Seção de HCPA                                                    Revista Bioética                               BIOÉTICA: ...
BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADEsamento de Potter teve como base a obra de Aldo              fosse considerada como filoso...
Revista HCPAcomponentes sempre presentes, assume-se, igualmen-                   Atualmente, discutir apenas a preservação...
BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADEocorra são as seguintes: a existência de uma linguagem        tiva). Essa nova maneira de ...
Revista HCPAor organizador é a informação (22). Esta nova ordem,        Os participantes podem ter estilos de interaçãopor...
BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADE    A BIOÉTICA E A COMPETÊNCIA                                 a definição inicial de Jahr...
Revista HCPA20.   Souza VBA organizador. Participação e                            I. Order out of chaos. Toronto: Bantam;...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Origem e complexidades bio ética

1.465 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.465
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
38
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Origem e complexidades bio ética

  1. 1. Seção de HCPA Revista Bioética BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADE BIOETHICS: ORIGINS AND COMPLEXITY José Roberto Goldim RESUMO A Bioética surge no século 20 como uma proposta de integração do ser humano à natureza. A crescente complexidade das intervenções científicas, especialmente na área da saúde, provocou uma reflexão sobre essas questões. A Bioética, que antes era uma resposta a problemas, amplia a sua abrangência ao refletir pró-ativamente sobre novas situações, utilizando um amplo referencial teórico para dar suporte às suas discussões. Unitermos: Bioética, ética, humanidade, saúde. ABSTRACT Bioethics, which has its origin in the 20th century, proposes the integration of human beings into nature. The increasing complexity of scientific interventions, especially in the health field, has promoted debates on these issues. Bioethics, which used to be a response to problems, widens its scope by proactively pondering about new situations, using a comprehensive theoretical background to support its discussions. Key words: Bioethics, ethics, humanity, health. Doutor em Clínica Médica, Biólogo do Grupo de Pesquisa de Pós-Graduação (GPPG), Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Porto Alegre, RS. Pesquisador responsável, Laboratório de Bioética e Ética na Ciência, Centro de Pesquisas do HCPA, Porto Alegre, RS. Correspondência: Laboratório de Bioética e Ética na Ciência, Centro de Pesquisas do HCPA, Rua Ramiro Barcelos, 2350, CEP 90035-903, Porto Alegre, RS. E-mail: jgoldim@hcpa.ufrgs.br. A ORIGEM DA BIOÉTICA sobrevivência. Na primeira fase, Potter qualificou a Bioética como Ponte (4), no sentido de estabelecer uma Em 1927, em um artigo publicado no periódico interface entre as ciências e as humanidades que garan-alemão Kosmos, Fritz Jahr utilizou pela primeira vez a tiria a possibilidade do futuro.palavra bioética (bio + ethik). Esse autor caracterizou a A Bioética teve uma outra origem paralela em lín-Bioética como sendo o reconhecimento de obrigações gua inglesa. No mesmo ano de 1970, André Hellegerséticas, não apenas com relação ao ser humano, mas para utilizou esse termo para denominar os novos estudos quecom todos os seres vivos (1). Esse texto, encontrado por estavam sendo propostos na área de reprodução huma-Rolf Löther, da Universidade de Humboldt, de Berlim, e na, ao criar o Instituto Kennedy de Ética, então deno-divulgado por Eve Marie Engel, da Universidade de minado de Joseph P and Rose F. Kennedy Institute of .Tübingen, também da Alemanha (2), antecipa o Ethics.surgimento do termo bioética em 47 anos. No final de Posteriormente, no final da década de 1980, Potterseu artigo, Fritz Jahr propõe um “imperativo bioético”: enfatizou a característica interdisciplinar e abrangenterespeita todo ser vivo essencialmente como um fim em da Bioética, denominando-a de global (5). O seu objeti-si mesmo e trata-o, se possível, como tal. vo era restabelecer o foco original da Bioética, incluin- Anteriormente, a criação do termo bioética era do, mas não restringindo, as discussões e reflexões nasatribuída a Van Rensselaer Potter, quando publicou um questões da medicina e da saúde, ampliando as mesmasartigo (3), em 1970, caracterizando-a como a ciência da aos novos desafios ambientais. Vale lembrar que o pen-86 Rev HCPA 2006;26(2) Rev HCPA 2006;26(2):86-92
  2. 2. BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADEsamento de Potter teve como base a obra de Aldo fosse considerada como filosofia primeira, invertendo aLeopold, que criou, na década de 1930, a ética da terra subordinação tradicional à lógica e à ontologia (9).(land ethics) (6). A proposta de Leopold ampliou a dis- Três autores contemporâneos podem auxiliar nacussão feita por Jahr ao incluir, além das plantas e ani- compreensão adequada dessas questões fundamentais.mais, o solo e demais recursos naturais como objeto de Adolfo Sanches Vasques caracterizou a ética como sen-reflexão ética. do a busca de justificativas para verificar a adequação Em 1998, Potter redefiniu a Bioética como sendo ou não das ações humanas (10). Joaquim Clotet afir-uma Bioética profunda (deep bioethics). A influência para mou que a “ética tem por objetivo facilitar a realizaçãouso dessa qualificação foi a ecologia profunda de Arne das pessoas. Que o ser humano chegue a realizar-se a siNess (7). A Bioética profunda é “a nova ciência ética”, mesmo como tal, isto é, como pessoa” (11).que combina humildade, responsabilidade e uma com- Complementando, Robert Veatch dá uma boa defini-petência interdisciplinar, intercultural, que potencializa ção operacional de ética ao propor que ela é “a realiza-o senso de humanidade. ção de uma reflexão disciplinada das intuições morais e A Bioética, dessa forma, nasceu provocando a in- das escolhas morais que as pessoas fazem” (12).clusão das plantas e dos animais na reflexão ética, járealizada para os seres humanos. Posteriormente, foi pro-posta a inclusão do solo e dos diferentes elementos da A BIOÉTICA E A HUMILDADEnatureza, ampliando ainda mais a discussão. A visãointegradora do ser humano com a natureza como um A humildade é uma virtude, ou seja, um traçotodo, em uma abordagem ecológica, foi a perspectiva adequado do caráter de uma pessoa (13). Potter definiumais recente. Assim, a Bioética não pode ser abordada humildade como sendo a conseqüência apropriada quede forma restrita ou simplificada. É importante comen- segue a afirmação “posso estar errado” e exige responsa-tar cada um dos componentes da definição de Bioética bilidade de aprender com as experiências e conhecimen-profunda de Potter – ética, humildade, responsabilida- tos disponíveis (14).de, competência interdisciplinar, competência Durante um longo período da história da humani-intercultural e senso de humanidade – para melhor en- dade, pensou-se que seria possível conhecer a totalida-tender a necessidade de uma aproximação da Bioética de das informações sobre um determinado tema. Ao atin-com a teoria da complexidade. gir esse nível de conhecimento, seria possível conhecer todo o seu passado e também o seu futuro. A essa possi- bilidade, foi dado o nome de “demônio de Laplace”, pois A BIOÉTICA E A ÉTICA quem detivesse todo esse conhecimento tudo poderia prever. Atualmente, a ética passou a fazer parte do dis- Werner Heisemberg, na década de 1930, formu-curso da população, dos meios de comunicação, de pro- lou o princípio da incerteza, demonstrando a impossibi-fissionais de várias áreas, com seu significado nem sem- lidade de conhecer simultaneamente a posição e a velo-pre utilizado de forma correta. Talvez devido ao pouco cidade de uma partícula. Essa