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Título Original: Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
© Copyright 2016 by Waldemar Valença Pereira
Todos os direitos desta edição reservados ao autor. Proibida a repro-
dução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, com finalidade
de comercialização ou aproveitamento de lucro ou vantagens, com ob-
servância da Lei de regência. Poderá ser reproduzido texto, entre aspas,
desde que haja clara menção do nome da autora, título da obra, edição
e paginação. A violação dos direitos do autor (Lei nº 9.610/98) é crime
estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.
Capa e Diagramação		Editoração
Joselito Miranda		ArtNer Comunicação
Revisão		Impressão
Val Valença		Infographics Gráfica e Editora
Ilustrações
Cacique Zé Coice, João Divino e Danieluiz
Printed in Brazil / Impresso no Brasil
Editora ArtNer Comunicação
CNPJ 13.844.466/0001-15
Tel.: (79) 99131-7653
Pereira, Waldemar Valença.
P436p Pé de maconha- che cannabis nas andanças da ciência. /Waldemar
Valença Pereira. - Aracaju: ArtNer Comunicação, 2016.
300p. : Il.
ISBN:
1.Prosa Sergipana 2.Poesia Sergipana
I - Título
CDU:821.134.3(813.7) - 1
Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária: Jane Guimarães Vasconcelos Santos CRB-5/975
978-85-69567-14-1
Waldemar Valença Pereira
2016
Aracaju-SE
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Parte 01
Che Cannabis e
o pé de maconha
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
| 19 |
Capítulo I
C
he Cannabis sou eu mesmo, muito prazer!
Agora eu vou escrevendo e você me lendo, enquanto eu
ouço AlfaRudá tocar e cantar aquela música.
Há uma música que existe no silêncio da natureza de dentro
de cada pessoa, mesmo daquelas que não cantam nunca, mas a
minha sinfonia de pedras e a da banda musical AlfaRudá devem
ser provenientes de Deus.
Eu hoje sou calado, preso, mas resolvi me contar todinho aqui
pra vocês. Vamos logo ao assunto?
Primeiramente, eu penso assim:
— Sem Deus, nada feito. Pra chegar ao topo da ladeira, ralou...
Sim, e diz por aí que a pessoa leva a vida inteira. Veja lá: a ladeira
sem topo é de matar, então não subiremos que nem cegos pelo
topo ou tipo surdos da sinfonia divina que está nas paredes
cavernosas: Lascoux.
Eu sou chato no que penso. Complexo. Ah, isso sou mesmo, é o
que dizem de mim. Sei lá, mas eu prefiro ser chato mesmo! Tem
tanta gente sem gostar de leitura no meu país e eu um crítico sem
atitude? Por quê? Eu estudei tanto pra romper esse paradigma.
No meu passado, eu rasguei minhas “Veias poéticas”, numa escola
verdemente particular de ensino básico, que não estava nem aí
Waldemar Valença Pereira
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pra mim. Agora vou dar a volta por cima e despejar o amor de
bandeja sobre o “Meu pé de maconha”. Conto já. Antes, eu quero
revelar algo para você, que me acompanha nessa leitura épica,
apenas, duas palavrinhas:
Eu escrevo esta linha, em prol do maconheiro que há em mim
e de um outro que me lê, seja mulher ou adolescente, seja homem
machista e inconsequente. Em prol de seu amor e de você que curte
umprogramaculturalnatelevisão,seforsobrealeituradeumaobra
literária. A outra coisa é que eu escrevo este livro para provar, em
carne viva, sobre os benefícios que a maconha (uma erva medicinal
milenar, nomeada cientificamente de Cannabis Sativa) pode trazer
para nossa sociedade brasileira, infelizmente, desinformada.
Será que um dia eu darei palestras sobre tudo isso?
Che Cannabis liderando a revolução
nas informações contidas, na
Bula 01, 02 e 03, nas últimas
páginas. Esqueçam-me, é
uma ordem! Lá, nas Bulas,
você constatará que muitos
pesquisadores dos Estados
Unidos da América me
inspiraram nesse troço:
— Ave, Xis Conrado! O
“Hemp” tornou-se vital.
Foi lendo Xis e outras
pessoas que aprendi,
ligeirinho, que não basta
você ler. É preciso viver o
que se está lendo, ou a droga
da leitura não faz efeito
na cabeça. Você sabia que
nonada é um ler por ler? É
o que eu digo, inspirado em
Porfavor,leitoresmeus,pulem
a leitura deste livro e se jogem
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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Guimarães Rosa: eu não me privo de conhecer a filosofia de Jean
Paul Sartre no português.
Me entrego às moscas, pulo do muro às cavernas.
Mas isso não vem ao nosso caso. Eu nunca que conheci meu
lado existencialista.
Nunca que eu soube de ser tão estudioso na vida.
Vou me entupir de filosofia: destino ou presságio?
Fazia leituras de estudante, na escola, e o conhecimento,
nos anos 90, era um zigue-zague pra mim, feito uma rede social
manipulada com telefone celular.
Eu me desdobrava, transormando-me em hiperlink da
amizade. Eu, Che Cannabis, sou virtualmente brasileiro e herói
dessa gente toda que ama a maconha de mansinho. Nossa erva
ou droga proibidíssima e criticadíssima, tornou-se um remédio
industrializado e agora fica difícil se fechar os ollhos pra ciência e
repetir pra sociedade que maconha faz mal. In God we trust...
A minha coisa é ser o herói maconheiro de nossa gente
brasileira, mas fui convocado para ser do povo todo.
Havia nativos da Amazônia e da África que esperavam muito por
mim. Mais ou menos assim: um dia de verão, um garoto cresceria
pra ser o grande Che Cannabis, em carne e osso, em carne viva, e
o mundo todo saberia ainda mais sobre os efeitos da maconha em
curto, médio ou longo prazo.
Os efeitos de se fumar uma erva estão consagrados na história
das revistas científicas. Se a maconha falasse, me diria mais ou
menos assim:
— Ave, Che Cannabis. Eu sou a vida! Faço bem até para quem
não gosta de mim. Publique isso: “Cheguei atrasada, e já é século
XXI no Brasil”. E publique mais: “Cheguei afobada pra sair do
silêncio da caverna de Lascoux”. Agora lascou: sabia?
Como a maconha nada pode falar, é uma mulher que nada
consta, eu sinto que o filósofo Socrátes e, também o Platão,
Waldemar Valença Pereira
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sorriem de mim e de minha ignorância. No mito da caverna me
observo, de fora pra dentro, solicitando-me urgentemente novas
interpretações sobre a verdade. A mais pura verdade é que a
maconha faz bem pra saúde, mas não faz bem para a saúde de
todo mundo, sem exceção.
É claro! A maconha serve pra inúmeras coisas, gera emprego,
cria rendas familiares, e a sociedade brasileira precisa saber do
bem que ela nos faz. Eu, Che Cannabis, hoje sou rico de saúde,
mesmo dentro da prisão da morte.
Hoje, posso escrever sobre a luta que é vencer uma depressão
com a ajuda da leitura e da maconha. Aliás, maconha na cadeia é
remédio, os guardas prisionais costumam ficar calados, quando
sentiam o cheiro vindo da cela 021: era café e cannabis. É só não
fumar na frente deles, dizia-me o bom senso.
Eu vivo nas cavernas do planeta Terra, desenhando maconha
na parede da minha cela 021 e aprendi a caçar minhas primeiras
palavras para este livro, só depois da lua cheia.
A história da maconha tem mais de cinco mil anos, só na mente
e nem sequer uma morte por overdose.
“Maconha não mata, apenas cura”, soa uma voz fraterna dentro
de mim. Vá comer a raiz? Se você comer a raiz, você morre, não
faça isso. Eu não entendo tanta gente lutando para destruir a ideia
de plantarmos maconha nos quintais do Brasil. A gente vai perder
a liberdade de viver com mais saúde, vamos deixar de criar mais
empregos. O Brasil há de ser o grande Uruguai em breve.
Precisamos economizar muito mais dinheiro com os remédios.
De legalizarmos as drogas, todas elas, no Brasil, é preciso ser
muito macho-fêmea. Ter uma natureza filho da mãe. O Brasil,
liberando as drogas todas, irá ganhar muito dinheiro, para lutar
contra crises financeiras. Ou será que uma droga não é uma arma
poderosa e, sendo arma letal, precisa ser controlada de perto?
Liberando, a gente vai ver quem é traficante e quem é usuário.
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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O traficante é um usurpador, mas é meu amigo. O governo deveria
saber que faz bem cuidar bem do usuário de drogas, vê-lo como
uma pessoa capaz de virar um leitor de livros impressos e digitais.
Será que meu povo sabe que os norte-americanos criaram um
banco (de dinheiro), para gerenciar o lucro dos plantadores de
maconha? E a gente aqui parado!
Será que nossa gente sabe que maconha se come, maconha se
fuma, maconha se faz roupa, maconha se faz lubrificante sexual,
maconha serve pra fazer papel, maconha serve pra cabelo,
maconha miniminiza a câimbra, serve pra o ouvido e para os olhos
com glaucoma?
Eu sou o herói rebelde que fuma e preciso resgatar o povo da
ignorância. Eu vou sair da minha caverna e fazer feito Zaratrusta.
