LúLEKA HISTÓRIA DO MENINO QUE SAIU DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA SE TORNAR O GRÃO-RABINO DE ISRAEL
Rabino Israel Meir LauLúLEKA HISTÓRIA DO MENINO QUE SAIU DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA SE TORNAR O GRÃO-RABINO DE ISRAEL
LÚLek          a história do menino que saiu do campo de concentração                   para se tornar o grão-rabino de is...
Consagrado à memória pura de meu pai, Rabino Moshê Chaim*, de minha mãe, RabanitChaia, de meu irmão, Shmuel Its’chak, de m...
Introdução ............................................................................................................ 9 ...
SEGUNDA PARTE: O CHIFRE DO CARNEIROE não há quem fale, pois a dor cresceu muito .............................................
Introdução    “O que você sentiu? No que pensou? O que você tinha diante dosolhos?” Estas perguntas e outras semelhantes m...
Lúlek    Meus olhos estavam fechados, mas eu os enxerguei bem. Vi-os descendodos vagões do trem, bem ao meu lado. Vi-os pa...
Introduçãolerão nele a respeito de quarenta e quatro anos de rabinato de forma gra-dual, da parte sul de Tel Aviv até o ra...
Lúlekmotivo algum para que a história das circunstâncias de minha vida, tão di-ferentes, não chegue ao conhecimento das pe...
Introduçãocuidar de mim e garantir a dinastia rabínica. Apenas um mínimo desteseu ato se expressa no livro. Nosso irmão pr...
Lúlek   Concluirei com uma oração ao Criador do universo, para que nenhumpovo erga a espada contra outro e não mais se gue...
Primeira parteO CUTELO, O FOGO E A LENHADisse, eis o fogo e a lenhaOnde está o cordeiro para o sacrifício?...Abraão estend...
Lúlek             Primeiras lembranças – Destruição da casa   A imagem de meu pai, parado no campo dos expulsos. Esta é um...
Primeiras lembranças – Destruição da casa   Os sintomas do inferno começaram a nos atingir também, emPiotrkow.   Na praça ...
Lúlekera uma figura muito respeitada na comunidade judaica. Espancá-lo e,principalmente, humilhá-lo, era, do ponto de vist...
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Leia aqui as primeiras vinte páginas do livro “Lúlek – A história do menino que saiu do campo de concentração para se tornar o Grão-Rabino de Israel”.

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  1. 1. LúLEKA HISTÓRIA DO MENINO QUE SAIU DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA SE TORNAR O GRÃO-RABINO DE ISRAEL
  2. 2. Rabino Israel Meir LauLúLEKA HISTÓRIA DO MENINO QUE SAIU DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA SE TORNAR O GRÃO-RABINO DE ISRAEL
  3. 3. LÚLek a história do menino que saiu do campo de concentração para se tornar o grão-rabino de israel Título original: Al tshlach yadecha el hanaar (Não erga a mão contra o menino) 2011 © Rabino Israel Meir Lau Editor / Publisher Nissim Yehezkel Editora Executiva Raquel Yehezkel Tradução Nancy Rozenchan Revisão Raquel Yehezkel Projeto gráfico Vanderlucio Vieira Fotografias Peter Halmagyi www.PHphotos.us Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil________________________________________________________________________________Lau, Israel Meir Lúlek – A história do menino que saiu do campo de concentração para se tornar o Grão-Rabino de Israel / Israel Meir Lau ; [tradução do hebraico - Nancy Rozenchan]. — BeloHorizonte : Editora Leitura, 2011. 1. Guerra Mundial, 1939-1945 - Narrativas pessoais 2. Holocausto judeu (1939-1945) - Narrativas pessoais 3. Holocausto judeu (1939-1945) - Polônia - Narrativas pessoais 4. Lau, Isarel Meir, 1937 - 5. Autobiográficas 6. Rabinos - Autobiografia 7. Sobreviventes do Holocausto I. Título. 11-01923 CDD-920.0092924________________________________________________________________________________ Índices para catálogo sistemático: 1. Judeus sobreviventes do Holocausto : Memórias autobiográficas 920.0092924 ISBN 978-85-7358-982-5 Impresso no Brasil Todos os direitos reservados à © Editora Leitura Ltda. Rua Pedra Bonita, 870 Barroca – Cep 30431-065 Belo Horizonte – MG – Brasil – Telefax: (31) 3379-0620 www.editoraleitura.com.br | leitura@editoraleitura.com.br Acompanhe-nos: Blogs: http://blogeditoraleitura.com | Twitter: http://twitter.com/editoraleitura
