na firma do pai. Com 19 anos publica seus primeiros
poemas. Dedicou grande parte de sua obra a poemas indianistas,
destacando-se OS Timbiras. Voltando da Europa, doente e muito
fraco, veio a falecer à vista do Maranhão, num naufrágio.
POEMAS DE RAÍZES POPULARES

BRAGUINHA (CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA)
Carlinhos para a família, Braguinha para os amigos e João de
Barro para a música brasileira, nasceu em 29 de março de 1907,
no Rio de Janeiro. Cantava desde criança, acompanhado ao piano
pela avó. As marchinhas de Carnaval são as suas mais famosas
criações: Chiquita bacana, As pastorinhas. Pirata da perna de
pau, etc. É considerado um dos "monstros sagrados" da música
popular brasileira, pelas letras e melodias criadas.

ALBERTO RIBEIRO (DA VINHA) nasceu no Rio de Janeiro,
em 27 de agosto de 1902 e faleceu em 10 de novembro de 1971.
Era médico, exercia a profissão como obra humanitária, cobrando
preços simbólicos pelas consultas. Foi na música que se
consagrou, pelos versos e melodias que compunha em parceria
com Braguinha, como a famosa Touradas em Madri, dentre as
inúmeras criações, que ultrapassaram 300 composições.

CARTOLA (AGENOR DE OLIVEIRA) nasceu no Rio de
Janeiro, em 11 de outubro de 1908 e morreu em 30 de novembro
de 1980. Desde menino participou das festas de rua, tocando
cavaquinho, que aprendera com o pai. Foi ele que escolheu o
nome e as cores verde e rosa da Estação Primeira de Mangueira, a
famosa escola de samba do Rio.

CARLOS CACHAÇA (CARLOS MOREIRA DE CASTRO)
nasceu em 3 de agosto de 1902, no Rio de Janeiro. Seu apelido
vem de sua bebida preferida. Esteve em atividade até sua morte,
aos 97 anos. Conheceu Cartola, que se tornaria um de seus
grandes parceiros e passou a dedicar-se a sambas-enredo para a
escola de samba da Mangueira, sendo um de seus fundadores e o
primeiro a introduzir elementos históricos nos enredos.

HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO nasceu no Rio de Janeiro,
em 28 de março de 1935. Desde cedo conviveu de perto com a
música e com os músicos brasileiros. Foi agitador cultural,
compositor, descobridor de talentos e também poeta, tendo
lançado vários livros. Escreveu programas educativos ligados à
música para a rádio MEC.

MARINO PINTO (MARINO DO ESPÍRITO SANTO PINTO)
nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1916 e morreu em 28
de janeiro de 1965, no Rio de Janeiro, trabalhou como jornalista.
Deixou cerca de 300 composições, inclusive muitos sucessos de
Carnaval.

PAULO SOLEDADE (PAULO CURGEL VALENTE DO
AMARAL) nasceu em Paranaguá (PR), em 26 de junho de 1919 e
faleceu em 27 de outubro de 1999. Trabalhou como ator, piloto e
repórter no jornal A Noite. Foi parceiro freqüente de Marino
Pinto.

GILBERTO MIADAIRA nasceu em Juquiá, São Paulo, em 7 de
janeiro de 1950. É arquiteto, formado pela Universidade
Mackenzie, e também artista plástico, ilustrador e músico.
Ganhou o Prêmio Abril de Jornalismo.
Sumário

Modernos
   • Sidónio Muralha
   • Cecília Meireles
   • Menotti del Picchia

Clássicos
    • Casimiro de Abreu
    • Olavo Bilac
    • Gonçalves Dias

Poemas de raízes populares
   • Braguinha e Alberto Ribeiro
   • Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho
   • Marino Pinto e Paulo Soledade

    • Glossário
Modernos




 SIDÓNIO MURALHA




 CECÍLIA MEIRELES




MENOTTI DEL PICCHIA
Sidónio Muralha

         E impossível ler estes poemas sem sorrir.
O poeta brinca com as palavras, fazendo-as saltar e dançar.
Dia de festa


A floresta
acordada
pela madrugada
de um dia
de festa
abria
a saia rodada
e a madrugada
sorria
sorria à floresta
na madrugada
da festa.

A alegria
estava lá,
a poesia
estava lá,
mas onde estava a alegria
mas onde estava a poesia
só sabia
o sabiá.

Só o sabiá
sabia
sabia
o que havia
lá
— era um sábio o sabiá.

Dono
do dia
da festa
e dono
da madrugada
só por ele a floresta
despertada
do seu sono
abria
a saia rodada.

E tudo o que lá
havia,
e tudo que havia
lá,
que se chamasse alegria
que se chamasse poesia
só sabia
o sabiá.

