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Como estava dizendo, esses três significados do anel representam cada um, um valor paraa pessoa que o porta. A ideologia s...
A importância da estória do João, que acabei de contar, é a de que não se pode considerara ideologia como algo imposto as ...
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Ciro Marcondes

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Ciro Marcondes

  1. 1. O QUE TODO CIDADÃO PRECISA SABER SOBRE IDEOLOGIA III. IDEOLOGIA NA VIDA COTIDIANA As aspirações, os desejos de ter propriedades, de vestir-se bem e de subir na vida queJoão possui não constituem uma ideologia que ele tenha criado (como vimos na parte anterior).Na verdade, essa ideologia desenvolveu-se na consciência de João por meio do contato comamigos, com colegas que partilham as mesmas ideias e, embora encontre aí o espaço paradesenvolver-se, origina-se principalmente da sua situação de trabalho.O TRABALHO ALIENADO O trabalho em nossa sociedade é um processo que as pessoas realizam, em quase todosos casos, de uma forma não prazerosa. Poucos são aqueles que gostam muito do seu trabalho eque a ele se dedicam com satisfação, principalmente quando o trabalho não é uma atividadeprópria ou quando as pessoas não são donas do negócio e trabalham para outros. A atividade do trabalho, no caso do João, bem como dos operários industriais, é umprocesso de criação de coisas, de produtos, que, uma vez chegados ao mercado, recebem onome de “mercadorias”. Essa atividade de trabalho reduz a potencialidade do homem a umaatuação muito pouco significativa. Vou explicar melhor: as pessoas não se sentem compensadasno trabalho, porque a sua atividade é mecânica; o produto não vai alterar em nada seu cotidiano.No passado, as sociedades tribais construíam as casas, os barcos e seus instrumentos de caça epesca. A confecção desses objetos tinha um significado para as pessoas – tratavam-se de bensque possuíam uma função direta nas necessidades da tribo. Construía-se um barco paraatravessar de um lado a outro o rio e, com isso, obter o sustento – pela caça ou pela pesca – paratoda a comunidade. Na construção desse barco participavam várias pessoas e existia aconsciência de que todo o andamento da produção – cada um tinha noção da importância de seutrabalho no barco, assim como da importância do barco para a comunidade. Esse tipo de trabalho, onde se juntam a noção do valor individual dos produtores e aconsciência da importância desse valor para o produto final e para o bem da comunidade édiferente daquele realizado hoje nas fábricas e em outras atividades industriais onde o operário jánão tem mais nenhuma consciência de sua importância, da necessidade social de seu produto,nem dos fins para os quais será utilizado. É evidente que sua relação com o produto serátotalmente diferente. Nas sociedades modernas, o homem não mais se identifica com seutrabalho, não mais encontra nele uma fonte de satisfação e prazer. É um trabalho denominado“trabalho alienado”, pois ocorre uma separação entre a produção (o ato de fabricar) e aconsciência de sua utilização (o fim a que se presta o produto). Por esse motivo, o trabalhoperdeu seu caráter de satisfação social, ficando para o trabalhador somente a noção do “devercumprido” no final do dia, ou seja, somente a sensação do desgaste físico como se fosse umamáquina e não mais a consciência da sua importância social e do bem que produziu.TRABALHO COMO CRÍTICA À VIDA COTIDIANA Quem trabalha percebe que existe no trabalho (em fábrica, loja, empresa, repartição) umaremuneração que não é justa. As pessoas, na verdade, deveriam ganhar muito mais do que defato recebem. Quem recebe a parcela maior é o proprietário, cujo trabalho é proporcionalmente