  4. 4. Consagrado à memória pura de meu pai, Rabino Moshê Chaim*, de minha mãe, RabanitChaia, de meu irmão, Shmuel Its’chak, de meu avô, Rabino Sim’cha Frenkel-Teomim,de meus tios e tias e de todos os membros da minha família que ascenderam ao céu emtempestade, junto com seis milhões de pessoas do povo de Israel.A voz de seu sangue brada a nós do solo. Ó terra, não encubra o sangue deles e não sepossa ocultar o seu clamor. Hy”d *** [N. da T.] Para as palavras em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, holandês, eslovacoe polonês, foi utilizada, na medida do possível, a grafia original. Palavras em hebraico,aramaico, iídiche, árabe, russo e japonês foram transliteradas foneticamente, na medida dopossível. Nestas, ch serviu para o som correspondente a rr.** [N. da T.] Hy”d, abreviatura de Hashem yicom damô [Que D´us vingue o seu sangue].
  5. 5. Introdução ............................................................................................................ 9 PRIMEIRA PARTE: O CUTELO, O FOGO E A LENHAPrimeiras lembranças – Destruição da casa ................................................16A casa paterna ....................................................................................................34O discurso que salvou a minha vida .............................................................60Buchenwald – O túnel escuro e centelhas de luz...................................... 73A libertação – Deixa-me ir porque amanheceu ....................................... 100Visão dos ossos secos ..................................................................................... 123Terra de Israel – Quem são estes que como nuvem voam... ..................144... E como pombas para os seus pombais ................................................... 169No universo da Torá: adolescência ............................................................. 196No universo da Torá: juventude ..................................................................225As colunas de fogo ......................................................................................... 264Portanto o homem deixará ...........................................................................303
  6. 6. SEGUNDA PARTE: O CHIFRE DO CARNEIROE não há quem fale, pois a dor cresceu muito ..........................................332Cinge Israel de força .......................................................................................350Quem pelo fogo... quem pela espada... quem será atormentado... quem será elevado .......................................................................................371Its’chak Rábin – A ponte que ruiu ..............................................................394Encontro em Castel Gandolfo..................................................................... 406De Fidel Castro até Nelson Mandela ........................................................ 449Praszow – Assim foi restaurada a sua antiga glória .............................. 486Na terra dos vivos............................................................................................497ApêndiceUm soldado russo entre os justos ............................................................... 521Receptor do Prêmio Israel ........................................................................... 524Índice remissivo...............................................................................................529