Na verdade, eu sou um Platão às avessas e sou de dar água na boca.
Che Cannabis via Bob Marley
Na feira, indago sobre onde
está a verdade:
— Então alguém já morreu
de overdose de tanto fumar
maconha? E agora? A maconha
faz bem, e só o álcool é liberado?
A verdade é Deus ser a favor
da maconha. A maconha foi
dizimada? E agora? Esquerda
ou direita não existem mais?
Não há mais em cima, nem
embaixo? Foi Deus que me fez
um herói verde escuro de fome.
Essa fome é do desejo de ir bem
além e desmascarar algo nas
pessoas, daqui da feira, que
têm mil preconceitos contra a
maconha. Elas e suas mesmas
ideias infundadas que, sem
estudosérioalienam,repetindo:
Waldemar Valença Pereira
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— A maconha faz mal ao cérebro, oh seu Zé Coitado!
Ao que respondo de cabeça erguida:
— Eu tenho medo da sua ignorância, Doutor! Oh, seu doutor,
não me leve a mal.
Leitor, não me leve a mal. Eu sou sim de dar também no Deserto
e no Sertão, habito em estufas de ideias, se preciso for. A minha
luta é contra certos doutores que mandam e desmandam no país.
O povo ainda, depois do Golpe de 64, até hoje, vive alienado. O
povo é meu amigo, mas o Doutor me inveja. Careta, sem estudo
científico, o Doutor manipula o povo brasileiro e diz em redes
nacionais e internacionais de televisão e internet:
— Você, Che Cannabis, é um aberração da natureza!
— Eu não. Nunca faço mal ao cérebro, simplesmente, por ousar
falar bem da maconha. Não me trate como um terrorista, Doutor.
Já você e sua ignorância faz um grande mal à saúde da população
brasileira. A vida sem você, Doutor, é a melhor coisa que há no
mundo: no mínimo, a maconha é garantida!
— Todo bom estudioso da área da medicina ou da saúde
concordará com o avanço da pesquisa científica, Doutor. Você
parece que anda no mundo da lua, sem pagar imposto. A gente não
come às suas custas, Doutor. Oh, meu querido, agora vou dizer tudo:
a maconha é remédio e ainda gera dinheiro pro povo e pro governo.
E completo: você é de dar gastura com seu preconceito, Doutor!
— What, little boy, da cannabis?
— Bush Doctor, larga de ser baixo astral. Maluco, o povo há de
saber que o capital provoca o desemprego, e isso pra você parece
tão normal, mas pra mim nunca que é, ou seja, não é não. O capital
que vocês não querem dividir com o povo brasileiro é do próprio
povo e vem sendo acumulado nas receitas das multinacionais e nos
bolsos dos latifúndios, que é pra piorar. É o mesmo capital de giro
que provoca o desemprego e uma recessão dos diabos, minha gente!
E prossegui meu discurso “d’meio d’feira”:
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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— Salve a ignorância ou, então, a falta de assunto, Bush Doctor.
Eu não sou professor de Economia, mas de Língua Portuguesa.
Agora, vê se larga do meu pé. Vê se larga do “Meu pé de maconha”,
seu doutor escravocrata.
E, Bush Doctor me deixando em paz, acho bom voltar a narrar
a minha façanha de ser um maconheiro que, na vida pública, deu
uma de herói e virou pó entre o cinza e o branco. Depois de mim,
sua consciência há de permanecer limpa e sua boca seca.
É né, fazer o quê! Você sabe: risos e fome são sintomas de um
maconheiro. Em mim dá vontade de ler, escrever e cantar, ao som
do violão, de uma guitarra, baixo, bateria e percussão.
Agora que estou preso, eu consegui parar e assistir mais
a televisão e ler a Bíblia Sagrada. Era uma forma de me cuidar,
me drogar de ideias, e eles permitiam e o Brasil ficava todo-tudo
por isso mesmo. Foi aí que a minha cidade brasileira saiu de
cara, ontem, no Jornal National e eu me senti gente boa por isso,
importante. Não devia, nem um pouco, sem internet, assistir ao
National, e não me sentir dopado de informações sensacionalistas.
Sem saída, eu me universalizei no sensacionalismo. Mil vezes fosse
na internet, eu desejaria reler a notícia de jornal. Aquele jornal
podia revelar de onde eu era. Qual era o nome desse quintal da
Bahia de onde eu fui gerado ou germinado?
Depois do National, tornei-me globalizado e poderia agora,
então, após o noticiário, ficar me sentindo demasiadamente
humano, feito Nietzsche em fim de feira. Eu tinha uma informação
bombástica: a maconha faz bem à saúde nos Estados Unidos da
América. Agora seria a vez do Brasil, mas desta vez, liberaríamos
todas as drogas, antes que eles votem a lei liberando só a maconha,
assim como manda o figurino.
Daríamos um passo à frente da corja que patrocina a morte de
pessoas sem que, nem por quê e chama isso de guerra contra o
narcotráfico.
Waldemar Valença Pereira
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Acabaríamos com os baculejos, pois a droga seria liberada no
jornal. A gente ia mesmo era atrás de prender políticos e policiais
corruptos, funcionários públicos em peculatos, assassinos e
ladrões, estupradores... Lista sem fim?
Receberíamos permissão de comprar e vender drogas, só por
possuir a cidadania brasileira; a maconha plantaríamos em larga
escala, por ser divinamente saudável e recreativa.
Eu não tenho medo das drogas, ou do ser drogado, tanto
quanto do ser humano sem comida: desse eu morro de medo,
dá um frio na barriga, um arrepio na espinha dorsal. Tem gente
que é sem carinho, mas a sociedade acha que a solução é proibir
o uso de drogas ou plantas. Sem carinho, sem comida, vendo os
próprios filhos passarem fome. Se fosse eu, faria algo sem precisar
de drogas. O problema é que eu a mendigar, o povo a me mandar
trabalhalhar, e vem as coisas trágicas, independente das drogas
que eu uso. Eu sou esquizofrênico de carteirinha e tenho vontade
de ver a gente todinha do planeta se dando bem.
— Impossível!
— Quem é você?
— Eu sou Deus, Che Cannabis. Eu vim em forma de remédio
THC.
— Deus, e o que faríamos com as drogas sintetizadas em
laboratório?
— A planta da coca liberaríamos, seria a grande alternativa
para os que não conseguem usar a cocaína, sem aborrecer o resto
da sociedade.
Deus sumiu. Era Deus nada: ou era um espírito maconheiro
querendo fazer contato do além-sonhos, ou era a minha
esquizofrenia me puxando pra diversão.
Pensei novamente no Jornal National. Aquele jornal televisivo,
naquele dia em que falaram da minha cidade, eu assistindo ao vivo
sem internet, vi que passou uma manchete de ampla importância
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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para o povo brasileiro: “Políticos corruptos no Brasil roubaram
seis milhões de URD (Unidade Real de Desvalor), através do
mundo virtual”.
A ignorância é pior que tudo! Eu via e nada fazia, a não ser
pensar em escrever um dia um livro sobre a minha ignorância de
ver tudo e nada com nada dizer ou resolver. Chegou o dia! Eu hei
de te revelar meu preconceito todo:
— A pessoa que usa maconha e gosta de leitura, torna-se um
maconheiro dos meus!
Se você não sabia, fique sabendo agora: sou muito dado, por isso
o herói, que é herói, se precisar salvar, recupera até o inimigo que
morrerá no perigo. Salva sim, salva mesmo, que é pra demonstrar a
honradeserumheróiépico.Eusouumheróiépicobemmaconheiro.
Vivo da ciência de ser um professor de letramentos.
Queria ensinar mesmo era Linguagem. Sinto-me até preparado,
mas hoje não. Estou preso neste livro. Em breve, eu hei de me
libertar, exibir-me despido de discurso. Eu sou assim versátil até
morrer.
Até o final desta história, que é autobiográfica, terá uma reunião
dos deuses antigos a interceder por mim, facilitando a publicação
deste livro plantado.
Eu imagino Deus em tudo. A história do “sem Deus, nada feito”
cabe na ideia do herói ser salvo por Hermes ou por Eros, diante de
Zeus, o deus dos deuses, e diante de Perséfone, a rainha da morte
que habita o meu Hades. De lá ninguém volta, a não ser Psiquê.
Volta, mas não volta: vira deusa!
Agora, nesta parte do livro, eu hei de assumir toda a verdade de
ser leigo, de não saber namorar de jeito nenhum, nenhum.
Falo namorar sério: eu não sei o que é isso.
Só sei o que é namorar ao vento.
Tenho dificuldades até hoje, mas isso desde quinze anos. Em
outras palavras, não quero dizer que fui donzelo. Quero revelar
Waldemar Valença Pereira
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apenas que, aos 23 anos de idade, por não saber namorar, eu virei
um pai. Eis o mistério da verdade: eu não estava nem pronto, nem
qualificado pra carreira paterna. Nem até hoje, preso e com o lado
pai gradeado.
— Onde puseram meu Auxílio Reclusão, Doutor?
O presidente me garantiu que o servidor público seria
respeitado em sua gestão. Era uma retórica.
Voltando ao assunto, ser pai exige um salário mínimo, e no
mínimo isso. Um salário mínimo da Dinamarca, Holanda, Rússia,
Canadá, Inglaterra, Estados Unidos da América e por aí vai: o do
Brasil é um crime.
