Ano I – Número 01 – Abril de 2011O NOVORURALENTREVISTAReni Denardi, do Ministériodo Desenvolvimento Agrário:“O meio rural ...
Nesta edição                                                          Capa 4                                         O cam...
Um novo olhar                       O      foco que tem direcionado as iniciativas do Instituto Souza                     ...
Revolução silenciosa                                                                 André com o irmão caçula, Igor, 9 ano...
atividades não agrícolas e a complementaridade entre o urbano e o rural       André tem dupla jornada                     ...
Paisagem comum no Vale do Itajaí, em Santa Catarina:    pecuário sem pluriatividade é inferior comparada a             ind...
Fotos: Marcelo Martins                                  porte e lazer. Por conta desse processo de diluição das           ...
O que há       de diferente         Novo Rural?           no                                                              ...
LUCIANO                                                                                                      PHILIPPI     ...
RENI DENARDI        Delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário no Paraná                                   ...
Foi outra mudança, consequência                            Estão sendo construídos novos ar-   Aquela     desse processo. ...
RENI DENARDI                          Exatamente. Outro exemplo é o                             Instituto Nacional de Colo...
Denardi: incentivo                                                                                        a iniciativas de...
Diagnóstico do campo                                                                                                      ...
Alternativa ecológicaProdutores rurais da serra gaúcha adotarama cultura orgânica para melhorar a renda,frear o êxodo rura...
JOVENS EM AÇÃO                  Fortes                  razões                  Jovens identificam                  oportu...
Angélica: experiência no PEJR                                                                                         está...
Preparação para a IV Jornada         A IV Jornada Nacional do Jovem         Rural já tem local e data definidos.         O...
MEU RURALO negócio é aquiS    ou Tatiane Faustino da Silva, uma jovem agri-cultora, feminista e técnica em Agroecologia. T...
Campo de preservação                “Vou transformar                a nossa propriedade                em uma referência  ...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Sustentabilidade no camp omed md8j3qdv

637 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
637
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
11
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Sustentabilidade no camp omed md8j3qdv

  1. 1. Ano I – Número 01 – Abril de 2011O NOVORURALENTREVISTAReni Denardi, do Ministériodo Desenvolvimento Agrário:“O meio rural brasileiro nãoé mais sinônimo de atraso.”
  2. 2. Nesta edição Capa 4 O campo tem um novo modelo de produção familiar 10 Debate 8 “O que há de diferente no Novo Rural?”: Luciano Philippi e Jaime Ferré Martí Entrevista 10 Reni Denardi, delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Paraná Boas Práticas 14 Rurbano: projeto retrata o Novo Rural brasileiro Coopaecia: experiência de sucesso na Serra Gaúcha Jovens em Ação 16 As histórias de Angélica e Jeferson, que pensavam em abandonar o campo e hoje investem na área rural 16 Instituto em Foco 18Espírito Santo será a sede da IV Jornada Nacional do Jovem Rural Na Bahia, 30 jovens já planejam futuro no campo Meu Rural 19 A pernambucana Tatiane Faustino, 21 anos, comanda conversão da propriedade familiar para a agricultura orgânica SUSTENTABILIDADE DO CAMPO Coordenação: Luiz André Soares Publicação trimestral do Instituto Souza Cruz Jornalistas responsáveis: Abril/2011 - Tiragem: 2 mil exemplares Andrea Guedes (Mtb.28246 RJ) e Guilherme Mattoso (Mtb.26674) Rua da Candelária, 66 / 4º andar – Centro Projeto gráfico e produção editorial: CEP 20091-900 - Rio de Janeiro (RJ) Via Corporativa Comunicação (www.viacorporativa.com.br) Tel.: (21) 3849-9619 – Fax: (21) 3849-9778 Os conceitos emitidos nos artigos e matérias assinadas institutosouzacruz@institutosouzacruz.org.br são deresponsabilidade dos autores, não refletindo, www.institutosouzacruz.org.br necessariamente, a opinião do Instituto Souza Cruz
  3. 3. Um novo olhar O foco que tem direcionado as iniciativas do Instituto Souza Cruz agora confere nome e pauta a nossa nova publicação trimestral. Com o compromisso de promover a leitura crítica sobre o meio rural brasileiro, Sustentabilidade do Campo se caracteriza por uma abor- dagem pluralista: através de reportagens, entrevistas e debates, co- nheceremos ao longo de suas edições diferentes argumentos em torno do tema principal. Assim, nosso leitor terá liberdade e ele- mentos suficientes para construir sua própria interpretação. Em seu primeiro número, a revista procura motivar a com- preensão acerca das dinâmicas de mudança que culminaram no cha- mado “Novo Rural”: a agricultura, em integração crescente com as economias urbanas (agroindustrialização), já não é mais o único indicador que delimita o campo. Cada vez mais os agricultores fa- miliares são pluriativos, ou seja, conjugam a atividade agrícola com outras formas de trabalho. Mais além, a complementaridade eco- nômica entre o rural e o urbano atingiu também a dimensão geo- gráfica: os espaços se encontram entrelaçados, tornando difícil o exercício de definição precisa de onde um começa e o outro ter- mina. Esse cenário, descrito com precisão por pesquisadores, traz como exigência um novo olhar das instâncias do poder público, com o desenho de políticas contextualizadas, como bem afirma em entrevista Reni Denardi, delegado federal do Ministério do Desen- volvimento Agrário (MDA). Sustentabilidade do Campo discute as principais ideias que desenham essa nova e promissora realidade, ao mesmo tempo em que mostra as pessoas que, na prática, desenvolvem seus projetos de vida no meio rural, com destaque para os jovens talentos de diver- sas regiões do País. De fato, a juventude rural vem produzindo de forma inovadora e articulando novos arranjos institucionais, com uma visão moderna do campo. É, sem dúvida, o segmento priori- tário para as políticas que visam a permanência qualificada das pes- soas no meio rural e, consequentemente, o fortalecimento da agricultura familiar brasileira. Boa reflexão!Luiz André SoaresGerente doInstituto Souza Cruz
