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Título: Ciência e Espiritualidade: uma análise antropológica das noções de ciência
presentes no Espiritismo Kardecista e na Apometria.1
Alice Mitiko Rocha Hinoshita2
Orientadora: Profª Drª Sandra Stoll
Introdução
A “cura espiritual”, uma prática ritual corrente no campo das religiões mediúnicas,
tem larga demanda social e tem sido objeto de análise de inúmeros estudos antropológicos
(como os de Loyola e Greenfield usados neste trabalho). A prática espírita de cura pode ser
realizada por meio de diferentes técnicas, destacando-se dentre elas: aplicação de “passes”
(procedimento em que uma pessoa impõe as mãos sobre outra transmitindo ‘fluidos
espirituais benéficos’) e cirurgias espirituais (cirurgias sem cortes no corpo físico, pois
atuam no corpo espiritual do paciente. São realizadas a partir de médiuns (intermediários
entre o mundo visível e invisível) que manifestam espíritos de médicos falecidos).
Em meados da década de 60, na cidade de Porto Alegre (RS), um médico de
vinculação religiosa espírita, Dr. Lacerda de Azevedo, criou uma nova técnica denominada
Apometria (do grego ‘apo’= além de ‘metron’= relativo a medida), que permitia o
desdobramento (separação) entre o corpo físico e os corpos espirituais do ser humano
permitindo que uma parte espiritual de pacientes fossem tratadas no mundo espiritual.
Tal técnica se distância, portanto, de práticas espíritas convencionais, que tratam os
pacientes a partir do passe ou pela ação de espíritos a partir de médiuns, sendo que nunca
foi concebido no Espiritismo que uma parte espiritual do paciente fosse levada ao ‘outro
mundo’ para ser tratada.
A Apometria introduz uma nova técnica de cura, bem como atualiza a doutrina
espírita por meio de diálogo estabelecido com a Física Quântica além de elementos de
religiões afro-brasileiras como a Umbanda.
Este artigo se baseia na noção de que o Espiritismo desde Allan Kardec (seu
fundador) na França do século XIX, na sua vinda para o Brasil, passou por um processo de
1
Artigo apresentado no evento Diálogos do Pet em maio de 2010.
2
Aluna do curso de Ciências Sociais na UFPR, bolsista do grupo PET Ciências Sociais.
2
adaptação e reinterpretação segundo as especificidades culturais e históricas brasileiras,
produzindo assim diferentes vertentes criadas não somente a partir de tensões, mas também
relações de continuidade com a nossa realidade local. Segundo Stoll:
“A história do Espiritismo no Brasil tem sido construída de uma perspectiva comparativa e
relacional, que se consolida por dois ângulos: de um lado, o que define o Espiritismo ‘à brasileira’
são diferenças que se observam na sua prática, em contraposição aquelas que vigoraram
inicialmente na França; de outro, singulariza-o a forma como veio a se inserir no campo religioso
local, dialogando mais proximamente como assinala a maioria dos autores, com as religiões de
tradição afro” (2003,pg 57).
Boa parte dos autores enfatiza que no Brasil o Espiritismo que originalmente foi
constituído como ‘ciência, filosofia e religião’ teria sido reduzido ao aspecto
religioso.Segundo Aubrée e Laplantine (1990), a especificidade do espiritismo brasileiro é
a sua ênfase no Evangelho, no jargão ‘Deus, Cristo e Caridade’e a constituição dos centros
espíritas como uma espécie de Igreja. Isto se deve, acreditam os autores, à adaptação do
espiritismo a uma cultura brasileira ‘dos espíritos’, íntima de santos, eguns e orixás, focada
portanto na mediação entre o mundo visível e o mundo invisível.O Espiritismo no Brasil
teria um aspecto mais ‘religioso’ e ‘místico’ em contraposição ao caráter ‘experimental’ e
‘racional’ do espiritismo francês.
Neste trabalho gostaria de enfatizar que, ainda que grande parte das vertentes
espíritas brasileiras tenham um ‘caráter religioso’, há também aquelas que enfatizam o
caráter científico como a Projeciologia e a Conscienciologia3
(que não são trabalhadas neste
artigo) e a Apometria. Também demonstrarei que a relação do Espiritismo com a Umbanda
nem sempre é uma relação que tende ao ‘misticismo’ e à ‘religiosidade’. Se observarmos o
caso da Apometria (que é o foco deste trabalho) veremos também a possibilidade de uma
leitura ‘científica’ acerca da Umbanda.
A seguir abordarei algumas das concepções principais de Allan Kardec (codificador
do Espiritismo) acerca da ciência e apontarei em que medida a noção de ciência da
Apometria se aproxima e se distancia do Espiritismo kardecista e quais as contribuições
desta para a discussão a respeito de algumas características da religiosidade brasileira atual.
3
A Projeciologia e a Conscienciologia foram criadas pelo médico e paranormal Waldo Viera, um ex-espírita,
que hoje desenvolve teorias e práticas distanciadas da moral kardecista, mas cuja noção de ciência se
aproxima bastante de Kardec.
3
Allan Kardec e a Codificação do Espiritismo
Durante o século XIX a expansão do campo científico acirrou o debate com a Igreja
Católica, que desde o século XVIII na Europa, especialmente na França, vinha perdendo
sua hegemonia no campo intelectual: a análise e a razão iluministas se fortalecem com o
desenvolvimento dos conhecimentos científicos do século XIX, propiciando a emancipação
da ciência do domínio da Teologia.