Como ser pai, se os meus pais nunca foram meus pais de
verdade, no amor e na educação? Cresci torto. Papai e mamãe,
casados há trinta e dois anos, foram os pais mais caretas do
planeta. Eram brasileiros e religiosos. Sabiam de amor ao próximo
e sabiam que, por nunca ter a vez na vida, eles eram sempre os
próximos. Achavam-se dignos de amor, mas não sabiam amar o
seu filho.
Eu, sendo pai, agora eu poderia fazer mil diferenças. Está em
mim isso tudo: afinal de contas, eu prefiro ser etéreo (ou estéril),
a ser um átomo derradeiro de diamante valioso com um alto risco
de fazer o espelho da madame cair no pó. Vou revelar uma coisa
chata: pra cantar no tom sempre me fugiu o dom e, por isso, virei
professor-alfabetizador de presos, no Castelo da Morte, a cadeia
pública de meu Deus.
Entrei no trabalho de ser guarda aos 23 anos, pela porta da
frente na graça de Deus, filho da Deusa. O Castelo da Morte gelava
o ar da cela e do alojamento na madrugada. Virava ventilador e
ar-condicionado simultaneamente. Lá, eu atuei como um jovem
Guarda Prisional, até os 33 anos. No início da carreira, penetrando
aquele Hades pela porta da frente, me dei de cara com o Diabo
dando ordens a todos abaixo de Deus e Deusa.
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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	 O Castelo da Morte em vigor
O Diabo trabalha lá na portaria. O capeta tem farda e cassetete,
arma de fogo e spray de pimenta. O Arcanjo Gabriel, vitalício
Secretário Executivo e Geral da Justiça de Deus, investiu na
indrumendária do Dito-cujo.
OSatanáséumvigiaquecarregaumabombadegáslacrimogêneo
e uma outra de efeito moral, com recursos oriundos da divina
providência. Depois, se precisar, ele usa a sua faca de abrir bucho
de gente maconheira sem-vergonha, segundo seu linguajar. Sua
missão é arrancar informações de detentos no Castelo da Morte.
Eita Diabo que condena o povo brasileiro!
Sua sentença repetida por mais de mil anos, no Apocalipse,
é de tirar o fôlego na prisão do Castelo da Morte. Com o hálito
fora do prazo de validade, o Capeta teorizava feito um filósofo de
televisão na cadeia e repetia sempre a ensinar os novatos guardas:
— Democracia é o inferno, e o Brasil é o paraíso.
Waldemar Valença Pereira
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Certa vez, o Diabo avistou o carro da polícia chegando vazio do
trabalho e ordenou aos seus funcionários:
— Filhos de Deus, vão trabalhar... A polícia aqui não incomoda
o nosso infinito Senhor Deus, nem no Castelo da Morte. Vieram
pedir favor? Incrédulos! Só se for por cima do fogo de toda a
Legião de mal-aventurados servidores.
Dizem que Deus mora nos piores lugares, eu não sei. Se ele não
mora lá, nas cadeias públicas brasileiras, ao menos faz visita que
é pra saber quem vai preso e quem fica sempre servidor. A polícia
quer sempre estar com Deus, mas esquece de trazer o ladrão vivo
e humilha o cidadão brasileiro, por fumar uma erva resinosa,
mesmo sabendo que é contra a lei federal maltratar um usuário.
Eu fico besta! A Besta Fera reza pra Deus, Che Cannabis também.
Eu em Deus e a Besta Fera perfura-me: almas felinas!
Viva o mundo imaginário! Viva o imaginário do mundo.
Saibam todos os conservadores que fumar maconha é real de
saudável pra muita gente, com algumas exceções. Foi por isso
que, paradoxalmente, o carro da polícia deu meia volta e partiu
à procura de um próximo baculejo. À procura de uma quantidade
ínfima de maconha no bolso de algum jovem sem dinheiro do
bom, sem estudo do bom, sem parentesco do bom: um sujeito que
faz comércio de avião em avião e um dia chega lá flutuando! A
Embraer é fichinha. No tráfico de drogas, o avião leva e trás a coisa
pra o usuário fazer uso medicinal, inconsciente ou não, e andar
solto no mundo, sem passaporte com hora de chegada.
Outra coisa, desculpe-me os termos de baixo escalão, mas
confesso: avião é quem se fode no baculejo.
O usuário também apanha, mesmo que seja crítico.
A polícia encontra-se presa à ideia de morte no Brasil. Enquanto
isso, a coisa toda das drogas faz enorme sucesso por aqui. Inclusive,
a farmácia anda cheia, o bar anda cheio, o supermercado vende
coca-cola e doces, em atacado, e as drogas continuam existindo...
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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O Brasil tem outra Embraer e fabrica outros tipos de aviões,
só que montados na surdina da corrupção e do tráfico de drogas.
Deus nos proteja dos assassinos, vilões, e dos homens que não
estudaram e estão com fome.
Sou leigo pra estudo e pra namoro, mas se a garota amar a
leitura, há de ser uma maconheira das minhas. Eu topo! Não
importa, se a beleza de fora amadurecer cedo demais, em relação
à beleza de dentro.
Eu amo a pessoa por dentro do mapa que faço da pessoa que
amo. Se a pessoa amar ler, então ela há de ler o meu silêncio e
iremos conversar de tudo um pouco.
Deve até ser coincidência, o fato de eu morrer talvez solteiro,
porque eu não ando por aí de jeito nenhum de salto alto: “só se foi
porque morreu cedo”, vão dizer sobre mim. Mudando de assunto,
o meu sonho era ter nascido transsexual, só que infelizmente, me
fiz entre lá e cá, sem ser de lá, nem de cá. Sei de tudo que eles
falam de mim, mas ignoro a minha escolha sexual, em nome do
amor hermafrodita.
Viva a solidão dos guerreiros! Sou dado às baratas, guerreiro
na leitura de Kafka. Sou entregue às baratas todas da vida. Mesmo
assim, fui crescendo em periferia e sem usar drogas até jovem. Por
outro lado, usei um pouco de tudo na adolescência. Conclusão: o
álcool me fez uma eterna criança e na maconha, virei professor.
E antes? Ah, antes eu sempre fui sadio de dar uma gastura em
minha família toda. Minha mãe e meu pai disseram-me, quando eu
completei dezoito anos:
— Menino, seu traste, me trate logo de arredar o pé daqui de
casa. — era a voz da mamãe.
E papai emendou:
— Ontem eu soube que você pensou que o mundo tem volta.
Raspa daqui pra caçar emprego, abestado!
Eu mesmo insisto em dizer, que personagem de cinema era eu,
Waldemar Valença Pereira
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e que, apesar de minha família e minha sociedade conservadora
duvidar de eu ser um bom sujeito, só porque usei da erva
resinosa fumada, durante anos, preciso dizer que até hoje sou
plantado no chão.
Encarcero-me diante do paradigma: “maconha é uma droga”.
Eu aprendi que maconha é um remédio eficaz. Por que é seu uso
proibido? Respondo agora, leitor:
— Safadeza de gente mesquinha!
Por isso, eu clamo urgentemente:
— Maconheiros, uni-vos!
Eu, construindo uma ponte entre a lógica e a maconha
medicinal, me faço etéreo, feito de Hidrogênio e capaz de explosão,
numa completa ácidez de ideologia como Karl Marx e a Bomba H.
E, se morrer faz parte da coisa de viver, então vamos esquecer
disso um pouco e pensar que o Hidrogênio encontrou dois
Oxigênios e deu vida à vida. Triângulo amoroso. Paradoxal? Nada
de Bomba H, né?
Respondo a mim mesmo:
— Nenada!
Pausa pra pensar no esmo de mim e de Vós Mercê. Continuo
filosofando sobre a legalização da maconha e meu círculo é
vicioso, minha narrativa parece não ser.
A verdade é longe da explicação da verdade, sabia? O sagrado
é perto do longe da verdade, mas ainda não é a verdade. Fico
pensando nisso, mas é sem proveito: Se verdade, não mais sagrado.
Além do mais, a ciência é perto da verdade toda. Se verdade, ainda
mais ciência.
Na verdade, eu vos digo que esses átomos de Hidrogênio e
Oxigênio, em orgias profundas, realizaram um triângulo amoroso
vital: o famoso dois em um.
Salve a inteligência humana, quando ela estiver livre de
paradigmas, de prisões e de mil coisas. É certo que a mente do
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
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ser humano há de fluir melhor, quando a maconha for liberada.
Não tenho dúvidas disso. A gente passa a pensar direito sobre
os fatos de que maconha é uma planta, ou erva medicinal, e que
faz sua mente pensar e repensar nas coisas da vida. Sua mente
transcende.
Nada de alucinações no efeito da maconha...
E no haxixe, pergunte a Baudelaire. Eu queria mesmo era agora
poder ver as coisas além da minha esquizofrenia e do meu senso
comum.
Salve a natureza das combinações químicas e sua lógica de
elaborar a maconha de uma semente dióica, o que significa que a
cannabis sativa tem sua sexualidade altamente desenvolvida, com
duas flores completamente separadas, dois gêneros distintos:
fêmea e macho.
