A cidade na misso de deus

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A cidade na misso de deus

  1. 1. . public;aç6csENCONTROo desafio que acidade representapara a Bíblia eà Missão de DeusArzemiro Hoffmann..-..namlsdeSérie Par(erl~ naMissão de Deusa::z:>O;ll:l.,.,N.,.,,,,~:s:>-Z;ll:lzOoi•
  2. 2. jerusalém, Jerusalém, você, que mata osprofetas eapedreja os que lhe sãoenviados! Q!umtas vezes eu quis reuniros seusfilhos, como agalinha reúne osseuspintinhos debaixo das suas asas, masvocês não quiserarnf" (Lc 13.34).
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  5. 5. Todos os direitos reservados. Copyrighr 2007 da Encontro Publicações.Coordenação EditorialSandro BierRevisão gramaticalSimony lttner WestphalRevisão de estiloDr. Gerson Joni FischerDiagramaçãoPagina NovaCapaAdilson ProcA Série Parceria na Missão de Deusconta com o apoio da Igreja Presbiterianados EUA (PCUSA) em colaboração coma Editora Sinodal e o Conselho Latino-Americano de Igrejas.Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida semconsentimento prévio e por escrito.H699c Hoffmann, ArzemiroA cidade na missão de deus: o desafio que a cidade representapara a Bíblia e à missão de Deus / Arzemiro Hoffmann. - Curitiba:Encontro, 2007.15,5x22cm. ; 148p.ISBN 978-85-86936-59-31. Aspectos teológicos. 2. Cidade. I. Título.CDU24Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima - CRB 10/1273Encontro Publicações- Movimento Encontrão -Caixa Postal 1812080811-970 • Curitiba - PRTe!.: (41) 3352.5030/ Fax: (41) 3352.6962e-mail: encontro@me.org.brwww.encontropublicacoes.com.brCo-editora:Editora SinodalCaixa postal 1193001-970· São Leopoldo (RS) - BrasilFone/fax: (51) 3590-2366e-mai!: editora@editorasinodal.com.brwww.editorasinodal.com.br
  6. 6. Dedicatória:ÀEsposa Nadir,eaos filhos:Jonas André,Josias Amós,Joezer Abel eJosiel AsafeMeu ancoradouro e referencial afetivo.Agradecimentos:Aos Colegas daFaculdade de Teologia Evangélica em Curitiba (FATEV) edo Centro de Pastoral e Missão (CPM)que me desafiaram a escrever o presente livro.
  7. 7. 1.11.21.3IASUMÁRIOPREFÁCIOAPRESENTAÇÃOINTRODUÇÃOCAPÍTULO IA CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADEOS olhares de Jesus sobre a cidadeO olhar proféticoO olhar misericordiosoConclusãoCAPÍTULO 119111519191922262.12.22.32A2.52.62.72.82.9A CIDADE NA BÍBLIA SOB A LÓGICA 00 PODERComo a Bíblia lida com as cidades?Advertências bíblicasA cidade como criação humanaOs construtores da cidade segundo a BíbliaIsrael sob a ameaça das cidadesO povo de Deus sob a opressão citadinaA crítica profética às cidadesBabilônia: símbolo e realidadeConclusão29293132344143434749CAPÍTULO 111A CIDADE COMO ESPAÇO DE MISERICÓRDIA E DE VIDA 513.1 A vocação da cidade como espaço de justiça e misericórdia 513.2 As cidades de refúgio 533.3 A incompreensível compaixão de Javé com Nínive: O livro de Jonas 543A Das ruínas urbanas surge uma comunidade: Neemias 563.5 Paz e prosperidade na cidade adversa: Jeremias 563.6 Jerusalém: a cidade da justiça 583.7 Jerusalém: cidade santa x cidade perversa: A advertência dos profetas 603.8 Jesus e Jerusalém 643.9 Conclusão 72
  8. 8. CAPÍTULO IVUM PROJETO MINISTERIAL PARA A CIDADE 754.1 A missão urbana na perspectiva da missão de Deus 754.2 Considerações para um Projeto Ministerial Urbano 804.3 Como preparar-se para este ministério? 814.4 Perguntas intrigantes 824.5 A compaixão: base para o ministério 834.6 A visão: de "onde" para "o que" 884.7 Você não está SÓ, portanto, descubra, construa e cultive uma rede de contatos 904.8 Organize a comunidade para a obra 954.9 Os inimigos externos e os conflitos internos 984.10 Restauração espiritual e as celebrações das conquistas no Senhor 1044.11 A consolidação da obra 1074.12 O zelo pela liderança 1094.13 Conclusão 111ANEXO II.2.3.4.5.6.7.O PROCESSO URBANIZATÓRIO BRASILEIRO.Histórico do urbanoRumo à metrópole modernaO processo urbanizatório brasileiroO crescimento das cidadesAlgumas características da metrópole brasileiraO caos metropolitanoConclusão113113115118122126128129I.2.3.4.ANEXO 11SUGESTÕES E ENCAMINHAMENTOSSubsídios para organizar um projeto ministerialSubsídios para melhor aproximação da realidade urbanaSubsídios para uma visão da missão integralSíntese conclusivaBIBLIOGRAFIA131131132134137141
  9. 9. 9PREFÁCIODizem que, para um homem realizar-se na vida, ele precisa fazer trêscoisas. A primeira seria gerar um filho - e o Arzemiro e a Nadir têm, comoa Silêda e eu, quatro filhos homens. Além disso, deve-se plantar uma árvore- e disso ele entende bastante; basta uma caminhada pelo campo para que elecomece a identificar arbustos e plantas. Aliás, para este meu amigo, tudo virachá.A terceira demanda é que se escreva um livro - e isso Arzemiro estáfazendo agora com A cidade na missão de Deus. O livro veio mais tarde, comoum fruto amadurecido do viver. Isso não apenas sedimenta o conhecimentorefletido na escrita, mas dá ao texto a autoridade de uma caminhada de vida.Ao ler este livro, vê-se nele a jornada do próprio autor. Suas palavrasdeixam transparecer uma contínua mastigação do texto bíblico a partir de umavisão e um compromisso com a missão integral da Igreja. Aliás, abrir a Bíbliatem sido uma das marcas do autor, e é °que ele faz uma vez mais aqui.Vi também como Arzemiro tornou-se um citadino comprometido coma missão urbana. Isso ele fez na prática, ao formar um Centro de Recuperaçãode Drogados, bem como ao envolver-se na edificação da igreja na cidade dePorto Alegre. Em termos teóricos, significou voltar a estudar, fazendo o seumestrado na área da missão urbana.Missão urbana não se faz de forma isolada e individual. Isso o autordescobriu na sua caminhada ecumênica e no alinhavar dos seus relacionamentoscom as redes urbanas, especialmente aqueles do terceiro setor e aquelas quetêm uma postura crítica em relação à nossa sociedade. Arzemiro seguiu essecaminho porque descobriu na Bíblia um Deus de justiça que defende o pobre ese opõe à injustiça e à violência. Esse viés profético, alimentado continuamentepelo autor, é uma das marcas registradas deste livro.Ao acompanhar o seu conteúdo, vê-se que a voz profética é sinal deencarnação, expressa a busca de uma cidade que seja marcada pela relaçãode justiça e se constitua em sinal do Reino de Deus. Uma cidade que tenha najustiça, na paz, na convivência humana e na alegria as suas marcas maiores.
  10. 10. 10 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSEste livro nos empurra para a denúncia profética, para a vivência comprometidacom o evangelho e uns com os outros, bem como para a esperança, umaesperança escatológica que marque a nossa vida hoje.Para mim é um privilégio recomendar a leitura e o estudo deste livro.Não há dúvida de que ele constitui uma valiosa contribuição para a missãourbana da Igreja no mundo de hoje, missão essa que é comprometida com amissiu Dei e que aponta para a realidade do Reino de Deus. Realidade hoje erealidade amanhã. Para esse amanhã queremos caminhar.Valdir R. Steuernagel
  11. 11. 11APRESENTAÇÃOo futuro da igreja, no Brasil, desenha-se pela atitude que ela tomadiante da urbanização. A sociedade brasileira foi palco de um imenso processode migração do campo para a cidade. Não foi somente um deslocamentogeográfico por escolha voluntária dos migrantes. Pelo contrário, a urbanizaçãoobedeceu a um processo marcado por manobras da alta política econômica egovernamental do país.Essa migração afetou profundamente as cidades, as instituições e aspessoas. Resultou na desintegração da família; revolucionou as relações detrabalho, pois, da noite para o dia, jogou uma multidão de campesinos noexército de reserva de mão-de-obra não qualificada. Desestabilizou os valorese os padrões dos relacionamentos humanos, sociais e espirituais.De uma conduta outrora controlada socialmente num ambiente semi-rural, passou-se à desenfreada liberdade urbana (ou ao caos urbano). Umasociedade organizada em padrões historicamente alicerçados em tradições ecostumes consagrados ao longo de gerações foi rapidamente transformadaem massa de anônimos. Enfim, o processo urbanizatório brasileiro foiuma experiência de violência institucionalizada. Suas feridas continuamescancaradamente abertas à espera de soluções que ultrapassem as promessasda política eleitoreira vigente no país.A sociedade brasileira, neste particular, não se constitui em ilha nahistória da construção urbana. A construção das cidades antigas (bíblicas ounão) já apresenta sinais de uma lógica que privilegia mais os projetos de poderdo que os verdadeiros projetos de sociedade.O presente trabalho tem como propósito analisar esta lógica dosprojetos citadinos e seu impacto na vida do povo de Deus ao longo da Bíbliae da urbanização brasileira. Trata-se de uma preocupação focada na teologiaprática e na tarefa missionária do povo de Deus.Principia com a indagação de como o povo de Deus lida com osconstrutores de cidades. Ausculta-se a índole seminômade do povo peregrinode Israel e sua resistência a projetos citadinos: a razão dessa resistência focava
  12. 12. 12 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSa cidade em si ou a maneira como a cidade era usada pelos donos do podercontra os padrões de uma justiça relacional e social? A construção de cidadescomo centros de poder carrega consigo a conflitividade social, a luta entrejustiça e opressão.A cidade é analisada como palco do juízo e da misericórdia de Deus.O zelo e a vigilância profética têm a finalidade de resguardar o padrãocomunitário, evitando os extremos: ricos com suas benesses de um lado e ospobres e sua desgraça por outro. O juízo de Deus nunca se volta contra agrandeza sociológica cidade, mas sempre contra aqueles projetos de governomarcados pela injustiça e pela violência. Deus mesmo reclama a cidade comoum espaço de comunitariedade.Há um destaque para a experiência de Neemias como uma espécie deprotótipo de missionário urbano, alguém capaz de encorajar e mobilizar apopulação de uma cidade para sua restauração. Os passos por ele seguidossugerem um roteiro para a elaboração de um projeto de missão urbanaque ultrapassa as fronteiras da religião enquanto grandeza autônoma oudiferenciada da cidade como um todo. Sua espiritualidade não se limita aobem-estar de sua comunidade religiosa, mas à reconstrução e à restauração dacidade arruinada.O ministério de Jesus ressalta a profunda misericórdia do Senhor paracom os excluídos urbanos. Essa misericórdia é demonstrada pelas suas açõesministeriais desde a Galiléia até Jerusalém. A indignação de Jesus diante dasautoridades religiosas de Jerusalém reclama a vocação original da cidadecomo capital espiritual: "a minha casa será casa de oração e não covil desalteadores".Jerusalém se colocara sob o juízo do Senhor ao se prostituir diantedo poder romano a cujos pés sacrifica a essência de sua fé. Esse juízo éexperimentado historicamente no ano 70 d.C., quando as tropas do generalromano Tito arrasam a cidade levando seu povo ao cativeiro.Contudo, nessa cidade, o Espírito Santo é derramado sobre o povoda nova aliança. Esse povo é comissionado para evangelizar as nações atéos confins da terra. Essa missão alcança as principais cidades do ImpérioRomano abaixo de sangrenta perseguição. Esse assunto merece um estudoaprofundado, o que ultrapassa a tarefa do presente trabalho.A Nova Jerusalém, revelada no Apocalipse, serve de inspiração a todosos projetos urbanos. Sua essência é a superação de toda e qualquer dominação,descriminação ou exclusão. Ela é a cidade da qual flui a vida plena. É arecriação da harmoniosa relação entre as criaturas, a criação e Deus numespaço urbanizado e não mais no idílico espaço do Paraíso perdido.