O pensamento “moderno” “excluía a possibilidade de aceitação do sobrenatural em
suas múltiplas formas” (Damazio, 1994, 9). Em vários campos de conhecimento deu-se
uma busca intensa pelas leis da natureza e da sociedade em contraposição às leis divinas.No
século XIX firma-se a idéia de um plano progressivo da história destituído de um plano
divino.
Neste contexto, Allan Kardec, um pedagogo sob influencias de Comte e Rousseau,
codifica a doutrina espírita afirmando a sua cientificidade, na medida em que esta não
resulta de “revelação” mas de uma prática sistemática de observação, experimentação e
análise de fenômenos até então tidos como “sobrenaturais”: a movimentação de objetos
sem intervenção humana – prática conhecida como “mesas girantes”, diversão de salão que
se difundira na França (assim como outros países da Europa e os Eua) no século dezenove.
Esse fenômeno foi reinterpretado por Kardec como “fato natural”, como produto de “uma
causa inteligente”, que ele denominou ‘espírito’ sendo que dois anos depois dos primeiros
contatos sairia publicada a primeira versão d’O Livro dos Espíritos em 1857.
A “naturalização” do “fenômeno espiritual” – seja sua manifestação por meio de
objetos, seja por meio do transe mediúnico – é a preocupação central de Kardec na
constituição de uma ciência que transcendesse os limites “materiais” da ciência “moderna”.
A doutrina postula a existência de um universo dual, um mundo visível habitado
pelos vivos e um mundo invisível habitado por “espíritos”, condição que assumem os
mortos ao abandonarem seu corpo material. Criados por Deus (o Espiritismo possui fortes
influencias do Cristianismo), o “espírito” é concebido como individualidade histórica cuja
trajetória se descreve em termos de um curso progressivo de reencarnações até que se
alcance a perfeição moral.
No entanto a noção de “progresso” no Espiritismo não se resume, porém, à trajetória
do “espírito” em sua individualidade, pois a reencarnação também é pensada como um
4
motor do progresso social, na medida em que os espíritos mais ‘esclarecidos’ tenderiam a
auxiliar no avanço dos espíritos ‘inferiores’. Em uma espécie de filosofia da história,
Kardec vê o advento do Espiritismo como uma nova fase de esclarecimento da
humanidade. Sua missão é ajudar os “espíritos encarnados” (termo pelo qual se designa os
vivos) a entender o sentido de suas existências, melhorando assim o seu modo de vida e
ensinando-os a agir no sentido do progresso moral.
A Apometria e o Espiritismo
Em uma palestra de um centro espírita que utiliza a técnica da Apometria4
, que
assisti certa vez (13/7/09), o palestrante classificou as doenças em dois tipos: doenças
físicas (doenças do corpo) e doenças espirituais (doenças relacionadas a esta e outras
vidas). As primeiras são tratadas pela medicina e as segundas podem ser tratadas por
‘terapias espirituais’ dentre elas a Apometria.
No entanto, ao longo do trabalho de campo, pude notar que as doenças físicas e as
doenças espirituais nesta prática se confundem.Os adeptos consideram que boa parte das
doenças físicas tem origem no espiritual. Segundo Lacerda, “(...) se existe espírito é ele o
doente, o tratamento indicado obviamente deveria ser espiritual; tratar mente e espírito
com terapêutica para o corpo físico constitui prática mais que ilógica, um verdadeiro
absurdo”. E continua: “O Espiritismo mostra que a maioria das enfermidades, psíquicas e
físicas, são do Espírito; exigem, portanto, tratamento espiritual – com técnicas
específicas”. (2007, pg.97).
Em larga medida a explicação dada para os distúrbios espirituais e doenças pelos
apometras, envolve a questão ação do obsessor (‘espírito’ considerado ‘inferior’que age
sobre o indivíduo ou atua em seu lugar com a intenção de prejudica-lo). Daí afirmar que o
doente está ‘obsediado’, condição diagnosticada por variados tipos de sintomas, desde uma
doença física até algum problema de ordem emocional.A Apometria em sua concepção de
homem setenário, constituído de sete corpos (um físico e seis espirituais), concebe a prática
de cura por meio de desdobramentos, ou seja, entende que é possível separar estes corpos e
que a cura do corpo físico/saúde mental envolve ação sobre um dos corpos espirituais. É
4
Este trabalho se baseia na observação, ainda em prosseguimento, de um centro espírita que utiliza a técnica
da Apometria em algumas de suas atividades.O nome do centro e o nome das pessoas envolvidas foram
suprimidos para conservar a privacidade do grupo
5
no “plano espiritual” que a cura se realiza: o obsessor é encaminhado pelas entidades
(espíritos evoluídos, bons) para ‘hospitais’ do ‘outro mundo’.O paciente então, ao ser
liberto do obsessor, produtor de seus distúrbios, é curado.
Em um dos folhetos oferecidos no centro espírita em que realizei a pesquisa de
campo havia os dizeres: “Realizamos trabalhos cuja finalidade é o tratamento e o apoio
espiritual de pessoas que estejam passando por problemas pessoais - baixa auto-estima,
desemprego, doenças etc...Nosso escopo é fornecer meios de equilíbrio psicofísico às
criaturas humanas, possibilitando à criatura sua reativação moral, mental e espiritual”.
“Apoiados na Codificação Kardequiana, professamos um ideal universalista, envolvendo
todos os credos que ajudem o homem na busca da Verdade, sem sectarismo”.
