Universidade Federal do Espírito Santo             Centro de Ciências Humanas e Naturais               Departamento de Lín...
Renata Oliveira BomfimUm olhar, sobre o conto machadiano “Vênus! Divina Vênus!”, à luz da onomástica.                     ...
Resumo:A onomástica tem sido objeto de estudo desde a antigüidade. Na atualidade é recursoprivilegiado na elaboração da es...
A onomástica na escrita machadiana.                           O nome é um signo polissêmico e hipersêmico, que oferece    ...
Memórias Póstumas de Brás Cubas. No conto em questão falaremos do triânguloconstituído a partir de Ricardo, jovem poeta e ...
De acordo com Antenor Nascentes (p.192), o nome de Maria é a transliteração emgrego do hebraico Maryam, mãe de amargura, m...
Nascentes (p.191), nos diz que Marcela tem origem latina e significa marcial. Tambémdesigna uma erva da flora brasileira q...
idealizado, o segundo é mina, com variados sentidos, pode designar tanto umdispositivo de guerra, algo explosivo, capaz de...
— Veja no espelho.Ricardo esperava pedi-la ao pai em casamento assim que fizesse dezessete anos, masVirgínia adoeceu “de m...
para além de dinheiro e títulos: “— Felismina! Exclamava ele. O nome dela há de ser achave de ouro. Rima com divina e cris...
são regressivas e estagnantes, Ricardo não conseguia externar seus sentimentos, essabatalha é um rito de passagem que todo...
Referências Bibliográficas:   1. ASSIS, Machado de. “Vênus! Divina Vênus!” Obra Completa, vol. II. Rio de      Janeiro: No...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Artigo onomástica vênus divina vênus

1.264 visualizações

Publicada em

OBra de Machado de Assis, escrito por Renata Bomfim

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.264
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
5
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
6
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Artigo onomástica vênus divina vênus

  1. 1. Universidade Federal do Espírito Santo Centro de Ciências Humanas e Naturais Departamento de Línguas e LetrasUm olhar sobre o conto machadiano “Vênus! Divina Vênus!”, à luz da onomástica. Renata Oliveira Bomfim Vitória, 2006.
  2. 2. Renata Oliveira BomfimUm olhar, sobre o conto machadiano “Vênus! Divina Vênus!”, à luz da onomástica. Artigo apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Letras do Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. À disciplina Literatura brasileira: textos canônicos, sob orientação do Professor Doutor Wilberth Salgueiro, no Curso de Mestrado em Estudos Literários. Vitória, 2006.
  3. 3. Resumo:A onomástica tem sido objeto de estudo desde a antigüidade. Na atualidade é recursoprivilegiado na elaboração da estrutura narrativa. O tema desempenha papelfundamental na obra de Machado de Assis e o jogo onomástico machadiano vai além,enriquecido pela ironia e ambigüidade que fascinam e convidam à decifração. Esteartigo pretende, tendo como guia os nomes próprios dos personagens do conto “Vênus!Divina Vênus”, analisar o papel que cada nome desempenha nos seus aspectospsicológico, social e religioso. Além da questão onomástica, serão utilizados como panode fundo para a análise do conto, o mito grego de “Eros e Psique” e a PsicologiaAnalítica de Carl Gustav Jung.Palavras-chave: onomástica, significado, mito, rito, Carl Gustav Jung, psicossocial.