Ouçam como ele assobia,
assobia
o sabiá.
Razão maior


Vizinhos e vizinhas
chamaram o galo
e mesmo as galinhas
quiseram acusá-lo:

— O senhor galo não vale nada
pois já não canta de madrugada.

Mas logo o galo falou assim:
— Que caia chuva, que suba o no, que haja calor ou faça frio,
eu sempre canto, pobre de mim,
mas desta vez o meu clarim
entupiu,
piu,
piu
Cecília Meireles



Aqui a autora faz música com OS tamanquinhos.
 Em vez de ler o poema, você poderá cantá-lo,
                sem dificuldade.
A canção dos tamanquinhos

Troc... troc... troc... troc...
ligeirinhos, ligeirinhos,
troc... troc... troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

Madrugada. Troc... troc...
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

Chove. Troc... troc... troc...
no silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc... troc... troc...
com seu par de tamanquinhos...
Menotti del Picchia


Este poeta pregava uma renovação, mas ainda estava
     preso ao modo tradicional de fazer poesia.
 Neste poema, ele fala do destino dos peixes usando
 rimas de sons musicais e um rico vocabulário, com
              palavras pouco comuns.
Destino

Amanhã eu vou pescar.

Há um peixe fatalizado
que a Ritinha vai guisar
na panela de alumínio
que brilha mais que o luar.
Hoje ele está no seu líquido
e opaco mundo lunar.
Pequena seta de prata
furando a carne do mar.

Qual será? O bagre flácido
de cabeça triangular?
O lambari que faísca
como uma mola a vibrar?
O feio e molengo polvo
monstruoso, tentacular?
O peixe-espada de níquel,
a viva espada do mar?

Hoje estão vivos e lépidos
os lindos peixes do mar.
Amanhã...
Nem pensem nisso!
Amanhã eu vou pescar...
Clássicos




CASIMIRO DE ABREU




  OLAVO BILAC




 GONÇALVES DIAS
Casimiro de Abreu




Aqui está
um clássico do
romantismo,
um poema que foi lido e
declamado por várias gerações de
brasileiros. O poeta reforça a emoção
de suas lembranças da infância usando
exclamações e muitos adjetivos.
Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado.
A vida — um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito.
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às ave-marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Olavo Bilac


Este foi o primeiro poeta brasileiro a
escrever especialmente para o público
infanto-juvenil. Neste poemas, estava
maio preocupado em ensinar do que
em brincar e jogar com ao palavras.
Ensina sobre a Liberdade falando da dor
de um pássaro preso na gaiola, sobre
a lealdade falando da relação de
um cão com seu dono.
O pássaro cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
     A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos; e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
     O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
      Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
     Da selva em que nasci;
     Da mata entre os verdores,
     Tenho frutos e flores,
     Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas...
Solta-me ao vento e ao sol!

Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
     Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade...
Não me roubes a minha liberdade...
     Quero voar! voar!..."

Estas coisas o pássaro diria,
      Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
      Vendo tanta aflição:
E a tua mão, tremendo, lhe abriria
      A porta da prisão...
Plutão

Negro, com os olhos em brasa
Bom, fiel e brincalhão,
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão.

Fortíssimo, ágil no salto,
Era o terror dos caminhos,
E duas vezes mais alto
Do que o seu dono Carlinhos.

Jamais à casa chegara
Nem a sombra de um ladrão;
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão.

Dormia durante o dia,
Mas, quando a noite chegava,
Junto à porta se estendia,
Montando guarda ficava.

Porém Carlinhos, rolando
Com ele às tontas no chão,
Nunca saía chorando
Mordido pelo Plutão...

Plutão velava-lhe o sono,
Seguia-o quando acordado:
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado.

Um dia caiu doente
Carlinhos... Junto ao colchão
Vivia constantemente
Triste e abatido, o Plutão.

Vieram muitos doutores,
Em vão. Toda a casa aflita,
Era uma casa de dores,
Era uma casa maldita.

Morreu Carlinhos...
A um canto Gania e ladrava o cão;
E tinha os olhos em pranto,
Como um homem, o Plutão.

Depois, seguiu o menino,
Seguiu-o calado e sério;
Quis ter o mesmo destino:
Não saiu do cemitério.

Foram um dia à procura
Dele. E, esticado no chão,
Junto de uma sepultura,
Acharam morto o Plutão.
Gonçalves Dias

 Gonçalves Dias criou uma obra voltada para
       a valorização do índio brasileiro.
      Se você ler este poema em voz alta,
vai notar a preocupação do autor com o ritmo.
  É como se os tambores de guerra ficassem
  batendo, marcando a cadência do poema.
CANÇÃO do Tamoio
                            (Natalícia)

           I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
E luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.