  4. 4. Revolução silenciosa André com o irmão caçula, Igor, 9 anos, e os pais, Leonardo e Cledi: renda familiar complementada com atividades não agrícolas O modelo de produção familiar no campo mudou nas últimas décadas, com a multiplicação de Leonardo Luiz Hackenhaar, 56 anos, e Cledi Te- rezinha, 47, são proprietários de uma área de 7,2 hectares em Linha Santa Emília, no município gaúcho de Venâncio Aires, onde nasceram. O casal criou cinco filhos e por décadas se manteve A família Hackenhaar retrata uma nova reali- dade do campo, caracterizada principalmente pelo com a renda da produção agrícola, que envolve processo de dinamização econômica do meio frutas, verduras, milho, aipim, além de ovos. rural. O chamado “Novo Rural” brasileiro, que Hoje, no entanto, essa realidade mudou. tem produzido inúmeros estudos acadêmicos, en- Como Leonardo está com problemas de saúde, globa outra forma de divisão do trabalho dentro Cledi e os dois filhos mais velhos, André, 27, e do núcleo familiar. Diferentemente de outras épo- Maicom, 25, assumiram o comando da proprie- cas, nem todos os membros de uma família abra- dade, mas a vida no campo não é mais a mesma. çam em tempo integral as atividades agrícolas de “O que se planta aqui em casa não estava mais suas unidades. O modelo anterior deu lugar a dando para o sustento de toda a família. Eu e meu outro, mais sintonizado com as exigências atuais. irmão tivemos que procurar outras alternativas No novo padrão, as chamadas famílias pluria- para complementar a renda”, conta André, que tivas distribuem seus integrantes para novas ati- vidades econômicas, não agrícolas, dentro ou divide seu tempo entre o trabalho de agricultor e fora de seus estabelecimentos. Segundo avaliação o de pedreiro e operador de máquina. Já Maicom de alguns estudiosos do tema, é uma tendência é funcionário de um frigorífico na cidade e ajuda irreversível no Brasil, que começou a partir da na produção agrícola nos finais de semana. década de 1980 e repete o percurso já trilhado “Era um tempo bom aquele”, diz Leonardo. por países desenvolvidos. “Há cerca de 10 anos, ganhávamos dinheiro su- Pode-se dizer que André e Maicon continuam ficiente com o que produzíamos aqui. Agora, agricultores, mas em tempo parcial. Definitiva- está tudo muito diferente. Trabalhamos muito mente, o meio rural respira outros ares e não mais e ganhamos cada vez menos”, compara. mais se limita à condição de pólo das atividades agropecuárias e agroindustriais. Passou a incor-4 Sustentabilidade do Campo
  5. 5. atividades não agrícolas e a complementaridade entre o urbano e o rural André tem dupla jornada porar novas funções, ligadas ao comércio, lazer, em busca de ganho extra: habitação e ecoturismo. divide o tempo entre a Tudo isso é resultado das mudanças recentes na agricultura e a construção civil agricultura familiar e de contiguidade crescente dos mundos urbano e rural. Se antes o setor produtivo era autárquico, com seu próprio mercado de tra- balho e equilíbrio interno, agora se integrou ao res- tante da economia, não podendo ser dissociado dos setores que lhe fornecem insumos e/ou com- pram seus produtos, conforme afirma José Gra- ziano da Silva, representante Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, em “O Novo Rural Brasileiro”, minucioso estudo sobre o tema. Lauro Mattei, professor de Economia da Uni- versidade Federal de Santa Catarina, que partici- pou ativamente dos estudos sobre a nova dinâmica do trabalho rural, explica que a reviravolta come- çou com a implementação de novas tecnologias no campo. O fenômeno poupou mão de obra local e liberou gente do campo para buscar outras formas de subsistência, redefinindo o modelo tradicional Fotos: Jô Nunes do trabalho na agricultura familiar, que vivia só das atividades agropecuárias. “A renda média de um estabelecimento agro- Instituto Souza Cruz 5
  6. 6. Paisagem comum no Vale do Itajaí, em Santa Catarina: pecuário sem pluriatividade é inferior comparada a indústrias instaladas em áreas rurais dos núcleos familiares que combinam atividades agrícolas e não agrícolas”, assinala Mattei. “Como o Brasil tem cinco milhões de estabelecimentos agropecuários, dos quais 4,2 milhões são de agri- cultores familiares, basta imaginar a dimensão des- sas transformações”, acrescenta. Em Santa Catarina, por exemplo, as indústrias têxteis instaladas no Vale do Itajaí, próximas às zonas rurais, absorvem centenas de trabalhadores do campo. Talvez não seja uma grande novidade, se levada em consideração a história da migração Nova realidade Como as atividades agrícolas não geram mais tantos clássica no Brasil, hoje em franco declínio. Durante empregos e renda como antigamente, quem ganha décadas, foi intenso o fluxo de trabalhadores nor- são os setores de prestação de serviços, o comércio e destinos para metrópoles como São Paulo e Rio a indústria, que absorvem os novos contingentes de de Janeiro, atrás de atividades temporárias na cons- trabalhadores rurais. trução civil. Da mesma forma que das lavouras mi- Em linhas gerais, aquilo que pesquisadores com neiras uma leva de agricultores migrava aos razoável consenso chamam de “Novo Rural“ brasi- grandes centros à procura de ocupações urbanas leiro foi facilitado por alguns fatores. Cada vez mais indústrias desembarcam na zona rural, de olho na mi- com prazo de validade. nimização de custos (proximidade da matéria-prima, “À luz da sociologia, o movimento pendular do mão de obra mais barata, menos impostos). Condo- trabalho agrícola e não agrícola é assunto batido”, mínios de luxo são erguidos nessas áreas e atraem as constata Mattei. “No entanto, num ambiente ra- classes médias urbanas. Famílias menos abastadas em refeito de estudos específicos, conseguimos identi- busca de moradias mais em conta engrossam o cin- ficar que o meio rural brasileiro, guardadas as suas turão no entorno. devidas especificidades, passou a ser caracterizado Trata-se de uma equação que intensificou a de- pela dupla fonte de renda e ocupações dos traba- manda por serviços públicos e domésticos, comércios lhadores rurais”, finaliza. de mercadorias e alimentos, construção civil, trans- Não é bem assim Os estudos pilotados por Graziano, estar integrada ao processo de mo- Aquisição de Alimentos (PAA) e a Po- Del Grossi e outros acadêmicos da dernização técnica“, explica. lítica Nacional de Alimentação Escolar Universidade de Campinas (Unicamp) A maioria esmagadora da popu- (Pnae) como iniciativas governamen- são relativizados por Brancolina Fer- lação rural ainda mantém, segundo tais importantes para manter e po- reira, coordenadora de Desenvolvi- ela, vínculo estreito com a terra como tencializar a produção de alimentos mento Rural do Ipea. Ela considera meio de sobrevivência. A pluriativi- baseada na pequena propriedade fa- que as características estruturais do- dade, nesse sentido, seria a expressão miliar. As duas últimas ações, espe- minantes dos tempos