Para cada pé de cânhamo macho, outro fêmea, né lindo? A
lindíssima e robusta maconha é uma fêmea que nos leva a ampliar
um horizonte de perspectivas, através da ação direta do THC e
do CBD em nosso cérebro: me tornei hermafrodita. Melhores
explicações encontram-se nas Bulas informativos neste livro.
Inclusive, elaborei tais Bulas com o auxílio de um livro que fala
tudo sobre a maconha. O livro era uma metonímia de Xis Conrado.
Na verdade, minha esquizofrênia, em língua portuguesa, recriou o
tal professor. Xis é o livro de Conrado. Ele fala comigo, e o livro que
amamos, torna-se o nosso melhor amigo.
Uns amam livros sagrados; outros, livros profanos. Eu amo
livros de literatura, filosofia e ciência... Mas, como o livro de Xis
Conrado passou a ser a minha Bíblia Sagrada, eu o personifiquei,
pra ver se colava. Parafraseei-me do livro “Hemp: o uso medicinal e
nutricional e recreativo da maconha”. Vi naquele livro tudo aquilo
que poderia representar um ótimo aprendizado pra juventude do
meu país. Dezenas de revistas tematizaram a maconha, repetindo
Xis Conrado no bagulho de expôr ideias.
Waldemar Valença Pereira
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Já me dizia o meu professor imaginário Xis Conrado, quando eu
fumava maconha, lendo-o:
— Eu, Che Cannabis, sou mais que um livro para tua
esquizofrenia. Eu me fiz na ciência que faz tua cabeça.
Bem na sala de aula, que é o livro, Conrado conversava comigo
sobre o real perigo de fumar maconha, caso liberem o uso
medicinal e recreativo dela no Brasil:
— O fumo da maconha, Che Cannabis, contém componentes
que provocam pequenas lesões temporárias no revestimento dos
pulmões e que cicatrizam rapidamente, sem efeitos demonstrados
a longo prazo.
— Sério?
— Não existem evidências de que tal dano levará o ser humano
ao câncer.
— Câncer de pulmão, Xis?
— Sim, Che Cannabis. No entanto, o bom senso indica cautela.
Por exemplo, Che: já foi provado mais de uma vez que fumar,
demasiadamente, aumenta a possibilidade de o ser humano
contrair bronquite. E digo mais, esse risco aumenta em áreas que
possuem uma quantidade maior de ar poluído.
— Sem dúvidas, Xis!
Xis Conrado prosseguiu me ensinando:
— Se isso acontecer a você, o tratamento é simples: pare de
fumar, e o problema irá embora. Afinal de contas, Che Cannabis,
os danos superficiais que a fumaça da maconha causam ao
pulmão humano estão limitados à larga passagem de ar, e não aos
brônquios e alvéolos mais frágeis.
— E o auxílio do aerossol pode ser usado, Xis?
— Infelizmente, Che, os aerossóis se mostraram irritantes e
caíram em desuso.
— E agora, Conrado, quem poderá nos defender?
— Se um paciente tem bronquite, efisema ou qualquer outro
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
| 35 |
problema pulmonar, provavelmente não é uma boa ideia fumar
qualquer coisa, nem mesmo a cannabis. Entretanto, um novo
dispositivo de inalação, conhecido como vaporizador, esquenta a
cannabis ao ponto em que sua essência é liberada na forma de
vapor e lançada antes que a planta comece a queimar.
— Isso oferece novas e excitantes possibilidades num
tratamento, né, professor?
— Exatamente, Che Cannabis!
Apaguei a minha erva resinosa fumada e concluí que a maconha
é bem mais que uma simples questão de opinião. A maconha
é uma química natural e divina do amor à vida. Precisamos
conhecê-la cientificamente e entender, no mínimo, algumas de
suas substâncias benéficas à saúde da população mundial.
Saiba que o pai genético da maconha chama-se Amor de Deus:
tão grande amor mostra-se capaz de nos levar um dia à prisão, né?
O amor faz loucura. Às vezes, fica desmiolado todo.
Eu hoje sou heterossexual das ideias práticas e teóricas, e
ando convicto de amar o Feminismo. Convencido de amor à
humanidade, eu seria mulher, e seria homem, simultaneamente
e respectivamente, só que Deus não quis fazer uma graça dessa
comigo. A outras pessoas, Deus concede até o dom da beleza ou o
dom artístico. Pra mim, Deus mandou foi uma harmonia de viver no
improviso, sem dinheiro. Eu gostei, foi desafio divino. Inteligente de
tanto fumar maconha, fiquei sem graça de morrer derrotado e não
deixar sequer um livro meu, autobiográfico e científico, que fosse!
Gregório de Matos eu virei com papéis avulsos em prosa e verso.
Em 2004, eu fui um professor de presos dentro de uma cadeia e,
ao mesmo tempo, um Guarda do Sistema Prisional. Saiba que em
minha vida toda, cultivei o grande enigma: o sucesso desafiador de
amar Deus, por sentir pavor do Diabo, eis o mistério. Ser Guarda
Prisional e Professor. Libertar, prender: não necessariamente
nessa mesma ordem. E, hoje, sobretudo, fiz a maior questão de me
Waldemar Valença Pereira
| 36 |
consolidar como um eterno maconheiro, publicando-me, cheio
de ideias extrovertidas e proibidas, e, assim, me conciliar com
as amizades saudosistas que tive na universidade, na cadeia e na
família e nas amizades.
Sou filho único e, como se isso não bastasse, eu dei desgosto aos
meus pais: estudava pouco, meu negócio era o futebol. No futebol,
meu prêmio único: pagar os estudos. Mudando de assunto, não
gosto de pesadelos, mas transo com eles de vez em quando, de
quando em vez... Vou contar um agora que é pra você saber que
maconheiro também é gente. Eu sei que você consegue: of course
que é claro!
Meu primeiro dia de trabalho como Guarda Prisional, no
Castelo da Morte, foi de pesadelos e eu fiquei mal com isso. Quase
desisto de ser guarda e não haveria história agora, ao menos não
desse jeito. Numa escala de trabalho de vinte e quatro horas, a
gente dormia uma horinha, no alojamento, pra recuperar o brio.
Foi assim que lá eu sonhei com o portão da cadeia aberto. Achei
que tinha a ver com aquela música do Gilberto Gil, que o Tony
Garrido, do Cidade Negra, cantam juntos: “Extra”. Talvez naquele
dia o que eu vi na cadeia foi o suficiente para enlouquecer: eu vi os
presos fugirem, assassinando guardas feito frangos de açougue.
Durante a vigília, na vida real, o Diabo nos conduziu para
aprendermos o serviço de guarda no ambiente do Castelo. Era ano
de 2003, fim de dezembro. Meu primeiro dia de Natal na cadeia
pública: função de guarda. Nem revólver eu tinha. O dia era de
ressaca, por causa de uma tentativa frustada de motim. Rolou até
tiro, pau e pedra na mãos dos presos. Nesse lugar, morriam dois a
três presos por mês.
Naquele dia, os guardas e alguns presos acompanhavam o
carrinho de mão supercarregado de suco artificial e almoço. Era
meu primeiro dia, quando eu fui pegar uma quentinha de almoço,
para entregar na mão de um dos condenados, o Diabo retrucou:
Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência
| 37 |
— Larga isso, rapaz! Aqui o guarda não é babá de preso. Fica
ligado, oh meu!
Fiquei sem cor. Ligado, ardendo de pensamentos sobre a lógica
de cumprir o meu trabalho. Um guarda não serve um condenado?
Não serve ou não é assim no Brasil quase todo. Entendi que estava
no inferno, sem respostas.
Resolvida a incógnita pela desistência, dou prosseguimento
ao “Meu pé de maconha” plantado na mente dos brasileiros por
mim aqui e agora, feito jornalismo: Che Cannabis nas andanças da
ciência.
Observe que vivem muito mais anos de felicidade, caso vingem
na vida, os que amam as ideias plantadas cheias de paixão, adubo
e de amizade. Soube aqui na cadeia também que o aprendizado
que eu curti e compartilhei, ao viver engaiolado, girava em torno
da malandragem e do analfabetismo sem e-mail.
Envolto na escola da cadeia pública, precisei de um ano para
alfabetizar presos, separados ou juntos, e pensei que poderia
deixar a função de Guarda e prosseguir lá pelas tantas como
professor, fazendo leituras de mundo como ensinava o Paulo
Freire. E isso se deu no meu terceiro dia de serviço: antes, durante
e depois dos pesadelos. Afinal, durante dez anos de Guarda
Prisional, morei sozinho e encarei ser professor de homens e
mulheres condenadas pela Justiça. Me desenhei alfabetizador de
assassinos, estrupadores e traficantes. Havia de tudo um pouco!
Não obstante, vou plantar aqui a minha grande ideia polêmica do
“Meu pé de maconha”, pela qual tenho apego e adubo.
Nenada! A coisa é profunda feito uma semente de nostalgia.
Há em mim vontade de escrever uma música inédita todo dia,
mas não chego nem perto. Na verdade, eu vim aqui pra me xingar.
Nome disso: autobiografia crítica.