           II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

           III

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves conselhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

           IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

           V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

          VII

E a mãe nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

          VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do imigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.
IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

           X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.
Poemas de raízes populares




       BRAGUINHA
     ALBERTO RIBEIRO




         CARTOLA
     CARLOS CACHAÇA
HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO




      MARINO PINTO
     PAULO SOLEDADE
Braguinha e Alberto Ribeiro




  "Noite de junho" é de uma época em que soltar
  balão não represe atava um perigo tão grande.
    O poema tem as luzes, a alegria e o toque de
         melancolia das festas de São João.
  Em "Tem gato na tuba", o talento de Braguinha
aproveitou uma cena engraçada para compor a letra
      de uma alegre marchinha de Carnaval.
Noite de junho

Noite fria, tão fria de junho
Os balões para o céu vão subindo
Entre as nuvens aos poucos sumindo
Envoltos em tênue véu
Os balões devem ser, com certeza
As estrelas daqui deste mundo
Que as estrelas do espaço profundo
São os balões lá do céu
Balão do meu sonho dourado
Subiste enfeitado
Cheinho de luz
Depois as crianças tascaram
Rasgaram teu bojo
De listras azuis
E tu que invejando as estrelas
Sonhavas ao vê-las
Ser astro no céu
Hoje, balão apagado
Acabas rasgado
Em trapos ao léu
Tem gato na tuba


Todo domingo
Havia banda
No coreto do jardim
E já de longe
A gente ouvia
A tuba do Serafim
Porém um dia
Entrou um gato
Na tuba do Serafim
E o resultado
Dessa "melodia"
Foi que a tuba
Tocou assim:
Pum, pum, pum — miau
Pum, pururum, pum, pum — miau
Pum, pum, pum — miau
Pum, pururum, pum, pum — miau...
Cartola,
         Carlos Cachaça e
Hermínio Bello de Carvalho


 Cartola e Carlos Cachaça compuseram a primeira
 parte deste poema que Hermínio Bello de Carvalho
completou. Há tanta luz e beleza neste poema quanto
   a luz e a beleza ao alvorecer no morro cantado
                     pelos poetas.
Alvorada no morro



Alvorada
Lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo
E tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo
Tingindo, tingindo

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
Mas o que me resta
E bem pouco, quase nada
Do que ir assim vagando
Numa estrada perdida
Marino Pinto e
           Paulo Soledade


Este é mais um poema que é também letra de música.
   Na verdade ele conta uma história, a lenda do
           nascimento da estrela-do-mar.
Estrela-do-mar


Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor
Passaram anos, muitos anos
Ela no céu, ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pôde com ela se encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar
O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela-do-mar
GLOSSÁRIO
          As palavras estão explicadas neste glossário
     só pelo sentido com que estão empregadas neste livro.

alvorada — amanhecer.
arrebol — cor avermelhada do nascer ou pôr-do-sol.
arrojar — lançar-se.
audaz — ousado.
aurora — o nascer do sol, começo de vida.
brasão — glória.
brios — valentia.
cobarde — forma antiga de covarde.
conselhos — reuniões, assembléias.
dissabor — desgosto, contrariedade.
entesar — esticar.
fagueiras -agradáveis, serenas.
falaz — enganador, fraudulento.
fatalizado — morto.
flácido — mole.
fortuna — destino.
guisar — cozinhar com molho e temperos.
impávido — destemido.
lépido — alegre, ágil.
natalícia — feita por ocasião de um nascimento.
plácido — tranqüilo.
pompas — grande luxo.
porvir — futuro.
renhida — disputada.
tapir — anta.
tapuia — índio considerado bárbaro pelos demais.
tênue — fino.
transidos — atingidos.
tuba — instrumento de sopro grande e grave.
Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira
totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou
àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-
book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável
em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição,
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      Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois
assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.




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Tem gato na tuba e outros poemas

