UNIVERSIDADE FEDERAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE PORTO ALEGRE - UFCSPA                   DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA           ...
Leandro Menezes Lopes COMPARAÇÕES ENTRE CONCEPÇÕES DE FELICIDADEORIGINÁRIAS DA FILOSOFIA E DA PSICOLOGIA POSITIVA         ...
ATA DE DEFESA DE TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO                             Leandro Menezes Lopes             COMPARAÇÕES ...
Aos profissionais e aos pacientes que buscam                  felicidade pela Psicologia.               A esses ofereço me...
Agradeço veementemente às minhas orientadoras, Ana Carolinae Luciana Karine, pelo apoio, pelo companheirismo, peladisponib...
“Olha lá, quem sempre quer vitóriaE perde a glória de chorar”     (Los Hermanos – O Vencedor)
RESUMODifunde-se a ideia, em textos de Psicologia, de que o termo felicidade não se encontra bemdefinido, embora se admita...
SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO                                                82 A FELICIDADE PARA HEDONISTAS E EPICURISTAS          ...
81 INTRODUÇÃO       Atualmente, considera-se a necessidade de a Psicologia se preocupar não apenas comos transtornos menta...
9                        conforto e tecnologia e tenhamos acesso a um conhecimento científico muito                       ...
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16em conjunto com outras artes que se ocupam dos aprestos dos cavalos, se incluem na arte daequitação; e esta, com outras ...
17       Portanto, considerando a felicidade como o sumo bem, então, uma forma de sealcançá-la seria a boa realização das ...
18meio-termo) entre esses dois extremos que torna o ser humano bom e, quem a alcança, nessasituação, é tido como corajoso ...
19circunstâncias particulares tratar-se-iam apenas de imperfeições do mundo sensível. ParaAristóteles, é justamente pela a...
20louváveis, enquanto que, por outro lado, o vicioso não sentiria o mesmo por isso e nasmesmas situações (EN 10, 1176a15-3...
214 A FELICIDADE NO UTILITARISMO       O Utilitarismo, dos séculos XVIII e XIX, consistiu em outra forte corrente filosófi...
22                       Mill acredita que devamos maximizar a utilidade em longo prazo, e não caso a caso.               ...
23       Em relação à observação da diferença de qualidade existente entre prazeres, Millafirma que os indivíduos preferem...
24Inclusive, defende, em nome dos utilitaristas, que há outras coisas desejáveis e até desejáveispor si só, como a virtude...
25se bastante distinto em relação ao ponto de vista de hedonistas, epicuristas e utilitaristas.Outra diferença ressalta-se...
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27        Por fim, deve-se salientar que a importância de se analisar, comparar e classificar asconcepções de felicidade p...
28emocional, o otimismo, a teoria da esperança, o estabelecimento de metas para a vida e afelicidade, a Psicologia Positiv...
29“gosto de jogar basquete” (gratificação), como se nos dois casos a mesma emoção positivafosse a base da escolha (SELIGMA...
30       Quanto à outra forma de classificação, a maior dificuldade é que a teoria que Seligmanconsidera fatores relaciona...
31importância para os sentimentos negativos. Conforme ele ressalta, os seres humanos nãodesejariam uma vida em que só sent...
32pode ser que, como o termo felicidade ainda não apresenta uma definição suficientementesegura, os autores não tenham se ...
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34ou contrassensoais, e uma falta de imparcialidade e de “justeza” da mente12. Essas, portanto,apresentam-se como caracter...
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36mental. Sem embargo, o erro que se poderia apontar em seu raciocínio consiste em que oautor usou o seu próprio conceito ...
37geral do artigo, inclusive, percebe-se isso, pois, trata-se de uma pesquisa que prima pelosinteresses da indústria do tu...
Comparações entre Concepções de Felicidade Originárias da Filosofia e da Psicologia Positiva
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Difunde-se a ideia, em textos de Psicologia, de que o termo felicidade não se encontra bem definido, embora se admita a sua importância. Por outro lado, no campo da Filosofia, sua concepção há muitos séculos é discutida por filósofos importantes. Assim, esta pesquisa tem como objetivo principal investigar concepções de felicidade em obras de alguns filósofos específicos que abordaram o tema para auxiliar a definição desse conceito no contexto da Psicologia Positiva. Para tanto, apresenta natureza exploratória e qualitativa, empregando o método da pesquisa bibliográfica, em livros de Filosofia e de Psicologia e em artigos recentes que abordam temas relacionados. Compararam-se concepções provenientes da Filosofia e da Psicologia e constataram-se diversos problemas no uso do termo felicidade entre os artigos selecionados.

There is a widespread idea in Psychology texts that the term happiness is not well defined, although it is admitted its importance. On the other hand, in the field of Philosophy, for many centuries its conception is discussed by important philosophers. Thus, this study aimed to investigate conceptions of happiness in the writings of some specific philosophers who addressed the issue to help define this concept in the context of Positive Psychology. To do so, this investigation has an exploratory and qualitative nature, employing the literature review method directed to books of Philosophy and Psychology and to recent articles that discuss the topic. Philosophical and psychological conceptions were compared. It was found that there were many problems in the use of the term happiness among the selected psychology articles.

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Comparações entre Concepções de Felicidade Originárias da Filosofia e da Psicologia Positiva

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE PORTO ALEGRE - UFCSPA DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CURSO DE PSICOLOGIA Leandro Menezes Lopes COMPARAÇÕES ENTRE CONCEPÇÕES DE FELICIDADE ORIGINÁRIAS DA FILOSOFIA E DA PSICOLOGIA POSITIVA Porto Alegre 2012
  2. 2. Leandro Menezes Lopes COMPARAÇÕES ENTRE CONCEPÇÕES DE FELICIDADEORIGINÁRIAS DA FILOSOFIA E DA PSICOLOGIA POSITIVA Trabalho de Conclusão de Curso de graduação apresentado ao Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia. Orientadora: Dra. Ana Carolina da Costa e Fonseca Co-orientadora: Dra. Luciana Karine de Souza Porto Alegre 2012
  3. 3. ATA DE DEFESA DE TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO Leandro Menezes Lopes COMPARAÇÕES ENTRE CONCEPÇÕES DE FELICIDADE ORIGINÁRIAS DA FILOSOFIA E DA PSICOLOGIA POSITIVA Trabalho de Conclusão de Curso de graduação apresentado ao Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia. Orientadora: Dra. Ana Carolina da Costa e Fonseca Co-orientadora: Dra. Luciana Karine de SouzaUNIVERSIDADE FEDERAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE PORTO ALEGRE – UFCSPA Data de Aprovação: __________________________COMPONENTES DA BANCA:Nome: _____________________________________________________________________Titulação: ____________________________ Assinatura: ___________________________Nome: _____________________________________________________________________Titulação: ____________________________ Assinatura: ___________________________Nome: _____________________________________________________________________Titulação: ____________________________ Assinatura: ___________________________Nome: _____________________________________________________________________Titulação: ____________________________ Assinatura: ___________________________
  4. 4. Aos profissionais e aos pacientes que buscam felicidade pela Psicologia. A esses ofereço meu trabalho.
  5. 5. Agradeço veementemente às minhas orientadoras, Ana Carolinae Luciana Karine, pelo apoio, pelo companheirismo, peladisponibilidade, pelas dicas imprescindíveis. Sua ajuda foiessencial para este trabalho. Também agradeço o apoio aos meuspais e à minha namorada, pela compreensão das horas que nãopude passar ao seu lado.
  6. 6. “Olha lá, quem sempre quer vitóriaE perde a glória de chorar” (Los Hermanos – O Vencedor)
  7. 7. RESUMODifunde-se a ideia, em textos de Psicologia, de que o termo felicidade não se encontra bemdefinido, embora se admita a sua importância. Por outro lado, no campo da Filosofia, suaconcepção há muitos séculos é discutida por filósofos importantes. Assim, esta pesquisa temcomo objetivo principal investigar concepções de felicidade em obras de alguns filósofosespecíficos que abordaram o tema para auxiliar a definição desse conceito no contexto daPsicologia Positiva. Para tanto, apresenta natureza exploratória e qualitativa, empregando ométodo da pesquisa bibliográfica, em livros de Filosofia e de Psicologia e em artigos recentesque abordam temas relacionados. Compararam-se concepções provenientes da Filosofia e daPsicologia e constataram-se diversos problemas no uso do termo felicidade entre os artigosselecionados.Palavras-chave: Felicidade. Psicologia Positiva. Filosofia. Conceito. Definição. ABSTRACTThere is a widespread idea in Psychology texts that the term happiness is not well defined,although it is admitted its importance. On the other hand, in the field of Philosophy, for manycenturies its conception is discussed by important philosophers. Thus, this study aimed toinvestigate conceptions of happiness in the writings of some specific philosophers whoaddressed the issue to help define this concept in the context of Positive Psychology. To do so,this investigation has an exploratory and qualitative nature, employing the literature reviewmethod directed to books of Philosophy and Psychology and to recent articles that discuss thetopic. Philosophical and psychological conceptions were compared. It was found that therewere many problems in the use of the term happiness among the selected psychology articles.Keywords: Happiness. Positive Psychology. Philosophy. Concept. Definition.
