Resumo Pré-modernismo e Euclides da Cunha

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Resumo Pré-modernismo e Euclides da Cunha

  1. 1. Grupo passadista(parnasianos e simbolistas)XGrupo renovador(artistas dispostos a reexaminar o país dentro de uma perspectiva crítica)
  2. 2. Características Momento de transição Regionalismo Social Ecletismo
  3. 3. Denominação do período A expressão pré-modernismo foi empregada pela primeira vez no livro Contribuição à História do Modernismo, do crítico Alceu Amoroso, no ano de 1939. Por causa do ecletismo da época, chocam-se várias correntes e estilos, indefinidos entre o academicismo e a inovação – torna-se quase impossível rotular o período, enfeixá-lo dentro de um conceito totalizante.
  4. 4. Denominação do período Trata-se de um conceito equivocado, que não abarca a totalidade estética e ideológica das obras então produzidas, considerando-as apenas textos precursores da Semana de Arte Moderna. Contudo, exigências didáticas e a ausência de outra classificação satisfatória terminaram por disseminar o termo pré-modernismo.
  5. 5. Origens Ao contrário do que ocorreu na Europa, convulsionada pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolução Soviética, no Brasil as duas primeiras décadas do século XX foram de relativa tranquilidade. As mudanças políticas do final do séc. XIX – a abolição da escravatura e a Proclamação da República – não provocaram alterações significativas na estrutura econômica, social e cultural do país
  6. 6. Origens O café continuou sendo a base da economia brasileira, garantindo a hegemonia política dos grandes cafeicutores de São Paulo. A estes se alinhavam os produtores de gado de corte e de leite de Minas Gerais, formando a chamada “Política do Café com leite”. Porém algumas mudanças iam se desenhando. A urbanização, a imigração e o crescimento industrial começavam a modificar a fisionomia da sociedade brasileira.
  7. 7. Origens Nas cidades emergia uma classe média reformista e, nos quartéis, uma nova geração de militares, influenciados pelo ideário positivista, exigia mudanças. Simultaneamente, aparecia pela primeira vez no país uma massa popular insatisfeita e propensa a revoltas irracionais, como, por exemplo, a rebelião contra a vacina obrigatória em 1904.
  8. 8. Origens Havia, portanto, um conflito entre as forças conservadoras, que representavam o passado, e as novas forças sociais, que sinalizavam a necessidade da mudança. Essas últimas, no início da década de 30, se uniriam em uma poderosa frente ampla e tomariam o poder sob o comando de Getúlio Vargas.
  9. 9. Características O movimento pendular da sociedade brasileira (imobilismo versus modernização) transferiu-se para a literatura. Com efeito, os primeiros anos do séc. XX são marcados tanto pela presença de resquícios culturais do séc. XIX como pela busca de novas formas de expressão e pelo desejo de uma nova redescoberta crítica do Brasil.
  10. 10. Primeiro autor do período Euclides da CunhaOs sertões- Relato sobre a Guerra de Canudos, dividido em três partes:- A terra – O Homem – A luta- Denúncia do esquecimento do sertão brasileiro – estilo áspero, brilhante, difícil – mistura de sociologia, documento, panfleto, literatura e interpretação do Brasil.
  11. 11. O autor e a obra Euclides da Cunha(1866 – 1909)Os sertões foi publicado em 1902.Também publicou:- Contrastes e confrontos (1907)- Peru versus Bolívia (1907)- À margem da história (1909)
  12. 12. Repórter de guerra Antes de acompanhar, como jornalista, a quarta e última expedição das Forças Armadas contra os rebeldes de Canudos, Euclides da Cunha escreveu um artigo intitulado “A nossa vendeia” (Vendeia refere- se à Guerra da Vendeia ocorrida numa região com este nome na França). Comparava os fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro aos camponeses reacionários que, sob o comando de aristocratas, procuraram destruir a República Francesa, logo após a revolução.
  13. 13. Repórter de guerra Euclides traduzia, assim, a opinião pública das cidades brasileiras, que exigia a eliminação do arraial sertanejo, considerado um bastião monarquista. A guerra civil já durava mais de um ano (1896 – 1897) e as derrotas militares das três primeiras expedições haviam criado um clima de histeria na população urbana, identificada majoritariamente com o pensamento republicano.
  14. 14. Mais e mais sangue O fracasso da terceira expedição dirigida pelo legendário coronel Moreira César, um dos líderes do jacobinismo militar, levara multidões às ruas, clamando por vingança. A lembrança das recentes Revolta Federalista e Revolta da Armada ainda estava viva na memória popular, de modo que a consolidação da República parecia exigir mais e mais sangue.
  15. 15.  É dentro desse espírito que Euclides parte para o front. Suas reportagens, apesar de mais sóbrias e realistas do que as de outros correspondentes, são escritas dentro da ótica oficial e terminam quase sempre com a saudação: “Viva a República!” Contudo em muitas delas já se percebe o desconforto do escritor com tudo aquilo a que assiste.