  13. 13. APRESENTAÇÃO 13o excurso sobre o processo urbanizatório brasileiro tem a finalidadede oferecer ao leitor uma síntese histórico-social da lógica capitalista quetranstornou a sociedade brasileira na segunda metade do século XX.O excurso sobre os subsídios para elaboração de um projeto missionáriourbano tem um caráter didático para estimular aos não familiarizados coma missão urbana a darem passos concretos para a elaboração de projetosministeriais urbanos.Partilhamos a convicção de que a igreja, agraciada com as primícias danova criação, tem a responsabilidade de protagonizar a experiência evangélicade ser nova criatura no âmbito pessoal, comunitário e citadino, colocando-se aserviço dos projetos de vida. Não basta a igreja estar presente na cidade. Ela édepositária do testemunho da restauração da humanidade recriada em Cristo.Suas propostas, seus projetos e ações comunitárias devem trazer consigo aesperança pela transformação da cidade. A fé evangélica tem esse compromissopor causa do Reino de Deus.A fé cristã é uma atitude crítica que percebe os limites dos construtoresurbanos com seus modelos idealizados ou ideologizados e, ao mesmo tempo,ressalta a compaixão do Senhor através de ações pró-ativas a favor da cidade.Ela não se coloca como expectadora, mas integra-se como fermento capaz delevedar a massa.Para tanto, necessita debruçar-se sobre seu projeto de missão - parae com - a cidade. Não de um projeto restrito pensado para os limites de suadenominação. Antes, de um projeto que coloca a sua corporação a serviçodo bem da cidade. A igreja deve, portanto, ser capaz de visualizar os que seempenham pelo bem da cidade e conjugar esforços com os atores sociaiscomprometidos com a vida da cidade, mesmo que estes o façam commotivações diferenciadas.Finalmente, a cidade é um projeto em permanente construção,reconstrução, revolução ou transformação. Exige dos estudiososou missionáriosa tarefa da exegese bíblica e urbana, equipes que conjuguem variados saberes eóticas por tratarem de uma realidade cada vez mais plural.A missão urbana é um protesto contra a ruína da cidade "civilizada"que experimentamos. Ela busca uma visão espiritual capaz de abranger todo oconselho de Deus contextualizado no caos urbano. Nessa direção, apontam aspalavras do profeta Jeremias aos exilados da grande cidade: "Procurai a pazda cidade, para onde vos desterrei, e orai por ela ao SENHOR; porque na suapaz vós tereis paz" (Jr 29.7-ARA).A nossa visão missionária terá o exato tamanho de nosso amor pelacidade.
  14. 14. 15INTRODUÇÃOA cidade é uma grandeza observável de variadas óticas. Tomemos,por exemplo, a cidade de Curitiba. Quem chegar à cidade, vindo do sul, pelarodovia BR 116, terá uma impressão da cidade diferente de quem vem pelaBR 101. Quem entrar pela cidade vindo do leste, norte ou oeste terá outraimpressão. Quem vier de avião ou helicóptero terá uma visão distinta de todasas outras.O ponto de partida para compreender uma cidade é a definição do quese quer analisar ou estudar, visto que existem muitos olhares possíveis e cadaolhar enfocará um determinado alvo ou interesse. Uma visão global da grandecidade seria algo muito pretensioso. Situo-me entre os que trabalham com umenfoque específico da realidade urbana em direção da missão de Deus paracom a cidade.Os especialistas em Missão Urbana afirmam que o conhecimentoprofundo da realidade urbana exige que se faça uma "exegese da cidade". Ofruto de tal exegese será de acordo com o instrumental usado para se apropriarde uma realidade determinada, seja ela universal, regional ou local.Quem estudar uma cidade a partir de sua história, certamente terá a suapesquisa voltada para o significado de coisas diferentes daquele que a estudaa partir da sociologia. O urbanista terá um enfoque distinto do economista...Assim, há muitas maneiras de proceder à análise de uma cidade. No presenteestudo, o foco está na importância da cidade na missão de Deus.A visão bíblica ou teológica da cidade não despreza as outras visões,antes as engloba. Necessita de todas elas, pois lhe proporcionam subsídiospara melhor entender ou discernir a realidade urbana multifacetada. Poucossão os missiólogos e teólogos que empreenderam um estudo mais sistemáticoda cidade ao longo da Bíblia ou que produziram uma "teologia da cidade". INa verdade, quem se ocupa com o estudo da teologia da cidade,surpreende-se com a quantidade de referências a esta ao longo da Bíblia.1. Entre os que empreenderam tais trabalhos estão Jacques Ellul, José Comblin, Robert Linthicum, conformebibliografia.
  15. 15. !6 A CIDADE NA MISSAG DE DEUSPode-se observar, ao longo das Escrituras, uma espécie de fio condutor queinicia no Jardim do Éden e culmina na Nova Jerusalém. Parece que a Bíbliadescortina, diante de nós, uma visão que se projeta desde o Jardim de Deusaté a Cidade de Deus. Será esse o caminho da humanidade? Será o nossofuturo eminentemente urbano? Que significado e conseqüência isso traz paraa missão e para a igreja?O Brasil do século XXI conta com uma população urbana acima de80%. O rápido, desenfreado e violento processo urbanizatório brasileiro trouxebenefícios e oportunidades para uma parcela da população urbana. Contudo,acarretou dor e sofrimento para a maioria dos moradores urbanos confinados àperiferia e condenados à favelização.2As grandes cidades, cada vez mais, expõem a incapacidade das políticasurbanas governamentais de conjugar urbanização com bem-estar social;desenvolvimento com equilíbrio ecológico; crescimento com paz social... Arigor, a cidade está mergulhada numa lógica contraditória de difícil solução.O que há com a cidade ou com o planejamento urbano que toma a artede governar tão complicada? Existe alguma lógica que subjaz a todas as boasintenções e que as leva a se corromperem? Enfim, será possível crer que a vida- digna e plena - algum dia, há de perpassar todo o tecido urbano, como o quero texto do Apocalipse de João?Afinal, pode-se alcançar uma síntese entre a Babilônia - centro de podere violência e a Nova Jerusalém - centro de vida plena, harmonia, justiça, paze liberdade? Como a Bíblia trabalha a superação das contradições humanasmanifestas na cidade? Há solução para o pecado estrutural? Pode-se sonharcom uma cidade livre, limpa, justa e plena de vida para toda sua população?Embora a Bíblia não apresente os contornos sociológicos de uma cidadeutópica, ela desmascara o uso indevido do poder dos mandatários urbanos,sejam eles pessoas ou sistemas. As Sagradas Escrituras oferecem princípiose valores que permitem uma convivência e sobrevivência digna para todos oshabitantes urbanos.O presente estudo pergunta pela chave de interpretação da cidade,usada por Jesus, profetas e apóstolos, que permite identificar a lógica quesubjaz ao processo urbanizatório. A seguir, busca compreender os motivospelos quais a cidade, no Antigo Testamento, tem uma visão majoritariamentenegativa aos olhos do povo de Deus e de como essa visão recebe um novo2. Curiosamente, a maioria dos "políticos" de carreira, em suas campanhas eleitorais, sabe fazer um diagnóstico detodos os problemas da cidade e do país. Apontam todas as soluções econômicas, políticas e sociais para todos osgrandes problemas urbanos e estruturais da Nação. Mas, basta assumirem o seu mandato e logo nos deixam dianteda cruel dúvida: mentiram? São incompetentes? Ou ambas as coisas?
  16. 16. INTRODUÇÃO 17enfoque na missão apostólica. O capítulo da análise do processo urbanizatóriobrasileiro deseja demonstrar que a urbanização brasileira não é fruto natural dodesenvolvimento. Ele foi provocado por políticas econômicas que serviram aointeresse do sistema capitalista internacional e que violentaram e prejudicarama maioria do povo brasileiro.As pautas indicativas para a construção de um projeto ministerialurbano desafiam a igreja para uma compreensão inter e multidisciplinar. Sóassim, a missão de Deus poderá corresponder à profundidade da ferida urbana.Urge a redescoberta da missão integral que saiba conjugar redenção pessoalcom transformação social; mudança de padrões éticos no âmbito pessoal eestrutural, pois as conseqüências do pecado não se limitam ao indivíduo, elasperpassam todo o tecido social: família, comunidade, cidade, Estado...O Deus revelado na encarnação de Jesus Cristo traz uma visão holística.Sua missão abrange toda a pessoa e todas as pessoas; toda a criatura e toda acriação; toda a cultura e todas as culturas; enfim, o alvo da missão de Deus éfazer convergir em Cristo todas as coisas. Ele veio para reconciliar e integrartudo pela mediação de Jesus, o Cristo.
  17. 17. 19CAPÍTULO IA CHAVE TEOLÓGICAPARA ENTENDER A CIDADE1.1 Os olhares de Jesus sobre a cidade"Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhesão enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinhareúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!"(Lc 13.34).Proponho que essas palavras de Jesus sejam a síntese da visão de Deussobre a cidade em todos os tempos e de todas as cidades. Essa visão toma-se oponto de partida e chegada para quem quer entender a verdadeira natureza e alógica da cidade, para exercer a vocação missionária urbana.1.2 O olhar proféticoPrimeiramente, a missão urbana precisa olhar para a cidade com umolhar profético. Trata-se de um olhar crítico, um olhar com discernimento- sem o qual não se conhecerá a verdadeira natureza e a lógica da cidade.Ao longo de toda Bíblia, encontram-se construtores de cidades, comoveremos adiante. Homens motivados pela ambição do poder ou cobiça deriquezas lançaram-se ao empreendimento de edificar cidades ou impérios paratomar o seu nome conhecido. Seu principal objetivo não era o bem-estar dacidade e de seus habitantes. A cidade lhes servia como meio para realizaremseus sonhos de poder, de dominação ou de opressão.Sob a mão de tais homens ou dinastias, muitos povos e aldeiasforam vítimas de saques, extorsão tributária, escravidão, enfim, da opressãoeconômica, militar, política e religiosa. A cidade como tal não é o objeto dacensura profética, mas o modo como nela é exercido o poder, este sim, nãoescapa ao juízo divino.O olhar do profeta representa a justa indignação do Senhor - e de todosos justos - diante dos que edificam "civilizações" com a marca da violência.