  8. 8. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO 82 A FELICIDADE PARA HEDONISTAS E EPICURISTAS 123 A FELICIDADE EM ARISTÓTELES 153.1 A VIRTUDE 173.2 O PRAZER 193.3 DELINEAMENTOS FINAIS EM ARISTÓTELES 204 A FELICIDADE NO UTILITARISMO 215 ALGUMAS COMPARAÇÕES ENTRE AS CONCEPÇÕES APRESENTADAS 246 A FELICIDADE NA PSICOLOGIA POSITIVA 276.1 A FELICIDADE SEGUNDO MARTIN SELIGMAN 286.2 A FELICIDADE EM OUTROS AUTORES DA PSICOLOGIA POSITIVA 317 CONCLUSÃO 38
  9. 9. 81 INTRODUÇÃO Atualmente, considera-se a necessidade de a Psicologia se preocupar não apenas comos transtornos mentais, mas também com as forças e qualidades humanas, a fim de visar atornar as pessoas mais felizes. Isso se mostra refletido, inclusive, na noção atual de “saúde” daOrganização Mundial da Saúde (OMS): “um estado de completo bem-estar físico, mental esocial, e não apenas a ausência de doenças ou enfermidades” (OMS, 2012). Nesse âmbito, a Psicologia Positiva vem se consolidando como um movimento queabrange o estudo das emoções positivas, o engajamento total nas atividades, as característicaspessoais virtuosas e os caminhos para a realização e para o significado na vida (HARVARD,2011, p. 2). Como se não bastasse, Seligman (2009, p. 383) destaca a felicidade como oobjetivo da Psicologia Positiva, como se o objetivo desta fosse, em última instância,proporcionar mais felicidade ao ser humano. Entretanto, também afirma que “infelizmente, aocontrário do alívio da depressão, que já conta com manuais passo a passo confiavelmentedocumentados, nosso conhecimento sobre a construção da felicidade é irregular”(SELIGMAN, 2009, p. 24). Dessa forma, é com base nessa carência que esse movimento vemse consolidando. Apesar de todos os esforços para uma ciência capaz de proporcionar mais felicidade àspessoas, existe na literatura certa confusão em relação ao significado de felicidade. Porexemplo, em um livro base de Psicologia Positiva, encontrou-se: “A felicidade é um estadoemocional positivo, subjetivamente definido por uma pessoa. O termo raramente é usado emestudos científicos, pois há pouco consenso em relação a seu significado […]”. E, em seguida,na definição de bem-estar subjetivo: “[…] A expressão bem-estar subjetivo é muito usadacomo sinônimo de felicidade na literatura de Psicologia. Quase sem exceção, a palavrafelicidade, mais acessível, é usada na imprensa popular no lugar da expressão bem-estarsubjetivo” (LOPEZ & SNYDER, 2009b, p. 124). Além disso, encontrou-se que o termo bem-estar subjetivo é preferido por psicólogos em relação ao termo felicidade pela complexidadedo último (AGRAWAL et al., 2010). Porém, felicidade não é o mesmo que bem-estarsubjetivo (RAIBLEY, 2011) e, portanto, precisa-se de pesquisas que se proponham a defini-lamelhor. Quanto a isso, Csikszentmihalyi (1990 apud FERRAZ, TAVARES & ZILBERMAN,2007), um dos grandes expoentes da Psicologia Positiva, observou que, em relação aos gregos de 2.400 anos atrás, embora sejamos muito mais saudáveis, tenhamos uma expectativa de vida muito maior, vivamos cercados de muito mais
  10. 10. 9 conforto e tecnologia e tenhamos acesso a um conhecimento científico muito superior, não sabemos muito mais a respeito da felicidade. Com efeito, as discussões sobre felicidade datam de muito antes de a Psicologia seconsolidar como ciência, o que ocorreu há cerca de 200 anos. Muito antes disso, em umtempo anterior a Cristo, filósofos na Grécia antiga já tratavam desse tema com tamanha ênfasea ponto de postular que a felicidade consistiria na finalidade última do ser humano. Nãoobstante, existem razões para se evocar o ponto de vista dos filósofos para a discussão do queseja a felicidade para a Psicologia? Muitas. Pelo que consta, definições antigas de felicidade(oriundas da Filosofia) tiveram influências claras sobre as visões de estudiosos da Psicologiados séculos XX e XXI (LOPEZ & SNYDER, 2009b, p. 132). Da mesma forma, referindo-seaos filósofos que antecederam os psicólogos no estudo das melhores qualidades dos sereshumanos, incluindo a felicidade, é afirmado (Harvard, 2011, p. 3): “usando ou não o termoPsicologia Positiva, o trabalho de muitos psicólogos atuais e do passado se apoiam sobre seusombros”1. Além disso, sabe-se que a Psicologia moderna baseou-se na Filosofia (e emabordagens científicas) para se consolidar como ciência, reivindicando uma identidadeprópria, como um campo de estudo formal (SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 1); ou seja,antes de ser considerada ciência, constituía-se, entre outras coisas, de estudos de ordemfilosófica. De fato, inclusive, a Filosofia, embora não seja e nem pretenda ser consideradaciência, é considerada a mãe de todas elas, pois foi dela que todos os outros campos de saberse originaram. Antes, era ela que tratava dos diversos temas que hoje são estudados pelasciências. Nesse sentido, deve-se lembrar de que temas da Psicologia também eram tratadospor filósofos desde muito tempo. Platão e Aristóteles, por exemplo, empenhavam-se emexplicar problemas como memória, aprendizagem, motivação, pensamento, percepção,comportamento anormal (SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 1). E esses estudos continuam naFilosofia até tempos atuais. O que diferenciaram essa disciplina da Psicologia moderna emarcaram a independência dessa última e sua classificação como ciência foi a abordagem e astécnicas empregadas (SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 2). Segundo Bosch (2001, p.57-8), as verdades filosóficas são estabelecidas pela razão equalquer um pode verificar a sua legitimidade pela validade dos encadeamentos lógicos. Emcompensação, a ciência, inclusive as ciências humanas, almejam basear-se na experiência. Por1 Tradução livre.
  11. 11. 10exemplo, a visão de ser humano da Psicanálise teve início a partir da observação que Freudteve de seus pacientes. Entretanto, afirma que, é forçoso constatar que os psicólogos não estão todos de acordo entre si, que até se contradizem por vezes violentamente, que se opõem em escolas e capelas rivais […] Isso [sic] parece indicar que não é a experiência que dita as suas teorias, contrariamente ao que pretendem. As suas teorias provêm mais das convicções, de concepções mais gerais, nascidas de especulações de tipo filosófico, e são essas ideias prévias que orientam as suas experiências com vistas [sic] a procurar aí confirmações (BOSCH, 2001, p. 57-8). No contexto em que se encontra esse fragmento de texto, de Bosch (2001), em seulivro “A Filosofia e a Felicidade”, é enfatizada a diferença existente entre as teorias de origemfilosófica e psicológica. Segundo ele, as teorias da Psicologia, após serem concebidas em umâmbito filosófico, para buscar confirmação, fundamentam-se na experiência, e não puramentena lógica, como acontece na Filosofia. Portanto, em um primeiro momento, não se poderiautilizar as descobertas da Psicologia como verdades filosóficas, pois, assim, dever-se-iaacreditar nos experimentos feitos, e não na lógica. Por outro lado, a última frase desse excertorevela, em outras palavras, que é de convicções e concepções mais gerais, provindas daFilosofia, que a Psicologia orienta suas experiências. E isso mostra a relação ainda existenteentre as bases da Psicologia (discussão de conceitos, por exemplo) e a Filosofia e que discutiro termo felicidade, da forma como é visto por essa última, pode tornar-se parâmetro parapesquisas mais bem fundamentadas na área da Psicologia, levando, em última instância, aexperimentos mais precisos. A exemplo disso, Albuquerque & Tróccoli (2004), em um artigosobre o desenvolvimento de uma escala de bem-estar subjetivo, afirmam que, devido à faltade delimitação dos termos relacionados à felicidade (a qual poderia também receber asdenominações: bem-estar subjetivo, satisfação, estado de espírito, afeto positivo), aoperacionalização em termos de medida mostra-se muitas vezes deturpada. Com efeito, viu-se a necessidade de uma pesquisa que, de certa forma, resgatasse aopinião de certos filósofos a respeito do termo em questão. Nesse sentido, o objetivo principaldesta pesquisa foi investigar concepções de felicidade em obras de alguns filósofosespecíficos que abordaram o tema para auxiliar a definição desse conceito no contexto daPsicologia Positiva. Para que fique claro, a Filosofia considera que os principais filósofos queabordaram esse tema foram Aristóteles e os utilitaristas (representados, essencialmente, porJeremy Bentham e John Stuart Mill). Contudo, a Psicologia Positiva também costuma tratarda visão dos hedonistas sobre a felicidade (LOPEZ & SNYDER, 2009b, p. 135). E, como aconcepção dos epicuristas é bastante próxima da dos hedonistas, resolveu-se incluí-la na
  12. 12. 11discussão. Portanto, dentro das concepções de felicidade da Filosofia, serão incluídos oshedonistas, os epicuristas, Aristóteles e os utilitaristas. Para que se pudesse alcançar esseobjetivo, também se recorreu a livros e artigos em Psicologia Positiva para que se pudessemencontrar suas definições de felicidade. Para isso, esta pesquisa teve como objetivos específicos: (1) discutir as concepções defelicidade de filósofos hedonistas, epicuristas, de Aristóteles e dos dois utilitaristas, JeremyBentham e Stuart Mill; (2) comparar essas concepções, determinando convergências edivergências entre elas; (3) buscar alternativas de classificação dessas concepções, conformeas comparações feitas anteriormente; (4) identificar concepções de felicidade predominantesna Psicologia Positiva; (5) comparar criticamente essas concepções entre si, com asconcepções dos filósofos discutidos e com as classificações determinadas anteriormente. Para que se realizassem tais objetivos, a metodologia empregada consistiu em umapesquisa bibliográfica em livros clássicos de Filosofia e de Psicologia e em artigos recentesque abordam temas relacionados. Além disso, deve-se salientar que esta pesquisa tevenatureza exploratória e qualitativa. No parágrafo seguinte, descrevem-se os passos necessáriospara que os objetivos desta pesquisa fossem alcançados. Na próxima seção, aborda-se unicamente a concepção de hedonistas e de epicuristas arespeito da felicidade. Para isso, usou-se como fontes principais o livro A Filosofia e aFelicidade, que se trata de uma obra de um excelente comentador em Filosofia, o livro Cartasobre a Felicidade, do próprio Epicuro, além das seguintes, na internet: BLTC (2012),MOORE (2012), também consideradas fontes seguras, a respeito do hedonismo. Para a seçãoseguinte, para que se entendesse a concepção de Aristóteles, como se trata de um dosprincipais filósofos a abordar o tema, leu-se seu livro Ethica Nicomachea como fonte guia,pois se trata do livro em que ele apresenta sua concepção de felicidade. Na outra seção, fala-se sobre os utilitaristas. E, para isso, utilizou-se o livro de Mill: Utilitarismo. Essa obra buscareformular o utilitarismo desenvolvido anteriormente por Bentham, porém, acrescentando suaconcepção de felicidade de forma bem demarcada. E, ainda, outro texto que se utilizouprimariamente foi um capítulo do livro Justiça: o que é fazer a coisa certa, de Michael Sandel– que é considerado também um excelente comentador – pois, no capítulo, ele explicita outilitarismo de forma resumida, crítica e, inclusive, comparando as concepções de Bentaham eMill. Essas foram, portanto, as obras principais que foram usadas para esta revisão a fim deque se pudessem trazer em discussão as concepções dos filósofos considerados. Em seguida, há uma seção em que se fazem algumas comparações e discussões arespeito do que fora apresentado até então, sobre as concepções oriundas da Filosofia e,