  4. 4. A onomástica na escrita machadiana. O nome é um signo polissêmico e hipersêmico, que oferece várias camadas de semas e cuja leitura varia à medida que a narrativa se desenvolve e se desenrola. Não há mais um sentido único de leitura, mas uma decifração e recriação permanentes, feita de dedução e intuição, de sensibilidade e de exploração das diferentes possibilidades de atualização daquilo que é dito potencialmente pelo Nome. (Machado, 2003. p. 41)O termo onomástico, vem do grego antigo (ὀνομαστική), e significa ato de nomear, darnome.1 No Minidicionário da Língua Portuguesa, Silveira Bueno descreve o termo comorelativo a nomes ou explicação dos nomes próprios. Mas o estudo da onomásticaencontra registro desde a antiguidade, em Crátilo, de Platão, já se discutia a natureza e ajusteza dos nomes. Na escrita machadiana, a onomástica é recurso privilegiado, osnomes condensam variadas possibilidades de sentidos e ambigüidades.Hellen Caldwel em “O que há num nome?”, aborda a questão onomástica na obra deMachado, ela seleciona nomes em variadas obras estudando-lhes os significados ecorrelacionando-os com personalidades da história e da literatura. Para esta autora,Machado não nomeia seus personagens ao acaso e um estudo de seus romances e contosrevela sua destreza nesta matéria (p.55). Variados recursos onomásticos são utilizadospor Machado como, por exemplo, o emprego de sobrenomes portugueses que remetema figuras importantes dos primórdios do Brasil colonial, e os prenomes que remontamao calendário dos santos, como se espera de um país católico.O conto “Vênus! Divina Vênus!”, publicado em Obra Completa vol. II, embora não sejaum dos contos mais conhecidos de Machado de Assis, aproxima- se de outras obras apartir de alguns nomes e temáticas que aborda. Este artigo pretende, lançar um olharsobre os personagens centrais do referido conto, à luz da onomástica, assim como sobrea trama que se desenrola a partir da inter- relação dos mesmos, desvelandocaracterísticas psicológicas e sociais embutidas nos nomes.Podemos encontrar o tema do triangulo amoroso em variadas obras de Machado, algunscélebres como: o casal Sofia, Cristiano Palha, e Rubião, em Quincas Borba; BentoSantiago, Capitu e Escobar em Dom Casmurro e Virgília, Lobo Neves e Brás Cubas em1 http://pt.wikipedia.org/wiki/Onom%C3%A1stica
  5. 5. Memórias Póstumas de Brás Cubas. No conto em questão falaremos do triânguloconstituído a partir de Ricardo, jovem poeta e herói da história, de Maria dos Anjos, suamãe, que abomina a idéia de uma nora, pois o quer só para si e, e das jovens pelas quaisRicardo se apaixona as quais ele compara a Vênus de Milo.Outro tema é a questão da divisão entre classes, em que Machado recria o mundocarioca, denunciando uma sociedade pautada em títulos e apadrinhamentos. Esteaspecto pode ser percebido logo no início do conto, quando Machado descreve asituação social e financeira da família, assim como, no preconceito por parte de Mariados Anjos, mãe de Ricardo, em relação à Marcela, primeira paixão do rapaz: “Ela é filhade doutor, não há de querer lavar nem engomar”, e de Ricardo que, quando aconselhadopela mãe a se casar com Felismina, sua prima, lhe diz: “— Ora, mamãe! Felismina! —Não é rica, é pobre...” Marcela casa-se com Maciel, um jovem médico e tenor baiano eVirgínia, a quem Ricardo pretende pedir em casamento, é filha de um tabelião e casa-secom o bacharel Vieira. No decorrer da história percebe-se a jornada de Ricardo, embusca de um outro lugar social, a partir da identidade que lhe é possível, a de poeta,visto que não possui padrinhos ou títulos.Segundo Antenor Nascentes (1952, p.261), Ricardo é um prenome de origensgermânica que combina os elementos “rik” (significando rei, príncipe, senhor ou rico)e hardo (significando príncipe, senhor forte) e, portanto, pode ser interpretado comoforte comandante. Ricardo é também prenome de inúmeras personalidades da história,como por exemplo, os reis da Inglaterra Ricardo I, Ricardo II e Ricardo III e RicardoCoração de Leão. A origem germânica do nome Ricardo enuncia sua linhagem guerreirae conquistadora. Neste ponto, a genialidade de Machado aguça-se e ele utiliza o nomede modo inverso e irônico. Inicialmente, Ricardo não reflete a força de seu nome, ele édescrito como um jovem sonhador, vaidoso e acomodado, que não luta por aquilo quedeseja, incapaz de vencer a própria timidez. No dito popular a etimologia do nome seretifica, é costume chamar de Ricardão o homem que “rouba” ou “seduz” a mulher deum outro.A história deste conto encontra paralelo no mito grego de “Cupido e Psique” inseridono romance Metamorfoses do escritor latino Lúcio Apuleio (p.209). Segundo JunitoBrandão de Sousa, etimologicamente em grego, Psique significa princípio vital, sopro,é igualmente a alma personificada (pág. 209). Cupido geralmente é representadoalegoricamente como um menino alado e sem responsabilidades, ferindo a uns e aoutros com suas flechas inflamadas, e sempre disposto a cumprir os desejo e caprichosde sua mãe Vênus.