  2. 2. muito menor que o do trabalhador. Todos esses fatores formam um clima que leva o trabalhadora desgostar de seu trabalho. O trabalho torna-se, então, apenas um meio, primeiramente parasobreviver, porém não só – passa a significar o trabalho também um meio para garantir melhoriade vida. Desta maneira, o trabalho implica, necessariamente, uma critica à vida que se vive, poistrabalha-se para melhorar de vida. Aí desponta a questão da ideologia – eu trabalho, não apenaspara me alimentar, mas, também para que no futuro possa ter uma situação mais cômoda. Esteera também um dos sonhos do João. Fundamentalmente, a ideologia surge a partir do processo de trabalho como algo que fazparte da vida e da consciência das pessoas, as quais através desse processo almejam provocarmudanças. É claro que essa ligação foi mais marcante na época em que o trabalho significava aúnica atividade de toda a classe dos trabalhadores. Hoje em dia, o trabalho é uma atividade maisdiversificada, há muito mais tipos de trabalho (mas nem por isso as pessoas ficam maissatisfeitas com ele). O que eu quero dizer é que a produção da ideologia acontece de uma formamenos limitada à fabrica, mais dispersa em vários ambientes da sociedade. A partir dessa atividade, ou seja, tomando o trabalho como ponto de partida, o trabalhador,o nosso personagem João, pretende melhorar de vida. Ele tem seus sonhos, desejos deascensão social e o ideal de realização própria enquanto pessoa. Nesta medida, João iráincorporar algo que se chama “ideologia burguesa”. Vamos ver como isto ocorre.A OSTENTAÇÃO João acredita que trabalhando vai melhorar de vida. Ao mesmo tempo, ele vive umasituação contraditória, porque vê que muitas pessoas que ele conhece trabalharam a vida inteirae nunca conseguiram essa melhoria. Assim, ao mesmo tempo ele acredita também em outrassaídas, em “soluções mágicas”, como ganhar na loteria, ter sorte no jogo ou espera que, derepente, aconteça alguma coisa inesperada em sua vida que vá permitir que ele melhore muito. Oideal de subir na vida, de diferenciar-se dos demais, principalmente quando ele é buscado aqualquer preço, faz parte de um conjunto maior, como dissemos, chamado “ideologia burguesa”.(Não que as pessoas não devam lutar para melhorar sua condição de vida: isso é perfeitamentelegítimo. A questão não é a melhoria que buscamos em nossa situação, mas as formas e osprincípios utilizados a busca de ascensão social desvinculada de qualquer principio, o jogo dovale-tudo, quando se trata de obter mais prestigio e o investimento utilitarista e oportunista emcultura, amizades ou movimentos sociais para obter vantagens pequenas e pessoais.) Dessepadrão ideológico, João, pelo contato com os amigos e pela submissão cômoda à moralexistente, absorve alguns elementos e passa a agir segundo eles. Nestes casos, ele estaráconfirmando e reforçando essa ideologia. As pessoas não pensam em subir na vida apenas para estarem melhor, mas também paracolocarem-se distantes daqueles com quem estavam anteriormente na mesma posição – é aítambém que essa ideologia se aproxima do pensamento burguês. Trata-se de uma ideologia quedefende a diferenciação – quando João for rico e tiver um carro, uma casa bonita, ele voltará aoNordeste para exibir isso aos seus amigos e parentes; ele irá apresentar-se, assim, por meio deobjetos (símbolos) ideológicos. Essa será a afirmação social de João. Veja bem: João não busca melhora de vida para aplicar esse sucesso em objetivos queincluam o bem estar de seus amigos e parentes do Nordeste. Em primeiro lugar, aparece na suaconsciência uma necessidade ostentatória, que ele agora porta, e que, em principio, nada temhaver com os outros. A ideologia aparece aqui, também, na troca da relação com pessoas