  13. 13. 12depois, há outra em que se apresentam as da Psicologia Positiva, já aproveitando para fazeralgumas comparações com as concepções apresentadas anteriormente. Mais especificamente,primeiro se analisou o livro Felicidade Autêntica, de Martin Seligman – um dos maioresexpoentes nessa área – porque nesse livro é apresentada a concepção que ele tem defelicidade, com base em muitas pesquisas que vêm se desenvolvendo na Psicologia Positiva,de forma abrangente. E, em segundo lugar, fez-se uma pesquisa por artigos de importânciainternacional que tivessem como objetivo perguntar para os participantes se eles são felizes,ou que tratassem sobre felicidade de forma semelhante, esperando-se que, para isso, ospesquisadores teriam que definir o conceito de felicidade que estavam considerando. Caso nãoo definissem diretamente, verificar-se-ia se se poderia identificá-lo na leitura. Com essesartigos, portanto, buscou-se identificar: qual o conceito de felicidade que estava sendo usadopara a pesquisa; se era explícito ou não; se se poderiam fazer comparações com algumaconcepção da Filosofia. O principal meio de pesquisa foi o portal de periódicos da CAPES(www.periodicos.capes.gov.br), buscando assunto com o descritor “happiness psychology”, eempregando-se os seguintes filtros, nesta sequência: inglês; periódicos revisados por pares;“neste assunto: happiness”; “tópico: happiness”; só periódicos; “neste assunto: happiness-psychological aspects”; periódicos revisados por pares. Com isso, restaram 200 artigos. Apesquisa foi realizada no dia 12 de setembro de 2012. Dentre os artigos encontrados,selecionaram-se três deles para análise: o de Babaie, Jain & Cardona (2011); o deLyubomirsky & Lepper (1999); e o de Nawijn (2011). Além dos artigos encontrados por essemeio de procura, também decidiu-se incluir um outro artigo, o de Bentall (1992), por causa darelevância da discussão que se poderia fazer. E, deve-se ressaltar que a ordem de discussãodos artigos não segue a mostrada aqui. Por fim, na sequência, apresenta-se uma última seção,a conclusão, na qual se revisam os principais resultados.2 A FELICIDADE PARA HEDONISTAS E EPICURISTAS O hedonismo consiste em uma doutrina filosófica fundada por Aristipus (435-366a.C.) – discípulo de Sócrates – a qual considera o prazer “como o único bem possível,portanto como o fundamento da vida moral” (ABBAGNANO, 2012, p. 578). Aristipusacreditava que o prazer é o sumo bem e que uma vida boa consistia na crença em que, entre osvalores humanos, o prazer é o maior e a dor é a menor (BLTC, 2012). Em outras palavras,poder-se-ia resumir o hedonismo como uma busca indiscriminada por prazeres. “É preciso
  14. 14. 13procurar o prazer, pois é a sua acumulação que constitui a felicidade” (BOSCH, 2001, p. 79).E, de fato, para os hedonistas, todo o prazer deveria ser buscado e toda dor, evitada. Mais doque isso, para eles, apenas o prazer ou a dor motiva o ser humano a escolher e a agir conformesuas escolhas (MOORE, 2012). A felicidade, portanto, consistiria nessa busca indiscriminadapor prazeres. Para o epicurismo, escola filosófica fundada por Epicuro no ano 306 a.C.(ABBAGNANO, 2012, p. 390), da mesma forma, também é ressaltada a importância doprazer para o ser humano. Entretanto, existem algumas particularidades que o diferenciam dohedonismo. Por exemplo, para Epicuro, [e]mbora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. […] Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. (EPICURO, 2002, p. 37-9). Como se percebe, os epicuristas, diferentemente dos hedonistas, enfatizam umadiscriminação entre prazeres. O objetivo é o mesmo, a felicidade. Contudo, a forma dealcançá-la é diferente. Essa forma depende muito de como lidam com os desejos. Para oshedonistas, todo desejo deve ser saciado, gerando prazer. Entretanto, para os epicuristas,dever-se-ia controlá-los, moderá-los, evitando os desnecessários, pois, quanto mais desejos,maior torna-se a probabilidade de sua não satisfação, o que geraria desprazer e, portanto,infelicidade (BOSCH, 2001, p. 79-86). Assim, inclusive, enfatizam a autossuficiência comoum grande bem. Como diz Epicuro, “não que devamos nos satisfazer com pouco, mas paranos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito” (EPICURO, 2002, p. 41). Parase alcançar a felicidade, portanto, deve-se, […] passar os desejos pelo crivo da razão e eliminar impiedosamente todos aqueles que não são naturais e necessários, todos os que são vãos, artificiais, supérfluos ou excessivos. Então seremos sábios e alcançaremos a ataraxia […], o estado de ausência de perturbação na alma, ou seja, a felicidade (BOSCH, 2002, p. 84). Em outras palavras, enquanto que no hedonismo poderíamos entender a felicidadecomo uma soma indiscriminada de prazeres (saciação de um montante de necessidades e dedesejos), no epicurismo a felicidade poderia ser definida como um estado de não perturbaçãoem relação a desejos e a necessidades, o qual é chamado de ataraxia. E, além disso, éimportante ressaltar que, para essas duas doutrinas, a felicidade só é alcançada quando todas
  15. 15. 14essas condições apresentadas são cumpridas. Enquanto isso não se torna realizado, a pessoaainda é tida como não feliz. Como seres humanos, não se pode negar que se tenham necessidades. Todavia,algumas são necessárias à sobrevivência. Essas podem ser supridas sem problema algum,segundo os epicuristas. Mais do que isso, diz Epicuro, diante da oferta de um banquete, nãohaveria problema em desfrutá-lo, isso não seria errado. O problema mesmo constituir-se-ia naformação de desejos antecipados, como o de desfrutar do tal banquete exemplificado antesque se o tenha sido ofertado, ou, em tempos modernos, possuir um automóvel novo, ou serpromovido dentro da empresa. A felicidade, portanto, para os epicuristas, construir-se-ia pelaabstinência dos desejos. Não todos os desejos, como fora dito, mas todos os desejos vãos,artificiais, supérfluos ou excessivos. A ideia de que às vezes devemos resistir a certas dores visando a prazeres maiores nofuturo, ou de que devemos evitar certos prazeres para não passar por dores maiores, é um dosmotivos que faz com que o epicurismo seja mais bem recebido pela Filosofia do que ohedonismo. De fato, atualmente, pode-se ainda referir a uma ideia ou doutrina comohedonista, porém, comparando-a como semelhante, por algum aspecto. Por exemplo, pode-sedizer que os utilitaristas apresentam ideias hedonistas, porque consideram a felicidade comouma soma de prazeres menos a soma das dores. Com efeito, como nesse caso, os hedonistastornam-se os mais comparados, embora, como visto, não sejam os mais louvados dentro daFilosofia, quando o assunto é felicidade. Sem embargo, tanto uma quanto outra doutrina apresentam críticas para a Filosofia.Enquanto que, como visto, o hedonismo torna-se criticado por suscitar uma buscaindiscriminada de prazeres – por não reconhecer que às vezes se possa preferir as dores ouevitar certos prazeres – o epicurismo é criticado essencialmente porque ressalta uma buscapela felicidade pela recusa de muitas satisfações, entre outros motivos. Segundo Bosch (2002,p. 85), por exemplo, “a sua doutrina pode […] evitar-nos o sofrimento, mas não dar-nos umafelicidade real”. Ainda segundo ele, “não […] parece razoável que se possa constituir umafelicidade com uma série de recusas de satisfação” (p. 85). E, além disso, o mesmo autortambém se pergunta se a razão teria mesmo poder para suprimir tais desejos. Essas são asprincipais críticas com que essas doutrinas se deparam. Contudo, nem por isso perdem seuvalor histórico ou filosófico, pois fazem parte da constituição de pensamentos posteriores e,mais do que isso, conforme mostra-se neste trabalho, podem auxiliar no entendimento doconceito de felicidade.
  16. 16. 153 A FELICIDADE EM ARISTÓTELES Outro filósofo a abordar a concepção de felicidade2 foi Aristóteles. Tendo sidodiscípulo de Platão, suas teorias, em algum ponto, divergiram das do mestre. E compreenderessa divergência torna-se elemento fundamental para se identificar de onde partiram suasconcepções a respeito da felicidade. Conforme as ideias de Platão3, o mundo que percebemos pelos sentidos é instável evariável, mudando de acordo com os pontos de vista e as circunstâncias. Porém, no mundointeligível – o mundo de nossas ideias – existem essências, ou Ideias, que são perfeitas. Porexemplo, podemos ver vários cavalos, de várias cores e tamanhos, mas nunca nosconfundiríamos de que se tratam de cavalos. Segundo ele, as Ideias seriam únicas e imutáveis,existindo verdadeiramente e de forma anterior ao mundo sensível. Portanto, a ciência deveriase preocupar em desvendar essas essências, pela observação do mundo sensível (ABRÃO,1999, p. 49-51). Por outro lado, Aristóteles afirma que, com a percepção do mundo sensível,com sua multiplicidade característica, o ser humano abstrairia aspectos comuns ou conceitosuniversais entre certos elementos e, assim, formar-se-iam as Ideias: cavalos, pássaros, árvores(ABRÃO, 1999, p. 55-7). Essa divergência, a qual poderia constituir-se pela observação domundo sensível, acaba por definir em grande parte seu pensamento. Por exemplo, quanto àfelicidade: Diferem, porém, quanto ao que seja a felicidade, e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios. Os primeiros pensam que seja alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, muito embora discordem entre si; e não raro o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, com a saúde quando está doente, e com a riqueza quando é pobre (EN 1, 1095a20-25). A partir de uma primeira observação das variedades de opiniões a respeito do quedizem sobre a felicidade, Aristóteles dá início a uma argumentação lógica, com o intuito dedescobrir a verdadeira essência da felicidade (caso exista), ou seja, como se poderia defini-la.Da mesma forma como no exemplo, no início de sua argumentação, as observações do mundosensível lhe levaram à premissa de que toda arte, investigação, ação e escolha tem em miraum bem qualquer, ou seja, uma finalidade (EN 1, 1094a1-5). O fim da arte médica, porexemplo, é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o daeconomia é a riqueza. Contudo, algumas artes se incluem em terceiras, como a selaria, que,2 Considera-se a palavra felicidade uma boa tradução do termo grego eudaimonia, o qual, no entanto, costuma ser empregado de forma não traduzida em alguns artigos sobre o tema (SPINELLI, 2005, p. 190-3).3 Ideias apresentadas no Livro VII de A República, iniciando-se pelo Mito da Caverna (Platão, 514a-541b).
  17. 17. 16em conjunto com outras artes que se ocupam dos aprestos dos cavalos, se incluem na arte daequitação; e esta, com outras ações militares, que se incluem na estratégia. Assim, em todaselas, devem-se preferir os fins das artes fundamentais a todos os fins das artes subordinadas(EN 1, 1094a5-15). Dessa forma, ter-se-ia um encadeamento de finalidades e de bens desde osmenos importantes – subordinados – até os mais fundamentais. Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem (EN 1, 1094a15-25). Neste momento, alguns comentadores considerariam que Aristóteles cometeu umafalácia, a de afirmar que os vários encadeamentos de finalidades convergiriam para um sóponto, ao invés de poderem convergir para mais de um. No entanto, Spinelli (2005, p. 10-4)mostra que, apesar de parecer, mais adiante, em sua argumentação, Aristóteles considera simessa possibilidade; por exemplo, no trecho: “Por conseguinte, se existe uma finalidade paratudo o que fazemos, essa será o bem realizável mediante a ação; e, se há mais de uma, serãoos bens realizáveis através dela (EN 1, 1097a20-25)” Um pouco mais adiante, Aristóteles identifica o sumo bem com a Felicidade, porque,dentre outras finalidades, ela é absoluta (e incondicional), pois é sempre procurada com vistasa si mesma, e nunca a outras, enquanto que outras finalidades, como a honra, o prazer, arazão, são buscadas tendo vistas não somente a si mesmas, mas também à felicidade, pois sepensa que de posse delas seremos mais felizes (EN 1, 1097a30–1097b10). Também porque elaé autossuficiente, já que, definindo esse adjetivo por “aquilo que, em si mesmo, torna a vidadesejável e carente de nada”, assim se a considera. E, inclusive, porque se diz que ela seria amais desejável de todas as coisas (EN 1, 1097b10-20). A partir de então, torna-se necessário definir a felicidade, e inicia-se esse processo.Para tanto, seria mais fácil se se pudesse determinar primeiro qual a função do ser humano.Por exemplo: se a função do olho é olhar, então, sua finalidade será mais bem alcançadaquanto melhor ele puder exercer essa função. Um tecelão será um melhor tecelão quantomelhor exercer sua atividade. Portanto, se existe uma função inerente ao ser humano, o sumobem inerente a ele (ou a suas ações) será a melhor execução de suas funções (EN 1, 1097b20-1098a1). Além disso, considera-se que um bom ser humano é aquele que realiza bem suasfunções, o mesmo se dizendo em relação ao olho, ao carpinteiro, ao escultor.
