1A pequena flor do campo           Luiz Gonzaga Pinheiro
2Dedicatória                Para meu neto Luan.              Que seja tão forte e sábio              Quanto o guerreiro da...
3Índice   1. Introdução   2. Alegrias de um pai ou o relampejar do tempo   3. A obsessão em crianças   4. O passado recent...
4Introdução        Não há quem não se enterneça diante de uma flor solitária no campo,principalmente quando ameaçada por e...
5suportasse os golpes dos inimigos, conquistando-os pelo exemplo de fé e de amor aossofredores.        Um belo plano como ...
6roubamos frutas, nadamos em lagoas e subimos em árvores. Só nunca maltratamospassarinhos, porque os amamos.         E ele...
7       Nossos sonhos se eternizam nos anseios de nossos irmãos, tornando-noshumanos, fazendo-nos instrumentos de perpetua...
8armamentos por ano, em período de paz, enquanto trinta crianças morrem de fome, emapenas um minuto, no mundo; que milioná...
9         Desenvolve-se-lhe, então a meninice, cresce, reinstrui-se e retorna àjuvenilidade das energias físicas, padecend...
10Certamente meus amigos índios não poupariam esforços para livrar Hortência daameaça que se instalara em sua vida.       ...
11        Sobre seu desencarne: Sua saúde foi sendo minada por uma série de doenças,dentre as quais, câncer de próstata, c...
12dos que ora estuda. Acredito que esteja preparada para a tarefa que lhe confiaram:educar “Seu Flores” dentro da Doutrina...
13        Doutrinador com paciência curta precisa aprender a moderar sua vontade dechamar o faltoso e dizer-lhe sem meias ...
14       Se está chovendo, não dê a desculpa à sua consciência de que não vai ao Centroporque não tem um guarda-chuva. Ela...
15        O ódio atua no perispírito como um ácido a danificar-lhe as engrenagens.Incompatível com a felicidade, ele é um ...
16        - Sei que está em posição desconfortável nessa rede, mas se me prometer discutiras ofensas cometidas contra você...
17nossos médicos, nossos abrigos, nossa amizade. Se quiser permanecer entre nós paraque encontremos um meio de ajudar seu ...
18        - Lembra do nome dele?        - Só posso dizer que ele faz parte da história. Tenho que respeitar o sigilo.     ...
19sei que ele também merece isso. A justiça de Deus é lenta e queremos uma coisa maisimediata.        - Vocês são muitos? ...
20        - E quem foi que disse que tenho medo de você, sua arrogante. Para nós Deusnão existe, pois nos abandonou à próp...
21       - Não! Não quero dever nenhum favor a você nem a branco nenhum.       - Está enxergando melhor? ( A mulher se que...
22        - Julguei que falar de uma filha para sua mãe, trazendo-lhe boas notícias, fossemotivo de refrigério para sua al...
23        - Para dar testemunho da maldade dele. Aqui está uma prova de que ele é umassassino, portanto, não existem razõe...
24trabalhador espírita não cabe escolher tarefa. Se é para cavar ele cava: se é para voar elevoa. Foi assim que nos foi en...
25        - Para uma avó, toda neta é perfeita. Mas ele não matou somente meninas datribo dele. Eu pertencia a uma tribo v...
26        - Vou morrer quando minha hora for determinada por Deus. Enquanto ela nãochega continuarei fazendo meu trabalho....
27        - Quando vejo uma criança, logo me lembro dos meus filhos quando tinhamaquela idade. Crianças são frágeis e depe...
28        - Sei.        Com certos comunicantes, não convém esticar conversa, pois o tempo disponíveldeve ser utilizado pa...
29        A criança está muito perturbada. Não a sinto arrependida nem motivada paralargar a luta. Muito ao contrário. Ela...
30       - Fez o pedido à pessoa errada. Eu é que obedeço ao que eles dizem. Por sinal jáme disseram que você está aqui pa...
31        - Sérios! Parecem que vão enfrentar um leão. Mas sou apenas uma formiguinha,cara.        - Deixo a seu cargo se ...
32        Toquei no muro e senti que é como uma geléia, ou seja, é algo que permite seratravessado. Ao permanecer com a mã...
33        Estou tremendo dos pés à cabeça! Mesmo porque o tropel dos cavalos faztambém a terra tremer. Deve ser a luz de D...
34        Eles a colocam em uma espécie de maca, feita de um material semelhante aomármore branco. A criança parece um peq...
35auxiliares, Deus se faz presente em qualquer recanto do universo. Que em nenhum lugara ignorância domina soberana, pois ...
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  1. 1. 1A pequena flor do campo Luiz Gonzaga Pinheiro
  2. 2. 2Dedicatória Para meu neto Luan. Que seja tão forte e sábio Quanto o guerreiro da lua.
  3. 3. 3Índice 1. Introdução 2. Alegrias de um pai ou o relampejar do tempo 3. A obsessão em crianças 4. O passado recente de Hortência 5. A lança do Centro Espírita 6. A falange dos mutilados 7. As avós quimbandeiras 8. O guerreiro da lua 9. O estranho e compreensível sentimento materno 10. Ogum – A força avassaladora da lei 11. A batalha dos polvos voadores 12. Conversa entre guerreiros 13. Mulheres atormentadas 14. Homens de luz 15. Tecnologia de ponta 16. Visita ao cemitério 17. Devolvendo o coração 18. Evitando choques futuros 19. Guerreiros não atacam mulheres 20. Recanto de paz 21. Fragmento de biografia 22. Conclusão 23. Anexos
  4. 4. 4Introdução Não há quem não se enterneça diante de uma flor solitária no campo,principalmente quando ameaçada por ervas que a sufocam. A tendência natural dequalquer caminhante é protegê-la, chegando mesmo a limpar o terreno ao seu redor, afim de que este divino espetáculo da natureza se prolongue por mais tempo. Assim também nos sentimos diante de Hortência, quando sua mãe, Margarida, atrouxe ao Centro Espírita Grão de Mostarda para que lhe ministrássemos um passe.Serena, ela sentou-se à nossa frente e passou a contar sua estranha história. Seu sofrimento fora anunciado há alguns anos. Sua mãe, frequentadora etrabalhadora de um Centro Espírita em Fortaleza fora informada de que seu marido jádesencarnado, voltaria à carne na condição de filha de sua filha, ou seja, a neta receberiao avô para dar-lhe a devida educação, cuja falta o tornara um déspota familiar. “Seu Flores” era ao mesmo tempo pai e avô de Margarida. Estando uma de suasfilhas grávida, por não gostar de quem a engravidara deixou que a neta nascesse e aregistrou como filha criando-a como tal. Além de tirano dentro de casa, revelou Margarida, seu avô considerava todamulher uma vagabunda e todo negro um marginal. Contudo, forçou mulheres a fazersexo com ele e depois as desprezou. Sua opinião era de que mulher só servia para estafinalidade. “Seu Flores”, como era conhecido, pois seu nome era Armando Flores, fezinimigos mesmo entre os familiares. Segundo Margarida, ele só tinha, dentre os de suaparentela, uma réstia de afinidade com ela, sendo os demais familiares, afastadosatravés da costumeira intolerância. O fato é que quando a pequena Hortência nasceu, a vida de todos na famíliasofreu profunda alteração. Brigas e inimizades se instalaram no lar; espíritas e católicos,pois a família tinha preferências díspares no terreno religioso, partiram parahostilidades; figuras sinistras oriundas do mundo invisível passaram a ser vistas peloscômodos e a criança sentia dificuldade para adormecer e se alimentar. A gravidez fora dificultosa e o pós-parto doloroso. Margarida passou a terpesadelos. Em um deles, uma figura aterradora lhe cortou os seios e a obrigou a engoli-los. O trauma foi tão marcante que seus seios, antes generosos na alimentação dapequena, secaram por algum tempo. Do diálogo que mantive com ela guardei uma frase que bem demonstra sua fibrade mãe dedicada: sei que meu avô tem muitos inimigos. Mas quero educá-lo para querespeite a todos, principalmente a Deus. Margarida sabia que um Espírito em débito com a Lei poderia optar por umpagamento embasado no trabalho honesto e no amor aos mais sofridos. Este era o seuplano para a pequena Hortência. Educá-la, sobretudo, moralmente, para que ela
  5. 5. 5suportasse os golpes dos inimigos, conquistando-os pelo exemplo de fé e de amor aossofredores. Um belo plano como este certamente terá apoio integral da parte dos bonsEspíritos. Foi o que lhe disse no final de nossa conversa. Naquela noite a reunião dedesobsessão, emergencialmente, foi toda dedicada à pequena Hortência. Este livro narra o processo de desobsessão de uma garotinha com apenas 45 diasde reencarne, acossada por cruéis inimigos que, a todo custo, pretendiam levá-la aodesencarne. Seus agressores, escravos bantos, sempre se referiam a ela como “o assassino”,ignorando totalmente a condição atual que a fragilizava. Vendo-o apenas como o antigoalgoz que ceifara seus filhos, mães e pais transformados em insistentes verdugos aagrediam a chicotadas, transformando o pequeno apartamento em verdadeiro espetáculode magia negra. A linguagem, que neste caso poderia ser chula e bastante agressiva, foi adaptadapelos médiuns, que tolhiam a agressividade e repassavam o pensamento, vestindo-ocom suas próprias palavras, sem, contudo, alterar a essência da comunicação. O chefebanto agora seria escravo, diziam seus antigos e atuais perseguidores. Mas Deus é pai de infinita misericórdia. Vejamos como Ele, através do amorextremado dos bons Espíritos, atendeu a todos, propiciando-lhes oportunidades deesclarecimento e de recomeço nas abençoadas sendas do progresso.Alegrias de um pai ou o relampejar do tempo Antes de começar, de fato, a trabalhar no drama que se agigantava à minhafrente, recebi de meu filho a cópia ou resumo do que seria o seu discurso de oradoroficial na conclusão do curso de medicina. Foi uma das maiores alegrias que senti. Eu o vi pequeno, o tomei nos braços,ministrei-lhe lições importantes. Ele fez o restante da caminhada. Lembro-me dospirulitos, dos bicos de pão, dos desenhos que fazíamos riscando o chão da nossa casa. Lembro-me do primeiro dia na escola, do sarampo que o maltratou, dos cabeloscacheados que ele tinha e que eu mesmo cortava; até da velha bicicleta que ele pareciaadorar, recordo, embora não a tenha guardado. Seus dentes de leite, eu os guardei emuma caixinha que ainda está comigo. Se isso tudo aconteceu ontem como pode essemenino me aparecer agora com um bisturi na mão atendendo àqueles enfermos todos? Quando ele nasceu eu o entreguei ao doutor Bezerra de Menezes: Tome-odoutor Bezerra! Ajude-me a criá-lo, foi o que disse. Sei que o senhor tem bastantetrabalho, mas conseguirá um tempo para orientá-lo quando em vez. E o doutor Bezerranunca o abandonou. Sinto falta das chuvas que não nos molharam, dos filmes que só depois delecrescido foram feitos, das cantigas de roda que nunca cantamos. Mas em meu coraçãofizemos todas as brincadeiras e traquinagens a que tínhamos direito. Pulamos muros,
  6. 6. 6roubamos frutas, nadamos em lagoas e subimos em árvores. Só nunca maltratamospassarinhos, porque os amamos. E ele foi crescendo com aquele jeito de poeta tímido, de herói escondido peloblusão da humildade, de criança que adora livros, até que, de repente, me apareceu comaquele discurso digno de Neruda ou do meu velho amigo Manuel Bandeira. O tempo relampejara e tingira meus cabelos com alguma prata, e meu Espírito,envolvido com livros e reuniões não notara aquelas transformações. As imagens dosmeus filhos, Victor Emmanuel e Lívia parecem ter coagulado no tempo da infância. É amaneira como gosto vê-los. Mas o tempo, esse devorador de imagens, foi substituindo as fotos antigas poroutras belíssimas, de homem e mulher fortes, de pessoas generosas e responsáveis, decorações sensíveis e mãos operosas. Intimamente agradeci a Deus por jamais ter meenganado a respeito deles. Enganei-me com outras coisas, com eles, jamais. Quando eu era criança julgava que amigos eram aqueles que me ensinavam amatar aulas. Hoje sei que eram os futuros mendigos. Pensei também que os quepulavam cercas comigo eram salteadores. Com o tempo os reconheci comosaltimbancos; mágicos que se tornavam invisíveis diante do dono da chácara. Imaginava que os homens que contavam vantagens entre um trago e outro nobotequim do meu pai eram mentirosos. Eram poetas do cotidiano. Quando eu eracriança ensinaram-me a ter medo de Deus. Que bobagem! Foi preciso descobrir que Eleera diferente do meu pai para começar a amá-lo. Ninguém me ensinou a arte de navegar corações. Aprendi isso escrevendopoemas e canções. Eles encontraram, cada um a seu modo, essa importante maneira detratar a vida e às pessoas. O discurso do meu filho serve para qualquer médico, em qualquer lugar desteplaneta tão belo e maltratado. Quem me dera que todos tivessem tal sensibilidade. “Éramos tão jovens tentando domar o futuro com nossos atos e um sonho nasciaem nós, apontando os rumos da vida profissional, luzindo os caminhos da nossaexistência. “Existirmos, a que será que se destina?” Hoje, diante da concretização desse sonho, sentimo-nos de volta ao começo.Mas ele ainda nos impulsiona a seguir em frente, pois se transformou em estrada,viagem em busca do horizonte das realizações. É preciso semear o sonho com as mãos no trabalho para germinar realidade.Assim transformamos a dor e a morte de muitos em esperança e vida, para que possam,igualmente, semear seus sonhos. Desse modo, ao longo de tantos outros anos, veremosque o horizonte-sonho nunca é alcançado, só se expande. Veremos que o sonho torna-seantigo, jamais velho.