  3. 3. afetivamente próximas por uma relação entre objetos, relações simbólicas. Como na explicaçãodo estereótipo, a imagem externa do João, e não ele mesmo enquanto pessoa, é que deverá terefeito sobre os outros. Lembram-se da construção do barco? Aquela forma de solidariedade, de preocupação coma comunidade desaparece neste tipo de ideologia.OS PRINCIPIOS A afirmação social de João está na realização desse sonho de ascensão. Como vai dar-sea ascensão ele não sabe muito bem, mas ele sabe que pelos caminhos tradicionais a coisa édifícil. Mesmo assim, ele luta por meio deles. Ele também percebe que na sociedade em que vive,na sociedade brasileira, muitas pessoas melhoram de vida e tornam-se ricas sem trabalhar, porpura corrupção. Isso significa, portanto, que no tipo ideológico que ele está em parteincorporando, o da ideologia burguesa, a questão do como as pessoas sobem não é tãoimportante, aliás, não é nada importante. O que vale é que as pessoas “chegaram lá”. (Novamente, o valor da ideologia burguesa, já mencionado expressa-se aí – os finsjustificam os meios. Não importa que os meios sejam desonestos, criminosos, traiçoeiros; o queele vê, na realidade, é que quem tem dinheiro tem poder e força e ninguém questiona como essepoder foi criado.) A ilusão que João tem é a de que ele, uma vez possuidor dessas coisas, terá autonomia,será um individuo livre e feliz. (Porque isso é uma ilusão, veremos um pouco mais adiante quandofalarmos da mística do dinheiro.) João, uma vez rico, acha que será senhor de todas as coisa,das pessoas e dos objetos. Parece, entretanto, que ocorrerá o inverso; quando ele tiver dinheiro,este irá ser o seu senhor, pois o escravizará e tornará sua vida inteiramente dependente damanutenção e do crescimento do dinheiro. Ele não possuirá o dinheiro; o dinheiro possuirá João.(....)OBJETOS, CONSUMO, PRESTIGIO Voltemos ao caso do João. João presenteia Maria com um anel. O anel não possui valorutilitário algum, é um bem apenas de ostentação. Os bens que existem na sociedade não são,portanto, apenas para o uso. Quando eu compro um sapato comum, posso achar esse sapatocaro, mas preciso comprar porque tenho necessidade de proteção para meu pé. O sapato então,é um bem adquirido para satisfazer essa necessidade. Se eu compro, porém um sapato quecusta duas ou três vezes o meu salário, é claro que, se eu optei por ele, já não o fiz maispensando no uso. Eu comprei para com ele “esnobar”, para dizer aos outros que eu sou diferente,que uso coisas boas, que tenho dinheiro e bom gosto (as coisas que esse sapato pode dizer sãomuitas). Uma mercadoria, portanto, pode ser comprada, tanto para uso, quanto para aostentação. Um presente, entretanto, já é um terceiro significado de mercadoria: ele tem um valorparticular para a pessoa que o comprou e para a que o recebeu. Esse valor existe somente paraJoão e Maria. É um símbolo do amor de João. (Além desses três significados do anel, há aindaum quarto: o que significa para o revendedor, para quem o objeto não vai ter valor de uso, vistoque ele não vai exibi-lo, tampouco presentear sua mulher com ele? Para o revendedor, a peça sósignifica uma coisa: um objeto com o qual ele poderá obter lucro, vendendo-o bem mais caro doque o comprou.)