  7. 7. Introdução “O que você sentiu? No que pensou? O que você tinha diante dosolhos?” Estas perguntas e outras semelhantes me foram feitas depois dedizer o Cadish1 e versículos selecionados de Salmos na cerimônia que serealizou em Auschwitz-Birkenau, ao se completarem sessenta anos denossa libertação. Caía muita neve. O frio era de congelar. Durante trêshoras tive pena dos milhares de presentes ali, dentre eles o presidente deIsrael, o vice-presidente dos Estados Unidos, presidentes e primeiros-ministros dos países mais importantes da Europa. Tive mais pena delesdo que do grande grupo de sobreviventes da Shoá, dentre eles o meu irmãoNaftali, que se encontrava ali. Pois nós estávamos acostumados a isto.Permanecíamos de pé por horas em formação sem qualquer roupa quemerecesse receber este nome. Uma túnica listada sobre o corpo, tamancosde madeira nos pés. E eis-nos aqui, sessenta anos depois, vivos e existindo,apesar de tudo. De olhos fechados eu recitei ali “Mesmo se eu seguir por um valede sombras não temerei, pois Tu estarás comigo... pois salvaste minhaalma da morte... caminharei diante do Senhor nas terras dos vivos... sejaengrandecido e consagrado o Seu grande nome...”1 [N. da T.] Literalmente: santificação. Oração de louvor a D´us recitada em celebrações aalmas de entes falecidos. 9
  8. 8. Lúlek Meus olhos estavam fechados, mas eu os enxerguei bem. Vi-os descendodos vagões do trem, bem ao meu lado. Vi-os parados na seleção – quempara a vida e quem para a morte – exatamente neste lugar. Vi os olharesde espanto em seus olhos quando perceberam que tinham sido enganadose ficaram decepcionados. Vi os homens da Gestapo e seus ajudantesucranianos golpeando, empurrando, tendo consigo seus terríveis cães,de goela escancarada. Vi como arrancavam crianças e bebês dos colos deseus pais. Vi a dissolução das famílias com crueldade animalesca. Sempre,diante dos meus olhos, há três coisas ligadas aos pesadelos da infância:trens, botas e cães... Ouvi os gritos “schnell, schnell”, rápido, rápido. Ouvi os latidos. Ouvios gritos das crianças: “Mame! Tate!”, ouvi os apelos das mães e vi rostoscobertos de sangue de pais golpeados com os cabos das armas porquetentaram proteger uma criança no colo. Com todo o respeito a presidentes e chefes de governo, com todo oamor e destino compartilhado com meus irmãos e irmãs salvos do fogo,não avistei nenhum deles. Em nome deles eu recitei o Cadish por aquelesque foram cruelmente exterminados aqui, em Auschwitz-Birkenau, e nosdemais campos de extermínio, nos campos de concentração, nos guetos,nas florestas e nas estradas. A recitação do Cadish em 17 do mês judaico de Shvat de 5765, [27 dejaneiro de 2005], foi um acontecimento único. Em contraste, este livroque os senhores têm em mãos agora, é uma vela em memória perene. Umarecordação eterna que contará para as gerações que se seguirem a histórianaquele túnel escuro, sobre as faíscas de luz que se romperam dentro delee as luzes de esperança e fé posteriores. Apesar das súplicas repetidas e recorrentes para escrever a minha bio-grafia, seja por mim ou por outros, recusei e respondi com uma negativa.Este livro não é uma autobiografia no sentido comum do termo. Vocês não 10
  9. 9. Introduçãolerão nele a respeito de quarenta e quatro anos de rabinato de forma gra-dual, da parte sul de Tel Aviv até o rabinato-chefe de Israel. Não se falaránele sobre os quinze anos de atuação nos tribunais rabínicos à testa dospresidentes de tribunais de Tel Aviv-Yafo e como presidente do grandetribunal rabínico de Jerusalém, e a respeito das histórias excitantes queocorreram dentre aquelas paredes. Não será narrado a respeito dos onzeanos de docência e educação nas instituições educacionais Tseitlin, emTel Aviv, Brener e Achad Haam em Petach Tikva. Não descreverei aqui ex-periências de vinte e cinco anos de atuação