Sei mais mentir do que criticar, na vida, e decidi agora dizer
toda hora pra pessoas que me criticam: Nenada! Não há nada e
Waldemar Valença Pereira
| 38 |
nem tenho algo de nada a esconder de Vossa Mercê. Certifique-se
de que eu, Che Cannabis, na Marcha da Maconha, em breve contigo
estarei me exibindo. Hoje não dá, como cantava Renato Russo. Sei
que habito no escuro desta cela 021: nenada!
Ficou-me a certeza de que o dia de sol nascerá prematuramente
quadrado e, sob um eclipse fulminante, me libertarei no círculo
vicioso do Castelo da Morte. Livre, hei de expelir com o sol da
liberdade, através de um brilho Fiat lux no meu latim vulgar.
Veja só que coisa!

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Che Cannabis e o pé de maconha

  • 1. Título Original: Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência © Copyright 2016 by Waldemar Valença Pereira Todos os direitos desta edição reservados ao autor. Proibida a repro- dução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, com finalidade de comercialização ou aproveitamento de lucro ou vantagens, com ob- servância da Lei de regência. Poderá ser reproduzido texto, entre aspas, desde que haja clara menção do nome da autora, título da obra, edição e paginação. A violação dos direitos do autor (Lei nº 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Capa e Diagramação Editoração Joselito Miranda ArtNer Comunicação Revisão Impressão Val Valença Infographics Gráfica e Editora Ilustrações Cacique Zé Coice, João Divino e Danieluiz Printed in Brazil / Impresso no Brasil Editora ArtNer Comunicação CNPJ 13.844.466/0001-15 Tel.: (79) 99131-7653 Pereira, Waldemar Valença. P436p Pé de maconha- che cannabis nas andanças da ciência. /Waldemar Valença Pereira. - Aracaju: ArtNer Comunicação, 2016. 300p. : Il. ISBN: 1.Prosa Sergipana 2.Poesia Sergipana I - Título CDU:821.134.3(813.7) - 1 Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária: Jane Guimarães Vasconcelos Santos CRB-5/975 978-85-69567-14-1
  • 3. | 17 | Parte 01 Che Cannabis e o pé de maconha
  • 4. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 19 | Capítulo I C he Cannabis sou eu mesmo, muito prazer! Agora eu vou escrevendo e você me lendo, enquanto eu ouço AlfaRudá tocar e cantar aquela música. Há uma música que existe no silêncio da natureza de dentro de cada pessoa, mesmo daquelas que não cantam nunca, mas a minha sinfonia de pedras e a da banda musical AlfaRudá devem ser provenientes de Deus. Eu hoje sou calado, preso, mas resolvi me contar todinho aqui pra vocês. Vamos logo ao assunto? Primeiramente, eu penso assim: — Sem Deus, nada feito. Pra chegar ao topo da ladeira, ralou... Sim, e diz por aí que a pessoa leva a vida inteira. Veja lá: a ladeira sem topo é de matar, então não subiremos que nem cegos pelo topo ou tipo surdos da sinfonia divina que está nas paredes cavernosas: Lascoux. Eu sou chato no que penso. Complexo. Ah, isso sou mesmo, é o que dizem de mim. Sei lá, mas eu prefiro ser chato mesmo! Tem tanta gente sem gostar de leitura no meu país e eu um crítico sem atitude? Por quê? Eu estudei tanto pra romper esse paradigma. No meu passado, eu rasguei minhas “Veias poéticas”, numa escola verdemente particular de ensino básico, que não estava nem aí
  • 5. Waldemar Valença Pereira | 20 | pra mim. Agora vou dar a volta por cima e despejar o amor de bandeja sobre o “Meu pé de maconha”. Conto já. Antes, eu quero revelar algo para você, que me acompanha nessa leitura épica, apenas, duas palavrinhas: Eu escrevo esta linha, em prol do maconheiro que há em mim e de um outro que me lê, seja mulher ou adolescente, seja homem machista e inconsequente. Em prol de seu amor e de você que curte umprogramaculturalnatelevisão,seforsobrealeituradeumaobra literária. A outra coisa é que eu escrevo este livro para provar, em carne viva, sobre os benefícios que a maconha (uma erva medicinal milenar, nomeada cientificamente de Cannabis Sativa) pode trazer para nossa sociedade brasileira, infelizmente, desinformada. Será que um dia eu darei palestras sobre tudo isso? Che Cannabis liderando a revolução nas informações contidas, na Bula 01, 02 e 03, nas últimas páginas. Esqueçam-me, é uma ordem! Lá, nas Bulas, você constatará que muitos pesquisadores dos Estados Unidos da América me inspiraram nesse troço: — Ave, Xis Conrado! O “Hemp” tornou-se vital. Foi lendo Xis e outras pessoas que aprendi, ligeirinho, que não basta você ler. É preciso viver o que se está lendo, ou a droga da leitura não faz efeito na cabeça. Você sabia que nonada é um ler por ler? É o que eu digo, inspirado em Porfavor,leitoresmeus,pulem a leitura deste livro e se jogem
  • 6. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 21 | Guimarães Rosa: eu não me privo de conhecer a filosofia de Jean Paul Sartre no português. Me entrego às moscas, pulo do muro às cavernas. Mas isso não vem ao nosso caso. Eu nunca que conheci meu lado existencialista. Nunca que eu soube de ser tão estudioso na vida. Vou me entupir de filosofia: destino ou presságio? Fazia leituras de estudante, na escola, e o conhecimento, nos anos 90, era um zigue-zague pra mim, feito uma rede social manipulada com telefone celular. Eu me desdobrava, transormando-me em hiperlink da amizade. Eu, Che Cannabis, sou virtualmente brasileiro e herói dessa gente toda que ama a maconha de mansinho. Nossa erva ou droga proibidíssima e criticadíssima, tornou-se um remédio industrializado e agora fica difícil se fechar os ollhos pra ciência e repetir pra sociedade que maconha faz mal. In God we trust... A minha coisa é ser o herói maconheiro de nossa gente brasileira, mas fui convocado para ser do povo todo. Havia nativos da Amazônia e da África que esperavam muito por mim. Mais ou menos assim: um dia de verão, um garoto cresceria pra ser o grande Che Cannabis, em carne e osso, em carne viva, e o mundo todo saberia ainda mais sobre os efeitos da maconha em curto, médio ou longo prazo. Os efeitos de se fumar uma erva estão consagrados na história das revistas científicas. Se a maconha falasse, me diria mais ou menos assim: — Ave, Che Cannabis. Eu sou a vida! Faço bem até para quem não gosta de mim. Publique isso: “Cheguei atrasada, e já é século XXI no Brasil”. E publique mais: “Cheguei afobada pra sair do silêncio da caverna de Lascoux”. Agora lascou: sabia? Como a maconha nada pode falar, é uma mulher que nada consta, eu sinto que o filósofo Socrátes e, também o Platão,
  • 7. Waldemar Valença Pereira | 22 | sorriem de mim e de minha ignorância. No mito da caverna me observo, de fora pra dentro, solicitando-me urgentemente novas interpretações sobre a verdade. A mais pura verdade é que a maconha faz bem pra saúde, mas não faz bem para a saúde de todo mundo, sem exceção. É claro! A maconha serve pra inúmeras coisas, gera emprego, cria rendas familiares, e a sociedade brasileira precisa saber do bem que ela nos faz. Eu, Che Cannabis, hoje sou rico de saúde, mesmo dentro da prisão da morte. Hoje, posso escrever sobre a luta que é vencer uma depressão com a ajuda da leitura e da maconha. Aliás, maconha na cadeia é remédio, os guardas prisionais costumam ficar calados, quando sentiam o cheiro vindo da cela 021: era café e cannabis. É só não fumar na frente deles, dizia-me o bom senso. Eu vivo nas cavernas do planeta Terra, desenhando maconha na parede da minha cela 021 e aprendi a caçar minhas primeiras palavras para este livro, só depois da lua cheia. A história da maconha tem mais de cinco mil anos, só na mente e nem sequer uma morte por overdose. “Maconha não mata, apenas cura”, soa uma voz fraterna dentro de mim. Vá comer a raiz? Se você comer a raiz, você morre, não faça isso. Eu não entendo tanta gente lutando para destruir a ideia de plantarmos maconha nos quintais do Brasil. A gente vai perder a liberdade de viver com mais saúde, vamos deixar de criar mais empregos. O Brasil há de ser o grande Uruguai em breve. Precisamos economizar muito mais dinheiro com os remédios. De legalizarmos as drogas, todas elas, no Brasil, é preciso ser muito macho-fêmea. Ter uma natureza filho da mãe. O Brasil, liberando as drogas todas, irá ganhar muito dinheiro, para lutar contra crises financeiras. Ou será que uma droga não é uma arma poderosa e, sendo arma letal, precisa ser controlada de perto? Liberando, a gente vai ver quem é traficante e quem é usuário.