  6. 6. De acordo com Antenor Nascentes (p.192), o nome de Maria é a transliteração emgrego do hebraico Maryam, mãe de amargura, mar amargo, princesa do mar, é o nomeda mãe de Jesus de Nazaré, que segundo a tradição cristã gerou virgem, sem aimplicação do ato sexual. Já não tendo um homem a quem pertencer, Maria fica aoencargo “dos anjos”, criaturas celestiais e assexuadas, fazendo jus ao seu nome. Muitoembora seja dos anjos, ela não é um anjo de candura, busca manipular e manter o filhosob seu domínio e tutela. Essa poderosa grande mãe abomina a idéia de partilhar o amordo filho com outra pessoa, ela quer o filho só para si.No romance Dom Casmurro, encontramos uma outra Maria, Maria da Glória. Estaconsagra Bentinho, seu filho, à igreja antes mesmo de ter nascido, e tenta obrigá-loseguir a vida de seminarista contra vontade. Segundo Luiz Alberto Pinheiro de Freitas,em Capitolina, a que ama no lugar do outro, Bento foi criado para ser padre, o quesignificava em tese, para não ter mulher, ou seja, a única mulher da sua vida seria suamãe.No nosso conto, há a predominância do domínio materno e Ricardo que, “já não tempai”, fica desprovido de uma imagem masculina a quem referenciar- se, sua referência éfeminina, ou seja, é sua mãe e também é Vênus. E inspirado por esta imagem elemantém- se em seu quarto, empenhado em sonhar com o amor e a escrever versos: “Sãosete e meia da manhã, e ele está escrevendo desde as sete horas”.Embora seja filho de Maria dos Anjos, cuja madrinha é ninguém menos que NossaSenhora, Ricardo é um pagão, um adorador de Vênus, neste aspecto, fiel à origemgermânica do seu nome.Maria dos Anjos, não aprova os arroubos poéticos do filho, à sua escrita ela chama“malditos versos”, sente-se ameaçada, pois os versos são o passaporte o qual Ricardoconsegue inserção em outros espaços e grupos sociais.O conto se passa no ano de 1859 no bairro dos Cajueiros, Rio de Janeiro, é domingo2 eMaria dos Anjos vai à missa, deixa o café pronto para filho e recomenda que este otome antes que esfrie.A primeira moça por quem Ricardo se apaixona e para quem ele escreve versos, masnão tem coragem de entregar, chama-se Marcela. O nome de Marcela, segundo Antenor2 A palavra é originária do latim Dies Dominica, que significa "Dia do Senhor".