  18. 18. 17 Portanto, considerando a felicidade como o sumo bem, então, uma forma de sealcançá-la seria a boa realização das funções inerentes ao ser humano. Para descobrir quaisseriam essas funções, Aristóteles examina o que diferencia o ser humano dos outros seresvivos. Diz-se, pois, que a vida de nutrição e de crescimento é comum às plantas, aos animais eaos seres humanos. A vida de percepção não ocorre nas plantas, mas nos outros dois.Seguindo este raciocínio, chega-se a conclusão de que “a função do homem é uma atividadeda alma que segue ou que implica um princípio racional” (EN 1, 1097b30-1098a10). Ou seja,as funções inerentes às plantas e aos animais também as são para o ser humano, porém, paraeste, o “princípio racional” caracteriza-o particularmente.3.1 A VIRTUDE A virtude, então, é apontada por ele como o meio de alcançar a completude dessadiferenciação dos outros seres vivos. Isso porque ela consiste justamente na disposição decaráter que torna bom o ser humano e que o faz desempenhar bem sua função (EN 2,1106a20-25). Ou melhor, o termo virtude se refere justamente a esse estado de “bomfuncionamento”. Já o termo caráter refere-se às virtudes ou aos vícios morais de um serhumano. Dessa forma, uma disposição de caráter seria o conjunto de virtudes e de vícios queele apresenta. Por fim, o termo “morais” se refere a um dos tipos da virtude, já que há dois:virtudes intelectuais e virtudes morais (EN 1, 1103a1-10). Conforme Aristóteles, […] entre as primeiras temos a sabedoria filosófica, a compreensão, a sabedoria prática; entre as segundas, por exemplo, a liberalidade, a temperança. Com efeito, ao falar do caráter de um homem não dizemos que ele é sábio ou que possui entendimento, mas que é calmo ou temperante (EN 1, 1103a1-10). Diz-se que “a primeira, por via de regra, gera-se e cresce graças ao ensino – por issorequer experiência e tempo; enquanto a segunda é adquirida em resultado do hábito” (EN 2,1103a15-20). Com essas definições, pode-se ter ideia da amplitude do que se tem por“princípio racional”, conforme citado. As virtudes são destruídas pela falta ou pelo excesso das paixões ou ações a elasrelacionadas (EN 2, 1104a10-15). Por exemplo, alguém que tem medo de tudo, torna-se umcovarde, podendo deixar de alcançar certos benefícios, entre outras desvantagens; alguém quenão teme nada, torna-se um temerário, podendo colocar-se em situações de risco semnecessidade e de forma muito frequente. Portanto, determina-se que existe uma mediania (ou
  19. 19. 18meio-termo) entre esses dois extremos que torna o ser humano bom e, quem a alcança, nessasituação, é tido como corajoso (EN 2, 1104a20-25). Não obstante, é importante ainda salientarque essa mediania não é geométrica, equidistante dos dois extremos. Com efeito, ela podevariar de acordo com casos particulares. Um exemplo mais visível acontece em relação à saúde. Comer ou beber demais ou demenos prejudicam-na. Nesse caso, dever-se-lo-ia fazer moderadamente, ou seja, encontraruma mediania (EN 2, 1104a15-20). Lê-se ainda em Aristóteles que, […] tanto o medo como a confiança, o apetite, a ira, a compaixão, e em geral o prazer e a dor, podem ser sentidos em excesso ou em grau insuficiente; e, num caso como no outro, isso é um mal. Mas senti-los na ocasião apropriada, com referência aos objetos apropriados, para com as pessoas apropriadas, pelo motivo e da maneira conveniente, nisso consistem o meio-termo e a excelência característicos da virtude. (EN 2, 1106b15-25). Contudo, nem toda paixão ou ação apresentam um meio-termo, pois alguns têm nomesque por si já implicam excesso ou escassez, como se observa com estes: inveja, adultério,furto, doença. Paralelamente, não existe meio-termo de excesso, nem excesso de excesso, nemcarência de carência, nem excesso de meio-termo. Não existe, por exemplo, excesso decoragem, pois a coragem já é considerada um meio-termo (EN 2, 1107a5-30). Logo, para se alcançar a felicidade, é preciso visar ao meio-termo (em outras palavras,à virtude). E essa pode se tornar uma tarefa consideravelmente difícil. Porém, uma maneira dese facilitar esse impasse consiste em, estando em um dos extremos, visar ao extremo oposto“[...] porque chegaremos ao estado intermediário afastando-nos o mais que pudermos do erro,como procedem aqueles que procuram endireitar varas tortas” (EN 2, 1109b5-10). Contudo,esse processo não é tão simples quanto parece. Como afirma Aristóteles, Não há negar [sic], porém, que isso seja difícil, especialmente nos casos particulares: pois quem poderá determinar com precisão de que modo, com quem, em resposta a que provocação e durante quanto tempo devemos encolerizar-nos? E às vezes louvamos os que ficam aquém da medida, qualificando-os de calmos, e outras vezes louvamos os que se encolerizam, chamando-os de varonis. Não se censura, contudo, o homem que se desvia um pouco da bondade, quer no sentido de menos, quer do mais; só merece reproche o homem cujo desvio é maior, pois esse nunca passa despercebido. Mas até que ponto um homem pode desviar-se sem merecer censura? Isso não é fácil de determinar pelo raciocínio, como tudo que seja percebido pelos sentidos; tais coisas dependem de circunstâncias particulares, e quem decide é a percepção (EN 2, 1109b 10-25). Novamente, observa-se uma divergência entre as suas ideias e as de Platão, maisespecificamente em relação à importância dada às circunstâncias particulares. Para Platão, as
  20. 20. 19circunstâncias particulares tratar-se-iam apenas de imperfeições do mundo sensível. ParaAristóteles, é justamente pela análise das circunstâncias particulares que se descobre averdade.3.2 O PRAZER O entendimento do prazer, para Aristóteles, torna-se de suma importância para acompreensão da concepção de felicidade em sua obra, porquanto as virtudes dizem respeito aações e paixões, e cada paixão e cada ação é acompanhada de prazer ou de dor (EN 2,1104b10-20). Nesse sentido, deve-se tomar como sinais indicativos do caráter o prazer ou ador que acompanham os atos (EN 2, 1104b1-10). Ou seja, de acordo com o prazer ou a dorque alguém sinta com referência a certas ações ou paixões, poder-se-ia caracterizar parte deseu caráter (bravo, espirituoso, jactancioso, obsequioso, irascível). Todavia, deve-se notar queo prazer encontra-se bastante diferenciado da virtude e, portanto, também da felicidade. Ora, assim como as atividades diferem com respeito à bondade ou maldade, e umas são dignas de escolha, outras devem ser evitadas e outras ainda são neutras, o mesmo sucede com os prazeres, pois cada atividade tem o seu prazer próprio. O prazer próprio a uma atividade digna é bom, e o próprio a uma atividade indigna é mau, assim como os apetites que têm objetos nobres são louváveis e os que têm objetos vis são culpáveis (EN 10, 1175b20-30). Aristóteles deixa claro aqui que nem todo prazer é bom: portanto, prazer e virtude sãocoisas distintas. Vê-se também que, inevitavelmente, na busca pelos prazeres cotidianos deve-se almejar consonância com a virtude moral. Em relação a isso, é importante salientar quenem todos buscam o mesmo prazer (EN 7, 1153b25-35) e que “o homem mau é mau porbuscar o excesso e não por buscar os prazeres necessários (pois todos os homens deleitam-sede um modo ou de outro com acepipes saborosos, com vinhos e com a união sexual, mas nemtodos o fazem como devem)” (EN 7, 1154a15-20). Além disso, os prazeres diferem entre espécies diferentes de animais e num grau nãopequeno entre os de uma mesma, pelo menos no caso dos seres humanos (EN 10, 1176a5-15).“Mas em todas as coisas, o que parece a um homem bom é considerado como sendorealmente tal” (EN 10, 1176a15-20). O que Aristóteles afirma com isso é, em outras palavras(assim como também é citado explicitamente no texto), que o homem bom (virtuoso) é amedida de todas as coisas; seus prazeres são sentidos pelas ações ou paixões apropriadas, omesmo acontecendo em relação às dores. Ele se comprazeria com ações e paixões nobres e
  21. 21. 20louváveis, enquanto que, por outro lado, o vicioso não sentiria o mesmo por isso e nasmesmas situações (EN 10, 1176a15-30).3.3 DELINEAMENTOS FINAIS EM ARISTÓTELES Para Aristóteles, é tendo em vista a felicidade que fazemos tudo o que fazemos (EN 1,1102a1-5). Uma pessoa feliz, para ele, é uma pessoa virtuosa. E essa, por suas virtudes,encontrará prazeres em ações e paixões virtuosas. Já quem não se encontra nesse estadovirtuoso, ao procurar pelos prazeres da vida, somente encontrará os referentes a sua própriadisposição de caráter. Por exemplo, uma pessoa vaidosa, para Aristóteles, é quem não éhumilde, dizendo-se de forma simples. É o extremo do excesso em relação à magnanimidade.Essa pessoa, ao buscar por prazeres, certamente se compraz com ações e paixões que refletemnovamente sua vaidade. Portanto, cada um busca os prazeres típicos de sua disposição decaráter, os quais, com efeito, vêm em companhia das escolhas das ações e das paixões que sefaz. Isso parece um círculo vicioso, mas não é. A saída, como referido, é a busca pelo extremooposto, ou mesmo pela mediania, assim forjando um caráter virtuoso dia após dia, emboraessa mudança de comportamento, pelo menos no início, possa ser contra a geração de prazerno indivíduo. Também é importante salientar que Aristóteles considera certos fatores externos parase tornar uma pessoa feliz, como certa quantia de amigos (EN 8, 1158a10-20) – de preferênciaamigos bons, porque “a companhia dos bons também nos oferece um certo adestramento navirtude, como disse Teógnis antes de nós” – e uma certa quantia de bens exteriores. Enfim, sese pudesse resumir em uma só frase, poder-se-ia dizer que, para Aristóteles, “a felicidade éuma atividade da alma conforme a virtude perfeita” (EN 1, 1102a5-10). Além disso, “épreciso adjuntar numa vida completa. Porquanto uma andorinha não faz verão, nem um diatampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço de tempo, não faz um homem felize venturoso” (EN 1, 1098a15-20). Igualmente, “a felicidade – aquilo que todo homem quer –não é, ele insiste, consequência ou resultado do esforço de toda uma vida; não é algo que seantecipa (como uma aprazível aposentadoria); é, antes, uma vida agradável e digna em suatotalidade” (ZINGANO, 2010, p. 108). Em outras palavras, é até possível levar uma vidaagradável e não ser feliz, mas não é possível se ter uma vida feliz que não seja agradável.