O tratamento espiritual oferecido, a partir de um discurso de um ideal universalista,
pretende atingir pessoas de diferentes crenças.No entanto, a religião que mais
evidentemente incorporam em suas prática é a Umbanda. Trata-se, portanto, de um grupo
sincrético e inovador no cenário espírita e brasileiro.
A relação com a Umbanda aparece nas práticas apométricas principalmente
relacionada à desobsessão. Entidades tipicamente Umbandistas são ‘incorporadas’ pelos
médiuns (intermediários entre o mundo visível e o mundo invisível) nas sessões
mediúnicas, auxiliando nos tratamentos.
Como exemplo descrevo um caso que observei em uma sessão de Trabalhos
Mediúnicos, com a utilização da técnica da Apometria. A paciente ‘E’ veio ao centro com
um problema de depressão grave e dores na garganta. O tratamento foi realizado
‘espiritualmente’(sem a presença física da paciente). Os corpos espirituais de ‘E’ foram
desdobrados, em seguida um destes corpos (uma parte ligada a memórias de vidas
passadas) foi incorporada por um médium do centro. ‘E’ afirmou ter sido abortada em uma
vida passada o que lhe causou grande sofrimento. O tratamento adotado consistiu em
buscar em suas memórias uma vida ‘mais feliz’ com os mesmos pais que a abortaram em
uma vida passada.Encontrada esta “memória feliz”, o dirigente do centro conversando com
‘E’ lhe mostrou a possibilidade de perdoar aqueles que lhe fizeram mal, fazendo com que a
paciente ao perdoar se sentisse melhor. Mas havia mais uma coisa. ‘E’ trazia consigo um
obsessor que a perseguia constantemente. Este obsessor foi incorporado por um médium e
chamado a conversar com o dirigente.O obsessor afirmou que sentia muita raiva e não se
6
importava de fazer mal a ‘E’, pois ela o havia abortado em uma vida passada. O dirigente
tentou buscar uma memória ‘mais feliz’ do obsessor com ‘E’ e mostrar-lhe a necessidade
do perdão. O obsessor cede, a perdoa e retira os objetos deletérios que colocou no corpo
espiritual da paciente, que se acredita, estavam provocando a doença e o mal-estar de
‘E’.Mas no final da mesma sessão, um preto-velho, entidade típica da umbanda,
manifestando-se por meio de um médium, argumentou que ‘E’ está em um círculo vicioso,
com seus antepassados, pais e filhos, um círculo de maldade, que precisa ser quebrado.
Além disso, ‘E’ teria sido iniciada em um passado remoto a uma seita maligna, devendo
resolver isto também.O preto-velho então, auxilia ‘E’ a quebrar com a iniciação e com seu
circulo vicioso de maldade, permitindo a restauração da saúde da paciente.
Podemos destacar quatro pontos importantes que ocorrem em uma sessão mediúnica
com a utilização da técnica da Apometria: o primeiro é que se busca determinar a origem
espiritual da doença, o segundo é que normalmente a origem espiritual da doença está
localizada em uma vida passada, manifestando-se por meio da ação de um obsessor, o
terceiro é que o vínculo entre obsessor/vítima se desfaz por meio do perdão e incentivo à
busca de reforma moral e, o quarto e último, é que as entidades da Umbanda, quando
incorporadas, em geral se responsabilizam por ‘quebrar’ e ‘desfazer’ vínculos, como
magias, iniciações maléficas, obsessões graves que duram várias vidas.
Devemos lembrar que o diálogo moral entre o dirigente e o obsessor é bastante
comum em sessões de desobsessão em casas espíritas tradicionais. Mas no caso destes
vínculos “mais fortes” que precisam ser desfeitos, é na Umbanda que a Apometria vai
encontrar simbolicamente a sua solução.
Embora a Apometria possua vários elementos religiosos, Lacerda, seu fundador, a
define como uma ciência, uma técnica, cujos fundamentos remete à Física Quântica.
Insatisfeito com os rumos que Espiritismo brasileiro tomou, Lacerda busca retomar a ênfase
cientifica que Kardec conferiu ao Espiritismo: “Kardec codificou o Espiritismo, e os
espíritas brasileiros criaram o ‘Kardecismo’, uma prática ou tentativa de vivencia da
doutrina Espírita, permeada de religiosidade, com tendências a se tornar crença ou seita”
(Azevedo, 2007, 20).
De acordo com a Física Quântica, a energia pode se manifestar de diversas formas,
como energia luminosa, química, sonora, nuclear, elétrica etc...e se sustenta que a matéria
7
além de produzir energia também é uma forma de energia condensada. Lacerda defende ser
possível separar os corpos espirituais do ser humano a partir de grandes quantidades de
energia geradas pela mente, podendo com isso tratar de pacientes mais facilmente.
A primeira lei da Apometria é a definição desta técnica de separação dos corpos:
“Primeira lei: Lei do Desdobramento Espiritual (Lei Básica da Apometria): Toda vez que,
em situação experimental ou normal, dermos uma ordem de comando a qualquer criatura
humana, visando à separação de seu corpo espiritual – corpo astral - de seu corpo físico e,
ao mesmo tempo, projetarmos sobre ela pulsos energéticos através de uma contagem lenta,
dar-se-à o desdobramento completo dessa criatura, conservando ela sua consciência.”
(Azevedo, 2007, pg 170).
