Desejo e engano

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Desejo e engano

  1. 1. “Desde inflação a calamidades globais, Albert Mohler é um guia seguro. Desdeafago psicológico do ego americano à injúria da consciência americana, Mohler épersistentemente realista. De norte a sul, Mohler segura o espelho num ângulo de45º graus entre o céu e a terra; e a resplendente luz da sabedoria divina ilumina assombras de nossa tolice humana. E, no centro do esplendor, está a cruz de JesusCristo, definindo o significado final de tudo. Agradeço a Deus por Albert Mohler.” John Piper Pastor da Bethlehem Baptist Church, Minneapolis“Al Mohler é um dom singular à igreja. Suas análises combinam discernimentoteológico penetrante e percepção cultural perspicaz com uma paixão por pro-clamar com fidelidade o evangelho de Jesus Cristo. Sinto-me feliz porque toda asabedoria de Mohler está agora disponível nesta obra.” C. J. Mahaney Sovereign Grace Ministries“Aplicar as profundas verdades de nossa fé cristã a uma cultura que parece estarse transmutando diante de nossos olhos, parece ser a questão mais difícil queconfronta a igreja hoje. Neste livro bem escrito, Mohler, examina a situação e ofe-rece discernimento e sabedoria para ajudar-nos a fazer isso. Um manifesto parao envolvimento cristão responsável!” Timothy George Deão, Beeson Divinity School, Samford University Editor da Christianity Today“O Dr. Albert Mohler traz seu brilhantismo intelectual, sabedoria moral e discer-nimento teológico juntos em um livro que deve estar na biblioteca de todo aqueleque se interessa por entender as areias movediças da moralidade de nossa cul-tura e por saber como lidar com essa moralidade. Se você está nessa categoria,esta é uma leitura obrigatória.” James Merritt Pastor, Cross Pointe Church, Duluth (GA), Âncora do Ministério Touching Lives
  2. 2. R. ALBERT MOHLER JR.
  3. 3. Desejo e EnganoTraduzido do original em inglês sob o título Desire andDeceit por R. Albert Mohler Jr.Copyright © 2008 by R. Albert Mohler Jr.Publicado por Multnomah Books, uma marca de CrownPublishing Group, uma divisão de Random House, Inc.12265 Oracle Boulevard, Suite 200Colorado Springs, Colorado 80921 USATodos os direitos para tradução em outros idiomasdevem ser contratados através de:Gospel Literature InternationalP.O Box 4060, Ontário, California, 91761-1003 USAA presente tradução foi feita com permissão deMultnomah Books, uma marca de Crown PublishingGroup, uma divisão de Random House, Inc.Copyright © 2009 Editora Fiel1aEdição em Português: 2009Todos os direitos em língua portuguesa reservados porEditora Fiel da Missão Evangélica LiteráriaProibida a reprodução deste livro por quaisquer meios,sem a permissão escrita dos editores, salvo em brevescitações, com indicação da fonte.Presidente: Rick DenhamPresidente Emérito: James Richard Denham Jr.Editor: Tiago J. Santos FilhoTradução: Francisco Wellington FerreiraRevisão: Franklin Ferreira e Tiago J. Santos FilhoDiagramação: SpressCapa: Edvânio SilvaISBN: 978-8599145-72-2Caixa Postal, 1601CEP 12230-971São José dos Campos-SPPABX.: (12) 3936-2529www.editorafiel.com.br
  4. 4. AMary Katherine Mohler,“Katie”,Maravilhosa filha e amiga.Ela conquistou meu coraçãono momento de seu nascimentoE nunca mais o deixou.Desejo e Engano 2prova.indd 5Desejo e Engano 2prova.indd 5 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  5. 5. Desejo e Engano 2prova.indd 6Desejo e Engano 2prova.indd 6 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  6. 6. SumárioAgradecimentos............................................................................ 9Prefácio........................................................................................ 11Capítulo 1 – De Pai para FilhoJ. R. R. Tolkien falando sobre sexo .............................................. 15Capítulo 2 – Uma Nova Maneira de Ver a LuxúriaUm ponto de vista secular........................................................... 23Capítulo 3 – Outra Maneira de Ver a LuxúriaUm ponto de vista cristão............................................................ 29Capítulo 4 – A Pornografia e a Integridade doCasamento CristãoO desafio....................................................................................... 35Capítulo 5 – A Pornografia e a Integridade doCasamento CristãoO chamado................................................................................... 41Capítulo 6 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaAs raízes do movimento .............................................................. 47Desejo e Engano 2prova.indd 7Desejo e Engano 2prova.indd 7 12/18/aaaa 16:03:3912/18/aaaa 16:03:39
  7. 7. Capítulo 7 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaA hermenêutica da legitimação.................................................. 53Capítulo 8 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaUma cosmovisão bíblica.............................................................. 61Capítulo 9 – A Homossexualidade na Perspectiva TeológicaRespondendo ao desafio.............................................................. 69Capítulo 10 – O Fim da AmizadeComoaconfusãosexualcorrompeuaamizadeentrehomens........ 75Capítulo 11 – Depois do BailePor que o movimento homossexual tem vencido....................... 83Capítulo 12 – Alfred KinseyO homem como ele realmente era............................................... 89Capítulo 13 – Lamentando a Cultura GayO enigma de Andrew Sullivan .................................................... 97Capítulo 14 – Lésbicas Criando FilhosVocê já teve problema com isso? ............................................... 105Capítulo 15 – A Era da Perversidade PolimorfaUma revolução fomentada por idéias ...................................... 111Capítulo 16 – A Era da Perversidade PolimorfaSete estratégias para a revolução .............................................. 117Capítulo 17 – A Era da Perversidade PolimorfaA civilização sobreviverá?......................................................... 127Desejo e Engano 2prova.indd 8Desejo e Engano 2prova.indd 8 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  8. 8. AgradecimentosEm um sentido muito real, nenhum autor trabalha so-zinho. Sou profundamente devedor aos muitos amigose colegas que me ajudaram nesta tarefa complexa. Agradeçoespecialmente ao Deão Russel Moore e ao professor KenMagnuson, ambos do Southern Baptist Theological Seminary.Em vários assuntos, eles e outros me ajudaram a aprimorarminhas idéias.Comosempre,soumuitoagradecidoaGregGilbert,diretordepesquisademeuescritório,queprestouassistênciainestimá-vel em preparar este projeto para publicação.Finalmente,queroexpressargratidãoàminhaesposa,Mary,e a nossos filhos, Katie e Christopher. Eles me têm sustentadoem cada mudança e ensinado muito sobre a vida e o amor.9Desejo e Engano 2prova.indd 9Desejo e Engano 2prova.indd 9 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  9. 9. Desejo e Engano 2prova.indd 10Desejo e Engano 2prova.indd 10 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  10. 10. PrefácioHoje, a sexualidade é um fator importante na vida pú-blica dos Estados Unidos e da maior parte do mun-do. De algum modo, isso não é algo novo. Afinal de contas, asexualidade é um dos principais aspectos da existência humana– uma dinâmica complexa, inevitável e potencialmente perigo-sa de nossa vida. Contudo, a sexualidade é agora um assuntopúblico – a prioridade e o centro de alguns dos maiores e maisdisputados debates desta época.Sexo e sexualidade norteiam muito das propagandas, en-tretenimentos e temas culturais que o povo usa em sua conversaregular. A revolução sexual dos anos 1960 foi, em retrospectiva,somenteumsinaldoqueestavaporvir.NestesprimeirosanosdoséculoXXI,assuntossobresexualidadesãoaparentementeinevi-táveis. Alunos do ensino fundamental estão sendo apresentadosa currículos sobre “diversidade familiar”, e os principais jornaisnoticiam o fenômeno da promiscuidade sexual em asilos paraidosos.Parecenãohavernenhumapartedenossaculturaquenãoesteja lidando, de uma maneira ou de outra, com a sexualidade– envolvendo, freqüentemente, significativa controvérsia.11Desejo e Engano 2prova.indd 11Desejo e Engano 2prova.indd 11 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  11. 11. 12 DESEJO E ENGANOOs cristãos têm um papel e um dever especial em meio aesta confusão. Em primeiro lugar, eles sabem que o sexo tantoé mais como menos importante do que a cultura de sexuali-dade liberal pode entender. Diferente dos evolucionistas na-turalistas, os cristãos acreditam que as realidades de gêneroe sexualidade são dons intencionais do Criador, que os deuaos seres humanos como bênção e responsabilidade. Diferentedos relativistas pós-modernos, os cristãos não podem aceitara afirmação de que os padrões sexuais são meras construçõessociais. Cremos que somente o Criador tem o direito de reve-lar sua intenção e ordens concernentes à nossa administraçãodesses dons. Diferente dos gênios e gurus de marketing e pu-blicidade, não cremos que a sexualidade deve ser usada comoum ardil para atrair a atenção e criar demanda no consumidor.Diferente dos complacentes produtores de entretenimento se-xualizado, não cremos que o sexo consiste primariamente emdiversão e prazer. Diferente dos revolucionários sexuais dasdécadas recentes, não cremos que a sexualidade é o meio delibertar o ego da opressão cultural.Em outras palavras, cremos que o sexo é menos importantedo que muitos desejam que creiamos. A existência humana nãose centraliza, primeira e principalmente, no prazer sexual e nademonstraçãodesexualidade.Hámuitomaisparaavidahuma-na, realização e alegria. O sexo não pode cumprir as promessasfeitas por nossa sociedade hipersexualizada.Por outro lado, o sexo é mais importante do que a socie-dade secular pode imaginar. Afinal de contas, a cosmovisãocristã revela que, em última análise, sexo, gênero e sexualidadefazem parte do propósito da criatura para glorificar o Criador.Esta relação transforma toda a questão e deixa a criatura a per-guntar: como posso celebrar e vivenciar a administração deDesejo e Engano 2prova.indd 12Desejo e Engano 2prova.indd 12 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  12. 12. Prefácio 13minha sexualidade e o exercício deste dom de maneira que oCriador seja mais glorificado? É desnecessário dizer que essanão é a pergunta que está motivando a confusão em nossa cul-tura saturada de sexo.Este livro é uma tentativa de considerar, com base na pers-pectiva do cristianismo bíblico, vários assuntos controversos eproblemáticos sobre a sexualidade. Todos nós temos uma partenisso,eoscristãossãoresponsáveisporumtestemunhoespecialquanto ao significado do sexo e da sexualidade.E tudo isso, conforme sabemos, não se refere apenas ao quepensamos sobre esses assuntos, mas também à maneira comotemos de viver.Desejo e Engano 2prova.indd 13Desejo e Engano 2prova.indd 13 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  13. 13. Desejo e Engano 2prova.indd 14Desejo e Engano 2prova.indd 14 12/18/aaaa 16:03:4012/18/aaaa 16:03:40