  • 1.
  • 2. LITERATURA EM MINHA CASA Volume 1- POESIA Tem Gato na Tuba e Outros Poemas Sidónio Muralha • Cecília Meireles Menotti del Picchia • Casimiro de Abreu Olavo Bilac • Gonçalves Dias Braguinha • Alberto Ribeiro Cartola • Carlos Cachaça Hermínio Bello de Carvalho Marino Pinto • Paulo Soledade Ilustrações de GILBERTO MIADAIRA 1ª edição Martins Fontes São Paulo 2002
  • 3. Copyright© 2002, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, para a presente edição. 1ª edição junho de 2002 Consultoria Alba Regina Spinardi Bueno Glossário Alba Regina Spinardi Bueno Preparação do original Helena Guimarães Bittencourt Revisão gráfica Luzia Aparecida dos Santos Ivete Batista dos Santos Projeto gráfico Katia Harumi Terasaka Paginação Moacir K. Matsusaki Produção gráfica Geraldo Alves Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil) Tem gato na tuba e outros poemas / introdução e apresentação dos autores e das obras Elias José : ilustrações Gilberto Miadaira. — São Paulo : Martins Pontes, 2002. — (Coleção literatura em minha casa : v. 1) Vários autores. ISBN 85-336-1581-7 I. Poesia brasileira — Coletâneas — Literatura infanto-juvenil I. José. Elias. II. MIADAIRA, Gilberto, III. Série. 02-2612 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Antologia : Literatura infanto-juvenil 028.5 2. Poesia : Antologia : Literatura juvenil 028.5 ISBN 85-336-1581-7 Todos os direitos para a presente edição reservados à Livraria Martins Fontes Editora Ltda. Rua Conselheiro Ramalbo. 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil Tel (11) 5241-3677 Fax (11) 5105-6867 e-mail:info@martinsfontes.com.br http://www,.martinsfontes.com.br
  • 4. Caro aluno, Você está recebendo uma coleção composta por cinco livros de diferentes tipos de texto: poesia, conto, novela, literatura universal e teatro ou literatura popular. A importância desses livros é muito grande: com eles, você irá descobrir muitas coisas novas, conhecer pessoas diferentes e mundos diferentes. Você também irá saber que existem muitas maneiras de se escrever e que cada uma delas serve para passar ao leitor, isto é; para você, um tipo de mensagem. Esta coleção foi feita para que você possa ler quando quiser e o texto que quiser. Eles vão estar todos ali, aguardando uma oportunidade para mostrar-lhe novos lugares, novas pessoas e despertar novos — e velhos — sentimentos. Não esqueça, também, que esta é uma pequena coleção. Há muitos outros livros mundo afora e você poderá descobri-los na biblioteca de sua escola ou de sua cidade. Esperamos que esta coleção possa contribuir para aumentar sua vontade de conhecer o mundo da leitura e aventurar-se no universo das palavras. Aproveite para contar a seus amigos e parentes sobre essa aventura, que está apenas começando. http://groups.google.com.br/group/digitalsource
  • 5. Este livro pertence à ..........................................................................
  • 6. Um recado Agora que você escreveu seu nome neste livro, ele é seu. Guarde-o em casa, leve-o para a escola, leia-o quintas vezes quiser. A cada leitura, você vai conhecê-lo melhor, compreendê- lo melhor, como se fosse um amigo. Leia-o para seus pais, seus irmãos, as crianças da vizinhança, enfim, para quem tiver vontade de ouvir. Fazer um livro não é só escrever a história, os poemas ou os contos que estão nele. Esses textos precisam ser apresentados de um jeito agradável, para que sua leitura dê maior prazer. Observe bem as formas e a cor das letras, o tipo de papel, as ilustrações deste livro. Tudo isso foi resolvido e realizado por profissionais preocupados em fazer um livro bonito. E, no fina1, ainda houve gente que leu e revisou cada página, para verificar se estava tudo correto. Todos trabalharam pensando no leitor, que é você. Chegou sua vez de aproveitar. Boa leitura! A Turma da Editora
  • 7. Por que ler poesia Amigo leitor Por que ficamos comovidos quando ouvimos uma música bonita, quando vemos um bom filme, quando apreciamos uma pintura? Porque em tudo isso existe poesia, uma beleza difícil de explicar mas que nos emociona. Os textos de novelas, romances e contos são textos em prosa. Eles podem ser cheios de poesia. Mas há um tipo especial de texto, em que o autor emprega as palavras, as frases e os parágrafos de um jeito diferente. Ele escreve em versos, usando o ritmo para transmitir os sentimentos de um modo mais forte. Ele usa as palavras com um sentido mais rico, como se elas quisessem dizer alguma coisa a mais. Esse tipo de texto é o poema. Aqui vamos falar da poesia em forma de poema. As linhas de um poema chamam-se versos. Cada verso tem uma beleza especial, mesmo que não tenha sentido completo. Um grupo de versos, que forma um sentido mais completo, chama-se estrofe. A divisão em versos e em estrofes é que marca o ritmo do poema. No poema, a divisão em versos e estrofes forma um desenho na página, que muitas vezes também ajuda a compor a beleza do poema. Ler poesia, então, é se emocionar com as palavras, é ouvir o ritmo das frases, é ver o desenho dos versos. Neste livro você vai encontrar vários poemas, de diferentes poetas brasileiros, todos eles belas obras de poesia. Elias José