  18. 18. 20 ACIDADE NA MISSAo DE DEUSA indignação que Habacuque expressa em seu lamento é emblemática: "Aidaquele que edifica uma cidade com sangue e a estabelece com crime" (Hc 2.12).Ao longo de toda Bíblia, como veremos adiante, constata-se que Deus,o Senhor, enviou mensageiros para advertir, censurar, chamar as autoridadescitadinas ao arrependimento. Os profetas do Senhor advertiam, severamente,os sacerdotes que trocavam a proteção do Deus Altíssimo pela segurança dopoder do Estado, geralmente, ancorado na força das armas.O lamento de Jesus "Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetase apedreja os que lhe são enviados!", denuncia a realidade da opressão dasautoridades citadinas e representa o clamor profético sobre a cidade violenta.Quantos levantes justos foram esmagados pelas forças militares romanasapoiadas ou consentidas pela liderança religiosa de Jerusalém!A lógica dominante das autoridades era o uso da violência militar paraesmagar a indignação social popular resultante de seus governos injustos. Napessoa de Jesus, Deus mesmo encarnou o profeta que veio visitar a cidade.Ele, em sua própria pele, experimentou a intimidação e a rejeição, assim comoos verdadeiros profetas do passado.Jerusalém rejeitou o Príncipe da Paz por causa de sua aliança com opoder opressor, no caso, o Império Romano. Essa escolha lhe fora fatal. Issose tomou claro no ano de 70 d.e., quando Jerusalém foi arrasada pela forçamilitar romana comandada pelo general Tito.O olhar do profeta enxerga a lógica do poder cujas benesses sãopara alguns privilegiados, por algum tempo, mas cuja dor e sofrimento sãopartilhados por muitos e por longo tempo.Tal lógica se estende até os nossos dias. Segundo dados de diversosrelatórios da ONU, mais de dois terços da humanidade estão excluídos dacondição digna de vida porque não alcançam a satisfação básica de suasnecessidades mínimas tais como: alimento suficiente, habitação, educação,saúde, segurança, trabalho, enfim, a liberdade e a dignidade.A "Jerusalém que mata" (símbolo da dominação militar e bélica) éuma presença opressora também em nossos dias. Ela não se limita a matarprofetas e apedrejar os enviados de Deus. Ela condena nações inteiras àpobreza através de sanções econômicas, neocolonialismo, boicotes e guerras,além de ameaçar o Planeta Terra - como um todo - pela maneira violentacomo impõe um consumo antinatural que concentra, cada vez mais, a rendana mão de poucos donatários através da política neoliberal da globalização.As palavras de Ghandi1se revestem de tremenda atualidade: "Na terra, há1. Mahatma Gandhi (1869-1948), estadista indiano libertador da índia da dominação inglesa através na não-violénciaativa. O citado é de Sturla J. Stalsett - Um globo em busca de sua alma, página 5, polígrafo.
  19. 19. A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 21recursos suficientes para satisfazer as necessidades de todos, mas não podehaver recursos suficientes para satisfazer a avareza de todos".A dimensão dessa monstruosidade só se entende à luz de dados: 86%de tudo que se produz é consumido por menos de 20% dos ricos do planeta. 2Se cada ser humano vivo no planeta hoje quisesse viver o padrão de consumomédio norte-americano, seriam necessários dois Planetas Terra e meio. 3A criação está sofrendo a opressão da vaidade humana. Os sinais semanifestam através de catástrofes naturais e epidemias. Ademais, as políticasdo sistema capitalista são insensíveis ao clamor dos famintos da terra. Estamosdiante de uma crise civilizacional. "Os seres humanos são os responsáveis pelamaior série de extinções desde a época dos dinossauros". 4O olhar profético alerta para as conseqüências do pecado humano e seufuturo catastrófico.A opressão exercida pelo poder da concentração do capital nutre aindignação profética de nossos dias: "Jerusalém, Jerusalém...". Jerusalém aquinão pode ser entendida como uma referência meramente histórica à cidade, masuma crítica à matriz civilizacional que se corrompe diante do poder opressor.Jesus ensina que não é possível ficar passivo diante de tal barbaridade.Por isso, Ele não se limita a lamentar e denunciar o grave pecado social. Suaindignação profética transforma-se em ação: "Então ele entrou no templo ecomeçou a expulsar os que estavam vendendo" (Lc 19.45).A ação transformadora da cidade começa com a comunidade religiosa.A restauração espiritual é o ponto de partida na busca do Reino de Deus.O exemplo para uma nova sociedade deve partir de seus arautos. A casa doSenhor deve ser modelar. Não se admite que a liderança espiritual esteja aliadaao poder dominador. A vocação sacerdotal do povo de Deus não é agradar osque governam com a violência e a opressão, mas resistir-lhes por causa doReino de Deus.Jesus pôde dizer: "O meu reino não é deste mundo" (Jo 18.36), isto é:não é desta natureza. Não está ancorado na lógica da dominação e da violência.Sua lógica é outra: o poder tem a vocação de servir para a bem do outro (Mt2. De acordo com o Informe sobre Desenvolvimento Humano de 1997: "desde 1960, quando os ricos ganhavam 30vezes mais do que os pobres, a concentração de renda no mundo cresceu mais que duas vezes. Em 1994, os 20%mais ricos ficaram com 86% de tudo o que foi produzido no mundo. Sua renda foi 78 vezes superior à dos 20% maispobres. Isto significa que em 34 anos, a parte dos excluídos na economia global foi reduzida de 2,3% para 1,1 %. Aconcentração chegou a tal ponto que o patrimônio conjunto de 447 multimilionários do mundo é equivalente à rendasomada da metade mais pobre da população mundial, isto é, algo como 2,8 bilhões de pessoas. O estudo da ONUé claríssimo: a globalização está concentrando a renda: os países ricos ficam mais ricos e os pobres, mais pobres",Fonte da Folha de São Paulo - Especial, 02/11/1997 citado por Roberto Zwetsch, in: Globalização e Reli9ião: Desafiosafé, página 59.3. Inácio Neutzling, Curso de Teologia e Ecologia - PUCPR, 19-21/10/2004.4. Relatório apresentado na COP e MOP 3, Curitiba 2006.
  20. 20. 22 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUS20.25-26). A justiça, a misericórdia e a fé estão acima de todos os formalismosreligiosos (Mt 23.23).A transformação operada pelo evangelho principia na própria família deDeus, a começar com o padrão espiritual de seus sacerdotes. O profeta Isaíasoferece farta matéria sobre esse assunto (cf. Isaías l.l 0-17,58).O olhar profético sobre a cidade identifica a dor específica e inicia comações transformadoras que partem da mudança de visão espiritual da liderançada comunidade.A igreja não tem o direito de exigir padrões de justiça da sociedadese ela mesma não servir de exemplo. Sendo assim, o olhar profético sobre acidade exige da comunidade de fé o exemplo da transformação reclamada pelaPalavra do Senhor. Olhar profético sobre a cidade torna-se verdadeiro e concretoquando as palavras do profeta forem sublinhadas por ações coerentes."Se a justiça de vocês não for muito superior a dos fariseus e mestresda lei, de modo nenhum entrarão no Reino de Deus" (Mt 5.20).1.3 O olhar misericordioso"Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne osseus pintinhos debaixo das suas asas...".Jesus não se limita a constatar e lamentar a desgraça urbana resultantedas equivocadas decisões econômicas, políticas ou religiosas. Seu olhar demisericórdia vê a profundidade da dor causada pelo pecado estrutural.Além de enxergar as autoridades com seus palácios, soldados e templo,Jesus vê a multidão que vive desgarrada como ovelhas que não têm pastor oucomo pintinhos que não encontram um abrigo que os acalente.A reconstrução humana começa no campo emocional, afetivo. Arestauração espiritual passa, necessariamente, pela restauração afetiva.À medida que o afeto se encerra, a monstruosidade emerge. A restauraçãoespiritual de um povo inicia com a arte de acolher, pela humanização do serhumano. O Verbo de Deus precisa se tornar gente por inteiro em cada pessoa.Isso exige um novo olhar e uma nova percepção.Muitas pessoas não têm consciência de como são manipuladas e servema interesses indignos. Jesus tinha uma percepção acurada da realidade. Elediscernia o jogo do poder que manobrava os acontecimentos. Ele distinguiaas vítimas e os dominadores. Ambos estão no mesmo nível: carecem desalvação. Ambos carecem da mesma misericórdia e não de vingança.
  21. 21. A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 23Contudo, a misericórdia não é ingênua. Sem arrependimento não pode haverreconciliação. Jesus, do alto da cruz, arranca de seu íntimo a intercessão poreles: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem".O olhar misericordioso sobre a cidade sonha com alternativas viáveise sustentáveis. A paz como resultado de um governo justo traz bem-estar eprosperidade a todos. Isso é o que ensina o Salmo 72. O olhar de misericórdiaenxerga o coração do ser humano e vê o quanto a vida urbana poderia sermaravilhosa se houvesse espaço para o Deus da vida.Ao longo de toda a Bíblia sobressai o olhar da misericórdia do Senhor.A superabundante graça acompanha as páginas das Escrituras do Gênesis aoApocalipse. Mas, de nada serve tudo o que Deus tem para dar se não houverquem acolha a Sua boa dádiva. A graça de Deus sem resposta é ineficaz. Ondefaltam a humildade, a consciência do pecado e o arrependimento, Deus continuaà distância e nada acontece. A transformação requer uma mudança no interior,na mentalidade das pessoas, operada pelo Espírito Santo. Só compreende amisericórdia de Deus quem tem uma visão precisa do justo juízo do Senhor.Do Gênesis emerge o mandato cultural. O ser humano carrega avocação holística de cuidar e guardar toda a boa criação de Deus. Em assimprocedendo, a criação será generosa e fornecerá o fruto da terra como alimentosuficiente e saudável para toda longa trajetória humana, desde o Paraíso até anova cidade - Jerusalém.Ambos os quadros são colocados como os referenciais que deveminspirar as políticas dos seres humanos. Do Paraíso provém a vocação decolaborar com o Criador para que a "Natureza" - como boa criação - possa,ao longo de toda história, trazer o sustento suficiente e necessário para umavida digna a todos os seus habitantes. Da Nova Jerusalém advém o desafio deDeus que deseja que a vida em sua plenitude fertilize e perpasse todo o tecidosocial.O olhar misericordioso move o coração de Abraão que intercede pelosjustos que porventura pudessem existir em Sodoma e Gomorra, pois sem eles acidade não sobreviveria (Gn 18.22-33). E Deus lhe assegura que, por amor aosjustos, a cidade sobreviverá, mas ausência da justiça levará a cidade à ruína.Sem um padrão mínimo de dignidade, a humanidade sucumbe completamentena injustiça e perversão (Rm 1.18ss).O olhar de misericórdia provê a Terra Prometida de "cidades de refúgio"(Dt 4.41-43; 19.1-3) para que o inocente não seja tratado como malfeitor e paraque o malfeitor não seja tratado como inocente e, assim, contamine o povocom a perversidade e a impunidade. A misericórdia é irmã gêmea da justiça.
  22. 22. 24 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSoolhar de misericórdia concede os mandamentos ao povo para que estetenha padrões sobre os quais possa edificar sua civilização na terra da bênção.Assim a longevidade será a bênção para as futuras gerações, e a reconciliaçãolevará ao convívio harmonioso entre criatura e seu Criador; entre criatura ecriação e as criaturas entre si, e a cultura e o culto serão as duas faces damesma moeda. E os exemplos de bondade se perpetuarão por milhares degerações.Em sua misericórdia, Deus concedeu a Davi a graça de tomar Sião e nelafazer habitar a arca. A presença do Senhor transformou uma fortaleza militarem tabernáculo. A busca da paz, da justiça e dos padrões da Lei do Senhornorteariam os seus atos governamentais. A cidadela de Sião não mais seriatemida por suas incursões militares, mas buscada como centro de adoração ede bênção às nações. Começou a realizar-se o que foi registrado, mais tarde,por Isaías: "A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos"(Is 56.7).Contudo, a amada Jerusalém não resistiu por muito tempo. A tentaçãodo poder transformou-a em Babilônia (Ez 16), vindo a sofrer o justo castigopor causa de sua transgressão. Os governantes de Jerusalém abandonaramos desígnios do Senhor e se espelharam na prática política de outros povos.Formaram o seu exército, construíram palácios reais, transformaram povos maisfracos em escravos e se desviaram dos justos caminhos do Senhor já no tempodo rei Salomão (lR<;9-11).Convém sublinhar que, por mais que o pecado cause a ruína da cidadee do povo de Deus, mesmo assim, não consegue apagar de todo a misericórdiado Senhor. Por amor aos pobres e injustiçados que sofrem nas ruínas dacidade, Deus suscita, sempre de novo, profetas e bem-feitores, a exemplo deNeemias, para restaurar a cidade e reedificar seu povo. A cidade de Jerusalémtem uma história de altos e baixos, de bênção e juízo, de prosperidade e ruína,de edificação e destruição...Nos dias de Jesus, ela foi o alvo de peregrinações. De cidade em cidade,Jesus andou da Galiléia para Jerusalém. Ali, o Príncipe da Paz foi rejeitado,julgado e condenado. Com isso acabou a vocação da Jerusalém terrena bemcomo a vocação do povo da antiga aliança.O Espírito Santo, contudo, foi derramado sobre o povo peregrino queacolheu o evangelho. A missão de proclamar o Evangelho do Reino parte deJerusalém para as principais cidades do Império Romano da época. A cidadede Jerusalém sai do cenário e a peregrinação apostólica ocupa o seu lugar. Avinda do Espírito Santo inaugura o início do povo da Nova Aliança compradopelo sangue do Cordeiro e ungido pelo poder do alto.