  14. 14. Capítulo De Pai para FilhoJ. R. R. Tokien falando sobre sexoApopularidade admirável de J. R. R. Tolkien e de seusescritos,engrandecidapelosucessodasériedefilmesO Senhor dos Anéis, nos dão a certeza de que o mundo imaginá-rio e de significado moral de Tolkien permanece como uma dasgrandes realizações literárias de nosso tempo.Em certo sentido, Tolkien foi um homem de outra época.Sendoumfilólogodecoração,eleficavamaisàvontadenomun-do das eras antigas, ao mesmo tempo em que testemunhava oshorrores e barbaridades do século XX. Celebrado como umautor popular, ele era uma testemunha eloqüente de verdadespermanentes. Sua popularidade nos campus universitários, es-tendendo-se de seus dias até ao presente, é uma poderosa indi-cação de que os seus escritos alcançam os corações dos jovens edaqueles que buscam respostas.Ao mesmo tempo em que Tolkien é celebrado como autore literato, algumas de suas mensagens foram transmitidas pormeiodecartas,ealgumasdesuascartasmaisimportantesforamdirigidas aos filhos.Tolkien casou-se com Edith, sua esposa, em 1916; e a uniãofoiabençoadacomquatrofilhos.Dosquatro,trêseramhomens.15Desejo e Engano 2prova.indd 15Desejo e Engano 2prova.indd 15 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  15. 15. 16 DESEJO E ENGANOJohn nasceu em 1917, Michael em 1920 e Christopher em 1924.Priscilla,aúnicafilhadeTolkien,nasceuem1929.Tolkienama-va bastante seus filhos e deixou um grande legado literário naforma de cartas.1Muitas dessas cartas foram dirigidas aos filhose representam não somente um excelente exemplo de qualida-de literária, mas também um tesouro de ensino cristão sobreassuntos como a humanidade, o casamento e o sexo. Conside-radas juntas, essas cartas constituem uma herança inestimávelnão somente para os filhos de Tolkien, mas também para todosaqueles com os quais elas foram compartilhadas.Em1941,TolkienescreveuumacartaprimorosaaoseufilhoMichael, falando sobre o casamento e as realidades da sexua-lidade humana. A carta reflete a cosmovisão de Tolkien e seuprofundo amor pelos filhos. Ao mesmo tempo, reconhece osgraves perigos inerentes à sexualidade desenfreada.“Este é um mundo caído”, afirmou Tolkien. “A perversão doinstintosexualéumdosprincipaissintomasdaQueda.Durantetodas as épocas, o mundo tem ido ao pior. As várias formas demudança social, e cada novo costume têm seus perigos espe-ciais. Mas, desde a queda de Adão, o espírito de concupiscênciatem andado em todas as ruas e se assentado com malícia emtodos os lares”. Esse reconhecimento do pecado humano e dosresultados inevitáveis da Queda expressa um contraste extre-mo em relação ao otimismo humanista que foi compartilhadopor muitos durante o século XX. Mesmo quando os horrores deduas guerras mundiais, do holocausto e de vários outros malescastigaram o otimismo recente quanto ao progresso humano, o1. Humphrey Carpenter & Christopher Tolkien (eds.), As cartas de J. R. R.Tolkien (Curitiba, PR: Editora Arte & Letra, 2006).Desejo e Engano 2prova.indd 16Desejo e Engano 2prova.indd 16 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  16. 16. De Pai para Filho 17século XX deu evidência de uma fé inabalável no sexo e no seupoder libertador. Tolkien não teve nenhuma dessas coisas.“O Diabo é incansavelmente habilidoso, e o sexo é o seuassunto favorito”, insistiu Tolkien. “Ele é tão bom em apanhá-lo por meio de motivos generosos, românticos e compassivos,como o é por meio de motivos mais comuns ou naturais.” AssimTolkien aconselhava seu filho, que na época tinha 21 anos, di-zendo-lhe que as fantasias sexuais do século XX eram mentirasdemoníacas que tencionavam enlaçar os seres humanos. O sexoera uma armadilha, advertiu Tolkien, porque os seres humanossãocapazesderacionalizaçõesquaseinfinitasemtermosdemo-tivos sexuais. O amor romântico não é suficiente para justificaro sexo, Tolkien entendeu.Ampliando o argumento, Tolkien advertiu seu filho de quea amizade entre um homem e uma mulher, uma amizade su-postamente livre de desejo sexual, não demoraria muito a serperturbada pela atração sexual. É quase certo que pelo menosum dos participantes dessa amizade será inflamado pela paixãosexual, advertiu Tolkien. Isso é especialmente verdadeiro no re-lacionamento entre jovens, embora ele acreditasse que esse tipode amizade poderia ocorrer mais tarde na vida, “quando o sexoperde a intensidade”.ConformepercebequalquerleitordeTolkien,eleeraromân-tico de coração. Celebrava o fato de que, “em nossa cultura oci-dental,atradiçãoromânticaecavalheirescaaindaéforte”,emborareconhecesseque“ostemposlhesãohostis”.Assim,comoumpaipreocupado,TolkienaconselhouMichaelaevitarqueseuinstintoromântico o levasse a corromper-se, iludido pela “bajulação dasimpatia bem temperada com estímulos sexuais”.Alémdisso,Tolkiendemonstrouumprofundoentendimen-to da sexualidade masculina e da necessidade de limites e restri-Desejo e Engano 2prova.indd 17Desejo e Engano 2prova.indd 17 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  17. 17. 18 DESEJO E ENGANOções. Embora tenha sido freqüentemente criticado por possuirum entendimento bastante negativo da sexualidade masculina,Tolkien apresentava uma avaliação sincera do impulso sexualem um mundo caído. Ele argumentava que os homens não sãonaturalmente monogâmicos. “A monogamia (embora há muitosejafundamentalàsnossasidéiasherdadas)éparanós,homens,um parte da ética revelada de acordo com a fé, e não de acordocom a carne.”Em seu próprio tempo, Tolkien viu o poder dominante deum costume cultural e da tradição moral regredir à memóriahistórica. Tendo a revolução cultural já visível no horizonte,Tolkien acreditava que a ética do sexo revelada pelo cristianis-mo seria a única força adequada para restringir a sexualidadedesenfreada do homem caído. “Cada um de nós poderia sin-ceramente gerar, em nossos 30 anos excedentes de masculini-dade plena, centenas de filhos e desfrutar do processo”, Tolkienadvertiu seu filho. No entanto, as alegrias e satisfações do casa-mento monogâmico fornecem o único e verdadeiro contextopara a sexualidade que não se envergonha. Além disso, Tolkienera confiante no fato de que o entendimento do cristianismoa respeito do sexo e do casamento implicava prazeres eternose temporais.Ao mesmo tempo em que celebrava a integridade do casa-mento cristão, Tolkien advertia a seu filho de que a verdadeirafidelidade no casamento exige um exercício contínuo da von-tade. No casamento há uma exigência de renúncia, ele insistia.“Fidelidade no casamento cristão envolve isto: grande morti-ficação. Para um homem cristão não há escape. O casamentopode ajudar a santificar e dirigir ao seu devido alvo os seus de-sejos sexuais. As graças do casamento podem ajudá-lo na luta,mas a luta permanece. O casamento não o satisfará de uma vezDesejo e Engano 2prova.indd 18Desejo e Engano 2prova.indd 18 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  18. 18. De Pai para Filho 19– assim como a fome precisa ser mantida afastada por refeiçõesregulares.Apresentarátantasdificuldadesàpurezaconvenienteàquele estado como proverá facilidades. Nenhum homem, pormaisque,comojovem,tenhaamadoverdadeiramentesuanoivae prometida, jamais vivenciou fidelidade para com ela, comoesposa, na mente e no corpo, sem o exercício deliberado de suavontade e sem auto-renúncia.”Tolkien traçava a infidelidade no casamento, especialmentepor parte do homem, ao erro da igreja em não ensinar estas ver-dades nem falar sobre estes assuntos com honestidade. Aque-les que viam o casamento como nada mais do que a arena deamor romântico e arrebatado ficariam desapontados, entendiaTolkien. “Quando o glamour desaparece ou perde seu brilho, oscônjuges pensam que cometeram um erro ou que ainda estãopor achar sua verdadeira alma gêmea. E a verdadeira alma gê-mea é, com freqüência, a próxima pessoa sexualmente atrativaque surge em seu caminho.”Com essas palavras, Tolkien advertiu a seu filho que o ca-samento é uma realidade objetiva honrosa aos olhos de Deus.Assim, o casamento define as suas próprias satisfações. A in-tegridade do casamento cristão exige que um homem exerçasua vontade no âmbito do amor e comprometa todas as suasenergias e paixões sexuais ao estado honroso do casamento,recusando-se até na imaginação a violar seus votos matri-moniais.Em uma carta ao seu amigo C. S. Lewis, Tolkien disse: “Ocasamento cristão não é uma proibição à relação sexual, e sim amaneira correta de temperança sexual – de fato, talvez a melhormaneira de obtermos o prazer sexual mais satisfatório”. Em facede um mundo cada vez mais comprometido com a anarquia se-xual, Tolkien entendeu que o sexo tem de ser respeitado comoDesejo e Engano 2prova.indd 19Desejo e Engano 2prova.indd 19 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  19. 19. 20 DESEJO E ENGANOum dom complexo e volátil, tendo potencial de grande prazer ede grande sofrimento.Comprofundodiscernimentomoral,Tolkienentendeuqueas pessoas que se entregam mais irrestritamente aos prazeressexuais obterão, no final, menos prazer e realização. Como ex-plicaoautorJosephPearce,umdosmaisperspicazesintérpretesde Tolkien, a temperança sexual é necessária “porque o homemnãoviveapenasdesexo”.Temperançaerestriçãorepresentam“ocaminho moderado entre o pudor e a lascívia, os dois extremosda obsessão sexual”, Pearce acrescenta.Referências explícitas à sexualidade estão virtualmenteausentes nas obras, alegorias, fábulas e estórias publicadas deTolkien.Noentanto,osexoestásempreemsegundoplanocomoparte do panorama moral dessas obras. Joseph Pearce entendeuisso com clareza, argumentando que os personagens literáriosde Tolkien “certamente não são destituídos de sexo, no sentidode assexuados, mas, pelo contrário, no que diz respeito ao sexo,são arquétipos e estereótipos”. Pearce faz essa afirmação apesarde não haver atividade ou sedução sexual notória nas históriasde Tolkien.Comoissoépossível?Empregandoumprofundoespíritodemoralidade,Tolkienapresentouseuspersonagensemtermosdehonra e virtude, usando homens heróicos que demonstravamvirtudes masculinas clássicas e heroínas que apareciam comomulheres de honra, valor e pureza.Contudo, se não tivermos considerável acesso às realida-des da família de Tolkien e de seu papel como marido e pai,dificilmente seremos compelidos a apreciar o entendimentode Tolkien quanto ao sexo, casamento e família. As cartas deTolkien, especialmente as que ele escreveu aos três filhos, mos-tram a preocupação amorosa de um pai dedicado, bem comoDesejo e Engano 2prova.indd 20Desejo e Engano 2prova.indd 20 12/18/aaaa 16:03:4112/18/aaaa 16:03:41
  20. 20. De Pai para Filho 21o raro dom literário que Tolkien possuía e empregava compoder. A carta que Tolkien escreveu para Michael em 1941– na época em que o mundo explodia em guerra e a civilizaçãodesmoronava – é um modelo de preocupação, conselho e ins-trução paternal.Do ponto de vista do século XXI, para muitos Tolkien pare-ceria tanto desarmônico como destoante em relação aos padrõessexuais de nossa época. Sem dúvida, ele tomaria isso como umelogio, não intencional, mas sincero. Ele sabia que estava em de-sarmoniacomsuaépocaerecusoufirmementeatualizarsuamo-ralidadeparasatisfazeropadrãoexigidopelaspessoasmodernas.Escrevendo a Christopher, seu filho mais novo, Tolkien explicouisto:“Nascemosnumaépocaobscura,numtempoindevido(paranós). Mas há este consolo: de outro modo, não conheceríamosnemamaríamosoquerealmenteamamos.Imaginoqueumpeixefora da água é o único peixe que tem uma concepção da água”.Somos gratos por essas cartas, elas contêm mais do que uma pe-quena indicação do que Tolkien significava.Desejo e Engano 2prova.indd 21Desejo e Engano 2prova.indd 21 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  21. 21. Desejo e Engano 2prova.indd 22Desejo e Engano 2prova.indd 22 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  22. 22. Capítulo Uma Nova Maneirade Ver a LuxúriaUm ponto de vista secularQuando o filósofo Simon Blackburn foi convidado a darpalestrassobreumdossetepecadoscapitais,temeuquelhe pedissem falar sobre a preguiça. “Fiquei preocupado”, eledisse, “não por causa da falta de familiaridade com o problema,e sim por causa das dúvidas quanto a achar o que dizer sobre oassunto”.Aconteceu, porém, que ele não foi convidado a falar sobrea preguiça. Em vez disso, pediram-lhe que abordasse o assuntodaluxúria;e,quantoaesseassunto,eletevevigorsuficienteparafalar muito sobre o erro que tem motivado a humanidade atra-vés dos séculos. A luxúria, argumentou Blackburn, “recebe mápublicidade”. Seu objetivo, na palestra patrocinada pela Biblio-teca Pública de Nova Iorque e pela editora da Universidade deOxford, era resgatar a luxúria de sua má compreensão e de seuabuso histórico. Ele reconhece que a luxúria tem má reputação.