  • 8. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 23 | O traficante é um usurpador, mas é meu amigo. O governo deveria saber que faz bem cuidar bem do usuário de drogas, vê-lo como uma pessoa capaz de virar um leitor de livros impressos e digitais. Será que meu povo sabe que os norte-americanos criaram um banco (de dinheiro), para gerenciar o lucro dos plantadores de maconha? E a gente aqui parado! Será que nossa gente sabe que maconha se come, maconha se fuma, maconha se faz roupa, maconha se faz lubrificante sexual, maconha serve pra fazer papel, maconha serve pra cabelo, maconha miniminiza a câimbra, serve pra o ouvido e para os olhos com glaucoma? Eu sou o herói rebelde que fuma e preciso resgatar o povo da ignorância. Eu vou sair da minha caverna e fazer feito Zaratrusta. Na verdade, eu sou um Platão às avessas e sou de dar água na boca. Che Cannabis via Bob Marley Na feira, indago sobre onde está a verdade: — Então alguém já morreu de overdose de tanto fumar maconha? E agora? A maconha faz bem, e só o álcool é liberado? A verdade é Deus ser a favor da maconha. A maconha foi dizimada? E agora? Esquerda ou direita não existem mais? Não há mais em cima, nem embaixo? Foi Deus que me fez um herói verde escuro de fome. Essa fome é do desejo de ir bem além e desmascarar algo nas pessoas, daqui da feira, que têm mil preconceitos contra a maconha. Elas e suas mesmas ideias infundadas que, sem estudosérioalienam,repetindo:
  • 9. Waldemar Valença Pereira | 24 | — A maconha faz mal ao cérebro, oh seu Zé Coitado! Ao que respondo de cabeça erguida: — Eu tenho medo da sua ignorância, Doutor! Oh, seu doutor, não me leve a mal. Leitor, não me leve a mal. Eu sou sim de dar também no Deserto e no Sertão, habito em estufas de ideias, se preciso for. A minha luta é contra certos doutores que mandam e desmandam no país. O povo ainda, depois do Golpe de 64, até hoje, vive alienado. O povo é meu amigo, mas o Doutor me inveja. Careta, sem estudo científico, o Doutor manipula o povo brasileiro e diz em redes nacionais e internacionais de televisão e internet: — Você, Che Cannabis, é um aberração da natureza! — Eu não. Nunca faço mal ao cérebro, simplesmente, por ousar falar bem da maconha. Não me trate como um terrorista, Doutor. Já você e sua ignorância faz um grande mal à saúde da população brasileira. A vida sem você, Doutor, é a melhor coisa que há no mundo: no mínimo, a maconha é garantida! — Todo bom estudioso da área da medicina ou da saúde concordará com o avanço da pesquisa científica, Doutor. Você parece que anda no mundo da lua, sem pagar imposto. A gente não come às suas custas, Doutor. Oh, meu querido, agora vou dizer tudo: a maconha é remédio e ainda gera dinheiro pro povo e pro governo. E completo: você é de dar gastura com seu preconceito, Doutor! — What, little boy, da cannabis? — Bush Doctor, larga de ser baixo astral. Maluco, o povo há de saber que o capital provoca o desemprego, e isso pra você parece tão normal, mas pra mim nunca que é, ou seja, não é não. O capital que vocês não querem dividir com o povo brasileiro é do próprio povo e vem sendo acumulado nas receitas das multinacionais e nos bolsos dos latifúndios, que é pra piorar. É o mesmo capital de giro que provoca o desemprego e uma recessão dos diabos, minha gente! E prossegui meu discurso “d’meio d’feira”:
  • 10. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 25 | — Salve a ignorância ou, então, a falta de assunto, Bush Doctor. Eu não sou professor de Economia, mas de Língua Portuguesa. Agora, vê se larga do meu pé. Vê se larga do “Meu pé de maconha”, seu doutor escravocrata. E, Bush Doctor me deixando em paz, acho bom voltar a narrar a minha façanha de ser um maconheiro que, na vida pública, deu uma de herói e virou pó entre o cinza e o branco. Depois de mim, sua consciência há de permanecer limpa e sua boca seca. É né, fazer o quê! Você sabe: risos e fome são sintomas de um maconheiro. Em mim dá vontade de ler, escrever e cantar, ao som do violão, de uma guitarra, baixo, bateria e percussão. Agora que estou preso, eu consegui parar e assistir mais a televisão e ler a Bíblia Sagrada. Era uma forma de me cuidar, me drogar de ideias, e eles permitiam e o Brasil ficava todo-tudo por isso mesmo. Foi aí que a minha cidade brasileira saiu de cara, ontem, no Jornal National e eu me senti gente boa por isso, importante. Não devia, nem um pouco, sem internet, assistir ao National, e não me sentir dopado de informações sensacionalistas. Sem saída, eu me universalizei no sensacionalismo. Mil vezes fosse na internet, eu desejaria reler a notícia de jornal. Aquele jornal podia revelar de onde eu era. Qual era o nome desse quintal da Bahia de onde eu fui gerado ou germinado? Depois do National, tornei-me globalizado e poderia agora, então, após o noticiário, ficar me sentindo demasiadamente humano, feito Nietzsche em fim de feira. Eu tinha uma informação bombástica: a maconha faz bem à saúde nos Estados Unidos da América. Agora seria a vez do Brasil, mas desta vez, liberaríamos todas as drogas, antes que eles votem a lei liberando só a maconha, assim como manda o figurino. Daríamos um passo à frente da corja que patrocina a morte de pessoas sem que, nem por quê e chama isso de guerra contra o narcotráfico.
  • 11. Waldemar Valença Pereira | 26 | Acabaríamos com os baculejos, pois a droga seria liberada no jornal. A gente ia mesmo era atrás de prender políticos e policiais corruptos, funcionários públicos em peculatos, assassinos e ladrões, estupradores... Lista sem fim? Receberíamos permissão de comprar e vender drogas, só por possuir a cidadania brasileira; a maconha plantaríamos em larga escala, por ser divinamente saudável e recreativa. Eu não tenho medo das drogas, ou do ser drogado, tanto quanto do ser humano sem comida: desse eu morro de medo, dá um frio na barriga, um arrepio na espinha dorsal. Tem gente que é sem carinho, mas a sociedade acha que a solução é proibir o uso de drogas ou plantas. Sem carinho, sem comida, vendo os próprios filhos passarem fome. Se fosse eu, faria algo sem precisar de drogas. O problema é que eu a mendigar, o povo a me mandar trabalhalhar, e vem as coisas trágicas, independente das drogas que eu uso. Eu sou esquizofrênico de carteirinha e tenho vontade de ver a gente todinha do planeta se dando bem. — Impossível! — Quem é você? — Eu sou Deus, Che Cannabis. Eu vim em forma de remédio THC. — Deus, e o que faríamos com as drogas sintetizadas em laboratório? — A planta da coca liberaríamos, seria a grande alternativa para os que não conseguem usar a cocaína, sem aborrecer o resto da sociedade. Deus sumiu. Era Deus nada: ou era um espírito maconheiro querendo fazer contato do além-sonhos, ou era a minha esquizofrenia me puxando pra diversão. Pensei novamente no Jornal National. Aquele jornal televisivo, naquele dia em que falaram da minha cidade, eu assistindo ao vivo sem internet, vi que passou uma manchete de ampla importância
  • 12. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 27 | para o povo brasileiro: “Políticos corruptos no Brasil roubaram seis milhões de URD (Unidade Real de Desvalor), através do mundo virtual”. A ignorância é pior que tudo! Eu via e nada fazia, a não ser pensar em escrever um dia um livro sobre a minha ignorância de ver tudo e nada com nada dizer ou resolver. Chegou o dia! Eu hei de te revelar meu preconceito todo: — A pessoa que usa maconha e gosta de leitura, torna-se um maconheiro dos meus! Se você não sabia, fique sabendo agora: sou muito dado, por isso o herói, que é herói, se precisar salvar, recupera até o inimigo que morrerá no perigo. Salva sim, salva mesmo, que é pra demonstrar a honradeserumheróiépico.Eusouumheróiépicobemmaconheiro. Vivo da ciência de ser um professor de letramentos. Queria ensinar mesmo era Linguagem. Sinto-me até preparado, mas hoje não. Estou preso neste livro. Em breve, eu hei de me libertar, exibir-me despido de discurso. Eu sou assim versátil até morrer. Até o final desta história, que é autobiográfica, terá uma reunião dos deuses antigos a interceder por mim, facilitando a publicação deste livro plantado. Eu imagino Deus em tudo. A história do “sem Deus, nada feito” cabe na ideia do herói ser salvo por Hermes ou por Eros, diante de Zeus, o deus dos deuses, e diante de Perséfone, a rainha da morte que habita o meu Hades. De lá ninguém volta, a não ser Psiquê. Volta, mas não volta: vira deusa! Agora, nesta parte do livro, eu hei de assumir toda a verdade de ser leigo, de não saber namorar de jeito nenhum, nenhum. Falo namorar sério: eu não sei o que é isso. Só sei o que é namorar ao vento. Tenho dificuldades até hoje, mas isso desde quinze anos. Em outras palavras, não quero dizer que fui donzelo. Quero revelar
  • 13. Waldemar Valença Pereira | 28 | apenas que, aos 23 anos de idade, por não saber namorar, eu virei um pai. Eis o mistério da verdade: eu não estava nem pronto, nem qualificado pra carreira paterna. Nem até hoje, preso e com o lado pai gradeado. — Onde puseram meu Auxílio Reclusão, Doutor? O presidente me garantiu que o servidor público seria respeitado em sua gestão. Era uma retórica. Voltando ao assunto, ser pai exige um salário mínimo, e no mínimo isso. Um salário mínimo da Dinamarca, Holanda, Rússia, Canadá, Inglaterra, Estados Unidos da América e por aí vai: o do Brasil é um crime. Como ser pai, se os meus pais nunca foram meus pais de verdade, no amor e na educação? Cresci torto. Papai e mamãe, casados há trinta e dois anos, foram os pais mais caretas do planeta. Eram brasileiros e religiosos. Sabiam de amor ao próximo e sabiam que, por nunca ter a vez na vida, eles eram sempre os próximos. Achavam-se dignos de amor, mas não sabiam amar o seu filho. Eu, sendo pai, agora eu poderia fazer mil diferenças. Está em mim isso tudo: afinal de contas, eu prefiro ser etéreo (ou estéril), a ser um átomo derradeiro de diamante valioso com um alto risco de fazer o espelho da madame cair no pó. Vou revelar uma coisa chata: pra cantar no tom sempre me fugiu o dom e, por isso, virei professor-alfabetizador de presos, no Castelo da Morte, a cadeia pública de meu Deus. Entrei no trabalho de ser guarda aos 23 anos, pela porta da frente na graça de Deus, filho da Deusa. O Castelo da Morte gelava o ar da cela e do alojamento na madrugada. Virava ventilador e ar-condicionado simultaneamente. Lá, eu atuei como um jovem Guarda Prisional, até os 33 anos. No início da carreira, penetrando aquele Hades pela porta da frente, me dei de cara com o Diabo dando ordens a todos abaixo de Deus e Deusa.