coloniais ainda da ausência de acesso à terra em cialmente, estariam funcionando persistem na realidade rural de hoje. qualidade e quantidade suficientes como indutoras de geração de renda “Acho que o conceito carece de para garantir a reprodução do mo- aos pequenos agricultores e assenta- especificação e seu sentido é contro- delo de cultivo familiar. “Se existe um dos. “O PAA beneficiou em 2009 verso”, provoca. “Dados da Pesquisa novo rural, ele é apenas um projeto à cerca de 98 mil pequenos produto- Nacional por Amostra de Domicílio espera de realização, que depende de res, que forneceram alimentos para (Pnad/IBGE) e do Censo Agropecuá- uma ampla reforma agrária para tor- pouco mais de oito milhões de pes- rio apontam a persistência de um nar concreta a transformação das soas em situação de vulnerabilidade velho rural que ainda assegura baixos condições locais”, avalia. alimentar“, conta. níveis de desenvolvimento socioeco- Brancolina cita o Programa Na- Economista e professor da Univer- nômico e a concentração de renda cional de Fortalecimento da Agricul- sidade Federal Fluminense (UFF), Car- no campo, apesar de a agricultura tura Familiar (Pronaf), o Programa de los Guanziroli também questiona o6 Sustentabilidade do Campo
  7. 7. Fotos: Marcelo Martins porte e lazer. Por conta desse processo de diluição das convencionou denominar de “pluriatividade”, con- diferenças, aquele conflito histórico entre o urbano, junto de atividades agrícolas e não agrícolas, dentro como símbolo do novo e da ascensão, e o rural, re- ou fora de seu estabelecimento. presentante do velho e do declínio, parece ter virado Os novos atores, agricultores em tempo parcial, peça de museu. Ao contrário até, o que se observa é não são mais os proletários que tanto incomodavam uma valorização do espaço rural, por meio do apelo os autores marxistas, para quem o acúmulo de tra- ecológico, a cultura country, lazer (pesque e pague, balho fora do núcleo original significava desagrega- por exemplo), turismo e habitação. ção familiar e empobrecimento. Como aponta Graziano e Del Grossi reconhecem que muitas Graziano no estudo, eles trabalham no comércio, ar- dessas atividades não agrícolas sempre existiram, rumam emprego nas indústrias tradicionais e atuam mas aconteciam no “fundo do quintal”, como se fos- no terceiro setor. sem hobbies sem relevância econômica. Com a che- O mais interessante é que, na prática, o Novo Rural gada das novas tecnologias, que alterou a brasileiro tornou-se via de mão dupla. Assim como pro- organização do processo de trabalho, reduziu a fissionais liberais urbanos espreitam novas oportunida- oferta de empregos e levou as famílias a procurarem des de negócios nas atividades agropecuárias, trabalha- outras formas de sobrevivência, tais práticas ganha- dores rurais buscam formas de prestação de serviços ti- ram importância na composição do rendimento fa- picamente urbanas, atuando como secretárias, motoris- miliar. Serviram, inclusive, para disseminar o que se tas de ônibus e contadores, entre outras funções. Segundo Brancolina, o conceito carece de especificação e seu sentido é controversoSidney Murrieta/divulgação Ipea tência de atributos específicos do mesma forma que a renda, o que local, que não se repetem nem se ge- não é verdade”, assinala. neralizam no mundo rural. Em alguns Guanziroli destaca ainda que boa casos, até geram um complemento parte do que se chama de renda não de renda importante, porém, margi- agrícola são empregos fora do esta- nal no conjunto. belecimento, como ocupações do- “Por se tratarem de atividades mésticas, que não representam al- de demanda elástica, não garantem gum dinamismo para a zona rural. preços satisfatórios. Exatamente ao “Não dá para ignorar que a fatia mais conceito de Novo Rural defendido por contrário das funções agrícolas, ine- expressiva da renda tem origem nas alguns de seus colegas. “As atividades lásticas em demanda – as pessoas atividades agrícolas ou agroindus- rurais não agrícolas não têm nada de não podem deixar de comer –, mas triais”, diz. Nesse sentido, para ele, a novo no Brasil. Elas sempre existiram, com preços ascendentes, como melhor estratégia para potencializar desde os tempos da colônia, e sempre vemos agora”, explica. Ele lembra o campo seria dar apoio à agricultura foram marginais na geração de renda que a Pnad não só não capta satis- familiar, à agregação de valor e à in- no mundo rural”, afirma. fatoriamente a renda agrícola, tegração nas cadeias produtivas do Ocupações como artesanato, tu- como a subestima (é declaratória). agronegócio, aliado a investimentos rismo rural e pesque e pague são “Estes estudos baseados na Pnad sociais em educação, saúde e infra- muito ligadas, na visão dele, à exis- acreditam que o emprego evolui da estrutura (terras e hídrica). Instituto Souza Cruz 7
  8. 8. O que há de diferente Novo Rural? no Duas visões acerca do tema, que vem motivando I nicialmente, o termo foi usado para repaginar a falida agricultura no interior do Brasil. As mudanças ocorridas foram tecnicistas. Como José Graziano da Silva e Mauro Eduardo Del Grossi colocam, as novas atividades passaram a integrar cadeias pro- para a pecuária dos países do Norte. dutivas. Ou seja, resultam da agregação de serviços Há acadêmicos que defendem a tese de que relativamente artesanais, porém de alta especiali- não houve a tal revolução no campo, argumen- zação e conteúdo tecnológico, associados a pro- tando que o perfil estrutural dos tempos coloniais dutos animais e vegetais não tradicionalmente ainda sobrevive na realidade rural de hoje. Eles se destinados à alimentação e vestuário. No Nordeste, referem, talvez, à “Revolução Verde” que, de fato, a produção de castanha-de-caju, um serviço arte- não transformou as relações no meio rural. Ao sanal, virou um produto de exportação. Antes, tais contrário, até aumentou a desigualdade social. Isso funções não tinham o devido valor. porque concentrou as terras, expulsou as famílias e Foi um processo bastante acelerado. Com a fez com que muitos trabalhadores rurais traba- abertura política, a partir dos anos 1980, empre- lhassem em condições desfavoráveis, em regime de sas internacionais se instalaram no Brasil e outras escravidão, o que persiste até hoje em diversas ati- surgiram aqui com o intuito de modernizar a pro- vidades, como a de produção de cana-de-açúcar. dução agrícola. O cultivo de grãos, como soja e O “Novo Rural” brasileiro chamou a atenção milho, foi incentivado para gerar divisas destinadas para a existência do modelo da pluriatividade, uma a pagar as dívidas acumuladas durante o regime forma de diversificar as fontes de renda e garantir militar. Hoje, o meio rural está esvaziado. Cin- uma maior sustentabilidade das famílias