Tocar ou não no embolo da seringa?

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Tocar ou não no embolo da seringa?

  1. 1. p.20 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. Tocar ou não no êmbolo da segringa TÉCNICA DE PREPARO DE MEDICAMENTOS PARENTERAIS: TOCAR OU NÃO NO ÊMBOLO? TECHNIQUE FOR THE PREPARATION OF PARENTERAL DRUG: TOUCHING OR NOT TOUCHING THE PISTON? Adriano Menis Ferreira* Alexandre Duarte Toledo** Gláucia Pereira dos Santos** Kátia Rezende*** RESUMORESUMORESUMORESUMORESUMO: No preparo de medicação, cabe ao profissional manter a segurança microbiológica evitan- do que ocorra contaminação. Um dos pontos descritos para evitar a contaminação do líquido aspirado por meio de seringas é não tocar no êmbolo durante o preparo da medicação. Esta pesquisa teve como objetivos descrever as recomendações técnicas quanto a tocar ou não no êmbolo de seringas e demons- trar, por meio de um experimento, se ocorre contaminação do meio de cultura aspirado após o toque nesse êmbolo. Trata-se de estudo descritivo, microbiológico, laboratorial, campo simulado, realizado em laboratório de microbiologia do Centro Universitário de Votuporanga/SP, em 2005. Aspirou-se meio de cultura através de 40 seringas, após tocar vigorosamente no êmbolo de cada uma com as mãos previamente higienizadas. Resultado: houve ausência de crescimento microbiano em todas as amos- tras testadas após 72 horas de incubação. Conclui-se que tocar no êmbolo não acarretou contamina- ção. Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave: Medicamento; pesquisa em enfermagem; enfermagem; controle de infecção. ABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACT: During medication preparation, professionals are in charge of preserving microbiological safety and avoiding contamination. Not touching the piston during medication preparation is described as avoiding contamination of the liquid aspired through syringes. This research aimed at describing technical recommendations as to touching or not touching the piston of syringes, as well as at demonstrating through an experiment whether the aspired culture medium is contaminated after the piston is touched. A descriptive, microbiological, laboratory, simulated field study with a quantitative approach was carried out at the microbiology laboratory of the University Center at Votuporanga, SP, Brazil, in 2005. Culture medium was aspired through 40 syringes after their pistons had been firmly touched by previously washed hands. As a result, we found the absence of microbial growth in all samples tested after 72 hours of incubation, demonstrating that touching the piston did not cause contamination. KeywordsKeywordsKeywordsKeywordsKeywords: Drug; nursing research; nursing; infection control. INTRODUÇÃO As técnicas constituíram-se no primeiro conhe- cimento organizado e sistematizado que instrumen- talizou o processo de trabalho da enfermagem moder- na. Começaram a ser elaboradas na segunda metade doséculoXIX,naInglaterra,comainstitucionalização da enfermagem a partir dos trabalhos desenvolvidos por Florence Nightingale. Nos Estados Unidos, come- çaramaserimplantadasaindanofinaldoséculoXIX1 . Somente na década de 50 buscou-se princípios científicos com a finalidade de nortear a prática de enfermagem,queatéentãoeravistacomonão-cientí- fica, dado que suas ações eram baseadas na intuição. Écombasenasciênciassociaisenaturaisqueaenfer- magemprocuradelinear-sebuscandoumafundamen- tação científica para as técnicas de enfermagem1 . Das diversas técnicas de enfermagem descri- tas, a administração de medicamentos se constitui em um procedimento que exige destreza, habilida- de, atenção e forte base científica para execução de todas as etapas desde a leitura da prescrição médica até a monitorização e intervenção nas possíveis intercorrências.