  4. 4. Como estava dizendo, esses três significados do anel representam cada um, um valor paraa pessoa que o porta. A ideologia se expressa no tipo de valor que o portador do bem associa aele. A ideologia que João incorpora é a ideologia da diferenciação; trata-se da ideologia que tomaos objetos como meios para diferenciar-se dos outros. Tais objetos significam tais prestígios.Desapercebidamente, quando transfere para o objeto essa capacidade de melhorar sua imagemperante a namorada, João está ingressando num mundo em que o valor principal é o consumo.Consumo significa para ele, automaticamente, prestigio. Está é uma situação que encontra algumas semelhanças em outras sociedades e culturas.No passado, alguns aspirantes à chefia em certas tribos americanas faziam uma festa chamadapotlatch, para a qual convidavam amigos e concorrentes e em cuja realização fazia grandesdemonstrações de dispêndio e opulência. Os objetos e alimentos aí também significavamprestigio. O que diferencia essa situação da ostentação do moderno Capitalismo não é a questão doconsumo como forma de prestigio e demonstração de superioridade, mas a vinculação dessescom a mercadoria, a propriedade privada e o capital. Como se vê, certos bens na sociedade (alimentos, carros, roupas, joias) como já dito,manifestam-se pelo sujeito. E se observarmos a questão de um outro ângulo, veremos que istoempobrece bastante o próprio sujeito que os usa, porque ele fica sendo, na verdade, apenasmero transportador de objetos. O sujeito se perde atrás deles, deixa de ser uma pessoa comideias próprias, com interesses, com vontades e passa a ser puramente um portador, merosuporte desses objetos.O FETICHE DO DINHEIRO Nesta ideologia que João incorpora, que é a ideologia mais encontrada em nossasociedade, o dinheiro tem uma função central. Isto se dá pelo seguinte motivo: dinheiro significaalguma coisa que tem “poderes mágicos”. Costuma-se dizer que o dinheiro neste caso é umfetiche.(...)A IDEOLOGIA COMO PRÁTICA COTIDIANA Através do exemplo do trabalhador João, colocamos alguns elementos-chave desse tipode ideologia na nossa sociedade, que é, em última análise, a ideologia majoritária, isto é, de quea maioria das pessoas compartilha. Isto não significa que ela seja uma ideologia que satisfaça osindivíduos. Estes compartilham dela porque imaginam que dessa maneira encontrarão felicidade.Essa felicidade, entretanto, é reduzida ao simples possuir objetos, e a realização realmenteíntima, real do sujeito, ficam em segundo plano. Os componentes do pensamento de João são componentes muito comuns em nossacultura. A questão da propriedade, do lucro, do capital, a questão da aparência das coisastomando o lugar das próprias coisas, a questão do subir na vida, que as pessoas, por mais quebusquem caminhos das formas mais diversas, não conseguem realizar, a questão do casamento,são exemplos de que a ideologia não é alguma coisa que está apenas “na cabeça”, não se tratade uma questão de ideias, mas de um tipo de vida. Vive-se segundo uma certa ideologia, não éque se tem uma ideologia apenas em relação a uma certa posição politica ou econômica.
  5. 5. A importância da estória do João, que acabei de contar, é a de que não se pode considerara ideologia como algo imposto as pessoas, mas como um elemento que faz parte de sua vidacotidiana. As pessoas tem ideologias, as pessoas vivenciam ideologias, as pessoas tem contatocom elas no ambiente de trabalho, na vida que levam com os outros e na forma como participamda sociedade. Ideologias são praticas que circulam entre as pessoas, que convivem com elas, eas mesmas partilham ou não delas conforme seus interesses. Elas estão nos fatos que sãovivenciados continuamente na vida cotidiana. Ideologias não são somente posições politicas definidas através de lutas mais amplasentre trabalhadores e patrões, mas são elementos que estão no dia a dia das pessoas, na suarotina de vida. Pode-se dizer que ideologia é algo alimentado diariamente. A função especificados meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas) e de certas instituições (escola,igreja, clube) é exatamente a de reforçar continuamente essa ideologia. O contato e a conversadespreocupada com os amigos atua também da mesma maneira. Na vivencia real de todos os dias, a ideologia é praticamente “regada”. Como as flores sãoregadas, tem de receber todos os dias um pouco de água e de sol para viverem, da mesmaforma, precisa a ideologia ser diariamente reforçada. O contato com os meios de comunicação,assim como com outras instituições, reforça no sujeito a ligação a valores, que funcionam paramanter a coesão e a ligação dos indivíduos na sociedade.MARCONDES FILHO, Ciro. O que todo cidadão precisa saber sobre ideologia. São Paulo:Global, 1985. p. 31-45.

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