impossibilidade de poderconhecimento formal que a maioria das pessoas tem da conhecer tudo provocou, em conseqüência, o “exorcis-ética, muitas não sabem propriamente o que é a ética, mo do demônio de Laplace” (15).qual a sua finalidade e como ela atua. Atualmente, é aceito que o tempo é uma variável Muitas vezes, a palavra ética é utilizada também fundamental em todo e qualquer processo. Ele provocacomo adjetivo, com a finalidade de qualificar uma pes- mudanças, e mais do que isso: associando- o àsoa ou uma instituição como sendo boa, adequada ou indeterminação, os processos não só mudam como po-correta. Esse uso pode ter sido influenciado pela defini- dem mudar a sua própria maneira de mudar.ção de ética proposta por George Edward Moore, de que A inclusão das noções de indeterminação e de mu-ela é “a investigação geral sobre aquilo que é bom” (8). danças provocadas pelo tempo alterou definitivamenteO ideal é sempre utilizá-la na forma adverbial, ou seja, as discussões científicas. Contudo, não houve a esperadaela própria merecendo ser qualificada – eticamente ade- contrapartida de humildade de grande parte dos cientis-quada ou eticamente inadequada –, mas não pressupon- tas e de outros profissionais envolvidos com a geração edo que a ética, no seu sentido substantivo, sempre se aplicação do conhecimento. Hans Jonas, já em 1968, dis-associe ao bom, ao adequado e ao correto. se que “a humildade seria necessária como um antídoto Ricardo Timm de Souza afirmou que a maior re- para a ruidosa arrogância tecnológica atual” (16).volução epistemológica do pensamento ocidental foi a Na Bioética, a humildade é uma característica fun-proposta por Emanuel Lévinas, ao postular que a ética damental. Ao assumir que a incerteza e a mudança são Rev HCPA 2006;26(2) 87
  3. 3. Revista HCPAcomponentes sempre presentes, assume-se, igualmen- Atualmente, discutir apenas a preservação dote, que os resultados das reflexões são sempre passíveis ambiente natural passou a ser uma tarefa difícil e atéde discussão. A humildade permite reconhecer que não mesmo ultrapassada. A diferenciação entre objetos ar-são definitivos nem imutáveis. tificiais e objetos naturais, que pode parecer imediata e sem ambigüidade, na realidade não o é. Essas diferenças não são nem imediatas nem estritamente objetivas (17), A BIOÉTICA E A tamanho o grau da intervenção humana e das inter-re- RESPONSABILIDADE lações existentes. A preservação apenas de ambientes naturais Os conhecimentos e discussões gerados pela intocados por si só os tornaria artificiais, pois, ao protegê-Bioética e pela ecologia contribuíram para ampliar a los, estariam sendo impostas barreiras artificiais de acessonoção de responsabilidade. Durante muito tempo, ela e utilização. As reservas e parques naturais são exem-era associada apenas aos deveres existentes entre seres plos dessa ambigüidade entre o natural e o artificial, entrehumanos contemporâneos e geograficamente próximos. o natural e o naturalizado (Lenoir). Peter Singer desencadeou, no início da década de Na área da saúde, essa questão também está cada1970, um grande debate sobre os direitos dos animais. vez mais presente. Distinguir os processos de ação natu-Fritz Jahr, em 1927, já havia proposto, segundo suas pró- rais do organismo humano dos provocados por inter-prias palavras, um imperativo bioético: “Respeita, em venções externas a ele pode ser difícil e, em determina-princípio, cada ser vivo como uma finalidade em si e das situações, impossível.trata-o como tal, na medida do possível” (1). O próprio As intervenções, quando avaliadas de uma pers-título de seu artigo propunha uma visão da Bioética como pectiva ecológica, deixam de ter apenas uma conotaçãosendo um “panorama sobre as relações éticas dos seres individual, passando a merecer uma discussão com ashumanos para com os animais e as plantas”. A inclusão demais pessoas direta ou indiretamente envolvidas. Adas plantas na discussão bioética é ainda