  2. 2. R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. • p.21 Ferreira AM, Toledo AD, Santos GP, Rezende K Em se tratando de medicamentos por via parenteral, existem além da preocupação com os cin- co certos da medicação (a dose certa, a via certa o preparo certo, o horário certo e o paciente certo), a preocupação com a capacitação do profissional de enfermagem que realizará o procedimento, visando a prevenção de infecção decorrente desse processo. Vale registrar que, durante as aulas teórico- práticas da disciplina de Fundamentos do Processo do Cuidar II, do Curso de Graduação em Enferma- gem, o corpo docente alertava que, durante o prepa- ro das medicações parenterais, o êmbolo não deve- ria ser tocado a fim de manter a esterilidade da solu- ção administrada, conforme procedimento técnico. Mas será que, mesmo tocando no êmbolo da seringa ao preparar medicação, o líquido a ser infundido es- taria contaminado? A partir dessa questão foi deci- dido realizar a presente pesquisa**** . Portanto,sãoobjetivosdesteestudo:descrever as recomendações técnicas de enfermagem quanto a tocar ou não no êmbolo da seringa durante o preparo demedicamentosedemonstrar,atravésdeumexperi- mento em laboratório, se ocorre contaminação do meio de cultura aspirado após o toque nesse êmbolo. REFERENCIAL TEÓRICO O enfermeiro, no decorrer da sua formação profissional,adquireconhecimentosespecíficosqueo capacitam a exercer com habilidade a função de ad- ministrarmedicamentos2 .Entreasviasdeadministra- çãodemedicamentos,aparenteralérealizadapormeio deinjeçõesesecaracterizacomoumadasmuitasfun- ções assistenciais exercidas pela equipe de enferma- gem;sendoessapráticageralmenterealizadapelotéc- nico ou auxiliar de enfermagem sob a supervisão do enfermeiro. Sendo assim, direta ou indiretamente é responsabilidade do enfermeiro o preparo e a admi- nistração de medicamentos aos pacientes3 . À enfermagem cabe não somente os proce- dimentostécnicosebásicosinerentesà profissão,mas identificar todo o processo de administração do me- dicamento desde o momento em que foi prescrito pelo médico até o momento em que for checado jun- to ao prontuário. O enfermeiro, ainda que não seja o responsável pela prescrição de medicamentos, deve ter conhecimento de todos os aspectos e etapas en- volvidos no processo a fim de evitar erros que pos- sam prejudicar o cliente4 . Levando em conta que a atenção durante o preparo do material para administração de medica- mentos parenterais é imprescindível para que se te- nha êxito na prevenção de infecção e que o embasamento teórico e científico das técnicas atu- am como suporte para que os profissionais tenham segurança no procedimento, faz-se necessário de- monstrar que as infecções de corrente sanguínea podem representar até 14 dias de internação extra, com custo médio de US$ 3.100 sendo consideradas preveníveis de 15 a 35%, evidenciando a importân- cia dos cuidados com esse processo5 . A manipulação errônea dos materiais duran- te o preparo de medicamentos pode trazer algumas complicações, entre elas a infecção hospitalar, a qual é adquirida após a admissão do paciente e cuja ma- nifestação ocorreu durante a internação ou após a alta, podendo ser relacionada com a internação ou procedimentos realizados dentro do ambiente hos- pitalar6 . Algumas das medidas adotadas para a preven- ção da infecção decorrente da administração de fármacos por via parenteral, são: aspirar rapidamen- te o líquido do frasco ampola ou ampola, não permi- tindo que os mesmos fiquem expostos; evitar a con- taminação da agulha e da seringa não tocando a haste do êmbolo ou a parte interna do tambor. Para opreparodapele,recomenda-sefricçãoemovimento circular com um swab contendo anti-séptico2 . Já para a administração de medicamentos parenterais, os materiais utilizados são basicamente: seringa, agulha e o medicamento prescrito, bolas de algodão com álcool a 70% e bandeja7 . Em se tratan- do da seringa, a mesma é composta por três partes: o êmbolo ou haste, o bico e o corpo ou tambor. A agu- lha é subdividida em bisel, haste e canhão2 , confor- me se observa na Figura 1. FIGURA 1:FIGURA 1:FIGURA 1:FIGURA 1:FIGURA 1: Partes de uma seringa