  • 14. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 29 | O Castelo da Morte em vigor O Diabo trabalha lá na portaria. O capeta tem farda e cassetete, arma de fogo e spray de pimenta. O Arcanjo Gabriel, vitalício Secretário Executivo e Geral da Justiça de Deus, investiu na indrumendária do Dito-cujo. OSatanáséumvigiaquecarregaumabombadegáslacrimogêneo e uma outra de efeito moral, com recursos oriundos da divina providência. Depois, se precisar, ele usa a sua faca de abrir bucho de gente maconheira sem-vergonha, segundo seu linguajar. Sua missão é arrancar informações de detentos no Castelo da Morte. Eita Diabo que condena o povo brasileiro! Sua sentença repetida por mais de mil anos, no Apocalipse, é de tirar o fôlego na prisão do Castelo da Morte. Com o hálito fora do prazo de validade, o Capeta teorizava feito um filósofo de televisão na cadeia e repetia sempre a ensinar os novatos guardas: — Democracia é o inferno, e o Brasil é o paraíso.
  • 15. Waldemar Valença Pereira | 30 | Certa vez, o Diabo avistou o carro da polícia chegando vazio do trabalho e ordenou aos seus funcionários: — Filhos de Deus, vão trabalhar... A polícia aqui não incomoda o nosso infinito Senhor Deus, nem no Castelo da Morte. Vieram pedir favor? Incrédulos! Só se for por cima do fogo de toda a Legião de mal-aventurados servidores. Dizem que Deus mora nos piores lugares, eu não sei. Se ele não mora lá, nas cadeias públicas brasileiras, ao menos faz visita que é pra saber quem vai preso e quem fica sempre servidor. A polícia quer sempre estar com Deus, mas esquece de trazer o ladrão vivo e humilha o cidadão brasileiro, por fumar uma erva resinosa, mesmo sabendo que é contra a lei federal maltratar um usuário. Eu fico besta! A Besta Fera reza pra Deus, Che Cannabis também. Eu em Deus e a Besta Fera perfura-me: almas felinas! Viva o mundo imaginário! Viva o imaginário do mundo. Saibam todos os conservadores que fumar maconha é real de saudável pra muita gente, com algumas exceções. Foi por isso que, paradoxalmente, o carro da polícia deu meia volta e partiu à procura de um próximo baculejo. À procura de uma quantidade ínfima de maconha no bolso de algum jovem sem dinheiro do bom, sem estudo do bom, sem parentesco do bom: um sujeito que faz comércio de avião em avião e um dia chega lá flutuando! A Embraer é fichinha. No tráfico de drogas, o avião leva e trás a coisa pra o usuário fazer uso medicinal, inconsciente ou não, e andar solto no mundo, sem passaporte com hora de chegada. Outra coisa, desculpe-me os termos de baixo escalão, mas confesso: avião é quem se fode no baculejo. O usuário também apanha, mesmo que seja crítico. A polícia encontra-se presa à ideia de morte no Brasil. Enquanto isso, a coisa toda das drogas faz enorme sucesso por aqui. Inclusive, a farmácia anda cheia, o bar anda cheio, o supermercado vende coca-cola e doces, em atacado, e as drogas continuam existindo...
  • 16. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 31 | O Brasil tem outra Embraer e fabrica outros tipos de aviões, só que montados na surdina da corrupção e do tráfico de drogas. Deus nos proteja dos assassinos, vilões, e dos homens que não estudaram e estão com fome. Sou leigo pra estudo e pra namoro, mas se a garota amar a leitura, há de ser uma maconheira das minhas. Eu topo! Não importa, se a beleza de fora amadurecer cedo demais, em relação à beleza de dentro. Eu amo a pessoa por dentro do mapa que faço da pessoa que amo. Se a pessoa amar ler, então ela há de ler o meu silêncio e iremos conversar de tudo um pouco. Deve até ser coincidência, o fato de eu morrer talvez solteiro, porque eu não ando por aí de jeito nenhum de salto alto: “só se foi porque morreu cedo”, vão dizer sobre mim. Mudando de assunto, o meu sonho era ter nascido transsexual, só que infelizmente, me fiz entre lá e cá, sem ser de lá, nem de cá. Sei de tudo que eles falam de mim, mas ignoro a minha escolha sexual, em nome do amor hermafrodita. Viva a solidão dos guerreiros! Sou dado às baratas, guerreiro na leitura de Kafka. Sou entregue às baratas todas da vida. Mesmo assim, fui crescendo em periferia e sem usar drogas até jovem. Por outro lado, usei um pouco de tudo na adolescência. Conclusão: o álcool me fez uma eterna criança e na maconha, virei professor. E antes? Ah, antes eu sempre fui sadio de dar uma gastura em minha família toda. Minha mãe e meu pai disseram-me, quando eu completei dezoito anos: — Menino, seu traste, me trate logo de arredar o pé daqui de casa. — era a voz da mamãe. E papai emendou: — Ontem eu soube que você pensou que o mundo tem volta. Raspa daqui pra caçar emprego, abestado! Eu mesmo insisto em dizer, que personagem de cinema era eu,
  • 17. Waldemar Valença Pereira | 32 | e que, apesar de minha família e minha sociedade conservadora duvidar de eu ser um bom sujeito, só porque usei da erva resinosa fumada, durante anos, preciso dizer que até hoje sou plantado no chão. Encarcero-me diante do paradigma: “maconha é uma droga”. Eu aprendi que maconha é um remédio eficaz. Por que é seu uso proibido? Respondo agora, leitor: — Safadeza de gente mesquinha! Por isso, eu clamo urgentemente: — Maconheiros, uni-vos! Eu, construindo uma ponte entre a lógica e a maconha medicinal, me faço etéreo, feito de Hidrogênio e capaz de explosão, numa completa ácidez de ideologia como Karl Marx e a Bomba H. E, se morrer faz parte da coisa de viver, então vamos esquecer disso um pouco e pensar que o Hidrogênio encontrou dois Oxigênios e deu vida à vida. Triângulo amoroso. Paradoxal? Nada de Bomba H, né? Respondo a mim mesmo: — Nenada! Pausa pra pensar no esmo de mim e de Vós Mercê. Continuo filosofando sobre a legalização da maconha e meu círculo é vicioso, minha narrativa parece não ser. A verdade é longe da explicação da verdade, sabia? O sagrado é perto do longe da verdade, mas ainda não é a verdade. Fico pensando nisso, mas é sem proveito: Se verdade, não mais sagrado. Além do mais, a ciência é perto da verdade toda. Se verdade, ainda mais ciência. Na verdade, eu vos digo que esses átomos de Hidrogênio e Oxigênio, em orgias profundas, realizaram um triângulo amoroso vital: o famoso dois em um. Salve a inteligência humana, quando ela estiver livre de paradigmas, de prisões e de mil coisas. É certo que a mente do
  • 18. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 33 | ser humano há de fluir melhor, quando a maconha for liberada. Não tenho dúvidas disso. A gente passa a pensar direito sobre os fatos de que maconha é uma planta, ou erva medicinal, e que faz sua mente pensar e repensar nas coisas da vida. Sua mente transcende. Nada de alucinações no efeito da maconha... E no haxixe, pergunte a Baudelaire. Eu queria mesmo era agora poder ver as coisas além da minha esquizofrenia e do meu senso comum. Salve a natureza das combinações químicas e sua lógica de elaborar a maconha de uma semente dióica, o que significa que a cannabis sativa tem sua sexualidade altamente desenvolvida, com duas flores completamente separadas, dois gêneros distintos: fêmea e macho. Para cada pé de cânhamo macho, outro fêmea, né lindo? A lindíssima e robusta maconha é uma fêmea que nos leva a ampliar um horizonte de perspectivas, através da ação direta do THC e do CBD em nosso cérebro: me tornei hermafrodita. Melhores explicações encontram-se nas Bulas informativos neste livro. Inclusive, elaborei tais Bulas com o auxílio de um livro que fala tudo sobre a maconha. O livro era uma metonímia de Xis Conrado. Na verdade, minha esquizofrênia, em língua portuguesa, recriou o tal professor. Xis é o livro de Conrado. Ele fala comigo, e o livro que amamos, torna-se o nosso melhor amigo. Uns amam livros sagrados; outros, livros profanos. Eu amo livros de literatura, filosofia e ciência... Mas, como o livro de Xis Conrado passou a ser a minha Bíblia Sagrada, eu o personifiquei, pra ver se colava. Parafraseei-me do livro “Hemp: o uso medicinal e nutricional e recreativo da maconha”. Vi naquele livro tudo aquilo que poderia representar um ótimo aprendizado pra juventude do meu país. Dezenas de revistas tematizaram a maconha, repetindo Xis Conrado no bagulho de expôr ideias.