  7. 7. 7 Nossos sonhos se eternizam nos anseios de nossos irmãos, tornando-noshumanos, fazendo-nos instrumentos de perpetuação da segurança e da beleza da vida.Dessa forma, ao final desse ciclo terreno, a morte, o sonho nos levará de volta a umcomeço, por ter se tornado maior que nossa própria vida: a vida se vai, mas os frutos dotrabalho, semeados por este sonho, permanecem para fazer a realidade que melhorará avida de outros. Ainda somos tão jovens, porém lúcidos para entender que seremos eternosalunos da vida, aprendendo com ela para nos tornarmos professores de nós mesmos;arquitetos de sonhos; engenheiros do amanhã; médicos de nossos anseios; filósofos denossa existência. Eis no que nos tornamos. Hoje, celebrando um final, comemoramos um recomeçar. Realizamos parte deum desejo que não é só nosso, mas de toda humanidade desde sempre, perpetuando-senum ciclo, como uma semente. Nossa alegria maior não é a de sermos médicos ouhistoriadores, mas de ser alguém que possa semear esperanças de um futuro melhor. Existirmos, a isso se destina nossa vida. Para extrair da vida o milagre dotrabalho. Avante! Para isso existimos: para forjar através do trabalho o milagre da vida”.A obsessão em crianças Muitas pessoas se admiram diante do sofrimento das crianças. Perguntam-seentre dúvidas e lamentos por que Deus não espera que elas cresçam para então permitirque a Lei faça suas cobranças. Deus é misericórdia, mas é também justiça. É pai do agressor e do agredido. Emmeio às tempestades coloca sempre abrigos para salvação. Encarnada ou desencarnada,uma criança é um Espírito velho, e quando não tem méritos, foi esta a conclusão a quecheguei através de muitas reuniões de desobsessão, pode ser apanhada por cruéisobsessores. O que sentimos, espíritas ou não, quando uma criança, cheirando cola, vem emnossa direção? Fugimos dela, mesmo que tenha apenas cinco anos de idade. Quantascrianças, sem nenhuma chance de defesa são assassinadas por abortos no Brasil?Quantas morrem de fome neste vasto mundo? Quantas são mutiladas e mortas emguerras engendradas por adultos? O que fazem com elas os pedófilos? De onde parte amaioria das agressões a elas senão da própria família que a abriga sob seu teto? Recentemente li um relatório da Confederação Internacional de CréditoAgrícola, dando conta de que se chega a gastar oitocentos bilhões de dólares em
  8. 8. 8armamentos por ano, em período de paz, enquanto trinta crianças morrem de fome, emapenas um minuto, no mundo; que milionários gastam milhões de dólares em tacos parajogar golfe enquanto a morte cava covas cada vez mais profundas. O mundo material gasta boa parte da sua violência em atormentar crianças. Omundo espiritual inferior, do qual a Terra é cópia aproximada deveria ser diferente?Claro que há casos e casos, e que em todos eles devemos observar atenuantes eagravantes, mas negar que crianças passam por obsessões, não há como. Mesmo osapóstolos, não foram carinhosos, afastando-as de Jesus, que interferiu a favor delas(Então lhe apresentaram uns meninos para que os tocasse; mas os discípulosameaçavam os que lho apresentavam... Marcos, X: 13-16) Não mandou Herodes, segundo consta relato bíblico, matar todas as criançasinferiores a dois anos de idade? O mesmo não fazia os egípcios periodicamente, paraque a população de escravos não se tornasse dispendiosa? Portanto, a agressão vem delonge e em todas elas há de se analisar imparcialmente o histórico, sobretudo, moral doEspírito agredido. Todavia, por conta de ser um Espírito velho e comprometido com a Lei, jamaisse deve ficar impassível diante do sofrimento de quem quer que seja, principalmente, deuma criança. Jesus tinha especial carinho por elas (... E abraçando-os e pondo as mãossobre elas, as abençoava). Mas voltemos às obsessões. Vejamos o comentário de Kardec em complementoà resposta 199 a de “O Livro dos Espíritos” relacionada ao destino das crianças depoisda morte: Não é racional, aliás, considerar a infância como um estado normal deinocência. Não se vê crianças dotadas dos piores instintos em idade na qual a educaçãonão pôde, ainda, exercer sua influência? Algumas não há que parecem trazer do berçoa astúcia, a felonia, a perfídia, o instinto mesmo para o roubo e o homicídio, nãoobstante os bons exemplos dados pelos que com ela convivem? Vejamos o que nos diz André Luiz em seu livro “Evolução em dois mundos”,capítulo XV, vampirismo espiritual, psicografado por Chico Xavier: Parasitismo e reencarnação: Nas ocorrências dessa ordem, quando adecomposição da vestimenta carnal não basta para consumar o resgate preciso, vítimae verdugo se equiparam na mesma gama de sentimentos e pensamentos do além-túmulo, em dolorosos painéis infernais, até que a misericórdia divina, por seus agentesvigilantes, após estudo minucioso dos crimes cometidos, pesando atenuantes eagravantes, promove a reencarnação daquele espírito que, em primeiro lugar, mereçatal recurso. E, executado o projeto de retorno do beneficiário, a regressar do planoespiritual para o plano terrestre, sofre a mulher, indicada por seus débitos à gravidezrespectiva, o assédio de forças obscuras que, em muitas ocasiões, se lhe implantam novaso genésico por simbiontes que influenciam o feto em gestação, estabelecendo-se,desde essa hora inicial da nova existência, ligações fluídicas através dos tecidos docorpo em formação, pelas quais a entidade reencarnante, a partir da infância continuaenlaçada ao companheiro ou aos companheiros menos felizes, que integram com elatoda uma equipe de almas culpadas em reajuste.
  9. 9. 9 Desenvolve-se-lhe, então a meninice, cresce, reinstrui-se e retorna àjuvenilidade das energias físicas, padecendo,porém, a influência constante dosassediantes, até que, frequentemente por intermédio de uniões conjugais, em que aprovação emoldura amor, ou em circunstâncias difíceis do destino, lhes ofereça novocorpo na Terra, para que, como filhos de seu sangue e de seu coração lhes devolva emmoeda de renúncia os bens que lhes deve, desde o passado próximo ou remoto. Acredito que a nossa admiração diante do fato de uma criança ser obsidiadadeve-se às nossas idéias cristalizadas do passado, quando por ocasião da morte de umadelas dizíamos: É um anjinho! Não teve tempo para pecar! Vai direto para o céu! Mas a reencarnação não aprova tal raciocínio. Sabemos que havendo Espíritodevedor da lei cujo ofendido não o tenha perdoado e um possível encontro entre ambospode ocorrer obsessão; que não existe Espírito criança, mas Espírito com o corpo decriança, que pode ser, inclusive, mantido por ele nesta forma como opção de apresentar-se aos demais. Se a obsessão em criança é permita na condição de encarnada, quando o auxílioimediato por parte dos bons Espíritos depende de inúmeras variáveis, por que não oseria na condição de desencarnada quando depende apenas das decisões deles? Qual arazão? Dois pesos e duas medidas? Isso não ocorre entre mentores espirituais. Ou existeobsessão em "criança" ou não existe. Não tenho conhecimento de uma lei moral válidapara encarnados e não válida para desencarnados. Fui tocado por imensa, emoção enquanto conversava com a mãe da garota, aome lembrar daquele pai abraçado ao filho, ajoelhado diante de Jesus (sempre meenterneço com ele) rogando: Senhor! Tem compaixão do meu filho, que é lunático epadece muito; porque muitas vezes cai no fogo, e muitas na água. E tendo-oapresentado aos teus discípulos, eles não o puderam curar. O mínimo que posso fazerpor Hortência é dar o máximo de mim na resolução desse drama. Foi o que prometi aomeu coração. Conversei demoradamente com Margarida, sua mãe, pessoa lúcida, espíritaconsciente. Enquanto conversava, a imagem de Maria, e a dor imensa que sofreu ao verseu filho, Jesus, torturado, ensangüentado, olhos semimortos, mas cheios de esperança,não me saia da cabeça. Estaria aquela mãe, sentada a minha frente, preparada paraenfrentar inimigos do passado com as armas da fé e da oração? Adiantando-se ao meupensamento ela própria se propôs fazer o Evangelho no lar, trazer Hortência para tomarpasses, fluidificar a água através de orações e trazer para a evangelização infantil, suafilha, logo que esta reconhecesse as primeiras letras. Ainda por muito tempo as crianças terrenas terão fantasmas a enfrentar. Em umplaneta cuja maioria da população não tem respeito pelos passarinhos, regatos e flores,dificilmente a criança é amada como merece. Todavia, casos envolvendo criança são alvos de intenso cuidado por parte denossos instrutores. Tibiriçá se empenharia ao máximo, já que não tolera qualquerdesagrado feito às crianças. Tapuinha, a nossa médica-guerreira, muito menos.
  10. 10. 10Certamente meus amigos índios não poupariam esforços para livrar Hortência daameaça que se instalara em sua vida. “Seu Flores” seria auxiliado por todos nós, jardineiros a serviço do Senhor dosmundos; rosas com mais espinhos que pétalas, mas na sua função de perfumar oambiente com o suave aroma da caridade. Pensando assim dirigi-me ao abençoado salão de diálogos, ou seja, para areunião de desobsessão.O passado recente de Hortência A história do Espírito que ora se chama Hortência é bem peculiar. Diria mesmobem estranha, pois sua encarnação foi anunciada várias vezes, por mais de uma fonte.Margarida, a atual mãe, foi sua neta e pouco conviveu com ele. Dos diálogos que tivecom ela transcrevo aqui alguns fragmentos, logicamente mudando nomes e datas a fimde manter o anonimato dos envolvidos. Tais informações são necessárias para que o leitor possa compreender ocontexto no qual “Seu Flores”, atual Hortência, veio ao mundo dos encarnados nacidade cearense de Itapipoca no ano de 1908, desencarnando em Fortaleza 1988. Do envolvimento com mulheres: Durante sua vida se envolveu com váriasmulheres casadas, pois tinha grande apetite sexual, inclusive, pegando algumas àforça. Na mulher com quem casou gerou nove filhos, mas adultérios eram comuns emsua vida. Do seu jeito de ser: Era um comerciante totalmente analfabeto, pois nuncaentrou em uma escola. Acredito que isso tenha contribuído para os arraigadospreconceitos que nutriu durante a encarnação. Rejeitava negros, deficientes físicos econsiderava a mulher uma criatura inferior, cuja função era apenas procriar. Nãotolerava visitas porque, segundo ele, estas só serviam para lhe roubar a paz e seservirem do alimento que lhe pertencia. Eis alguns pensamentos seus: Não se deveensinar negro a ler porque ele vai escrever indecências nas paredes; se você ensinaruma cunhã a ler, a primeira coisa que ela vai fazer é escrever uma carta para umcaboclo, querendo se enroscar com ele. Sabendo que uma pessoa tinha má vida, seafastava dela sob o argumento de que era um cidadão, e assim sendo, não deveria secontaminar com a ralé. Na verdade era orgulhoso e preconceituoso. Sobre a missão de pai: Não foi um bom pai. Em uma discussão banal quismatar um dos filhos com uma foice. Este, se desvencilhando, foi embora e jamaisvoltou. De outra feita, sabendo que uma filha estava grávida de um deficiente, correuatrás dela para matá-la com uma faca. Quando a criança nasceu, também quis matá-la,por ser filho de um deficiente. Posteriormente, quando este filho já era adulto eocupando um cargo de destaque, “Seu Flores” necessitou de seus préstimos paraacelerar sua aposentadoria. Recorreu a ele e lhe disse: se você me ajudar eu o perdooupelo fato de ser filho de deficiente.
  11. 11. 11 Sobre seu desencarne: Sua saúde foi sendo minada por uma série de doenças,dentre as quais, câncer de próstata, cirurgias mal sucedidas de catarata e mal deParkinson. Era viciado em álcool, cigarros e jogos de azar. Levou consigo muito ódio edesejo de vingança de pessoas estranhas e de familiares. Minha avó, inclusive, já lherogou muitas pragas, pois na última briga que teve com ele foi cuspida, amarada eviolentada sob a mira de um revólver apontado para sua cabeça. Sua mágoa maior éporque acabara de ter saído de um aborto espontâneo. Sobre minha história: Minha mãe levou ao conhecimento de sua família queiria casar com um homem negro. Recebeu de cara do “Seu Flores” a seguinteadvertência: prefiro vê-la morta por atropelamento e totalmente estraçalhada do quecasada com um negro. Minha mãe partiu para outra e começou um relacionamento quenão foi bem sucedido. Quando meu pai se foi deixou uma semente, está que lhe fala.Minha avó, prevendo represálias por parte do marido, “Seu Flores”, inventou queminha mãe estava grávida de um homem que havia sofrido um acidente e que agora eraum inválido. Então ele me registrou como sua filha legítima, pois jamais aceitaria uminválido na família. Dessa maneira fiquei sendo filha e neta ao mesmo tempo Contaram-me que ele sempre me acolheu bem, desde o ventre da minha mãe.Fui crescendo e quando completei oito anos de idade ele desencarnou. A partir deentão, sempre que ia passar por grandes dificuldades, sonhava com ele. Era como umaadvertência para que eu me preparasse para enfrentá-la. Passei a sentir um amorinexplicável e um desejo arrebatador de ajudar meu avô a pagar as dívidas que elecontraiu. Quero que ele pague à Lei Divina, com amor, através do Evangelho de Jesus. Na minha família sempre me contaram várias versões sobre minha origem.Nenhuma que me fizesse feliz. Diziam que minha mãe era uma mulher promíscua eabortadeira, coisa que não acredito. Cresci com muitos problemas. Como tiveformação religiosa no catolicismo era lá que tentava me livrar do desejo de por fim àminha vida. Hoje venci este impulso e melhorei meu comportamento rebelde,revoltado, infeliz, que me acompanhava desde a infância. Atualmente estudo a Doutrina Espírita e estou conseguindo mudar muita coisaem minha vida. Sobre a anunciação: Minha mãe trabalha em um Centro Espírita e lá umEspírito chamado José do Nascimento, o Dragão do Mar, dirigindo-se a ela no dia 9 deoutubro de 1997 disse-lhe que seu “Flores” voltaria à carne como filho de sua neta.Segundo ele, o moço se arrependera profundamente ao constatar a extensão dos seuserros e pedira uma oportunidade, em caráter imediato, para reparar parte do mal quepraticara. Essa informação foi confirmada no nosso evangelho no lar e em outrasoportunidades. Acredito que era uma espécie de aviso para que nos preparássemospara recebê-lo. Sobre a gravidez e o nascimento de Hortência: Minha gravidez não foi daspiores. Tive alguns cistos no ovário que me obrigaram a uma intervenção cirúrgica.Também tive descolamento de placenta. No mais, graças as minhas preces e a ajudados amigos espirituais ela nasceu bem. Margarida é uma pessoa consciente de suas responsabilidades. No momentoparticipa de um curso básico de Espiritismo, embora demonstre conhecimentos além
  12. 12. 12dos que ora estuda. Acredito que esteja preparada para a tarefa que lhe confiaram:educar “Seu Flores” dentro da Doutrina Espírita para que ele comece a extensa subidaem direção à luz divina.A lança do Centro Espírita Algumas pessoas consideram que unir as mãos em defesa de uma idéia significaatingir o final de um processo evolutivo no campo em que operam. Isso as faz bloquearo recanto mental que poderia lhes fazer avançar com ensinamentos novos. Tais pessoas rebaixam o Espírito a simples operário exposto a estagnação epouco apreço dá a evolução, que exige constantes mudanças e rápidas passadas, naquiloem que se empenham. São, no dizer de Jesus, os que fazem o que deveriam fazer, e não o que poderiamfazer, pois avançariam velozmente se utilizassem o “motor de propulsão” desativado.Médiuns e doutrinadores de mãos unidas é alguma coisa; de almas unidas é tudo. Nelson Mandela, cansado de pedir e de explicar que os negros tinham direito àliberdade dentro do seu próprio país, sem jamais ser escutado, organizou um movimentoarmado a que chamou de “a lança da nação”. Algo semelhante, embora de maneirapacífica, aconteceu a Gandhi e Luther King que criaram a desobediência civil, e SteveBiko, mentor da consciência negra. Às vezes me parece que as pessoas precisam ser empurradas para fazer aquiloque necessitam ou que se comprometeram a fazer. Sem dúvidas isso promove umdesgaste da energia que poderia ser utilizada dentro da própria atividade do CentroEspírita e é responsável por desistências e desagrados, melindres e futricas dentro doambiente de trabalho espiritual. Sob o argumento de que precisam sobreviver, do qual se servem para justificartodos os atrasos, faltas e desistências, algumas pessoas levam o “desculpismo” paradentro de uma reunião mediúnica. Outras, mais desavisadas, chegam mesmo a encarar otrabalho voluntário como aquele no qual o trabalhador vai desempenhar sua tarefa nodia que quer e chegar na hora que lhe convém. Duas coisas parecem bem estranhas quando partem de pessoas que se dizemespíritas. Uma delas é o “desculpismo” diante da falta ou da negligência para com aoportunidade de serviço; a outra é o “achismo”, que consiste em emitir respostasinadequadas ou equivocadas devido ao personalismo ou a falta de estudo das questõesdoutrinárias, sejam elas científicas, filosóficas ou morais. Cabe ao doutrinador alertar a todos que o dueto “disciplina e caridade” é a senhade entrada e a regra utilizada nas relações do grupo, salvo em raríssimas exceções. Deveouvir a desculpa do retardatário ou faltoso e lembrar-lhe de que Deus espera de todosnada menos que fidelidade no que foi acordado. Infelizmente, em qualquer Centro Espírita o doutrinador enfrenta o problema dafalta de médiuns destinados aos trabalhos do dia. Este detalhe é responsável por boaparte do seu estresse e da ineficiência que ronda as portas da oficina em que trabalha.
  13. 13. 13 Doutrinador com paciência curta precisa aprender a moderar sua vontade dechamar o faltoso e dizer-lhe sem meias palavras: Deus é o mais ocupado de todos emesmo assim trabalha sem cessar, sem jamais faltar a um só compromisso. Ainda nãoconsegui demonstrar serenidade diante da negligência ao trabalho espírita. Sempre ficoao lado de Tibiriçá nessas horas de avaliar a falta. Aprendi na cartilha dele que nemmorto se falta a um compromisso. No caso dele, como já é desencarnado, ou seja, nãodesencarna em serviço, jamais faltou a um compromisso nesses quarenta anos deconvívio. No meu caso, disse-me ele certa vez referindo-se a minha condição deencarnado, é deixar o corpo no caixão e comparecer ao trabalho. Como alguns médiuns haviam faltado à reunião por motivos variados, decidiescrever pequena mensagem para que fosse lida no início da primeira reunião dedicadaa Hortência, a pequena flor do campo, como a chamei logo que soube de sua condiçãoespiritual. Pensei no dueto, “disciplina e caridade” a lança do Centro Espírita, estiquei oarco e lancei minha seta para o mundo das idéias. É assim que sempre faço quandoquero pescar palavras. Sem demora, como um bumerangue encantado, de algum lugarsecreto, dos confins do dicionário de algum poeta, as palavras chegaram como um riocaudaloso e prateado. Invadiram minha mente como um raio de sol penetra uma vidraça colorida debiblioteca, deixando em minha pele um arrepio e na minha mente um rodopio. Capturei-te palavra! Se Deus quiser sempre estarás comigo, disse. E tive a sensação de escutarum sussurro vindo do mesmo mundo das idéias, para aonde havia atirado a seta: sou tua. Desse namoro com o infinito resultou o seguinte texto, que foi lido na primeirareunião de Hortência.Substituindo velhas frases Antes de dizer não, ao chamado do trabalho espírita com o qual secomprometeu, reflita sobre suas atividades cotidianas, à luz do sábio ditado popular:quando queremos, sempre arranjamos um jeito; quando não queremos, sempreencontramos uma desculpa. Portanto, no lugar de dizer: não tenho tempo, diga: priorizando tarefas sei queestarei lá. Ao invés de pensar: estou cheio de trabalho, diga: que bom que Deus mepermitiu mais uma oportunidade de serviço. No lugar de dizer: tenho um aniversário para ir, diga: depois da minha tarefa ireiabraçar o aniversariante. No lugar de dizer: o lazer me espera, diga: o fazer me chama Na tentação de argumentar: meu filho vem me visitar, diga: vou visitar os filhosdo meu coração, na volta abraçarei o filho da minha alma. Se é dia das mães, Finados, Carnaval, Semana Santa ou similares, não diga: éferiado, não haverá trabalho. No lugar disso, reforce: Eu trabalho e meu Pai trabalhasem cessar.
  14. 14. 14 Se está chovendo, não dê a desculpa à sua consciência de que não vai ao Centroporque não tem um guarda-chuva. Ela não aceitará este argumento a não ser que estejaocorrendo uma inundação e você não tenha uma canoa. Antes diga a si próprio: mesmosabendo que iria morrer dolorosamente Jesus compareceu diante dos algozes. Se um amigo o convidar para qualquer evento que o fará feliz, segundo oconceito mundano de felicidade, não diga a ele que o seguirá, mas agradeça-lhe oconvite e explique-se: Tenho um compromisso inadiável com alguém mais importanteque o governador. Se ele insistir em saber com quem você está comprometido, diga:com Jesus. Se os amigos organizaram uma festa em sua homenagem no dia de sua reuniãomediúnica e exige sua presença, não diga: estou nessa! Seja fiel aos seus verdadeirosamigos, os espirituais, e responda com gentileza: Vou participar de um banquete nestemesmo horário. Se puderem esperar, comemoraremos juntos a alegria que este encontronos causa. Mesmo que alguém muito amado lhe diga: Não vá! Você pode ser assaltado emorto. Responda: Se isso acontecer, já que estarei a caminho, comparecerei paratrabalhar na condição de desencarnado. Seja qual for o motivo que o leve a se afastar da casa espírita, este deve serseriamente avaliado. O espírita deve ir além do senso comum e ter a certeza de que ele éque precisa do Centro Espírita, pois este sobreviverá com a sua ausência. Além do maisdeve estar convicto de que o local mais fácil de ser encontrado pelos bons Espíritos é notrabalho. Li a mensagem para os médiuns que a escutaram sem pronunciar uma únicapalavra. Mas a absorveram sem deixar escapar nenhuma delas. Em nossa casa espírita há regulamentos versando sobre faltas e condiçõesexigidas para que um médium adentre uma reunião de desobsessão. No entanto,consideramos como mais eficientes os mandamentos que gravamos na mente econservamos no coração por necessidade da consciência. Daí o esforço que fazemos emsempre levar mensagens que lembrem a obrigação moral de assumirmos comresponsabilidade o trabalho com o qual nos comprometemos de livre vontade. Guias disciplinados e incentivadores que temos não nos permitem adormecer emárea de trabalho. Dr. Mário Rocha, um dos nossos instrutores espirituais definiu hámuito tempo, em parceria com Tibiriçá, o lema que deveríamos seguir: Compromissoassumido é compromisso cumprido. Gostei e me afinei com ele. Por isso o adotei como regulamento da minhaconsciência.A falange dos espedaçados
  15. 15. 15 O ódio atua no perispírito como um ácido a danificar-lhe as engrenagens.Incompatível com a felicidade, ele é um ladrão da paz e um assassino da saúde, uma vezque é fábrica de tormentos, dentre os quais se destacam a ansiedade e a frustração. Quando alguém diz, odeio, diz também, sou infeliz, estou doente, perdi a fé,caminho para o abismo. É preciso muita paciência, compreensão e amor para lidar comquem odeia, pois este exige demais sem nada retribuir, a não ser decepções e desgosto. Somente Espíritos fortes acolhem e tratam os infectados por este mal, uma vezque têm a piedade como marca inconfundível das virtudes que já conquistaram. Os que perseguiam a pequena Hortência estavam todos doentes. E comoafirmara Jesus ter vindo ao mundo por causa deles, ovelhas desgarradas, pois os sãosnão necessitam de médicos, deveríamos fazer o melhor ao nosso alcance para amenizar-lhes as dores. É pensando em tal argumento que o doutrinador deve iniciar uma reuniãosob seu comando. E foi assim que, advertido por uma médium de que já estava em serviço,encaminhei-me para ela ciente da presença de todos os amigos desencarnados quesempre estiveram comigo neste mundo de lutas. - Estou no quarto de Hortência. Tudo esta avermelhado pelo sangue. Asparedes, o berço, o teto... Poderia jurar que estou em um abatedouro de animais, sem amínima higiene. No interior do apartamento encontram-se espalhados bebês mutiladose ensangüentados. Isso está me dando náuseas. Eles se movem em estertores, fazemcaretas de dor, fecham os punhos como se quisessem pegar o ódio com as mãos. Coisa tétrica. A pequena Hortência tem sono intranqüilo. Os bebês deformadosparecem espreitá-la. Diria que eles agem de maneira planejada, ou seja, sabem muitobem o que fazem, e o fazem com a intenção de assombrar a menina. Vejo um negro muito forte e alto. Ele tem um chicote na mão e parece esperarque a pequena saia do corpo para atacá-la. Além do chicote porta outros instrumentosde flagelação, que embora rudimentares, são perigosos. Tibiriçá vai laçá-lo. Acho que vai ser uma briga feia, pois a caça é tão fortequanto o caçador. Se bem conheço nosso amigo, o oponente poderia ter até o dobro dasua altura que ele não desistiria. A rede cortou o vento e caiu em cheio por cima doafricano. Ele se debate, tenta rasgá-la, ruge como um animal com os olhos fixos emTibiriçá, mas está seguro. Vai ser encostado a mim para que você ouça, primeiramente, os insultos, depoisquando ele cansar, os argumentos. - Covardes! Mesmo vendo o que ele fez, ainda ficam do lado dele? É o que sepode esperar de brancos matadores de negros. Quando sair daqui, acertaremos ascontas segundo minha tabuada. - Não estamos em guerra contra você ou seu povo. Queremos que a criançacresça em paz a fim de pagar os débitos que fez à lei de Deus. Acredito que este sejatambém o seu desejo. O Espírito antigo, agora nesse corpo frágil, comprometeu-se aresgatar o passado doloroso. Mas como pagar se os credores se negam a receber? - Queremos que ele pague o que nos deve, mas com muita dor. Fez a nós, devepagar a nós. Não nos interessa lei ou religião. Quando estávamos nas mãos delenenhuma das duas fez nada por nós. Pois que não se meta agora que o temos na mira.
  16. 16. 16 - Sei que está em posição desconfortável nessa rede, mas se me prometer discutiras ofensas cometidas contra você e seu povo, com calma, o libertaremos para umaconversa frente a frente, como vocês lutam com os leões nas savanas. - Nada de conversa com traidores. - Pode, pelos menos, me dizer quais os crimes que ele cometeu contra seu povo? - Contra o povo dele. O desgraçado é banto como nós. Era o chefe da nossatribo. Cruel e sanguinário, matou e mutilou muitos de nós. A outros vendeu comoescravos, destroçando suas famílias. Matava crianças sob o pretexto de que faltariacomida se a tribo aumentasse muito. Mutilava as mulheres cortando-lhes os seios paraque não mais amamentassem as crianças e elas morressem à míngua. É esse miserávelque vocês defendem. É esse o monstro que querem apadrinhar. - Não sabíamos da extensão dos crimes que ele cometeu. Mesmo assim insistoque a justiça divina, que é incorruptível, cuide dele. As crianças que a médium vêesquartejadas são apenas criações mentais ou Espíritos com idéias fixas no instante damorte? - O que você acha? Que estamos aqui para brincar de desenhar criançasesquartejadas? É uma falange de Espíritos que foi cortada pelo facão dele. Todas elasestão presentes para cobrar o que lhes devem. Sou o pai de uma delas. - Não quer mesmo conversar fora da rede, como dois amigos? - Não. Não tenho amigos traidores. - Lamento. Vou ficar com seu chicote e com os demais instrumentos.Permanecerá aqui como nosso hóspede para prolongarmos esta conversa quando estivermais calmo. Preciso me ausentar para atender a uma amiga sua que acaba de sercapturada enquanto pulava pelas paredes. A médium havia confidenciado que uma mulher negra a observava como seestivesse pregada à parede. Capturada, encheu-nos de insultos por retirá-la de junto deHortência. - Pensam que podem deter a minha mão armada? Estou de vigia e espreito cadamovimento do assassino. O filho que ele me roubou vai lhe custar muito caro. O sanguedo meu filho vai ser resgatado gota a gota. - A primeira preocupação de uma mãe deveria ser a de cuidar do seu filho. Noentanto, não ouvi de seus lábios nenhuma pergunta com relação a ele. - Como posso falar de amor a um filho esquartejado? Não acredito mais noamor, mas na força e na guerra. No meu coração não há espaço para outra coisa quenão seja ódio. Ele é a energia que me movimenta por essas paredes. O trabalho de meprender em grades é inútil, pois ninguém consegue arrancá-lo de dentro de mim. Ondeestiver, permanecerei direcionando o mal e a ruína para o desgraçado que cobriu dedor o meu povo. - Como ele matou seu filho? - Arrancando-o de dentro de mim e dividindo-o a facão. Ele é o demônio quehabitou entre os bantos. Representa o mal, a covardia, a destruição, a força das trevasdescida sobre o povo negro. Nenhum branco nos fez tanto mal quanto ele. - Sinto pelo seu filho e entendo o seu ódio, embora não pactue com ele. Gostariade ajudá-la, mas no momento não sei como. Tudo quanto tenho e posso oferecer são
  17. 17. 17nossos médicos, nossos abrigos, nossa amizade. Se quiser permanecer entre nós paraque encontremos um meio de ajudar seu povo, sinta-se à vontade. - Na condição de prisioneira? Tudo que os brancos nos têm ofertado são prisõese miséria. Pilharam nossas aldeias, fizeram nossos filhos escravos, dividiram nossopovo, pois irmãos combatiam irmãos incentivados por eles. Nem mortos somos livres,pois o ódio nos aprisiona. Serei livre quando matar o corpo que se forma e capturar oEspírito que me deve. Essa é a minha convicção. Não pense que somos poucos oufrágeis. Somos muitos e firmes. A selva tem sua lei. Agora somos os leões e ele o filhotede gazela. - Julgo que irredutível como se encontra, nossa conversa não será conclusiva.Ficará um tempo conosco para que a criança respire melhor. Quando estiver pronta paraum mergulho no passado, lugar da verdadeira causa dessa chacina, voltaremos aconversar. Até lá ficará conosco e será bem tratada. As primeiras conversas com Espíritos endurecidos exigem complementos. Elesestão raivosos, enfurecidos por estarem tolhidos, se julgando vítimas, pois as causaspassadas, ou seja, seus próprios equívocos, gênese da agressão que sofreram, estãosepultados pelo esquecimento. Não é hora de levá-los a uma regressão, pois ainda não estão preparados para ummergulho no passado. É preciso deixá-los perceber outras janelas abertas cujo painelmostrado não seja o ódio. Isolados, ouvindo músicas suaves, conversando compsicólogos, sendo visitados por quem realmente se interessa pelos seus destinos, fora dociclo de ódio que os alimentavam, aos poucos entram no clima da reflexão. É então quesão levados novamente à reunião de desobsessão. Às vezes tudo se resolve em trabalhosdurante o sono físico dos médiuns, no plano espiritual, onde as reuniões têmcontinuidade. Nesses casos, como estes não se lembram dos trabalhos realizados, tudose passa como se aquele personagem que não mais retorna houvesse sumido sem deixarpistas. No clima bélico instalado pelas entidades capturadas, voltei-me para um grito deafronta de mais uma médium. - A criança vai morrer! - E quem decretou a sentença de morte? - Eu! Não adianta tratamento médico, espiritual, psíquico, neurológico, nada! Osalário do assassino é a morte. Ela está condenada! Vai morrer seca, assustada,gritando. Vai ter a pior morte! Ela não sobreviverá dois meses! - Foi o tempo que ele gastou em torturá-lo? - Não! O facão dele era rápido. Digo mais! A Mãe dele vai ficar arrasada! Vaiter que arrastar a dor da perda e do remorso. - Qual o grau de envolvimento da atual mãe nesse drama? - Até os cabelos. Era mulher dele. Quando tinha ciúme das negrinhas jovens ebonitas, mandava decepar os seios, arrancar os dentes, riscar o rosto para torná-lafeia. Hoje ela se faz de inocente, mas de inocente não tem nada. - Sua tribo era grande? - Muito grande. Ela também entregava negras para serem escravizadas. Era tãoruim que até os da família dela, vendia como escrava.
  18. 18. 18 - Lembra do nome dele? - Só posso dizer que ele faz parte da história. Tenho que respeitar o sigilo. - De onde partiu a ordem para ocultar o nome dele? - Existe algo superior que nos adverte para não revelá-lo. Temos que obedecer.Faz parte do contexto histórico. Não podemos ignorar essa ordem. O Leitor poderá se perguntar por que negros com idéias cristalizadas navingança, alguns analfabetos, expressam suas idéias tão corretamente. Neste caso osmédiuns traduzem o pensamento do comunicante, utilizando-se para isso, de suaspróprias palavras, o que não caracteriza uma alteração ou mistificação. - Qual o mal que ele lhe fez? Foi vendido, decepado? - Fui vendido e vim parar no Brasil. Sou um jovem. Desembarquei aqui comminhas irmãs. Trabalhei em engenho de cana-de-açúcar. - Foi bem tratado pelo seu dono? - Sim. Não cheguei a apanhar nem fui para o tronco, mas morri escravo, semalcançar a liberdade, que era meu grande sonho. - Ficou gostando do Brasil? - Sim. Ainda sinto o cheiro do mel da cana. Ás vezes visito engenhos que teimamem sobreviver. Nessas ocasiões parece que fico mais leve. Ajudo meus irmãos nessavingança por ter visto tudo aquilo. Por desaprovar a conduta dele. Digamos que estouna luta por solidariedade. - Ninguém se importa ao vê-lo na pele de uma criança indefesa? - A maioria não liga para este fato, pois sabe que ali está um assassino. Quandoo olhamos de frente vemos o rosto dele e não a inocência de uma criança. - Vocês têm acesso a ele? - Total. Quando ele sai do corpo sua aparência é a do assassino. Nessasocasiões o torturamos e o corpo da criança estremece. Procuramos castigá-lo aomáximo em pouco tempo porque sabemos que ele vai correr e se refugiar no corpo.Batemos, maltratamos e vampirizamos, sem nos saciar. - Não há nessas ocasiões um só Espírito que o defenda? - Há. Uma matriarca. Uma espécie de madrinha que parece compadecida com oseu drama. Quando ela ora, respeitamos. A prece o alivia, mas ela não pode ficar otempo todo com ele. - Qual o efeito que a prece produz em você. - Respeito. Fico receoso. Fico tocado e digo para mim mesmo para parar umpouco. - Você acredita em Deus? - Eu acredito. Mas a maioria dos meus irmãos está descrente devido ao quepassou. - E o que sua consciência, que é a voz de Deus dentro de você, lhe advertequando você o tortura? - Procuro não pensar nisso para não me fragilizar e desistir. Lembro mais dosmeus irmãos ofendidos e esse pensamento me fortalece. Não sou de todo ignorante.Tive chance de estudar um pouco e sei que serei cobrado pelo que estou fazendo. Mas
  19. 19. 19sei que ele também merece isso. A justiça de Deus é lenta e queremos uma coisa maisimediata. - Vocês são muitos? - Sim. O equivalente a uma população de dez senzalas. - Gostaria de ficar conosco para prolongarmos esta conversa? Interesso-mebastante por este período da história, e como você a viveu, muito teria a me ensinar. - Se na condição de convidado, sim. Posso explicar-lhe a saga do meu povo. Nunca se sabe o que está na mente ou no coração de um comunicante. Odoutrinador deve acolher a todos, confiante, mas com aquela reserva de vigilânciaaconselhada pela prudência. É comum durante um diálogo a calma se exasperar e odestempero se acalmar. O coração da maioria dos obsessores tem cofres e armadilhas.Nos primeiros, estão guardadas as fagulhas de bondade, pois ninguém é de todo mau.Nas segundas, todo sentimento negativo que ainda não conseguiram alijar. Daí o cuidado e o tato psicológico que o doutrinador deve empregar, sempredeixando claro que qualquer movimento em favor da reconciliação entre os litigantesterá apoio integral da equipe que o auxilia. As primeiras reuniões que visam à solução de casos complexos de obsessão sãosempre movimentadas e com forte traço de agressividade. Hortência estava sob fogocerrado e era preciso desocupar, ou pelo menos aliviar, o espaço onde tentavasobreviver, pois estava infestado de crianças deformadas. Tibiriçá, cuja função é capturar agressores e zombeteiros da lei, geralmente pedeajuda a outros Espíritos, que o atendem devido ao respeito que conquistou entre eles,quando precisa enfrentar a magia negra. Desta feita, uma mulher exótica, com vozmetálica e afeita a dar ordens, estava com ele. Ambos seguiram com a médium até oquarto da pequena Hortência, iniciando-se o trabalho com a descrição da médium. - Aqui estou com Tibiriçá e uma senhora muito valente que não quis seidentificar. Todavia sei que ela é uma entidade da umbanda. Ela olha o cenário semdemonstrar medo ou admiração, com se estivesse acostumada a espetáculos dantescoscomo o que vemos. São dezenas de Espíritos na forma de crianças recém-nascidas,todas mutiladas, faltando pedaços, ensangüentadas, mostrando carantonhas horríveis. Há sangue por toda parte. A mulher, que tem aspecto de guerreira, vasculha oambiente com seu olhar felino e se detém na figura de uma negra que apresenta cercade cinqüenta anos de idade e tem uma espécie de bacia de barro na mão. No interior da bacia há seios cortados, muitos dele. Meu Deus! Agora entendoas dores que sinto nos seios desde ontem. Já marquei, inclusive, uma consulta médicapara avaliar este problema. De alguma maneira, devo estar ligada desde ontem a estaentidade. A bacia está encharcada de sangue bem como as vestimentas da senhoranegra. A guerreira se dirige para ela com as mãos fechadas, como se fosse agredi-la ea segura pela gola. - Que está tentando fazer sua imbecil. Até mesmo entre os maus uma criançadeve ser respeitada. Se lhe restou algum juízo depois que foi torturada, desfaça já essetrabalho sujo. Aprenda a esperar a ordem natural das coisas. Pensa que pode ser maisdo que Deus?
  20. 20. 20 - E quem foi que disse que tenho medo de você, sua arrogante. Para nós Deusnão existe, pois nos abandonou à própria sorte. Isso aqui é Quimbanda! É dessamaneira que resolvemos nossos problemas. Se tem coragem para me enfrentar entre naroda; se não tem, corra depressa antes que a panela ferva. - Aqui estou para impedir que você desça mais fundo do que já conseguiu. Nãoqueira medir forças comigo, pois não tem energia para isso. Põe fogo nessa bacia oueu mesmo te obrigo a deixá-la em pedaços. - Quem você pensa que é para atrapalhar o meu serviço, sua vadia? Se querprovar do meu veneno se achegue. - Olha bem para o meu rosto para que o respeite quando nos encontrarmosnovamente. Por agora beija o chão e obedece! Dizendo isso, a estranha derrubou a africana e a obrigou a vomitar tudo quantotinha ingerido e a incendiar o conteúdo da bacia. Em seguida a entregou a Tibiriçá queficou responsável por sua segurança. E voltando-se para mim (a médium) explicou-me o que ocorria naquele quartomacabro. - Aqui não tem nenhuma criança. Esses Espíritos se mantêm assim por vontadeprópria. Foram crianças, quando assassinadas na África, mas conscientementeoptaram por permanecer com essa forma para assustar seus algozes. Isso é coisapensada. É um pacto de sangue, coisa difícil de quebrar. Se quiserem podem, com oauxílio dos técnicos, retornarem a forma humana adulta, mas enlouquecidos de ódio, seaproveitam de suas cristalizações para induzir seus antigos pais a persistirem navingança. É filho alimentado pai com a energia do ódio. Foi esse trabalho que fez secar os seios de Margarida? Perguntei a africana quese queixava de estar cega e sem seus instrumentos de trabalho. - Aquilo foi apenas um pequeno efeito. Ele vai pagar por todos os seios quedecepou. Você não sabe o que é ter um filho arrancado de suas entranhas e vê-locortado a facão. Você sabe por que ele decepava seios? Por não gostava de seiosfartos. Maldito! - O que ele era? Dono de harém, chefe de tribo? - Assassino! Este é o seu nome e o seu título. Era o chefe da nossa tribo. Somosbantos. Na condição de chefe que deveria servir ao povo, o maltratava, matava, vendiacomo escravo. - Por que ele matava crianças? - Instinto assassino. Dizia que haveria fome com muitas bocas para comer. Masera pura maldade. Canalha! Imundo! Todos éramos escravas dele. Muitas das minhasirmãs chegaram aqui em navios, famintas, doentes, sujas como animais. Foramvendidas, humilhadas, separadas da família, e passaram a vida a limpar o chão dosbrancos. Se um branco as quisesse como objeto sexual bastava tomar a força. Senegassem iam para o tronco. Sou escolada na história do meu povo. Por isso meu ódioé maior. - Parabenizo pelos seus conhecimentos e sou solidário na sua dor, não no seuódio. Desde já me coloco à disposição para auxiliar na busca pelo seu filho. Deve serum grande guerreiro hoje.
  21. 21. 21 - Não! Não quero dever nenhum favor a você nem a branco nenhum. - Está enxergando melhor? ( A mulher se queixava de dor os olhos). - Um pouco. - Deixe-me melhorar sua visão. - O que vai pedir em troca? Se é para não odiar àquele assassino perde seutempo. Hei de odiá-lo até o fim dos meus dias. - Julga que seu ódio é justo porque lhe faltam dados para entendê-lo. - Nada é compreensível. Como pode alguém prejudicar a tantas pessoas e terproteção?Como pode o demônio ficar impune pelas maldades que praticou? Eu odeio omundo, a Deus, aos homens, a tudo. Só existe o mal, as trevas, o demônio que encarnounele. - E se eu lhe mostrar nessa tela, fatos que a convençam de que Deus existe? - Não vai me convencer porque eu só conheço a tortura, o sangue, a dor. Agoravocês vão me prender feito um bicho. Vão me engaiolar e defender a ele. São hipócritascomo ele. - Olhe para mim. Veja meu rosto. Ainda vamos conversar sobre a justiça divina.Virei durante o sono para conversarmos mais demoradamente. - Você não entende mesmo, não é?Eu só vejo sangue. Tudo que eu vejo tem acor vermelha. Que me interessa o seu rosto? Quero atitudes. Se quer ser meu amigotome partido e me defenda. Se não pretende auxiliar-me nessas condições, desista. - Somos teimosos quando se trata de ajudar nossos amigos. - A julgar pelos choques e maus tratos que recebi, sua amizade não é grandecoisa. Se tivesse visto uma filha pequena ser estuprada e morta não esqueceriafacilmente a cena e perseguiria o assassino até os confins do inferno. Estou prisioneirae você se diz amigo. De que lado você está? - De Deus - Houve um tempo em que pensei que ele existisse. Hoje não mais acredito nele.Certamente é uma invenção para nos fragilizar e dominar com mais facilidade. Hojeacredito na força. - Quer um calmante para dormir um pouco? Acredito que esteja cansada enecessitada de repouso. - Não! - Precisa descansar. O ódio deixa qualquer pessoa exausta. Quer ver paisagenscom sua filha? - Não! - Não se interessa mais por ela? Dizem que é uma jovem muito bonita. - Enquanto estiver saturada de ódio prefiro não vê-la. Quando tiver depositadotodo ele no coração daquele assassino a buscarei. - Teme que ela desaprove o que você faz? - Não é isso. Sei que mentem quando falam dela. - Baseio-me no fato de que toda mãe reconhece seu filho. Se mostrarmos umaimagem dela seu amor a registrará de imediato como verdadeira. - Chega! Arranje outra maneira para me torturar. Essa é dolorosa demais.
  22. 22. 22 - Julguei que falar de uma filha para sua mãe, trazendo-lhe boas notícias, fossemotivo de refrigério para sua alma. - Não! Não quero! Quero primeiro matá-lo. Ai! Meu coração. Deve estar doendo muito. Dizem que o ódio vai obstruindo todas as veias eartérias e acaba por enfermar seriamente este generoso órgão. Deixe que nossosmédicos a examinem. - Não! Vai passar logo! - Há quanto tempo não passa? - Jamais deixou de doer desde que me cortaram os seios e mataram minha filha - Então por que tenta enganar a si mesma? - A dor está aumentando agora... - Estamos em uma emergência médica. Nesses casos o paciente não tem vontadeprópria. Vou lhe ministrar um calmante para que possa dormir. Quando acordar estarásob os cuidados de nossos médicos. Depois voltaremos a falar sobre sua filha. A mulher foi adormecendo aos poucos, inclinando a cabeça sobre a mesa atéque, colocada em maca seguiu para atendimento médico. A desconhecida saiu de cenae Tapuinha, uma índia que nos auxilia nos dramas onde a quimbanda predomina comoarma ofensiva, veio em nosso auxilio. Eis como a médium continua a descrição doocorrido - Entre os que estão deformados existem alguns que apresentam brechasmentais através das quais podemos penetrar e quebrar os vínculos que os prendem aopassado. É o que vamos fazer agora. Pareço adentrar uma espécie de túnel, segurapela mão de Tapuinha. Não sei exatamente o que devo fazer, mas ela diz que servireicom intermediária, para os Espíritos que se apresentam cansados dessa luta inglória epodem sair do cenário com a nossa ajuda. Em caso de comunicação não haverá diálogo, pois emitirei apenas palavrasdesconexas, servindo o intercâmbio como um choque anímico para despertá-los dascenas coaguladas na mente. Noto que não estamos sozinhos. Existem Espíritos luminosos, médicos da equipedo doutor Bezerra participando desse trabalho. Eles recolhem as crianças como sefossem filhos e partem com eles deixando apenas os mais endurecidos para resgatesposteriores. Por parte da médium ouvimos apenas gritos e urros, gemidos e lamentos, até quese aquietou e adormeceu. Sem demora outra médium já entrava em cena. - Veja meus dedos cortados! Aqui estou para mostrar o que ele fez comigo.Vocês estão sendo injustos tomando o partido de um assassino. - Por que um chefe de tribo cortaria os dedos de um dos seus guerreiros? - Por que ambicionava sua mulher. Eu tinha um amor; acreditava nele, gostavade viver nos campos da minha terra. Era um jovem de apenas dezoito anos quando elecobiçou a minha mulher. Aprisionou-me e apoderou-se dela, estuprando-a na minhapresença. Como me revoltei e o insultei ele mandou primeiro cortar-me os dedos edepois me matou. - Por que veio até nós?
  23. 23. 23 - Para dar testemunho da maldade dele. Aqui está uma prova de que ele é umassassino, portanto, não existem razões para protegê-lo, a não ser que também sejamassassinos. - Não estamos em um tribunal. Isso aqui é uma emergência médica. Deixe-mever seus dedos, pois conheço uma técnica para restaurá-los. Como era um Espírito ainda muito ligado a eventos materiais, molhei minhasmãos e modelei cada ponta do seu dedo, induzindo-o a lembrar como eram suas mãosantes do incidente. Quando terminei o que chamei de tratamento, disse-lhe: verifiquepor você mesmo como tudo está perfeito. Ele olhou demoradamente para as mãos e respondeu: parece que sim. Parece nãoé bem a palavra. Quero que você teste se seus dedos estão regenerados escrevendo seunome nesta folha. Insisti, dando-lhe uma folha em branco e um lápis. Ele escreveu emletras graúdas: Naibo - Quer que consertemos sua cabeça? - Não! Certamente vão me pedir em troca que eu não mais o persiga. E isso eunão farei. Não quero dever favores a vocês. - Não nos deve nada. Tudo de bom que conseguimos realizar vem de Deus.Utilize bem seus dedos para que não lhe suceda algo pior. - Tenho bons planos para eles. Ainda vai ouvir falar de mim. - Queira Deus que seja para alegrar-nos sabendo-o feliz e em bom caminho. Assim terminamos aquela agitada semana na qual nossas reuniões foramreservadas para Hortência. Deus, em sua infinita bondade, nos enviara aquele chefe detribo para que o ajudássemos entre os espinheiros que ele semeara. Sempre fico felizquando tenho trabalho. É uma felicidade difícil de explicar, mas, igualmente, difícil delargar.As avós quimbandeiras A situação da pequena Hortência era muito complicada. A falange de Espíritosque se mantinham com a forma infantil, ensangüentada, atraía muitos Espíritosinteressados no sangue e nas energias desprendidas pelo ódio, material utilizado empráticas de magia negra. O quarto da pequena era um caos que a todo custo era amenizado pela atuaçãodos pretos velhos e dos nossos instrutores, que tudo faziam para torná-lo habitável. Aospoucos eram retirados do local, aqueles que ofereciam condições de resgate, ospenetras, os contratados, os atraídos pelo cheiro do sangue, para então, tratarmos dosenfermos e dos alucinados pelo ódio. Ali este sentimento era palpável. Os médiuns em desdobramento sentiam suapressão em forma de atmosfera sufocante, perturbadora, que provocava náuseas, doresde cabeça, tremores, sendo-lhes necessário muito equilíbrio para desempenharem asfunções e as tarefas que lhes eram destinadas. Diziam que penetrar na casa de Hortência era como mergulhar em uma piscinalamacenta na qual sentiam asfixia e sensação de estresse muito grande. Mas ao
  24. 24. 24trabalhador espírita não cabe escolher tarefa. Se é para cavar ele cava: se é para voar elevoa. Foi assim que nos foi ensinado e é assim que agimos. Portanto, mais uma vezentramos na casa da pequena para auxiliá-la. - Estamos aqui, Eu, Tibiriçá e seus ajudantes, para capturarmos agressores dapequena Hortência. Nosso objetivo, explica o chefe dos milicianos, é capturar e retirardo recinto algumas senhoras que trabalham com quimbanda. Os índios já se encontramcom uma delas que se debate e os agride com palavrões pronunciados em seu idiomanativo. Vão encostá-la a mim para que você converse com ela. Espero segurar suafúria, pois ela se debate muito, cuspindo a todos. - Não vou sair daqui, coisa nenhuma! A escuridão já se abateu sobre este teto ea morte em breve virá buscar o assassino. Ninguém vai me impedir de concluir o queiniciei. Estou irada com vocês. Tenho que matar o desgraçado! Qualquer interferênciaterá toda a ira das avós da quimbanda. - São realmente avós das crianças que ele matou? - Somos. Todas as que aqui se encontram tiveram netos e netas mortos por ele.Unimos nossas forças para mandá-lo de volta ao inferno onde estava antes de nascer.Não nos interessa se ele se arrependeu. Arrependimento tarde é chuva fora de épocaque não é útil para a lavoura. Queremos a pele dele pendurada na ponta da lança dosnossos guerreiros e queimada pelas nossas ervas. - Sei que foram maltratadas e que estão sofridas por seus netos. Mas nosso planoé ampará-los e encaminhá-los a novos renascimentos. Queremos retirá-los dessa formainfantil e deformada, torná-los homens feitos, guerreiros fortes, e enviá-los a terras ricasem caça e pesca. - Não perca seu tempo em fantasias. No momento só a bruxaria deve comandaras ações por aqui. - O que faz com ela? Que material utiliza? - Sangue! A matéria prima da nossa magia é o sangue. - E onde o consegue? - Cravo minhas unhas na garganta dele e tiro, tiro, tiro! Ele se apavora! Chora!Ele vai morrer pouco a pouco, como aconteceu conosco. Morremos por dentro.Secamos pela falta de nossos netos e pelo ódio que os substituiu. - O que faz com o sangue? - Misturo com o das crianças. Risco no chão a morte dele. Invoco os demôniospara que o levem. - Que desenho tem a morte? - O pavor! A dor! A sensação de assombro eterno. A comunicante, ao dizer isso, começou a bater sobre a mesa dizendo: vou matá-lo! Vou Matá-lo! - Não bata na mesa. Coloquei pregos aí e não quero que se fira. Como era suaneta? Alguns Espíritos, ainda muito apegadas à matéria, sentem a dor da perfuraçãoquando teimam em continuar batendo na mesa.
  25. 25. 25 - Para uma avó, toda neta é perfeita. Mas ele não matou somente meninas datribo dele. Eu pertencia a uma tribo vizinha, e ele em sua ânsia de dominação, nosinvadiu. Levava nossos guerreiros para vender, roubava nossas cabras, nossas peles enossas mulheres para acasalar. Crianças ele matava. - Naquela época já entendia de magia negra? - Desde criança que lido com isso. Crianças aprendem com as avós. É umaespécie de tradição na tribo. É a nossa religião. Se não temos inimigos usamos nossamagia de ervas para curar doenças. Se os temos para atormentá-los. - Lembra do nome dele? - Damiano. O rei do inferno! Estou muito cansada. Preciso retornar para meuposto. - Ainda não. Poderá passar o restante da noite aqui e descansar. Amanhãretomaremos esta conversa. Como esta com muito sono, sugiro que deite nesta maca.Ninguém lhe fará nenhum mal. Mas não somente uma médium havia sido desdobrada até a casa de Hortência. - Confirmo que o clima aqui é fumarento. O ar esta infestado pela atuação dequimbandeiros e de aproveitadores que terão que ser removidos. A tragédia dascrianças deformadas e ensangüentadas é como um imã a atrair viciados em sangue.Que coisa! Por que tanto Espírito gosta disso? Tibiriçá diz que não é ocasião para perguntas. Que devo me ater ao trabalho,que no momento, requer o máximo de atenção. Ele me mostra um Espírito que em nadase diferencia de um sapo. É enorme e está se alimentando de uma espécie de gosma quese forma no ambiente como resultado do caos que aqui impera. Ele pula como um sapo. Sua língua alcança certa distância e se gruda à gosmaque lhe falei. Seu alvo no momento são os fluidos da menina e da mãe dela. Devoregistrar que é a primeira vez que vejo um cenário assim. Ele está bufando, agora queme viu! É do tipo raivoso, adverte Tibiriçá. Sem se deter para explicações o chefe doslanceiros eleva sua lança e a atira. A cena é tão rápida que quando vi a lançanovamente, ela estava cravada no pescoço do sapo. Ele está rodopiando sob os olhares atônitos de alguns aproveitadores, que sedispersam temerosos. Tibiriçá e os guerreiros invadem a área e lançam uma granderede sobre ele. Espero que.... Não! Mas é justamente isso que vão fazer! Vão encostá-loem mim para que você o escute. A médium começou a tremer e a dar sinais de engasgo, que na verdade eramtentativas do Espírito dizer o quanto estava odiando aquela situação. Tentando levantar-se e reagir, urrava, gemia, colocava sua longa língua para fora a fim de nos atingir comsua gosma. Finalmente consegui dizer - Vou cuspir em você, seu imbecil. Meu veneno vai deixar sua pele emfrangalhos. - Há um campo entre nós que impede qualquer contato. A cada vez que sedebate a lança penetra mais fundo. Para seu próprio bem é melhor acalmar-se e esperarque os técnicos a retirem. - Marquei seu rosto. Você vai morrer.
  26. 26. 26 - Vou morrer quando minha hora for determinada por Deus. Enquanto ela nãochega continuarei fazendo meu trabalho. Vou injetar este liquido em seu braço para quese acalme. É um calmante muito forte que o fará dormir. A sugestão funcionou, mesmo porque eu havia pressionado o braço da médiumno local onde, geralmente, se toma injeção na veia, para que o comunicante, sentindo oefeito da pressão a interpretasse como a introdução de uma agulha em seu corpo. Semdemora ele tombou sobre a mesa. Mas já outro visitante exigia minha presença com nervosas gargalhadas. - Que engraçados! Pensam que é com meia dúzia de palavras que vão dominara mim e a quem está lá? É muito difícil! Não é assim que se esfola um gato não, amigo. - Se vem de lá, poderia dizer-me em que tipo de trabalho se empenhava, quandofoi capturado? - Sou uma espécie de ajudante de equipe. Como não tenho especialização emmagia negra nem em hipnotismo, fico fazendo mandados. Mas o senhor sabe que todocargo é importante. Sem a ação dos pequenos os grandes param. - Tem certa razão. Mas não estou entendendo as gargalhadas. Estamos diante deuma tragédia e você rindo como se estivesse de braços com a felicidade. - É isso! Estou feliz! Tudo está se encaminhando como o combinado. Suaspalavras no meio daquele vendaval não vão produzir efeito nenhum. - Perdeu algum filho para ele? - É claro! Quem ali no meio daquele matadouro não perdeu? - Quantos? - Não quero lembrar isso! - Quantos? - Já disse que não quero me lembrar desse fato. Ele me fragiliza toda vez que orecordo. Fui trazido à sua frente para uma conversa de homem para homem e não paraque você falasse da minha antiga família. - Antiga? Quer dizer que já a descartou? Que já não se interessa por ela? - Não distorça o que eu disse. O que quero é evitar que essa conversa meamoleça. - E amolecendo irá dar prioridade á busca de seus filhos? É disso que tem medo?De encontrá-los e abraçá-los? - Diabo de homem teimoso! Eu tinha duas filhas. - Por que só fala no passado? Não seria melhor dizer: tenho duas filhas? - Você está sendo inconveniente. É melhor me liberar antes que nos tornemosinimigos. - Talvez tenha razão. Acho que não é a pessoa que me disseram para ajudar aencontrar as filhas. Deve ter havido algum engano. Com quem deveria conversar,disseram, amava demais as filhas e jamais trocaria o amor delas por futricas. - Ninguém lhe disse nada. É apenas um mentiroso tentando se aproveitar de umpai desesperado. - Desesperado para que? Para voltar à casa da criança e enchê-la de sopapos? - Ela não é uma criança. É um assassino. Por que não entendem isso? É umassassino escondido no corpo de um bebê, mas é um assassino.
  27. 27. 27 - Quando vejo uma criança, logo me lembro dos meus filhos quando tinhamaquela idade. Crianças são frágeis e dependentes. É preciso ser muito covarde paraagredir alguém tão indefeso. - Pois era isso que ele fazia. Preciso voltar para lá. Se o matarmos acabaremoscom o drama daqueles bebês esquartejados. - Isso não é verdade. O motivo que os mantêm esquartejados é o ódio e o desejode vingança. O esquecimento das ofensas logo abriria margem para que nossos médicoscurassem a todos. Mesmo que o matem, o ódio continuará em seus corações e obuscarão no além-túmulo para torturá-lo. Acho que já viveu o bastante para saber queesse tipo de ódio só se desfaz com o perdão. Talvez seja melhor enviá-lo a outrodialogista. Não é mesmo o homem que disseram que me procuraria. - Quem lhe disse isso? - Meu instrutor. Disse que um homem com saudades das filhas me buscaria. Queo atendesse com boa vontade e dissesse que sabemos onde elas estão. - Por que mente em caso tão importante? Pelo amor de Deus, não me tiredaquela casa. - Agora deu provas de que é a pessoa certa! Quando pronunciou a palavra,“Deus”, entendi que ainda há amor em você. Ainda acredita Nele? - Eu sempre acreditei em Deus. Mas ele foi muito injusto comigo. Deixou quematassem minhas filhas. - Deus é justo por excelência. Nosso entendimento é que é curto para alcançá-lo.Aceita ficar conosco para terminarmos esta conversa logo mais quando eu for dormir?Temos as explicações corretas e nossos instrutores saberão como encontrar suas filhas. - E ele?Ficará impune? - Quem com o ferro fere com o ferro será ferido. Essa é a lei da vida.Responderá por cada crime cometido contra crianças; pelo desrespeito aos idosos; pelaagressão às mulheres e a quem quer que tenha ofendido. Qualquer Espírito estásubmetido a essa lei. - Sabem mesmo onde minhas filhas se encontram? - Sabemos. Aguarde junto aos guerreiros de Tibiriçá. Ele o atenderá quando areunião terminar. Apressei-me, pois outra médium, com ânsia de vômitos há alguns minutos, mebuscava. - Que está sentindo? - Aquela casa é maldita. Disseram-me para passar por lá que a farra estavaboa. Boa, coisa nenhuma! Informaram que tinha sangue, energia de angústia, de ódio,esses petiscos que a gente gosta. Que nada! Passei mal! Para completar ainda fuicapturado por esses índios. Veja! Estou machucado. - É. Parece que não deu sorte. Quem sabe com uma prece... - O quê! Ainda escutar sermão? Só pode ser um pesadelo. E o que fizeram dasminhas asas? Com essa maré de azar só me falta ficar preso aqui. - É o que vai acontecer. Estou sem tempo para conversas longas e vou entregá-loaos cuidados dos lanceiros. São ótimos corredores. Não tente nada para não searrepender.
  28. 28. 28 - Sei. Com certos comunicantes, não convém esticar conversa, pois o tempo disponíveldeve ser utilizado para casos mais sérios. Aquele Espírito era um “penetra” em busca dealguma vantagem. Uma hiena tentando se aproveitar dos restos alimentares após orepasto dos leões. Personagem assim, na maioria das vezes, é retido por algum tempo edepois, sob severas advertências, libertado. Movi-me. A dança em uma reuniãomediúnica não pára. - Eu só estou aqui para dar um recado e ir embora. Pediram-me este favor, ecomo não me custa atender, vou lhe passar o recado. - De onde partiu o pedido? - Isso não interessa. O recado serve para que você se situe melhor no contextodo drama. Eu era um guerreiro do grupo que protegia este assassino na África. Masnem todos nós concordávamos com o que ele fazia. Ele maltratava as pessoas. Nossatribo era enorme. Daí o grande número de inimigos que ele tem hoje. Fugi da triboporque não concordava com as atitudes dele. Não o odeio. Penso que ele é apenas umiludido que se deu mal. Sou neutro nesse episódio. Vim apenas para dizer que nemtodas as pessoas que o protegiam concordavam com ele. Alguns o lamentam, outros odetestam, mas não é o meu caso. Apenas observo. Em uma reunião mediúnica surgem fatos novos a todo instante. O doutrinadorprecisa estar atento para reunir os dados e formar o enredo correto. Existem asinformações falsas, as profecias que não se realizam, as “intuições” encomendadas,próprias de um jogo de gato e rato. É preciso avaliar tudo com cautela, utilizar à lógicae o bom senso, e se necessário, indagar diretamente os instrutores espirituais sobrecomunicações suspeitas. Mais uma vez outra médium deslocou-se até a casa da pequenaHortência para nova missão. - O jovem que se comunicou agora tem razão. As crianças esquartejadas estãoprotegidas por guerreiros que se sensibilizaram com o sofrimento delas. Aodesencarnarem, acostumados à arte da guerra, pois a tribo não oferecia estudos nemoutras opções que não fossem as voltadas para a sobrevivência, ou seja, caça,agricultura mirrada e guerra, entraram em contato com essas crianças, e até mesmopara se engajarem em alguma tarefa que os mantivessem ocupados, se organizaram emtorno delas para justiçar o chefe sanguinário que os dirigia. São homens sem perspectiva, acostumados à guerra, ainda não burilados nemaptos para se organizarem em uma sociedade fraterna. Parecem sentir falta de alguémque os lidere, pois têm tendência a obedecer a um chefe. Não parecem maus. Apenasainda não conquistaram valores que os capacitem para uma vida com objetivos maistranscendentais. Aparentam ser muito ligados a terra; mais força que intelecto. Não vaiaqui nenhum preconceito contra eles. É uma análise que faço baseada na vida quetiveram e pela maneira como respondem às questões que enfrentam agora. O jovem guerreiro que está comigo diz que a minha análise foi boa, mas queeles já têm uma noção de justiça bem acentuada, pois souberam muito bem definir-se afavor dos massacrados. Ele está aqui para me auxiliar a retirar uma criançaesquartejada. Não sei por que esta em especial, mas ela terá que apartar-se dasdemais. Há planos para ela.
  29. 29. 29 A criança está muito perturbada. Não a sinto arrependida nem motivada paralargar a luta. Muito ao contrário. Ela resiste para ficar com as demais e o seu ódio éintenso. Como existe na falange uma sintonia formada por este sentimento negativo,mais difícil é arrancá-la do círculo que a atrai e a mantém agrupada. - Assassino! Assassino! Não me tirem daqui! Eu preciso ficar e matá-lo! Não!Não! Não! Maldito! Eu vou te matar! Quem ousa me arrancar daqui! - Estou lhe retirando para levá-lo a uma vida melhor. Preciso entregá-lo aos seuspais. Todos se alegrarão com sua chegada... A médium foi adormecendo aos poucos, o que significava que a criança estavasegura nos braços de algum instrutor nosso. Outra médium que a auxiliava descreve ocenário da casa, sempre renovado por sucessivas visitas de nossos dirigentes. - Consigo ver no aparente caos aqui instalado, alguns médicos, pretos velhoscom suas ervas e nossos amigos franciscanos. Se não fossem eles, Hortência estariamuito pior. Quem sabe até desencarnada. Essa proteção está garantindo um pequenobem-estar para ela e para a mãe. Estamos aqui para levar alguém que está aprontado algumas trapalhadas.Tibiriçá diz que foi ele quem explodiu o copo no meu rosto hoje, e que por milagre, osfragmentos não atingiram meus olhos. A médium estava em casa junto ao filho e, de repente, ao tentar tomar um copocom água, este explodiu em vários fragmentos em sua mão, fato que a assustou e adeixou confusa devido ao acontecido. - Estou de passagem. Vim aprender com os mestres que estão dando um cursointensivo por lá. - E o que já conseguiu aprender? - Pouca coisa. A magia traz respeito. Todo mundo quer contratar quem sabemanejar essas forças. Quero que respeitem o meu poder. - Só vale a pena respeitar o poder quando ele emana de Deus. Outro tipo depoder é força desgovernada. - Iguais a mim tem muitos lá. Não tenho nada a ver com o caso. Entrei no frevopara me escolar. - Ouvi dizer que tentou agredir uma mulher hoje, invadindo-lhe a casa equebrando um copo em suas mãos. - É verdade. Para você vê como a magia é útil. Absorvi as energias lá e elaspassaram a fazer parte de mim. Fiquei igual a uma pilha. Com essa energia chegueiperto do copo e utilizando a vontade disse: explode! E ele explodiu. Mas esse índioestava espreitando e se lançou entre o copo e a mulher. Se não fosse ele os cacosteriam feito um bom estrago no rosto dela. A partir daí ele me aprisionou e tive asaulas interrompidas. - Fez uma coisa muito grave. Pelas leis dos índios deverá passar bom tempo emtrabalho de campo, lavrando a terra, até que tenha expiado todo mal que há em seucoração. - Sei que é o manda-chuva por aqui. Se pedir aos índios que me soltem eles oobedecerão.
  30. 30. 30 - Fez o pedido à pessoa errada. Eu é que obedeço ao que eles dizem. Por sinal jáme disseram que você está aqui para desfazer um trabalho que iniciou. Portanto, Já quesente necessidade de aprender algo, iniciemos por desfazer o mal feito praticado. Não é raro que o comunicante se recuse a atender a ordem de desfazer umtrabalho, mas, também, é comum, diante da aplicação de técnicas que o imobilizam, ofazem sentir choques, pesos enormes sobre a coluna, coceiras e queimaduras na pele,vomitar tudo quanto engoliu, que obedeça prontamente. - Pronto! Aí estão! As ervas, a areia, o sangue! Tudo! Maldita hora em que euvim parar neste local! - O que pagaram para que você invadisse a casa da mulher e explodisse o copo? - Conhecimento. Ensinaram-me a fazer. Também me deram sangue, e energiaspara outros trabalhos. - Agora vai receber ensinamentos sobre agricultura. Segundo meu pai, que erasertanejo, não há nada mais lindo que um roçado de milho com seus pendõesbalançando ao vento. Não faça nada que desagrade aos índios. Eles são muito amigos,mas não são bestas. Tendo alguns minutos restantes ainda houve tempo para mais uma comunicação. - Que coisa boa! Esse poço não seca nunca! Vocês tiram um e trazemos dez. Omalditozinho esta piorando. Eu estava lá neste minuto e posso afirmar que ele seencaminha para o buraco. Já lesou até o corpo físico. Não tem jeito! Matou, tem quemorrer! - Preciso saber qual sua função neste caso para averiguar se volta ou não atrabalhar nele. - Volto! Gosto de ver o circo pegar fogo. Sou olheiro e presto contas do queobservo. - Presta contas a quem? - A Deus. - É certo que prestamos contas a Deus de todos os nossos atos. Quero saber omotivo da sua vingança. - Nenhum! Ele nada fez a mim. Mas tenho notícia de que fez mal a muita genteindefesa. É um monstrinho que a gente tem que observar e cortar as asas. - Se não tem relação com a briga por que entrou nela? - Gosto de ver a palha voar. Se tem confusão estou nela. Digamos que sou umobservador da natureza humana e que hoje ele vai ter uma piora especial. - E pensa que estará lá para verificar isso? - Claro! Estou a serviço da justiça. Obstrução da justiça é crime. Esses índiosque me trouxeram, certamente, me levarão de volta. Se houver problema passo umaconversa neles. - Está confundindo índio com ignorante; guerreiro com imbecil. Como elesescutaram o que disse já temos um problema aqui: acalmá-los para que não lheministrem uma boa sova. - Acho que não usei o verbo adequadamente. - Como estão os rostos deles?
  31. 31. 31 - Sérios! Parecem que vão enfrentar um leão. Mas sou apenas uma formiguinha,cara. - Deixo a seu cargo se justificar pela ofensa feita aos nossos guerreiros. Está sobos cuidados deles. Quem sabe um pedido de desculpa sincera não lhe caia bem? - E o que vou ficar fazendo aqui? Tenho que cuidar do monstrinho. - Continua usando o verbo inadequadamente. Cuidarão da criança os bonsEspíritos e de você os guerreiros. Deus cuida de tudo e de todos. Boa sorte! Vaiprecisar! Confesso que fiz um pouco, só um pouquinho, de terrorismo com ele. Osguerreiros agem com lealdade e justiça. Estão preparados para a guerra e atuam emcombates. Com prisioneiros apenas fazem a guarda sob as ordens de Espíritossuperiores. De coração leve pela tarefa realizada, nos despedimos para nossos afazeres.Deus velaria por Hortência até nossa volta. Senti aquela sensação de estar à frente dotempo e acima do espaço, que às vezes sinto, quando viro a chave do templo ondetrabalho. Alguns chamam isso de amor ao trabalho. Chamo de missão cumprida.O guerreiro da lua A pequena Hortência havia passado uma semana com muito cansaço, falta desono, perturbações que atingiam também sua mãe, Margarida. Todavia, esta continuavafirme em sua fé, a trazê-la para tomar passes e a frequentar o curso sobre iniciação àDoutrina, com a mesma robustez que apresentara na entrevista. A falange dos esquartejados, ciente de sua força, não retrocedera em seusataques, antes os recrudescendo, com a finalidade de acelerar a passagem do Espírito aquem perseguia, para seu domínio. Iniciamos a reunião naquele dia com cuidados redobrados. Deus, senhor dosmundos, ligado em uma simples folha de sua criação, jamais abandonaria seus filhos nocampo de trabalho. Mesmo assim, havia uma parte sob nossa responsabilidade queprecisava de perseverança e de fidelidade. Feita a prece inicial, de imediato, um médium foi levado através dedesdobramento a uma região desconhecida por todos do grupo. Apesar da asfixia quepassou a sentir, iniciou a descrição do entorno, tentando situar o doutrinador para oseventos seguintes e encaminhá-lo à postura a ser assumida em diálogo. - Isso parece uma coisa sem fim. É uma espécie de muralha enorme,verticalmente muita alta e sem limites na horizontal. Há um vigia, guardião ousentinela que vela por ela. Com sua habilidade em subir, descer, e locomover-se, eletenta me intimidar, inclusive, desaparecendo e reaparecendo próximo a mim. Ele é muito rápido, apesar do seu aspecto pavoroso que lembra um sapo. Comose desloca na vertical, presumo que suas patas têm ventosas que o grudam ao murosustentando-lhe o peso. Ele agora me encara agressivamente.
  32. 32. 32 Toquei no muro e senti que é como uma geléia, ou seja, é algo que permite seratravessado. Ao permanecer com a mão sobre ele, como se minhas “digitais” nãofossem reconhecidas, ele se tornou sólido na região em que o toquei. Agora percebo junto a mim, mais uma médium, Tibiriçá, Tapuinha e um grandenúmero de guerreiros, todos armados e pintados para a guerra. Não sei o que nosespera do outro lado desse muro, mas que vai haver uma batalha, não tenho dúvidas. Quatro pessoas desconhecidas passam frente a mim e se dirigem para o muro.Pelo que vi na mão de uma delas, uma bolinha luminosa, e como sei que é uma armaaltamente explosiva, devastadora mesmo, pois já a vi em ação (espécie de bomba dealto poder explosivo que afeta apenas obstáculos materiais) em outros resgates,acredito que esse muro sairá do contexto em segundos. Ocorreu o que eu disse. Tudo ruiu diante de um cogumelo luminoso. O guardiãojá se encontra nas mãos dos guerreiros e a tropa avança sob o comando de Tibiriçá.Ganhamos terreno, mas paramos diante de novo obstáculo. É difícil acreditar no quevejo. Tudo é espantoso. Parecemos estar em um mundo estranho, um cenáriosemelhante aos filmes de guerra medievais, uma ficção ou epopéia imaginada por umamente criativa e agressiva. Se alguém me contasse sobre o que vejo aqui, certamenteduvidaria. Estamos dentro de um ambiente que lembra uma grande placenta, ou útero,não sei bem. Tem vilosidades. Nos meandros dessas vilosidades se abrigam “crianças”esquartejadas, iguais as que se encontram rebeladas. Acho que é uma maneira de seprotegerem contra agressões do meio e de inimigos externos. O que vejo aqui é coisaengendrada por mente humana e não um cenário formado pela natureza. Começamos a passar mal. É como se alguém nos tivesse cortado o ar, que,aliás, aqui é insuportável. Mesmo os guerreiros encontram dificuldades em meio tãohostil. Adaptar-se a esse clima de ódio e de agressão é algo que parece estar acima denossas forças. Tibiriçá organiza a tropa, incentiva os guerreiros, manda que nos amparem,pois sente que estamos quase desfalecendo. Na verdade os dois médiuns demonstravam enorme sinal de estresse e cansaço.Ânsias de vômitos os obrigavam a levar a mão à garganta tentando aliviar a agonia queos tomara. Por nossa vez orávamos e ministrávamos passes sobre eles incentivando-os aque buscassem suas reservas de forças, pois, certamente, Tibiriçá não os levaria tãolonge apenas para mostrar-lhes um cenário de guerra. Lembramos de Emmanuel, odisciplinado mentor de Chico Xavier, que deixou impresso no seu excelente livro“Paulo e Estevão”: Que cada discípulo possa entender quanto lhe compete trabalhar esofrer, por amor a Jesus Cristo. Quando tudo parecia insuperável, que nossos guerreiros encarnados capitulariamdiante da agressividade do meio em que estavam, um deles, vencendo a angustianteasfixia gritou: - Vejo uma luz que se aproxima! É forte como o Sol. É um grande risco nohorizonte, formando o próprio horizonte, que se agiganta e vem em nossa direção. A luzderruba tudo ao redor; passa por cima de tudo; vem levando qualquer obstáculo quetenha a ousadia de se colocar à sua frente.
  33. 33. 33 Estou tremendo dos pés à cabeça! Mesmo porque o tropel dos cavalos faztambém a terra tremer. Deve ser a luz de Deus que invade as trevas. São guerreirosluminosos! Vejo à frente da tropa uma espécie de anjo guerreiro, montado em umcavalo muito grande. Ele se destaca dos demais pela luminosidade. De espada empunho organiza a batalha, ordena que cerquem os rebeldes, dita ordens. Seusauxiliares, todos armados, atiram redes, fazem verdadeiras varreduras, capturando ahorda. Isso é que é batalha! São centenas! Todos atirando redes. O general osincentiva! - Chega de rebeldia às leis divinas! Acabou a desordem! A partir de agora abandeira do Cristo tremulará nessa região. Que toda treva seja banida! Toda violênciadesarticulada! Toda maldade vencida! A luz que Jesus fez brilhar no mundo reinaráaqui também! Ao pronunciar tais palavras o médium agigantou-se em palavras e gestos. Seubraço erguido, como a segurar uma espada, rodopiava entre nós, ora apontando em umadireção, ora para outra. - Que a luz expulse as trevas! O bem não pode ser detido pela ignorância!Vamos meus bravos! A criação de Deus não pode se voltar contra Ele! Os limites datolerância foram ultrapassados! Este pedaço de terra tem que refletir a bondade deDeus! O que não pertence a Ele que seja extirpado! - A voz do comandante causa verdadeiro desespero entre os habitantes daplacenta. Diria que há apenas tentativa de fuga, e não resistência. O arrastão continua.Há correria, gritaria, maldições, quedas espetaculares, redes voando, espadas luzindo,cavalos que se empinam mostrando suas patas dianteiras elevadas. Os rostos dos guerreiros permanecem serenos, como se fizessem uma operaçãonecessária não vinculada a um combate. Organizados e, certamente, em obediência aum plano pré-estabelecido, cercam tudo, derrubam obstáculos, capturam qualquercoisa móvel e a obriga a adentrar uma espécie de gaiola. Prisioneiros são libertados,mas igualmente controlados para averiguação. Um dos guerreiros passou próximo a mim! É belíssimo! Quando eles seaproximam de algo, iluminam tudo ao redor. A noite virou dia com a presença deles.Detenho-me em observação do cenário. Árvores ressequidas, lama petrificada, avesagourentas. Os guerreiros continuam aprisionando os rebeldes. Não sei quem é o comandante, mas a semelhança com a figura de São Jorge éinegável. Se tiver alguma chance pergunto se é o guerreiro da lua que comanda estabatalha. Suas feições são tão brilhantes que é preciso fixar o rosto por algum tempopara perceber algum detalhe. Suas armas à vista, armadura, lança e espada, maisservem para direcionar que para atacar, pois toda sua autoridade se reflete delemesmo, causando medo e uma sensação de que é inútil resistir. Seu cavalo é muitobranco, musculoso, ornado por um manto com bordados dourados. Todos os combatentes do batalhão estão uniformizados. Usam trajes brancoscom tons azulados, e mostram alguma semelhança com os guerreiros romanos. Comeles, vieram técnicos, igualmente, capacitados, que se encarregam de colocar as“crianças” em macas. Vou descrever o que eles fazem com uma delas.
  34. 34. 34 Eles a colocam em uma espécie de maca, feita de um material semelhante aomármore branco. A criança parece um pequeno monstro ensangüentado. Quatro delesocupam os cantos da maca e colocam as mãos seguindo os ângulos retos da mesma, deforma que vejo oito mãos com as palmas voltadas para a criança. Concentram-se comose estivessem em oração e tudo fica tão luminoso que não percebo mais a criança.Quando volto a vê-la já não é criança, mas um Espírito adulto, deformado, com ocorpo semelhante ao de um escorpião. Apenas sua cabeça é humana. Posso afirmar que ele é meio homem e meio escorpião. De sua mente seprojetam imagens mentais, como se houvessem sido liberadas sob a força hipnótica dostécnicos. As imagens que se projetam ao seu redor são de um feiticeiro que faziasacrifícios humanos utilizando crianças como vítimas. Eles as esquartejava. Agora oEspírito é posto para dormir. Parece que vão empregar esta técnica com todos. Não sei exatamente o que eles fizeram, mas foi rápido. Diria, intuitivamente,que penetraram na mente do enfermo e de lá tiraram a trava, o bloqueio, acristalização, fazendo-o mostrar-se tal qual é na realidade. O enfermo, que se mantinhaperispiritualmente modificado por sua vontade ou por hipnotismo, teve o comandomental anulado e recebeu uma ordem irrecusável de assumir o “traje nupcial”compatível com seu estado evolutivo. Daqui partirão para cirurgias reparadoras, modelações perispirituaisnecessárias, sobretudo, educação mental visando amenizar o sofrimento moral de quesão portadores. A lei do progresso parece ter chegado a este pedaço de mundoenegrecido, mostrando claramente que ninguém zomba da Lei por muito tempo. A batalha ainda se desenrola sem nenhuma chance de vitória para os rebeldes.Há centenas deles adormecidos em macas, em espécies de gaiolas, na verdade, prisõestemporárias para que sejam retirados de combate e aguardem o tratamento que lhefalei. Aproximo-me de uma das “crianças” aprisionadas. Sua forma infantil não tema meiguice desses pequenos seres. É tão escura que não há nitidez em seu rosto. Sãosombras, hematomas, pústulas, sangue. Aqui só o amor, com suas mãos cariciosas,conseguirá modificar tão apavorante quadro. Ainda há muito movimento por aqui. Tibiriçá diz que devemos dormir cedo enos prepararmos para mais trabalho durante o sono. O choque da batalha passou, masseus efeitos vão continuar durante dias. Nessa reunião comunicaram-se prisioneiros apavorados, escravizados pelos quechamavam de “demônios da escuridão”. Demonstraram medo profundo, esgotamento,sinais de loucura em meio a um pouco de lucidez desesperada. Foi a nossa maneira departiciparmos da batalha, epopéia difícil de descrever, e para muitos, de acreditar. Mas estamos no Espiritismo a serviço. Se nossos instrutores, no afã de ajudar asuperar as dores do mundo, nos levam a tais cenários e nos autorizam divulgar o queocorre além de nossas pedreiras materiais, alguma utilidade deve haver. Como atuamos e pesquisamos nos campos da mediunidade e da obsessão, ecomo não somos os únicos, muito provavelmente, outros grupos têm a chance deencontros semelhantes aos nossos. Tais relatos são testemunhos de que a vida no alémcontinua em sua diversidade sem fronteiras. Confirmam que, através dos seus
  35. 35. 35auxiliares, Deus se faz presente em qualquer recanto do universo. Que em nenhum lugara ignorância domina soberana, pois as rédeas do universo sempre estiveram nas mãosDele. Por outro lado incentiva a que novos grupos mediúnicos se aperfeiçoem para quesejam utilizados como auxiliares dos bons Espíritos em seus trabalhos de resgates. Aseara de Jesus é imensa e diversificada. Há trabalho para todos, em qualquer nível deevolução. Candidate-se e verá.O estranho e compreensível sentimento materno Um filho é uma evocação muito forte. Não é propriedade da mãe, mas prioridadeem sua bonança e amargura em seu sofrimento. Por um filho ela enfrenta exércitos edesertos; planta jardins, limpa fontes e aplaina caminhos. Um filho é como a linha do horizonte, cuja função é impulsionar o caminhantepara novos passos. O coração de uma mãe é como o coração de um guerreiro. Estásempre pronto para uma nova batalha. Quão estranho, compreensível e maravilhoso é o sentimento materno. Já setornaram comuns, cenas de mães desesperadas diante de presídios, enquanto seus filhosqueimam colchões, agridem vigilantes, ameaçam matar quem lhes evite a fuga. Elassabem que eles estão errados, que violaram leis justas, que são, às vezes, ladrões eassassinos, mas os amam como se fossem anjos imaculados. Mas o sacrifício materno não se contenta com apenas isso. Desde que o filho égerado, ainda no útero, procuram fazer o melhor que sabem, sacrificam-se, e sedependesse da vontade dessas heroínas, optariam por morrer no parto, conquanto seusfilhos fossem salvos. Quando eles nascem, elas ficam sem comer, se o alimento épouco, pois preferem alimentá-los que a si próprias. E ainda mais. Se o alimento ésuficiente, a melhor parte é para eles. Por isso estabeleci como definição para minha mãe, já desencarnada, uma frasecom cheiro de sertão cearense que bem define a sua garra ao criar dezessete filhos,multiplicando o alimento de cada dia qual Jesus fez com pães e peixes: Minha mãe erauma mulher muito bonita. Chorava sem botar água e achava graça sem fazer barulho.Mas tenho a certeza absoluta de que esta frase define todas, pois todas são reflexos dabondade de Deus na Terra. Concordo com Chico Xavier, quando disse: Mãe queabandona os filhos é caso patológico. Não há quem não se emocione com elas. Sejam encarnadas ou desencarnadasesse sentimento não muda. Encarnadas e abandonadas pelos maridos, não largam osfilhos nem na fome nem na doença, preferindo morrer ao lado deles tentando ajudá-los.Desencarnadas, os buscam desesperadas sem se deter diante de qualquer perigo para tê-los em seus braços. O amor materno é tão forte que o doutrinador, diante de uma mãe que por algumdesespero esteja perseguindo alguém, pode perguntar: Prefere continuar nessa brigainglória ou abraçar seu filho? Ela é tomada por uma onda avassaladora de ternura e

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