altamente ino- ética da razão comunicativa de Karl-Otto Apel deu umavadora, mesmo nos dias atuais. importante contribuição nesse sentido. Ao levar em con- Em 1948, Aldo Leopold, em seu texto sobre ética ta as conseqüências diretas e indiretas das ações realiza-da terra, fez outra ampliação dessa discussão, quando das e por utilizar o discurso argumentativo exercido porpostulou o direito das gerações futuras a receberem um todos os indivíduos para obter normas consensuais, tor-ambiente preservado (6). Nessa mesma tradição, Hans na-os co-responsáveis por todas as ações (18).Jonas, em 1968, propôs um outro imperativo, com a fi- Hans Jonas, ao propor a ética da responsabilida-nalidade de prevenir possíveis conseqüências das ações de, já havia dito que “nenhuma ética anterior tinha dehumanas: “Nas tuas opções presentes, inclui a futura levar em consideração a condição global da vida huma-integridade do ser humano entre os objetos da tua von- na e o futuro distante ou até mesmo a existência da es-tade” (16). pécie. Com a consciência da extrema vulnerabilidade A expansão dessa discussão sobre direitos e deve- da natureza à intervenção tecnológica do homem, surgeres com a inclusão de todos os seres vivos, tanto con- a ecologia” (19) – ecologia que veio trazer uma nova etemporâneos quanto ainda não existentes, amplia a res- complexa visão da inserção dos seres humanos no con-ponsabilidade e a perspectiva atual da Bioética, como já junto da natureza.haviam antecipado Fritz Jahr e Van Rensselaer Potter. A ecologia profunda, de Arne Ness, que serviu debase para a terceira definição de Bioética de Potter, já A BIOÉTICA E A COMPETÊNCIAhavia rompido com a perspectiva usual da relação dos INTERDISCIPLINARseres humanos com a natureza, no sentido de domíniosobre a mesma – em que o ambiente natural era visto A competência interdisciplinar é, das característi-apenas como um recurso para ser desfrutado, conside- cas citadas na definição de Potter, a que mais apresentarando os demais seres vivos como inferiores – e de centrar confusão e ambigüidade. Várias palavras são utilizadasessas discussões políticas apenas no âmbito nacional. A de forma confusa, como se fossem sinônimos, e à pró-sua proposta visava gerar uma relação harmoniosa com pria palavra interdisciplinaridade têm sido atribuídosa natureza, reconhecendo-a como tendo valor intrínse- diferentes significados.co e buscando o reconhecimento da igualdade entre A interdisciplinaridade, segundo Valdemarina B.as diferentes espécies, e esta perspectiva deveria ser dis- de Azevedo e Souza, só ocorre quando existe interaçãocutida na abrangência de biorregiões, além de reconhe- de pessoas; ela necessita da troca de saberes e opiniões.cer as tradições das minorias (7). As condições necessárias para que a interdisciplinaridade88 Rev HCPA 2006;26(2)
  4. 4. BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADEocorra são as seguintes: a existência de uma linguagem tiva). Essa nova maneira de entender o funcionamentocomum; objetivos comuns; reconhecimento da necessi- dos seres vivos alterou definitivamente a visão dedade de considerar diferenças existentes; domínio dos linearidade e unidirecionalidade das ações (22).conteúdos específicos de cada um dos participantes; e Reconhecer que as interações podem ocorrer deelaboração de uma síntese complementar (20). forma múltipla e que atuam de forma diferenciada nos Essa síntese complementar já era prevista na processos de equilíbrio foi uma das grandes contribui-dialética de Heráclito como produto da oposição entre ções de Jean Piaget. Além da realimentação, que gera aa tese e a antítese. A síntese é uma maneira nova e mais regulação do sistema, Piaget incorporou também a no-complexa de abordar uma mesma questão (21). ção de operação do sistema, baseada na pré-alimenta- Carlos Roberto Cirne-Lima comentou que a tese ção. Ela é uma antecipação de possíveis situações futu-do pensamento pós-moderno é a de que “a