no quenta e seis por cento da nossa área agrícola pro- campo, sem que estas dependam mais de uma duz soja. E o Brasil, sabemos, exporta os grãos única fonte de subsistência. A diversificação, por JAIME sinal, também é proposta pela agroecologia. FERRÉ MARTÍ Atualmente, a remuneração no campo está vin- culada aos programas assistenciais ou à aposenta- 40 anos, é engenheiro doria. O Governo Lula criou o Ministério de agrônomo e consultor externo Desenvolvimento Agrário para atender a classe da da Associação Científica de agricultura familiar que, ao avançar bastante, asse- Estudos Agrários (Aceg). Foi coordenador técnico gurou o abastecimento da população brasileira geral do projeto Agricultura com alimentos básicos, não garantidos pelo agro- Familiar, Agroecologia negócio. É necessário se criar mecanismos para evi- e Mercado, da Fundação tar que grandes áreas sejam exploradas para Konrad Adenauer, e escreveu os livros Agricultura Familiar, atender o mercado globalizado, o que prejudicaria Arquivo pessoal Agroecologia e Mercado a população brasileira. Realizar uma reforma agrá- e Política Pública ria efetiva e reestruturar o campo e a cidade são para o Semiárido. formas de garantir a autossuficiência.8 Sustentabilidade do Campo
  9. 9. LUCIANO PHILIPPI 41 anos, é engenheiro agrônomo e educador do Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (Cedejor). Coordenou o Fórum Municipal de Desenvolvimento Local em Passos Maia (SC), entre 1995 e 2000, e foi coordenador de um grupo de trabalho sobre o Meio Ambiente em Chapecó (SC), Arquivo pessoal durante o biênio 2003/2004, que fazia parte das discussões em torno do novo Plano Diretor da cidade.calorosos debates entre estudiosos C om as novas atividades rurais não agrícolas e a prática da pluriatividade pelas famílias que resi- eram pluriativas. A sondagem foi realizada pelo Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural das dem no campo, a realidade rural brasileira mu- Encostas da Serra Geral (Cedejor/ESG-SC), uma dou. No chamado “Novo Rural” brasileiro, a organização não governamental instalada no sul do produção agrícola representa apenas uma parte Brasil que, em parceria com o Instituto Souza do trabalho e da renda das famílias rurais. É neste Cruz, implanta o PEJR nessa região. O programa contexto de transformações que nasce o fenô- mescla demandas das juventudes rurais e temas li- meno da pluriatividade, caracterizado pela com- gados ao conceito do “Novo Rural” brasileiro para binação de múltiplas ocupações, agrícolas e não fomentar e sustentar o desenvolvimento rural no agrícolas, assumidas pelos membros de uma ambiente agrário. mesma unidade familiar. Diversos estudos confirmam a importância da Uma série de fatores contribui para o surgi- pluriatividade e da multifuncionalidade, que en- mento de novas funções no espaço rural e a busca cara a agricultura como um estilo de desenvolvi- de outras fontes de rendas. Entre eles, a moder- mento e não mero setor da economia. Em nização da agricultura e dos sistemas agrários conjunto, elevam a renda das unidades familia- convencionais, a mudança de perfil no mercado res, minimizando sua sazonalidade, inibem o de trabalho, a baixa remuneração agrícola, a in- êxodo rural, diversificam a produção e a econo- teriorização das indústrias e o reconhecimento da mia locais, geram trabalho e fortalecem a agri- sociedade para a importância da agricultura fa- cultura familiar. A multifuncionalidade agrícola, miliar. Não é mais verdade que quem mora no por exemplo, tem sido associada à segurança ali- meio rural está ocupado somente com atividades mentar, que contempla desde a qualidade e ori- agropecuárias. A pluriatividade, agora, é uma rea- gem dos produtos à proteção do meio ambiente. lidade irreversível. Os jovens do campo já perceberam que a va- Há um conjunto de ocupações profissionais li- lorização da agricultura familiar pode ser estraté- gadas ao lazer, à prestação de serviços, ao benefi- gica para o desenvolvimento dos territórios ciamento de produtos, ao comércio e à organização rurais. Aproximadamente 100% dos alunos que dos agricultores familiares. São atividades que divi- passaram pelo processo de formação do PEJR de- dem espaço com as tradicionais práticas rurais, cidiram permanecer no local de origem. Cerca de como plantar e colher, criar e vender animais. Em 70% da turma elaborou e executou na prática pesquisa feita com jovens do Programa Empreen- seus projetos de vida em áreas agrícolas, não agrí- dedorismo do Jovem Rural (PEJR), constatou-se colas e pára-agrícolas. Sinal de que os novos tem- que 60% das unidades familiares dos pesquisados pos são bem-vindos. Instituto Souza Cruz 9
  10. 10. RENI DENARDI Delegado federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário no Paraná Daniel Caron O cenário rural brasileiro do século XXI não é mais sinônimo de atraso e de lá emergiu um novo O que Uma das principais diferenças, nesta primeira década do século XXI, é a personagem, o agricultor familiar. Quem afirma é existe de emergência do chamado agricultor Reni Denardi, delegado federal do Ministério do novidade no familiar, um ator que saiu da condi- cenário rural Desenvolvimento Agrário (MDA) no Paraná, em ção de invisibilidade. Na verdade, brasileiro? entrevista exclusiva à Revista Sustentabilidade do aquilo que denominamos de agri- Campo. “Mesmo com desigualdades sociais e re- cultura familiar é um conjunto for- gionais, o meio rural virou um espaço de múltiplas mado por populações rurais bastante finalidades”, destaca. diversificadas. Nesse universo in- cluem-se, entre outros segmentos, Nos últimos anos, censos e pesquisas produzidos mais de 900 mil famílias de assenta- por respeitados institutos já observaram o fenômeno dos (aproximadamente três milhões que transformou o campo. Os dados levantados têm de pessoas), bem como comunida- confirmado a importância social e econômica da agri- des tradicionais de quilombolas, in- cultura familiar. “Em função disso, o Governo Fede- dígenas, extrativistas, pescadores, ral está implementando uma série de políticas voltadas ribeirinhos e varzeteiros. A agricul- para o campo, como universalizar o acesso das po- tura familiar brasileira é formada hoje por mais de 4,3 milhões de es- pulações rurais aos direitos básicos da cidadania em tabelecimentos. As políticas públicas suas diversas áreas”, conta. Nesta entrevista, Denardi começaram a valorizar essa diversi- aborda o “Novo Rural” brasileiro, sua repercussão dade. E já estão em curso ações afir- socioeconômica e a participação do Governo Fede- mativas específicas para atender esses ral nesse contexto de transformações. públicos distintos.10 Sustentabilidade do Campo