“Ela é a mosca no ungüento, a ovelha negra da família, o primomal–educado e desprezível da família de membros honrososcomo o amor e a amizade. A luxúria vive na parte mais pobre dasociedade, anda por aí forçando sua entrada em grande parte denossa vida, e se ruboriza quando acha uma companhia”.23Desejo e Engano 2prova.indd 23Desejo e Engano 2prova.indd 23 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  23. 23. 24 DESEJO E ENGANOBlackburn é um filosofo de grande reputação; tem ensina-do nas universidades de Oxford, de Cambridge e da Carolinado Norte. É um excelente escritor, que combina tanto estilocomo habilidade. Em anos recentes, ele escreveu Pense: umaintrodução à filosofia e Being good, duas obras que tenciona-vam introduzir assuntos filosóficos ao leitor comum. Nesseslivros, Blackburn apresenta um entendimento fundamental-mente secular da vida e um engajamento neutro com as ques-tões filosóficas e morais.Emseunovolivro,Luxúria,2Blackburnapresentaumavisãomodernizada da luxúria como desejo sexual por amor ao pró-prio desejo. Se a luxúria tem má publicidade, Blackburn querser o seu agente de relações públicas. A luxúria é inevitavelmen-te comparada com o amor. Ele entende o dilema, observando:“Sorrimos para os amantes de mãos dadas no parque. Mas fran-zimos o nariz quando os vemos praticando sua luxúria debaixoda árvore. O amor recebe o aplauso do mundo. A luxúria é fur-tiva, vergonhosa e embaraçadora. O amor busca o bem do pró-ximo, com autocontrole, interesse, razão e propósito. A luxúriabusca sua própria satisfação, é afoita, impaciente, sem controle,imune à razão”. Como um filósofo moral, Blackburn entendeque o amor exige conhecimento, razão e tempo, combinadoscomverdadeeconfiança.Poroutrolado,aluxúriaésimbolizadapor “uma trilha de roupas no corredor”, que representa a perdada razão, do autocontrole e da disciplina.Nãoprecisamosdizer,masaluxúriatemfeitopartedodese-jo e da experiência humana desde a Queda. Blackburn, que nãoapresenta nenhuma evidência de crer em qualquer coisa pare-2. Simon Blackburn, Lust: the seven deadly sins (New York: Oxford UniversityPress, 2006).Desejo e Engano 2prova.indd 24Desejo e Engano 2prova.indd 24 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  24. 24. Uma Nova Maneira de Ver a Luxúria 25cida com pecado, entende a luxúria como um dos grandes de-safios morais que os homens modernos enfrentam. “Viver comluxúria”, diz Blackburn, “é como viver algemado a um lunático”.Francamente, é difícil aprimorar essa definição.Grande parte da dificuldade em abordar o assunto da luxú-ria, em nossos tempos modernos, pode ter sua origem no ca-ráter altamente sexualizado da cultura contemporânea. Aindaque a luxúria seja reduzida ao desejo sexual (e não ao desejopor dinheiro, poder e outras coisas), é cada vez mais difícil se-pararmos a luxúria da ordenação da vida diária. Ela perdeu suavergonha pública; os limites morais foram demolidos em nomedo “progresso” moral. E a sexualidade direciona agora muitasdas propagandas, entretenimentos e temas culturais. Como aluxúria pode ser separada de tudo isso?Blackburn define a luxúria como “o desejo entusiasta queinspira o corpo à atividade sexual e seus prazeres, por amor aessesprópriosprazeres”.Essadefiniçãoémaissofisticadadoqueparece a princípio. Blackburn combina conceitos como entu-siasmo, desejo, atividade sexual e prazer, mas focaliza sua defi-nição de luxúria no desejo de prazer sexual por amor ao próprioprazer. Essa elevação do desejo sexual, despojado de contexto elimites morais, representa bem a luxúria como ela se manifestano mundo contemporâneo.Os antigos identificavam os sete pecados capitais como or-gulho, avareza, luxúria, inveja, glutonaria, ira e preguiça. Toda arevelação da pecaminosidade humana, eles acreditavam, é atri-buída a um desses pecados básicos e aos efeitos mortais que osacompanham. A igreja cristã adotou a noção dos sete pecadoscapitais, unindo a estes as sete virtudes celestiais, identificadascomo prudência, temperança, justiça, coragem, fé, esperança eDesejo e Engano 2prova.indd 25Desejo e Engano 2prova.indd 25 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  25. 25. 26 DESEJO E ENGANOcaridade. Supôs-se que a temperança tinha o propósito de limi-tar a luxúria. Todavia, parece que esta tem levado vantagem.Rastreando a idéia de luxúria no pensamento ocidental,Blackburn rejeita a associação comum de luxúria com exces-so. Luxúria não é realmente desejo excessivo, ele argumenta, esim um desejo por prazer sexual como um fim em si mesmo. Aluxúria encontrou uma derrota nos filósofos estóicos, os quaistemiam uma vida dominada pela paixão, e não pela razão. Ofilósofo romano Sêneca popularizou a filosofia estóica ao ado-tar este moto: “Nada por amor ao prazer”. Ele argumentou quea luxúria tinha de ser vencida por causa da sobrevivência dahumanidade, enquanto a sexualidade deveria ser direcionadatão-somente “à continuação da raça humana”. De fato, Sênecaapresentou esse argumento sobre a luxúria em uma carta quedirigiu à sua mãe; logo, é difícil saber quão seriamente podemosaceitar a sua descrição. No entanto, Blackburn entende Sênecano sentido literal e verdadeiro.Mas, se os estóicos representaram uma derrota significati-va para a luxúria, esse pecado capital achou seu oponente maisletal no cristianismo. Blackburn descreve isso como “o pânicocristão” que direcionou o escrutínio moral ao próprio prazer, enão apenas àquilo que poderia ser considerado excesso. Comodeveríamosesperar,eledirigesuaatençãoaAgostinho,bispodoséculo IV, cujas opiniões sobre sexo influenciaram pelo menosquinzeséculosdopensamentocristão.Agostinho,cujajuventu-de fora dedicada aos excessos sexuais, depois de sua conversãomostrou-se determinado a negar que o prazer sexual fazia partedo propósito do Criador para a sexualidade humana, mesmodesdeoprincípio.SeaQuedanãotivesseacontecido,Agostinhoargumentou, o sexo seria uma atividade puramente racional,não contaminada por qualquer prazer físico. O ato sexual seria,Desejo e Engano 2prova.indd 26Desejo e Engano 2prova.indd 26 12/18/aaaa 16:03:4212/18/aaaa 16:03:42
  26. 26. Uma Nova Maneira de Ver a Luxúria 27de fato, apenas como um aperto de mãos. Mais tarde, conformeapresentada nos pensamentos de Tomás de Aquino, a igreja ar-gumentou que a sexualidade era definida tanto pela ordem bí-blica como pela revelação encontrada na natureza. Essa dimen-são adicional da luxúria direcionava-se aos desejos não naturaisevidentes em boa parte da humanidade.O propósito de Blackburn é sobrepujar todo pessimismopara com a luxúria. Ele até defende o uso de pornografia, quepode,conformeelediz,apontaraospropósitosmaiselevadosdosexo, e não às degradações mais vis. Ele se opõe aos psicólogosevolucionistas, afirmando que as opiniões naturalistas deles arespeito do sexo são muito mecânicas. Mas o principal esforçode Blackburn é vencer o que ele vê como pessimismo do cristia-nismo em relação ao desejo sexual como um fim em si mesmo.De fato, o seu esforço visa negar que a luxúria seja consideradaum pecado capital ou algo semelhante.O livro de Blackburn não responde a todas as perguntasque ele suscita. Enquanto atacao “pessimismo” cristão e insisteque a luxúria seja aceita como uma realidade humana univer-sal, ele não exige a remoção de todos os limites morais sobre asexualidade humana. Em última análise, Luxúria é um fasci-nante tratado oferecido por um intelectual notável, que omiteprudentemente as difíceis decisões morais da vida cotidiana.O ponto de vista de Blackburn sobre a luxúria está destituídodos aspectos ofensivos e está mais arraigado na literatura doque na vida. Talvez isso se deva à profissão de Blackburn comofilósofo acadêmico ou ao fato de que um filósofo secular mo-derno possa falar sobre sexo apenas no contexto de ironia.O ponto de vista cristão sobre o mundo concorda com eleneste ponto: a luxúria é mais bem descrita como um desejo porprazersexualcomoumfimemsimesmo.Agostinhoàparte,nãoDesejo e Engano 2prova.indd 27Desejo e Engano 2prova.indd 27 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  27. 27. 28 DESEJO E ENGANOhá qualquer razão bíblica para suspeitarmos que o sexo antes daQueda fosse destituído de prazer físico. De fato, temos todas asrazões para crer que o prazer sexual é um dos dons mais agradá-veis que Deus outorgou às criaturas humanas. O desejo sexual– e a promessa de prazer sexual – tem o propósito de atrair-nosao casamento, à geração de filhos, à fidelidade e à responsabi-lidade. A luxúria é pecaminosa exatamente pelo fato de que odesejo e a paixão sexual são despojados desse contexto moral.Na cosmovisão centralizada em Deus, nada que existe sobre aterra pode ser visto como um fim em si mesmo. Nada pode serentendido como que existindo por amor a si mesmo.Odesejosexualporamorasimesmoéumdesejodestituídoda glória do Criador e removido do seu contexto moral. O queBlackburn celebra, o cristianismo condena corretamente. Comou sem intenção, ele trouxe a luxúria de volta ao palco de deba-tes, e sua palestra transformada em tese serve para nos mostrarquão sensata talvez acharemos uma defesa secular da luxúria.É claro que há um entendimento completamente diferente daluxúria, mas isso não deve ser esperado de uma cosmovisão se-cular.Somenteocristianismopodeexplicarporquealuxúria–eo pecado em todas as formas – é tão mortal.Desejo e Engano 2prova.indd 28Desejo e Engano 2prova.indd 28 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  28. 28. Capítulo Outra Maneira deVer a LuxúriaUm ponto de vista cristãoEnquanto Simon Blackburn vê a luxúria como um ob-jeto de celebração, Joshua Harris entende que ela é umperigo que deve ser encarado com a maior seriedade. Em seulivro Not Even a Hint: Guarding Your Heart Against Lust [Nemmesmo uma sugestão: guardando seu coração contra a luxú-ria],3Harris oferece uma avaliação imparcial da luxúria comoum desafio para o cristão. Segundo Harris, a luxúria é o desejodirecionado de modo errôneo. “Ter luxúria é querer o que vocênão tem e não deveria ter”, ele explica. “A luxúria vai além daatração, da apreciação da beleza e do desejo saudável por sexo– a luxúria torna esses desejos mais importantes do que Deus.A luxúria quer ultrapassar as diretrizes de Deus a fim de obtersatisfação”.A abordagem de Harris é contracultural desde o início. Amaioria das pessoas rejeita a noção de que há prazeres quenão devemos ter. Nossa sociedade institucionalizou a luxúria,entretecendo os padrões de desejo sexual ilícito em toda a in-3 Joshua Harris, Not even a hint: guarding your heart against lust (Sisters, OR:Multnomah, 2003). Usado com permissão.29Desejo e Engano 2prova.indd 29Desejo e Engano 2prova.indd 29 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  29. 29. 