A Física Quântica também é utilizada pelos apometras para explicar a existência do
mundo espiritual e a constituição do espírito. Para estes, se a energia pode se manifestar de
diversas formas, é possível a existência de diferentes realidades energéticas, desde um
mundo físico formado por matéria densa, até diferentes mundos espirituais formados por
diferentes tipos de matéria.
A noção de espírito de Kardec, segundo Lacerda, é uma noção ‘atrasada’ que ainda
não foi devidamente atualizada pelos espíritas às novas descobertas da física. Kardec
concebia a pessoa como sendo formada por três corpos: o corpo físico, o perispírito
(intermediário entre o corpo físico e o espírito) e o espírito. Já Lacerda complexifica esta
noção sugerindo que existirem sete corpos, cada um deles tendo funções, qualidades e
especificidades próprias, podendo se manifestar não só na realidade física, mas em
diferentes realidades espirituais.
A Apometria faz uma leitura de sua apropriação da Umbanda como sendo científica,
o que é sugerido pelo fato das ações das entidades tipicamente umbandistas serem tidas
como ações racionais, portadoras de conhecimentos científicos.Gostaria aqui de ilustrar
com um exemplo relatado no livro de Lacerda, passagem em que uma entidade da
Umbanda relaciona conhecimentos da física quântica com a espiritualidade:
Em um atendimento, estava sendo tratado um mago negro, e todas as técnicas já haviam
sido aplicadas quando Vovó Joaquina, entidade que se apresenta como preta velha,
incorpora em uma das médiuns:
8
- “Meu zinfio, tu sabe o que é espin?”
Ficamos sem entender direito. Ela fala de “espinho”, é provável. Mas
que espinho? E por quê?
Nem nos passa pela cabeça que Vovó esteja se referindo ao número
quântico spin. Mas ela repete a pergunta, bem calmamente:
- “Tu não estudou isso?”
Admirados, começamos a entender. Respondemos que sim, que
conhecemos perfeitamente o que o que é spin.5
- “Pois então dá uma zinversão no espin dele, que aí tu vai vê o que vai
acuntecê! – diz Vovó. Ao mesmo tempo que espalma a mão direita, em
projeção magnética na direção do mago.(...)
O mago leva tal choque que se desmonta como um
bloco, caindo em completa inconsciência. Disso se aproveita a Vovó Joaquina
que alegremente trata de conduzi-lo para local de recuperação em sua
cidade astral ”.(2007, pg158).
Dessa forma é que a física quântica é utilizada na Apometria servindo para explicar
a constituição espiritual do ser humano e como é produzida a doença espiritual. Ao mesmo
tempo esta serve ao desenvolvimento de uma técnica para o tratamento espiritual, daí
definir-se a Apometria como uma ‘medicina da alma’.
Considerações Finais
A conclusão parcial deste trabalho ainda em desenvolvimento é a de que há um
deslocamento na forma de como a ciência é utilizada em Kardec e como ela é utilizada na
Apometria.No primeiro caso a ciência pautada no Positivismo do século dezenove, é
utilizada para responder a questões amplas como a origem da vida, seu significado, o que
acontece após a morte, o desenvolvimento moral da sociedade e dos homens. No segundo
caso o argumento científico da física quântica é utilizado mais especificamente no
tratamento espiritual e em preocupações como a saúde dos indivíduos.
5
Na física Quântica o spin está relacionado ao átomo, à forma como o elétron gira em seu próprio eixo.
9
A Apometria se pretende uma ciência, mas se insere no contexto religioso brasileiro
de terapias espirituais ao passo que Allan Kardec concebia o espiritismo como uma visão
de mundo, não simplesmente como técnica de cura.
Referencias Bibliográficas
AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La Table, le livre et les esprits. Paris: JC
Lattes, 1990.
AZEVEDO, José Lacerda de. Espírito/ Matéria: Novos horizontes para a
medicina.Porto Alegre: Nova Prova, 2007.
CARVALHO, José Jorge de. “Uma visão antropológica do esoterismo e uma visão
esotérica da antropologia”.In: Série Antropologia nº 406, Brasília, 2006.
CARVALHO, José Jorge de. Características do Fenômeno Religioso na Sociedade
Contemporânea In: BINGEMER, Maria Clara.(org) O Impacto da Modernidade sobre a
Religião.São Paulo: Edições Loyola, 1992.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo invisível: cosmologia,
sistema ritual e noção de pessoa no espiritismo.Rio de Janeiro: Zahar editores, 1983.
DAMAZIO, Sylvia F. Da Elite ao povo: Advento e expansão do espiritismo no Rio de
Janeiro.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
D’ANDREA, Anthony Albert Fischer. O self perfeito e a nova era: individualismo e
reflexividade em religiosidades pós-tradicionais. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
DOYLE, Conan.História do Espiritismo.São Paulo:Editora Pensamento, s/d.
10
GIUMBELLI, Emerson.Para repensar as relações entre “modernidade” e “religião”:
uma história da política religiosa dos Estados.Paper apresentado na reunião anual da
Anpocs, outubro de 1999.
GREENFIELD, Sidney M. Cirurgias do Além: Pesquisas antropológicas sobre curas
espirituais.Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
KARDEC, Allan.O livro dos espíritos (1857).Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira, 2005.
KARDEC, Allan.Obras Póstumas (1890) Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira,
2006.
LEWGOY, Bernardo.Representações de ciência e religião no espiritismo kardecista. In:
Revista de Ciências de Sociais, Porto Alegre, v.6, n.2, p.151-167,jul.-dez. 2006.