  23. 23. ACHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 25A missão de cidade em cidade é a marca da peregrinação do povo daNova Aliança. As grandes cidades, uma a uma, são alvos da missão de Deus,caracterizada pela superação das barreiras culturais, étnicas, geográficas,políticas, sociais... A condição de pertencer ou não à nação santa decide-sediante da resposta dada ao Evangelho do Reino. A comunidade multiétnica,multicultural e multisocial toma o lugar da comunidade étnica israelita. Anascente igreja não se prende ao modelo templo-cêntrico, mesmo que possarecorrer a esse modelo em tempos de liberdade.Sob a perseguição religiosa e política, a nascente igreja migra para ascasas, os desertos ou catacumbas. Ela se multiplica através da comunhão empequenos grupos. Graças à criatividade e à liberdade de adotar novos modelos,a igreja subverte os alicerces do império.Finalmente, o olhar de misericórdia se volta para a Jerusalém celestee nela se inspira (Ap 21-22). Jesus é a porta que descortina o acesso à novacidade. As coisas antigas já passaram. Em Jesus tudo se faz novo.Essa novidade de vida movida pelo Espírito Santo há de perpassar todotecido social urbano. É a consumação dos séculos. É obra da graça de Deusnão do gênio humano. É a cidade que desce dos céus e não sobe do orgulhohumano. Ela leva o nome do Cordeiro proclamado pelos altos céus. Diantedesse nome todos os demais não passam de sonhos e ilusões. A misericórdiatriunfará e já não haverá dor, nem pranto, nem morte e nem luto. Jesus é a luzque cura, salva e conduz ao pleno louvor de sua glória.Finalmente, a misericórdia triunfará e os filhos do Reino experimentarãoa acolhida: "como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo de suas asas".Então haverá um novo céu e nova terra nos quais habita a justiça. Essa é autopia cristã que move a missão urbana. Ela é o nosso alvo e inspiração;culminância e incumbência; graça e compromisso; dádiva e responsabilidadepara que toda língua confesse que o Senhor é o Cristo de Deus, e todo joelhose dobre aclamando Jesus: Rei dos reis e Senhor dos senhores.Enquanto aguardamos novos céus e nova terra nos quais habita ajustiça(2Pe 3.13) convém aprender do exemplo de Jesus. Seu olhar misericordiososobre Jerusalém não se limitou à ternura expressa nas palavras maternais dereunir os seus filhos como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas.Ele foi além. Concretizou em gestos o seu desejo restaurando a verdadeiravocação da casa do Senhor: A minha casa será casa de oração..." ali "(...)todos os dias ele ensinava no templo... " (Lc 19.46b-47).A esperança suscita gestos e atitudes de misericórdia para com a cidade.Enquanto se aguarda a transformação de toda a cidade, não convém esquecerdas ações ou projetos ao alcance de nossas mãos. O fermento do Reino de
  24. 24. 26 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSDeus há de perpassar toda a massa urbana. Ora, o fermento sempre é lançadoem pequenas porções. Seu efeito só aparece na massa fermentada.Assim é com as ações de misericórdia. A multiplicação de testemunhosao alcance de cada cristão fará a diferença. A fé manifesta-se verdadeira naprática da misericórdia. Sempre haverá desafios suficientes para exercitá-la apartir da realidade de onde vivemos.Que fique registrado um aprendizado a partir do gesto de Jesus: aqualidade espiritual do povo de Deus levará a cidade à restauração ou a ruína.Por isso, clamemos ao Senhor pela nossa completa restauração espiritual, aexemplo da exortação de Paulo em Rm 12.1-2:Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçamem sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovaçãoda sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa,agradável e perfeita vontade de Deus.1.4 ConclusãoCom base na reflexão acima, pode-se concluir que o olhar proféticosobre a cidade remete a comunidade de fé a identificar as dores concretas dacidade e perceber os seus causadores. Quem oprime e promove a desintegraçãohumana e social? Ou, quais são as estruturas e movimentos sociais que secolocam a serviço da dominação?E, de outra parte, quem exerce a misericórdia e promove a vida? Quaissão as iniciativas, projetos, estruturas e movimentos sociais que se colocam aserviço da vida?Em obediência ao mandato de Jesus, cabe à comunidade dos discípulosexercera função profética. Discernir as ações individuais e coletivas: identificar,desmascarar, confrontar e chamar à conversão os poderes, instituições,movimentos e estruturas nocivas ao bem-estar da cidade.O olhar misericordioso, por sua vez, mobiliza as pessoas de boa vontadepara ações e projetos de transformação visando à restauração, reintegração eredenção de pessoas, suas instituições, estruturas, ecologia, com a finalidadede que todo tecido urbano seja perpassado pela vida.Nesse sentido, a perspectiva missionária do povo de Deus de nossosdias é de conjugar a dimensão mística com a dimensão profética. Buscar umaprofunda experiência com Deus e, ao mesmo tempo, abrir os olhos para todas
  25. 25. A CHAVE TEOLÓGICA PARA ENTENDER A CIDADE 27as forças vivas existentes na cidade que se empenham a favor da vida digna,livre, justa e pacífica.A igreja não transformará a cidade sozinha. Ela precisa perceber que aboa mão de Deus age por toda a cidade. A ação de Deus não se limita à ação daigreja. Nem sempre a igreja tem a melhor percepção da realidade... Contudo,o povo de Deus contribuirá com as demandas e ofertas do evangelho porquenelas estão os tesouros mais profundos capazes de operar a transformaçãourbana.Ser igreja profética e misericordiosa requer uma sensibilidade de ouvir oque o Espírito está dizendo à igreja num contexto específico. A transformaçãoda realidade urbana pressupõe a conjugação de muitas iniciativas, projetos,ações coletivas visando ao mesmo fim.Deus estende suas asas sobre toda a cidade. À igreja cabe a tarefa deacolher as pessoas para este amparo do Senhor. Só assim, cada qual encontrarásua tribo e não será mais massa solitária. E as tribos conviverão em paz numasó comunidade urbanizada.
  26. 26. 29CAPÍTULO IIA CIDADE NA BÍBLIA SOB A LÓGICA DO PODER"Ai daquele que edifica uma cidade com sanguee a estabelece com crime" (Hc 2.12).2.1 Como a Bíblia lida com as cidades?Qual a vontade de Deus para com as cidades? Com que finalidade tantasrevelações, profecias, exortações, lamentações e promessas são feitas à cidade,ao longo da Bíblia?Deus, certamente, tem um plano com a cidade, não apenas com oseu povo que nela habita. Aliás, a vontade de Deus nunca foi que seu povoconstituísse um gueto, grupo fechado, isolado dentro da cidade. Nem mesmoo culto de seu povo pode ser restrito aos domésticos da fé. Isaías reclama umculto aberto aos povos ao enfatizar: "a minha casa será chamada casa deoração para todos os povos" (Is 56.7).Essa afirmação é profundamente visionária e missionária. Ela propõeque a missão de Deus seja dirigida a todos os povos, todas as religiões, todasas culturas e todas as etnias. Esta é a vocação abrâmica: ser bênção a todas asfamílias da terra. O Deus Eterno é um Deus missionário. IO povo de Israel perdeu essa visão ao longo de sua história e acaboutornando-se um povo que se julgava exclusivo e superior, muito mais propensoa conquistar e dominar do que missionar segundo a promessa feita a Abraão:"(...) por meio de você todos os povos da terra serão abençoados" (Gn12.3).Essa bênção tem uma dimensão universal e holística, a partir de umpovo singular eleito para essa finalidade. Esta é a missão de Deus (missio dei):fazer conhecido entre todos os povos o significado do projeto de Deus paratoda sua criação.1. Stott, John, 1998, p 35955.
  27. 27. 30 ACIDADE NA MISSAo DE DEUSA bênção é, portanto, universal por ser destinada a todas as geografiasda terra. É holística porque envolve toda a pessoa e - a pessoa toda - com vistasà sua integridade, seu bem-estar pessoal, social e ambiental. O Shalom, a pazque procede de Deus, engloba toda a criação. É dirigida a toda terra porque"do SENHOR é a terra e tudo o que nela existe" (SI 24.1). Plantas, animais,rios e mares, florestas e ecossistemas, ar puro e águas puras, tudo perfaz umconjunto ameaçado pela "civilização" ou processo civilizatório.Se esse Shalom é o alvo final de Deus ou a vontade suprema do Senhorpara o seu povo e para todas as famílias da terra, então, a missão de Deus (missiodei) deve ser vista nessa perspectiva holística. Se o povo de Deus viver no campoou na cidade, na peregrinação ou em terra cultivada, a missão central a nortearsua conduta deve ter este foco ou pensamento condutor: o que esse povo estáfazendo para corresponder à vocação de testemunhar "(...) o que é devido àpaz!" (Lc 19.42 - ARA). Esse é o enfoque determinante do presente estudo.A Bíblia lida com a cidade de maneira semelhante como lida com osseres humanos. Assim, como não existe pessoa perfeita também não existemodelo de comunidade perfeita. Cada maneira de conviver é uma tentativade sobreviver. A cidade é um modo de organização humana coletiva. Comotal, não é boa nem má. Tudo depende da finalidade que se der à mesma. Elapode servir à vida ou à morte; ao bem ou ao mal, à justiça ou à injustiça, àpaz social ou à opressão... Deus, por sua vez, estende a sua mão graciosa emisericordiosa às pessoas e à cidade. Ele dá orientações claras que indicamo caminho para a vida plena. Alerta para as conseqüências de quem nega suasoberania e se desvia de seus desígnios.Nesse sentido, encontram-se, ao longo das Escrituras, inúmeros textosque registram as conseqüências do juízo sobre a cidade infiel. Outras passagensressaltam a misericórdia do Senhor para com as cidades fiéis. A cidade é frutoda condição humana. Ela reflete a graça ou a desgraça.A cidade foi escolhida pelo Senhor como âmbito para a realizaçãoda plenitude do Reino de Deus. Não haverá uma volta ao Jardim do Éden.A Nova Jerusalém representa o futuro, nela a nova humanidade, criada emCristo, experimentará sua plenitude.Essa nova cidade não é fruto da evolução humana, nem culminânciado seu gênio científico. Ela é dádiva de Deus que desce dos céus. Tal como aredenção que veio pela misericordiosa graça de Deus em Cristo Jesus, e nãocomo mérito do cumprimento obstinado dos preceitos da Lei.Do Gênesis ao Apocalipse, a Bíblia registra a ocorrência do verbetecidade (traduzido do hebraico IHR e do grego POL/S) mais de 1400 vezes.22. Bakes, RaymDnd, Simpósio sobre Evangelização Urbana, (polígrafo) promovido pela visão Mundial, Belo Horizonte/MG, 1982, página 17.