30 DESEJO E ENGANOteração com os meios de comunicação, entretenimento, statuse propagandas. A luxúria é agora uma parte e parcela da visãomoderna a respeito da boa vida. Harris argumenta que “a luxú-ria pode ser a luta que define esta geração”. Gerações anterioresenfrentaram os desafios morais de guerra, pobreza e pestilên-cia, mas esta geração está absorvida em um ciclo contínuo deluxúria e satisfação sexual.Harris, um autor de grande vendagem, é conhecido demuitos jovens cristãos por suas obras a respeito de cortejo ecasamento bíblicos. Em Eu disse adeus ao namoro e Garotoencontra garota, ele ajudou a educar uma geração de evangéli-cos quanto à noção bíblica de cortejo como preparação para ocasamento. Harris é o pastor igreja Covenant Life, em Gaither-sburg, Mariland, e tem combinado experiência pastoral comdiscernimento espiritual perspicaz. Em suas primeiras obras,ele focalizou os perigos inerentes no padrão convencional denamoro que se tornou a norma entre os jovens americanos.Este sistema de namoro “íntimo” entre rapaz e moça é mo-ralmente suspeito porque coloca o casal em um contexto deintimidade sexual prematura. O índice crescente de sexo pré-matrimonial entre os jovens – incluindo muitos dos que sedizem cristãos – é evidência suficiente para aceitarmos comoverdadeiros os argumentos de Harris. Além disso, ele funda-menta seus argumentos em uma visão bíblica de cortejo comopreparação intencional para o casamento.Por que escrever agora sobre luxúria? “Escrever dois livrossobre o assunto de namoro e cortejo, nos últimos cinco anos,ajudou-me a perceber quão sério é este problema para umgrande número de crentes”, Harris explica. “Recebi milharesde cartas e e-mails de pessoas de todas as idades, de muitoslugares do mundo, que estavam lutando contra a impureza se-Desejo e Engano 2prova.indd 30Desejo e Engano 2prova.indd 30 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  30. 30. Outra Maneira de Ver a Luxúria 31xual.” Como Harris o vê, o problema é terrivelmente sério. “Ashistórias são comoventes, tanto de homens como de mulheres.São histórias de compromissos simples que levaram a pecadose tristezas sérios. São histórias de lutas secretas e angustiantescontra sexo antes do casamento, pornografia e homossexua-lidade. São histórias de pessoas que antes juraram permane-cer puras, mas agora não podem acreditar na profundidadede impurezas a que desceram.” Estando a luxúria agora nocentro da cultura americana e sendo até celebrada como umaparte vital da “boa vida”, Harris parece soar de um absolutoextremismo no que diz respeito à luxúria. Qual é o padrão deDeus concernente à luxúria? Quanta luxúria é permissível àvida cristã? A resposta de Harris é a essência da simplicidade:“Nada. Nadinha. Zero”. Caso você não entenda, ele prossegueinsistindo que a luxúria não tem qualquer lugar na vida cristã– nem mesmo uma sugestão.Por que esse padrão elevado? “Não estou dizendo issopara ser dramático”, insiste Harris. “Creio realmente que esteé o chamado de Deus para cada cristão, não importando otipo de cultura em que viva ou a idade que tenha. Isso nãoacontece porque Deus é autoritário ou severo, por amor à se-veridade; antes, porque Ele nos ama – e somos dEle.” JoshuaHarris é um homem honesto e expressa essa honestidade emNot Even a Hint. Ele confessa sua própria luta contra a luxúriacomo rapaz e permite que os leitores – homens e mulheres– se identifiquem com a profundidade de sua luta moral eespiritual.Ao abordar a luxúria, definida como desejo sexual ilícito,a principal dificuldade que enfrentamos é definir a distinçãoentre o desejo sexual impróprio e o desejo sexual saudável.Harris admite essa dificuldade e tenta delinear a distinçãoDesejo e Engano 2prova.indd 31Desejo e Engano 2prova.indd 31 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  31. 31. 32 DESEJO E ENGANOpor insistir que a luxúria não é o mesmo que ser atraído aalguém e também não é uma erupção repentina da tentaçãosexual. A essência da luxúria é o desfrute do desejo ilícito, oprazer da tentação levado adiante. No entanto, o desejo ino-cente pode se tornar em luxúria, se a esta for dada o menorconvite. Como explica Harris: “Um pensamento sexual quesurge em sua mente não é necessariamente luxúria, mas logopode se tornar luxúria se for entretido e cogitado durantecerto tempo. Uma excitação por sexo no casamento não épecado, mas pode ser maculado pela luxúria se não for tem-perado com paciência e restrição”.O impulso do sexo humano não é produto da biologia ouda evolução. Nosso Criador nos fez seres sexuais e colocou umforte impulso sexual dentro de nós, a fim de impelir-nos aocasamento e a todas as coisas boas vinculadas à união conjugal.Visto que somos criaturas caídas, precisamos de assistênciaorientadora do impulso sexual para nos tirar da letargia e doegocentrismoparaumrelacionamentofielefrutíferocomumaesposa. Ao criar-nos homem e mulher, Deus tencionava que oshomens fossem sexualmente atraídos às mulheres, e estas, aoshomens. Essa atração não é uma questão de mutualidade entredois gêneros; antes, ela tem o objetivo de nos direcionar à mu-tualidade entre duas pessoas unidas na aliança do casamento.No casamento, o prazer e a paixão sexual são partes essenciaisdo apego relacional que mantém a união firme, aponta à pro-criação e estabelece a intimidade descrita na Bíblia como orelacionamento de “uma só carne”. Joshua Harris entende issoe afirma que “Deus nos deu impulsos para que sejamos impe-lidos a alguma coisa”.O problema mortal da luxúria surge quando o impulsosexual é dirigido para algo menor ou diferente da pureza noDesejo e Engano 2prova.indd 32Desejo e Engano 2prova.indd 32 12/18/aaaa 16:03:4312/18/aaaa 16:03:43
  32. 32. Outra Maneira de Ver a Luxúria 33casamento. Esse entendimento cristão da luxúria é bem dis-tinto do argumento secular de Simon Blackburn. EnquantoBlackburn define a paixão e o prazer sexual como fins em simesmos, levando a uma aceitação ampla da luxúria como umato de auto-afirmação, a cosmovisão cristã de Joshua Harrisleva-o a ver a luxúria como um elemento que recorda ao crentea sua necessidade de auto-renúncia. Ele entende o fato de quevivemos em uma era pornográfica e uma sociedade motivadapela luxúria. Reconhecendo essas realidades, Harris propõeum “plano adaptável à necessidade” para cada indivíduo. Emface das complexas fascinações da pornografia e da seduçãosexual, Harris entende que cada pessoa provavelmente se de-parará com um diferente padrão de tentação. Como ele re-conhece, “pode não haver uma abordagem única que atendaàs necessidades de todos no combate à luxúria”. Sendo esse ocaso, o cristão tem o dever de ser honesto a respeito do padrãode tentação que ele ou ela enfrenta. Se a tentação vem por meiode livros, da Internet, de correspondências e do contexto geralda vida diária, Harris propõe a necessidade de prestar contasa alguém e de honestidade implacável a respeito da luxúria esuas conseqüências.Depois de haver ele mesmo passado pela experiência, Har-ris também sabe que a luta contra a luxúria não pode ser venci-da por mera determinação pessoal e aplicação de autocontrole.Além disso, o legalismo não é o antídoto para a luxúria. “Nãopodemos salvar nem transformar a nós mesmos”, ele explica.“Somente a fé em Cristo pode livrar-nos da prisão de nosso pe-cado. E somente o Espírito Santo pode transformar-nos. Nossatarefa consiste em clamar pela obra dEle, participar dessa obrae submeter-Lhe cada vez mais nossos pensamentos, ações edesejos.”Desejo e Engano 2prova.indd 33Desejo e Engano 2prova.indd 33 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  33. 33. 34 DESEJO E ENGANOSimonBlackburnachaquealuxúriaéumavirtude,emuitoscristãos iludem-se pensando que a luxúria não é um problemareal. Joshua Harris ofereceu um antídoto para esses conceitostrágicos e errôneos. A luxúria é não somente um erro, mas tam-bém um pecado que estimula outros pecados.Desejo e Engano 2prova.indd 34Desejo e Engano 2prova.indd 34 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  34. 34. Capítulo A Pornografia e aIntegridade do Casamento CristãoO DesafioAinterseção de pornografia e casamento é uma dasquestões mais problemáticas entre os casais hoje,incluindo os casais cristãos. A praga universal da pornografiarepresenta um dos maiores desafios morais enfrentados pelaigreja cristã na era pós-moderna. Estando o erotismo entreme-ado no âmago de nossa cultura, sendo celebrado em seus en-tretenimentos e anunciado como um bem de consumo, é quaseimpossívelescapardaamplainfluênciadapornografiaemnossavida e cultura. Ao mesmo tempo, o problema da pecaminosida-de humana permanece fundamentalmente inalterado desde aQueda até o presente. Não há qualquer base teológica para su-pormos que os seres humanos são mais lascivos, mais indefesosdiante da tentação sexual ou mais suscetíveis à corrupção dodesejo sexual do que eram nas gerações anteriores.Duas características distinguem a época presente das épo-cas anteriores. Primeira: a pornografia tem sido tão divulgadapor meio de propagandas, de imagens comerciais, de entreteni-mento e da vida diária, que aquilo que era considerado impró-prio décadas atrás agora é aceito como roupa comum, diversãonormal e sensualidade trivial. Segunda: o erotismo explícito35Desejo e Engano 2prova.indd 35Desejo e Engano 2prova.indd 35 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  35. 35. 36 DESEJO E ENGANO– completado com imagens, narrativas e simbolismo porno-gráficos – é agora celebrado como um bem cultural em algunssetores da sociedade. A pornografia – agora noticiada como osétimomaiornegócionaAmérica–possuiosseusprópriosíco-nes e personagens públicos. Hugh Hefner, fundador da revistaPlayboy, é considerado por muitos americanos um modelo desucesso empresarial, prazer sexual e estilo de vida liberal. O usode Hugh Hefner como orador por uma cadeia de lojas de ham-búrgueres, na Califórnia, indica como a pornografia tem sidoincorporada à nossa cultura.Resultante dessas duas características, há uma terceirarealidade – notadamente, a exposição crescente à excitaçãoerótica cria a necessidade de estímulos cada vez mais fortespara despertar o interesse sexual e cativar a atenção. Numalinguagem curiosa, a hiper-exposição à pornografia leva a umretorno cada vez mais baixo do investimento, isso significa:quanto mais alguém vê pornografia, tanto mais explícitas têmde serem as imagens para despertar o interesse. Assim, paramanter a excitação de “transgredir”, como diriam os pós-mo-dernistas, as pessoas dadas à pornografia têm de continuar ex-cedendo os limites.Mais uma qualificação tem de ser acrescentada a esse pano-rama.Apornografiaéprincipalmente,masnãoexclusivamente,um fenômeno masculino. Isso significa que os usuários e con-sumidores da pornografia são predominantemente masculinos– rapazes e homens. Em nome da libertação da mulher, certaquantidade de pornografia dirigida ao mercado feminino temsurgidoemanosrecentes.Noentanto,esseéapenasumnichodemercadonaamplaeconomiapornográfica.Permaneceofatodeque muitos homens pagam grandes somas de dinheiro e gastamDesejo e Engano 2prova.indd 36Desejo e Engano 2prova.indd 36 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  36. 36. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 37bastantetempoolhandoecontemplandoimagenspornográficas,a fim de estimularem-se sexualmente.Por que a pornografia é um negócio tão grande? A respostadessa pergunta está em duas realidades básicas. Em primeirolugar, a resposta mais fundamental dessa pergunta tem de es-tar arraigada em um entendimento bíblico dos seres humanoscomo pecadores. Temos de levar em conta o fato de que o peca-do corrompeu toda coisa boa da criação, e os efeitos do pecadose estendem a todos os aspectos da vida. O impulso sexual,que deveria apontar à aliança de fidelidade no casamento etodas as coisas boas associadas com essa instituição, tem sidocorrompido a ponto de causar efeito devastador. Em vez de serdirigido à fidelidade, ao compromisso de aliança e procria-ção e ao relacionamento de “uma só carne”, o impulso sexualtem sido degradado a um tipo de paixão que rouba de Deus aglória e celebra a sensualidade às expensas do espiritual, to-mando aquilo que Deus tencionou para o bem e colocando-onum caminho que leva à ruína, em nome da satisfação pessoal.A resposta mais importante que podemos dar à elevação dapopularidade da pornografia está fundamentada na doutrinacristã do pecado. Como pecadores, corrompemos o que Deusplanejou perfeitamente para o bem de suas criaturas e trans-formamos o sexo em um carnaval de prazeres orgíacos. Nãosomente separamos o sexo do casamento, mas, como socieda-de, agora vemos o casamento como uma imposição, a castida-de como um embaraço, e a restrição sexual como uma inibiçãopsicológica. A doutrina do pecado explica por que trocamos aglória de Deus pelo conceito de “perversidade polimorfa”, deSigmund Freud.Precisamos também reconhecer que uma economia ca-pitalista de livre mercado recompensa aqueles que criam umDesejo e Engano 2prova.indd 37Desejo e Engano 2prova.indd 37 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  37. 