no âmbito do serviço de reser-vistas do Exército de Israel, de Port Taufik, no sul, até Nabatiye, no norte.Não há neste livro a história das atividades interessantes no ConselhoPúblico em prol dos judeus da União Soviética, na condução do ConselhoNacional para Prevenção de Acidentes de Trânsito, no Conselho Superiorde Experiências Médicas em seres humanos, que autorizou a inseminaçãoextracorpórea em Israel, na solução do difícil conflito em torno das obrasdo Hotel Ganê-Chamat, em Tiberíades, no Comitê Rabínico Central arespeito de transplante de coração e de fígado, no Conselho Público para oProgresso da Juventude em Natânia, à testa de entidades de benemerênciae saúde e muitos outros setores de atuação, ausentes deste livro. O que, sim, encontrarão nele? Todas as lembranças da Shoá, do pontode vista pessoal, de como me livrei dos temores do corpo e da alma, meucrescimento como menino e como adolescente sem pais e sem casa, juntocom histórias de meu encontro com pessoas especiais e superiores, alia-das ou não, ligadas, algumas mais e outras menos, ao milagre da salvaçãonacional e pessoal. Minha saída do forno crematório, a construção da casaem minha pátria e a passagem da Shoá ao renascimento, esta é a históriado livro. A chama que ilumina os sobreviventes se transformou com o passardo tempo em brasa. A natureza da brasa é bruxulear e apagar-se. Tentoinsuflar fogo na brasa para que ela não se apague jamais. Uma menina de14 anos, Anne Frank, hy”d, conseguiu emocionar o mundo todo. Não há 11
  10. 10. Lúlekmotivo algum para que a história das circunstâncias de minha vida, tão di-ferentes, não chegue ao conhecimento das pessoas e lhes cause uma refle-xão adicional, de exame de consciência, e talvez também a conclusão que,apesar de todas as perguntas e apesar de todas as questões, “caminhareidiante do Senhor nas terras dos vivos.” O rei Salomão disse na inauguração do Templo Sagrado: “Disse oSenhor que queria habitar nas trevas”. Justamente além da cortina demistério, no mundo oculto, latente e desconhecido, ali habita a shechiná,a inspiração divina. O rebe2 de Kotsk costumava dizer: “Não sou capazde servir a D´us quando todos os seus caminhos me são claros”. Se tudoé nítido, revelado e conhecido, isto eh uma amizade e não deidade. “Eisaqui as provas pelas quais ireis passar.” A fé é examinada justamente pelascoisas espantosas e incompreensíveis. Creio, e assim farei até o meu últimodia. “Castigar, o Senhor me castigou, mas não me entregou à morte.” Nãocreio em casualidade, mas em providência superior. A pergunta para aqual não encontrei resposta é a pergunta do por quê? Por que isto precisouacontecer? Por que Mílek, meu irmão, hy”d, foi arrancado de minha mãepara a morte e eu fui separado dela para a vida? Pelo visto, jamais saberei,mas isto não é capaz de afetar a minha crença em quem disse “e houve omundo.” “Em suas mãos depositarei o meu espírito.” “Cumprirei meus votos para com o Senhor na presença de todo o seupovo.” Ao acordar toda manhã de meu sono, digo com intenção integral:“Agradeço-Te, Rei vivo e eterno, que em mim restauraste minha alma commisericórdia...” Sou eternamente grato ao meu irmão Naftali, que arriscou a suavida incontáveis vezes para cumprir o testamento de nosso pai, hy”d, de2 [N. da T.] Rabino líder de grupo chassídico. 12