  3. 3. p.22 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. Tocar ou não no êmbolo da segringa FIGURA 2:FIGURA 2:FIGURA 2:FIGURA 2:FIGURA 2: Êmbolo da seringa sendo tocado em toda extensão. Partes como a agulha e o interior da seringa obviamente devem estar estéreis a fim de garantir a segurançamicrobiológicadasolução.Algunsautores8- 14 referem que, durante o processo de preparo e admi- nistração da medicação, se deve seguir técnica asséptica;outros2,15-19 relatamqueoêmbolodaseringa devepermanecerestérilduranteesseprocessoenquan- to outros7,20-26 não citam o fato de tocar ou não no êmbolo ou seguir técnicas assépticas. Contudo, não há evidências científicas que comprovem a contami- naçãodoêmboloapóssuamanipulação.Ressalta-sea importância da sensibilização da equipe para que o desenvolvimento das tarefas não seja realizado basea- do em teorias mecanicistas sem a devida reflexão e comprovação científica das práticas de enfermagem. Portanto, nota-se que, entre todas as fases de preparo de medicações por via parenteral, a reco- mendação de não tocar no êmbolo da seringa não é unanimidade entre os autores pesquisados. METODOLOGIA Para atender oprimeiro objetivo deste estudo, realizou-se pesquisa do tipo de revisão de literatura em fontes secundárias a fim de descrever as recomen- dações e justificativas dos autores quanto a tocar ou não no êmbolo da seringa. Em relação ao segundo objetivo, conduziu-se um estudo descritivo, microbiológico, laboratorial, campo simulado, com abordagem quantitativa, no intuito de avaliar a contaminação ou não do meio de cultura após tocar no êmbolo da seringa. O estudo foi realizado nas dependências do Laboratório de Microbiologia do Centro Universi- tário de Votuporanga, em São Paulo. Foram utiliza- das as bancadas do Laboratório para o procedimen- to de simulação de preparo de medicação parenteral. Os dados foram coletados em um único dia, no mês de julho do ano de 2005. Participaram do estudo dois alunos do 4o ano do Curso de Graduação de Enfermagem do Centro Universitário de Votuporanga. Os respectivos alu- nos foram supervisionados e treinados pelo orientador do trabalho. Para determinar o número da amostra de se- ringas que foram utilizadas na pesquisa a fim de bus- car confiabilidade estatística, utilizou-se a seguinte fórmula27 : Vn +1. Considerando o exposto, o n é o número de seringas pertencentes ao lote. Dessa forma para um lote de 50 seringas, aplicando-se a fórmula, é preciso analisar uma amostra de oito seringas (controle) que representa 16% do total do lote. No entanto, foram analisadas 10 amostras que serviram de controle para avaliar sua esterilidade de fábrica. As 40 seringas res- tantes foram usadas para o experimento, sendo que todos os êmbolos das mesmas foram tocados/mani- pulados pelos dois alunos. Para atender o primeiro objetivo desta pesqui- sa, consideraram-se as fontes secundárias disponíveis nabibliotecadoCentroUniversitáriodeVotuporanga e biblioteca da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. Em relação ao segundo objetivo, procedeu-se o treinamento dos dois alunos a fim de tocarem no êm- bolodaseringapegando-oemtodasuaextensão,sem, no entanto, retirá-lo do cilindro da seringa. Tal proce- dimentosimulaapreparaçãodemedicaçãoparenteral quandoumaseringaéretiradadesuaembalagemepuxa- seoêmboloparabaixoeposteriormenteparacima28 . Após a demonstração da homogeneidade no procedimento,ostestesforamconduzidos,tendosido observadas as etapas mencionadas a seguir. Cada voluntário realizou a lavagem básica das mãos com sabão neutro, num período mínimo de 15 segundos, tendo o cuidado de respeitar todas as áre- as das mãos29 , conforme se preconiza. Apósahigienizaçãodasmãos,osalunosseapro- ximaram da bancada do laboratório e cada um ma- nipulou 20 seringas, abrindo-as de forma asséptica uma a uma simulando a preparação de medicação quanto ao ato de aspirá-la. A cada seringa aberta, tocava-se em toda ex- tensão do êmbolo, conforme mostra a Figura 2, retornando-o à sua posição normal. Conectava-se uma agulha à seringa 25x7 e aspirava-se 10ml de meio de cultura fazendo com que o mesmo entrasse em contato com todo corpo da seringa e posterior- mente retornando-o ao tubo de ensaio que posteri- ormente foi incubado.