razão, una e ras, isto é, uma pré-correção, que ocorre em decorrên-única, morreu, vivam as múltiplas razões com seus cia das experiências prévias do indivíduo (23). A pré-relativismos”. A pós-modernidade, ao negar a existên- alimentação é pró-ativa. Dessa forma, o processo decia de princípios ou leis universais, pode gerar uma frag- controle do sistema ocorre com base na operação (pré-mentação das diferentes visões de mundo. Apesar des- alimentações) e na regulação (realimentações) (24).sas críticas, uma vantagem desse tipo de posicionamento Assumir que o indivíduo se acomoda frente aoé que ele gera, talvez, maior humildade e tolerância, por outro ou que o outro assimila a ação do indivíduo é usu-dar mais atenção aos demais envolvidos (21). al. A inovação de Piaget foi entender dialeticamente Uma perspectiva mais contemporânea permite essa interação. Nessa abordagem, não é o indivíduo nemreconhecer que os pensamentos analítico e dialético não o outro, mas sim o espaço de troca existente entre elessão excludentes. O pensamento analítico traz consigo que possibilita a ocorrência dessas interações. Essa novamaior clareza, mas tem o risco da fragmentação, da perspectiva gerou a necessidade de se entender, tam-compartimentalização de saberes. O pensamento bém, como ocorrem as diferentes formas de equilíbrios,dialético, por outro lado, tem a vantagem de permitir a desequilíbrios e reequilíbrios (25).inclusão da totalidade dos elementos considerados, po- A forma mais clássica de equilíbrio biológico é arém também pode gerar uma postura totalitária (21). da homeostase. Ela foi descrita por Walter D. Cannon A incorporação de conceitos da teoria geral de sis- como sendo um equilíbrio dinâmico de um determi-temas, como os de sistemas fechados e abertos, é funda- nado estado, obtido a partir das interações dos dife-mental para a adequada compreensão da rentes elementos envolvidos (26). A esse equilíbriointerdisciplinaridade necessária à Bioética. Os sistemas de estado, foi acrescido o equilíbrio de processo, de-fechados têm interação apenas entre os seus próprios nominado de homeorrese, que é o responsável pelaelementos. Os sistemas abertos, por sua vez, mantêm manutenção, ao longo do tempo, de diferentesinteração também com elementos externos, trocando homeostases. A homeorrese é o processo dinâmico einformações dentro e fora de seus limites (22). histórico que permite a preservação de uma sucessão Durante muito tempo, a relação profissional-pa- de diferentes eventos. A homeostase é conservadora,ciente, por exemplo, foi considerada como sendo um mantém o seu equilíbrio anterior ao desequilíbriosistema fechado, onde apenas esses dois elementos con- imposto. Já as reequilibrações, com a participação datavam. Com a crescente participação da família, das homeorrese, não retornam às suas condições e equilí-empresas de seguro e de outros profissionais prestadores brios anteriores, senão em alguns casos. Geram, istode serviço, o sistema teve que ser aberto para ser ade- sim, novos e melhores equilíbrios, permitindo a auto-quadamente entendido. organização (25). Outra grande contribuição da teoria dos sistemas As estruturas próximas ao equilíbrio são repetitivasfoi o reconhecimento da existência de relações não-li- e universais, sempre tendo a perspectiva de ir da ordemneares e da realimentação. Um efeito pode ser determi- à desordem. As estruturas distantes do equilíbrio, aonado por mais de uma causa, caracterizando uma rela- contrário, são específicas e únicas, permitindo ir da de-ção convergente ou multicausal. Da mesma forma, uma sordem a uma nova ordem. Essas estruturas que geramúnica causa pode gerar mais de um efeito, recebendo a novas ordens, novos equilíbrios, que se auto-organizam,denominação de relação divergente. A possibilidade de são chamadas de estruturas dissipativas (15).que um efeito ou conseqüência altere a sua própria cau- De acordo com o tetragrama de Edgar Morin (27),sa é a base da realimentação. Assim, a relação causa/ a passagem da ordem para o caos se dá pelo aumento doefeito pode ser invertida, gerando a possibilidade da ocor- número de interações. Por outro lado, quando um siste-rência de um ciclo de ações que podem se estimular (re- ma está em estado caótico, pode surgir um evento oualimentação positiva) ou se inibir (realimentação nega- processo organizador que gere uma nova ordem. O mai- Rev HCPA 2006;26(2) 89