  28. 28. A CIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 31Isso sugere que o assunto não apenas está presente, mas ocupa um lugarimportante nas Escrituras Sagradas.O presente trabalho não se propõe a realizar um inventário de todosos contextos nos quais tal expressão ocorre. O que importa é analisar como acidade se relaciona com a soberana vontade do Senhor. A cidade se coloca aserviço de Deus e de seu Reino ou é uma grandeza oposta ou inimiga? Pode-seobservar a existência de uma lógica de violência que perpassa todas as grandescidades? É a cidade - como tal - a morada do mal que se opõe à manifestaçãodo povo da Deus? Até onde perdura a compaixão de Deus pelos justos quenela habitam, assim com é expressa na intercessão do patriarca Abraão? (Gn18). Afinal, com que finalidade os homens se dispõem a construir cidadesfortificadas?2.2 Advertências bíblicasAntes de adentrar a pesquisa sobre a cidade, convém alertar para asseguintes advertências:A vigilância profética ativa - A cidade como aglomeração humana estásujeita a manobras perigosas. Por isso, o Senhor vela pela cidade. Às vezes,Ele intervém diretamente (Gn 18); outras vezes, envia-lhe seus mensageirose profetas para alertar os detentores do poder de que eles não são os donos dacidade.Jesus mesmo demonstrou enorme compaixão pelas multidões oprimidase desorientadas que vinham de cidades e aldeias. Comparou-as a ovelhassem pastor (Mt 9.38s). Ele também mostrou sua indignação com a liderançareligiosa de Jerusalém pelo fato de a IERU-Shalem - cidade da paz - ter setomado em covil de salteadores (Mt 21.13).Aproveitar as oportunidades de restauração da vida e da paz - OSalmo 127 mostra que a vontade do Senhor é ver a cidade como extensão doslaços de família. O Senhor quer edificar a cidade. Sua finalidade é que o tecidosocial urbano privilegie a vida.Em seu ministério, Jesus andava de cidade em cidade, aldeia em aldeiadesde a Galiléia rumo à Jerusalém, fazendo o bem, ensinando, curando,libertando as pessoas de todas as opressões. Seus milagres são interpretaçõesem duas direções: através deles, Jesus libertava e restaurava as pessoas para aintegração social em sua comunidade. Segundo, os milagres eram sinais queapontavam para o Reino de Deus que se manifestava pela vitória da vida sobreos poderes que matam ou excluem as pessoas do pleno convívio comunitário.
  29. 29. 32 A CIDADE NA MISsAo DE DEUSE, em terceiro lugar, importa manter o sonho da cidade nos padrõesdo Reino de Deus. Ao longo da história humana, não tem faltado utopistase sonhadores da cidade ideal. De Platão, com sua Antártida até a Brasília deOscar Niemeyer e Lúcio Costa, passando por Campanella, Thomas Morris etantos outros, 3 manifesta-se a busca pela cidade ideal.A revelação do Senhor ao apóstolo João, na Ilha de Patmos, mostraque o máximo que o ser humano tem conseguido construir são cidades comocentros de poder e dominação, simbolizados pela Babilônia que representavaa Roma histórica da época.A cidade perfeita não é fruto do engenho humano, por mais que estedeva se empenhar nessa busca. Ela, assim como a salvação em Cristo Jesus,é obra da graça de Deus. Ela vem da parte de Deus. Ao contrário da Torrede Babel, ela não é construída para simbolizar a dominação de quem queiraperpetuar o seu nome sobre seus semelhantes. A nova cidade é gerada emDeus e alcança a terra dos homens para que estes se reúnam em torno do úniconome em quem há vida em plenitude: Jesus. A nova Jerusalém está colocadano final das Escrituras. Ela serve de espelho para refletir essa nova realidadepara dentro de todas as ações humanas a fim de que nela se inspirem e para elavenham a convergir.O povo de Deus tem a incumbência de trazer a presença dos sinais dafutura cidade para dentro da sofrida realidade urbana.2.3 A cidade como criação humanaA Bíblia apresenta o Jardim do Éden e a Nova Jerusalém como princípioe culminância da boa criação de Deus. Deus é o princípio, o sujeito da açãoem ambos. A criação tem sua culminância no Sábado, na adoração e nasantificação. A nova Jerusalém tem sua culminância na adoração do Senhor.Ele será tudo em todos.A cidade histórica, no entanto, é criação humana. São de suaresponsabilidade a organização social, os regimes políticos, os sistemaseconômicos, as instituições religiosas e a responsabilidade ecológica.A organização social é da competência e responsabilidade dos sereshumanos. Para tanto, eles são dotados de inteligência, criatividade e aptidãopara fazerem as suas escolhas. Se as pessoas desejarem viver como nômadesou se fixarem em determinadas regiões; se desejarem viver no campo ouconstruírem cidades é de sua livre escolha e responsabilidade.3. Freitag, Bárbara, Utopias Urbanas (poligrafo) UNB. BrasilialDF.
  30. 30. ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 33Deus os criou como seres reiacionais dotados de aptidão para cultivarema comunhão com o Criador, com os seus semelhantes e com a criação da qualfazem parte. Deus lhes conferiu o domínio sobre a natureza para que a possambem administrar a fim de que ela sempre lhes forneça o sustento necessário.Se o mandato recebido do Criadorfor desobedecido ou mal administrado,a criação (natureza) sofrerá e se vingará. A criação é pródiga em mantimentospara sustentar todas as criaturas: "Coma livremente de qualquer árvore dojardim" (Gn 2.16).Esse mandato se perpetuará, desde que as pessoas preservem suavocação como colaboradores de Deus para cultivar e guardar o bom Jardim.Convém recordar que, enquanto seres humanos, nós somos criaturas feitasdo húmus da terra. Somos, portanto, seres espirituais, sociais e ecológicos. Anossa vida está circunscrita ao Jardim de Deus - o Planeta Terra. A devastaçãodo planeta resultará em ruína da humanidade.De todas as escolhas que as pessoas fizerem deverão prestar contas aDeus. Essa é a sua responsabilidade: responder perante o Senhor Deus Criadorde céus e terra por toda e qualquer ação ou projeto social. Não somos donos,porém, mordomos da criação: "do SENHOR é a terra e tudo o que nela existe"(SI 24.1).Nesta terra, as pessoas têm a liberdade de construir civilizações,organizar a convivência e a sobrevivência dentro dos limites da dignidadeinalienável que lhes foi conferida pelo Criador. Cada pessoa é um ser ético.E fora de uma ética fundamental, a sobrevivência da espécie humana e doplaneta estará ameaçada.Embora o episódio de Gênesis 3 - o pecado ou queda - testemunhea capacidade do ser humano de romper a comunhão com Deus e,conseqüentemente, perder o Paraíso, Deus mesmo o responsabilizou pelosseus atos, mas não o largou ao desamparo. Deus o visitou em sua rebeldia elhe conferiu um sinal concreto de sua presença. Ele vestiu homem e mulhercom dignidade para não viverem permanentemente sucumbidos em sua culpa,medo e vergonha.Toda a trajetória humana se desenrola diante da face do Senhor. Nocampo ou na cidade, cada pessoa pode escolher livremente a maneira comodeseja viver, conviver e sobreviver. As demais criaturas constroem seusninhos, tocas ou sofisticadas colméias pelo instinto que carregam ao longoda perpetuação de sua espécie. As pessoas, diferentemente, foram dotadascom uma inteligência livre e memória histórica, isso é o seu privilégio e oseu dilema. Mercê desse privilégio é a criatividade do gênio humano que nãoconhece limites em seus projetos e edificações urbanas.
  31. 31. 34 A CIDADE NA MISsAo DE DEUS2.4 Os construtores da cidade segundo a BíbliaAo longo das Escrituras, aparecem diversos construtores de cidade. Cadaqual tem sua motivação oujustificativa.A cidade pode servirde amparo e proteçãocontra animais ferozes; ela pode servir como fortaleza militar para sobrepujar-seaos povos vizinhos; ela pode ser um centro de peregrinação religiosa... Entre osprincipais construtores ou usurpadores de cidade destacam-se:2.4.1 CaimA Bíblia não se propõe a investigar as origens históricas ou ascircunstâncias do surgimento da cidade antiga. 4 Ela seinteressa, principalmente,pelas motivações e pelas razões que levaram determinadas pessoas a edificarcidades e a vocação que deram aos seus empreendimentos em relação aos seussemelhantes, natureza e ao próprio Deus. 5A cidade é mencionada, pela primeira vez, como obra de Caim. Elefigura, no texto bíblico, como a pessoa que fez a primeira tentativa de construiruma cidade. Em Gênesis, consta: "Caim teve relações com sua mulher, e elaengravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deuo nome do seu filho Enoque" (Gn 4.17).Com o assassinato de seu irmão Abel, recaiu sobre Caim a maldição doSenhor: "você será um fugitivo e errante pelo mundo" (Gn 4.12). Essa culpacertamente lhe foi pesada demais, por isso, temendo ele pela própria vida,rogou por um amparo que lhe permitisse continuar vivendo. O Senhor lheconcedeu um sinal para que ele não fosse vingado pelo crime de sangue.Depois, continua a narrativa bíblica: "Então Caim afastou-se dapresença do SENHOR efoi viver na terra de Node, a leste do Éden" (Gn 4.16).Caim "já não tem lar, nem humano nem geográfico, porque o assassinatodestruiu o lar". 6 Como errante e fugitivo, ele estava em busca de um lugar,uma referência, um porto seguro, uma identidade. Na terra estranha, ele fezduas coisas: conheceu a sua mulher, gerou um filho e construiu uma cidade.O exegeta bíblico, R. Champlin, afirma que ele foi o primeiro "homema estabelecer uma comunidade urbana..." "o primeiro arquiteto urbanista ". 7Foi de Caim a idéia e o feito da criação da primeira cidade.4. Para estudar a cidade antiga, sugiro as obras de Faustel Collange e Lewis Munford, citadas na bibliografia.5. A seqüência dos textos segue a narrativa bíblica sem a preocupação pela historicidade dos relatos e sua cronologia.Aceita-se, neste trabalho, a Bíblia como um livro que tem sua própria dinâmica e mensagem independente de seusintérpretes.6. EIul, Jacques,1970, p. 16.7. Champlin, Russel N., 2001:48 - A nosso juízo, parece exagerado atribuir este veredicto a Calm. Evidencia um juízoanacrônico, pois toma emprestado de nossos dias a visão e linguagem.
  32. 32. A CIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 35Que significado tinha essa cidade na vida de Caim? O filósofo e pensadorcristão, Jacques ElIul, afirma que, na cidade, Caim pôde ser ele mesmo, ela eraa sua pátria, o único ponto estável em seu vagar; foi um sinal material de suasegurança diante de Deus, de quem se tomou fugitivo e errante; diante dosanimais e, diante de seus próprios semelhantes a quem ele temia. "A cidadeé o resultado direto do ato criminoso de Caim e de sua negativa em aceitar aproteção de Deus". 8Com a construção de sua cidade, Caim fez um novo começo. Enoquesignifica iniciação ou dedicação. Enoque oferece um novo começo: inauguraçãoem oposição à criação, a cidade em oposição ao Paraíso. Assim como a históriacomeça com o assassinato de Abel, a civilização começa com a cidade e tudoo que ela representa. 9Esse é o contexto no qual a Bíblia insere a sua primeira referência àcidade. Uma referência muito breve e sucinta. A cidade é criação do homem- homem errante, fugitivo, inseguro - que foge de si mesmo e da presença deseu Criador. A cidade, tal como a civilização, não é criação de Deus, é criaçãohumana. Na sua cidade, a pessoa se afirma como sujeito de poder. Poder sobrea natureza e sobre seus semelhantes, a quem teme por se sentir ameaçadoem seu delito de perseguição. A violência gera o medo. E quem tem medo,esconde-se, arma-se!A narrativa bíblica apresenta o surgimento da primeira cidade vinculadoa um contexto de violência, medo, fuga e a necessidade de abrigo, de segurançae de conforto. Difícil é dimensionar a cidade de Caim em seus contornosmateriais. Certo é que o autor bíblico nos apresenta o surgimento do primeiroembrião urbano com os seus significados e as implicações espirituais, sociais,psicológicas, ecológicas e históricas.2.4.2 Ninrode"Cuxe gerou também Ninrode, oprimeiro homem poderoso na terra. Elefoi o mais valente dos caçadores, e por isso se diz: Valente como Ninrode . Noinício o seu reino abrangia Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinear.Dessa terra ele partiu para a Assíria, onde fundou Nínive, Reobote-Ir, Calá eResém, que fica entre Nínive e Calá, a grande cidade" (Gn /0.8-/2). lO8. Ellul, Jacques, 1970, p.19.9. Ellul, idem, 1979. p.19-20.10. A coletânea dos registros das origens das nações traz apenas fragmentos. E tudo que afirmam parecem ser anotaçõesfragmentárias para elucidar realidades importantes para o agir do povo de Deus. É pouco provável que aqui o autor(es)pretenda expor as origens históricas das grandes cidades da Antigüidade, antes pretende dar uma satisfação teológicasobre a origem da cidade como centro de poder opressor.