  11. 11. Foi outra mudança, consequência Estão sendo construídos novos ar- Aquela desse processo. Essa regra geral co- Quais são ranjos institucionais, muitos deles ideia de meça a mudar, embora ainda existam os novos derivados de uma abordagem ouque o rural significativas desigualdades sociais e arranjos enfoque territorial do desenvolvi-é sinônimo regionais. De fato, verifica-se que em institucionais mento. Fóruns, conselhos e cole- de atraso muitas microrregiões rurais as condi- e as novas giados territoriais nasceram comodeixou de ções de vida melhoraram. Há mais metodologias espaços de discussão, onde partici- existir? cidadania e novas oportunidades. A que pam os governos e também a so- agricultura e o campo brasileiro pas- possibilitam o ciedade civil. Isso favorece a análise sam a ser, cada vez mais, um espaço fortalecimento das potencialidades locais e a valo- de múltiplas finalidades. Há segu- da rização dos recursos latentes. rança alimentar (produção de ali- pluriatividade Assim, o processo de planejamento mentos), mudança da matriz no campo? torna-se mais democrático, de cima energética (produção de energia da para baixo e de baixo para cima, e biomassa) e atividades não agrícolas confere mais qualidade para as po- (como produção de água e serviços líticas públicas. Com sentido seme- ambientais). Essas três agendas con- lhante, estão sendo criados con- temporâneas estão associadas à agri- sórcios públicos de municípios para cultura familiar e ao conceito do enfrentar problemas comuns na desenvolvimento rural que quere- área ambiental (destinação do lixo e mos. A síntese disso é a ideia, a ima- preservação de mananciais) e de in- gem de um Brasil rural formado por fraestrutura (como conservação de gente feliz. estradas), além de agências regio- nais de desenvolvimento. Temos de superar a separação entre o Mudou rural e o urbano como aparece nas Há um grande esforço governa- então estatísticas do IBGE. O ideal é tra- Como o mental para universalizar o acessoo conceito balhar com a noção de um rural am- Governo das populações rurais aos direitos de rural? pliado. Com base em critérios Federal está básicos da cidadania, nas áreas de adotados em países europeus, José se integrando habitação, saúde e saneamento, Eli da Veiga (economista e professor a essa nova educação, segurança alimentar, tra- da USP) considera espaço rural o realidade? balho e previdência social. O go- conjunto de todos os municípios verno vem diversificando também com menos de 50 mil habitantes e os instrumentos de políticas, com densidade populacional de até 80 ha- foco em públicos, temas e objetivos bitantes por quilômetro quadrado. específicos. O MDA e outros mi- nistérios e órgãos federais, por exemplo, têm lançado editais e cha- madas públicas de vários projetos. São programas voltados para mu- lheres, jovens, populações tradicio- A renda média da agricultura familiar brasileira nais, agroindústria, biocombustíveis, artesanato e turismo rural, além de cresceu mais de 30%, quase três vezes mais que a renda produtos da sociobiodiversidade, média do conjunto da população do País” cooperativismo e comercialização. Instituto Souza Cruz 11
  12. 12. RENI DENARDI Exatamente. Outro exemplo é o Instituto Nacional de Colonização e É uma apoio que o Governo Federal vem Reforma Agrária (Incra) divulgou os política que dando a iniciativas de educação no resultados preliminares da Pesquisa procura campo baseadas na Pedagogia da sobre a Qualidade de Vida, Produção englobar Alternância, que promovem a cida- e Renda nos Assentamentos do Bra- todas as dania e o empreendedorismo em di- sil. Essa inédita pesquisa abrangeu vertentes? versas áreas. Ou seja, além da todas as 804.867 famílias assentadas produção agrícola, o governo está entre 1985 e 2008, por meio de valorizando outros aspectos que in- 16.153 entrevistas em 1.164 assen- teressam e são demandados por or- tamentos de todo o País. Um marco ganizações e movimentos sociais do inicial importante na caracterização campo. É importante destacar que das mudanças no rural brasileiro nas essa sintonia entre governo e socie- últimas décadas foi o projeto temá- dade só ocorre porque há bastante tico denominado Projeto Rurbano: diálogo. Os canais de negociação Caracterização do Novo Rural Bra- estão funcionando, o que é muito sileiro, 1981/99, que envolveu du- bom para a democracia. rante anos dezenas de pesquisadores de diversas universidades. Sim. Apesar dos reparos feitos sobre Dados do o recorte entre urbano e rural ado- Primeiramente, um número cres- IBGE ou da Como as cente de ministérios e governos esta- tado pelo IBGE, essas mudanças já Pnad já políticas duais adotou a abordagem territorial aparecem nas pesquisas e censos rea- contemplam o públicas de do desenvolvimento. Essa forma de lizados pelo instituto, casos do Pro- “Novo Rural” enfoque planejamento, que valoriza as inicia- grama Nacional de Alimentação brasileiro? territorial tivas e dinâmicas territoriais e abre Escolar (Pnae), Censo Demográfico atuam no espaço para os atores locais, permite e Censo Agropecuário. A nova reali- cenário desse maior aproximação das políticas pú- dade rural também desponta em pes- “Novo Rural” blicas com as distintas realidades que quisas e análises realizadas pelo Ipea, brasileiro? dão forma à diversidade do campo por universidades e outros órgãos públicos e privados. O Núcleo de Es- brasileiro. Criada em 2003 pelo tudos Agrários e Desenvolvimento MDA, a Secretaria de Desenvolvi- Rural (Nead), do MDA, tem patro- mento Territorial foi precursora de cinado diversos estudos que mostram importantes políticas públicas, esse processo de mudanças em curso como o Programa de Desenvolvi- no meio rural brasileiro. mento Sustentável dos Territórios Rurais (Pronat), que alcançou Por exemplo, a grande importância 2.500 municípios de 164 territó- O que as social e econômica da agricultura fa- rios, no ano passado. Inspirado na pesquisas já miliar, que se tornou visível nas esta- experiência do Pronat, o Governo revelaram? tísticas derivadas do último Censo Federal ousou muito mais em 2008 Agropecuário. O IBGE, com a cola- ao criar o Programa Territórios da boração do MDA, passou a adotar Cidadania, que busca articular conceitos e critérios definidos pela quase 200 ações de duas dezenas de Lei 11.326/2006 (Lei da Agricul- ministérios, em 120 territórios. tura Familiar). No final de 2010, o O fato é que um grande número de jovens não veem no campo suficientes oportunidades para O enfrentamento desse problema passa por mais investimentos rurais em educação, inclusão12 Sustentabilidade do Campo