  5. 5. Revista HCPAor organizador é a informação (22). Esta nova ordem, Os participantes podem ter estilos de interaçãopor sua vez, propiciará novas interações, que possibili- colaborativo ou não-colaborativo. As suas interaçõestarão esta alternância de estados de ordem e caos, em podem ser estáticas ou dinâmicas. As ações desempe-grau crescente de complexidade. Morin denominou esta nhadas no jogo podem ser simétricas ou assimétricas.perspectiva entre ordem e desordem de dialógica, pois As movimentações podem ser ordenadas de forma queantes de se oporem de forma excludente, estes estados as decisões sejam seqüenciais ou simultâneas. As in-geram um ao outro sucessivamente. Caso não ocorra formações disponibilizadas podem ser perfeitas ou im-um evento organizador, o sistema se desintegra devido perfeitas, nas decisões seqüenciais ou então completasao estado de caos em que se encontra (28). ou incompletas nas simultâneas. A condição de equilí- Dentro desta perspectiva, um ponto interessante brio do jogo pode basear-se em chances iguais, que éa ser discutido, é a questão de como conciliar mudança denominada de estratégia pura, ou desiguais. Caracte-e permanência em um processo. Demócrito já havia afir- rizando uma estratégia mista (31). Todas estas carac-mado que tudo no universo é fruto do acaso e da neces- terísticas podem ser transpostas às questões avaliadassidade. Jacques Monod retomou este tema e caracteri- pela Bioética.zou o acaso como o elemento gerador das mudanças e a Uma importante questão que não pode ser es-necessidade como sendo a responsável pela coerência quecida é que mesmo havendo a avaliação analíticado processo (17). A necessidade gera coerência no pro- das características de um processo existem dois fato-cesso e não obrigatoriamente antevisão ou antecipação res que sempre influenciam o processo de tomada dede um estado final pré-planejado. decisão, que são o sistema de crenças e os desejos das Todos estes processos e propostas permitiram cri- pessoas envolvidas. Assumir estes dois fatores ampliaar a possibilidade de uma perspectiva realmente em muito a complexidade dos problemas, pois cadapluralista. Nesta visão, a realidade é tida como uma, di- um dos participantes pode ter crenças e desejos pe-versa e transformável, as posições contrárias são possi- culiares e concorrentes. O chamado modelo racionalbilidades de novas sínteses e a mediação de conflitos é para tomada de decisões, proposto por Francisco Ara-feita com participação e negociação efetiva (29). újo Santos incorpora estes dois elementos que podem Nesta nova perspectiva plural de encarar a reali- provocar alterações desde a etapa de percepção dasdade, novas lógicas são possíveis de serem utilizadas, evidências que geram a necessidade de tomar umasendo a Teoria dos Jogos uma delas. A própria Bioética decisão (32).pode utilizar a Teoria dos Jogos na avaliação de proble- Finalizando as questões referentes amas. Nesta Teoria as possibilidades são avaliadas atra- interdisciplinaridade, já estavam presentes desde o iní-vés das alternativas possíveis, das regras estabelecidas, cio das discussões mais sistemáticas sobre a Bioética.dos fatos que já ocorreram e do dever-ser, através das Van Rensselaer Potter, no seu primeiro artigo, publi-estratégias e táticas utilizadas (30). cado em 1970, afirmava que “esta nova ética Segundo Duílio de Ávila Bérni existem várias ca- (Bioética) pode ser chamada de ética interdisciplinar,racterísticas que devem ser avaliadas quando um