  22. 22. 214 A FELICIDADE NO UTILITARISMO O Utilitarismo, dos séculos XVIII e XIX, consistiu em outra forte corrente filosóficaque se valeu do termo felicidade para sua consolidação, tendo seus dois maiores expoentes emJeremy Bentham e John Stuart Mill. Embora haja algumas divergências teóricas entre essesautores, a principal característica do utilitarismo que se poderia apontar, em relação àconcepção de felicidade, é que esta se encontra estreitamente ligada à concepção de prazer. Conforme Bentham, os sentimentos de prazer e de dor governam o ser humano,determinando o que devemos ou não fazer, e, dessa forma, os conceitos de certo ou errado“deles advêm” (BENTHAM, 1789 apud SANDEL, 2011, p. 48). Com esse raciocínio, afirmaque o que se deve fazer é maximizar a utilidade, entendendo-se por utilidade qualquer coisaque produza prazer ou felicidade e que evite a dor ou o sofrimento. Além disso, em um âmbitomaior, tem-se que um governante ou um legislador deveria pensar sempre que a decisão certaa tomar seria a de proporcionar isso para o maior número de pessoas (SANDEL, 2011, p. 48).Essas ideias representam a base do pensamento utilitarista. Igualmente, é importante salientar que o utilitarismo, por influência do contextohistórico em que se inseria (o positivismo, principalmente), almejava tornar a ética umaciência tão exata quanto a matemática (ABBAGNANO, 2012, p. 1172). Dessa forma, em suasanálises de moral, apenas levava em consideração aspectos quantitativos de prazer e dor,como intensidade, frequência, não propondo qualquer diferença qualitativa entre as partes.Inclusive, permitia estipular valores monetários para prazeres ou dores. Dessa base matemática que decorre sua concepção de felicidade, a qual é tida como oresultado da soma dos prazeres envolvidos, subtraindo-se as dores. Para ele, “o mais elevadoobjetivo da moral é maximizar a felicidade, assegurando a hegemonia do prazer sobre a dor”.E isso se torna aplicável não apenas para o ser humano individualmente, mas para acomunidade, já que ele a tinha como “um corpo fictício, formado pela soma dos indivíduosque abrange”. (SANDEL, 2011, p. 48). Entretanto, um dos problemas apontados em suasteorias é não levar em consideração a felicidade em longo prazo. E esse é um ponto que JohnStuart Mill pretendeu acrescentar ao Utilitarismo (SANDEL, 2011, p. 64-5). Uma crítica ao modelo utilitarista era que seria correto, por essas teorias, reprimir umaseita minoritária, no caso de a maioria da sociedade rejeitá-la e querer extingui-la. Emboracausasse infelicidade para uma minoria, no cálculo total, a sociedade seria beneficiada.Contudo, em seu livro On Liberty (1859), Mill pretendeu resolver esse problema (SANDEL,2011, p. 64).
  23. 23. 22 Mill acredita que devamos maximizar a utilidade em longo prazo, e não caso a caso. Com o tempo, argumenta, o respeito à liberdade individual levará à máxima felicidade humana. Permitir que a maioria se imponha aos dissidentes ou censure os livre-pensadores pode maximizar a utilidade hoje, porém tornará a sociedade pior – e menos feliz – no longo prazo. (SANDEL, 2011, p. 65). Essa característica de considerar a felicidade no longo prazo é uma dentre outrasdiferenças apresentadas entre suas teorias e as de Bentham. Contudo, essa, em particular,mostra-se como de grande relevância para a diferença entre a concepção de felicidade dosdois autores. Outra crítica relevante era que o utilitarismo, por afirmar que a vida não teria nenhumafinalidade maior que o prazer, representaria a vida como “desprezível e baixa; como umadoutrina digna apenas dos suínos” (MILL, 2007, p. 22). A resposta de Mill para essa críticaconsiste em que cada animal teria certo grau de faculdades mentais diferente dos outros.Assim, cada animal exigiria diferentes necessidades de prazeres para a sua felicidade.Paralelamente, afirmava que existem diferenças de qualidade entre os prazeres. Paradeterminar essa diferença, escreve: De dois prazeres, se houver um que todos que experimentaram de ambos dão uma preferência clara, independente de qualquer sentimento de obrigação moral para preferi-lo, este será o prazer mais desejável. Se um dos dois prazeres, por aqueles que estão inteirados de ambos de forma competente, é colocado bem acima daquele que eles preferem, mesmo embora sabendo que ele está ligado a uma quantidade maior de descontentamento, e não renunciam a ele por mais que sua natureza seja suscetível de experimentar grande quantidade do outro prazer, temos razão em atribuir ao prazer preferido uma superioridade em termos de qualidade, pois a quantidade foi de tal forma subestimada que, comparativamente, tornou-se de pequena importância. (MILL, 2007, p. 24). Os indivíduos, portanto, preferem os prazeres qualitativamente melhores. E isso setorna mais um dado na constituição do conceito de felicidade para Mill, a diferenciaçãoqualitativa entre prazeres, algo que não havia nas ideias de Bentham. Para este, “prazer éprazer e dor é dor. A única base para se considerar uma experiência melhor ou pior do queoutra são a intensidade e a duração do prazer ou da dor que ela ocasiona” (SANDEL, 2011, p.67); ou seja, por razões quantitativas, como visto. Por outro lado, inclusive, Mill afirma que“os escritores utilitaristas em geral reconheceram a superioridade dos prazeres mentais sobreos corpóreos principalmente pela maior permanência, segurança, pelo menor custo etc., dosprimeiros – ou seja, por suas vantagens circunstanciais mais do que por sua naturezaintrínseca” (MILL, 2007, p. 23).
  24. 24. 23 Em relação à observação da diferença de qualidade existente entre prazeres, Millafirma que os indivíduos preferem os prazeres que “dão vida” a suas faculdades maiselevadas. Não que isso sempre ocorra, pois, de fato, ocasionalmente, sob influência detentações ou por fraqueza de caráter, buscam-se prazeres mais inferiores. De qualquer forma,as pessoas de faculdades superiores necessitariam de mais para ser feliz e seriam maissuscetíveis ao sofrimento do que as de faculdades inferiores. Contudo, devido ao que Millchama de senso de dignidade, ninguém preferiria rebaixar-se a um ser inferior a si. Mesmoque um ser de faculdades superiores não se sinta nunca “perfeitamente feliz”, ele torna-secapaz de aprender a suportar suas imperfeições e, por esse motivo, não invejará o outro, que éinconsciente de suas imperfeições e que não sente absolutamente o bem que elas lheproporcionariam. A partir disso, Mill apresenta sua célere frase: “É melhor ser um ser humanoinsatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolosatisfeito” (MILL, 2007, p. 24-6). Quanto a isso, é importante salientar que Mill diferencia satisfação de felicidade.Satisfação seria ter suas necessidades satisfeitas, completas. Um porco, por exemplo,necessita de muito pouco: comida, água. Um tolo necessita menos do que Sócrates. Noentanto, Sócrates poderia ou não ser mais feliz do que tal tolo, dependendo de como lidasseconsigo mesmo. Se não aprendesse a lidar com suas imperfeições (as quais consistiriam emcertas necessidades que dificilmente se tornariam completas), poderia ter uma vida com maisdores do que prazeres e, dessa forma, tornar-se-ia mais infeliz do que o tolo (MILL, 2007, p.25). Outra especificação importante para a concepção de felicidade é que esta, para Mill,evidentemente não se constitui como “a continuidade de um arrebatamento altamenteprazeroso”, pois isso seria impossível (MILL, 2007, p. 29). Quanto a isso, afirma: Um estado de prazer exaltado dura apenas alguns instantes ou, em alguns casos, e com algumas intermissões, horas ou dias, e é o lampejo ocasional de prazer, não sua chama permanente e constante. Disso os filósofos que professam que a felicidade é a finalidade da vida estavam tão plenamente cientes quanto aqueles que os trataram com sarcasmo. A felicidade a qual se referiam não era de uma vida de êxtase; mas momentos de êxtase, em uma existência feita de poucas dores transitórias, de tantos e vários prazeres, com uma predominância clara do ativo sobre o passivo, e fundada, no conjunto, sobre o fato de não esperar da vida mais do que ela é capaz de conceder. (MILL, 2007, p. 29). Como se não bastasse, semelhantemente a Aristóteles, Mill afirma que a doutrinautilitarista vê a felicidade como “a única coisa desejável como finalidade; todas as outrascoisas seriam apenas desejáveis como meio para tal finalidade” (MILL, 2007, p. 55).
  25. 25. 24Inclusive, defende, em nome dos utilitaristas, que há outras coisas desejáveis e até desejáveispor si só, como a virtude, elemento bastante destacado. Sem embargo, declara que esseselementos não apenas tornam-se desejáveis como meio para se alcançar a felicidade, comotambém fazem parte dela (MILL, 2007, p. 56-7). Assim, por exemplo, dever-se-ia viverbuscando elementos como a virtude, a saúde, a música, não apenas esperando que eles seconstituam como um passo em direção à felicidade, mas os tendo como partes da própriafelicidade; ou melhor, o que Mill aponta é para uma vivência da felicidade no presente.5 ALGUMAS COMPARAÇÕES ENTRE AS CONCEPÇÕES APRESENTADAS A primeira observação que se pode fazer em relação às concepções de felicidade dosautores abordados é que a concepção de prazer ou encontra-se diretamente relacionada, ouapenas influi parcialmente para a felicidade humana. Para hedonistas e epicuristas, felicidadepoderia ser definida pela maximização dos prazeres e minimização das dores (HARVARD,2011, p. 2). Entendendo o termo dor como o contrário de prazer, então, o prazer assumeimportância central nessa definição. Mesmo assim, é preciso salientar que, para epicuristas,deve-se buscar apenas prazeres naturais, estritamente necessários, ou necessários para asobrevivência, pois, a cada desejo, está-se criando a possibilidade de sua não realização, o quenos tornaria mais infelizes (BOSCH, 2001, p. 79-86), e não mais felizes, como desejado.Todavia, é por essa diferenciação que se criticam os epicuristas, pois, diz-se que sua doutrinapode evitar-nos o sofrimento, mas não nos dar uma felicidade real (BOSCH, 2001, p. 85). Jáos hedonistas seriam os que mais se aproximariam da condição humana, pelo fato dealmejarem a saciedade indiscriminada de seus desejos. O mesmo se pode dizer que ocorre na definição utilitarista quanto à importância doprazer para a definição de felicidade. Uma diferença consiste em que, para essa, o bem nãoestá no prazer individual, mas no prazer do “maior número possível de pessoas”, ou seja, nautilidade social (ABBAGNANO, 2012, p. 578; HARVARD, 2011, p. 2). Além disso, adefinição utilitarista se afasta da epicurista na medida em que busca ampliar os prazerespositivos sem limitação de desejos. Para Aristóteles, por outro lado, tem-se o conceito de felicidade como relacionado àvirtude. Para ele, um ser humano feliz é um ser humano virtuoso, embora também admita quesejam necessários certos fatores externos, como certa quantia de amigos e de bens. O prazer,nesse contexto, só é considerado bom quando relacionado a atividades dignas, ou melhor,quando em consonância com a virtude moral. Dessa forma, o termo felicidade, para ele, torna-
  26. 26. 25se bastante distinto em relação ao ponto de vista de hedonistas, epicuristas e utilitaristas.Outra diferença ressalta-se em relação a Bentham, pois este não diferencia qualitativamente oprazer. Para ele, não há prazeres mais nobres e outros menos, mas prazeres com mais oumenos intensidade e duração (SANDEL, 2011, p. 67). Resumindo, dentre as teorias analisadas, provenientes da Filosofia, existe apossibilidade de separá-las em duas categorias, de acordo com a relação entre felicidade eprazer: (1) as que se relacionam diretamente com o prazer – hedonistas, epicuristas,utilitaristas – e (2) as que se relacionam parcialmente – Aristóteles. Todavia, deve-se lembrarde que esses exemplos são só os das teorias analisadas nesta pesquisa e, também, que, paraqualquer divisão que se faça, não se deve esquecer que toda teoria tem suas peculiaridades, ouseja, toda divisão tem suas imperfeições. Assim, poder-se-ia questionar: se a segunda partedessa divisão, para a qual só oferecemos como exemplo Aristóteles, relaciona-se parcialmentecom o prazer, com que mais se relacionaria? Ou ainda, com que se relacionaria melhor? Em livros de Psicologia Positiva (LOPEZ & SNYDER, 2009a, p. 189; LOPEZ &SNYDER, 2009b, p. 133), encontrou-se uma forma diferente de divisão das teorias a respeitoda felicidade, da qual é dito que pesquisadores contemporâneos da Psicologia têm usado. Essadivisão se dá da seguinte forma: (1) Teorias da satisfação de necessidades e objetivos; (2) Teorias de processo/atividade; (3) Teorias de predisposição genética/personalidade As primeiras podem ser descritas como as que acreditam que a felicidade é umobjetivo a ser alcançado. Para essa categoria, citaram-se como exemplo as teorias de Freud ede Maslow, teóricos da Psicanálise e do Humanismo, respectivamente. Segundo os livros emquestão, esses teóricos sugeriram que a redução de tensões ou a satisfação de necessidadeslevaria a felicidade. As segundas consistem naquelas que acreditam que a felicidade faz-sevivenciada (e não alcançada) por certas atividades em que se envolve na vida. Como exemplodessas teorias, citaram-se as pesquisas de Mihaly Csikszentmihalyi sobre flow4. Por fim, asterceiras tendem a ver a felicidade como algo estável, pré-definida em cada indivíduo pelagenética ou personalidade. Contudo, estudos de determinantes biológicos ou genéticos dafelicidade concluíram que até 40% da emocionalidade positiva e 55% da negativa encontrambases genéticas (Tellegen et al., 1988 apud LOPEZ & SNYDER, 2009b, p. 133). O restante,portanto, não se atribuiria a esses fatores. Esses foram os exemplos citados nos livros, mas4 Esse conceito será mais bem discutido mais adiante, na seção referente à Psicologia Positiva.