  4. 4. R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. • p.23 Ferreira AM, Toledo AD, Santos GP, Rezende K Destaca-se que esta sistemática foi elaborada pelos autores da pesquisa haja vista que a literatura pesquisada recomenda não tocar no êmbolo da se- ringa, portanto, tocar nesta parte da seringa, em toda extensão, mostrará a provável contaminação do con- teúdo aspirado, que no caso se constituiu de meio de cultura. Considera-se, ainda, a preocupação de trazer uma justa resposta à prática assistencial, assim, o ex- perimento laboratorial reproduziu a situação mais próxima da realidade de aspirar medicação por meio de uma seringa. Cada aluno aspirou o meio de cultura que esta- va armazenado em tubos de ensaio através de 20 se- ringas. Dessa forma, 40 amostras foram incubadas. A execução de todos os procedimentos laboratoriais teve supervisão direta do orientador do trabalho e da farmacêutica responsável. É preciso ressaltar que 10 seringas foram testa- das quanto à sua esterilização garantida de fábrica. Essa etapa foi realizada em capela de fluxo laminar, com utilização de luvas esterilizadas e todo rigor asséptico, simulando a técnica realizada para testar a contaminação do êmbolo descrita anteriormente. Nesta etapa não se constatou turvamento do meio de cultura após 72 h de incubação, demonstrando a esterilidade de fábrica da amostra. Procedimentos Laboratoriais Os procedimentos laboratoriais foram executa- dos seguindo as recomendações técnicas30 , confor- me se descreve a seguir. Foi aplicado como meio de cultura o Caldo Brain Heart Infusion (BHI) (infusão cérebro-cora- ção), caldo de enriquecimento que favorece o de- senvolvimento da maioria das bactérias30 . Para garantia de validade do meio de cultura, inoculou-se bactérias Staphylococcus aureus onde constatou-se, após 24 h, turvamento do meio, indi- cando que estava viável ao crescimento microbiano. Esta amostra foi utilizada como controle positivo, sendo referência para comparação com as amostras experimentais. Foram utilizados os seguintes equipamentos e insumos: fluxo laminar, estufa aeróbia, alça de plati- na, luva esterilizada, seringa de 10ml descartável marca SR (Saldanha Rodrigues LTDA), agulha 25x7 marca BD® . As amostras foram incubadas em estufa aeróbica, por 24 h, em temperatura de 35°C ± 2°C; após esse período se procedeu a primeira leitura, con- siderando o turvamento do meio de cultura. Posteri- ormente, após 48h, realizou-se a segunda leitura e a leitura final depois de 72 h de incubação do meio de cultura. RESULTADOS E DISCUSSÃO A administração de medicamentos consti- tui uma tarefa complexa que requer uma série de atri- butos dos profissionais da saúde nela envolvida: co- nhecimentos científicos, habilidade técnica, habili- dade de comunicação e compromisso ético. Em relação ao conhecimento científico, as técnicas de enfermagem se caracterizaram como o primeiro saber de enfermagem. Assim foram os pri- meiros instrumentos que a enfermagem utilizou para manipular o seu objeto de trabalho, o cuida- do de enfermagem1 . Somente na década de 50 teve início a busca da fundamentação científica das téc- nicas de enfermagem e mesmo nos dias atuais exis- tem muitas etapas desses procedimentos que não foram testadas a fim de comprovar sua real neces- sidade. Entre as diversas fases de preparo de uma me- dicaçãoporviaparenteral,háarecomendaçãodenão tocar no êmbolo da seringa, cuja justificativa é a pre- vençãodacontaminaçãodasoluçãomedicamentosa. O levantamento bibliográfico das fontes se- cundárias possibilitou identificar e analisar as reco- mendações de obras que se dividiram entre tocar ou não no êmbolo da seringa. Destaca-se que os livros textos de enfermagem são guias para nortear o ensino dessa profissão, sendo utilizados como fon- tes principais de consulta nas diversas especialida- des da enfermagem. Assim, os conteúdos desses li- vros influenciam a construção do conhecimento e a sua disseminação. Na presente pesquisa, considerou-se os livros textos de enfermagem em língua portuguesa, tan- to de autoria brasileira quanto de tradução de ou- tras línguas, pois, estas fontes estão disponíveis para os docentes e estudantes de enfermagem brasilei- ros. A bibliografia pesquisada data de 1977 a 2005, perfazendo 20 obras disponíveis e consultadas. Ainda, os autores pesquisados ora trazem justifi- cativas para tal conduta ora não o fazem. Cabe destacar que, nas fontes bibliográficas que funda- mentaram esta investigação, tais recomendações não foram baseadas em resultados de pesquisas e sim em teorização racional dos autores; assim, a busca de evidência para tal recomendação parece precípua.