  • 8. Os poemas e seus autores Este livro é uma antologia, uma reunião de poemas. Ele foi feito para que você tenha uma idéia dos melhores poemas brasileiros escritos nas várias épocas. Você vai encontrar primeiro obras de autores mais modernos, de um tempo mais próximo do nosso, como Sidónio Muralha, Cecília Meireles e Menotti dei Picchia. Em seguida, vêm poemas de autores mais antigos, considerados grandes clássicos da nossa literatura. E o caso de Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias e Olavo Bilac. Mas a poesia brasileira não são só os poemas que estão nos livros. Nesta antologia você também vai encontrar obras de alguns poetas chamados populares, poetas-compositores que descrevem com beleza e poesia as coisas simples da vida. Você talvez já tenha ouvido e até cantado algumas dessas músicas. Mas será que percebeu que suas letras tão lindas são pura poesia? Elias José MODERNOS SIDÓNIO MURALHA nasceu em 29 de julho de 1921, em Portugal. Faleceu em 1982. Depois de viajar pelo mundo, escolheu o Brasil para morar. Fixou-se em Curitiba, atraído por uma bela médica paranaense, com quem se casou. Ele dizia "Escrevo como quem respira. Escrever é participar..." Seus livros para crianças mais famosos são: A televisão da bicharada, A dança dos pica-paus, A revolta dos guarda-chuvas e Os três cachimbos. CECÍLIA MEIRELES nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Foi jornalista, professora de alunos de 1ª a 4ª série e de Literatura na Universidade. Após ficar viúva, casou-se novamente com um professor universitário e teve a oportunidade de viajar
  • 9. pelo mundo, divulgando nossa cultura, em palestras e publicações. Sua obra e extensa e Ou isto ou aquilo, seu maior sucesso para o público infantil, foi editada em 1964. Neste mesmo ano, faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de novembro. MENOTTI DEL PICCHIA, escritor, jornalista e político, nasceu em São Paulo (SP) em 20 de março de 1892 e faleceu na mesma cidade, em 23 de agosto de 1988. Foi advogado, agricultor, deputado estadual e federal. Seu poema mais conhecido e apreciado é Juca Mulato (l917). Escreveu vários romances, contos. crônicas, novela, além de livros para crianças. CLÁSSICOS CASIMIRO DE ABREU nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de janeiro de 1839. Tinha saúde fraca e levava vida boêmia. Morreu jovem, vítima de tuberculose, em 18 de outubro de 1860, na cidade de Nova Friburgo (RJ). Seu maior sucesso foi a obra As primaveras, livro de poemas. Publicou também ficção e peças de teatro. OLAVO BILAC nasceu no Rio de janeiro em 16 de dezembro de 1865 e morreu na madrugada de 28 de dezembro de 1918, de edema pulmonar, em conseqüência de problemas cardíacos. Foi eleito Príncipe dos Poetas brasileiros. Ficou famoso por seus discursos nacionalistas. GONÇALVES DIAS nasceu em Boa Vista, no Maranhão, em 10 de agosto de 1823. Aos 7 anos é alfabetizado e aos 9 já fazia a escrituração na firma do pai. Com 19 anos publica seus primeiros poemas. Dedicou grande parte de sua obra a poemas indianistas, destacando-se OS Timbiras. Voltando da Europa, doente e muito fraco, veio a falecer à vista do Maranhão, num naufrágio.
  • 10. POEMAS DE RAÍZES POPULARES BRAGUINHA (CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA) Carlinhos para a família, Braguinha para os amigos e João de Barro para a música brasileira, nasceu em 29 de março de 1907, no Rio de Janeiro. Cantava desde criança, acompanhado ao piano pela avó. As marchinhas de Carnaval são as suas mais famosas criações: Chiquita bacana, As pastorinhas. Pirata da perna de pau, etc. É considerado um dos "monstros sagrados" da música popular brasileira, pelas letras e melodias criadas. ALBERTO RIBEIRO (DA VINHA) nasceu no Rio de Janeiro, em 27 de agosto de 1902 e faleceu em 10 de novembro de 1971. Era médico, exercia a profissão como obra humanitária, cobrando preços simbólicos pelas consultas. Foi na música que se consagrou, pelos versos e melodias que compunha em parceria com Braguinha, como a famosa Touradas em Madri, dentre as inúmeras criações, que ultrapassaram 300 composições. CARTOLA (AGENOR DE OLIVEIRA) nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1908 e morreu em 30 de novembro de 1980. Desde menino participou das festas de rua, tocando cavaquinho, que aprendera com o pai. Foi ele que escolheu o nome e as cores verde e rosa da Estação Primeira de Mangueira, a famosa escola de samba do Rio. CARLOS CACHAÇA (CARLOS MOREIRA DE CASTRO) nasceu em 3 de agosto de 1902, no Rio de Janeiro. Seu apelido vem de sua bebida preferida. Esteve em atividade até sua morte, aos 97 anos. Conheceu Cartola, que se tornaria um de seus grandes parceiros e passou a dedicar-se a sambas-enredo para a escola de samba da Mangueira, sendo um de seus fundadores e o primeiro a introduzir elementos históricos nos enredos. HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO nasceu no Rio de Janeiro,