pro- definindo interdisciplinaridade de uma maneira es-cesso está sendo avaliado utilizando-se a Teoria dos pecial para incluir tanto a ciência como as humani-Jogos. A natureza da escolha é a primeira delas. Deve- dades, mas este termo é rejeitado pois não é auto-se avaliar se os participantes farão uma escolha since- evidente” (3). Mais recentemente, Onora O’Neallra ou uma escolha estratégica. O tipo de jogo, se estra- ressaltou ainda mais esta característica quando defi-tégico ou baseado no acaso, ou de azar, como se diz niu que a “Bioética não é uma disciplina, nem mesmocoloquialmente. A condição de entrada no jogo pode uma nova disciplina; eu duvido se ela será mesmo umaser considerada fraca, quando o participante pode op- disciplina. Ela se tornou um campo de encontro paratar por jogar ou não, ou forte quando existe coerção numerosas disciplinas, discursos e organizações en-impedindo a manifestação de sua vontade. A quanti- volvidas com questões levantadas por questões éti-dade de jogadores e o número de estratégias possíveis cas, legais e sociais trazidas pelos avanços da medici-são duas outras características. A determinação ou na, ciência e biotecnologia” (33).indeterminação na maneira de jogar é importante de Os problemas propostos para reflexão bioética fi-ser caracterizada. A forma de distribuir os recursos cam mais claros quando discutidos dentro de uma pers-advindos do jogo pode assumir três modos básicos: jo- pectiva interdisciplinar. Muitas das ferramentas apre-gos de soma zero, quando um ganha e outro perde obri- sentadas - convergência, divergência, realimentaçãogatoriamente, jogos de soma positiva, quando existe a positiva e negativa, homeostase, homeorrese, processospossibilidade de todos os participantes ganharem, e de tomada de decisão – podem facilitar a compreensãojogos de soma negativa, quando todos podem perder. e auxiliar na busca de possíveis soluções.90 Rev HCPA 2006;26(2)
  6. 6. BIOÉTICA: ORIGENS E COMPLEXIDADE A BIOÉTICA E A COMPETÊNCIA a definição inicial de Jahr, é possível afirmar que a INTERCULTURAL Bioética é uma reflexão compartilhada, complexa e interdisciplinar sobre a adequação das ações que envol- A competência intercultural poderia ter sido in- vem a vida e o viver.cluída na própria questão da interdisciplinaridade, poisé fruto do reconhecimento da humildade e da tolerân-cia entre diferentes grupos e culturas. A Bioética tem REFERÊNCIASque assumir esta perspectiva intercultural de compre-ensão da realidade para poder ser utilizada de forma 1. Jahr F. Bio=Ethik. Eine Umschau über dieconseqüente e abrangente. ethichen Beziehung des Menchen zu Tier und Um dos maiores estudiosos na questão Pflanze. Kosmos 1927;24:2-4.intercultural é Geert Hofstede. Em seus estudos ele con- 2. Engel EM. O desafio das biotécnicas para a ética eseguiu caracterizar cinco pontos básicos que diferenci- a antropologia. Veritas. 2004;50(2):205-28.am ou igualam as culturas nacionais: a relação com a 3. Potter VR. Bioethics: the science of survival.autoridade; a relação do próprio indivíduo com a socie- Perspect Biol Med. 1970;14:127-53.dade; o conceito individual de masculinidade e femini- 4. Potter VR. Bioethics: bridge to the future.lidade; s formas de lidar com conflitos e incertezas e a Englewood Cliffs: Prentice Hall; 1971.perspectiva de longo prazo (34). 5. Potter VR. Global bioethics: building on the Um grande número de populações de diferentes Leopold legacy. East Lensing: Michigan Statepaíses já foi avaliado através destas características obten- University Press; 1988.do-se resultados bastante inovadores. Em todos os países 6. Leopold A. Sand County Almanac and sketchestambém existem peculiaridades culturais regionais que here and there. New York: Oxford; 1989.também devem ser consideradas. O importante é lem- 7. Naess A. The shallow and the deep, long-rangebrar que não existe um só modo de encarar a realidade ecology movements: a summary. Inquiry.que seja considerado correto. A pluralidade deve ser igual- 1973;16:95-100.mente aqui considerada como fundamental, contudo, sem 8. Moore GE. Princípios éticos. São Paulo: Abrilcair num relativismo onde tudo é considerado como váli- Cultural; 1975.do, desde que respaldado por uma cultura local. 