  27. 27. 26não é objetivo dessa pesquisa fazer uma análise aprofundada desses teóricos. Por outro lado,poder-se-ia empregar essa forma de classificação para enquadrar as teorias da Filosofia queforam apresentadas até então. Para começar, as concepções epicuristas e hedonistas enquadram-se nitidamente entreas teorias da satisfação de necessidades e objetivos, pois preconizam que o ser humano devabuscar a total satisfação de seus desejos para alcançar a felicidade. Ou seja, qualquer desejonão satisfeito faz com que não se tenha alcançado esse estado (BOSCH, 2001, p. 79-86). Já aconcepção dos utilitaristas, embora também se relacione diretamente com o prazer, como foraapresentado, destaca-se das anteriores porque considera que todos os elementos desejáveispelo homem como tendo vistas à felicidade, como as virtudes, os prazeres, a saúde, nãoapenas consistem em meios para se alcançar a felicidade, mas também são partes da própriafelicidade. Para eles, “os ingredientes da felicidade são muitos e cada um deles é em si algodesejável, e não simplesmente quando considerado algo que contribui para a formação de umagregado” (MILL, 2007, p. 56-7). Isso é o que se apresentou no último parágrafo referente aosutilitaristas. Ao contrário das teorias anteriores, não seria um prazer a menos ou uma dor amais que impediria um ser humano de ser considerado feliz. Portanto, parece fazer sentidoenquadrar os utilitaristas entre as teorias de processo ou atividade. Para Aristóteles, da mesmaforma, a verdadeira felicidade não deve ser buscada como um objetivo a ser alcançado, mas,deve ser vivenciada virtuosamente ao longo de toda uma vida. Como ele mesmo resume: “afelicidade é uma atividade da alma conforme a virtude perfeita” (EN 1, 1102a5-10) e ao longode toda uma vida (EN 1, 1098a15-20). Portanto, percebe-se que a concepção de felicidade emAristóteles poderia ser enquadrada entre as teorias de processo ou atividade. Resumindo,obtém-se o seguinte arranjamento: (1) epicuristas, hedonistas; (2) utilitaristas, Aristóteles; (3) nenhuma das apresentadas. Sem embargo, apesar das divergências observadas e discutidas nessas teorias, todaselas concordam em que o conceito de felicidade difere de um estado passageiro como umaalegria momentânea. Em outras palavras, quando se pergunta para alguém: “você está feliz?”ou “você está feliz agora?” e essa pessoa responde que sim, muito provavelmente esse estadode felicidade percebido não passa de um sentimento momentâneo de alegria oucontentamento, o que pode ser chamado de “felicidade episódica” (RAIBLEY, 2011, p. 4), oqual se difere radicalmente dos conceitos de felicidade discutidos pelos filósofosapresentados.
  28. 28. 27 Por fim, deve-se salientar que a importância de se analisar, comparar e classificar asconcepções de felicidade para as diversas teorias apresentadas é que isso torna-se umamaneira de entender melhor as diferenças existentes entre elas, para que, em seguida, possa-secomparar essas teorias com as encontradas na Psicologia Positiva. Por exemplo, poderíamosdescobrir que todas as teorias que se encontrou nesta pesquisa, da Psicologia Positiva,relacionam-se diretamente com o prazer. E, ao compará-las com as teorias apresentadas pelaFilosofia, poderíamos descobrir que se parece bastante com a concepção utilitarista. Por fim, apartir daí, poder-se-ia discutir se essas concepções de felicidade não desconsideram elementosimportantes como há em outras teorias da Filosofia. E, além disso, poderíamos tambémanalisar se uma teoria que se diz “hedônica”5, na Psicologia Positiva, realmente apresenta ascaracterísticas dessa teoria. Enfim, esses são alguns exemplos. Na próxima seção, seguindo aordem prevista, buscar-se-ão as concepções de felicidade como vistas pela PsicologiaPositiva, inclusive fazendo algumas comparações com o que foi tratado até aqui.6 A FELICIDADE NA PSICOLOGIA POSITIVA A Psicologia Positiva não é uma nova linha teórica dentro da Psicologia. Trata-se,entretanto, de um movimento por estudos das forças e virtudes dos indivíduos, que são áreasde interesse negligenciadas pela Psicologia ocidental de forma geral, sendo apenas tratadasnão cientificamente por livros de autoajuda. Portanto, não se trata de uma nova visão de serhumano, contrastando-se a outras existentes. Com efeito, o que une os pesquisadores daPsicologia Positiva, independentemente de suas abordagens, é um interesse comum emcompreender aquilo que leva indivíduos e sociedades a florescer e a expressar toda a suapotencialidade. Em outras palavras, a compreender cientificamente os caminhos que levam oser humano à tão almejada felicidade (GRAZIANO, 2012). Os temas abordados pela Psicologia Positiva surgem da ideia de que a Psicologiadeveria voltar-se não apenas para os piores atributos humanos (como medos, angústias,carências), mas também para os melhores (como esperança, criatividade, coragem)6(SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 419-21; GRAZIANO, 2005, p. 20-34; SELIGMAN,2009). Atualmente, os livros básicos dessa abordagem versam sobre temas como o bem-estarsubjetivo, a ciência da felicidade, a satisfação de vida, a afetividade positiva, a criatividade5 Termo encontrado na Psicologia Positiva, apesar de não ser um termo da Filosofia.6 Essa opinião já era defendida 30 anos antes por Maslow, um representante da Psicologia Humanista (SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 419-21).
  29. 29. 28emocional, o otimismo, a teoria da esperança, o estabelecimento de metas para a vida e afelicidade, a Psicologia Positiva na vida profissional (SCHULTZ & SCHULTZ, 2007, p. 419-21). Como Martin Seligman é considerado, dentro dessa linha, como um dos maioresexpoentes no estudo da felicidade, decidiu-se partir de sua concepção de felicidade para adiscussão que se faz aqui. Em seguida, outras concepções serão abordadas, pela análise dealgumas pesquisas relacionadas ao tema.6.1 A FELICIDADE SEGUNDO MARTIN SELIGMAN Martin Seligman, um grande expoente dessa linha de pesquisas, revelou-se contra oponto de vista hedonista do conceito de felicidade7. Baseado em diversas pesquisas que aPsicologia Positiva vem apresentando, concluiu que a felicidade é muito mais do que asimples subtração: quantidade de bons momentos menos quantidade de maus momentos(SELIGMAN, 2009, p. 24-5). Inclusive, em seu livro Felicidade Autêntica, ele explica porque o hedonismo falha, mostrando um conjunto de pesquisas que demonstram várias partesconstituintes da felicidade: muito mais do que a soma de prazeres momentâneos. Conforme se apresenta nesse mesmo livro, existem diversas formas de emoçõespositivas, as quais se relacionam diretamente com a felicidade de alguém. Como forma deorganizá-las formalmente, ele as divide primeiramente em três espécies: voltadas para opassado, para o futuro e para o presente. As voltadas para o passado incluem satisfação,contentamento, realização, orgulho e serenidade. Dentre as voltadas para o futuro encontram-se a fé, a confiança, a esperança e o otimismo. Já as voltadas para o presente dividem-se emoutras duas categorias: prazeres e gratificações. Os prazeres dividem-se em físicos e maiores.Os prazeres físicos são emoções positivas momentâneas que se percebem pelos sentidos,como cheiros, gostos, visões, sons. Os prazeres maiores são mais cognitivos, muito maisnumerosos e variados que os prazeres físicos. Alguns exemplos dessa espécie de prazerapresentam-se como: êxtase, hilaridade, euforia, vigor, regozijo, contentamento, alegria, bomhumor, entusiasmo, conforto, harmonia, relaxamento. Por fim, as gratificações, outra classe deemoção positiva relacionada ao presente, são atividades (e não sentimentos) que gostamos defazer, como ler, escalar montanhas, dançar, conversar, jogar cartas, ajudar um mendigo na rua.Pode ser difícil distinguir prazeres de gratificações, pois, a confusão se dá porque usamos omesmo verbo “gostar” para as duas coisas, como “gosto de comer caviar” (prazer físico) e7 Este autor declara usar o termo felicidade de forma intercambiável com bem-estar (SELIGMAN, 2009, p. 381), embora empregue, durante o seguimento do livro, o termo felicidade.
  30. 30. 29“gosto de jogar basquete” (gratificação), como se nos dois casos a mesma emoção positivafosse a base da escolha (SELIGMAN, 2009). Para que fique clara essa diferença, sobre asgratificações, Seligman as descreve assim: As gratificações absorvem completamente; bloqueiam a consciência; bloqueiam a emoção, exceto em retrospecto (“Uau, foi tão legal!”); e criam a experiência de fluxo – o flow –, um estado em que o tempo para, e a pessoa fica completamente à vontade (SELIGMAN, 2009, p. 383). Esses são os principais conceitos que Seligman apresenta como relacionados àfelicidade. Mas, de que forma eles se relacionam? Sobre isso, o autor resume: A felicidade, que é o objetivo da Psicologia Positiva, não se resume a alcançar estados subjetivos momentâneos. Felicidade também inclui a ideia de uma vida autêntica. Este não é um julgamento meramente subjetivo, a autenticidade descreve o ato de obter gratificação e emoção positiva através do exercício das próprias forças pessoais, que são caminhos naturais e permanentes para a gratificação (SELIGMAN, 2009, p. 383). Com esse excerto, Seligman destaca sua principal ideia a respeito do que seja afelicidade. Para ele, ela “vem por muitos caminhos. Vendo por este ângulo, torna-seindispensável desdobrar nossas virtudes e forças pessoais pelos principais setores da vida:amor, trabalho, criação de filhos e busca de um propósito” (SELIGMAN, 2009, p. 383-4).Assim, ele apresenta maneiras de aumentar a experiência individual com todos os tipos deemoções positivas, não só os prazeres físicos, mas também as gratificações: esse seria ocaminho à felicidade. Contudo, ele também afirma que pesquisas têm mostrado que cerca de50% da felicidade tem origens genéticas (SELIGMAN, 2009, p. 81-2).8 Portanto, observa-se um conjunto de características que tornaria difícil, em umprimeiro momento, classificar sua teoria em relação à segunda divisão proposta na seçãoanterior. Entretanto, em relação à primeira, vê-se claramente que essa se enquadra dentre asque se relacionam parcialmente com o prazer, pois, como visto, há outros componentesconsiderados e de forma independente a esse conceito. Além do mais, o autor mesmo serevelou contra o ponto de vista hedonista de felicidade. Dessa forma, pode-se considerar quesua teoria se encontra no mesmo grupo da teoria de Aristóteles, a partir dessa forma declassificação.8 O autor não apresenta essas pesquisas. Entretanto, em outra fonte, encontrou-se que essas conclusões teriam sido apresentadas por Tellegen et al., em 1988 (LOPEZ & SNYDER, 2009b, p. 133).