  • 19. Waldemar Valença Pereira | 34 | Já me dizia o meu professor imaginário Xis Conrado, quando eu fumava maconha, lendo-o: — Eu, Che Cannabis, sou mais que um livro para tua esquizofrenia. Eu me fiz na ciência que faz tua cabeça. Bem na sala de aula, que é o livro, Conrado conversava comigo sobre o real perigo de fumar maconha, caso liberem o uso medicinal e recreativo dela no Brasil: — O fumo da maconha, Che Cannabis, contém componentes que provocam pequenas lesões temporárias no revestimento dos pulmões e que cicatrizam rapidamente, sem efeitos demonstrados a longo prazo. — Sério? — Não existem evidências de que tal dano levará o ser humano ao câncer. — Câncer de pulmão, Xis? — Sim, Che Cannabis. No entanto, o bom senso indica cautela. Por exemplo, Che: já foi provado mais de uma vez que fumar, demasiadamente, aumenta a possibilidade de o ser humano contrair bronquite. E digo mais, esse risco aumenta em áreas que possuem uma quantidade maior de ar poluído. — Sem dúvidas, Xis! Xis Conrado prosseguiu me ensinando: — Se isso acontecer a você, o tratamento é simples: pare de fumar, e o problema irá embora. Afinal de contas, Che Cannabis, os danos superficiais que a fumaça da maconha causam ao pulmão humano estão limitados à larga passagem de ar, e não aos brônquios e alvéolos mais frágeis. — E o auxílio do aerossol pode ser usado, Xis? — Infelizmente, Che, os aerossóis se mostraram irritantes e caíram em desuso. — E agora, Conrado, quem poderá nos defender? — Se um paciente tem bronquite, efisema ou qualquer outro
  • 20. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 35 | problema pulmonar, provavelmente não é uma boa ideia fumar qualquer coisa, nem mesmo a cannabis. Entretanto, um novo dispositivo de inalação, conhecido como vaporizador, esquenta a cannabis ao ponto em que sua essência é liberada na forma de vapor e lançada antes que a planta comece a queimar. — Isso oferece novas e excitantes possibilidades num tratamento, né, professor? — Exatamente, Che Cannabis! Apaguei a minha erva resinosa fumada e concluí que a maconha é bem mais que uma simples questão de opinião. A maconha é uma química natural e divina do amor à vida. Precisamos conhecê-la cientificamente e entender, no mínimo, algumas de suas substâncias benéficas à saúde da população mundial. Saiba que o pai genético da maconha chama-se Amor de Deus: tão grande amor mostra-se capaz de nos levar um dia à prisão, né? O amor faz loucura. Às vezes, fica desmiolado todo. Eu hoje sou heterossexual das ideias práticas e teóricas, e ando convicto de amar o Feminismo. Convencido de amor à humanidade, eu seria mulher, e seria homem, simultaneamente e respectivamente, só que Deus não quis fazer uma graça dessa comigo. A outras pessoas, Deus concede até o dom da beleza ou o dom artístico. Pra mim, Deus mandou foi uma harmonia de viver no improviso, sem dinheiro. Eu gostei, foi desafio divino. Inteligente de tanto fumar maconha, fiquei sem graça de morrer derrotado e não deixar sequer um livro meu, autobiográfico e científico, que fosse! Gregório de Matos eu virei com papéis avulsos em prosa e verso. Em 2004, eu fui um professor de presos dentro de uma cadeia e, ao mesmo tempo, um Guarda do Sistema Prisional. Saiba que em minha vida toda, cultivei o grande enigma: o sucesso desafiador de amar Deus, por sentir pavor do Diabo, eis o mistério. Ser Guarda Prisional e Professor. Libertar, prender: não necessariamente nessa mesma ordem. E, hoje, sobretudo, fiz a maior questão de me
  • 21. Waldemar Valença Pereira | 36 | consolidar como um eterno maconheiro, publicando-me, cheio de ideias extrovertidas e proibidas, e, assim, me conciliar com as amizades saudosistas que tive na universidade, na cadeia e na família e nas amizades. Sou filho único e, como se isso não bastasse, eu dei desgosto aos meus pais: estudava pouco, meu negócio era o futebol. No futebol, meu prêmio único: pagar os estudos. Mudando de assunto, não gosto de pesadelos, mas transo com eles de vez em quando, de quando em vez... Vou contar um agora que é pra você saber que maconheiro também é gente. Eu sei que você consegue: of course que é claro! Meu primeiro dia de trabalho como Guarda Prisional, no Castelo da Morte, foi de pesadelos e eu fiquei mal com isso. Quase desisto de ser guarda e não haveria história agora, ao menos não desse jeito. Numa escala de trabalho de vinte e quatro horas, a gente dormia uma horinha, no alojamento, pra recuperar o brio. Foi assim que lá eu sonhei com o portão da cadeia aberto. Achei que tinha a ver com aquela música do Gilberto Gil, que o Tony Garrido, do Cidade Negra, cantam juntos: “Extra”. Talvez naquele dia o que eu vi na cadeia foi o suficiente para enlouquecer: eu vi os presos fugirem, assassinando guardas feito frangos de açougue. Durante a vigília, na vida real, o Diabo nos conduziu para aprendermos o serviço de guarda no ambiente do Castelo. Era ano de 2003, fim de dezembro. Meu primeiro dia de Natal na cadeia pública: função de guarda. Nem revólver eu tinha. O dia era de ressaca, por causa de uma tentativa frustada de motim. Rolou até tiro, pau e pedra na mãos dos presos. Nesse lugar, morriam dois a três presos por mês. Naquele dia, os guardas e alguns presos acompanhavam o carrinho de mão supercarregado de suco artificial e almoço. Era meu primeiro dia, quando eu fui pegar uma quentinha de almoço, para entregar na mão de um dos condenados, o Diabo retrucou:
  • 22. Pé de Maconha - Che Cannabis nas andanças da ciência | 37 | — Larga isso, rapaz! Aqui o guarda não é babá de preso. Fica ligado, oh meu! Fiquei sem cor. Ligado, ardendo de pensamentos sobre a lógica de cumprir o meu trabalho. Um guarda não serve um condenado? Não serve ou não é assim no Brasil quase todo. Entendi que estava no inferno, sem respostas. Resolvida a incógnita pela desistência, dou prosseguimento ao “Meu pé de maconha” plantado na mente dos brasileiros por mim aqui e agora, feito jornalismo: Che Cannabis nas andanças da ciência. Observe que vivem muito mais anos de felicidade, caso vingem na vida, os que amam as ideias plantadas cheias de paixão, adubo e de amizade. Soube aqui na cadeia também que o aprendizado que eu curti e compartilhei, ao viver engaiolado, girava em torno da malandragem e do analfabetismo sem e-mail. Envolto na escola da cadeia pública, precisei de um ano para alfabetizar presos, separados ou juntos, e pensei que poderia deixar a função de Guarda e prosseguir lá pelas tantas como professor, fazendo leituras de mundo como ensinava o Paulo Freire. E isso se deu no meu terceiro dia de serviço: antes, durante e depois dos pesadelos. Afinal, durante dez anos de Guarda Prisional, morei sozinho e encarei ser professor de homens e mulheres condenadas pela Justiça. Me desenhei alfabetizador de assassinos, estrupadores e traficantes. Havia de tudo um pouco! Não obstante, vou plantar aqui a minha grande ideia polêmica do “Meu pé de maconha”, pela qual tenho apego e adubo. Nenada! A coisa é profunda feito uma semente de nostalgia. Há em mim vontade de escrever uma música inédita todo dia, mas não chego nem perto. Na verdade, eu vim aqui pra me xingar. Nome disso: autobiografia crítica. Sei mais mentir do que criticar, na vida, e decidi agora dizer toda hora pra pessoas que me criticam: Nenada! Não há nada e
  • 23. Waldemar Valença Pereira | 38 | nem tenho algo de nada a esconder de Vossa Mercê. Certifique-se de que eu, Che Cannabis, na Marcha da Maconha, em breve contigo estarei me exibindo. Hoje não dá, como cantava Renato Russo. Sei que habito no escuro desta cela 021: nenada! Ficou-me a certeza de que o dia de sol nascerá prematuramente quadrado e, sob um eclipse fulminante, me libertarei no círculo vicioso do Castelo da Morte. Livre, hei de expelir com o sol da liberdade, através de um brilho Fiat lux no meu latim vulgar. Veja só que coisa!