37. 38 DESEJO E ENGANOprodutoquetantoéatraentecomodesejável.Ospromotoresdapornografia sabem que são bem-sucedidos por dirigirem seuproduto ao denominador comum mais vil da humanidade – amente sexual depravada. Sem as restrições legais comuns dasgerações anteriores, os produtores de pornografia estão agoralivres para vender seus produtos quase sem restrição. Alémdisso, eles estruturam seus planos de marketing na suposiçãode que uma pessoa pode ser seduzida ao uso de pornografia e,assim, ser cativada a um padrão de dependência de imagenspornográficas e à necessidade de conteúdo sexual cada vezmais explícito como um meio para a estimulação sexual.O fator decisivo é que, em sua pecaminosidade, os homenssão atraídos à pornografia; e uma porcentagem assustadora-mente ampla de homens desenvolve uma dependência de ima-gens pornográficas para sua estimulação sexual e para seu con-ceito de vida agradável, de realização sexual e de significado davida. Pesquisas médicas têm documentado um fluxo crescentede endorfinas, hormônios que produzem o prazer no cérebro,quando as imagens sexuais são vistas. Devido à lei do efeitoreduzido, estimulação maior é necessária para manter um flu-xo constante de endorfina nos centros de prazer do cérebro.Sem consciência nítida do que está acontecendo, os homensestão sendo atraídos a um padrão cada vez mais profundo depecado, de mais pornografia e de racionalização interminá-vel. E tudo se iniciou quando os olhos começaram sua leituraatenta da imagem pornográfica, e a estimulação sexual foi oseu resultado.A era pós-moderna trouxe muitas coisas admiráveis, bemcomo mudanças morais inacreditáveis. Freqüentemente,o avanço tecnológico e a complexidade moral vêm de mãosdadas. Isso é mais evidente no caso do desenvolvimento daDesejo e Engano 2prova.indd 38Desejo e Engano 2prova.indd 38 12/18/aaaa 16:03:4412/18/aaaa 16:03:44
  38. 38. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 39internet. Pela primeira vez na história da humanidade, umadolescente tem acesso, no seu quarto, a inúmeros websitespornográficos, que atendem a toda paixão, perversão e pra-zer sexual imaginável. O adolescente de hoje, se não estiverisolado em alguma ilha deserta, talvez saiba mais sobre sexoe suas complexidades do que seu pai sabia quando se casou.Além disso, o que muitas gerações sabiam apenas na imagi-nação – se, de fato, sabiam – agora está disponível aos olhosnos websites, tanto pagos como gratuitos. A internet trouxe aauto-estrada da pornografia a toda comunidade, com rampasde entrada nos computadores dos lares.A pornografia representa um dos mais insidiosos ataquescontra a santidade do casamento e da beleza do sexo no am-biente do relacionamento de “uma só carne”. A celebraçãoda devassidão, em vez da celebração da pureza, a exaltaçãodo prazer físico acima de todas as outras considerações e aperversão da energia sexual por meio de uma inversão do“eu” – tudo isso corrompe a noção do casamento, leva a da-nos incalculáveis e subverte tanto o casamento como os laçosmatrimoniais.Desejo e Engano 2prova.indd 39Desejo e Engano 2prova.indd 39 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  39. 39. Desejo e Engano 2prova.indd 40Desejo e Engano 2prova.indd 40 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  40. 40. Capítulo A Pornografia e aIntegridade do Casamento CristãoO chamadoAcosmovisão cristã tem de direcionar à instituição docasamentotodasasconsideraçõessobreasexualida-de.Ocasamentoéoambientedaatividadesexual.Éapresentadonas Escrituras como o ambiente designado por Deus para a re-velaçãodasuaglórianaterra,quandoumhomemeumamulherse unem no relacionamento de “uma só carne”, na aliança docasamento. Entendido e ordenado da maneira correta, o casa-mento é uma figura da própria aliança da fidelidade de Deus.O casamento deve manifestar a glória de Deus, revelar os seusdons às suas criaturas e proteger os seres humanos do desastreinevitável que ocorre quando as paixões sexuais são divorciadasde seu devido lugar.A marginalização do casamento e a antipatia pública coma qual a maior parte da elite cultural aborda o assunto do casa-mento produzem um contexto em que os cristãos comprometi-dos com uma ética do matrimônio parecem terrivelmente forade harmonia com a cultura. Enquanto a sociedade vê o casa-mentocomoumcontratoparticularquepodeserfeitoedesfeitoàvontade,oscristãostêmdeverocasamentocomoumaaliança41Desejo e Engano 2prova.indd 41Desejo e Engano 2prova.indd 41 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  41. 41. 42 DESEJO E ENGANOinviolável feita diante de Deus, uma aliança que estabelece rea-lidades temporais e eternas.Os cristãos não devem ficar embaraçados quando falam so-bre sexo e sexualidade. Uma hesitação ou embaraço imprópriosem tratar desses assuntos é uma forma de desrespeito à criaçãode Deus. Tudo que Deus fez é bom, e toda coisa boa feita porDeus tem um propósito intencional que, em última análise, re-vela a sua glória. Quando os cristãos conservadores reagem aosassuntos sexuais com ambivalência e embaraço, difamamos abondade de Deus e ocultamos sua glória, que deve ser reveladano uso correto dos dons da criação.Portanto,nossaprimeiraresponsabilidadeémostraratodasas pessoas o uso correto das boas dádivas de Deus e a legitimi-dade do sexo no casamento como aspectos vitais da intençãode Deus para o casamento desde o princípio. Muitos indivídu-os – especialmente os rapazes – nutrem uma falsa expectativaquanto ao que o sexo representa no âmbito do relacionamentomatrimonial. Visto que o impulso sexual masculino é ampla-mente dirigido ao prazer físico, os homens imaginam freqüen-tementequeasmulheressãoiguaisaeles.Emboraoprazerfísicoseja uma parte essencial da experiência feminina do sexo, umamulher não se focaliza no objetivo único do prazer físico, comoacontece com o homem.Um ponto de vista bíblico entende que Deus demonstra suaglória tanto nas similaridades como nas diferenças que carac-terizam homens e mulheres. Criados igualmente à imagem esemelhança de Deus, homens e mulheres foram feitos um parao outro. Os aspectos físicos dos corpos do homem e da mulherexigemasatisfaçãonooutro.Oimpulsosexualtiraohomemeamulher de si mesmos e os move a um relacionamento de aliançaque se consuma na união de “uma só carne”. Por definição, oDesejo e Engano 2prova.indd 42Desejo e Engano 2prova.indd 42 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  42. 42. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 43sexonocasamentonãoéapenasarealizaçãodasatisfaçãosexualpor parte de duas pessoas que compartilham a mesma cama.Antes, é o ato mútuo de se darem que atinge prazeres tanto fí-sicos como espirituais. O aspecto emocional do sexo não podeserdivorciadodesuadimensãofísica.Emboraoshomenssejamfreqüentemente tentados a esquecer isso, as mulheres possuemmeios mais ou menos gentis de tornar isso claro.Considere o fato de que a mulher tem todo o direito de es-perarqueseumaridotenhadeganharoacessoaoleitoconjugal.Conforme o apóstolo disse, o marido e a mulher não possuemmaisseuspróprioscorpos,masagoraumpertenceaooutro(ver1Co 7.4). Ao mesmo tempo, Paulo instruiu os maridos a ama-rem sua mulher como Cristo amou a igreja (ver Ef 5.25). Assimcomo as mulheres são ordenadas a se submeterem à autoridadedeseumarido(v.22),esteéchamadoaumpadrãodeamormaiselevado, semelhante ao de Cristo, e de dedicação para com suamulher. Por isso, quando digo que um marido tem de ganharo acesso ao leito conjugal, estou dizendo que um marido deveà sua mulher a confiança, a afeição e o apoio emocional que alevam a se dar livremente ao marido em um ato de sexo.A sexualidade é um dom de Deus e foi planejada para tirar-nos de nós mesmos e impelir-nos a buscar um cônjuge. Para oshomens,issosignificaqueocasamentonoschamaadeixarnossointeresse egoísta por prazer genital em favor da plenitude do atosexualnorelacionamentoconjugal.Expressandoemtermosmaisdiretos, creio que Deus tenciona que um homem seja disciplina-do, direcionado e estimulado à fidelidade conjugal por meio dofato de que a sua mulher se dará livremente a ele, no ato sexual,quando ele se apresenta como digno da atenção e desejo dela.Ser específico pode nos ajudar neste ponto. Acredito que aglóriadeDeusévistanofatodequeumhomemcasado,fielàsuaDesejo e Engano 2prova.indd 43Desejo e Engano 2prova.indd 43 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  43. 43. 44 DESEJO E ENGANOesposa, que a ama genuinamente, acordará de manhã motivadopelo desejo e anelo de tornar sua esposa orgulhosa, confiante esegura de sua dedicação a ela. Um esposo que espera realizar oatosexualcomsuaesposaterácomoalvodesuavidafazeraque-las coisas que trarão orgulho legítimo ao coração da esposa, sedirigirá a ela com amor como o alicerce de seu relacionamentoe se apresentará a ela como um homem que lhe dá orgulho esatisfação.Considere esses dois quadros. O primeiro é o de um homemque se determina a um compromisso de pureza sexual e vive emintegridade sexual com sua esposa. A fim de satisfazer as expec-tativas legítimas de sua esposa e de maximizar o prazer de ambosno leito conjugal, ele se mostra cuidadoso em viver, conversar,liderar e amar de tal modo que sua esposa acha sua satisfação emdar-se a si mesma em amor. O ato sexual se torna uma culmina-ção de todo o relacionamento, e não um ato físico isolado que émeramenteincidentalaoamordeumparacomoooutro.Elesnãousam o sexo como um meio de manipulação, nem se focalizamvulgarmente no prazer pessoal egocêntrico; ambos se dão um aooutroempaixãoimaculadaeirrestrita.Nessequadro,nãoháver-gonha. Diante de Deus, esse homem pode estar confiante de queestá cumprindo suas responsabilidades como marido e homem.Está dirigindo sua sexualidade, seu impulso sexual e seu vigorfísico ao relacionamento de “uma só carne” que é o paradigmaperfeito da intenção de Deus na criação.Por contraste, considere outro homem. Ele vive sozinhoou, pelo menos, em um contexto diferente do contexto de ca-samento puro. Seu impulso sexual direcionado por egoísmo enão por altruísmo se tornou um instrumento de luxúria e auto-satisfação. A pornografia é a essência de seu interesse e estímulosexual. Em vez de achar satisfação em uma esposa, ele vê fotosDesejo e Engano 2prova.indd 44Desejo e Engano 2prova.indd 44 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  44. 44. A Pornografia e a Integridade do Casamento Cristão 45impuras para ser recompensado com estimulo sexual que sur-ge sem responsabilidade, expectativa e necessidade legítima.Expostas diante dele, acham-se uma variedade aparentementeinumerável de mulheres nuas, imagens sexuais de carnalidadeexplícita e uma abundância de perversões que têm o propósitode seduzir a imaginação e corromper a alma. Esse homem nãoprecisa se preocupar com sua aparência física, sua higiene pes-soal ou seu caráter moral aos olhos de uma mulher. Sem essaestrutura e responsabilidade, ele está livre para obter seu prazersexual, sem levar em conta seu rosto não barbeado, sua indo-lência, seu mau hálito, o odor de seu corpo ou sua aparênciafísica. Ele não está sob nenhuma exigência de respeito pessoal,e não tem alguém para avaliar a seriedade e a dignidade de seudesejo sexual. Em vez disso, seus olhos vagueiam pelas imagensde rostos sem afeição, contemplando mulheres que não lhe fa-zem qualquer exigência, não se comunicam com ele e nunca lhedizem não. Não há troca de respeito, troca de amor e nada maisdo que o uso de uma mulher como objeto de sexo para o prazersexual pervertido e individual desse homem.Esses dois quadros de sexualidade masculina tencionamincutir propositadamente a lição de que cada homem tem dedecidir quem ele será, a quem servirá e a quem amará. Em últi-ma análise, a decisão de um homem a respeito da pornografiaé uma decisão a respeito de sua alma, de seu casamento, de suavida e de seu Deus.A pornografia é uma difamação da bondade da criação deDeus e uma corrupção desse ótimo dom que Deus outorgou àssuas criaturas, motivado por seu amor altruísta. Abusar dessedom significa enfraquecer não somente a instituição do ca-samento, mas também a própria estrutura da civilização. Es-colher a luxúria em lugar do amor é aviltar a humanidade eDesejo e Engano 2prova.indd 45Desejo e Engano 2prova.indd 45 12/18/aaaa 16:03:4512/18/aaaa 16:03:45