  31. 31. 30 Quanto à outra forma de classificação, a maior dificuldade é que a teoria que Seligmanconsidera fatores relacionados às três partes da proposta de classificação. Por exemplo,quando ele sugere métodos para aumentar a experiência de prazeres físicos (SELIGMAN, p.163-74), poder-se-ia classificá-la dentre as teorias da satisfação de necessidades e objetivos.Além disso, ele também admite fatores genéticos. E, inclusive, o elemento gratificaçãoconsiste em uma atividade. Entretanto, a parte da classificação concernente aos fatoresgenéticos considera a felicidade como estável nos indivíduos, como se ignorasse outrosfatores. E a teoria em questão considera que apenas cerca de 50% da felicidade tem origemgenética e, mais ainda, foca apenas na outra parte, a que pode ser aprimorada pelo indivíduo,pois em nada se poderia alterar na parte genética. Portanto, poderíamos desconsiderar queessa teoria faça parte dessa seção. Resta, pois, as outras duas opções, ou ainda aimpossibilidade de classificação nesses moldes, o que também seria possível teoricamente. Entretanto, a impossibilidade de classificação em qualquer das alternativas parece nãoser provável, pois a distinção proposta mostra-se bem clara: ou a felicidade é vista como algoa ser alcançado (através de um conjunto de requisitos), ou ela é vista como algo que se podevivenciar no presente (através de um processo ou atividades). Dessa forma, e analisando aproposta da teoria em questão de forma geral, pode-se chegar à conclusão de que Seligmanpropõe uma felicidade para ser vivida no presente. Embora alguns requisitos sejam admitidos(como, inclusive, acontece na teoria de Aristóteles: amigos, bens), como a busca por prazeresfísicos, por prazeres maiores, de forma alguma, em sua obra, Seligman apresenta a felicidadecomo um objetivo a ser alcançado. Para que fique mais claro, poder-se-ia ressaltar o resumoque o autor faz de uma vida plena, que seria a melhor vida que se poderia ter, em relação àfelicidade: […] uma vida plena consiste em experimentar emoções positivas acerca do passado e do futuro, saboreando os sentimentos positivos que vêm dos prazeres, buscando gratificação abundante no exercício das forças pessoais e aproveitando essas forças a serviço de algo para obter significado (SELIGMAN, 2009, p. 384). Fazendo-se uma comparação com a teoria epicurista, claramente das de satisfação denecessidades e objetivos, esta última afirma que a felicidade só poderá ser alcançada com asatisfação de todos os nossos desejos e, quando um não o é, então, não há felicidade. Para aPsicologia Positiva, ressalta Seligman, não somente as emoções positivas tem seu valor, mastambém as negativas. Segundo afirma, “nós não queremos apenas sentimentos positivos;queremos ter direito a eles” (SELIGMAN, 2009, p. 26). Com efeito, é considerada uma
  32. 32. 31importância para os sentimentos negativos. Conforme ele ressalta, os seres humanos nãodesejariam uma vida em que só sentissem prazer o tempo inteiro. Essa característica tambémé o que difere bastante essa teoria do hedonismo. Por esses motivos, enfim, faz mais sentidoque se classifique a teoria apresentada por Seligman como dentre as de processo ou atividadee, inclusive, relacionando-se parcialmente com a concepção de prazer. E isso faz mais sentidoainda quando se lembra que, conforme os epicuristas, nem todo prazer deve ser buscado. Àsvezes, enfrentamos certas dores em busca de prazeres maiores no futuro, por exemplo. Entretanto, poder-se-ia ver como um viés de pesquisa se considerássemos apenas aconcepção de felicidade segundo Martin Seligman. Portanto, decidiu-se procurar por artigosrecentes que envolvam o tema felicidade dentro da Psicologia. E é isso que será abordado napróxima subseção.6.2 A FELICIDADE EM OUTROS AUTORES DA PSICOLOGIA POSITIVA O primeiro artigo analisado foi o de Babaie, Jain & Cardona (2011), o qual teve porobjetivo avaliar o nível de esperança e de felicidade entre filhos de veteranos e de não-veteranos da província de Mazandaran, no Irã. Esse artigo não especificou explicitamente osignificado de felicidade que estava considerando. No entanto, a forma como avaliava o nívelde felicidade, pela aplicação de uma escala, deixou indícios. A escala usada foi a SubjectiveHappiness Scale, validada por Lyubomirsky & Lepper (1999). Assim, para se ter ideia daconcepção de felicidade empregada, esse segundo artigo também foi lido e analisado –inclusive, ele também estava entre os encontrados e selecionados por esta pesquisa, peloportal do CAPES, por isso, foi interessante discuti-lo juntamente com ou outro. Primeiramente, encontraram-se algumas contradições em relação às concepções defelicidade empregadas. Primeiro: Babaie, Jain & Cardona (2011) se propõem explicitamente amedir felicidade, ao passo que, conforme Lyubomirsky & Lepper (1999), que validaram oteste empregado nessa pesquisa, esse teste se propõe a medir o que elas chamam de felicidadesubjetiva global (e não felicidade), e chama-se Escala de Felicidade Subjetiva. Segundoexplicam, validaram-no porque havia uma lacuna de testes que medissem uma felicidadeconforme o relato subjetivo e momentâneo dos indivíduos, acreditando na capacidade dessesde poder reportar se são felizes ou não, de forma geral. Pode ser, evidentemente, que Babaie,Jain & Cardona também intencionassem medir a felicidade subjetiva global – já que sebasearam unicamente nesse teste para a medida – mas que tenham empregado o termofelicidade por simplificação; ou seja, não se pretende aqui invalidar a pesquisa feita. Também
  33. 33. 32pode ser que, como o termo felicidade ainda não apresenta uma definição suficientementesegura, os autores não tenham se preocupado com isso. Entretanto, de qualquer forma, o quese observou no primeiro artigo parece uma grande insegurança em relação ao construtofelicidade. Segundo; em relação à pesquisa de Lyubomirsky & Lepper, os termos felicidade,bem-estar e bem-estar subjetivo apresentam-se aparentemente como sinônimos, ou de formaconfusa, intercambiáveis, sem fazer uma clara diferença entre eles, como neste exemplo: As últimas décadas têm testemunhado uma explosão de pesquisas sobre a felicidade (ou mais amplamente definida como bem-estar subjetivo, como tem sido normalmente referido na literatura) […] Embora a maioria dos estudos examinasse [sic] a forma como variáveis objetivas e particulares influenciam o bem-estar, quase um século de pesquisas sugere que circunstâncias objetivas, variáveis demográficas e eventos da vida estão correlacionados com a felicidade menos fortemente do que a intuição, ou a experiência do dia a dia, nos dizem que deveriam estar (Lyubomirsky 9 & Lepper,1999, p. 138). Nesse excerto, como se percebe, não parece haver uma clara diferença em relação aosconceitos de felicidade, bem-estar subjetivo e bem-estar. Soma-se a esse problema a posiçãodo próprio Seligman, que, como se comentou numa nota de rodapé da seção anterior, dizempregar o termo felicidade e bem-estar de forma intercambiável. Portanto, até então, issoparece estar se tornando um problema generalizado neste âmbito. Contudo, seria interessanteque se analisassem outros artigos para que se pudesse entender a proporção disso tudo. Em relação às propostas de classificação referidas anteriormente, não se encontrourelação explícita ou implícita com a concepção de prazer, visto que o conceito de felicidadenão se mostrou definido da mesma forma como os filósofos fizeram, relacionando-o com oprazer, mesmo que de forma implícita. Em relação à segunda proposta de classificação, pôde-se raciocinar da seguinte forma: se a Escala de Felicidade Subjetiva se propõe a medir umafelicidade conforme o relato subjetivo do próprio sujeito, então, presume-se que ela consideraque as pessoas possam ser felizes ou apresentar graus de felicidade. Portanto, essa teoria nãose enquadra entre aquelas de satisfação de necessidades e objetivos. Além disso, também nãofaz menção às influências biológicas, como se a felicidade fosse estável, muito porque, sefosse assim, não teria motivo para fazer um teste que medisse graus de felicidade, ou, comodizem, felicidade subjetiva global. Dessa forma, parece correto supor que a concepção defelicidade empregada nessas duas pesquisas corrobora o modelo das teorias de processo ouatividade, a qual vê a felicidade como algo a ser vivenciado no presente, entre outrascaracterísticas, como foi discutido aqui. Ainda poderiam restar algumas dúvidas quanto a se a9 Tradução livre.
  34. 34. 33teoria considerasse apenas graus de incerteza, ou se poderia considerar, ao invés disso, queapenas a partir de certo valor que uma pessoa é considerada feliz. Porém, se eles se propõemexplicitamente a medir felicidade, com esse teste, então, não parece lógico que elesconsiderem a felicidade como algo a ser alcançado, como veem hedonistas e epicuristas. Outro artigo analisado trata-se do de Bentall (1992), pois pareceu bastante ousado, ou,no mínimo, intrigante. Isso porque o autor propõe que a felicidade passe a ser classificadacomo um transtorno psiquiátrico e, mais ainda, que se a inclua em futuras edições de manuaisde diagnósticos como o Diagnostic and Statistical Manual10 (DSM) ou o ClassificaçãoInternacional de Doenças (CID), sob o nome de Transtorno Afetivo Maior, do tipoprazeroso11. Para que fique esclarecido, é proposto, no fim do artigo, que o termo TranstornoAfetivo Maior, do tipo prazeroso seja utilizado no lugar do da linguagem popular felicidade,para que se evitem quaisquer ambiguidades e prestando-se, pois, aos interesses da precisãocientífica. Mesmo assim, ele defende esses termos, durante todo o artigo, como se sereferissem à mesma coisa. Em um primeiro momento, considerando o que já se discutiu aqui,poder-se-ia criticá-lo severamente, já que parece um grande absurdo considerar a felicidadecomo um transtorno mental. Contudo, antes de qualquer crítica, faz-se necessária uma análisemais profunda do artigo em questão, buscando esclarecer o que exatamente o autor defende epor que o faz. Além do mais, o objetivo principal desta pesquisa não é entrar no mérito de se afelicidade é ou não um transtorno; mas, sim, discutir o conceito de felicidade empregado napesquisa; além de discutir o uso da forma como estava-se fazendo, visando, assim, a auxiliarna definição do conceito de felicidade no contexto da Psicologia Positiva. O ponto central em que se baseia o autor, para apontar a felicidade como umtranstorno mental, é a teoria da irracionalidade dos transtornos mentais, para o qual ele citaRadden (1985 apud BENTALL, 1992) e Edwards (1981 apud BENTALL, 1992). Segundoessa teoria, basicamente, os transtornos mentais caracterizam-se por mostrarem-se irracionais.Para Radden, um comportamento irracional, por exemplo, é bizarro e socialmente inaceitável,reduz as capacidades do indivíduo, ou não é fundamentado em boas razões, isto é, não sãologicamente consistentes e aceitáveis. Para Edwards, bons exemplos de transtornospsiquiátricos caracterizam-se por ações que falham em realizar metas manifestas,pensamentos que são ilógicos e repletos de contradições, crenças que deveriam serdesacreditadas pela experiência, inabilidade de dar razões às ações, pensamentos ininteligíveis10 “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, deixado em inglês no texto para que concordasse com a sigla “DSM”, forma como é mais amplamente reconhecido esse manual.11 Major Affective Disorder, pleasant type.