  33. 33. 36 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSDe Ninrode sabe-se pouca coisa, embora o presente relato lhe dediquegenerosos cinco versículos, ao passo que, de outros personagens, faz apenasmenção. Ele era descendente de Cão, filho amaldiçoado por Noé e pai deCanaã (Gn 9.20-29; 10.6-8).Como descendente de Cão e sentenciado a ser servo dos servos de seusirmãos (Gn 9.25), Ninrode vingou-se da escravidão por sua própria força epartiu para a construção de cidades. Na interpretação de Ellul "o espírito depoder é uma resposta à maldição divina, e quase se podia dizer que tal espíritonunca teria existido se antes não houvera uma maldição... mais uma vez acidade vem como resultado da maldição; como uma ação através da qual umhomem tenta escapar da maldição". 11Sabemos da história que as grandes cidades antigas, referidas nessapassagem bíblica, não foram construídas por um só homem. Elas sãoconhecidas e emblemáticas, pois, sob o seu domínio, o povo de Deus sofreuviolência e opressão. Aqui se destaca uma lógica que acompanha a cidade aolongo da Bíblia: ela era erigida como centro de poder. O princípio norteador desua política é: o espírito de poder e de conquista jaz como o fundamento sobreo qual acontece a construção dessas cidades.Ellul sublinha esse aspecto e argumenta:A cidade é agora o centro a partir do qual se faz a guerra. A civilizaçãourbana é uma civilização bélica. O conquistador e o construtor já não sãodistintos. Ambos habitam em um só homem, e ambos são a expressãodessa ambição de poder que é a rebeldia contra o Senhor. As Escriturasnos dão aqui um segredo a mais sobre a cidade. E nosso mundo modernonão os desmente. Que mundo poderia demonstrar melhor do que o nosso oparalelo entre civilização urbana e civilização bélica? Um mundo no qual acidade e a guerra têm chegado a ser dois dos pólos ao redor dos quais giratoda vida econômica, social e politica de nosso tempo... Mas Ninrode nãoestá sozinho: ele está diante do Senhor. 12De acordo com a narrativa bíblica, Ninrode é apresentado como umhomem poderoso. "Ele foi um antigo tirano, um homem furioso, caçador,incansável, o fundador de Babel (ou seja, Babilônia). Ele proveu a uniãoda paixão pela caça com a habilidade da guerra e assim foi uma espécie deprotótipo dos monarcas assírios." 13Em que reside o seu poder? Ele é apresentado como o mais poderosocaçador. Caçar era um ofício comum para a época.11. Ellul, Jacques, idem, p. 23.12. Ellul. Jacques, Idem. p. 25.13. Champlin, Russel N., 2001, p.87
  34. 34. ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 37A caça conforme informou Aristóteles, era tida como um aspecto das artesmilitares. Há uma certa lógica nisso. Na guerra, os homens caçam uns aosoutros, para se matarem; e, na caça, os homens caçam animais. Uma tristeatividade. Xenofonte escreveu que os reis da Pérsia eram preparados paraa guerra e para o governo por meio da caça. 14Isso nos leva a entender a intrigante conjugação entre o ofício docaçador e a construção de cidades. Ninrode comanda um exército de caçadorese saqueadores que vai pilhando aldeias vizinhas e construindo o seu reino,erigindo cidades que mais tarde se tornaram inimigas de Israel.Ninrode, no entanto, está "diante do Senhor". De tudo o que ele fizer ouedificar prestará contas a Deus, o Senhor soberano. Os profetas são testemunhasde que o Senhor não fica indiferente a tudo que é feito nas cidades e através deseus gestores ao longo da história. As cidades, bem como seus construtores,estão sob o juízo ou a misericórdia do Senhor. Ninrode não foi exceção.A cidade por ele idealizada localiza-se, geograficamente, na terrade Sinear, a planície onde o seu reino principia com a edificação de Babel,cidadela conhecida pelo episódio bíblico da construção da uma torre, conformeveremos adiante.2.4.3 A construção da cidade como centro de poder militar"No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo defalar. Saindoos homens do Oriente, encontraram uma planície em Sinear e ali se fixaram.Disseram uns aos outros: Vamos fazer tijolos e queimá-los bem. Usavamtijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Vamos construir umacidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famosoe não seremos espalhados pela face da terra . O SENHOR desceu para vera cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse () SENHOR:Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso.Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos econfundamos a língua quefalam, para que não entendam mais uns aos outros .Assim o SENHOR os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir acidade. Por issofoi chamada Babel, porque ali o SENHOR confundiu a línguade todo o mundo. Dali o SENHOR os espalhou por toda a terra (Gn 11.1-9).A presente narrativa não é apenas uma parábola ou um conto. Ela separece mais com uma profecia. A grande construção é aqui apresentada comoo desejo dos filhos dos homens ou da humanidade em geral. Essa obra tem14. Champlín, Ide, idem, p. 89.
  35. 35. 38 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSseus idealizadores e interessados como no caso de Caim e Ninrode. Aquialguém desejou tirar proveito da cidade. Não era o povo trabalhador, ocupadocom o trabalho braçal, mas os que idealizaram, projetaram e concretizaram oempreendimento. Ou seja, a liderança interessada em projetar o seu nome.A parábola da construção da cidade com a torre de Babel é emblemática.Ela apresenta o gérmen de algo que se torna extremamente ameaçador para avida do povo de Deus: o obstinado desejo de dominar.O senso comum, expresso em comentários bíblicos e sermões, sobreo citado texto, limita-se a tirar dele algumas advertências e lições de moralsobre o orgulho. Interpretam o episódio da construção da Torre de Babel comoo fracasso do ufanismo humano e sua vanglória em fazer para si um nomenotável. A exegese bíblica mais acurada aponta para um significado maispertinente desse texto.Em sua exegese sobre o significado da torre, o teólogo Milton Schwantesafirmou:Já que no Antigo Testamento, migdal, nunca tem características sacrais,mas sempre militares, urge que também entendamos o migdal de Gn 11como sendo uma tal fortaleza. Esta significação é perfeitamente viável emnossa estória: foi construida uma cidade, isto é, um centro do poder políticoe econômico, na qual estava incluído um burgo, isto é, uma central para adefesa e o domínio militar. O migdal é, pois, a central militar que se eleva porsobre a cidade! Este é o sentido mais literal e lógico de migdal em Gn 11. 15A presente perícope insere-se no mesmo assunto que é tematizadoem Gn 10.8-12, ou seja, a tentação de fazer da cidade um centro de poder edominação. A crítica bíblica não se dirige, em primeiro lugar, à cidade como tal,mas à visão daqueles que dela pretendem fazer um instrumento de opressão.Só assim se pode entender a severidade do juízo de Deus sobre osconstrutores de Babel. O plano dos idealizadores do empreendimento era defazerem-se um nome. Fazer-se um nome equivale a fazer-se senhor, dominador,monarca, poderoso. O presente texto traz uma sutil crítica ao gérmen do estadomilitarizado:A loucura do estado em seu planejamento é incontrolável! O povo deDeus nos sabe contar inúmeros exemplos do desastre que representou oreinado em Israel. Basta ler Jz 9.7ss e 18m 8.10-18! Portanto, a reflexãodivina do v. 6 alude à passagem do grupo menor para a constituição doestado e diagnostica o calamitoso desastre de princípio inerente à estruturacentralizadora na metrópole e na guarnição. 1615. Schwantes. Milton. 1981, p. 94.95.16 Schwantes, Milton. idem, idem, p. 97.
  36. 36. ACIDADE NA BIBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 39A idealização e a construção da cidade com sua torre acontece àrevelia de Deus. Basta olhar a estrutura do texto bíblico. Os primeiros quatroversículos falam da ação dos homens. Seu projeto de cidade, sua sede pordomínio e notoriedade não têm inspiração divina. Estão aí como obra do gêniohumano à revelia de Deus.O Senhor só interveio a partir do versículo cinco: "O SENHOR desceupara ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo".Aqui ocorre algo semelhante com a narração sobre Ninrode, que era"valente caçador diante do SENHOR" (Gn 10.9 ARA). Os projetos de podermaquinados pelos homens, como aludido acima, não passam despercebidosdiante do Senhor. Este intervém, mais cedo ou mais tarde, para pronunciar seujuízo sobre os poderosos.Comparando-se o episódio de Babel com a situação que o povo de Israelviveu sob o domínio de Faraó no Egito, notam-se algumas semelhanças. O quemais incomodou o dominador egípcio foi o fato de que o povo desejou ter umespaço próprio para servir ao seu Deus. Com essa atitude, os filhos de Israelderam provas de que não estavam dispostos a se renderem incondicionalmenteàs ordens de Faraó (Êx 1.8-14). Coincidentemente, o povo de Israel erasubmetido à condição de escravos fabricantes de tijolos para construir ascidades-celeiros de Faraó.No episódio da torre de Babel, o juízo de Deus sobre o projeto dedominação foi transformado em bênção para o povo subordinado, à medidaque cada grupo recupera a sua própria linguagem sem um comando central. Éde supor-se que as culturas diversificadas levaram ao desespero os poderososdominadores obstinados por fazer-se um nome notável. Deus mesmo seencarregou de frustrar o projeto megalomaníaco dos protomonarcas ouprotoditadores. Isso nos leva a concluir que a cidade que o Senhor deseja estámuito distante do experimento citadino de Babel.2.4.4 A crítica ao estado monárquicoEm circunstâncias históricas complicadas ressurge, no seio do povode Deus, a vontade de erigir uma estrutura de poder centralizado capaz decomandar a guerra. Porém, o seu modelo de governo citadino não estava nosplanos de Deus.A fábula ou parábola de lotão é uma advertência crítica muito profundaao intento de fazer em Israel uma cidade belicista a exemplo dos povosvizinhos.
  37. 37. 40 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSOuçam-me, cidadãos de Siquém, para que Deus os ouça. Certo dia asárvores sairam para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: "Seja o nossorei!". A Oliveira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciar ao meu azeite,com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobreas árvores?". Então as árvores disseram à figueira: "Venha ser o nosso rei!".A figueira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso edoce, para dominar sobre as árvores?". Depois as árvores disseram à videira:"Venha ser o nosso rei!". A videira, porém, respondeu: "Deveria eu renunciarao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter dominio sobre asárvores?". Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: "Venha sero nosso rei!". O espinheiro disse às árvores: "Se querem realmente ungir-merei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogodo espinheiro e consumirá até os cedros do Libano!" (Jz 9.7-15).A crítica à monarquia fica explicitada num outro texto, que aponta paraos direitos e privilégios do monarca e o preço de sua opressão para o povo.Quando envelheceu, Samuel nomeou seus filhos como líderes de Israel...Mas os filhos dele não andaram em seus caminhos. Eles se tornaramgananciosos, aceitavam suborno e pervertiam a justiça.Porisso todas as autoridades de Israel reuniram-se e foram falar com Samuel,em Ramá. E disseram-lhe: "Tu já estás idoso, e teus filhos não andam emteus caminhos; escolhe agora um rei para que nos lidere, à semelhança deoutras nações".Quando, porém, disseram: "Dá-nos um rei para que nos lidere", issodesagradou a Samuel; então ele orou ao SENHOR.E o SENHOR lhe respondeu: "Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo;não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei... "Samuel transmitiu todas as palavras do SENHOR ao povo, que estavalhe pedindo um rei, dizendo: "O rei que reinará sobre vocês reivindicarácomo seu direito o seguinte: ele tomará os filhos de vocês para servi-lo emseus carros de guerra e em sua cavalaria, e para correr à frente dos seuscarros de guerra. Colocará alguns como comandantes de mil e outros comocomandantes de cinqüenta. Ele os fará arar as terras dele, fazer a colheita, efabricar armas de guerra e equipamentos para os seus carros de guerra.Tomará as filhas de vocês para serem perfumistas, cozinheiras e padeiras.Tomará de vocês o melhor das plantações, das vinhas e dos olivais, e o daráaos criados dele.Tomará um décimo dos cereais e da colheita das uvas e o dará a seusoficiais e a seus criados.Também tomará de vocês para seu uso particular os servos e as servas, e omelhor do gado e dos jumentos.E tomará de vocês um décimo dos rebanhos, e vocês mesmos se tornarãoescravos dele. Naquele dia, vocês clamarão por causa do rei que vocêsmesmos escolheram, e o SENHOR não os ouvirá".Todavia, o povo recusou-se a ouvir Samuel, e disse: "Não! Queremos ter umrei. Seremos como todas as outras nações; um rei nos governará, e sairá ànossa frente para combater em nossas batalhas..." (1 Sm 8.155).