  45. 45. 46 DESEJO E ENGANOadorar a falsa divindade [da mitologia grega] Priapus, na maisdescarada forma de idolatria moderna.O uso deliberado da pornografia equivale ao convite volun-tário de amantes ilícitos, objetos de sexo e conhecimento proi-bido ao coração, mente e alma do homem. O dano no coraçãodo homem é incalculável, e o custo da infelicidade humana sóserá evidente no Dia do Juízo. Desde o momento em que cadahomematinge apuberdadeatéodiaemque morre, ele luta con-tra a luxúria. Sigamos o exemplo e a ordem bíblica de fazermosuma aliança com os olhos para não contemplarmos o pecado.Nesta sociedade, somos chamados a ser responsáveis uns pelosoutros em meio a um mundo que vive como se nunca haverá deser chamado a prestar contas.Desejo e Engano 2prova.indd 46Desejo e Engano 2prova.indd 46 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  46. 46. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaAs raízes do movimentoEm cada época, a igreja se depara com desafios culturaise éticos que provam tanto a convicção como o amor docorpo de Cristo. Desde a Segunda Guerra Mundial, os cristãosamericanos têm lutado contra assuntos como racismo, guerras,aborto e sexualidade, em ondas sucessivas de confrontação mo-ral. Em última análise, os assuntos da homossexualidade e doaborto talvez sejam os dois assuntos mais divisivos que os ame-ricanos já enfrentaram desde a Guerra Civil.O assunto da homossexualidade é atualmente a frente decombate mais intensa na chamada guerra cultural. Grupos deativistashomossexuaisestãopressionandoporreconhecimen-to para os homossexuais e as lésbicas como uma classe à qualse deve oferecer proteções especiais pela legislação dos direitoscivis; e a literatura direcionada a homossexuais é agora algo co-mum nas bibliotecas públicas – e mesmo em algumas escolaspúblicas. A erudição secular tem capitulado amplamente aomovimentohomossexual,eprogramasdeestudoshomossexu-ais são agora um nicho crescente na cultura acadêmica. Alémdisso, os principais meios de comunicação retratam a homos-sexualidade em uma luz positiva. Personagens notoriamente47Desejo e Engano 2prova.indd 47Desejo e Engano 2prova.indd 47 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  47. 47. 48 DESEJO E ENGANOhomossexuais, no horário nobre da televisão, são unidos porimagens homoeróticas em propagandas diversificadas. Aindamais triste é o fato de que muitas das denominações históri-cas protestantes estão debatendo a homossexualidade com ofoco no assunto da ordenação de homossexuais praticantes aoministério.Como isso chegou a acontecer? As origens do movimentohomossexual como uma grande força cultural pode ser traçadaaos tumultos ocorridos em Stonewall, em Manhattan, em 1969.Conhecido na comunidade homossexual como a Rebelião deStonewall,otumultoaconteceuquandoapolíciadeNovaIorqueinvadiu um bar homossexual. Os donos fugiram pelos fundos,e o tumulto se tornou conhecido como o símbolo inaugural daliberaçãodomovimentogay.Comonoticiouo VillageVoice,em3 de julho de 1969: “O poder gay ergueu sua cabeça audaciosa ecuspiu uma história que a região jamais viu igual... Vejam só. Alibertação está a caminho”.O resultado tem sido um esforço deliberado e estratégicopara ganhar a legitimação da homossexualidade, promover te-mashomossexuaisnosmeiosdecomunicaçãoegarantiraosho-mossexuais direitos especiais como uma classe protegida legal-mente.Alémdisso,omovimentotemexercidopressãoporalvosespecíficos, como a remoção de leis anti-sodomia, o reconheci-mento do parceiro homossexual em nível de igualdade com ocasamento heterossexual, a promulgação de leis antidiscrimi-natórias e a remoção de todas as barreiras aos homossexuais noserviço militar, na erudição, nos negócios e nas igrejas.A fim de atingir esses alvos, o movimento homossexual seorganizou como um movimento de libertação, baseado numaideologia de libertação que tem suas raízes em filosofias mar-xistas. Assim, a intenção tem sido a de se identificar com outrosDesejo e Engano 2prova.indd 48Desejo e Engano 2prova.indd 48 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  48. 48. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 49movimentos de libertação, incluindo o movimento dos direitosciviseaagendafeminista.Masoalvonãoéapenasalegitimaçãoda atividade homossexual ou mesmo o reconhecimento de re-lacionamentos homossexuais. Antes, o alvo é a criação de umacultura homossexual pública como parte das correntes de pen-samento prevalecentes entre os americanos.Esse movimento é um desafio ousado a todos os setoresda sociedade americana. Tornou-se o propulsor de uma revo-lução social que influenciará ou transformará cada instituiçãoda vida americana, desde a família e instituições intermediáriasaté o Estado. Além disso, uma perspectiva evangélica tem dereconhecer que essa revolução é um ataque aos fundamentosde gênero, família, sexualidade e moralidade – os quais são, to-dos, assuntos centrais na cosmovisão cristã fundamentada naPalavra de Deus, revelada nas Escrituras. Portanto, esse é umdesafio que os evangélicos não podem deixar de enfrentar comgraça e honestidade.O movimento homossexual não surgiu de um vácuo. Defato, o desafio emergiu no contexto da grande mudança cultu-ral que transformou as sociedades ocidentais durante o séculoXX. O conceito de uma mudança cultural atrai a atenção ao pa-drão de mudanças fundamentais que têm moldado cada nívelda vida social e cultural. Uma mudança cultural é nada maisque uma reordenação fundamental da sociedade em termosde cultura, ideologias, cosmovisões, moralidade e padrões deconhecimento.A mudança cultural da modernidade para a pós-moder-nidade afetou todas as “comunidades de significado”, usandouma categoria favorecida pelos sociólogos. Do ponto de vistacristão, a categoria mais importante é a verdade, e a mudançacultural reordenou radicalmente a maneira como as pessoasDesejo e Engano 2prova.indd 49Desejo e Engano 2prova.indd 49 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  49. 49. 50 DESEJO E ENGANOvêem o assunto da verdade. A segunda metade do século XXprovou que a ala esquerda do iluminismo obteve a vitória. Em-bora muitos dos pré-iluministas entendessem que a verdadeera uma realidade objetiva à qual deviam se submeter quan-do ela é conhecida, os americanos modernos vêem a verdadecomo um bem particular que deve ser moldado, aceitado ourejeitado de acordo com as preferências e gostos pessoais. Defato, a maioria dos americanos adultos rejeita a própria noçãode verdade absoluta.Todas as questões de fé e moralidade são consideradas pelamaioria dos americanos como questões de mera preferênciapessoal. Toda a verdade é interior e particular. Essa adoção doindividualismo puro ressalta a presente confusão cultural. Amudança sucessiva e progressiva concernente ao lugar da ver-dade e da autoridade, a mudança de uma cosmovisão cristã arespeito do Estado para o indivíduo isolado, deixa os america-nos desarmados para um discurso moral autêntico. E tudo queresta é subjetividade absoluta e os inevitáveis conflitos de poderque ocorrem quando ideologias e programas políticos se cho-cam em praça pública.Evidentemente, muitos dos que se consideram cristãos têmsucumbido à sedução das cosmovisões relativistas. Mas os cris-tãos verdadeiros têm de encarar com firmeza a verdade de quea fé uma vez por todas entregue aos santos é fundamentalmen-te incompatível com a rejeição da verdade absoluta. O próprioevangelho é uma afirmação direta de uma verdade absoluta euniversal, e a Bíblia (que é incompreensível à parte de sua rei-vindicaçãodeseraverdadeabsolutareveladaporDeusmesmo)faz uma alegação da verdade que se aplica a todas as pessoas, emtodos os lugares, em todos os tempos. Se não há uma verdadeabsoluta, não há fé cristã nem salvação por meio de Jesus Cristo,Desejo e Engano 2prova.indd 50Desejo e Engano 2prova.indd 50 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  50. 50. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 51que fez uma afirmação absoluta e universal quando disse: “Eusou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6).Por isso, vemos a guerra cultural que agora caracteriza a re-pública americana. As questões ligadas a sexualidade e aborto– e toda a controvérsia quanto ao politicamente correto – sãoapenas frentes e linhas de batalha na guerra cultural. Os cristãosprecisam estar armados para esse conflito, e isso será possívelsomente por meio de uma redescoberta da fé bíblica e de cora-gem resoluta.Uma das mudanças mais formativas na consciência públi-ca da nação é a redução da argumentação moral quanto àquiloque a professora Mary Ann Glendon, da faculdade de Direitode Harvard, chama de “discurso sobre direitos”. Todos os de-bates morais a respeito de divórcio, sexo, aborto ou tabagismosão agora reduzidos a debates sobre os direitos do indivíduo,escondidos sob uma linguagem do “direito de escolher”, “direitode preferência sexual” ou “direito à integridade ou à personali-dade”. Nossa imaginação moral coletiva mudou das questões decerto e errado para conflitos sobre meus direitos, seus direitos,direitos deles.Isso nos mostra os efeitos corrosivos dos ácidos da moder-nidade. Um dos aspectos mais importantes dessa corrosão é oprocesso de secularização, que tem removido da arena públicatodas as afirmações da verdade cristã, incluindo, em especial,aquelas que estão relacionadas à moralidade. Além do impac-to na arena pública, temos de admitir também o impacto nasecularização da igreja. A secularização não é algo que apenas“aconteceu” à igreja. De maneira concreta, a igreja auxiliou efavoreceu esse processo ao negar a verdade cristã e suas afirma-ções quanto a todas as dimensões da vida.Desejo e Engano 2prova.indd 51Desejo e Engano 2prova.indd 51 12/18/aaaa 16:03:4612/18/aaaa 16:03:46