  5. 5. p.24 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. Tocar ou não no êmbolo da segringa Ressalta-se que, dos 20 (100%) livros textos consultados, 8 (40%) não trazem nenhuma reco- mendação quanto ao fato de tocar ou não no êmbo- lo e os que o fazem referem que não tocar no êmbolo é necessário para evitar a contaminação da medica- ção e prevenir infecção. Fato importante a ser observado se refere à obra de Silva e Santos26 que, embora recentemente publicada e trazendo como tema a enfermagem ba- seada em evidência, não descreve nenhuma reco- mendação quanto a tocar ou não no êmbolo da se- ringa. Destaca-se ainda que essa obra foi fundamen- tada em ampla revisão da literatura nacional e inter- nacional, demonstrando que, provavelmente, este tema ainda não tenha sido pesquisado. Quanto ao resultado do teste microbiológico, implementado nesta pesquisa no intuito de compro- var ou não a recomendação de tocar no êmbolo da seringa, constatou-se que nas 40 amostras examina- das não houve crescimento microbiológico em ne- nhuma delas após período de incubação de 72 ho- ras, pois não ocorreu turbidez do meio de cultura quando comparado ao meio incubado com Staphylococcus aureus (controle positivo). Esta pesquisa simulou a preparação de medica- ção parenteral, na fase de aspiração da solução, em ambiente laboratorial seguindo o princípio asséptico. Durante o experimento, o êmbolo de cada seringa foi tocado em toda sua extensão, utilizando a palma das mãosdossujeitosqueposteriormenteaspiraramomeio de cultura, o qual entrou em contato com todo o in- teriordocorpodaseringa.Ressalta-seque,naprática, o êmbolo quando tocado o é pelos dedos dos profissi- onais no momento em que aspiram a medicação. Na presente investigação, o êmbolo foi tocado em toda extensão, tornando-se um teste desafio. Bem como não tocar no êmbolo, outro proce- dimento comum ensinado nos cursos de enferma- gem, durante o preparo de medicação por via parenteral, é a desinfecção da borracha do frasco ampola de dose única. Dessa forma, a necessidade de realizar a desinfecção com álcool da tampa de borracha, depois de remover o revestimento de alu- mínio de um frasco ampola de dose única também foi pesquisada. E especialistas fizeram a cultura de cinco tampas de borracha de frascos de dose única de 20 embalagens envolvidas com plástico (n= 100). Os resultados demonstraram que 99% das superfíci- es das tampas de borracha estavam estéreis, sendo que uma cultura deu resultado positivo, e supôs-se que isso tenha decorrido de contaminação aérea durante o procedimento de cultura. Concluíram ser desnecessário limpar a superfície da tampa de borra- cha de um frasco de dose única depois da retirada da tampa de alumínio31 . Tal procedimento, assim como a recomenda- ção de não tocar no êmbolo da seringa, não apre- sentou fundamentação científica. Não existem tra- balhos básicos primários para comparação dos resul- tados desta pesquisa. Assim, quando outros estudos similares forem produzidos, o presente resultado po- derá ser discutido. Atualmente, são necessárias pesquisas que fun- damentem as práticas de enfermagem, as quais não devem ser mais realizadas de forma ritualística, como o eram em décadas passadas. Desse modo, uma ferra- menta para ajudar a tornar as práticas de enferma- gem seguras é, sem dúvida, a pesquisa. Deve-se, portanto, buscar evidências que for- neçam provas científicas para a tomada de decisão quanto às etapas de procedimentos técnicos de en- fermagem32 . Embora a técnica asséptica deva ser realizada durante todo preparo de medicação parenteral, cons- tatou-se, nesta pesquisa, que tocar no êmbolo não acarretou contaminação do meio de cultura aspira- do. Dessa maneira, a prática de evitar tocar no êm- bolo da seringa, durante o preparo de medicamen- tos, que há décadas vem sendo disseminada por re- comendações técnicas, necessita ser repensada com base nos resultados desta investigação. Embora o experimento tenha sido realizado em condições controladas em laboratório de microbiologia, as mãos, mesmo após higienização, possuem bactérias da microbiota transitória e resi- dente29 , portanto infere-se que o êmbolo da seringa possa não entrar em contato com a parede interna do tambor, fato que explicaria a não contaminação do meio de cultura aspirado. CONCLUSÃO A recomendação de não tocar no êmbolo da seringa durante o preparo de medicações tem sido tradicionalmente transmitida sem justificativa cien- tífica, de acordo com as fontes secundárias consulta- das. Dessa forma, esta pesquisa forneceu evidência de que tocar no êmbolo não acarreta contaminação da solução, principalmente porque, ao invés de uti- lizar medicamentos, aspirou-se meio de cultura que tem a finalidade de prover nutrientes necessários ao crescimento de microrganismo.