  11. 11. Introduçãocuidar de mim e garantir a dinastia rabínica. Apenas um mínimo desteseu ato se expressa no livro. Nosso irmão primogênito, Iehoshua, – nós oencontramos em Atlit ao chegarmos a Israel. Ele e Naftali, junto com meutio, minha tia e mestres, investiram muita consideração e boa vontade emminha educação e em meu crescimento e fizeram tudo o que foi possívelpara afastar de mim a dor da orfandade precoce. Um agradecimento especial é reservado em meu coração para a minhaesposa Chaita, que tenha longa vida, que assumiu uma missão nada fácilde estabelecer um lar e uma família com um companheiro de vida quenão sabia exatamente o que eram um lar e uma família. Foram exigidasdela muita coragem e firmeza, e ela enfrentou honrosamente todas asdificuldades de nosso caminho comum. O primeiro alvo do meu livro são os meus filhos. Eles realmenteouviram de mim algo das atribulações do caminho, mas jamais contei ahistória toda. Fomos aquinhoados, minha esposa e eu, com filhos e filhas,genros, noras e netos, todos são uma geração abençoada de pessoascorretas, bem dotadas por D´us com características caras e maravilhosas.Eles são também a resposta a todos os anseios do coração. São fruto davitória extraordinária diante de todos que se erguem contra nós. Tenho certeza de que à leitura deste livro, eles e os de sua geraçãoentenderão o valor supremo da santificação da vida e o segredo daexistência da eternidade de Israel. Expresso meu agradecimento e minha apreciação ao diretor-geral daeditora, Dov Eichenwald, que me estimulou a publicar as minhas memóriase não descansou até que os seus esforços rendessem frutos. Tenho umsincero reconhecimento a Anat Midan pela atenção e a Tirtsa Arazi pelotrabalho completado e a grande sensibilidade. Também agradeço a Iekutiel [Kuti] Téper e aos membros de suaequipe pelos esforços e os recursos que investiram na produção do livro esua edição. 13
  12. 12. Lúlek Concluirei com uma oração ao Criador do universo, para que nenhumpovo erga a espada contra outro e não mais se guerreie. Porque nenhumacriança no mundo todo deverá passar pela senda de sofrimentos quetrilhamos, meus companheiros e eu, até chegarmos como filhos queretornam aos limites de sua terra. Israel Meir Lau Tel Aviv Adar B 5765 [2005] 14
  13. 13. Primeira parteO CUTELO, O FOGO E A LENHADisse, eis o fogo e a lenhaOnde está o cordeiro para o sacrifício?...Abraão estendeu a mão e tomou o cutelo
  14. 14. Lúlek Primeiras lembranças – Destruição da casa A imagem de meu pai, parado no campo dos expulsos. Esta é umaimagem que me acompanha onde quer que eu vá; a primeira lembrança dainfância gravada em minha mente. Eu, um menino de cinco anos e quatro meses, baixinho e assustado,estendo ao máximo o pescoço, elevando a cabeça, para ver o meu paiparado no campo, o Umschlagplatz, junto à Grande Sinagoga da nossacidade, Piotrkow Trybunalski. Papai, com sua barba impressionante, emseu terno preto de rabino, estava parado no centro, rodeado de judeus. Deum lado estavam os homens, do outro, as mulheres e as crianças. Eu também estava lá, do outro lado, junto com minha mãe e o meuirmão Shmuel-Mílek, de treze anos. Meu irmão mais velho, Túlek-Naftali,de dezesseis anos, se encontrava então na fábrica de vidro Hortênsia,perto de Piotrkow, onde trabalhava. Um ano antes tinha sido levadode nossa casa em Piotrkow e conduzido a Auschwitz. Dois oficiais daSS, de fardas pretas, fitas vermelhas em seus braços com uma suásticabrilhando no meio delas, arrombaram a porta dianteira de nossa casa eperguntaram aos berros a Naftali onde se encontrava o rabino. Não o tendoencontrado, arrastaram Naftali consigo, o interrogaram e torturaram noporão da Gestapo, e em 30 de junho o colocaram em um caminhão quefoi diretamente para Auschwitz. Ali foi empregado em trabalho forçadoe não cessou de tramar um projeto de fuga. No quadragésimo dia de suaprisão, o projeto se concretizou e ele conseguiu fugir do inferno e voltarpara casa. 16