  51. 51. 52 DESEJO E ENGANOO surgimento e o sucesso estratégico do homossexualismose tornaram possível somente por causa do declínio radical dacosmovisão cristã na cultura ocidental. O evangelho cristão fazafirmações abrangentes que dizem respeito a todas as áreas denossa vida e pensamento. A verdade bíblica deve ser aplicadaa todas as áreas da vida e a todas as questões de importânciapessoal e comunitária. No entanto, o relativismo moral e o dis-curso sobre direito tem preenchido o vácuo deixado pelo recuoda cosmovisão cristã.Desejo e Engano 2prova.indd 52Desejo e Engano 2prova.indd 52 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  52. 52. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaA hermenêutica da legitimaçãoOassunto da homossexualidade é um assunto teológi-co de “primeira ordem”, conforme ele se apresenta nodebate cultural contemporâneo. Verdades fundamentais à fécristã estão em jogo nesta confrontação. Essas verdades abran-gem desde as questões mais básicas do teísmo até a autoridadebíblica, a natureza do ser humano, os propósitos e as prerroga-tivas de Deus na criação, o pecado, a salvação, a santificação e,por extensão, todos os temas da teologia evangélica. Falandocom franqueza, se as reivindicações apresentadas pelo movi-mento homossexual são verdadeiras, todo o sistema da fé cris-tã é comprometido, e algumas verdades essenciais cairão.Para que isso não seja visto como uma afirmação exage-rada, considere a questão da autoridade e da inspiração bí-blica. Se as afirmações dos exegetas revisionistas são válidas,as próprias noções de inspiração verbal e inerrância bíblicasão invalidas. O desafio, porém, é muito mais profundo, pois,se, conforme reivindicam os intérpretes revisionistas, as Es-crituras Sagradas podem estar tão erradas e mal direcionadaneste assunto (sobre o qual ela fala sem qualquer ambigüida-53Desejo e Engano 2prova.indd 53Desejo e Engano 2prova.indd 53 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  53. 53. 54 DESEJO E ENGANOde), o paradigma evangélico da autoridade bíblica não podepermanecer.Como ocorre em todas as campanhas dirigidas contra aigreja, o movimento homossexual se apresenta com uma her-menêutica bem definida. De fato, as cruzadas político-ideoló-gicas que aspiram por influência na igreja têm de desenvolvere articular o que eu chamarei de hermenêutica da legitimação,cujo propósito é prover, pelo menos, alguma aparência de apro-vação bíblica. Assim, a interpretação bíblica se torna um terri-tório contestado entre cosmovisões rivais.Omovimentohomossexualtemempregadoumabemdocu-mentadahermenêuticadesuspeitadostextosbíblicosqueabor-damahomossexualidade.Osseusesforçostêmalmejadoprovarque as ações condenadas em passagens bíblicas (especialmenteGênesis19,Levítico18.22eLevítico20.13)nãosereferemaatoshomossexuais praticados consensualmente, e sim ao estuprohomossexual e a prostituição. Quando esse esforço é confronta-do com a realidade, eles sugerem que, embora tais passagens serefiram a atos homossexuais, revelam uma tendência patriarcale opressiva que tem de ser rejeitada pela igreja contemporânea.Alémdisso,elesargumentamcomumentequePaulonãoconhe-ciaarealidadedaorientaçãohomossexual,e,porisso,Romanos1.26-27 deve ser entendido como uma referência a atos homos-sexuais por parte de pessoas heterossexuais.O resultado dessa hermenêutica de legitimação tem geradoconfusão na igreja. Essa hermenêutica tem se tornado o padrãoe a perspectiva politicamente correta admitida em muitos seto-res do mundo acadêmico. Também é bastante prevalecente entremembrosdasprincipaisdenominaçõesprotestantes.Infelizmen-te, alguns evangélicos têm sido iludidos por essa hermenêutica.Desejo e Engano 2prova.indd 54Desejo e Engano 2prova.indd 54 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  54. 54. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 55Uma tentativa inicial de reinterpretar a opinião da igrejaquanto à homossexualidade foi empreendida por D. SherwinBailey, em seu livro Homosexuality and the Western ChristianTradition [A homossexualidade e a tradição cristã ocidental].4No entanto, a obra mais influente sobre o tema surgiu 25 anosdepois, na publicação de Christianity, Social Tolerance, andHomosexuality [Cristianismo, tolerância social e homossexu-alidade],5escrito por John Boswell, professor de História naUniversidade de Yale. Propostas semelhantes têm surgido depessoas como John J. McNeill, um ex-jesuíta expulso de suaordem por causa de suas opiniões sobre homossexualidade.A contribuição recente mais importante a esse debate é o livrode L. William Countryman, Dirt, Sex, and Greed [Impureza,sexo e cobiça].6A hermenêutica revisionista, conforme aplicada a Roma-nos 1.26-27, tem sido empregada para argumentar que o textosignifica algo diferente da interpretação tradicional da igreja.Empregandosubterfúgios,circunlóquios edistorções, osignifi-cado do texto é revisado de modo a negar sua condenação sobrea homossexualidade.A questão crítica usada pelos revisionistas como um arti-fício hermenêutico é o conceito de orientação sexual. A “des-coberta” moderna da orientação sexual é usada para negaras afirmações da verdade feitas com clareza no texto bíblico.Por exemplo, no que diz respeito ao texto de Romanos, Janet4 Derrick S. Bailey, Homosexuality and the western Christian tradition (Lon-don: Longmans, Green and Co., 1955).5 John Boswell, Christianity, social tolerance, and homosexuality: gay peoplein Western Europe from the beginning of the Christian era to the fourteencentury (Chicago: University of Chicago Press, 1980).6 L. William Countryman, Dirt, sex, and greed: sexual ethics in the New Testa-ment and their implication for today, ed. rev. (Minneapolis: Fortress, 2007).Desejo e Engano 2prova.indd 55Desejo e Engano 2prova.indd 55 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  55. 55. 56 DESEJO E ENGANOFishburn, da Drew University Theological School, argumenta:“Alguns eruditos bíblicos ressaltam que esta passagem pode sereferir a atos homossexuais de pessoas heterossexuais, porqueos escritores da Bíblia não faziam distinção entre orientaçãosexual e atos sexuais de pessoas do mesmo gênero. Se essa dis-tinção for aceita, a condenação da homossexualidade em Ro-manos não se aplica a atos sexuais de pessoas homossexuais”.7De modo semelhante, Victor Paul Furnish, professor deNovo Testamento, argumenta que, devido ao fato de que Paulonão tinha conhecimento do conceito moderno de orientaçãohomossexual, sua condenação da homossexualidade tem de serrejeitada.“Nãosomenteostermos,mastambémosconceitosde‘homossexual’ e ‘homossexualidade’ eram desconhecidos nosdias de Paulo. Esses termos, como ‘homossexual’, ‘heterossexu-alidade’, ‘bissexual’ e ‘bissexualidade’, pressupõem um entendi-mento da sexualidade humana que se tornou possível somentecom o advento da psicologia e da análise sociológica modernas.Os escritores antigos estavam agindo sem a menor idéia do queaprendemos a chamar de ‘orientação sexual’.”8O ponto a que alguns estão dispostos a chegar em um esfor-ço para distorcer o texto bíblico se torna evidente em Country-man.Novamente,aquestãoéoconceitodaorientaçãosexual.“Aorientação homossexual tem sido reconhecida crescentemente,em nossa época, como um dom da sexualidade humana. En-quanto a maioria das pessoas sinta alguma atração sexual porindivíduos tanto do mesmo como do sexo oposto, e, na maio-ria desses casos, a atração pelo sexo oposto predomine, há uma7 Janet Fishburn, Confronting the idolatry of family: a new vision for the hou-sehold of God (Nashville: Abingdon, 1991).8 Victor P. Furnish, The moral teachings of Paul: selected issues (Nashville:Abingdon, 1991), 85.Desejo e Engano 2prova.indd 56Desejo e Engano 2prova.indd 56 12/18/aaaa 16:03:4712/18/aaaa 16:03:47
  56. 56. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 57minoria considerável de pessoas para as quais a atração sexualpor pessoas do mesmo sexo é um fator decisivo e formativo desua vida sexual... Negar a toda uma classe de seres humanos odireito de seguir, pacificamente e sem ferir os outros, o tipo desexualidade que corresponde à sua natureza é uma perversãodo evangelho.”Essas afirmações mostram a abordagem geral assumidapelos eruditos revisionistas e o escopo sempre crescente doalcance revisionista. A hermenêutica da legitimação tem sidosurpreendentemente eficaz em formar uma cultura que aceitao comportamento homossexual e nega a autoridade das afir-mações bíblicas claras e obrigatórias. Contudo, essa tendêncianão se limita aos principais segmentos do protestantismo e aocatolicismo romano liberal. Alguns dos que reivindicam identi-dadeevangélicatambémcompartilhamdamesmametodologiae conclusões revisionistas. Em um artigo publicado no jornalevangélico TSF Bulletin, Kathleen E. Corley e Karen J. Torjesenargumentam: “Parece que, nos escritos de Paulo, os assuntosconcernentes à sexualidade estão teologicamente relacionadosà hierarquia. Portanto, os assuntos do feminismo bíblico e dolesbianismo estão irrefutavelmente entrelaçados... Em últimaanálise, parece que, se a igreja tem de lidar com as questões dasexualidade,precisatambémlidarcomahierarquia.Precisamosencararapossibilidadedequenossosconflitossobreousoapro-priadodasexualidadehumanatalvezsejamconflitosarraigadosem uma necessidade de legitimar a estrutura social tradicionalqueatribuiaoshomenseàsmulheresposiçõesespecíficasedesi-guais. Será que a afirmação contínua da primazia do casamentoheterossexual não é também uma afirmação da necessidade deos sexos permanecerem em relacionamentos hierarquicamenteestruturados? A ameaça ao casamento é, de fato, uma ameaça aDesejo e Engano 2prova.indd 57Desejo e Engano 2prova.indd 57 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  57. 57. 58 DESEJO E ENGANOhierarquia? É isso que torna as relações de pessoas do mesmosexo tão ameaçadoras, tão alarmantes?”9Os argumentos apelam aos conceitos terapêuticos moder-nos como a hipotética “orientação sexual” e usam esses valo-res para trazer a juízo o significado do texto bíblico. A essênciados argumentos revisionistas complexos se resume nisto: ouos textos bíblicos não condenam a homossexualidade, porqueforam entendidos erroneamente por uma igreja heterossexista,patriarcal e opressiva, a fim de negar aos homossexuais os seusdireitos; ou os textos bíblicos condenam realmente a homosse-xualidade, mas são opressivos, heterossexistas e patriarcais emsi mesmos e, por isso, têm de ser rejeitados ou reinterpretadosradicalmente para remover o escândalo da opressão.A esta altura, o que tem de ficar bem claro é o fato de queestas metodologias revisionistas e hermenêuticas de legitima-ção negam à Escritura Sagrada o status de verdade. As passagensnão são apenas reinterpretadas apesar da luz evidente da exegesehistórico-gramatical; são também subvertidas e negadas por im-plicação e ataque direto. Poucos revisionistas são tão diretos emseus ataques como William M. Kent, um membro da ComissãoMetodista Unida para o Estudo da Homossexualidade. Kent afir-mou que “os textos bíblicos no Antigo e Novo Testamento quecondenam a prática homossexual não são inspirados por Deusnem de valor cristão permanente. Considerada à luz do melhorconhecimentobíblico,teológico,científicoesocial,acondenaçãodapráticahomossexualémaisbementendidacomorepresentan-do um preconceito cultural limitado a tempo e lugar”.109KathleenE.CorleyeKarenJ.Torjesen,“Sexuality,hierarchy,andevangelica-lism”. Theological Students Fellowship Bulletim (March-April 1987), 10:23-27.10 “Report to Committee to Study Homosexuality to the General Council onMinistries of the United Methodist Church”, August 24, 1991.Desejo e Engano 2prova.indd 58Desejo e Engano 2prova.indd 58 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  58. 58. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 59Mas Kent não está sozinho. Robin Scroggs, do TheologicalUnion Seminary, expressa nitidamente sua posição: “Com mui-ta clareza... não posso aceitar com consciência a opinião quetransforma as exortações bíblicas em verdades éticas eternas,independentes do contexto cultural e histórico”.11Admiravel-mente, Gary David Comstock, capelão protestante na WesleyanUniversity, argumenta: “Não reconhecer, criticar e condenar aatitude de Paulo em equiparar a impiedade com a homossexua-lidade é perigoso. Permanecer em nossas respectivas tradiçõescristãs e não confrontar as passagens que nos degradam e des-troem é contribuir para nossa própria opressão... Essas passa-gens serão usadas e apresentadas contra nós, vez após vez, atéque os cristãos exijam sua remoção do cânon bíblico ou, pelomenos,desacreditemformalmentesuaautoridadeparaordenaro comportamento”.12Os evangélicos têm de expor a natureza desse ataque con-tra a integridade e a autoridade do texto bíblico. O cristia-nismo se mantém de pé ou cai em harmonia com a validadee a integridade da afirmação das Escrituras Sagradas comorevelação de Deus. Este desafio tem de ser enfrentado de ma-neira direta e pública, e os evangélicos têm de denunciar oengodo exegético apresentado pelos revisionistas. O ataquefundamental tem de ser abordado. A igreja confessante nãopode ser intimidada, coagida ou comprometida pelos revi-sionistas.Como afirmou Elizabeth Achtemeier: “O ensino mais evi-dente das Escrituras é que Deus planejou que o intercurso se-11 Robin Scroggs, The New Testament and homosexuality (Philadelphia: For-tress, 1983), 123.12GaryD.Comstock,Gaytheologywithoutapology(Cleveland:PilgrimPress,1993), 43.Desejo e Engano 2prova.indd 59Desejo e Engano 2prova.indd 59 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  59. 59. 60 DESEJO E ENGANOxual seja limitado ao relacionamento conjugal de um homeme uma mulher”.13Um lembrete claro do que está em jogo vem,sugestivamente, de Robin Lane Fox, uma historiadora secu-lar: “Quanto à homossexualidade, Paulo e os outros apóstolosconcordavam com o ponto de vista judaico de que a homosse-xualidade era um pecado mortal que provocava a ira de Deus.Causou terremotos e desastres naturais, que foram evidentesno destino de Sodoma. A ausência do ensino evangélico sobreo assunto não equivale à aprovação tácita. Todos os cristãosortodoxos sabiam que os homossexuais iam para o Inferno,até que uma minoria moderna tentou fazer os cristãos esque-cerem isso”.14É claro que “todos os cristãos ortodoxos” também sabiamque todos os pecadores que não se arrependem e não são redi-midos irão para o inferno, e os homossexuais não arrependi-dos eram parte de um grupo muito maior. Contudo, somentenos tempos modernos os revisionistas têm se esforçado parasugerir que a Bíblia não é clara no assunto da homossexuali-dade e que a igreja tem de abandonar seu entendimento tradi-cional – e exegeticamente inescapável – dos textos bíblicos re-levantes. A “minoria moderna” identificada por Fox tem sido,apesar disso, admiravelmente bem-sucedida em confundir aigreja.13 Mark O’Keefe, “Gays and the Bible”. The Virginian-Pilot (Norfolk, VA), Fe-bruary 14, 1993.14RobinL.Fox,PagansandChristians(NewYork:AlfredA.Knopf,1987),352.Desejo e Engano 2prova.indd 60Desejo e Engano 2prova.indd 60 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  60. 60. Capítulo A Homossexualidadena Perspectiva TeológicaUma cosmovisão bíblicaPoucos conceitos modernos têm sido tão influentescomooconceitopsicológicodaorientaçãosexual.Estaidéia está agora firmemente enraizada na consciência popular,e muitos consideram-na totalmente fundamentada em pesqui-sa científica confiável. O conceito de orientação sexual foi umaintenção bem-sucedida ao redefinir o debate sobre a homosse-xualidade, movendo-o dos atos sexuais com pessoas do mesmosexo para a identidade sexual – ou seja, do que os homossexuaisfazem para o que eles realmente são.No entanto, esse conceito é um desenvolvimento recente.De fato, na década passada, o conceito mais comum empregadopelo movimento homossexual era preferência sexual. A razãoparaamudançaéevidente.Ousodotemopreferênciaimplicavaumaescolhavoluntária.Aclassificaçãoclínicadeorientaçãoeramais útil nos debates públicos.Apróprianoçãodehomossexualismocomoumacategoriade pessoas constituídas de identidade sexual é uma invençãorecente. Os revisionistas bíblicos citados no capítulo anteriorestavam certos quando afirmaram que o apóstolo Paulo nãosabianadaarespeitodeclassificação da orientação sexual. Esse61Desejo e Engano 2prova.indd 61Desejo e Engano 2prova.indd 61 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  61. 61. 62 DESEJO E ENGANOconceito está arraigado nos esforços do final do século XIXpara aplicar uma classificação psicológica ao comportamentosexual. Como escreveu Marjorie Rosenberg: “Desde a anti-güidade até provavelmente um século atrás, admitia-se que aescolha governava o comportamento sexual. Mas no final doséculo XIX, tendo a florescente ciência médica como uma es-pécie de parteira, nasceu um novo tipo de criatura – ‘o homos-sexual’ – e toda a sua identidade se baseava em sua preferênciasexual”.15O argumento era que os homossexuais existem como umaclasse ou categoria especial – um “terceiro sexo”, juntamentecom os homens e as mulheres heterossexuais. Como observouMaggie Gallagher: “Nem sempre fomos tão deploravelmen-te dependentes do próprio ato sexual. Dois séculos atrás nãoexistia a homossexualidade. Havia a sodomia, é claro, a forni-cação, o adultério e outros pecados sexuais, mas nenhum des-ses atos proibidos alteravam fundamentalmente o panoramasexual. Um homem que praticava sodomia perdia a sua alma,mas não perdia o seu gênero. Não se tornava um homossexu-al, um terceiro sexo. Isso foi uma invenção da imaginação doséculo XIX”.16As noções de identidade sexual, posteriormente, de prefe-rência sexual e, agora, de orientação sexual têm moldado am-plamente o debate cultural. De fato, essa foi a cunha ideológicausada para forçar a Associação Americana de Psiquiatria a re-mover a homossexualidade do Diagnostic and Statistical Ma-15MarjorieRosenberg,“Inventingthehomosexual”,Commentary(December1987).16 Maggie Gallagher, Enemies of Eros: how the sexual revolution is killing fa-mily, marriage, and sex and what we can do about it (Chicago: Bonus Books,1989), 256-257.Desejo e Engano 2prova.indd 62Desejo e Engano 2prova.indd 62 12/18/aaaa 16:03:4812/18/aaaa 16:03:48
  62. 62. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 63nual of Mental Disorders [Manual diagnóstico e estatístico dedesordens mentais], em 1973. Assim, o conceito politicamenteútil de orientação é um troféu para o “triunfo da terapêutica”;e tem visto argumentos psicológicos conquistarem a consci-ência popular.Os evangélicos não devem permitir que essa categorizaçãomolde o debate. Não podemos permitir que pessoas sejam re-duzidas a qualquer “orientação” sexual como a característicadefinidora de sua identidade. Se a idéia de orientação está fun-damentada na realidade, qual é a sua causa? Destino biológico?Fatores genéticos? Influência dos pais? Fatores ambientais?Nenhumdadocientíficoprecisoexisteparaprovarqualquerdesses fatores – ou uma combinação deles – como a fonte daorientação homossexual. É importante observar que a hipóte-se precedeu qualquer prova científica e, apesar disso, tem sidoaceita quase como auto-evidente. Os evangélicos têm de rejeitaressa categorização como um conceito terapêutico empregadopara fins ideológicos e políticos.Embora não seja necessário aos evangélicos resistirem atoda pesquisa científica, a ciência é freqüentemente escravi-zada a agendas ideológicas, conforme é evidente em afirma-ções recentes de cientistas no sentido de haverem estabelecidouma base genética para a homossexualidade. Os evangélicostendem a reagir exageradamente a essas notícias: alguns delesaceitam as afirmações com base na aparência, enquanto outrosfogem amedrontados, como se a ciência pudesse, por meio dapesquisa genética, destruir aestrutura moral. Nenhuma dessasatitudes é apropriada. Os evangélicos devem olhar criticamen-te essas pesquisas e considerar, com atenção, suas afirmaçõesnão-provadas.Desejo e Engano 2prova.indd 63Desejo e Engano 2prova.indd 63 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  63. 63. 64 DESEJO E ENGANOTemos de evitar a reação exagerada que transmite a idéiade que essas pesquisas – mesmo se ratificadas com a aprovaçãode todos – subvertem o mandamento de Deus. O entendimen-to cristão referente à moralidade sexual não se fundamenta embasescientíficasenãoestáabertaàinterrogaçãoeàinvestigaçãocientífica.Oscientistasnãoconseguirãodescobrirqualquercoi-sa que questione a autoridade dos mandamentos de Deus.Uma base genética – provavelmente no extremo – não pos-suiria, ainda que objetivamente estabelecida, grande significa-do teológico. Um vínculo genético pode ser estabelecido paraqualquer número de comportamentos e padrões de conduta,mas isso não diminui a importância moral desses atos nem aresponsabilidade do indivíduo. Afinal de contas, vínculos gené-ticos têm sido afirmados para tudo, desde diabetes e alcoolismoaté as preferências ao se assistir televisão.Também temos de ser cuidadosos em afirmar que, emborarejeitemos o conceito de orientação sexual como uma categori-zação de identidade, não estamos negando existirem algumaspessoas que descobrem ser sexualmente atraídas por outras domesmosexo.Vistoquenossasexualidadeéumaparteimportantede nossa vida, somos naturalmente tentados a pensar que nossoperfil de atração sexual é central à nossa identidade. Mas a nossaidentidadenãoseconstituiapenasdesexualidade.Somosprimei-ramente seres humanos criados à imagem de Deus. Em segundolugar, somos pecadores cujo estado de queda se demonstra emcada aspecto de nossa vida – incluindo a sexualidade.Cada ser humano que atinge a puberdade tem de lidar comalgum tipo de tentação sexual. Para alguns, o tipo de tentação éhomossexual; para outros, é heterossexual. A questão mais im-portante em ambas as tentações é o que Deus ordena a respeitode nossa administração da sexualidade e do dom do sexo.Desejo e Engano 2prova.indd 64Desejo e Engano 2prova.indd 64 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49
  64. 64. A Homossexualidade na Perspectiva Teológica 65Os evangélicos têm de rejeitar o conceito terapêutico e, aomesmo tempo, recomendar o modelo bíblico. Creio que a faltade um modelo de bíblico maduro para o entendimento da ho-mossexualidade tem diminuído nossa habilidade de sustentarum argumento moral consistente em uma cultura antagônica.Temos de continuar a dar testemunho fiel das exortaçõesbíblicas claras a respeito de atos homossexuais, afirmando queesses atos são inerentemente pecaminosos e uma abominaçãodiante do Senhor. Todavia, a abordagem evangélica tem de sermais abrangente, porque a Bíblia é em si mesma mais abrangen-te em sua abordagem. As Escrituras não se reportam apenas aosatos homossexuais; elas transmitem o desígnio de Deus paratoda a sexualidade humana e, assim, provêem um fundamen-to para compreendermos as implicações da homossexualidadepara a família, a sociedade e a igreja.Em primeiro, conforme Romanos 1 deixa absolutamenteclaro, a homossexualidade é um ato de incredulidade. Pauloafirmou que a ira de Deus se revela do céu contra todos “quedetêm a verdade pela injustiça” (v.18). Deus capacitou toda ahumanidade com o conhecimento do Criador, e todos são ines-cusáveis. Paulo disse mais: “Pois eles mudaram a verdade deDeus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar doCriador, o qual é bendito eternamente. Amém! Por causa dis-so, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheresmudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro,contrário à natureza; semelhantemente, os homens também,deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutua-mente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens comhomens,erecebendo,emsimesmos,amerecidapuniçãodoseuerro” (vv. 25-27).Desejo e Engano 2prova.indd 65Desejo e Engano 2prova.indd 65 12/18/aaaa 16:03:4912/18/aaaa 16:03:49

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