  • 11. em 28 de março de 1935. Desde cedo conviveu de perto com a música e com os músicos brasileiros. Foi agitador cultural, compositor, descobridor de talentos e também poeta, tendo lançado vários livros. Escreveu programas educativos ligados à música para a rádio MEC. MARINO PINTO (MARINO DO ESPÍRITO SANTO PINTO) nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1916 e morreu em 28 de janeiro de 1965, no Rio de Janeiro, trabalhou como jornalista. Deixou cerca de 300 composições, inclusive muitos sucessos de Carnaval. PAULO SOLEDADE (PAULO CURGEL VALENTE DO AMARAL) nasceu em Paranaguá (PR), em 26 de junho de 1919 e faleceu em 27 de outubro de 1999. Trabalhou como ator, piloto e repórter no jornal A Noite. Foi parceiro freqüente de Marino Pinto. GILBERTO MIADAIRA nasceu em Juquiá, São Paulo, em 7 de janeiro de 1950. É arquiteto, formado pela Universidade Mackenzie, e também artista plástico, ilustrador e músico. Ganhou o Prêmio Abril de Jornalismo.
  • 12. Sumário Modernos • Sidónio Muralha • Cecília Meireles • Menotti del Picchia Clássicos • Casimiro de Abreu • Olavo Bilac • Gonçalves Dias Poemas de raízes populares • Braguinha e Alberto Ribeiro • Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho • Marino Pinto e Paulo Soledade • Glossário
  • 13. Modernos SIDÓNIO MURALHA CECÍLIA MEIRELES MENOTTI DEL PICCHIA
  • 14. Sidónio Muralha E impossível ler estes poemas sem sorrir. O poeta brinca com as palavras, fazendo-as saltar e dançar.
  • 15. Dia de festa A floresta acordada pela madrugada de um dia de festa abria a saia rodada e a madrugada sorria sorria à floresta na madrugada da festa. A alegria estava lá, a poesia estava lá, mas onde estava a alegria mas onde estava a poesia só sabia o sabiá. Só o sabiá sabia sabia o que havia lá — era um sábio o sabiá. Dono
  • 16. do dia da festa e dono da madrugada só por ele a floresta despertada do seu sono abria a saia rodada. E tudo o que lá havia, e tudo que havia lá, que se chamasse alegria que se chamasse poesia só sabia o sabiá. Ouçam como ele assobia, assobia o sabiá.
  • 17. Razão maior Vizinhos e vizinhas chamaram o galo e mesmo as galinhas quiseram acusá-lo: — O senhor galo não vale nada pois já não canta de madrugada. Mas logo o galo falou assim: — Que caia chuva, que suba o no, que haja calor ou faça frio, eu sempre canto, pobre de mim, mas desta vez o meu clarim entupiu, piu, piu
  • 18. Cecília Meireles Aqui a autora faz música com OS tamanquinhos. Em vez de ler o poema, você poderá cantá-lo, sem dificuldade.
  • 19. A canção dos tamanquinhos Troc... troc... troc... troc... ligeirinhos, ligeirinhos, troc... troc... troc... troc... vão cantando os tamanquinhos... Madrugada. Troc... troc... pelas portas dos vizinhos vão batendo, troc... troc... vão cantando os tamanquinhos... Chove. Troc... troc... troc... no silêncio dos caminhos alagados, troc... troc... vão cantando os tamanquinhos... E até mesmo, troc... troc... os que têm sedas e arminhos, sonham, troc... troc... troc... com seu par de tamanquinhos...
  • 20. Menotti del Picchia Este poeta pregava uma renovação, mas ainda estava preso ao modo tradicional de fazer poesia. Neste poema, ele fala do destino dos peixes usando rimas de sons musicais e um rico vocabulário, com palavras pouco comuns.
  • 21. Destino Amanhã eu vou pescar. Há um peixe fatalizado que a Ritinha vai guisar na panela de alumínio que brilha mais que o luar. Hoje ele está no seu líquido e opaco mundo lunar. Pequena seta de prata furando a carne do mar. Qual será? O bagre flácido de cabeça triangular? O lambari que faísca como uma mola a vibrar? O feio e molengo polvo monstruoso, tentacular? O peixe-espada de níquel, a viva espada do mar? Hoje estão vivos e lépidos os lindos peixes do mar. Amanhã... Nem pensem nisso! Amanhã eu vou pescar...
  • 22.
  • 23. Clássicos CASIMIRO DE ABREU OLAVO BILAC GONÇALVES DIAS
  • 24. Casimiro de Abreu Aqui está um clássico do romantismo, um poema que foi lido e declamado por várias gerações de brasileiros. O poeta reforça a emoção de suas lembranças da infância usando exclamações e muitos adjetivos.