LOYOLA, Maria Andréa. Médicos e Curandeiros: conflito social e saúde.São Paulo:
Difel, 1983.
STOLL, Sandra Jacqueline.Espiritismo à Brasileira.São Paulo: Editora da Universidade
de São Paulo; Curitiba: Editora Orion, 2003.

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  • 1. 1 Título: Ciência e Espiritualidade: uma análise antropológica das noções de ciência presentes no Espiritismo Kardecista e na Apometria.1 Alice Mitiko Rocha Hinoshita2 Orientadora: Profª Drª Sandra Stoll Introdução A “cura espiritual”, uma prática ritual corrente no campo das religiões mediúnicas, tem larga demanda social e tem sido objeto de análise de inúmeros estudos antropológicos (como os de Loyola e Greenfield usados neste trabalho). A prática espírita de cura pode ser realizada por meio de diferentes técnicas, destacando-se dentre elas: aplicação de “passes” (procedimento em que uma pessoa impõe as mãos sobre outra transmitindo ‘fluidos espirituais benéficos’) e cirurgias espirituais (cirurgias sem cortes no corpo físico, pois atuam no corpo espiritual do paciente. São realizadas a partir de médiuns (intermediários entre o mundo visível e invisível) que manifestam espíritos de médicos falecidos). Em meados da década de 60, na cidade de Porto Alegre (RS), um médico de vinculação religiosa espírita, Dr. Lacerda de Azevedo, criou uma nova técnica denominada Apometria (do grego ‘apo’= além de ‘metron’= relativo a medida), que permitia o desdobramento (separação) entre o corpo físico e os corpos espirituais do ser humano permitindo que uma parte espiritual de pacientes fossem tratadas no mundo espiritual. Tal técnica se distância, portanto, de práticas espíritas convencionais, que tratam os pacientes a partir do passe ou pela ação de espíritos a partir de médiuns, sendo que nunca foi concebido no Espiritismo que uma parte espiritual do paciente fosse levada ao ‘outro mundo’ para ser tratada. A Apometria introduz uma nova técnica de cura, bem como atualiza a doutrina espírita por meio de diálogo estabelecido com a Física Quântica além de elementos de religiões afro-brasileiras como a Umbanda. Este artigo se baseia na noção de que o Espiritismo desde Allan Kardec (seu fundador) na França do século XIX, na sua vinda para o Brasil, passou por um processo de 1 Artigo apresentado no evento Diálogos do Pet em maio de 2010. 2 Aluna do curso de Ciências Sociais na UFPR, bolsista do grupo PET Ciências Sociais.
  • 2. 2 adaptação e reinterpretação segundo as especificidades culturais e históricas brasileiras, produzindo assim diferentes vertentes criadas não somente a partir de tensões, mas também relações de continuidade com a nossa realidade local. Segundo Stoll: “A história do Espiritismo no Brasil tem sido construída de uma perspectiva comparativa e relacional, que se consolida por dois ângulos: de um lado, o que define o Espiritismo ‘à brasileira’ são diferenças que se observam na sua prática, em contraposição aquelas que vigoraram inicialmente na França; de outro, singulariza-o a forma como veio a se inserir no campo religioso local, dialogando mais proximamente como assinala a maioria dos autores, com as religiões de tradição afro” (2003,pg 57). Boa parte dos autores enfatiza que no Brasil o Espiritismo que originalmente foi constituído como ‘ciência, filosofia e religião’ teria sido reduzido ao aspecto religioso.Segundo Aubrée e Laplantine (1990), a especificidade do espiritismo brasileiro é a sua ênfase no Evangelho, no jargão ‘Deus, Cristo e Caridade’e a constituição dos centros espíritas como uma espécie de Igreja. Isto se deve, acreditam os autores, à adaptação do espiritismo a uma cultura brasileira ‘dos espíritos’, íntima de santos, eguns e orixás, focada portanto na mediação entre o mundo visível e o mundo invisível.O Espiritismo no Brasil teria um aspecto mais ‘religioso’ e ‘místico’ em contraposição ao caráter ‘experimental’ e ‘racional’ do espiritismo francês. Neste trabalho gostaria de enfatizar que, ainda que grande parte das vertentes espíritas brasileiras tenham um ‘caráter religioso’, há também aquelas que enfatizam o caráter científico como a Projeciologia e a Conscienciologia3 (que não são trabalhadas neste artigo) e a Apometria. Também demonstrarei que a relação do Espiritismo com a Umbanda nem sempre é uma relação que tende ao ‘misticismo’ e à ‘religiosidade’. Se observarmos o caso da Apometria (que é o foco deste trabalho) veremos também a possibilidade de uma leitura ‘científica’ acerca da Umbanda. A seguir abordarei algumas das concepções principais de Allan Kardec (codificador do Espiritismo) acerca da ciência e apontarei em que medida a noção de ciência da Apometria se aproxima e se distancia do Espiritismo kardecista e quais as contribuições desta para a discussão a respeito de algumas características da religiosidade brasileira atual. 3 A Projeciologia e a Conscienciologia foram criadas pelo médico e paranormal Waldo Viera, um ex-espírita, que hoje desenvolve teorias e práticas distanciadas da moral kardecista, mas cuja noção de ciência se aproxima bastante de Kardec.