  38. 38. ACIDADE NA BiBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 41A palavra profética sublinha que a instituição da monarquia em Israelequivalia à rejeição de Javé como Rei de Israel. Sua motivação não veio deDeus, mas do desejo de ter alguém habilitado para a arte da guerra.Adiante, Samuel alerta para o peso tributário e o risco do regimemonárquico. Sabe-se que as monarquias eram sustentadas pelos saques dospovos vizinhos e pelo escravagismo. Acaso esse regime seria diferente emIsrael? A história posterior demonstrou que não.O capítulo do reinado em Israel foi catastrófico. Com exceção de algunspoucos reis, a maioria fez o que era mau perante o Senhor. Acrescente-se a issoa destruição de Jerusalém e o sofrimento decorrente descrito nas Lamentaçõesde Jeremias.A instauração de um estado monárquico militarizado em Israelsignificava uma dupla afronta a Javé. Primeiramente, é a negação da própriasoberania do Senhor: Javé é o único Rei em Israel; segundo, é negação de umespírito comunitário reinante em Israel, baseado na aliança das doze tribos.O rei Davi foi o último monarca em Israel que conseguiu manter omodelo comunitário das doze tribos em Israel. O rei Salomão teve um inícioglorioso em seu reinado, mas sucumbiu à tentação dos povos vizinhos e acabouedificando palácios, importando belas mulheres para o seu harém e terminoupor assimilar o modelo escravagista para Israel. Esse modelo centralizador foio princípio da derrocada da cidade de Jerusalém. Salomão abriu as fronteiraspara transformar Jerusalém - cidade da paz - em Babilônia, a cidade daopulência e da idolatria.2.5 Israel sob a ameaça das cidadesPor que a Bíblia descreve com tanta resistência a criação da instituiçãodo reinado citadino? O modelo monárquico desejado por Israel não conta como aval dos profetas porque afronta o próprio Deus, como vimos acima. Logo,a instituição do reinado foge do plano de Deus. Por quê? Exatamente pelo querepresenta a sua estrutura.Basta ver como agiam os reis dos povos e como se sustentavam. A baseda sustentação das monarquias era a pesada tributação e os saques aos povosvizinhos mais fracos por incursões militares. Quando as riquezas produzidaspelos povos não mais eram suficientes para satisfazer a ambição dos monarcascom seu exército, seu harém, seus palácios, seus sonhos de poder, suasvaidades... Então, instaurava-se a escravidão.
  39. 39. 42 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSA crítica profética, a rigor, não é dirigida à cidade, mas contra a formade governo citadino. Sua política era geradora de um processo de aglomeraçãourbana. O estado monárquico com a sua corte e funcionários não tinha limites.A violência não se evidenciava apenas na arte da guerra, mas institucionalizou-se na maneira de governar. As benesses eram sempre da corte, ao passo queo povo trabalhador - seja do campo ou do artesanato - ficava reduzido aosacrifício: sem contar com o fruto de seu labor, sem amparo legal e, não raro,sem uma instância jurídica para sua defesa.Apesar das advertências, a monarquia em Israel foi cantada comovontade de Deus, principalmente pelos sacerdotes. Esta ideologia ou idolatriadominante, protagonizada pelos sacerdotes da corte, não conta com umalegítima sustentação espiritual. No tempo do reinado, Deus faz ouvir sua vozatravés dos profetas.Então o reinado em Israel não foi vontade de Deus? Davi não foi um reisegundo o coração de Deus?Depende. Para que o desastre do reinado em Israel não fosse pior, Deuslevantou profetas corajosos para admoestar e limitar as loucuras dos monarcas.Em alguns raros momentos, os reis deram ouvidos às advertências dos profetas,como foi o caso de Davi, que foi duramente confrontado por Natã (2Sm 12).Os sacerdotes se comportavam, via de regra, como serviçais da corte.Para assegurar suas benesses, abdicavam ou renegavam o claro preceito da Leide Deus, opondo-se até aos profetas verdadeiros.Salomão não deu ouvidos aos profetas e comprometeu seu reinadocom a idolatria e a perversão (prostituição) à moda dos reinos pagãos, alémde introduzir em Israel o modelo econômico pagão, que tinha como base desustentação do reinado o escravagismo.Por isso se afirma, após a morte de Salomão (I Rs 12.4ss), que a opressãodo povo foi uma das principais causas da divisão do reinado em Israel.É também sintomático que a alusão que Jesus faz a Salomão refere-se a insignificância deste: "Vejam como crescem os lírios do campo... nemSalomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles" (Mt 6.28-29).Essas advertências apontam para o risco dos governantes de não teremlimites em seu afã de dominar. Cabe à liderança do povo de Deus advertir edenunciar que o exercício do poder é, acima de tudo, um instrumento parapromover a justiça, a paz e o bem-estar social.
  40. 40. A CIDADE NA BíBLIA SOB A LOGICA DO PODER 432.6 O povo de Deus sob a opressão citadinaAo longo de sua história, o povo de Deus sofre e se insurge contra adominação que vem da cidade: "A cidade e a organização militar sediada nascidadelas citadinas continuamente representaram um problema vital para opovo de Deus... Os textos de Gênesis estão repletos de horror à cidade e desua sociedade" (Gn 4.17; 18ss; 12.1Oss; 20.1ss; 26.1ss)",17A começar com o chamado de Abrão, que para ser um instrumento debênção ao seu clã e às nações, tem como condição abandonar sua cidade deorigem, Ur da Caldéia (Gn 12.1-3).Ló é saqueado e levado cativo, vítima da violência de monarquiasemergentes da região de Sodoma (Gn 14). Abrão resgata Ló, seu sobrinho,do cativeiro. Consumada a vitória, Abrão é agraciado com a bênção deMelquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus altíssimo (Gn 14.12-24).Gênesis 19 é outro testemunho da violência de Sodoma e Gomorracontra pessoas inocentes. Abraão clama por clemência pela cidade que oSenhor está prestes a destruir. A intercessão de Abraão diante do Senhor é paraque Ele não destrua o justo com o injusto. E o Senhor lhe afirma que, por amoraos justos, a cidade não será destruída. Mas a inexistência de justos inviabilizaa cidade e sobre ela caiu fogo e enxofre.No Egito, os filhos de Israel sofrem a dura escravidão para "construírempara o Faraó as cidades-celeiros" (Êx 1.11). Sua dura tarefa, entre outras, eraa confecção de tijolos para edificar as cidades a Faraó. Aqui o povo de Deussofre sob o duro mando citadino.A terra de Canaã estava cheia de cidades fortificadas: "as cidades sãograndes, com muros que vão até o céu" (Dt 1.28), ou "cidades grandes, commuros que vão até o céu" (Dt 9.l).Essas cidades são fortalezas militares - seu topo alcança os céus, issoquer apontar para sua colossalidade e monstruosidade que infunde temor etremor aos filhos de Israel.2.7 A crítica profética às cidadesO povo de Deus conta uma longa história de sofrimentos e malefícioscausados por cidades militarizadas. Dentre os profetas do povo de Deus quemanifestam com veemência a sua crítica ao projeto do poder centralizador edominador, destacam-se:17. Schwantes, Mílton, idem, idem, p.95.
  41. 41. 44 A CIDADE NA MISSAo DE DEUSAmós, em obediência à visão que recebe do Senhor, deixa seu ofíciorural em Tecoa para denunciar a violência militar e opressão econômica, sociale religiosa praticada pelos governantes de diversos povos, dentre os quais, opovo de Deus.Entre as violências praticadas e denunciadas pelo profeta, constam asseguintes: sobre Damasco: "(...) porque trilhou Gileade com trilhos de ferropontudos" (Am 1.3); sobre Gaza: "(...) porque levou cativas comunidadesinteiras e as vendeu a Edom" (Am 1.6); sobre Edom: "(...) porque com aespada perseguiu seu irmão, e reprimiu toda a compaixão..." (Am 1.11); sobreAmom: "(...) porque rasgou ao meio as grávidas de Gileade... " (Am 1.13);sobre Moabe: "(...) porque ele queimou até reduzir a cinzas os ossos do rei deEdom,... "(Am 2.1).A acusação mais severa do profeta se volta contra as lideranças dopróprio povo de Deus: sobre Judá: "(...) Porque rejeitou a lei do SENHOR enão obedeceu aos seus decretos, porque se deixou enganar por deuses falsos,deuses que os seus antepassados seguiram..." (Am 2.4); sobre Israel: "(...)Vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre. Pisam a cabeçados necessitados como pisam o pó da terra, e negam justiça ao oprimido. Pai efilho possuem a mesma mulher e assim profanam o meu santo nome. Inclinam-se diante de qualquer altar com roupas tomadas como penhor. No templo doseu deus bebem vinho recebido como multa" (Am 2.6-8).Em suma: "Eles não sabem agir com retidão", declara o SENHOR, "eles,que acumulam em seus palácios o que roubaram e saquearam" (Am 3.10).No que se refere às elites de Israel, o brado de indignação de Amós é aindamais veemente: "Vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre"(Am 2.6ss); "Eles não sabem agir com retidão", declara o SENHOR, "eles, queacumulam em seus palácios o que roubaram e saquearam" (Am 3.10).Mas, a maior indignação do Senhor contra o seu povo é que tentamenganar o próprio Deus através de uma religiosidade formal e falsa: "Afastemde mim o som das suas cançties e a música das suas liras. Em vez disso, corraa retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!" (Am 5.23-24).Nos dias de Amós, o povo de Israel vive um tempo de prosperidade.A corte vive encastelada, usufruindo um consumismo à custa do sangue dostrabalhadores. A classe dominante é rica e opressora, vive distanciada darealidade sofrida de seus irmãos camponeses e operários. Não há justiça sociale o juízo de Deus não tardou.Amós aparece como voz solitária. Ele é o único que possuía uma leiturareal do que ocorria na época. Deus o arrancou da vida aldeã para o confrontocom as autoridades constituídas sobre as cidades. Deus não se conformava
  42. 42. ACIDADE NA BíBLIA SOB A LÓGICA DO PODER 45com um projeto desenvolvimentista, (mesmo que apoiado pela liderançareligiosa), mas que não contemplava todas as pessoas com justiça e dignidade.A espiritualidade requerida por Deus conjuga piedade com justiça, adoraçãocom transformação social, exercício do poder com bem-estar social de todos.Habacuque, em seus dias, alerta o povo de Judá para o poder bélico doscaldeus:(. ..) todos vêm prontos para a violência. Suas hordas avançam como o ventodo deserto, e fazendo tantos prisioneiros como a areia da praia. Menosprezamos reis e zombam dos governantes. Riem de todas as cidades fortificadas,pois constroem rampas de terra e por elas as conquistam. Depois passamcomo o vento e prosseguem; homens carregados de culpa e que têm pordeus a sua própria força. (Hb 1.9-11)No caso de Habacuque, Deus suscita o povo inimigo para executar ojuízo sobre Israel por causa de sua infidelidade. Isso não inocenta o poderopressor do exército dos caldeus. Apenas lembra que a mão do Senhor não estáencolhida. Antes reafirma que também os governos das nações devem prestarcontas ao Senhor pelo bem ou o mal que fazem ao seu próprio povo ou aosseus vizinhos.O profeta Oséias traz, igualmente, uma dura crítica à classe religiosae política de Israel, por causa de sua infidelidade e perversão (Os 2.2ss);corrupção das autoridades religiosas - "A fidelidade e o amor desapareceramdesta terra, como também o conhecimento de Deus" (Os 4.lss).A violência e a falsidade das autoridades políticas - "Os líderes deJudá são como os que mudam os marcos dos limites" (Os 5.10). A iniqüidadedos reis e príncipes - "Pois praticam o engano, ladrões entram nas casas,bandidos roubam nas ruas..." (Os 7. I); "Todos eles se esquentam como umforno, e devoram os seus governantes. Todos os seus reis caem, e ninguémclama a mim" (Os 7.7).Miquéias aponta para a esperança de ver uma sociedade não militarizadae belicista. Seu sonho de paz é ver as armas transformadas em ferramentas detrabalho produtivo e a violência cedendo lugar para a fraternidade:Elejulgará entre muitos povos e resolverá contendas entre nações poderosose distantes. Das suas espadas farão arados, e das suas lanças, foices.Nenhuma nação erguerá a espada contra a outra, e não aprenderão maisa guerra. Todo homem poderá sentar-se debaixo da sua videira e debaixoda sua figueira, e ninguém o incomodará, pois assim falou o SENHOR dosExércitos. (Mq 4.3-4)Isaías profetiza com palavras semelhantes (ls 2.4-5).