  • 25. Meus oito anos Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! — Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é — lago sereno, O céu — um manto azulado, O mundo — um sonho dourado. A vida — um hino d'amor! Que auroras, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d'estrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar! Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã!
  • 26. Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã! Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, Da camisa aberto o peito. — Pés descalços, braços nus — Correndo pelas campinas A roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis! Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava à beira do mar; Rezava às ave-marias, Achava o céu sempre lindo, Adormecia sorrindo E despertava a cantar! Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! — Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!
  • 27. Olavo Bilac Este foi o primeiro poeta brasileiro a escrever especialmente para o público infanto-juvenil. Neste poemas, estava maio preocupado em ensinar do que em brincar e jogar com ao palavras. Ensina sobre a Liberdade falando da dor de um pássaro preso na gaiola, sobre a lealdade falando da relação de um cão com seu dono.
  • 28. O pássaro cativo Armas, num galho de árvore, o alçapão; E, em breve, uma avezinha descuidada, Batendo as asas cai na escravidão. Dás-lhe então, por esplêndida morada, A gaiola dourada; Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos; e tudo: Por que é que, tendo tudo, há de ficar O passarinho mudo, Arrepiado e triste, sem cantar? É que, criança, os pássaros não falam. Só gorjeando a sua dor exalam, Sem que os homens os possam entender; Se os pássaros falassem, Talvez os teus ouvidos escutassem Este cativo pássaro dizer: "Não quero o teu alpiste! Gosto mais do alimento que procuro Na mata livre em que a voar me viste; Tenho água fresca num recanto escuro Da selva em que nasci; Da mata entre os verdores, Tenho frutos e flores, Sem precisar de ti! Não quero a tua esplêndida gaiola! Pois nenhuma riqueza me consola De haver perdido aquilo que perdi... Prefiro o ninho humilde, construído
  • 29. De folhas secas, plácido, e escondido Entre os galhos das árvores amigas... Solta-me ao vento e ao sol! Com que direito à escravidão me obrigas? Quero saudar as pompas do arrebol! Quero, ao cair da tarde, Entoar minhas tristíssimas cantigas! Por que me prendes? Solta-me covarde! Deus me deu por gaiola a imensidade... Não me roubes a minha liberdade... Quero voar! voar!..." Estas coisas o pássaro diria, Se pudesse falar. E a tua alma, criança, tremeria, Vendo tanta aflição: E a tua mão, tremendo, lhe abriria A porta da prisão...
  • 30. Plutão Negro, com os olhos em brasa Bom, fiel e brincalhão, Era a alegria da casa O corajoso Plutão. Fortíssimo, ágil no salto, Era o terror dos caminhos, E duas vezes mais alto Do que o seu dono Carlinhos. Jamais à casa chegara Nem a sombra de um ladrão; Pois fazia medo a cara Do destemido Plutão. Dormia durante o dia, Mas, quando a noite chegava, Junto à porta se estendia, Montando guarda ficava. Porém Carlinhos, rolando Com ele às tontas no chão, Nunca saía chorando Mordido pelo Plutão... Plutão velava-lhe o sono, Seguia-o quando acordado: O seu pequenino dono Era todo o seu cuidado. Um dia caiu doente
  • 31. Carlinhos... Junto ao colchão Vivia constantemente Triste e abatido, o Plutão. Vieram muitos doutores, Em vão. Toda a casa aflita, Era uma casa de dores, Era uma casa maldita. Morreu Carlinhos... A um canto Gania e ladrava o cão; E tinha os olhos em pranto, Como um homem, o Plutão. Depois, seguiu o menino, Seguiu-o calado e sério; Quis ter o mesmo destino: Não saiu do cemitério. Foram um dia à procura Dele. E, esticado no chão, Junto de uma sepultura, Acharam morto o Plutão.
  • 32.
  • 33. Gonçalves Dias Gonçalves Dias criou uma obra voltada para a valorização do índio brasileiro. Se você ler este poema em voz alta, vai notar a preocupação do autor com o ritmo. É como se os tambores de guerra ficassem batendo, marcando a cadência do poema.
  • 34. CANÇÃO do Tamoio (Natalícia) I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida E luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos, Só pode exaltar. II Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que entesa Tem certa uma presa, Quer seja tapuia, Condor ou tapir. III O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos velhos Nos graves conselhos, Curvadas as frontes,