  • 3. 3 Allan Kardec e a Codificação do Espiritismo Durante o século XIX a expansão do campo científico acirrou o debate com a Igreja Católica, que desde o século XVIII na Europa, especialmente na França, vinha perdendo sua hegemonia no campo intelectual: a análise e a razão iluministas se fortalecem com o desenvolvimento dos conhecimentos científicos do século XIX, propiciando a emancipação da ciência do domínio da Teologia. O pensamento “moderno” “excluía a possibilidade de aceitação do sobrenatural em suas múltiplas formas” (Damazio, 1994, 9). Em vários campos de conhecimento deu-se uma busca intensa pelas leis da natureza e da sociedade em contraposição às leis divinas.No século XIX firma-se a idéia de um plano progressivo da história destituído de um plano divino. Neste contexto, Allan Kardec, um pedagogo sob influencias de Comte e Rousseau, codifica a doutrina espírita afirmando a sua cientificidade, na medida em que esta não resulta de “revelação” mas de uma prática sistemática de observação, experimentação e análise de fenômenos até então tidos como “sobrenaturais”: a movimentação de objetos sem intervenção humana – prática conhecida como “mesas girantes”, diversão de salão que se difundira na França (assim como outros países da Europa e os Eua) no século dezenove. Esse fenômeno foi reinterpretado por Kardec como “fato natural”, como produto de “uma causa inteligente”, que ele denominou ‘espírito’ sendo que dois anos depois dos primeiros contatos sairia publicada a primeira versão d’O Livro dos Espíritos em 1857. A “naturalização” do “fenômeno espiritual” – seja sua manifestação por meio de objetos, seja por meio do transe mediúnico – é a preocupação central de Kardec na constituição de uma ciência que transcendesse os limites “materiais” da ciência “moderna”. A doutrina postula a existência de um universo dual, um mundo visível habitado pelos vivos e um mundo invisível habitado por “espíritos”, condição que assumem os mortos ao abandonarem seu corpo material. Criados por Deus (o Espiritismo possui fortes influencias do Cristianismo), o “espírito” é concebido como individualidade histórica cuja trajetória se descreve em termos de um curso progressivo de reencarnações até que se alcance a perfeição moral. No entanto a noção de “progresso” no Espiritismo não se resume, porém, à trajetória do “espírito” em sua individualidade, pois a reencarnação também é pensada como um
  • 4. 4 motor do progresso social, na medida em que os espíritos mais ‘esclarecidos’ tenderiam a auxiliar no avanço dos espíritos ‘inferiores’. Em uma espécie de filosofia da história, Kardec vê o advento do Espiritismo como uma nova fase de esclarecimento da humanidade. Sua missão é ajudar os “espíritos encarnados” (termo pelo qual se designa os vivos) a entender o sentido de suas existências, melhorando assim o seu modo de vida e ensinando-os a agir no sentido do progresso moral. A Apometria e o Espiritismo Em uma palestra de um centro espírita que utiliza a técnica da Apometria4 , que assisti certa vez (13/7/09), o palestrante classificou as doenças em dois tipos: doenças físicas (doenças do corpo) e doenças espirituais (doenças relacionadas a esta e outras vidas). As primeiras são tratadas pela medicina e as segundas podem ser tratadas por ‘terapias espirituais’ dentre elas a Apometria. No entanto, ao longo do trabalho de campo, pude notar que as doenças físicas e as doenças espirituais nesta prática se confundem.Os adeptos consideram que boa parte das doenças físicas tem origem no espiritual. Segundo Lacerda, “(...) se existe espírito é ele o doente, o tratamento indicado obviamente deveria ser espiritual; tratar mente e espírito com terapêutica para o corpo físico constitui prática mais que ilógica, um verdadeiro absurdo”. E continua: “O Espiritismo mostra que a maioria das enfermidades, psíquicas e físicas, são do Espírito; exigem, portanto, tratamento espiritual – com técnicas específicas”. (2007, pg.97). Em larga medida a explicação dada para os distúrbios espirituais e doenças pelos apometras, envolve a questão ação do obsessor (‘espírito’ considerado ‘inferior’que age sobre o indivíduo ou atua em seu lugar com a intenção de prejudica-lo). Daí afirmar que o doente está ‘obsediado’, condição diagnosticada por variados tipos de sintomas, desde uma doença física até algum problema de ordem emocional.A Apometria em sua concepção de homem setenário, constituído de sete corpos (um físico e seis espirituais), concebe a prática de cura por meio de desdobramentos, ou seja, entende que é possível separar estes corpos e que a cura do corpo físico/saúde mental envolve ação sobre um dos corpos espirituais. É 4 Este trabalho se baseia na observação, ainda em prosseguimento, de um centro espírita que utiliza a técnica da Apometria em algumas de suas atividades.O nome do centro e o nome das pessoas envolvidas foram suprimidos para conservar a privacidade do grupo