  6. 6. R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. • p.25 Ferreira AM, Toledo AD, Santos GP, Rezende K O teste realizado nesta investigação extrapola a esfera cotidiana de preparo de medicamentos parenterais, pois o que se aspira não é o meio de cul- tura e sim as soluções, entre elas medicamentos. Considera-se, portanto, que a presente inves- tigação foi do tipo teste desafio, e o não crescimen- to de microrganismos nas amostras testadas, refe- rentes à prática de preparo de medicamentos parenterais, exige replicação do estudo com outros tipos de seringas, ambiente clínico real e profissio- nal da área de enfermagem, bem como contamina- ção proposital das mãos com microrganismo conhe- cido para a sua posterior recuperação nas amostras analisadas. Embora esta descoberta não seja significante quanto a custo, espera-se que todas as práticas de enfermagem devam ser executadas com fundamen- tação em resultados de pesquisas para que se possa, com o tempo, alicerçar o conhecimento em evidên- cias e não em tradições. Uma vez que, o dever do profissional é sempre buscar evidências não só para sustentarcomsegurançaumapráticaassistencial,mas também para que elas sejam contestadas. REFERÊNCIAS 1. Almeida MCP, Rocha JSY. Primeiras expressões do saber de enfermagem. In: Almeida MCP, Rocha JSY. O saber de enfermagem: sua dimensão prática. São Paulo: Cortez; 1986. 2. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 5a ed. São Paulo: Guanabara Koogan; 2004. 3. Carvalho VT, Cassiani SHB. Erros na medicação: aná- lise das situações relatadas pelos profissionais de enfer- magem. Medicina (Ribeirão Preto). 2000; 33:322-30. 4. Bueno E, Cassiani SHDB, Miquelim JDL. Erros na administração de medicamentos: fatores de risco e medidas empregadas. Rev Baiana Enferm. 1998; 11 (1):101-19. 5. Campos LI. Aspectos econômicos das infecções hos- pitalares. In: Martins MA. Manual de infecção hospi- talar. Belo Horizonte (MG): Medsi; 2000. p.32-7. 6. Ministério da Saúde(Br). Portaria n. 2.616, de 12 maio de 1998. Brasília (DF): Coordenação de Contro- le de Infecção Hospitalar; 1998. 7. Alexandre NMC. Procedimentos básicos de enfer- magem. São Paulo: Atheneu; 1995. 8. Franco GRRM. Manual de procedimentos básicos para o auxiliar de enfermagem. São Paulo: Departamento de Enfermagem Escola Paulista de Medicina; 1980. 9. Mamede MV, Carvalho EC, Cunha AMP. Técnicas em enfermagem. 2a ed. São Paulo: Sarvier; 1984. 10. Kawamoto EE. Fundamentos de enfermagem. 2a ed. São Paulo: EPU; 1997. 11. Chaud MN. O cotidiano da prática de enfermagem pediátrica. São Paulo: Atheneu; 1999. 12. Posso MBS. Semiologia e semiotécnica de enfer- magem. São Paulo: Atheneu; 1999. 13. Veiga DA, Crossetti MGO. Manual de técnicas de enfermagem. 9a ed. Porto Alegre (RS): Sagra Luzzatto; 2000. 14. Figueiredo NMA. Práticas de enfermagem. 2a ed. São Paulo: Difusão Paulista de Enfermagem; 2002. 15. Fuerst EV, Wolff L, Weitzel MH. Fundamentos de enfermagem. 5a ed. Rio de Janeiro: Interamericana; 1977. 16. Souza EDF. Manual de enfermagem. 6a ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 1986. 17. Potter PA. Grande tratado de enfermagem prática. 3a ed. São Paulo: Santos; 1998. 18. Cassiani SHDB. Administração de medicamentos. São Paulo: EPU; 2000. 19. Temple JS, Johnson JY. Guia para procedimentos de enfermagem. 4a ed. Porto Alegre (RS): Artmed; 2004. 20. Naganuma M, Kakehashi TY, Barbosa VL . Proce- dimentos técnicos de enfermagem em UTI neonatal. São Paulo: Atheneu, 1985. 21. Du Gas BW. Enfermagem prática. 