  13. 13. Denardi: incentivo a iniciativas de educação no campo baseadas na Pedagogia da Alternância Bem, nem tudo são flores e os avan- Que ços não ocorrem de forma homogê- avanços nea em todo o País. No entanto, concretos além de melhorias na articulação das foram políticas públicas federais e de alguns obtidos? Estados, há avanços no fortaleci- mento da gestão social. Já é possível observar a formação de algumas redes sociais de cooperação, bem Daniel Caron como avanços na dinamização eco- nômica em muitos territórios. Como resultado concreto, verifica-se uma significativa redução da pobreza: 5,5 milhões de moradores do campo su- peraram a pobreza nos últimos oito Estudos já realizados evidenciam que anos, o que corresponde a 20% da O êxodo a migração de jovens rurais é um população rural. Nesse período, a rural é um problema complexo e vincula-se, em renda média da agricultura familiar problema parte, à cultura da sucessão familiar. brasileira cresceu mais de 30%, quase grave... O fato é que um grande número de três vezes mais que a renda média do jovens não veem no campo suficien- conjunto da população do País. tes oportunidades para realizar seus projetos de vida. O enfrentamento Existem algumas limitações estrutu- desse problema passa por mais inves- São muitas as rais, como o controle da terra e a má timentos rurais em educação, inclu- dificuldades distribuição de outros ativos, caso da são digital, acesso a meios de e barreiras infraestrutura, financiamento e capa- produção e de vida. Um terceiro enfrentadas? citação técnica. Para romper esses bloco de dificuldades diz respeito às obstáculos é preciso investir em ações carências de empreendedorismo e de reforma agrária, regularização cooperativismo, a despeito de alguns fundiária, crédito fundiário, demar- avanços verificados nos últimos anos. cação de reservas indígenas e reco- Por fim, faltam quadros qualificados nhecimento de terras quilombolas. em grande parte dos pequenos mu- Outra dificuldade é a evasão da ju- nicípios, o que também está ligado a ventude e o consequente envelheci- sua baixa atratividade e à evasão de mento da população rural. Embora jovens talentos. não seja um fenômeno homogêneo em todo o País, os dados mostram Precisamos construir dinâmicas de que, em diversas microrregiões, há Como esses planejamento e preparar pessoas e or- um esvaziamento de jovens, o que gargalos ganizações para que tenham a capa- compromete o futuro da agricultura podem ser cidade de implantar ações adequadas familiar e o desenvolvimento rural superados? e fazê-las funcionar. Precisamos esti- sustentável. Em muitas comunidades mular a formação de alianças, articu- camponesas, é grande a quantidade lações e redes que sejam capazes de de estabelecimentos comandados por dar continuidade aos bons projetos, pessoas idosas e sem sucessor. mesmo quando ocorre a troca do prefeito e a mudança do governo. Enfim, acho que a palavra de ordem deve ser melhorar o planejamento e arealizar seus projetos de vida. gestão dos processos de desenvolvi- mento do imenso e diversificadodigital, acesso a meios de produção e de vida” campo brasileiro. Instituto Souza Cruz 13
  14. 14. Diagnóstico do campo Fotos: arquivo Coopaecia Pesquisadores da Unicamp se debruçaram sobre a realidade rural brasileira e constataram que o seu perfil mudou, tornando-se cada vez mais dinâmico e atrativo Um trabalho de fôlego, que continua até dando análises das ocupações e composi- Cultivo de uvas os dias atuais. Coordenado pelo Instituto ções das rendas. e maçãs orgânicas de Economia da Unicamp, o Projeto Criado e coordenado pelo professor gera subprodutos Rurbano radiografou a nova realidade José Graziano da Silva, o projeto ganhou como doces e sucos: nicho de mercado rural brasileira e constatou mudanças ex- prestígio no âmbito acadêmico e político- conquistado com pressivas. Uma delas, a de que o número institucional no Brasil. Foram mobilizados cuidados que de trabalhadores rurais e famílias dedica- mais de 40 pesquisadores universitários incluem a certificação das exclusivamente às atividades agríco- (25 com título de doutor) de 11 Estados las vem despencando em ritmo veloz, brasileiros e de 20 diferentes instituições. acompanhado por um crescimento no Como resultado, gerou cinco dissertações contingente daqueles que se ocupam de de mestrado e quatro teses de doutorado. funções não agrícolas. Outra se refere à Com a crescente urbanização do meio derrubada de um velho e incômodo rural, que trouxe expressões e conceitos mito: o mundo rural brasileiro não é mais inovadores como pluriatividade e “Novo sinônimo de atraso e o êxodo do campo Rural” brasileiro, é possível afirmar que deixou de ser irreversível. campo e cidade parecem cada vez mais O projeto teve início em 1996. A pri- ambientes iguais, especialmente no que meira fase versou sobre as ocupações dos se refere ao mercado de trabalho. Os es- residentes no meio rural. Na segunda, o tudos, ainda contínuos, apontam que foco foram as famílias rurais, a pluriativi- 30% das 14 milhões de pessoas que for- dade, a composição das rendas agrícolas e mam a população rural do País, não não agrícolas, transferências governa- vivem mais de atividades agrícolas. Nos mentais e previdência rural. Por último, últimos anos, elas ocupam funções para- entre 2001 e 2003, mergulhou-se na ca- lelas e típicas de centros urbanos, relacio- racterização das famílias rurais, aprofun- nadas a lazer, moradia e indústria. No cenário rurbano brasileiro, tanto os profissionais das metrópoles quanto os tra- balhadores do campo não podem se quei- xar. A fusão beneficiou ambos os lados. O morador da cidade fareja negócios no meio rural, como a instalação de empresa de prestação de serviço. Esta, por sua vez, ga- nhará vida por meio da mão de obra local. 30% da população rural brasileira ocupa funções típicas de centros urbanos, relacionadas ao lazer, moradia e indústria.14 Sustentabilidade do Campo