  • 35. Escutam-lhe a voz! IV Domina, se vive; Se morre, descansa Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte há de vir! V E pois que és meu filho, Meus brios reveste; Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão dos tamoios Na guerra e na paz.
  • 36.
  • 37. VI Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos D'imigos transidos Por vil comoção; E tremam d'ouvi-lo Pior que o sibilo Das setas ligeiras, Pior que o trovão. VII E a mãe nessas tabas, Querendo calados Os filhos criados Na lei do terror; Teu nome lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não escute Sem pranto, sem dor! VIII Porém se a fortuna, Traindo teus passos, Te arroja nos laços Do imigo falaz! Na última hora Teus feitos memora, Tranqüilo nos gestos, Impávido, audaz.
  • 38.
  • 39. IX E cai como o tronco Do raio tocado, Partido, rojado Por larga extensão; Assim morre o forte! No passo da morte Triunfa, conquista Mais alto brasão. X As armas ensaia, Penetra na vida: Pesada ou querida, Viver é lutar. Se o duro combate Os fracos abate, Aos fortes, aos bravos, Só pode exaltar.
  • 40. Poemas de raízes populares BRAGUINHA ALBERTO RIBEIRO CARTOLA CARLOS CACHAÇA HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO MARINO PINTO PAULO SOLEDADE
  • 41. Braguinha e Alberto Ribeiro "Noite de junho" é de uma época em que soltar balão não represe atava um perigo tão grande. O poema tem as luzes, a alegria e o toque de melancolia das festas de São João. Em "Tem gato na tuba", o talento de Braguinha aproveitou uma cena engraçada para compor a letra de uma alegre marchinha de Carnaval.
  • 42. Noite de junho Noite fria, tão fria de junho Os balões para o céu vão subindo Entre as nuvens aos poucos sumindo Envoltos em tênue véu Os balões devem ser, com certeza As estrelas daqui deste mundo Que as estrelas do espaço profundo São os balões lá do céu Balão do meu sonho dourado Subiste enfeitado Cheinho de luz Depois as crianças tascaram Rasgaram teu bojo De listras azuis E tu que invejando as estrelas Sonhavas ao vê-las Ser astro no céu Hoje, balão apagado Acabas rasgado Em trapos ao léu
  • 43.
  • 44. Tem gato na tuba Todo domingo Havia banda No coreto do jardim E já de longe A gente ouvia A tuba do Serafim Porém um dia Entrou um gato Na tuba do Serafim E o resultado Dessa "melodia" Foi que a tuba Tocou assim: Pum, pum, pum — miau Pum, pururum, pum, pum — miau Pum, pum, pum — miau Pum, pururum, pum, pum — miau...
  • 45. Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho Cartola e Carlos Cachaça compuseram a primeira parte deste poema que Hermínio Bello de Carvalho completou. Há tanta luz e beleza neste poema quanto a luz e a beleza ao alvorecer no morro cantado pelos poetas.
  • 46. Alvorada no morro Alvorada Lá no morro, que beleza Ninguém chora, não há tristeza Ninguém sente dissabor O sol colorindo E tão lindo, é tão lindo E a natureza sorrindo Tingindo, tingindo Você também me lembra a alvorada Quando chega iluminando Meus caminhos tão sem vida Mas o que me resta E bem pouco, quase nada Do que ir assim vagando Numa estrada perdida
  • 47. Marino Pinto e Paulo Soledade Este é mais um poema que é também letra de música. Na verdade ele conta uma história, a lenda do nascimento da estrela-do-mar.
  • 48. Estrela-do-mar Um pequenino grão de areia Que era um pobre sonhador Olhando o céu viu uma estrela Imaginou coisas de amor Passaram anos, muitos anos Ela no céu, ele no mar Dizem que nunca o pobrezinho Pôde com ela se encontrar Se houve ou se não houve Alguma coisa entre eles dois Ninguém soube até hoje explicar O que há de verdade É que depois, muito depois Apareceu a estrela-do-mar
  • 49. GLOSSÁRIO As palavras estão explicadas neste glossário só pelo sentido com que estão empregadas neste livro. alvorada — amanhecer. arrebol — cor avermelhada do nascer ou pôr-do-sol. arrojar — lançar-se. audaz — ousado. aurora — o nascer do sol, começo de vida. brasão — glória. brios — valentia. cobarde — forma antiga de covarde. conselhos — reuniões, assembléias. dissabor — desgosto, contrariedade. entesar — esticar. fagueiras -agradáveis, serenas. falaz — enganador, fraudulento. fatalizado — morto. flácido — mole. fortuna — destino. guisar — cozinhar com molho e temperos. impávido — destemido. lépido — alegre, ágil. natalícia — feita por ocasião de um nascimento. plácido — tranqüilo. pompas — grande luxo. porvir — futuro. renhida — disputada. tapir — anta. tapuia — índio considerado bárbaro pelos demais. tênue — fino. transidos — atingidos. tuba — instrumento de sopro grande e grave.
  • 50. Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e- book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. http://groups.google.com.br/group/digitalsource http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros