Caderno de-agitprop via campesina

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Caderno de Agitação e Propaganda da Via Campesina

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Caderno de-agitprop via campesina

  1. 1. Agitação e Propaganda - 1 Agitação e Propaganda no Processo deTransformação Social Coletivos de Comunicação, Cultura e Juventude da Via Campesina
  2. 2. Agitação e Propaganda - 2 Expediente A cartilha “Agitação e Propaganda no processo de transformação social” é uma publicação do Coletivos de Comunicação, Cultura e Juventude da Via Campesina. Contatos: Alameda Barão de Limeira, 1232 01202-002 São Paulo - SP Telefax: (11) 3361-3866 Correio eletrônico: cultura@mst.org.br / juventude@mst.org.br /viacampesinabrasil@gmail.com junho de 2007
  3. 3. Agitação e Propaganda - 3 Sumário Apresentação ................................................................................................................................................ 05 Introdução .................................................................................................................................................... 07 I. Agitação e propaganda no processo de transformação social ........................................................... 09 II. Aprenda com seu adversário! ............................................................................................................... 27 III. Poemas de Bertolt Brecht .................................................................................................................... 31 Dias da Comuna .................................................................................................................................. 32 Quem se defende ................................................................................................................................. 33 Aos que hesitam ................................................................................................................................... 34 Soube que vocês nada querem aprender ........................................................................................... 35 Não desperdicem um só pensamento .............................................................................................. 35 Sobre a atitude crítica ........................................................................................................................... 37 O governo como artista ...................................................................................................................... 37 IV. Registro de um agitador ...................................................................................................................... 39 V. Intervenções de agitprop ....................................................................................................................... 47 Eldorado dos Carajás ............................................................................................................................ 48 A luta do camponês contra o agronegócio .......................................................................................... 52
  4. 4. Agitação e Propaganda - 4
  5. 5. Agitação e Propaganda - 5 Apresentação Este caderno se insere num programa estratégico de formação política de massa, voltado para a juventude do campo e da cidade, tendo como horizonte a práxis revolucionária. Queremos que os militantes tenham acesso ao estudo e ao conhecimento. Ele é fruto da construção coletiva de movimentos sociais de massa de esquerda ligados à Via Campesina, que vêm acumulando experiência com diversas táticas de agitação e propaganda desde a “redemocratização” do país. Os materiais para estudo aqui reunidos visam fazer a conexão com a experiência histórica da agitação e propaganda, e nos situar no processo, de acordo com o pressuposto de que para nós, militantes de movimentos sociais de massa, só faz sentido fazermos uso da agitação e propaganda se tivermos como meta a transformação do processo social, econômico, político e ideológico.
  6. 6. Agitação e Propaganda - 6 O texto cuja provável autoria é de Max Valentim, escrito no calor da hora das ações de resistência ao nazismo e à social-democracia desencadeadas na década de 1930 nos informa do alto nível de exigência política e estética requerido dos grupos de agitação e propaganda daquele período, e é de extremo interesse para os agitadores de hoje porque muitos dos impasses apontados pelo autor estão presentes nas ações que as brigadas ou coletivos de agitação e propaganda realizam atualmente. Os poemas de Brecht foram incluídos não como regra estética para produção poética, mas como evidência concreta que a matéria da luta de classes é matéria para a poesia, e que a agitação política depende também de um tratamento estético apurado. O texto “Relato de um agitador” é resultado do esforço de sistematização de um militante que pôde acumular experiência como agitador na tarefa de fazer exposição e debates sobre os motivos da luta pela reforma agrária no Brasil, na véspera da Marcha Nacional de 2005: esse texto ilustra bem como a experiência prática areja a teoria e é de fundamental importância para a constante re-elaboração dos métodos de formação de agitadores e para a criação e adaptação das táticas de agitação e propaganda. Duas intervenções de agitação e propaganda realizadas pelos coletivos do MST são apresentadas. Uma sobre Eldorado dos Carajás, preparada por ocasião dos 10 anos do massacre. A segunda, intitulada A luta do camponês contra o agronegócio, resultado de um longo processo de oficinas realizadas em diversas regiões, aborda as contradições e o confronto com o modelo do agronegócio no Brasil. Portanto, com a iniciativa de produção desse caderno nossa intenção é colocar na pauta dos debates sobre estratégia política e formação de militantes o método de agitação e propaganda, e o conjunto de suas táticas. Desejamos um ótimo estudo dos textos a seguir. Coletivos de comunicação, cultura e juventude.
  7. 7. Agitação e Propaganda - 7 Introdução A publicação do caderno “Agitação e propaganda no processo de transformação social” tem sentidos simbólicos de ordem política e cultural que merecem ser ressaltados de início. Está em jogo a recuperação histórica de uma expressão que comporta complexas experiências desenvolvidas pelos trabalhadores nos campos de batalha da luta de classes, ou seja, está em jogo a reativação, em perspectiva crítica, da memória dos embates políticos e estéticos da classe trabalhadora no século passado. A retomada consciente das ações de agitação e propaganda nesse contexto é conseqüência das circunstâncias regressivas do processo social em curso: flexibilização das leis trabalhistas, aumento progressivo do mercado de trabalho informal, recorde de lucro do capital financeiro, investimento prioritário do Estado em setores voltados para exportação, coordenados por empresas transnacionais, união
  8. 8. Agitação e Propaganda - 8 do latifúndio com o agronegócio, precarização do sistema educacional e dessolidarização generalizada. O confronto de classes no Brasil é determinado por características objetivas da dinâmica do capital em áreas periféricas. Dentre elas a concentração de terras e a discriminação sócio-racial – heranças vivas do regime escravocrata – configuram uma espécie de mapa da desigualdade brasileira. Guardadas as diferenças de época – do desenvolvimento tecnológico e das formas de dominação – podemos dizer que a desigualdade social e acumulação de capital têm semelhanças históricas com o contexto em que os métodos e táticas de agitação e propaganda foram elaborados, conforme estratégias de partidos e organizações sociais. O que está em jogo nesse panorama, nada animador, é a própria perspectiva de futuro, das pessoas ao planeta, e do planeta às pessoas. A perspectiva de construção de um projeto popular, livre e soberano para o país é uma bandeira de luta que tem conseguido aglutinar forças sociais do campo e da cidade. Mas para que essa bandeira possa tornar-se uma alternativa concreta ao futuro do país, será necessário que as classes populares possam tornar-se protagonistas da arena política, econômica e cultural, e nesse sentido a agitação e propaganda tem muito a contribuir.
  9. 9. Agitação e Propaganda - 9 I. Agitação e propaganda no processo de transformação social Na luta de classes todas as armas são boas: pedras, noites, poemas. Paulo Leminski
  10. 10. Agitação e Propaganda - 10 Neste momento, de ação articulada entre os diversos segmentos da juventude brasileira interessada na transformação da estrutura social, política e econômica do país, consideramos pertinente retomar o debate sobre as possibilidades da agitação e propaganda como tática a ser utilizada em função de nossa estratégia. 1. O que é agitação e propaganda? A agitação e propaganda é um conjunto de métodos e formas que podem ser utilizados como tática de agitação, denúncia e fomento à indignação das classes populares e politização de massas em processos de transformação social. Segundo fontes de pesquisa (GARCIA, 1990) a expressão agitação e propaganda foi criada pelos revolucionários russos, para designar as diversas formas de fazer agitação de massas e ao mesmo tempo divulgar os projetos políticos da revolução. Agitprop é o termo que sintetiza a expressão agitação e propaganda. Esse termo foi disseminado por diversos países, bem como as experiências dos grupos, brigadas ou coletivos de agitadores e propagandistas. 2. Origens A Rússia pré-revolucionária de 1917 era o país de maior extensão territorial do mundo e com grande índice de analfabetismo nas classes populares. Para poder organizar os trabalhadores urbanos, camponeses e soldados (que estavam nas frentes de batalha), o Partido Bolchevique organizava duplas e brigadas de agitadores e propagandistas. Nesta época, o marxista russo Plekhanov chegou a definir agitação “como uma idéia que é inculcada em muitas pessoas” e propaganda como “muitas idéias que são trabalhadas para poucas pessoas”. Com a tomada do poder em Outubro de 1917 o acontecimento da revolução tinha que ser informado por todo o território, e era fundamental combater a contra-revolução.
  11. 11. Agitação e Propaganda - 11 A tomada do Palácio de Inverno, 1920. Ao mesmo tempo reconstrução histórica e alegórica da revolução, a tomada do Palácio de Inverno condensa a política cultural de mobilização e envolvimento das massas de soviéts em sua fase agitatória. A intervenção, na Praça do Palácio de Inverno, contou com 150 mil expectadores e com mais de seis mil atores que haviam participado dos combates de 1917. Com estes objetivos, grupos de soldados do exército vermelho, de estudantes e de artistas se empenharam na invenção, desenvolvimento ou aprimoramento de uma série de técnicas de agitprop, fazendo uso das mais diversas linguagens – como o cinema, o teatro, a música, o jornalismo, a retórica, as artes plásticas – e meios, como o trem de agitprop, que levava em cada vagão uma forma distinta de agitação e propaganda: banda de música, grupo de teatro, equipamento de cinema para exibição e filmagem, militantes para fazer discursos políticos, vagão biblioteca, etc.
  12. 12. Agitação e Propaganda - 12 3. Meios, instrumentos e formas de agitprop Cada movimento e organização produziu seus métodos e formas, de acordo com as demandas que se apresentaram ou se apresentam no contexto histórico em que atuaram, ou atuam. Há métodos e formas que ressurgem depois de longo tempo, como é o caso do teatro jornal, desenvolvido pelos agitadores russos e exportado para a Alemanha e os Estados Unidos, e mais de meio século depois reinventado por Augusto Boal em sua metodologia do Teatro do Oprimido, no contexto de resistência às ditaduras latino-americanas. O importante é que não há métodos e formas fixas. Cada novo momento pode demandar a invenção de novas formas, ou a recuperação de métodos antigos. Tudo depende do contexto, da estratégia definida pela organização, das condições de atuação e da criatividade das brigadas de agitprop. Relacionamos abaixo alguns dos principais meios, instrumentos e formas de agitprop que já foram desenvolvidos em processos de luta: a - Discurso (palavra/oratória): comícios relâmpagos, palestras, falas em atos públicos... b - Publicações impressas: panfleto, jornal, mural, revista, livro. c - Artes Plásticas: pichações, grafitagem, muralismo, painelismo, faixas, cartazes, fotografia, estêncil, ... d - Teatro: teatro jornal, teatro fórum, teatro invisível, teatro procissão, teatro de rua... e - Música e poesia: corais, saraus, festivais, apresentações de rua ou em rádios, etc. f - Indumentária/vestimenta: bonés, camisetas, bandeiras, broches, etc. g - Produtos da Reforma Agrária.
  13. 13. Agitação e Propaganda - 13 h - Meios de comunicação de massa: rádio, cinema, televisão, jornal, internet... i - Manifestações e passeatas. j - Carro de som. l - Mística/Celebrações. m - Pedagogia do exemplo. n - Ações de massa. 4. Objetivos da agitação e propaganda neste momento histórico: a- Motivar a classe trabalhadora para se organizar, elevando o nível de consciência das massas. b - Estimular a luta social; reativar a noção de luta de classes. c - Deslegitimar o projeto da elite atacando seus pressupostos ideológicos: a propriedade privada e o princípio da livre iniciativa. d - Expor a falsidade, o fracasso e a impossibilidade de realização, neste sistema, das promessas da “democracia” burguesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. 5. Agitprop e processos revolucionários A tática do agitprop deve ser planejada de acordo com a dinâmica do processo social pelo qual o país estiver passando. Por exemplo, em época de descenso de massas a estratégia e as táticas são diferentes de épocas de reascenso. Ou seja: o agitprop de antes da revolução é diferente daquele realizado em etapa posterior. O registro histórico das experiências na Rússia, e posteriormente URSS, Alemanha, França, EUA, indica três fases do desenvolvimento das experiências de agitprop (COSTA, 1996):
  14. 14. Agitação e Propaganda - 14 a - Grupos de artistas, intelectuais e estudantes organizam movimentos culturais visando a politização das classes populares. b - Estágio de socialização dos meios de produção, que implica por sua vez, a alteração das relações de produção. c - Interrupção das experiências, por meio de intervenção do Estado. Exceção: no caso brasileiro, passamos do primeiro momento diretamente para o terceiro, pois o golpe militar de 1964 interrompeu o desenvolvimento do segundo estágio. O trem de agitprop soviético tinha uma equipe de comício, um grupo de canto, de danças populares, um pianista, um projetor de cinema e filmes de caráter revolucionário, uma vitrola com discos dos soviéts, uma orquestra, jornais e brochuras. Várias formas de intervenções e agitações.
  15. 15. Agitação e Propaganda - 15 6. Depois do golpe de 1964: agitprop como uma tarefa menor A imagem predominante que a esquerda brasileira tem sobre o trabalho de agitação e propaganda é a tarefa de panfletagem em locais de grande movimentação e em áreas de periferia urbana. Seria uma tarefa de divulgação das bandeiras de luta registradas em jornais e panfletos preparados para esse tipo de atividade. Nessa concepção, basta destacar militantes para a panfletagem e entre eles garantir a presença de um seleto grupo que tenha condições de conduzir um debate em escolas, comunidades de base, etc, quando isso for necessário. Não há formação específica para a tarefa de agitprop, porque nessa conformação não há necessidade disso. Desta forma, a atividade da agitação e propaganda virou uma tarefa “menor”, uma tarefa para militantes novos e, principalmente, para a juventude, que era vista como “mão-de-obra” barata para este tipo de atividade. O que fica patente nesse tipo de proposta é que há uma separação entre aqueles que formulam as reflexões e aqueles que as executam. Não questionamos em nossa metodologia o sistema de divisão do trabalho que, ao dissociar teoria e prática, aliena os militantes envolvidos no processo para a dimensão da totalidade da experiência. Do golpe de 1964 em diante, o domínio dos meios de produção da cultura permanece monopolizado nas mãos da elite e de frações da classe média. Ao mesmo tempo em que os militares destruíram os então recentes e promissores vínculos por meio dos quais se operava um processo de transferência dos meios de produção de técnicas e linguagens artísticas aos camponeses e operários, o regime dos fuzis incentivou a criação de um sistema nacional de televisão – do qual o maior expoente foi a Rede Globo. O objetivo era respaldar esteticamente o projeto de modernização conservadora do país, por meio da imposição de uma imagem de desenvolvimento, progresso e integração da nação, com a qual os militares e a elite nacional pretenderam justificar seu predomínio brutal no poder.
  16. 16. Agitação e Propaganda - 16 Um dos efeitos da hegemonia burguesa no âmbito da cultura, decorrente de sua dominação econômica e política, foi o apagamento da memória dos embates anteriores, em que movimentos como os Centros Populares de Cultura (CPCs), nascido em 1961, e o Movimento de Cultura Popular (MCP), que surgiu em 1959, ambos destruídos pelo golpe militar de 1964, articularam as esferas da cultura e da política de forma radical. A experiência de agitação e propaganda desses dois movimentos, que amadurecia a passos largos, compreendia a publicação de jornais, revistas, livros de poesia e música, a gravação de discos, a organização de festivais e de debates (BERLINCK, 1984). Ambos os movimentos operaram mudanças radicais na organização da produção cultural brasileira, desde os temas, a pesquisa de formas, a incorporação do processo de construção coletiva de obras, a apresentação gratuita em comunidades rurais e bairros de periferia urbana, a realização de oficinas de formação cultural em consonância com a formação política, que naquela conjuntura não andavam dissociadas (COSTA, 1996). O prédio da sede da UNE e do CPC em chamas. A experiência da socialização dos meios de produção cultural é interrompida pelas armas.
  17. 17. Agitação e Propaganda - 17 Portanto, do golpe de 1964 em diante, prevalece o domínio dos meios de produção da cultura monopolizado nas mãos da elite e de frações da classe média. Esse fato deu novo fôlego ao antigo preconceito, inclusive em amplos setores da esquerda brasileira – e, principalmente, manifestou-se como senso comum nas classes populares – de que “cultura é coisa de rico”. Há objeções contra o debate cultural no interior do movimento dos trabalhadores. Algumas nascem de um preconceito invertido: como a burguesia dificulta o acesso do trabalhador à cultura, este sente que cultura é coisa de burgueses. Outros dizem que a energia do movimento não deve ser desviada das questões políticas prioritárias. Outros enfim dizem que o povo já tem a sua cultura, e o que importa é preservá-la e limpá-la dos contrabandos da cultura burguesa e da modernização (SCHWARZ, 1987, p. 83). Em suma, a idéia de cultura e arte como mercadoria, como espetáculo para diversão, é a fatura que herdamos do golpe militar. Desde então cultura e política, diversão e formação, entretenimento e crítica são vistos como coisas opostas. Naturaliza-se a idéia de que o campo da estética deve ser desvinculado da vida política efetiva, pois disso depende sua qualidade. E toda tentativa de direcionar a produção artística e cultural para o rumo do engajamento, da intervenção na realidade, é interpretada como manobra autoritária, maniqueísta, que atropela a dimensão subjetiva da criação artística ao submetê-la a demandas de ordem política. O golpe militar transformou a televisão no centro do sistema de produção de mercadorias culturais, em que o refinamento das técnicas publicitárias estimula o consumo das mercadorias excedentes. Estas técnicas expandem o desejo de consumir, e vendem uma imagem de nação em ascenso que não condiz com as mazelas do país real (KEHL, 1986). A criação desse universo estetizado da realidade exige, inclusive, a apropriação indiscriminada de técnicas artísticas sofisticadas, muitas das quais geradas em oposição ao capital.
  18. 18. Agitação e Propaganda - 18 Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões exige um processo cultural muito intenso, muito elaborado e muito sofisticado, muito rico, para manter, para fazer com que as pessoas aceitem ser parte de um país fantasma, de um país inexistente, de um país sem problemas. (...) É preciso embrutecer essa sociedade de uma forma que só se consegue com o refinamento dos meios de comunicação, dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas. (...) A sociedade brasileira está sendo um pouco reduzida a isso: à ambição individual da ascensão social como um valor supremo reduzido num setor muito pequeno (VIANA FILHO, 1999, p. 181). No curso deste processo, ainda em andamento, a via partidária da esquerda brasileira fez a opção majoritária pelo marketing político, de forte apelo emocional, pouca informação, ou contra-informação, e nenhuma pretensão de agitação das massas populares, para além do voto. Essa via herdou em peso o preconceito em torno do agitprop, que o relega à condição de subutilização da ação isolada da panfletagem, a ponto inclusive de “terceirizar” esta tarefa, passando da militância partidária para a “militância paga” de trabalhadores informais e desempregados. Contudo, a via dos movimentos sociais de massa da esquerda brasileira manteve algumas ações de agitprop durante as últimas décadas, como por exemplo: as marchas e caminhadas, as ações pontuais dos produtos da reforma agrária em feiras, a tradição de painéis, camisetas e bonés das organizações, a ação direta de ocupação de terras... No entanto, nem sempre essas ações têm o efeito pretendido de informação massiva, na medida em que a divulgação depende da filtragem dos meios de comunicação de massa, em posse da classe dominante, que em geral omite ou desvirtua as informações.
  19. 19. Agitação e Propaganda - 19 Combate contra o imperialismo Na sede da UNE, também futura cede do CPC, em 1960 os estudantes organizam cartaz com apoio ao cubano Fidel Castro e enfrentamento ao governo Kubitchek, que saudava o presidente americano, em plena guerra fria. O CPC da UNE atuou ativamente em várias frentes artísticas.
  20. 20. Agitação e Propaganda - 20 7. Qual é o nosso estágio atual? O agitprop ressurge como demanda porque, via de regra, o problema de desinformação, analfabetização e alienação que vigoravam no começo do século XX ainda persistem, apenas com diferença na forma de organização do poder. Isto é, o monopólio dos meios de comunicação de massa não existia da mesma forma nas décadas passadas, mas hoje ele é um dos principais mantenedores da desinformação e alienação. Como ainda não possuímos os meios de produção e divulgação de massa que nos permitam combater o padrão hegemônico de representação da realidade, temos que seguir potencializando os métodos de trabalho de base e agitação baseados no contato real dos militantes com a população, inclusive porque o método do trabalho de base vinculado a agitação e propaganda é uma possibilidade que não foi apropriada pelas classes dominantes, com exceção do assédio de casa em casa que algumas religiões de princípios conservadores utilizam como tática para aliciar fiéis. Mas, para que essa vantagem da posição corpo a corpo do trabalho de base surta efeitos de agitação e propaganda, não basta transmitirmos linearmente nossas informações, pois para despertar a indignação é preciso que mostremos a falsidade das promessas de democracia e universalidade da classe dominante, confrontando-as com nosso ponto de vista. No limite, a perspectiva de engajamento em torno de um projeto popular para o país tem que se mostrar como uma alternativa superior à alternativa da solução individual, sustentada pelo princípio da livre iniciativa. 8. Agitprop e crítica radical Uma providência fundamental nas ações de agitprop é a articulação permanente entre elementos da conjuntura e da base estrutural do sistema a ser criticado. Nossa tarefa é ligar a “parte” ao “todo”, fazer com que a partir dos
  21. 21. Agitação e Propaganda - 21 problemas imediatos e cotidianos se possa compreender o sistema e suas engrenagens. Pois se nossa perspectiva não é melhorar, ajustar ou consertar o sistema, é nosso dever erigir uma metodologia de formação de agitadores e agitadoras que os habilitem a formular estratégias, com o conjunto de suas organizações, e táticas de ação cuja força seja suficiente para abalar as estruturas de dominação, por meio de uma contraposição crítica que vá à raiz dos problemas, causando um efeito permanente de estranhamento das relações de poder que a classe dominante naturalizou em séculos de sistemática violência do Estado contra a população pobre. Se em solo brasileiro a falsidade do discurso da democracia burguesa está escancarada pela evidência irrecusável de que as promessas universais de liberdade, igualdade e fraternidade não escondem, ou justificam, o arbítrio da classe dominante, é tarefa da agitação e propaganda implodir os conceitos estabelecidos pela grande imprensa, e agir no âmbito da contra-hegemonia. Para isso, todos os meios e linguagens são válidos. Além das experiências em andamento, podemos criar novos formatos ou refuncionalizar antigos, fundindo formas, linguagens, técnicas e meios. Estêncil produzido por militantes da Via Campesina utilizados em ações de denúncia contra a Aracruz no Espírito Santo.
  22. 22. Agitação e Propaganda - 22 Por fim, atualmente contamos com os seguintes fatores que podem potencializar as ações de agitprop: a - A tecnologia nos deu condição de acesso aos meios de produção.O avanço tecnológico na produção de equipamentos de filmagem, edição e gravação audiovisuais e musicais tornou possível a popularização da produção de filmes, músicas, fotografias, etc. Isso significa que linguagens como o cinema e a televisão, até então monopolizados pela elite, poderão ser democratizadas, não mais apenas pela perspectiva do consumo. Além disso, a tendência é que novas alternativas de democratização da informação apareçam em ritmo crescente, também como consequência do desenvolvimento tecnológico, o que facilitará a divulgação da produção. b - A construção de um calendário comum de lutas entre movimentos sociais e centrais sindicais dá organicidade para as ações de agitprop, pois elas passam a estar inseridas na vida política das organizações, como tática de ação contra-hegemônica e fortalecimento do contato com a sociedade 9. A natureza política do trabalho de agitação e propaganda Existem pelo menos quatro condições que compõem a natureza de nosso trabalho: a - O nível de formação política da militância envolvida no trabalho de agitação e propaganda, ou seja, a ideologia de classe. Um grupo de militantes pode não ter recursos financeiros para realizar o trabalho, mas a compreensão da necessidade política estimula os militantes a agir, a criar ou adaptar métodos e formas, de acordo com as condições e meios possíveis. A ideologia sustenta o trabalho nos períodos de descenso da luta de classes.
  23. 23. Agitação e Propaganda - 23 É fundamental que tenhamos um processo permanente de formação e educação política das classes populares articulado com o trabalho de agitação e propaganda, e ligado ao processo de organicidade de cada movimento social, para que possamos ir além do cumprimento de calendários de luta e mobilização. b - Entender que o trabalho de agitação e propaganda não é um fim em si mesmo. É parte fundamental do trabalho de base que todo militante social precisa exercitar permanentemente. O trabalho de base é um desafio constante, e não pontual ou baseado numa data do calendário de lutas. É fundamental articular agitação e propaganda com a estratégia de trabalho de base. c - Todo trabalho de agitação e propaganda precisa, acima de tudo, cumprir com a missão de: elevar o nível de consciência da população brasileira e incentivar a participação popular; provocar o questionamento sobre a democracia em que vivemos – até onde o povo decide sobre as questões candentes da sociedade, como por exemplo, a privatização da Vale do Rio Doce, o desmatamento da floresta amazônica, a transposição do rio São Francisco, etc? Nosso trabalho de agitação e propaganda parte do propósito de mudar a cultura de participação na vida política brasileira. Pois um povo só é sujeito e arquiteto da própria história quando ajuda a tomar as grandes decisões que dizem respeito ao futuro das próximas gerações. d - A prática de valores humanistas, de solidariedade e socialistas. Sem a vivência no cotidiano de novos valores, o trabalho de agitação e propaganda se torna vazio e não alcança os objetivos políticos que se propõe.
  24. 24. Agitação e Propaganda - 24 10. Valores que devem ser cultivados por um agitador e propagandista do povo Um agitador e propagandista é norteado por valores que o tornam diferente no meio da massa. A agitação e propaganda deve ser parte da vida do militante. Os valores fazem parte da natureza de sustentação do trabalho de agitação e propaganda. Apenas a técnica da agitação e propaganda não permite que alcancemos a transformação social. Seguem abaixo exemplos de valores para desenvolvermos em nosso espírito militante: 1. Gostar de ser e estar no meio do povo. De ter abertura para aprender com o povo, com a comunidade, com as pessoas com as quais convive. 2. Ter sensibilidade política para perceber os momentos certos de atuar, recuar e avançar. A sensibilidade política nos permite ter a clareza de lidar com as contradições que aparecem, os imprevistos na lida com as pessoas. 3. Desenvolver a capacidade individual de fazer leitura e análises da realidade local. Interpretar e interligar as questões do específico com as grandes questões gerais da sociedade. Interpretar e identificar em cada local e realidade o que mais despertar a curiosidade das famílias, das pessoas. E partir da necessidade local para fazer o trabalho de agitação e propaganda. 4. Gostar de estudar e pesquisar. Um bom agitador e propagandista busca à luz da história e da ciência elementos para aprofundar e melhorar o trabalho. 5. Espírito de companheirismo, de solidariedade, de sacrifício e do desprendimento dos bens materiais. Valor de criar espírito de coletividade. 6. A firmeza e a coerência ideológica. Não se deixar levar pelos problemas e dificuldades do trabalho. Não se deixar levar pelas graças e fantasias da propaganda feita pelas elites.
  25. 25. Agitação e Propaganda - 25 7. Acreditar que as mudanças profundas nascem, crescem e acontecem somente através do povo organizado. Acreditar na força do povo e na capacidade de mobilização social. As transformações não estão em outros lugares. Não perder de vista o horizonte político e os objetivos, a razão de nossa existência enquanto militantes de um movimento social. 8. Ser exemplo no trabalho, nas iniciativas, na superação dos limites, na prontidão para as tarefas mais árduas do cotidiano. Cartaz animado produzido pelo coletivo Blusa Azul - Rússia. A proliferação de grupos de agitprop durante a primeira década da revolução russa, ligados aos clubes operários, às fábricas e núcles de bairros e à união dos jovens comunistas, chegou a reunir 75 mil grupos, com aproximadamente 2 milhões de membros. O coletivo Blusa Azul desenvolveu um conjunto de atividades. Tinham uma escola de preparação de agitadores e publicavam a Revista Blusa Azul, socializando os processos de trabalho.
  26. 26. Agitação e Propaganda - 26 11. O que podemos fazer para fortalecer as ações de agitprop 1º) Discutir em nossas organizações como a agitação e propaganda pode ser potencializada de acordo com o objetivo estratégico de cada movimento, e visando o objetivo comum de transformação radical da estrutura social, política e econômica brasileira. 2º) Avaliar a viabilidade de criação de brigadas ou coletivos mistos de agitprop, com militantes de diversas organizações, em caráter provisório ou permanente. 3º) Promover cursos de formação de agitadores que culminem na criação ou fortalecimento de brigadas ou coletivos de agitprop. 4º) Envolver as brigadas ou coletivos de agitprop nas atividades dos calendários de luta estaduais e nacionais. 5º) Trocar experiências de métodos e formas de agitprop entre as diversas organizações que trabalham com essa tática. E pensar em formas de divulgação das experiências, por meio de vídeo, publicação escrita, fotografias, etc, para auxiliar o processo de formação de agitadores e acelerar a multiplicação de brigadas ou coletivos. A nossa condição legítima de movimentos que lutam pela transformação radical da sociedade, associada à nossa posição de alvo maior da artilharia da direita, e da crise política, cultural e ecológica que assola o planeta, nos autoriza a tentar tudo novamente, aprendendo com as experiências anteriores, tentando evitar os limites impostos naqueles tempos, procurando estabelecer novo patamar de compreensão sobre as ações de agitação e propaganda, contribuindo assim para os enfrentamentos daqueles que virão depois de nós, e honrando as companheiras e companheiros que nos antecederam na luta de classes.
  27. 27. Agitação e Propaganda - 27 II. Aprenda com seu adversário! Este texto foi publicado sem assinatura no jornal O porta voz vermelho, número 10, de outubro de 1930. O jornal era o orgão oficial do grupo de agitprop de mesmo nome, cujo diretor – e também editor – chamava-se Maxim Vallentin. Infere-se que seu autor seja o próprio Max Valentim pelo tipo de preocupação que emerge do texto. A tradução caseira que fizemos provém da tradução francesa. Portanto, todo cuidado é pouco na leitura.
  28. 28. Agitação e Propaganda - 28 Era uma vez uma trupe comunista de agitprop. Ela apresentava cenas contra o SPD (Partido Social Democrata Alemão) e também contra os nazistas. Até aqui tudo normal, pois ninguém pode ser contra isso. Mas eis que um dia apareceu uma trupe social-democrata e viu a cena da trupe comunista contra os nazistas. Ela gostou da cena e se apropriou dela para encená-la. Nenhum detalhe foi modificado, a não ser por duas pequenas frases do final: “Só o SPD combate o fascismo; portanto filie-se ao SPD”. E eis que uma trupe nazista viu a cena de agitprop comunista dirigida contra o SPD. Eles também gostaram dela e a representaram. Só precisaram mudar um pequeno detalhe – no final acrescentaram: “Filie-se ao NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães)! Heil Hitler!” O caso não é para rir, camaradas! A questão não é, de maneira alguma, ridícula, mas muito séria. A história não é lenda, ela se apóia em fatos. E estes fatos devem dar o que pensar a todos os grupos de teatro. É evidente que cenas que possam ser apropriadas com pequenas modificações por trupes social-democratas e nazistas são ruins. Tais cenas não exprimem o ponto de vista revolucionário nem o método de reflexão e de luta do proletariado revolucionário; elas nada mais são que uma exposição inorgânica de nossa ideologia comunista. Tais cenas não são, portanto, capazes de conquistar a massa dos trabalhadores para o comunismo. Nossas cenas devem corresponder em cada período, cada frase, cada palavra, à ideologia comunista revolucionária; elas devem ser construídas de modo a levar o espectador a uma só conclusão: a luta da classe proletária contra o capitalismo! Não há aqui algumas semelhanças? Esperamos que muitos grupos como o nosso experimentem agora um temor salutar! Quantas de nossas trupes ainda acreditam que podem representar o poder social do capitalismo e suas inumeráveis relações com o proletariado simplesmente mostrando um homem de cartola, que traz pendurado no pescoço um cartaz, onde se lê “Capital” e ele diz “Eu sou um explorador”? Quantas de nossas trupes ainda acreditam ser possível dar uma imagem
  29. 29. Agitação e Propaganda - 29 completa dos múltiplos e refinados métodos de traição dos social-democratas mostrando uma liderança que se apresenta dizendo: “Eu sou um traidor”? Onde é que o proletariado encontra um desses líderes que gentilmente o informa que sua profissão consiste em trair a classe operária? Em lugar nenhum! O trabalhador comunista é que já vê as coisas assim, pois ele tem uma consciência mais desenvolvida, ele já é capaz de generalizar por si mesmo a análise de um fato concreto de sua experiência, de descobrir sozinho as relações entre as coisas. Para ele, uma forma de representação assim talvez seja uma confirmação de sua própria opinião, e nada mais. Mas o que se passa com o trabalhador indiferente, ou mesmo hostil, que nós devemos ganhar para a nossa causa? Ele não sente nenhuma necessidade de ser convencido, pois ele é incapaz de passar do abstrato e do geral à particularidade de sua situação concreta. A tarefa de nossa agitação e de nossa propaganda é justamente a de seguir um caminho oposto. Isto consiste em mostrar, a partir da vida concreta de um dos nossos camaradas, as relações que o ligam à luta da classe como um todo (e à “grande política”); é fazê-lo compreender como ele se confronta a cada dia com o capitalismo, e das mais diversas maneiras. É a única forma de chegar a uma convicção profunda – é a única forma de conseguir que o trabalhador não considere o capitalismo como um espectro maléfico, mas que compreenda claramente que a luta contra o capital é uma luta histórica da classe ascendente contra a classe em declínio. É só fazendo o trabalhador compreender: “Nenhum aspecto, nenhum minuto da minha vida está fora dos acontecimentos políticos”. Só assim nós poderemos conseguir que o trabalhador não se transforme num papagaio de palavras de ordem e num porta-voz que “espreita a chegada da luta final”, mas que seja proletário consciente de sua classe e um combatente a cada segundo de sua vida! Traduzido para o francês por Helga Vormus; e deste para o português por Iná Camargo Costa).
  30. 30. Agitação e Propaganda - 30 Na Alemanha as formas de agitprop desenvolvidas na Rússia recebem uma assimilação original. Multiplas são as manifestações, como as esquetes, a tradição do teatro de revista e do cabaré, o jornal vivo, a dança-coral, os corais e o coral-falado. Intervenção do grupo Wedding Vermelho num pátio de um bairro operário de Berlim. O grupo Megafone Vermelho em ação na cidade de Berlim.
  31. 31. Agitação e Propaganda - 31 III. Poemas de Bertolt Brecht
  32. 32. Agitação e Propaganda - 32 Dias da Comuna Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram Suas leis, para nos escravizarem. As leis não mais serão respeitadas Considerando que não queremos mais ser escravos. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria que a morte. Considerando que ficaremos famintos Se suportarmos que continuem nos roubando Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças Que nos separam deste bom pão que nos falta. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria que a morte. Considerando que existem grandes mansões Enquanto os senhores nos deixam sem teto Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria do que a morte. Considerando que está sobrando carvão Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão Nós decidimos que vamos tomá-lo Considerando que ele nos aquecerá
  33. 33. Agitação e Propaganda - 33 Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria do que a morte. Considerando que para os senhores não é possível Nos pagarem um salário justo Tomaremos nós mesmos as fábricas Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria do que a morte. Considerando que o que o governo nos promete sempre Está muito longe de nos inspirar confiança Nós decidimos tomar o poder Para poder levar uma vida melhor. Considerando: vocês escutam os canhões – Outra linguagem não conseguem compreender – Deveremos então, sim, isso valerá a pena Apontar os canhões contra os senhores! Quem se defende Quem se defende porque lhe tiram o ar Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo Que diz: ele agiu em legitima defesa. Mas O mesmo parágrafo silencia Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão. E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre Não lhe é permitido se defender.
  34. 34. Agitação e Propaganda - 34 Aos que hesitam Você diz: Nossa causa vai mal. A escuridão aumenta. As forças diminuem. Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo Estamos em situação pior que no início. Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca. Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível. Mas nós cometemos erros, não há como negar. Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem Estão em desordem. O inimigo Distorceu muitas de nossas palavras Até ficarem irreconhecíveis. Daquilo que dissemos, o que é agora falso: Tudo ou alguma coisa? Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora Da corrente viva? Ficaremos para trás Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo? Precisamos ter sorte? Isto você pergunta. Não espere Nenhuma resposta senão a sua.
  35. 35. Agitação e Propaganda - 35 Soube que vocês nada querem aprender Soube que vocês nada querem aprender Então devo concluir que são milionários Que seu futuro está garantido a sua frente, iluminado Seus pais cuidaram para que seus pés não topassem com nenhuma pedra Neste caso você nada precisa aprender Assim como é pode ficar Havendo ainda dificuldades Pois os tempos como ouvi dizer são incertos Vocês têm seus líderes Que lhes dizem exatamente o que fazer para que tudo corra bem Eles são aqueles que sabem as verdades válidas para todos os tempos E as receitas que sempre funcionam Onde existem tantos a seu favor Você não precisa levantar um dedo Sem dúvida, se fosse diferente Vocês teriam que aprender Não desperdicem um só pensamento Não desperdicem um só pensamento Com o que não pode mudar! Não levantem um dedo Para o que não pode ser melhorado! Com o que não pode ser salvo Não vertam uma lágrima! Mas O que existe distribuam aos famintos Façam realizar-se o possível e esmaguem Esmaguem o patife egoísta que lhes atrapalha os movimentos Quando retiram do poço seu irmão, com as cordas que existem em abundância.
  36. 36. Agitação e Propaganda - 36 Não desperdicem um só pensamento com o que não muda! Mas retirem toda a humanidade sofredora do poço Com as cordas que existem em abundância! Que triunfo significa o que é útil! Mesmo o alpinista sem amarras, que nada prometeu a ninguém, somente a si mesmo Alegra-se ao alcançar o topo e triunfar Porque sua força lhe foi útil ali, e portanto também o seria Em outro lugar. E depois dele vêm os homens Arrastando seus instrumentos e suas medidas ao pico agora escalável Instrumentos que avaliam o tempo para os camponeses e para os aviões. Aquele sentimento de participação e triunfo De que somos tomados ante as imagens da revolta no encouraçado Potemkin No instante em que os marinheiros jogam seus algozes na água É o mesmo sentimento de participação e triunfo Ante as imagens que nos mostram o primeiro voo sobre o Pólo Sul. Eu presenciei como Mesmo os exploradores foram tomados por aquele sentimento Diante da ação dos marinheiros revolucionários: assim Até mesmo a escória participou Da irresistível sedução do Possível, e das severas alegrias da Lógica. Assim como os técnicos desejam por fim dirigir na velocidade máxima O carro sempre aperfeiçoado e construído com tamanho esforço Para dele extrair tudo o que possui, e o camponês deseja Retalhar a terra com o arado novo, assim como os construtores de ponte Querem largar a draga gigante sobre o cascalho do rio Também nós desejamos dirigir ao máximo e levar ao fim A obra de aperfeiçoamento deste planeta Para toda a humanidade vivente.
  37. 37. Agitação e Propaganda - 37 Sobre a atitude crítica A atitude crítica É para muitos não muito frutífera Isso porque com sua crítica Nada conseguem do Estado. Mas o que neste caso é atitude infrutífera É apenas uma atitude fraca. Pela crítica armada Estados podem ser esmagados. A canalização de um rio O enxerto de uma árvore A educação de uma pessoa A transformação de um Estado Estes são exemplos de crítica frutífera. E são também Exemplos de arte. O governo como artista 1 Na construção de palácios e estádios Gasta-se muito dinheiro. Nisso O governo se parece com o jovem artista que Não teme a forma, quando se trata De tornar seu nome famoso. No entanto A fome que o governo não teme É a fome de outros, ou seja Do povo. 2 Assim como o artista O governo dispõe de poderes sobrenaturais
  38. 38. Agitação e Propaganda - 38 Sem que lhe digam algo Sabe de tudo. O que sabe fazer Não aprendeu. Nada aprendeu. Sua formação tem falhas, entretanto É magicamente capaz De em tudo interferir, tudo determinar Também o que não compreende. 3 Um artista pode, como se sabe, ser um tolo e no entanto Ser um grande artista. Também nisso O governo parece um artista. Dizem de Rembrandt Que ele não pintaria de outra maneira, se tivesse nascido sem mãos Assim também pode-se dizer do governo Que não governaria de outro modo Tivesse nascido sem cabeça. 4 Espantoso no artista É o dom da invenção. Quando ouvimos o governo Descrevendo a situação, dizemos Como inventa! Pela economia O artista tem apenas desprezo, e bem assim É notório como o governo despreza a economia. Naturalmente Ele tem alguns ricos patronos. E como todo artista Vive do dinheiro que arrecada.
  39. 39. Agitação e Propaganda - 39 IV - Relato de um agitador Registro das experiências desenvolvidas em Goiânia e Valparaíso de Goiás na ocasião do trabalho de agitprop da Marcha Nacional pela Reforma Agrária.
  40. 40. Agitação e Propaganda - 40 Dificuldades iniciais com os apoiadores da Marcha impediram o começo imediato das atividades, isso atrasou o trabalho de palestras nas escolas e universidades. A equipe avaliou que foi um erro cometido e que não é papel dos apoiadores agendar trabalhos para o Movimento. Eles podem fornecer informações importantes para nos orientar sobre a realidade da comunidade. O mesmo equívoco aconteceu com o grupo que estava em Valparaíso de Goiás que esperavam por uma professora realizar as agendas. Ela acabou adoecendo e os trabalhos atrasaram. Num segundo momento se contatou com o Sindicato dos Trabalhadores em Escolas de Goiás (SINTEGO). Com a lista de escolas e respectivos telefones a equipe assumiu os contatos com as diretoras e coordenadoras pedagógicas. A partir desse passo deslanchou a agenda. O fato de haver professores(as) que lecionam em várias escolas também contribuiu para aumentar o público atingido. O objetivo principal era fazer a propaganda da marcha e buscar apoio concreto na luta pela Reforma Agrária, porém não se podia falar de MST sem falar da distribuição das terras no Brasil e da formação do latifúndio, bem como as lutas de resistências que houve e que deram origem ao MST. A primeira palestra foi na Faculdade Alfredo Nasser. Cheguei 45 minutos antes (de propósito) e fiquei na sala dos professores conversando com os que estavam lá (trabalho de base). Seria uma turma a ser trabalhada, mas a conversa com os professores resultou em mais duas adesões. Alguns professores foram assistir de curioso para ver como seria. Isso deu resultado positivo: mais 3 turmas para outra data. Foram 6 turmas de estudantes de pedagogia. Em uma das escolas contatadas o diretor alertou que lá a “barra era pesada” e que teria que ter um método especial, pois alguma colocação mal feita poderia gerar confusão. Então se criou o método de eles levantarem os problemas sociais e estudar na história do Brasil as causas desses problemas. Isso despertou o interesse dos alunos porque se estava falando dos problemas vividos por eles no dia a dia. O
  41. 41. Agitação e Propaganda - 41 aproveitamento foi tão bom que uma parte da brigada passou a utilizá-lo durante todo o período de trabalho. Os principais problemas citados foram: desemprego, transporte coletivo, violência, drogas, analfabetismo, preconceito, moradia, etc. Partindo daí se dizia que eles haviam desenhando o mapa social do Brasil e era para mudar esse quadro que o MST se organizava e lutava para transformar o país. A música “Procissão dos Retirantes” de autoria dos companheiros Pedro Munhoz e Martim César fazia parte do estudo. Fazia-se uma diferenciação entre os diversos tipos de músicas. Há músicas para dançar, para fazer ginástica na academia e exercitar os músculos, mas há também músicas para exercitar o cérebro, refletir. Esse era o tipo de música que eu costumava cantar. Começava o estudo por um período da história do Brasil, de 1500 a 1850. Foi nesse período que foram causados todos os problemas citados, depois apenas foram se agravando. No caso da violência ela começou com a invasão dos portugueses matando os índios e estuprando as índias, escravizando os negros e também estuprando as escravas; a falta de escolas e o analfabetismo também se mediam nesse período, para quem trabalhava não havia escolas e isso se reflete hoje no pouco interesse que os brasileiros têm pelo estudo. Após citar as diferenças entre uma pequena, média e grande propriedade se trabalhava os quatro meios de se tornar latifundiário no Brasil: 1) capitanias hereditárias, 2) concessão de sesmarias, 3) lei de terras/1850 e, 4) a grilagem. Depois de uma rápida passagem pelas capitanias hereditárias (esmiuçando o que é hereditário e se isso era justo: dividir o Brasil para apenas 15 famílias e as demais seriam sem-terra) e sesmarias aprofundava o debate sobre a primeira lei de terras no Brasil. Esta foi o primeiro golpe da classe dominante e que definiu o destino dos brasileiros. Foi por conseqüência dela que hoje existem milhares de brasileiros sem ter onde morar, que tomam o transporte coletivo lotado, sem escola para estudar, vítima dos
  42. 42. Agitação e Propaganda - 42 preconceitos e violência enquanto que poucos seriam os “donos” das terras e das riquezas, os exploradores. O quarto jeito de se tornar fazendeiro(a) é através das quadrilhas de grilagem. Alguns alunos que acompanharam na imprensa a CPI da terra relatavam como eram feitas as falsificações das escrituras. O documento falsificado era posto em uma gaveta com grilos. Esses roíam as bordas do papel e a urina do inseto deixava o papel com a cor amarelada, com características de um documento antigo (envelhecido). O livro “De Zé Porfírio ao MST” A Luta Pela Terra em Goiás, de autoria do jornalista Sebastião de Abreu, relata a luta de resistência dos posseiros da região de Formoso, norte daquele estado, contra uma quadrilha de grileiros formada por juízes, advogados, comerciantes, fazendeiros e policiais comandantes de destacamentos. Essa história é conhecida como a guerra de Trombas e Formoso, iniciada em 1954 e termina com o massacre dos posseiros e a tomada de suas terras em 1964 com a participação dos militares. O Zé Porfírio foi um agricultor que se elegeu para deputado, e seu corpo até hoje não foi encontrado. No debate se falava mais do MST. Quando se referiam à imagem do MST na mídia se trabalhava a ditadura eletrônica pelas “capitanias da mídia” onde apenas 4 famílias dominam o mercado eletrônico no Brasil, citando a fonte “Mídia e Democracia” de Pedrinho A. Guareschi e Osvaldo Biz. A partir daí devolvia a pergunta se referindo o que a imprensa fala de quem mora nas periferias (favelas)? A conclusão era de que jamais a mídia, pertencente aos ricos, iria falar bem dos pobres e muito menos dos pobres organizados. Quando falavam que tinha Sem Terra que andava de carro novo a gente citava as conquistas do MST em vinte anos. Antes fazia uma diferenciação entre acampados e assentados. Se um acampado tiver um carro novo (o que não existe) é suspeito, por outro lado um assentamento que vive e produz de modo cooperativo, como é caso da Cooperoeste, em Santa Catarina que coloca no mercado 400 mil litros de
  43. 43. Agitação e Propaganda - 43 leite em caixinha por dia, por que irão comprar carro velho? É claro que não vamos comprar carros de luxos, mas para trabalhar. Citava outras conquistas e afirmava que isso é uma prova concreta que a Reforma Agrária dá certo. A venda de lotes foi citada em todos os debates. Falava-se das linhas aprovadas pelo MST, desde os primeiros congressos, contra a venda de lotes pelos beneficiários. As causas das desistências nas diversas regiões do país e o que o Movimento vem fazendo para que isso não aconteça. Em SP já está sendo discutido sobre a carta de concessão de uso da terra que seja expedida em nome do grupo de produção, assim evitaria uma família efetuar uma venda ou troca individualmente. O percentual de desistência também era citado, de acordo com a pesquisa feita pela USP, em novembro de 2002, encomendada pelo governo FHC. Por essa pesquisa pode-se constatar que na região amazônica, Pará e Maranhão o índice de desistência chega a 40% devido às condições de abandono a que foram submetidas as famílias assentadas, sem infra-estrutura. Já no sul, nordeste e sudeste esse índice cai para apenas 5%, considerado baixo em relação à média mundial de assentamentos humanos, segundo a FAO é natural até os 15%. Outra colocação freqüente era a suposição de que se um trabalhador viesse a se tornar um latifundiário com que direito nós (MST) invadiríamos a fazenda dele. Esta colocação foi feita também por uma professora de matemática. Como se trata de uma suposição então vamos fazer os cálculos para ver se há uma possibilidade real de isso acontecer: vamos supor que você ganha um salário de 5 mil reais mensal, desses tira 2 mil para as despesas do mês, e 3 mil para comprar terra (acima de 2 mil ha.). Por esses números compraria mais ou menos 2 ha. por ano. Sendo assim levaria mil anos para se tornar um latifundiário. Também está excluída a possibilidade de um pobre fazer parte de uma quadrilha de grilagem de terra. Só participam os “graúdos”. É como um cachorrinho da raça pincher sonhar um dia virar lobo.
  44. 44. Agitação e Propaganda - 44 Sobre a produtividade dos latifúndios usávamos os dados do senso agropecuário de 1995/96 do IBGE. Iniciava pelos alimentos do café da manhã: trigo, leite, frutas; almoço e janta: arroz, feijão, mandioca, batatinha, batata doce, carnes (porco, frango, boi, peixe, ovelha), etc. Sempre lembrando que milhões de brasileiros não possuem esses alimentos em suas mesas e se não tivesse condições de verificar os dados no sítio do IBGE bastava olhar pela janela do ônibus quando estivesse viajando pelas BRs para constatar o que os latifúndios produziam (no estado de Goiás partindo de Goiânia para sul ou norte não se avista nenhuma produção beirando as estradas). Nesse ponto se aprofundavam os benefícios da R.A. para o desenvolvimento econômico e social do país. Não foi o MST que criou a reforma agrária, mas os diversos países do mundo para alavancar o seu desenvolvimento. “Existem pessoas que possuem posses (bem de vida) e se aproveitam do acampamento para ampliar suas riquezas ou pessoas que já foram assentadas e venderam seus lotes e querem conquistar outro para vender novamente”. Esta colocação não era em forma de pergunta, mas de afirmação. A resposta: vamos pensar juntos, uma pessoa que possui uma boa casa, um bom salário ou uma propriedade rural de 100 ou 200 ha. (não é uma pessoa rica, mas de classe média), um bom carro. Quantos dias uma pessoa assim permanecia acampado em baixo de uma lona preta (construída por ele próprio), tomando banho em rio, buscando água de balde, lascando lenha a machado, cozinhando em um fogão feito de barro e dormindo em cama de bambu? Eles mesmos respondiam. Alguns diziam que não permaneciam nem um dia, nem chegariam a construir o próprio barraco. Depois desse debate se falava quem pode e quem não pode ir acampar. O que fazer para manter um contato permanente de relação MST/escolas? A idéia é que se mapeiem os professores interessados em aprofundar a pesquisa sobre a Reforma Agrária como um projeto de desenvolvimento para o Brasil e formar núcleos de pesquisa nos municípios. Nas universidades também formar
  45. 45. Agitação e Propaganda - 45 núcleos de universitários para aprofundar a pesquisa sobre as reformas agrárias no mundo e também planejar a reforma agrária brasileira. Não importa se é contra ou a favor, mas que esteja interessado em pesquisar. A minha avaliação é que está na hora de acelerar a relação/articulação com sociedade e que a prioridade são os estudantes noturnos e turmas do EJA. São trabalhadores (empregados ou não), e sua assimilação e indignação é maior, afinal sofrem na pele as conseqüências do modelo excludente. Começar pelas escolas é uma maneira de quebrar o pré-conceito formado pela mídia. Depois deles entenderem por que uns são pobres e outros ricos, os ataques da imprensa não tem o mesmo peso. A televisão, por exemplo, não tem o poder de fazer o debate com a sociedade. Por isso entendo que, antes de se ocupar um espaço na mídia, devemos desmontar a opinião já formada. A agitação e propaganda deve gerar o debate e para isso é necessário estarmos preparados para essa tarefa; por último a organização e mobilização dos setores da sociedade para lutas permanentes. Junho de 2005.
  46. 46. Agitação e Propaganda - 46 Duas versões da intervenção A luta do camponês contra o agronegócio. Na segunda, com utilização de bonecos gigantes.
  47. 47. Agitação e Propaganda - 47 V . Intervenção de agitprop
  48. 48. Agitação e Propaganda - 48 Eldorado dos Carajás Produção coletiva dos participantes da oficina de teatro da 2ª etapa do curso Arte, Comunicação e Cultura na Formação do MST/DF e Entorno, nos períodos de 11 a 21 de março de 2006. Coordenação da oficina: Agostinho Reis Colaboração direta: Edmar, Edleusa e Neudair. Personagens: Coro dos trabalhadores Coro dos soldados da PM Coro dos juízes Narrador 1 Narrador 2 1º Soldado 2º Soldado 3º Soldado 4º Soldado Trabalhador Oziel Alves 1° Vítima 2ª Vítima
  49. 49. Agitação e Propaganda - 49 Os três coros entram juntos tocando instrumentos, o coro dos soldados com tambores, zabumba, pandeiros, e outros instrumentos musicais de percussão; o coro dos trabalhadores entra com enxada, pás, foices e demais instrumentos de trabalho, batem com ferro nos metais dos instrumentos. Os dois coros param, um de frente para o outro, como em um tribunal, ou campo de batalhas. Os juízes intermediam o conflito. Narrador 1 – (Saindo do coro dos trabalhadores) – 17 de abril de 1996: Eldorado dos Carajás, Pará. Neste dia, por “competência do estado” foram assassinados cruelmente pela polícia 21 trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, e mais de 60 pessoas foram feridas. Coro dos trabalhadores – E até hoje não se sabe quantos desaparecidos. Que estado é esse, em que a vida não tem valor? Onde mandam policiais pra matar trabalhador! (Batem as ferramentas umas nas outras) Nós viemos pra lutar, Mudaremos essa história de Eldorado dos Carajás! Coro dos soldados – (Tocando os instrumentos) – Combater é uma forma de viver! Coro dos trabalhadores – (Batendo e mostrando os instrumentos) – Eis as nossas armas! Coro dos soldados e juízes – Vejam o que fez esse bando de sem terra, Estragaram as nossas balas! Isso é um absurdo! Coro dos trabalhadores – (Batendo os ferros nas ferramentas) – O julgamento dos assassinos.
  50. 50. Agitação e Propaganda - 50 Coro dos juízes – Eu, como juiz de direito Representante do estado “competente” Dou início a seção. Narrador 2 – (Saindo do coro dos juízes) – Quem entrem os inocentes... ou acusados. Narrador 1 – 1º Soldado. 1° Soldado – A ordem não era matar, eles é que pularam em frente às armas. Narrador 1 – 2º Soldado. 2º Soldado – A culpa não é minha. É do meu comandante, que mandou desocupar a via. Narrador 1 – 3º Soldado. 3º Soldado – Como o meu trabalho é matar gente que não tem o que fazer, eu matei. Narrador 1 – 4º Soldado. 4º Soldado – Eu atirei mas não tinha intenção de matar, matei. Coro dos juízes – Eles são inocentes, foram para cumprir a lei e manter a ordem. Coro dos trabalhadores – Mentira! (Os trabalhadores batem com os ferros em suas ferramentas. Sai o trabalhador do coro e narra:) Trabalhador – Mentira! Eles mataram Oziel e arrastaram ele até o caminhão.
  51. 51. Agitação e Propaganda - 51 Narrador 1 – O relato dos mortos. (Coro dos trabalhadores bate os ferros nas ferramentas, no início bem baixo, depois vai aumentando progressivamente, e para). Oziel – Eu, Oziel Alves, quero justiça! Me arrastaram, me bateram, me mataram! Eu senti na pele a covardia do Estado, mas não neguei “VIVA O MST! VIVA O MST!VIVA O MST!” Coro dos trabalhadores – (cantam baixo) Terra que há de nos comer, Há de nos fazer viver! (Batem com o cabo das ferramentas no chão, várias vezes, em progressão) 1ª Vítima – Sou cego, assim como eu a justiça também é. A justiça é cega porque até hoje os assassinos continuam impunes. Se eu tivesse a oportunidade de fazer um único pedido antes da minha morte eu pediria para enxergar. Para poder ver no fundo dos olhos daquele policial que me matou a podridão impregnada em sua alma, depois perguntar a ele se tem família, se sente amor, nutre sonhos, se tem idéias. Acho que não. Mesmo postumamente, desejo que o sangue de todos os companheiros e companheiras não tenha sido derramado em vão. Continuem a luta! 2ª Vítima – Vocês não sabem o que é ser arrancado de seus filhos e não poder vê-los crescer, vocês não sabem o que é ter um sonho apagado por uma bala. Coro dos trabalhadores – (Batendo com suas ferramentas no chão) – Terra que há de nos comer, Há de nos fazer viver! Narrador 2 – Enxugai as suas lágrimas, ergam as suas ferramentas, e continuem a luta (3X).
  52. 52. Agitação e Propaganda - 52 A luta do camponês contra o agronegócio* Construção coletiva a partir de experimentos realizados com elencos no Acampamento Nacional da Via Campesina (Brasília – 10/2003), com a turma do curso técnico de agropecuária e desenvolvimento sustentável na Escola Agrícola Estadual Juvêncio Martins (Unaí – 12/2004), com o Coletivo de Teatro do MST/RS Peça pro povo (Viamão – 01/2005), com a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré em parceria com o CTO (RJ – 02/2005) e com o elenco de teatro da II Oficina de Cultura da Região Centro-Oeste (03/2005). Personagens: Camponês Grande fazendeiro Juiz / grande imprensa Coro Policial 1 Policial 2 * Fonte pesquisada: Cartilha “O agronegócio X agricultura familiar e reforma agrária”. Brasília: Concrab, 2004.
  53. 53. Agitação e Propaganda - 53 Juiz – Venham, venham, venham todos! Vamos se aproximando minha gente! Vai começar a luta do ano! A luta mais esperada! Vamos se aproximar! Pode chegar perto que não paga nada! Desse lado do ringue temos um lutador espetacular, a quem muito devemos agradecer e nos orgulhar, o Grande Fazendeiro! Aplausos para ele! Coro do agronegócio – Terra, Terra Nós queremos terra! (2X) Acumular, acumular, acumular, acumulaaaar Monopolizar Pra poder melhor lucrar (2X) Juiz (Mudando o tom de voz) – E desse outro lado temos o desafiante, um lutador desconhecido, o Camponês. Coro do MST – MST! Essa luta é pra valer! (3X) Juiz (Para o público) – Essa luta vai ser fichinha! Façam suas apostas! Vamos começar o massacre, quero dizer, a luta. Se aproximem os dois lutadores. Quero que a luta seja limpa (pisca para o público) sem nenhum golpe baixo (pega a mão do Grande Fazendeiro e atinge o saco do Camponês) e sem nenhuma ofensa, afinal, isso aqui é uma casa de respeito! 1° Assalto – A COOPTAÇÃO Juiz – E tem início o primeiro assalto! Grande Fazendeiro – Ei, venha aqui, eu tenho uma proposta para lhe fazer. (O Camponês fica receoso mas decide escutar a proposta) – Olha, eu sei que você está passando por dificuldades, o crédito não saiu na hora certa mais uma vez, suas crianças
  54. 54. Agitação e Propaganda - 54 estão com fome, é época de natal... (O Camponês concorda com tudo) – Pois então, eu tenho uma proposta para lhe fazer. Você passa a trabalhar pra mim, operando a colheitadeira, e em troca eu lhe dou um salário de R$ 1000 e folga aos domingos. O que acha? Você nunca teve isso na vida, homem! (O Camponês fica feliz com a proposta) – E como você vai trabalhar pra mim o tempo todo, você me empresta sua terra para eu poder estender a minha plantação e nós dois lucramos com isso. Camponês – Êpa, mas o senhor quer que eu deixe minhas terras em suas mãos?! Grande Fazendeiro – Mas é você mesmo quem vai cuidar dela homem! (O Camponês fica pensativo. Ele conversa consigo mesmo e decide aceitar a proposta. Enquanto ele pensa o Grande Fazendeiro arma um soco, em câmera lenta. No momento em que o Camponês se vira para aceitar a proposta ele toma o soco.) Juiz – Fim do primeiro assalto! Com vitória para nosso grande lutador! (Uma atriz sai do coro e anda desfilando até o Grande Fazendeiro, carregando um garrafão de água com um lado escrito 2° Assalto e o outro escrito Randap) – Durante o intervalo o glorioso Grande Fazendeiro se fortalece com Randap, o agrotóxico dos grandes fazendeiros! Vamos direto para o segundo assalto, sem descanso pra não perdermos tempo, pois o nosso negócio é assaltar o Camponês. Começa o segundo assalto! 2° Assalto: A VERDADE Coro do agronegócio – O agronegócio é o responsável por mais de 30% das exportações brasileiras (o Grande Fazendeiro acerta um golpe). Coro do MST – Monocultura (o Camponês acerta um golpe), desemprego (o Camponês acerta outro golpe), depredação da natureza: (mais um golpe do Camponês) são as conseqüências do agronegócio.
  55. 55. Agitação e Propaganda - 55 Coro do agronegócio – Mas que ousadia! (Mudando a voz para o tom de narrador de telejornal) – O agronegócio é a continuidade da Revolução Verde, é o atual responsável pelo progresso do nosso país, e é um grande empregador! (O Grande Fazendeiro arma um soco, em câmera lenta). Coro do MST – Mentira! (O Camponês se esquiva do soco e arma o contra-ataque) – As pequenas unidades empregam 87% da mão-de-obra do campo. (Primeiro soco. Em seguida, a cada dado o Camponês acerta um soco no Grande Fazendeiro) – As pequenas unidades de produção são os responsáveis por 70% da produção de café, 71% da produção de leite, 87% da criação de suínos, 87% da criação de aves, 79% da produção de ovos, 77% da produção de feijão, 92% da produção de mandioca, 76% da produção do tomate, 85% da produção de banana, quer mais?!!! Grande fazendeiro – Não! Pára! Pára! Não agüento mais! (Desmaia) (O Grande Fazendeiro é sustentado por membros de sua torcida. O juiz chama os lutadores até o centro do ringue, segura as mãos dos dois e faz o gesto de que vai anunciar o vencedor. A cena é congelada. Entra a moça com o cartaz “Veredicto: a mentira”. Quando ela sai o juiz anuncia que o Fazendeiro é o vencedor). Veredicto: A MENTIRA Juiz – Tenho o orgulho de declarar como vencedor dessa grande batalha o nosso querido Grande Fazendeiro! (O Juiz segura o Grande Fazendeiro, que continua desmaiado. O Camponês protesta.) – Sim, ele foi o vencedor porque lutou com elegância, e não com brutalidade. Isso é uma casa de respeito, e não posso admitir a sua violência aqui dentro. Você nada mais é do que um brigão de rua! Coro do agronegócio – Isso prova que Reforma Agrária é caso de justiça! (Barulho de sirene. Entram dois policiais).
  56. 56. Agitação e Propaganda - 56 Policial 1 – Olha ali Justino, um caipira safado caçando confusão na cidade! Policial 2 – Parado aí malandro! Mãos na cabeça e pernas abertas! Camponês – Mas eu não fiz nada! Policial 1 – Cala a boca! Quem foi que mandou vir pra cidade? Camponês – Eu só vim vender a minha produção... Policial 2 – Você vai é pro xadrez, tomar umas porradas pra aprender a voltar de onde não devia ter saído! (Eles arrastam o camponês para o fundo da cena). Camponês – Mas eu não fiz nada, sou inocente, sou trabalhador! (Os dois coros se juntam em meia lua e quando os policiais e o Camponês chegam e se alinham todos fazem o gesto de agradecimento e, em seguida, são puxados os três seguintes gritos de ordem). 1º) Puxador(a) – Reforma Agrária quando? Coro – Já! Puxador(a) – Quando? Coro – Já! Puxador(a) – Quando? Coro – Já! 2°) Puxador(a) – Enquanto o latifúndio quer guerra... Coro – Nós queremos terra! (3X) 3°) Puxador(a) – Reforma Agrária! Coro – Por um Brasil sem latifúndio! (3X)
  57. 57. Agitação e Propaganda - 57 Referências bibliográficas BENJAMIN, Walter. O autor como produtor. In Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. BERLINCK, Manuel T. CPC-UNE. Campinas: Papirus, 1984. BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. BRECHT, Bertolt. O popular e o realista. In Teatro dialético. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. COLETIVO Nacional de Cultura do MST. Caderno das Artes n° 01: Teatro. São Paulo: MST, 2005.
  58. 58. Agitação e Propaganda - 58 _____. Agitprop e MST: considerações sobre a práxis da agitação e propaganda. Brasília: 2005, mimeo. COSTA, Iná Camargo. A hora do teatro épico no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. _____. Palestra sobre o ensaio O autor como produtor. In Ensaios sobre Arte e Cultura na Formação. São Paulo: Anca, 2006. GARCIA, Silvana. Teatro da militância. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1990. GODÓIS, Abrão. Agitação e propaganda: experiências em Goiânia e Valparaíso de Goiás. Porto Alegre: 2005, mimeo. KEHL; Maria Rita. Televisão e violência do imaginário. In: BUCCI, Eugênio (org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2000. _____. SIMÕES, Inimá F.; COSTA, Alcir Henrique da. Um país no ar: história da TV brasileira em três canais. São Paulo: Brasiliense/Funarte, 1986. KING, Marthin Luther. Não podemos esperar. São Paulo: Senzala, 1968. LE THÉÂTRE D´AGIT-PROP DE 1917 À 1932. L´Age d´Homme, 1978. Coleção em 4 volumes. O texto Aprenda com seu adversário! foi publicado no volume 4, páginas 50-51. LÊNIN, Vladimir I. Que fazer? São Paulo: Hucitec, 1979. MITTELMAN, Tania. A arte no Coletivo de Cultura do MST (1996-2006). Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: UFF – Curso de Pós-Graduação em História, 2006. PISCATOR, Erwin. Teatro político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. SETOR Nacional de Comunicação do MST. Algumas idéias sobre agitação e propaganda no MST. São Paulo: 2005, mimeo.
  59. 59. Agitação e Propaganda - 59 SILVA, Lidiane Aparecida da. Teatro no MST: a construção de um instrumento de formação e transformação. São Paulo: Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília e Instituto de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária, 2005. Dissertação apresentada como requisito para conclusão do curso de pós-graduação latu-sensu em educação e desenvolvimento do campo. SILVA, Maria Aparecida da. O papel do teatro na organização dos jovens do Assentamento Carlos Lamarca (SP). Veranópolis: Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra) e Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), 2004. Monografia de conclusão de curso de ensino médio com especialização em comunicação popular. SCHWARZ, Roberto. Política e Cultura: subsídios para uma plataforma do PT em 1982. In Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987. VIANNA FILHO. Vianinha: teatro, televisão e política. (Org. Fernando Peixoto). São Paulo: Brasiliense, 1983.
  60. 60. Agitação e Propaganda - 60

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