  15. 15. Alternativa ecológicaProdutores rurais da serra gaúcha adotarama cultura orgânica para melhorar a renda,frear o êxodo rural e eliminar o uso de agrotóxicosNas cidades gaúchas de Ipê e Antônio Prado, a pro- cadora de produtos orgânicos Ecocert. A Coopaeciadução ecológica ou orgânica tem proporcionado qua- é um dos membros fundadores também da Redelidade de vida, saúde, satisfação e harmonia com o meio Ecovida de Agroecologia, ação que reúne organiza-ambiente. Cada vez mais consolidada, a chamada ções de assessoria, consumidores e produtores dosagroecologia despontou na década de 1980 e acabou três Estados do Sul do País. O trabalho da coopera-revolucionando o cenário local. Tudo começou tiva anda repercutindo e tem servido de referênciaquando um grupo de agricultores decidiu dar um basta para inúmeros grupos de agricultores familiares e téc-na tendência de empobrecimento do produtor rural, nicos seduzidos pela agricultura ecológica.no êxodo do campo e na contaminação dos recursos Quem ganha são os consumidores. Os alimentosnaturais por agrotóxicos. Uma das primeiras iniciativas cultivados ali são submetidos ao controle de pragasfoi aposentar técnicas ancestrais de cultivo e trabalho e e doenças de forma natural, dispensando o uso desubstituí-las por tecnologias modernas. O passo se- fertilizantes ou agrotóxicos. Esterco e outros mate-guinte foi a formação de cooperativas ecológicas que riais orgânicos são usados para alimentar a terra e aapostaram, com sucesso, no novo e diferenciado nicho convivência das plantas com os insetos é monitoradade mercado – a geração orgânica de itens naturais e de e controlada constantemente, para evitar infestaçõesprodutos processados e industrializados, como sucos e indesejadas. Paralelamente, a cooperativa desenvol-doces. Todos devidamente certificados. veu um trabalho eficiente de industrialização e co- Foi dentro desse contexto favorável que surgiu mercialização – os itens produzidos chegam aoem 1989 a Cooperativa Aecia, a partir das discussões consumidor final sem a ação de intermediários queestimuladas pela Pastoral da Juventude Rural da não pertencem à comunidade. “Nossa região éIgreja Católica de Antônio Prado e pelo Centro de muito próspera e as famílias de um modo geral têmAgricultura Ecológica de Ipê. “Entre 1960 e 1980, uma boa renda”, assinala Bellé. “A produção ecoló-a agricultura moderna propunha um aumento da gica garante não só estabilidade de preços e rendaprodutividade baseada no uso de fertilizantes quími- como induz à harmonia com a natureza”, conclui.cos e pesticidas, padronização de variedades, meca-nização e monoculturas”, conta Gilmar Bellé, Fotos: arquivo Coopaeciacoordenador comercial da entidade. “Mas começa-mos a notar, a partir dos anos 1980, que a tal Revo-lução Verde gerava a degradação do solo, ameaçavacontaminar as pessoas e os animais e que estávamostransferindo renda para os fornecedores de semen-tes e fertilizantes. Tínhamos que dar um freio nisso.” Hoje, a entidade distribui-se por quatro unida-des de produção industrial, devidamente registradas,e segue fielmente os padrões e normas da Secretariada Saúde, do Ministério da Agricultura e da certifi- Bellé: os produtos chegam ao consumidor final sem ação de intermediários Instituto Souza Cruz 15
  16. 16. JOVENS EM AÇÃO Fortes razões Jovens identificam oportunidades “ ntes, achava que o município A Foi assim que ele começou a de- para se manter de Reserva seria pequeno para mim. senhar seu projeto de empreendedo- Agora, não tenho dúvida de que o rismo, exigido para a conclusão do no campo meu futuro está aqui”. As palavras de programa. “Durante o PEJR fiz um Jeferson Martins de Almeida, 19 estudo e percebi que no município anos, refletem um novo olhar sobre havia mercado para a avicultura de a região em que reside no Paraná. postura”, explica. Com a ideia defi- Anos atrás, ao pensar no futuro, ele nida, o jovem iniciou a compra das considerava o campo limitado em aves e a construção do aviário para oportunidades. Hoje, essa percepção 300 animais. mudou: “Depois que ingressei no Atualmente, meses após ter con- Programa Empreendedorismo do cluído o programa, ele continua in- Jovem Rural (PEJR), percebi que vestindo no projeto, que está minha propriedade tinha potenciais incrementando a renda da família. inexplorados e poderia ser mais bem Com 120 aves, ele comercializa os aproveitada”, conta o jovem, que ovos diretamente em quatro estabe- mora com os avós em uma área agrí- lecimentos de Reserva. “Como a ati- cola de meio alqueire. vidade exige pouco tempo, ainda me Ao longo da formação no PEJR, permite trabalhar como diarista na do Instituto Souza Cruz, ele procu- produção de tomate”, completa. rou identificar uma oportunidade de Através da pluriatividade, uma negócio que contemplasse a sua rea- das características do Novo Rural lidade. “Como moro numa comuni- brasileiro, ele fortaleceu ainda mais dade em que a maioria da população suas raízes no campo: “Eu tinha von- sobrevive do tomate, e meu terreno tade de sair daqui, como todo Almeida desenvolveu no agricultável é pequeno, pensei em mundo que entrou no programa. PEJR projeto de avicultura desenvolver uma atividade que aten- Minha intenção era ir para a cidade, de postura que pôs em prática, desse à demanda local e que necessi- apesar de saber que não seria tão com sucesso, na propriedade tasse de pouco espaço para ser bom, mas eu não tinha oportuni- em que vive com os avós implantada”, relata. dade, não tinha opção. Hoje, sei que o campo é meu futuro”, reitera. Fotos: arquivo Instituto Souza Cruz Um fututo, ao que tudo indica, promissor. Almeida planeja cursar fa- culdade de Administração e aumen- tar a produção, chegando às 300 aves, conforme havia programado. O PEJR foi implantado no território Cami- nhos do Tibagi (PR), do qual o município de Reserva faz parte, através de uma parceria entre o Instituto Souza Cruz, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-PR), Fun- dação Terra e as prefeituras locais. 16 Sustentabilidade do Campo
  17. 17. Angélica: experiência no PEJR está mudando a história da família, que passou novamente a acreditar no potencial da propriedade novembro do ano passado, a jovem já havia colocado em prática o pro- jeto que começou a amadurecer no início do programa: Hortaliças Or- gânicas e Panificados. “Optei pelo cultivo de alimentos sem agrotóxi- cos pensando na saúde da minha fa- mília e pelo fato de o nosso solo ser de excelente qualidade para a ativi- dade. Incluí também os panificados porque na região há bastante pro- cura, ainda que as ofertas sejam es- cassas. Claro, somos descendentes de italianos e adoramos pães”, explica. Um passo importante para o de- senvolvimento do projeto foi a sua participação no Programa de Aqui- sição de Alimentos (PAA), do Mi- nistério do Desenvolvimento Agrá- rio. Atualmente, Angélica forneceQ uando decidiu entrar no PEJR,do Instituto Souza Cruz, Angélica para o PAA todo o aipim que pro- duz e comercializa as hortaliças (al- face, tomate e beterraba) para osCavagnóli Geremias alimentava mui- restaurantes da região. A produçãotas dúvidas em relação ao seu futuro de panificados, em fase de captação Fotos: Geovânio Wensprofissional. As incertezas, embora de recursos, exige uma estruturanaturais para uma jovem de 17 anos maior, mas a jovem empreendedoracheia de inquietações e sonhos, ti- já está articulando parcerias com as-nham uma razão especial: a falta de sociações de agricultores para a im-oportunidades em sua região. plementação da agroindústria. Angélica mora no município de “Através do PAA consegui co-Pedras Grandes, no território catari- mercializar o aipim, gerando rendanense das Encostas da Serra Geral. zontes sem precisar abrir mão dos extra para seguir adiante