  15. 15. Primeiras lembranças – Destruição da casa Os sintomas do inferno começaram a nos atingir também, emPiotrkow. Na praça diante da sinagoga, sentia-se a tensão enorme na expectativade todos os presentes na praça das expulsões. Em torno reinava um silêncioprofundo e ameaçador. Repentinamente, o comandante da Gestapode Piotrkow aproximou-se do meu pai, com um olhar assassino. Paroudiante dele, sacou do cinto o seu maike, um porrete de borracha de ummetro de comprimento, e fustigou com toda a força as costas do meu pai.Por causa da surpresa do golpe, desferido por trás, e de seu impacto, meupai foi empurrado alguns passos à frente. Seu corpo se curvou para dentro,acachapado, parecia que estava para tombar. E então, em uma fração desegundo, ele se endireitou, deu um passo para trás e retornou ao lugarem que se encontrava antes de receber o golpe. Ali ele permaneceu ereto,ocultando com forças supremas a dor física e a imensa humilhação. Eupude ver meu pai se empenhando, com toda a sua capacidade, para mantero equilíbrio e não cair aos pés do alemão. Papai sabia que a sua quedacausaria a quebra dos judeus da cidade e tentou a todo custo evitar isto. Todos ao seu redor sabiam por que o alemão o fustigara. Os nazistasordenaram que os judeus raspassem as barbas. Muitos dos judeus dePiotrkow se aconselharam com papai se deviam cumprir a ordem, e suaresposta foi veemente: façam isto para se livrar de um castigo. Mas consigopróprio ele foi mais rígido e manteve a barba e as peot, os cachos laterais,para preservar o respeito pela instituição rabínica da cidade e a tradiçãoancestral. Por causa desta sua desobediência, o porrete golpeou as suascostas. Mas as pancadas tinham motivos adicionais. O comandante daGestapo nazista escolheu maltratar justamente o meu pai também pelofato de ele falar alemão fluentemente, assim como pelo fato de ser o rabinoda cidade. O meu pai era o representante dos judeus ante os alemães.Muitas instruções dos homens da Gestapo para os judeus de Piotrkowpassavam por ele, assim como pedidos dos judeus para a Gestapo. Ele 17
  16. 16. Lúlekera uma figura muito respeitada na comunidade judaica. Espancá-lo e,principalmente, humilhá-lo, era, do ponto de vista dos alemães, muitomais do que espancar mais um judeu. Isto tinha um grande significadosimbólico e moral. E talvez houvesse ainda mais um motivo, ou, ao menos, uma conjunçãode fatos. Assim me contou posteriormente o Dr. Avraham Grinberg, diretordo hospital judaico de Piotrkow, que escapou do inferno e se tornou umfamoso ginecologista em Tel Aviv. Ele se encontrava ao lado do meu paina praça da sinagoga, junto com o grupo judeu do conselho de anciãesda cidade, quando o meu pai disse aos judeus que estavam ao seu redor:“Não sei por que nos encontramos aqui de braços cruzados. Mesmo nãopossuindo armas, devemos atacá-los com nossas unhas. Não acho quealguém de nós poderá se salvar por estar parado aqui. Não perderemosnada se tentarmos lutar com eles”. Ele estava acabando a frase quando oporrete do comandante da Gestapo atingiu as suas costas. Esta imagem está gravada em mim principalmente porque presencieia tremenda humilhação. Como menino, é verdade que não entendi tãobem a questão da barba e o significado da ordem de raspá-la, mas entendique estavam espancando terrivelmente o meu pai. Uma criança não écapaz de ver o seu pai, a figura de herói com a qual ele se identifica, sendohumilhado. E eu, que sabia que o meu pai era o rabino-chefe da cidade,que todos reverenciavam e amavam, não consegui suportar o golpe e ahumilhação, seja porque ele era o meu pai, seja porque era o rabino dacidade. Mesmo hoje, quando olho para trás, para os seis anos daquelaguerra, é claro que a pior coisa pela qual passei na Shoá não foi a fome,nem o frio ou as pancadas, mas a humilhação. Difícil, é quase impossívelsuportar a terrível impotência ante uma humilhação sem qualquer culpa.A sensação de impotência é parte da humilhação. Durante todos os anosda guerra pairou na minha cabeça a palavra polonesa: latsgo, que significa“por quê?” O que lhes fizemos para que vocês nos espezinhem? Quãogrande foi o nosso pecado para que este seja o seu castigo? E não houve 18

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