  • 5. 5 no “plano espiritual” que a cura se realiza: o obsessor é encaminhado pelas entidades (espíritos evoluídos, bons) para ‘hospitais’ do ‘outro mundo’.O paciente então, ao ser liberto do obsessor, produtor de seus distúrbios, é curado. Em um dos folhetos oferecidos no centro espírita em que realizei a pesquisa de campo havia os dizeres: “Realizamos trabalhos cuja finalidade é o tratamento e o apoio espiritual de pessoas que estejam passando por problemas pessoais - baixa auto-estima, desemprego, doenças etc...Nosso escopo é fornecer meios de equilíbrio psicofísico às criaturas humanas, possibilitando à criatura sua reativação moral, mental e espiritual”. “Apoiados na Codificação Kardequiana, professamos um ideal universalista, envolvendo todos os credos que ajudem o homem na busca da Verdade, sem sectarismo”. O tratamento espiritual oferecido, a partir de um discurso de um ideal universalista, pretende atingir pessoas de diferentes crenças.No entanto, a religião que mais evidentemente incorporam em suas prática é a Umbanda. Trata-se, portanto, de um grupo sincrético e inovador no cenário espírita e brasileiro. A relação com a Umbanda aparece nas práticas apométricas principalmente relacionada à desobsessão. Entidades tipicamente Umbandistas são ‘incorporadas’ pelos médiuns (intermediários entre o mundo visível e o mundo invisível) nas sessões mediúnicas, auxiliando nos tratamentos. Como exemplo descrevo um caso que observei em uma sessão de Trabalhos Mediúnicos, com a utilização da técnica da Apometria. A paciente ‘E’ veio ao centro com um problema de depressão grave e dores na garganta. O tratamento foi realizado ‘espiritualmente’(sem a presença física da paciente). Os corpos espirituais de ‘E’ foram desdobrados, em seguida um destes corpos (uma parte ligada a memórias de vidas passadas) foi incorporada por um médium do centro. ‘E’ afirmou ter sido abortada em uma vida passada o que lhe causou grande sofrimento. O tratamento adotado consistiu em buscar em suas memórias uma vida ‘mais feliz’ com os mesmos pais que a abortaram em uma vida passada.Encontrada esta “memória feliz”, o dirigente do centro conversando com ‘E’ lhe mostrou a possibilidade de perdoar aqueles que lhe fizeram mal, fazendo com que a paciente ao perdoar se sentisse melhor. Mas havia mais uma coisa. ‘E’ trazia consigo um obsessor que a perseguia constantemente. Este obsessor foi incorporado por um médium e chamado a conversar com o dirigente.O obsessor afirmou que sentia muita raiva e não se
  • 6. 6 importava de fazer mal a ‘E’, pois ela o havia abortado em uma vida passada. O dirigente tentou buscar uma memória ‘mais feliz’ do obsessor com ‘E’ e mostrar-lhe a necessidade do perdão. O obsessor cede, a perdoa e retira os objetos deletérios que colocou no corpo espiritual da paciente, que se acredita, estavam provocando a doença e o mal-estar de ‘E’.Mas no final da mesma sessão, um preto-velho, entidade típica da umbanda, manifestando-se por meio de um médium, argumentou que ‘E’ está em um círculo vicioso, com seus antepassados, pais e filhos, um círculo de maldade, que precisa ser quebrado. Além disso, ‘E’ teria sido iniciada em um passado remoto a uma seita maligna, devendo resolver isto também.O preto-velho então, auxilia ‘E’ a quebrar com a iniciação e com seu circulo vicioso de maldade, permitindo a restauração da saúde da paciente. Podemos destacar quatro pontos importantes que ocorrem em uma sessão mediúnica com a utilização da técnica da Apometria: o primeiro é que se busca determinar a origem espiritual da doença, o segundo é que normalmente a origem espiritual da doença está localizada em uma vida passada, manifestando-se por meio da ação de um obsessor, o terceiro é que o vínculo entre obsessor/vítima se desfaz por meio do perdão e incentivo à busca de reforma moral e, o quarto e último, é que as entidades da Umbanda, quando incorporadas, em geral se responsabilizam por ‘quebrar’ e ‘desfazer’ vínculos, como magias, iniciações maléficas, obsessões graves que duram várias vidas. Devemos lembrar que o diálogo moral entre o dirigente e o obsessor é bastante comum em sessões de desobsessão em casas espíritas tradicionais. Mas no caso destes vínculos “mais fortes” que precisam ser desfeitos, é na Umbanda que a Apometria vai encontrar simbolicamente a sua solução. Embora a Apometria possua vários elementos religiosos, Lacerda, seu fundador, a define como uma ciência, uma técnica, cujos fundamentos remete à Física Quântica. Insatisfeito com os rumos que Espiritismo brasileiro tomou, Lacerda busca retomar a ênfase cientifica que Kardec conferiu ao Espiritismo: “Kardec codificou o Espiritismo, e os espíritas brasileiros criaram o ‘Kardecismo’, uma prática ou tentativa de vivencia da doutrina Espírita, permeada de religiosidade, com tendências a se tornar crença ou seita” (Azevedo, 2007, 20). De acordo com a Física Quântica, a energia pode se manifestar de diversas formas, como energia luminosa, química, sonora, nuclear, elétrica etc...e se sustenta que a matéria
  • 7. 7 além de produzir energia também é uma forma de energia condensada. Lacerda defende ser possível separar os corpos espirituais do ser humano a partir de grandes quantidades de energia geradas pela mente, podendo com isso tratar de pacientes mais facilmente. A primeira lei da Apometria é a definição desta técnica de separação dos corpos: “Primeira lei: Lei do Desdobramento Espiritual (Lei Básica da Apometria): Toda vez que, em situação experimental ou normal, dermos uma ordem de comando a qualquer criatura humana, visando à separação de seu corpo espiritual – corpo astral - de seu corpo físico e, ao mesmo tempo, projetarmos sobre ela pulsos energéticos através de uma contagem lenta, dar-se-à o desdobramento completo dessa criatura, conservando ela sua consciência.” (Azevedo, 2007, pg 170). A Física Quântica também é utilizada pelos apometras para explicar a existência do mundo espiritual e a constituição do espírito. Para estes, se a energia pode se manifestar