  16. 16.  Em 1897, Flávio de Barros documentou a fase final da campanha de Canudos, no interior da província da Bahia, estando presente à ofensiva final de 1 de outubro e fotografando o cadáver do beato Antonio Conselheiro. Vejam as imagens a seguir.
  17. 17. Incêndio em Canudos
  18. 18. Vista geral de Monte Santo
  19. 19. Mulheres e crianças prisioneiras daguerra
  20. 20. Igreja deSantoAntonio
  21. 21. Supultamento do CapitãoAntônioManuel deAguiar eSilva
  22. 22. Soldados e um Combatentesconselheirista preso
  23. 23. O corpo de Antônio Conselheiro(Antonio Vicente MendesMaciel)
  24. 24. Os sertões De volta ao Sul, Euclides tenta entender o que ocorrera em Canudos. Ele não mais acredita ter participado de uma “guerra santa” para a salvação da República. Ao contrário, descobre que observara uma grande tragédia nacional e que era preciso explicá-la racionalmente, e não sob o ângulo da ideologia. Estuda Geografia, Botânica, Antropologia, Sociologia, etc.
  25. 25. Os sertões No entanto, as fontes de pesquisa disponíveis eram exclusivamente europeias, muitas delas impregnadas da perspectiva colonialista. Desenvolvidas na Europa imperialista das últimas décadas do séc. XIX, tais fontes induziram o escritor a alguns erros interpretativos, sobretudo nas duas primeiras partes da sua obra.
  26. 26. Determinismo geográfico O homem é produto do meio natural O clima desempenha papel preponderante na formação do meio Existe a impossibilidade de se constituir uma verdadeira civilização em zonas tórridas, como o sertão.
  27. 27. Determinismo racial Os cruzamentos raciais enfraquecem a espécie. O sertanejo é caso típico de hibridismo racial A miscigenação induz os homens à bestialidade e a toda a espécie de impulsos criminosos.
  28. 28. Análise As observações eram justas e brilhantes. As teorias eram medíocres. Segundo Nelson Werneck Sodré, “Existe em Euclides um dualismo singular: enquanto observa, testemunha, assiste, conhece por si mesmo, tem uma veracidade e uma grandeza insuperáveis; enquanto transmite a ciência alheia, ainda sobre o que ele mesmo viu, conheceu. decai para o teorismo vazio, para a digressão subjetiva, para a ênfase científica, para a tese desprovida de demonstração.”
  29. 29. A terra Na primeira parte, predomina a visão cientificista e naturalista do engenheiro Euclides da Cunha. A descrição do meio físico opressivo é feita detalhadamente: a vegetação pobre, o chão calcinado, a imobilidade e a repetição da paisagem árida. A linguagem, poderosamente retórica, transforma a natureza em elemento dramático.
  30. 30. O homem É a parte mais polêmica, porque nela aparecem questões como a da formação racial do sertanejo e a dos males da mestiçagem. Euclides vê na mistura de raças um retrocesso.
  31. 31. Descrição “De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças – é quase sempre um desiquilibrado. (…) E o mestiço – mulato, mameluco ou cafuzo -, menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores.”
  32. 32.  Contrastando com essa quase incapacidade do mestiço para a civilização moderna, os sertanejos nordestinos (embora também resultantes de amplo caldeamento étnico) seriam diferentes por ter há muito se isolado no amplo interior do país. Abandonados há 3 séculos, sem contatos maiores com o litoral desenvolvido, “nossos patrícios retardatários” , ao contrário do que ocorrera com os mestiços urbanos, não haviam sido corrompidos:
  33. 33.  “O abandono em que jazeram teve função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estágio social superior e, simultaneamente, evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios mais adiantados.”
  34. 34.  Por isso, apesar do seu “atraso mental”, o sertanejo surge como um titã:“ O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno (=elegância), a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
  35. 35.  É desgracioso, desengonçado, torto, Hércules-Quasímodo (antítese entre o forte e belo herói mitólogico grego e monstruoso concunda de Notre Dame), reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar-se de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente.
  36. 36.  É um homem permanentemente fatigado. Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o desencadear de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas O homem transfigura- se. Empertiga-se (fica ereto); (…) e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos de relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu conhestro (matuto desajeitado)…
  37. 37. reponta inesperadamenteo aspecto dominador deum titã acobreado epotente, numdesdobramentosurpreendente de força eagilidade extraordinárias.”
  38. 38.  O isolamento do sertanejo o mantém preso a valores arcaicos como o messianismo. A “tutela do sobrenatural” rege a vida cotidiana, e as vicissitudes do meio intensificam a religiosidade e a consciência mágica do mundo.