  7. 7. Nascentes (p.191), nos diz que Marcela tem origem latina e significa marcial. Tambémdesigna uma erva da flora brasileira que tem propriedades calmantes, mas não é este oefeito que a moça exerce sobre o rapaz. Neste ponto do texto inscreve-se uma questãotambém recorrente nas figuras femininas machadianas, a vaidade e a sedução. Ciente deseus encantos e de seu poder de atração, Marcela conclama Ricardo a exaltar sua beleza,o seduz, mas sem nada prometer: “Marcela perguntou-lhe logo com os olhos do costume: — Que tal me acha? — Linda, angélica, respondeu Ricardo pelo mesmo idioma”.Para Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, em “Sofia, metade gente e metade cobra” (pág.111), ao nosso Machado não escapam as questões referentes às disputas narcísicas entreos homens e mulheres. Segundo o autor a sedução implica utilizar todos os meios parafazer com que o admirador se encante cada vez mais, que se entregue a uma admiraçãosem quartel, que fique avassalado ao outro (p.108).A vaidade feminina e a sedução marcam outros personagens como: Genoveva, do conto“Noites de Almirante”, Marcela, do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, Sofia,do romance Quincas Borba, entre outras.A devota mãe confessa a Ricardo ter rezado por ele na missa, e pedido a Nossa Senhora,sua madrinha, que acabasse sua paixão por “aquela moça”. Nesta passagem além deafirmar seu grau de intimidade, quase parentesco com a Santa, Maria dos Anjos reza,não para que o filho seja feliz, mas para que seu desejo prevaleça sobre o do filho. Aideologia dominante da época machadiana mostra o casamento como meta dasmulheres, percebemos aqui mais uma inversão, é Ricardo quem busca casar-se.Ao perceber o desejo do filho, Maria dos Anjos lhe escolhe uma noiva. Sugere que sejauma moça do seu nível social e parecida com ela, sua prima Felismina. Ricardo ficasurpreso com a idéia da mãe, e utiliza o nome da prima como principal motivo que adesqualifica para o papel de sua esposa: “basta-lhe o nome; é difícil achar outro tãoridículo. Felismina!”. Para Ricardo, Felismina é o oposto de Marcela, enquanto aprimeira “é um anjo”, a outra “é prosaica, tem o nariz comprido e os ombros estreitos,sem graça; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e fala arrastado. Parece daroça”.Segundo Nascentes (p.110), o nome Felismina está relacionado a feliz, assim comoresulta da junção de dois outros, o primeiro um adjetivo, feliz, que é sinônimo dealegria, prazer, júbilo, contentamento e representa um sentimento humano, não
  8. 8. idealizado, o segundo é mina, com variados sentidos, pode designar tanto umdispositivo de guerra, algo explosivo, capaz de abalar e fragmentar estruturas sólidas, epor outro lado, significa um local rico em minerais, jazida, ou mina d’água.Num dos recitais na casa do Dr. Viana, pai de Marcela, Ricardo é surpreendido com anotícia do noivado desta com um jovem médico e tenor baiano, Maciel, segundo ele “odiabo”. O nome Maciel, segundo Nascentes (p.183), nos diz que tem origem latina esignifica tanto cortesão, pessoa de alta categoria social, homem da corte, quantopovoação de Portugal. Este “diabo” a que Ricardo se refere, pode também ser associadoa serpente que da macieira convence Eva a provar o fruto proibido, deflagrando opecado original. É também a serpente o símbolo da medicina. Este personagem mostraestar em consonância com o significado de seu nome, pois, soube cortejar Marcelaadequadamente. “Não foi logo para casa; vagou uma hora ou mais, entre o desânimo e o furor, falando alto, jurando esquecê-la, desprezá-la. No dia seguinte, almoçou mal, trabalhou mal, jantou mal, e trancou-se no quarto, à noite. A consolação única eram os versos, que achava lindos. Releu-os com amor. E a musa deu-lhe a força d’alma que a aventura de domingo lhe tirara”.Refeito com ajuda da Vênus de Milo, Ricardo entrega-se novamente à paixão: Amorcura amor. Todas tiveram a mesma madrinha — Vênus! Vênus! Divina Vênus!Agora, estava enamorado de Virgínia, cujo nome para Nascentes (p.317), significajovem não casada, virgem. Ricardo deseja “penetrar-lhe a casa”, apresenta-se comopoeta ao pai da moça, um tabelião amante de fábulas: Ricardo aturou toda essa rabugice do notário, para o fim de ser admitido em casa dele — cousa fácil, porque o pai de Virgínia tinha algumas fábulas antigas e outras inéditas e poucos ouvintes do ofício, ou verdadeiramente nenhum.Ricardo não se declarou diretamente para Virgínia, mas dava-lhe “versos àsescondidas”, a moça guardava, depois os lia e agradecia. Muito mimosos, dizia sempre. — Eu fui apenas secretário da musa, respondeu ele uma vez; os versos foram ditados por ela. Conhece a musa? — Não.