  35. 35. 34ou contrassensoais, e uma falta de imparcialidade e de “justeza” da mente12. Essas, portanto,apresentam-se como características que revelariam se uma pessoa apresenta um transtorno ounão: basicamente, características que descrevem um certo grau de irracionalidade. A partir dessa descrição, principalmente, Bentall levanta provas de que a felicidademostrar-se-ia como irracional. Por exemplo, diz que “tem sido mostrado que pessoas felizes,em comparação com pessoas infelizes ou depressivas, mostram-se prejudicadas ao recuperareventos negativos da memória de longo prazo” (BENTALL, 1992). Outro exemplo relatado éque tem sido mostrado que as pessoas felizes se deparam com vários vieses de julgamento queos impedem de adquirir uma compreensão realista do seu ambiente físico e social. Em relaçãoa esse último, pode-se ressaltar que Seligman dedica uma seção de seu livro para tratar de umassunto semelhante. A seção se chama “Felizes, mas bobinhos?”. Nela, fala-se de algumaspesquisas e de algumas ideias que destacam que as pessoas felizes, em média, mostram-semenos realistas do que as mais depressivas. A ideia geral apresentada por Seligman faz-seresumida no seguinte segmento, da mesma seção: C. S. Peirce, fundador do pragmatismo, escreveu em 1878 que a função do pensamento é acalmar a dúvida: nós só pensamos, só tomamos consciência verdadeiramente, quando alguma coisa vai mal. Quando não há obstáculos, vamos simplesmente deslizando pela estrada da vida, só parando para pensar quando sentimos “uma pedra no sapato” (SELIGMAN, 2009, p. 67). Nesse ponto, Bentall encontra apoio na Psicologia Positiva de Seligman. Contudo,apenas nesse único ponto. Com efeito, na própria seção em que Seligman destaca essascaracterísticas positivas que apresentariam as pessoas menos felizes, também enfatiza que aspessoas mais felizes apresentam outro conjunto de qualidades. Segundo ele, por exemplo,“um estado de espírito positivo, ao contrário, leva os indivíduos a um modo de pensarcriativo, tolerante, construtivo, generoso e desarmado” (SELIGMAN, 2009, p. 70). Inclusive,em toda obra de Seligman, as qualidades de uma vida feliz é ressaltada. Portanto, “em todosos outros pontos”, as ideias de Bentall parecem confrontar as de Seligman – poder-se-iaincluir as da Psicologia Positiva como um todo. De qualquer modo, não considerando as pesquisas apresentadas por Seligman, Bentallacredita que as pessoas felizes apresentam uma certa irracionalidade, e, portanto, umapsicopatia. Contudo, apesar de se ter descrito as irracionalidades, os problemas, da felicidadepara Bentall, ainda não se mostrou com clareza sua concepção de felicidade. Qual seria ela?12 Fairmindedness.
  36. 36. 35 Bentall a descreve como o faria com qualquer outro transtorno em um manual dediagnóstico: pelas características constatadas nas pessoas que as possuem. Conforme iniciadizendo, a felicidade tem componentes afetivos, cognitivos e comportamentais. Assim, a felicidade é usualmente caracterizada por um humor positivo, às vezes descrito como “exaltação” ou “alegria”, embora possam estar relativamente ausentes em estados mais leves de felicidade, às vezes denominado “contentamento” (BENTALL, 1992). Além disso, faz uma comparação com estados maníacos. Afirma que Argyle (1987,apud BENTALL, 1992) notou que a mania, em contraste com a felicidade, é principalmente caracterizada por excitamento. Não obstante, o critério diagnóstico para episódios hipomaníacos empregado pela American Psychiatric Association parece permitir a felicidade como considerada um subtipo de hipomania (BENTALL, 1992). Pela comparação com estados hipomaníacos, bem como pelo entendimento geral doartigo, parece evidente que o autor identifica a felicidade como uma exaltação do humorpositivo acima do normal e de forma prejudicial. Poder-se-ia comparar essa concepção com ados hedonistas: para estes, quanto mais prazer, mais felicidade, então, melhor para o serhumano. Já para Bentall, embora não se tenha uma relação explícita com o prazer, parece queele crê no oposto dos hedonistas: quanto mais felicidade, pior. Quanto aos epicuristas,também não se encontra relação, pois eles controlam seus desejos para ter mais felicidade, ouseja, não se trata de um controle de felicidade, como poderia acontecer em Bentall. Poder-se-ia comparar também sua concepção com a de Aristóteles. Para este, a felicidade nunca seriaum extremo, mas um meio-termo. Estados muito exaltados só mereceriam reproche. Portanto,as concepções de felicidade dos dois tornam-se divergentes. Os utilitaristas talvezconcordassem com que a felicidade seja uma exaltação do humor positivo, porém,considerariam isso apreciável também, desde que, é claro, estivesse proporcionando prazer (epara o maior número de pessoas) em longo prazo. Um estado de mania, por exemplo, é considerado um transtorno mental porque causasofrimento à pessoa envolvida, pois, se só estivesse causando prazer, sem causar sofrimentonem a si, nem a outros, então, seria apenas felicidade, não mania. Esse é o raciocínio quepoderia muito bem ser feito por utilitaristas. Não só por eles. Com efeito, esse constitui oraciocínio da nosologia atual. E, foi o raciocínio que Bentall tentou fazer nessa pesquisa.Apontou defeitos na felicidade e, portanto, concluiu que ela se tratava de um transtorno
  37. 37. 36mental. Sem embargo, o erro que se poderia apontar em seu raciocínio consiste em que oautor usou o seu próprio conceito de felicidade, o qual não confere com a concepção do sensocomum, nem com qualquer concepção discutida nesta pesquisa (e que são as principaisconcepções da filosofia), principalmente pelo fato de que todas as teorias filosóficas aquidiscutidas, além das teorias apresentadas por Seligman, consideram a felicidade como algobom e como o objetivo maior dos seres humanos. Qualquer estado de humor exaltado quechegasse ao ponto de prejudicar a si mesmo ou aos outros não poderia ser chamado defelicidade. Para isso existem as denominações de episódio hipomaníaco ou de episódiomaníaco (SADOCK & SADOCK, 2008, p. 202), por exemplo. E, caso o autor estivessepropondo uma outra forma de transtorno mental semelhante e esses, então, que empregasseum novo termo, mas que nunca o igualasse à felicidade, pois não parece haver qualquer razão(histórica, filosófica, psicológica) em se fazer isso. A quarta e última pesquisa debatida aqui é a de Nawijn (2011), na qual foramaplicados questionários a 466 participantes, turistas em férias na Holanda, com o objetivo deinvestigar o quão feliz eles estavam durante aquele momento e o que os faziam felizes. Maisespecificamente, segundo o artigo, a variável independente da pesquisa consiste no “nível deafeto hedônico”, o qual Veenhooven (1984 apud NAWIJN, 2011) afirma ser a “dimensãoafetiva” da felicidade. Segundo consta, o nível de afeto hedônico consistiria em um balançoquantitativo entre níveis médios de afeto positivo e negativo. Na pesquisa em questão, porexemplo, aplicaram-se escalas do tipo likert de sete pontos, desde “de modo algum13” até“bastante14”, referentes a doze afetos – quatro positivos e oito negativos. Para cadaparticipante, fez-se uma média da pontuação obtida dos afetos positivos e uma dos afetosnegativos. E, subtraindo-se a segunda da primeira, obtêm-se o valor correspondente aobalance dos afetos, variável independente da pesquisa, considerada, então, por Veenhooven epelo autor, como parte integrante da felicidade.15 Dessa forma, uma primeira análise nos indicaria que, embora não tenhamos ainda umainteira descrição sobre o que seria a felicidade para Nawijn, há aqui uma referência ao queseria uma parte da felicidade – pelo menos, a parte na qual a pesquisa se interessa. Como aprópria palavra “hedônico” indica, essa concepção (ou, parte da concepção) de felicidade defato se assemelha com a dos hedonistas, pois, mostra como louvável que se tenha a maiorquantidade de afetos positivos e a menor quantidade de afetos negativos. Pelo entendimento13 Not at all.14 Very much.15 O teste aplicado se chama Affect Balance Scale (ABS).
  38. 38. 37geral do artigo, inclusive, percebe-se isso, pois, trata-se de uma pesquisa que prima pelosinteresses da indústria do turismo, a qual busca proporcionar a maior quantidade de prazer ede felicidade a seus clientes. Segundo Nawijn (2011), por exemplo, “os turistas tiram fériaspor prazer e, ao fazer isso, implicitamente assumem que isso os faz sentir-se mais felizes”.Pela análise das escalas aplicadas, o objetivo final seria desenvolver formas de proporcionarmais felicidade a futuros turistas (em outras palavras, melhores resultados nas escalas, ouainda, mais afetos positivos e menos negativos). Mais além, poder-se-ia dizer que isso seassemelha à conhecida busca indiscriminada por prazer dos hedonistas. Comparando-se com a concepção dos utilitaristas, também se veem algumassemelhanças. Entretanto, conforme o artigo analisado, a indústria turística não parece (ainda)interessada em proporcionar a maior quantidade de prazer para o maior número de pessoas eem longo prazo. Esse aspecto, que diferencia, essencialmente, a concepção dos hedonistas dados utilitaristas, ainda não parece adicionado a suas considerações – pelo menos conforme aanálise do artigo em questão. Outros estudos poderiam ser feitos a fim de esclarecer melhoresse assunto em um âmbito mais geral. Além disso, também é importante ressaltar outro ponto do artigo, em que é citada,explicitamente, parte da ideia que se teria sobre a felicidade. No trecho, é dito o seguinte: [a] palavra felicidade é usada tanto para a análise da vida de alguém como um todo quanto para um humor do dia, o que é considerado um estado momentâneo de felicidade (EID & DIENER, 2004 apud NAWIJN, 2011). Neste artigo, a felicidade é usada no último sentido e o termo satisfação de vida, no primeiro (NAWIJN, 2011).16 Esse é mais um indício que aparece no artigo e que revela em parte a concepção defelicidade como visto pelo autor. Diz-se “em parte”, visto que a definição encontrada nãoparece completamente esclarecida. Primeiramente, o excerto em destaque parece revelar uma intercambiabilidade entre ostermos felicidade e satisfação de vida. O autor inicia mostrando os dois sentidos que afelicidade pode assumir, mas não explica se se referem aos usos comuns, ou aos usoscientíficos; e não se teve acesso à fonte citada para descobrir isso. Em seguida, continuadizendo, em outras palavras, que, no artigo, quando disser felicidade estará se referindoapenas ao segundo emprego do termo, conforme apontado; e que, quando disser satisfação devida, estará se referindo ao primeiro emprego do termo felicidade. Dessa forma, a felicidade16 Tradução livre. As palavras em itálico foram mantidas conforme o texto original.

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