e viabilizarComo muitos dos seus amigos, iden- seus sonhos. “Até então eu me via a agroindústria. Nesse ponto, a ex-tificava apenas um caminho possível sem alternativa, porém, a última coisa periência adquirida no PEJR estápara o sucesso profissional: deixar o que queria era deixar minha casa e o sendo fundamental porque conseguimeio rural em busca de estudo e em- trabalho no campo. Entrar no pro- envolver toda a família. Temos umaprego na cidade. grama me proporcionou a possibili- outra visão de trabalho, com foco na Hoje, um ano após ter ingressado dade de permanecer, de forma digna, gestão, organização e qualidade deno PEJR, implementado naquele ter- transformando a propriedade em vida. Meus pais, que antes não acre-ritório em parceria com o Centro de uma fonte de renda sustentável, com ditavam no potencial da proprie-Desenvolvimento do Jovem Rural qualidade de vida”, comemora. dade, hoje sonham e executam o(Cedejor), ela vislumbra novos hori- Antes de concluir a formação, em projeto comigo”, emociona-se. Instituto Souza Cruz 17
  18. 18. Preparação para a IV Jornada A IV Jornada Nacional do Jovem Rural já tem local e data definidos. O grande encontro da juventude brasileira do campo será em Do- mingos Martins (ES), entre os dias 23 e 26 de agosto próximo. Em reunião realizada no final de fevereiro passado, membros da Rede Jovem Rural estiveram na co- munidade de Pedra Azul, naquele Para Wanzete Krüger, município, e firmaram uma parce- prefeito de Domingos Martins, ria com a prefeitura local para a será uma rica experiência para os realização do evento. participantes da Rede Jovem Rural “Para nós, será um prazer aco- lher tantos jovens de diferentes re- Apoena Medeiros giões do Brasil. A cidade irá re- ceber a Jornada de braços abertos e feliz e a Rede Jovem Rural já tem nosso apoio”, declarou o prefeito Wanzete Krüger. esses jovens descubram um novo ção anfitriã da Jornada. “A região das montanhas capi- campo, próspero, criativo e inova- Promovido pela Rede Jovem xabas irá proporcionar aos partici- dor”, complementou padre Fir- Rural, e capitaneado pelo Instituto pantes uma rica experiência em mino Costa Martins, do Movimen- Souza Cruz, o grande encontro cultura, agroturismo e agricultura to de Educação Promocional do reunirá cerca de 500 participantes familiar, dando insumos para que Espírito Santo (Mepes), organiza- de todo o Brasil. Na Bahia, jovens do PEJR Arquivo Instituto Souza Cruz planejam futuro no campo Os jovens da primeira turma do tas e melhoramento genético na PEJR baiano, implementado na criação de ovinos e caprinos. “Já Região do Sisal em parceria com o comecei a plantar os canteiros, Movimento de Organização Co- cerquei a área e montei uma es- munitária (MOC), já estão se pre- tufa. A comercialização das horta- parando para a reta final do pro- liças está garantida através do grama. Em fase de elaboração de Programa de Aquisição de Ali- projetos, os 30 rapazes e moças mentos (PAA)”, festeja Maria Au- que compõem a turma estão pla- riele Araújo, 19 anos, cujo projeto nejando seu futuro empreende- de quintais orgânicos está bas- dor, por meio de variadas inicia- tante adiantado. “O foco agora é tivas que vão de projetos não organizar a redação, preparar agrícolas, como sorveterias e lan- minha defesa e colocar o quintal houses, à implementação de hor- efetivamente em prática”, finaliza. Maria Auriele participou do PAA e, agora, está projetando quintal orgânico18 Sustentabilidade do Campo
  19. 19. MEU RURALO negócio é aquiS ou Tatiane Faustino da Silva, uma jovem agri-cultora, feminista e técnica em Agroecologia. Tenho21 anos e moro com meus pais e irmãos na comuni-dade ribeirinha de Umburanas, em Afogados da In-gazeira, município localizado no Sertão do Pajeú(PE). Nossa família é grande! Somos três irmãs (sou Fotos: Claudio Gomesa caçula das mulheres) e seis irmãos, e continuamoscrescendo. Atualmente, moram 14 pessoas na pro-priedade, que tem como base a agricultura familiar. Grande parte da nossa alimentação vem da uni-dade familiar, onde produzimos milho, variedades defeijão, quiabo, banana, goiaba e laranja, entre outros empreendedora depois que ingressei em 2008 noitens. Criamos, também, ovinos, caprinos, bovinos e curso de Técnico em Agroecologia, com ênfase naaves em pequenas quantidades. agricultura familiar, do Serviço de Tecnologia Alter- Além de produzir para a subsistência, comercia- nativa (Serta). Atualmente, nossa propriedade está emlizamos os produtos na feira livre do município há processo de conversão para a agricultura orgânica.14 anos. Antes, vendíamos a atravessadores, que fi- Simultaneamente ao trabalho com minha famíliacavam com a maior parte dos lucros. Agora, passa- na propriedade, desenvolvo atividades voluntárias nomos a ser donos do nosso próprio negócio. grupo de mulheres Beija-flor, onde compartilhamos Comecei a enxergar a propriedade com olhar de nossas experiências em diversas áreas. Outros horizontes Outra experiência marcante na minha vida foi participar do III Inter- câmbio da Juventude Rural, no mu- nicípio de Boa Vista do Ramos (AM), em 2010. Eles têm um modo dife- rente de praticar agricultura, pois plantam de um jeito bem natural, com grande diversidade. A produção é totalmente orgâ- nica e, geralmente, também criam liar Rural do município, ligada à As- Essas experiências me transfor- animais, como galinhas e porcos. sociação Regional das Casas Familia- maram em uma sonhadora que Vivem da agricultura familiar e as res Rurais do Amazonas (Arcafar/ nunca vai deixar o campo. Planejo mulheres representam uma grande AM), vem ajudando a transformar a alcançar as quatro seguranças força nas atividades agrícolas e do- realidade local, entendi uma frase do (água, energia, nutrientes e alimen- mésticas. Eu trouxe dessa vivência al- educador André Mello: “Buscamos tos) e espero que a minha família guns princípios importantes para fazer pedagogia e não apenas alter- possa abandonar totalmente a agri- minha vida como, por exemplo, que nância”. Voltei para casa com a cer- cultura dos agrotóxicos. Desejo o limite da terra muitas vezes signi- teza de que a Amazônia é a alma do também, futuramente, cursar facul- fica o respeito ao vizinho e não às planeta. Somos abençoados por tê- dade e contribuir para uma educa- cercas. E, ao ver como a Casa Fami- la em nosso país. ção no campo e para o campo. Instituto Souza Cruz 19
  20. 20. Campo de preservação “Vou transformar a nossa propriedade em uma referência de sustentabilidade.” Através do projeto desenvolvido no Programa Empreendedorismo do Jovem Rural, Luís Roberto Iaceki implantou manejos ecológicos na propriedade da família, em Prudentópolis (PR), contribuindo para a preservação dos recursos naturais. Arquivo Instituto Souza Cruz

×