  9. 9. — Veja no espelho.Ricardo esperava pedi-la ao pai em casamento assim que fizesse dezessete anos, masVirgínia adoeceu “de moléstia grave”, ficando entre a vida e a morte, e foi para a casada madrinha na Tijuca para recuperar-se. Lá, apaixona-se pelo sobrinho de suamadrinha, o bacharel Vieira, recém chegado de São Paulo. Vieira, para Nascentes(p.388), é um sobrenome de origem geográfica, ou topônimo, sob este aspecto, trata-sede um outro fidalgo, mas Vieira também designa o nome de um molusco acéfalo, cujaconcha os romeiros usavam como insígnia, no chapéu3.Esta nova desilusão atordoou completamente o rapaz que quase quebrou a Vênus deMilo, jurou não fazer mais versos e acabar com mulheres e musas: “Que eram musassenão mulheres?” Nesta parte do conto, percebe-se que a partir desta desilusão amorosa,Ricardo passa a ser menos fantasioso e pautar sua vida na realidade, primeiro passo paraa vida adulta. Contou à mãe sobre sua decisão, sem entrar em pormenores, e a mãe depronto aprovou.Logo após estes acontecimentos ele fica sabendo que a sua prima se casaria. Maria dosAnjos volta à cena, pedindo ao rapaz colaboração em dinheiro para comprar um“presentinho” para a noiva. Ele atende a solicitação e pergunta para a mãe com quemFelismina irá se casar, a mãe lhe responde que será “com um moço da Estrada deFerro”.Nosso herói, amadurecido pelas experiências, à medida que se apropria do seu desejo,toma posse também do significado do seu nome, e como um guerreiro germano, umSiegfried, lança mão de uma estratégia para conquistar Felismina. Faz amizade com onoivo, é agora um guerreiro com sentimentos, com alma, Ricardo passa a ter ciúmes daprima e não gosta que o noivo desta o chame de primo.Ele passa a sonhar com Felismina e a figura da prima passa a persegui-lo. Agora,fazendo jus ao nome, Ricardo dá continuidade ao seu plano, e parte para a conquista desua felicidade. Aproveitando a viagem do noivo ele vai visitar Felismina todas as noitese percebe que algo nele se modifica: “os olhos falavam, os braços, as mãos, um diálogoperpétuo, não espiritual, não filosófico, um diálogo fisiológico e familiar”.É um despertar, seu poema agora está no corpo, Felismina não é mais uma imagemidealizada de mulher, ela é real. É a mina que explode e revela a Ricardo uma riqueza3 PRIBERAM- Dicionário de língua portuguesa on-line:http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx
  10. 10. para além de dinheiro e títulos: “— Felismina! Exclamava ele. O nome dela há de ser achave de ouro. Rima com divina e cristalina”.Familiaridade e pertencimento passam a fazer parte do universo de Ricardo, Felisminapode ser associada à Psique, personagem do mito grego, que a partir de sua humanidadedesencadeia uma série de transformações na família olímpica, humaniza os deuses e sediviniza, Cupido deixa de ser o “filhinho da mamãe” e passa a ser responsável por suavida.Quando ao paixonado, Ricardo: “sonhou que pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano”. “Viu-a sem braços. Acordando de manhã, olhou para a Vênus de Milo”: — Vênus! Vênus! divina Vênus!”