  43. 43. 46 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSEm suma, os projetos de poder, localizados nos palácios das cidades,representam ameaça e sofrimento para grande parte da população.Nas palavras de Schwantes:É impressionante observar que no Antigo Testamento a espoliação quevitima os que têm que construir nas cidades é muitas vezes tematizada(Gn 49.15; 1Sm 8.11ss; 2Sm 12.31; 20.24; 1Rs 4.6; 5.27; 15.22; Ne 3.lss;5.1ss; Mq 3.10; Hb 2.12; Jr 22.13ss). Sim, uma das causas importantes paraa divisão do reinado davídico-salomônico e o surgimento dos dois reinos(Israel e Judá) é justamente o trabalho forçado em construções (1 Re 12cf.vA com 18). 18Essa temática, que se estende ao longo da Bíblia, encontra no livrodo Apocalipse de João a descrição da culminância da maldade dos que reinamcom violência a partir da cidade. O poder totalitário de Roma é designado comoa besta emergente (Ap 13). A irracionalidade de sua violência é indescritível.Mas a violência não tem a última palavra no livro de Apocalipse.A cidade militarizada, com todo o seu poder e brutalidade, tem os seusdias contados. Embora ela seja capaz de exercer fascínio e dominar sobre osreis da terra (Ap 17), sua ruína já emerge no horizonte (Ap 18).Desde a narrativa de Gênesis 11 até a revelação em Apocalipse 13, Deusestá longe do empreendimento do Estado militarizado tanto na sua concepçãocomo na culminância de seu poder totalitário. "Essa oposição divina é expressade modo magnifico: Javé está longe da exploração e militarização citadinas;precisa descer para inspecionar. Sim, em Gn JJ, Deus só podia estar no céu,longe, pois não se pode identificar com a exploração e a militarização dacidade em obras.". 19Em contraste ao projeto humano, Apocalipse 21-22, apresenta a novacidade da qual flui a vida digna para todos. Esta não é fruto do engenhohumano, no afã de suas conquistas bélicas, mas procede daquele Deus cujoprincípio é a paz e a plenitude de vida para todos.É oportuno recordar o veredicto do estadista indiano Mahatma Gandhi:"O que se obtém com violência, somente se pode manter com violência". Issodeita por terra a falácia dos amantes da guerra: "Se queres a paz, prepara-tepara a guerra". A violência gera a violência, jamais a paz. A paz só tem umafonte: o Príncipe da Paz, Jesus!A índole de governos militarizados, experimentada pelas nações pagãse, às vezes, copiada pelos governantes do povo de Deus, é uma afronta aopróprio Deus e à sua justiça. A crítica profética aos modelos dos governos18. Schwantes. Milton, idem. idem, p. 100.19. Schwantes, Milton, idem. idem, p. 98.
  44. 44. A CIDADE NA BíBLIA SOB A L6GICA DO PODER 47totalitários é uma advertência severa para que o povo de Deus busque em açõesnão-violentas os caminhos capazes de conduzir à prosperidade e à paz social.Israel, no passado, a exemplo dos povos periféricos de nossos dias sabecontar histórias de horror sofridas pela opressão militar, política, econômicaou religiosa.Jesus propõe uma outra maneira de lidar com o poder. Governar nãoé dominar sobre outras pessoas, mas exercer uma liderança serviçal (Mt20.24-28). Essa liderança tem seu foco e culminância na promoção da pazsocial (Rm 13.1-7). O comprometimento com o Reino de Deus se efetiva noexercício da cidadania em cada comunidade na qual os filhos e filhas de Deusse congregam.2.8 Babilônia: símbolo e realidadeA Babilônia, no Antigo Testamento, e a Roma, no Novo Testamento,simbolizam a cidade como centro de poder militarizado, cruel, cheia de todainjustiça, idolatria e violência.Contra elas são dirigidos os veementes anúncios do juízo de Deus. Osprofetas vêem Babel, desde a sua origem (Gn 11.1-9), como produto do gêniohumano no afã de dominar sobre seus semelhantes à revelia da justiça do Deuseterno.Ao se referir ao mal que habita na cidade, o missionário urbano emissiólogo Robert Linthicum constata que: "O mal de uma cidade é compostopor engrandecimento pessoal, auto-indulgência, injustiça social e idolatria".20Ele habita a mente dos governantes e, simultaneamente, perpassa e toma-sevisível nos sistemas da cidade: economia, religião e política. Via de regra, asautoridades estão a serviço de um sistema e não o contrário. Um exemplo dissoé o que acontece do sistema capitalista de nossos dias: o capital tem absolutaproeminência sobre os governantes ou autoridades dos estados-nações. Iludem-se os que pensam que a eleição democrática de um presidente da repúblicatrará uma mudança fundamental no sistema econômico de uma nação.Babilônia simboliza a capital de um sistema opressor e idolátrico,inimigo de Deus, dos homens e da natureza. Nela o imperador, sua corte e seusfuncionários gozam de todas as benesses e privilégios a custo da dura servidãodos povos subjugados.O autor do livro de Apocalipse refere-se à cidade de Roma, de sua época,como encarnação da Babilônia, a grande Besta (Ap 13). Sua característica é a20. Línlhícum, Robert, 1993, p. 50ss.
  45. 45. 48 A CIDADE NA MISSÃO DE DEUSirracionalidade da sua violência, seu grande poder de intimidação e persuasão,o domínio sobre os reis da terra (ditadura), arrogância, blasfêmia, perversão eperseguição aos eleitos de Deus.Em outra parte, a cidade sanguinária é caracterizada como a grandemeretriz (Ap 17) detentora de toda autoridade de persuasão sobre as naçõesda terra. Ela exerce o domínio sobre os povos da terra pela sua força militar(armamento) e pelo comércio (mercado), e pela idolatria (prostituição).Ao considerar o anúncio profético da derrocada do império romano, ésintomática a reação dos grupos de pessoas que lamentaram a queda da grandeBabilônia:Quando os reis da terra, que se prostituiram com ela e participaram do seuluxo, virem a fumaça do seu incêndio, chorarão e se lamentarão por ela.(Ap 18.9)Os negociantes da terra chorarão e se lamentarão por causa dela, porqueninguém mais compra a sua mercadoria: artigos como ouro, prata, pedraspreciosas e pérolas; linho fino, púrpura, seda e tecido vermelho; todo tipode madeira de cedro e peças de marfim, madeira preciosa, bronze, ferro emármore... (Ap 18.11-13)Os grupos que lamentaram a queda da cidade e de seu mercado foram daclasse alta: os reis e os donos do mercado de artigos de alto luxo, armamentose escravos. A exemplo de Sodoma e Gomorra, a cidade violenta, idólatra eperversa não durará para sempre.Em contraste aos que lamentarão o fim do mercado universal, comandadopor um sistema centralizado, haverá grande júbilo dos que se alegrarão coma queda da Babilônia. Quem são estes? "Celebrem o que se deu com ela, Ócéus! Celebrem, Ó santos, apóstolos e profetas! Deus julgou, retribuindo-lhe oque ela fez a vocês ". (Ap 18.20).Observe-se bem o contraste: em Ap 18.9ss, enquanto os da elitedominante (reis da terra, os donos dos navios e os mercadores de mercadoriasde alto luxo) lamentam a ruína da grande cidade, há júbilo e exultação da partedos santos, apóstolos e profetas, porque o Senhor ouviu o seu clamor, julgousua causa e lhes concedeu o triunfo final.O projeto que se erguera pela violência, pela violência pereceu. Mas amensagem consoladora do Espírito Santo aponta para quem de fato governasobre céus e terra:Então vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eternopara proclamar aos que habitam na terra, a toda nação, tribo, língua e povo.Ele disse em alta voz: Temam a Deus e glorifiquem-no, pois chegou a horado seu juízo. Adorem aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das
  46. 46. ACIDADE NA BiBLlA SOB A LÓGICA DO PODER 49águas". Um segundo anjo o seguiu, dizendo: "Caiu! Caiu a grande Babilôniaque fez todas as nações beberem da fúria da sua prostituição!" (Ap 14.6-8)2.9 ConclusãoAo longo de toda a Bíblia, percebe-se que o Senhor Deus é o justojuiz sobre todos os governos humanos. As advertências, as exortações e osjuízos de sua Palavra voltam-se contra todos que atentam contra a dignidadehumana, a justiça e a paz social. Por isso, todos os governos, em suas maisvariadas estruturas, regimes e sistemas devem considerar que o único projetoque prospera, a longo prazo, é aquele que estiver construído sobre as bases dajustiça, eqüidade e da misericórdia (SI 72).O governante, qualquer que seja, antes de tudo, deveria deixar-segovernar pelo Senhor e pelo seu Espírito, porque, segundo os ensinos dasEscrituras, toda a autoridade (civil, militar, religiosa) é vocacionada para serserva de Deus a serviço da paz social (Rm 13.1-7).Embora todo o ser humano deva se submeter às autoridades constituídas,essa submissão não pode estar acima da vocação profética de vigiar, exortare alertar: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5.29).Nada justifica a opressão, nem a rebeldia sem causa. Todos os seres humanostêm uma vocação inalienável: cooperar na administração da boa criação deDeus.Os contornos sociológicos das instituições políticas e das organizaçõessociais são fruto do gênio humano. Deus mesmo lhes concedeu a liberdade ea criatividade para estruturar seu convívio comunitário. O exame do contextoda realidade, à luz da vontade de Deus, permite realizar as melhores escolhas.Assim como Moisés humildemente ouviu os conselhos de Jetro,sacerdote de Mídiã, porque julgou serem adequados ao bem de seu povo (Êx18), os filhos de Deus, na atualidade, podem valer-se da experiência bem-sucedida na história de outros povos. Podem adequar formas de governo e deliderança, desde que sejam caminhos pacíficos que promovam - baseados naliberdade e na justiça - a dignidade, a prosperidade e a paz social.O Espírito da profecia que deve nortear todo exercício da autoridadeseja esta de natureza política, social, militar, econômica ou religiosa, residenesta palavra: "Ele mostrou a você, Ó homem, o que é bom e o que o SENHORexige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seuDeus" (Mq 6.8).Viver na conflitividade social, tanto no passado como no presente,requer a busca por discernimento. Não é possível viver a vida cristã à parte da

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