9. Souza RT. Razões plurais. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2004. 10. Vasques AS. Ética. 20a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2000. A BIOÉTICA E O SENSO DE 11. Clotet J. Una introducción al tema de la ética. HUMANIDADE Psico. 1986;12(1):84-92. 12. Veatch RM. Medical ethics. 2nd ed. Boston: Jones JB Schneewind descreveu que as interações entre & Bartlett; 2000.seres humanos migraram de um comportamento egoís- 13. Comte-Sponville A. Pequeno tratado das grandesta, onde o outro é utilizado por mim para atingir aos virtudes. São Paulo: Martins Fontes; 1996.meus objetivos, para o altruísmo, quando um indivíduo 14. Potter VR. Script do vídeo (42 minutos) elaboradose doa integralmente ao outro. No dizer de Augusto e apresentado especialmente para o IV CongressoComte, criador do termo, altruísmo é “viver para ou- Mundial de Bioética (4-7 de novembro/1998) emtrem”. Mas existe um estágio posterior onde não há nem Tóquio. Transcrição e tradução por Léo Pessini.o uso nem a doação, mas sim uma troca sincera entre os O Mundo da Saúde. 1998;22(6):370-4.participantes, quando ocorre a solidariedade (35). 15. Prigogine I, Stengers I. Order out of chaos. André Comte-Sponville definiu “Bioética, como Toronto: Bantam; 1984.se diz hoje, não é uma parte da Biologia; é uma parte da 16. Jonas H. Ética, medicina e técnica. Lisboa: Vegaética, é uma parte de nossa responsabilidade simples- Passagens; 1994.mente humana; deveres do ser humano para com outro 17. Monod J. O acaso e a necessidade. Petrópolis:ser humano, e de todos para com a humanidade” (36). Vozes; 1989. Este senso de humanidade é inerente e fundamen- 18. Weber T. Ética e filosofia política: Hegel e otal à Bioética. Pensar Bioética é pensar de forma solidá- formalismo Kantiano. Porto Alegre: EDIPUCRS;ria, é assumir uma postura íntegra frente ao outro e, 1999.conseqüentemente, frente à sociedade e à natureza. 19. Jonas, H. Técnica e responsabilidade: reflexões sobre Com base nestas colocações a respeito da defini- as novas tarefas da Ética. In: Jonas H. Ética, medicinação de Potter para uma Bioética profunda, e retomando e técnica. Lisboa: Vega Passagens; 1994. Pp. 27-62. Rev HCPA 2006;26(2) 91
  7. 7. Revista HCPA20. Souza VBA organizador. Participação e I. Order out of chaos. Toronto: Bantam; 1984. interdisciplinaridade: movimentos de ruptura/ 29. Morin E. A cabeça bem feita. 5a ed Rio de Janeiro: construção. Porto Alegre: EDIPUCRS; 1996. Bertrand-Brasil; 2001.21. Cirne-Lima CR. Dialética para principiantes. São 30. Cirne-Lima C. A herança de Platão. In: Cirne- Leopoldo: UNISINOS; 2003. Lima C, Helfer I, Rohden L. Dialética, caos e22. Bertalanffy L. Teoria geral dos sistemas. 2a ed. complexidade. São Leopoldo: UNISINOS; 2004. Petrópolis: Vozes; 1975. Pp. 72-3.23. Piaget J. Los Procesos de adaptación. Buenos Aires: 31. Bérni DA. Teoria dos jogos. Rio de Janeiro: Nueva Visión; 1977. Reichmann & Affonso; 2004.24. Piaget J. Recherches sur la contradiction. Paris: 32. Santos FA. A malha técnico-científica. Porto PUF; 1974. Alegre: UFRGS; 1998.25. Piaget J. A equilibração das estruturas cognitivas. 33. O’Neall O. Autonomy and trust in bioethics. Rio de Janeiro: Zahar; 1976. Cambridge: Cambridge; 2002.26. Cannon WD. The wisdom of the body. New York: 34. Hofstede G. Cultures and organizations. New York: Norton; 1932. McGraw-Hill; 1997.27. Morin E. La méthode,1: La nature de la nature. 35. Schneewind JB. A invenção da autonomia. São París: Seuil; 1977. Leopoldo: Unisinos; 2001.28. Toffler A. Science and change. In: Prigogine I, Stengers 36. Comte-Sponville A. Bom dia, angústia! São Paulo: Martins Fontes; 1997.92 Rev HCPA 2006;26(2)

×