.Num dos trechos do mito grego, Psique é levada para um rochedo onde pensa que secasará com um monstro, não sabe que este monstro é Cupido, que ao tentar atingi-lacom sua flecha se feriu ficando perdidamente apaixonado por ela. Nesse ponto do mitocomeça a história do casal, quando terão que administrar a relação com Vênus, assimcomo perdas e ganhos além de pagar um preço pela realização amorosa.Desta vez Ricardo declara o seu amor a Felismina, que já o amava. Maria dos Anjos,sabendo que o filho desposaria a prima, pede-lhe explicações, afinal, a moça estavaprometida a um outro, ela reprova a atitude do filho, e cobra que o contrato sejamantido. Ricardo lhe diz que não há explicações e os primos se casam. Ricardo “eratodo para a realidade do amor”.O conto nos relata que Ricardo conservou a Vênus de Milo, apesar da modéstia deFelismina: “E tu, criança amada, tão divina. Não és cópia da Vênus celebrada. És antesseu modelo, Felismina”. “Deixou de poetar”, apesar dos protestos de seus admiradores:“Então você não faz mais versos? — Não se pode fazer tudo, respondeu Ricardo,acariciando os seus cinco filhos”.Numa metáfora percebe-se no conto o tema arquetípico da luta do herói para separar-seda grande mãe. O surgimento da individualidade implica não somente deixar a infânciapara trás, mas também enfrentar e combater as forças do mundo e de nós mesmos que
  11. 11. são regressivas e estagnantes, Ricardo não conseguia externar seus sentimentos, essabatalha é um rito de passagem que todo jovem deve enfrentar.Este tema foi interpretado psicologicamente pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jungcomo um paradigma da diferenciação do ego do inconsciente, traduz esforços paraseparar a individualidade de uma pessoa de várias identificações. A primeiraidentificação da criança é com a mãe. O pai é figura importante para que o filho sesepare de sua identificação inicial para com a mãe e para que adquira a identidademasculina. Nos ritos de iniciação das comunidades primitivas quando o jovem atinge apuberdade é separado da mãe, que ritualmente pranteia seu filho como se estivessemorto, enquanto o garoto é isolado entre os homens por meses ou anos quando passapor provações (p. 110).A sociedade moderna ocidental é pobre em ritos que propiciem a maturação psíquicados indivíduos, assim torna-se duplamente heróico o processo de passagem para a idadeadulta. Ricardo ao fim do conto, provou ser digno de seu nome, lutou e pôde tomarposse de uma grande riqueza, a sua individualidade. Jung denominou a este processo dediferenciação psicológica individuação.Este conto reflete a destreza de Machado de Assis no campo da onomástica, assim comorevela que a interpretação e a análise de sua obra dificilmente se esgotarão.
  12. 12. Referências Bibliográficas: 1. ASSIS, Machado de. “Vênus! Divina Vênus!” Obra Completa, vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. 2. BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol II. Ed. 10, Petrópolis - Rio de Janeiro. Editora Vozes: 1999. 3. BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. Ed. rev. e atual. Helena Bonito C. Pereira, Rena Signer. São Paulo: FTD:LISA, 1996. 4. CALDWELL, Helen. “O que há num nome?”. O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Tradução: Fábio Fonseca de Melo. Rio de Janeiro: Ateliê Editorial. 2002. 5. FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. “Capitolina, a que ama no lugar do outro”. Freud e machado de Assis - Uma interseção entre psicanálise e literatura. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2001. 6. NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa: Rio de Janeiro: São José, 1952. 7. NUPILL: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística. http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/divinavenus.htm 8. PLATÃO. “Crátilo”. In Teeteto-Crátilo. Ed 3, Belém: EDUFPA, 2001 9. PRIBERAM- Dicionário de Língua Portuguesa On- line: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx 10. STEINBERG, Warren. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana. São Paulo: Cultrix. 1995.

×