de diversas formas, é possível a existência de diferentes realidades energéticas, desde um mundo físico formado por matéria densa, até diferentes mundos espirituais formados por diferentes tipos de matéria. A noção de espírito de Kardec, segundo Lacerda, é uma noção ‘atrasada’ que ainda não foi devidamente atualizada pelos espíritas às novas descobertas da física. Kardec concebia a pessoa como sendo formada por três corpos: o corpo físico, o perispírito (intermediário entre o corpo físico e o espírito) e o espírito. Já Lacerda complexifica esta noção sugerindo que existirem sete corpos, cada um deles tendo funções, qualidades e especificidades próprias, podendo se manifestar não só na realidade física, mas em diferentes realidades espirituais. A Apometria faz uma leitura de sua apropriação da Umbanda como sendo científica, o que é sugerido pelo fato das ações das entidades tipicamente umbandistas serem tidas como ações racionais, portadoras de conhecimentos científicos.Gostaria aqui de ilustrar com um exemplo relatado no livro de Lacerda, passagem em que uma entidade da Umbanda relaciona conhecimentos da física quântica com a espiritualidade: Em um atendimento, estava sendo tratado um mago negro, e todas as técnicas já haviam sido aplicadas quando Vovó Joaquina, entidade que se apresenta como preta velha, incorpora em uma das médiuns:
  • 8. 8 - “Meu zinfio, tu sabe o que é espin?” Ficamos sem entender direito. Ela fala de “espinho”, é provável. Mas que espinho? E por quê? Nem nos passa pela cabeça que Vovó esteja se referindo ao número quântico spin. Mas ela repete a pergunta, bem calmamente: - “Tu não estudou isso?” Admirados, começamos a entender. Respondemos que sim, que conhecemos perfeitamente o que o que é spin.5 - “Pois então dá uma zinversão no espin dele, que aí tu vai vê o que vai acuntecê! – diz Vovó. Ao mesmo tempo que espalma a mão direita, em projeção magnética na direção do mago.(...) O mago leva tal choque que se desmonta como um bloco, caindo em completa inconsciência. Disso se aproveita a Vovó Joaquina que alegremente trata de conduzi-lo para local de recuperação em sua cidade astral ”.(2007, pg158). Dessa forma é que a física quântica é utilizada na Apometria servindo para explicar a constituição espiritual do ser humano e como é produzida a doença espiritual. Ao mesmo tempo esta serve ao desenvolvimento de uma técnica para o tratamento espiritual, daí definir-se a Apometria como uma ‘medicina da alma’. Considerações Finais A conclusão parcial deste trabalho ainda em desenvolvimento é a de que há um deslocamento na forma de como a ciência é utilizada em Kardec e como ela é utilizada na Apometria.No primeiro caso a ciência pautada no Positivismo do século dezenove, é utilizada para responder a questões amplas como a origem da vida, seu significado, o que acontece após a morte, o desenvolvimento moral da sociedade e dos homens. No segundo caso o argumento científico da física quântica é utilizado mais especificamente no tratamento espiritual e em preocupações como a saúde dos indivíduos. 5 Na física Quântica o spin está relacionado ao átomo, à forma como o elétron gira em seu próprio eixo.
  • 9. 9 A Apometria se pretende uma ciência, mas se insere no contexto religioso brasileiro de terapias espirituais ao passo que Allan Kardec concebia o espiritismo como uma visão de mundo, não simplesmente como técnica de cura. Referencias Bibliográficas AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La Table, le livre et les esprits. Paris: JC Lattes, 1990. AZEVEDO, José Lacerda de. Espírito/ Matéria: Novos horizontes para a medicina.Porto Alegre: Nova Prova, 2007. CARVALHO, José Jorge de. “Uma visão antropológica do esoterismo e uma visão esotérica da antropologia”.In: Série Antropologia nº 406, Brasília, 2006. CARVALHO, José Jorge de. Características do Fenômeno Religioso na Sociedade Contemporânea In: BINGEMER, Maria Clara.(org) O Impacto da Modernidade sobre a Religião.São Paulo: Edições Loyola, 1992. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo invisível: cosmologia, sistema ritual e noção de pessoa no espiritismo.Rio de Janeiro: Zahar editores, 1983. DAMAZIO, Sylvia F. Da Elite ao povo: Advento e expansão do espiritismo no Rio de Janeiro.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. D’ANDREA, Anthony Albert Fischer. O self perfeito e a nova era: individualismo e reflexividade em religiosidades pós-tradicionais. São Paulo: Edições Loyola, 2000. DOYLE, Conan.História do Espiritismo.São Paulo:Editora Pensamento, s/d.
  • 10. 10 GIUMBELLI, Emerson.Para repensar as relações entre “modernidade” e “religião”: uma história da política religiosa dos Estados.Paper apresentado na reunião anual da Anpocs, outubro de 1999. GREENFIELD, Sidney M. Cirurgias do Além: Pesquisas antropológicas sobre curas espirituais.Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. KARDEC, Allan.O livro dos espíritos (1857).Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005. KARDEC, Allan.Obras Póstumas (1890) Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006. LEWGOY, Bernardo.Representações de ciência e religião no espiritismo kardecista. In: Revista de Ciências de Sociais, Porto Alegre, v.6, n.2, p.151-167,jul.-dez. 2006. LOYOLA, Maria Andréa. Médicos e Curandeiros: conflito social e saúde.São Paulo: Difel, 1983. STOLL, Sandra Jacqueline.Espiritismo à Brasileira.São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Curitiba: Editora Orion, 2003.