4a ed. Rio de Ja- neiro: Guanabara; 1988. 22. Gueler RF . Grande tratado de enfermagem. 12a ed. São Paulo: EBO; 1993. 23. Sigaud CHS. Enfermagem pediátrica. São Paulo: EPU; 1996. 24. Schuel PD. Enfermagem básica: teoria e prática. São Paulo: Rideel; 1999. 25. Timby BK. Conceitos e habilidades fundamentais no atendimento de enfermagem. 6a ed. Porto Alegre (RS): Artmed; 2001. 26. Silva LMG, Santos RP. Administração de medica- mentos. In: Bork AMT. Enfermagem baseada em evi- dência. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan; 2005. p.166- 90. 27. Ferraz CA. Teste de esterilidade em artigos médico- hospitalares: requisitos técnicos e interpretação de resultados. Enfoque (São Paulo). 1988; 16(4): 90-4. 28. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 6a ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005. 29. Ministério da Saúde (Br). Lavar as mãos: informações para profissionais da saúde. 2a ed. Brasília (DF): Coordenação de Controle de Infecção Hospitalar;1992. 30. Oplustil CP, Zoccoli CM, Tobouti NR, Sinto SI. Procedimentos básicos em microbiologia clínica. São Paulo: Sarvier; 2000. 31. Buckley T, Dudley S, Donowitz L. Defining unnecessary disinfection procedures for single-dose and multiple-dose vials. Am J Crit Care. 1994; 3(6): 448. 32. Ferreira AM, Andrade D. Swab de feridas: recomendável? R Enferm UERJ. 2006;14:440-46
  7. 7. p.26 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2007 jan/mar; 15(1):20-6. Tocar ou não no êmbolo da segringa TÉCNICA DE PREPARACIÓN DE MEDICAMENTOS PARENTERALES: TOCAR O NO EL ÉMBOLO? RESUMENRESUMENRESUMENRESUMENRESUMEN: Durante la preparación de medicamentos, cabe al profesional mantener la seguridad microbiológica, evitando que ocurra contaminación. Uno de los puntos descritos para evitar la contaminación del líquido aspirado mediante jeringas es no tocar en el émbolo durante la preparación de la medicación. Esta investigación tuvo como objetivos describir las recomendaciones técnicas cuanto a tocar o no en el émbolo de jeringas y demostrar, a través de un experimento, si ocurre contaminación del medio de cultura aspirado después de tocar en el émbolo. Se trata de un estudio descriptivo, microbiológico, laboratorial, campo simulado, realizado en laboratorio de microbiología del Centro Universitario de Votuporanga/SP-Brasil, en 2005. Se aspiró medio de cultura a través de 40 jeringas, después de tocar vigorosamente en el émbolo de cada una con las manos previamente higienizadas. Resultado: hubo ausencia de crecimiento microbiano en todas las muestras testadas después de 72 horas de incubación. Se concluye que tocar en el émbolo no acarreó contaminación. Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave: Medicamento; investigación en enfermería; enfermería; control de infección. NotasNotasNotasNotasNotas * Enfermeiro. Mestre em Enfermagem (UERJ). Doutorando pelo Departamento de Enfermagem Fundamental da Universidade de São Paulo- Ribeirão Preto (EERP-USP). Rua: Prof. Enjolrras Vampré, 240 Ap. 22 São Manoel 15091-290 – São José do Rio Preto-SP. E-mail: a.amr@ig.com.br ** Enfermeiros. Graduados pelo Curso de Enfermagem do Centro Universitário de Votuporanga/SP. *** Farmacêutica. Mestre em Microbiologia. Professora de microbiologia do Centro Universitário de Votuporanga/SP. **** Trabalho apresentado como tema livre e premiado em 1º lugar no 57º Congresso Brasileiro de Enfermagem Goiânia-GO – Prêmio: “Rosi Maria Koch”. Recebido em: 27.04.2006 Aprovado em: 09.03.2007

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