  39. 39.  Julgada a partir de padrões urbanos, a figura de Antônio Conselheiro é bizarra:“ E surgiu na Bahia o anacoreta (penitente que vive na solidão) sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; mostruoso, dentro de um hábito azul de brim americano (…) O asceta (pessoa que despreza os prazeres da corporais em busca da espiritualização) despontava…
  40. 40.  Inteiriço, da rudeza disciplinar de quinze anos de penitência. Requintara nessa aprendizagem de martírios, que tanto preconizavam os velhos luminares da Igreja. Vinha do tirocínio (prática) brutal da fome, da sede, das fadigas, das angústias recalcadas e das misérias fundas. (…) Pregava. Era assombroso, afirmam testemunhas existentes. Uma oratória bárbara e arrepiadora (…); misto inextricável (que não se pode desenredar) e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos vulgares de moral cristã e de profecias esdrúxulas… Era truanesco (ridículo) e era pavoroso. Imagine-se um bufão (palhaço) arrebatado numa visão de Apocalipse. (…) Ninguém ousava contemplá-lo. A multidão sucumbida abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela insânia formidável”.
  41. 41. A luta É a parte mais importante e dramática da obra. Para escrevê-la Euclides inspira-se em reportagens, lê, ouve e entrevista pessoas que haviam participado das campanhas anteriores. O escritor não esconde a comoção diante da violência que gera banhos diários de sangue (milhares de vítimas).
  42. 42. A luta Em A Luta, Euclides apresenta o conflito como uma tragédia de erros. Durante a escrita de Os Sertões, Euclides compreende que a Guerra de Canudos não fora um conflito entre a reação e o progresso, entre a Monarquia e a República, como as elites intelectuais, políticas e militares, bem como a opinião pública do país, acreditavam. O que ele presenciara havia sida apenas um conjunto de equívocos, demências e crueldades. Uma pungente guerra civil.
  43. 43. A luta Erros resultantes de uma profunda cegueira de ambos os lados. Para os adeptos do Conselheiro, os soldados eram agentes do Cão (do demônio) e deviam ser destruídos. Para o Exército, os sertanejos eram jagunços primitivos a serviço da causa monárquica e tinha de ser exterminados. Os soldados traziam no peito o retrato do marechal Floriano Peixoto, cuja memória saudavam com a mesma paixão e fanatismo com que os sertanejos gritavam pelo nome do “santo” Conselheiro. Recompor a razão, eis o caminho que o escritor encontra para entender a guerra. Na verdade, os guerrilheiros de Canudos eram uns pobres- diabos, filhos da ignorância e das crendices de uma civilização parada no tempo há três séculos. Precisavam de professores e não de tiros de canhão.
  44. 44.  Já as tropas do governo, que representavam a civilização contemporânea e a face moderna do país, às quais cabia manter um mínimo de racionalidade, haviam sido incapazes de perceber a verdadeira natureza dos inimigos. Trataram então de destruí-los a ferro e a fogo, com requintes de horror e barbárie. Daí o caráter de denúncia que impregna o texto de Os Sertões e o transforma em uma “epopéia às avessas”, em um “grito de consciência nacional”.
  45. 45. Denúncia Tal perspectiva é anunciada na nota preliminar que abre o livro:“ Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”É a mesma denúncia que Euclides reforça no epílogo de seu “livro vingador”:“É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades… “ (Maudsley é um antropólogo inglês)
  46. 46. A interpretação do Brasil Ao descrever o fervor patriótico que envolve a nação depois da vitória final do Exército, o escritor não apenas examina os acontecimentos sob o ângulo da tragédia como também descobre que o confronto refletia a divisão estrutural do Brasil. Havia dois Brasis completamente estranhos entre si, o do litoral e o do sertão, e que o último jazia ignorado ou esquecido pela consciência culta nacional
  47. 47. Genêro literário Os Sertões é uma combinação única de ensaio sociológico, estudo científico, reabilitação histórica, panfleto, reportagem de guerra e literatura, o que o torna impossível de enquadrá-lo nos limites de um gênero qualquer. Apresenta agudo senso do dramático, relatando os acontecimentos de tal forma que surpreende o leitor.
  48. 48.  Confere às ações uma plasticidade vigorosa e assustadora, buscando sempre o contraste violento, o êxtase e a agonia, a situação-limite do ser humano Consegue traduzir o horror da guerra, dando ao leitor a impressão de estar no próprio centro das batalhas. É um estilo barroco no gosto pelo ornamental, no excesso vocabular, no léxico arcaico e na presença contínua de antíteses e paradoxos.
  49. 49.  Tudo isso dificulta a leitura, mas quem se dispuser a empreender algum esforço terá uma recompensa. Penetrará no reino de uma linguagem admirável, ousada, criativa, muito próxima do ritmo da prosa lírica. Com certeza, nenhuma obra em nossa cultura teve tão larga repercussão. Suas duas camadas estruturais, que se interligam, a ensaística e a literária, tornaram-se fontes permanentes de debate.
  50. 50.  A ensaística pôs em xeque todas as concepções que a intelectualidade brasileira tinha a respeito do seu próprio país, passando a influenciar decisivamente a discussão política do século XX. A literária, apesar do caráter irreproduzível da sua linguagem, alimentou, como motivo e visão de mundo, inúmeros relatos do chamado ciclo nordestino do Romance de 30, sobretudo Vidas Secas de Graciliano Ramos e Seara Vermelha de Jorge Amado. Estudos recentes têm apontado também a forte influência de Os Sertões sobre a obra de João Guimarães Rosa.

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