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  1. 1. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras Adriana Piscitelli Doutora em Ciências Sociais - Unicamp Pesquisadora do Pagu - Unicamp adriana.piscitelli@pq.cnpq.brResumo Neste texto apresento alguns comentários sobre o surgimento de categorias que alu- dem à multiplicidade de diferenciações que, articulando-se a gênero, permeiam o so- cial. São as categorias de articulação e/ou as interseccionalidades (intersectionalities). Analiso o conteúdo atribuído a esses conceitos e considero como eles contribuem para analisar uma problemática relevante no Brasil contemporâneo: a feminização da mi- gração internacional. Na primeira parte do artigo, situo a emergência desses conceitos no marco da história do pensamento feminista. Na segunda parte, considero como suas utilizações adquirem conotações distintas no que se refere à conceitualização das diferenças, das maneiras como o poder opera e das margens de agência (agency) con- cedidos aos sujeitos em distintas abordagens teóricas. Finalmente, na terceira parte, refl ito sobre esses conteúdos levando em conta aspectos vinculados à integração de migrantes brasileiras no mercado global de trabalho e no mercado matrimonial. Palavras-chave: interseccionalidades; gênero; feminismo; migração; mercado glo- bal de trabalho; mercado matrimonial. Introdução N este texto trato de conceitos que estão adquirindo centrali- dade no debate feminista. O pensamento feminista, expressão de idéias que resultam da interação entre desenvolvimentos teóricos e prá- ticas políticas, está longe de constituir um todo unificado. Na história desse pensamento, algumas categorias ou conceitos foram particular- mente relevantes em momentos específicos. Nas diferentes perspectivas que o integram, conceitos elaborados em certas épocas têm persistido ao longo do tempo. Entretanto, é possível aludir a momentos, caracte- rizados pela relevância concedida a algumas conceitualizações. No debate internacional, o final da década de 1990 está marcado pela emergência de categorias que aludem à multiplicidade de diferen- ciações que, articulando-se a gênero, permeiam o social. São as catego- rias de articulação e as interseccionalidades (intersectionalities). Algumas autoras optam por um desses conceitos (McKlintock, 1995; Crenshaw, 2002). Outras utilizam alternativamente ambos (Brah, 2006). Na dé- cada de 2000, a utilização dessas categorias está amplamente difundida. Contudo, assim como aconteceu com o conceito de gênero, essas cate- gorias adquirem conteúdos diferentes segundo as abordagens teóricas das autoras que com elas trabalham. Nesse texto apresento alguns comentários sobre o surgimento e o conteúdo atribuído a esses conceitos – categorias de articulação e in- Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008. p. 263 a 274
  2. 2. 264 Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008terseccionalidades – e considero que algumas de suas óricas feministas explicavam a situação de subordinaçãovertentes contribuem para analisar uma problemática das mulheres utilizando simultaneamente ambos con-relevante no Brasil contemporâneo: a feminização da ceitos. Vale lembrar que, embora o Patriarcado sempremigração internacional. Na primeira parte do artigo, seja considerado como sistema de dominação masculi-situo a emergência desses conceitos no marco da histó- na, há diferenças entre as maneiras de concebê-lo emria do pensamento feminista. Depois considero como correntes feministas radicais e socialistas. Às primeirassuas utilizações adquirem conotações distintas no que atribui-se a disseminação da idéia de Patriarcado comose refere à conceitualização das diferenças, das maneiras sistemas de opressão presentes ao longo do tempo ecomo o poder opera e das margens de agência (agency) mediante as culturas, implicando que, universalmente,concedidos aos sujeitos em distintas abordagens teóri- as mulheres compartilham uma realidade separada doscas. Finalmente, reflito sobre esses conteúdos levando homens. Nas correntes socialistas, o patriarcado adqui-em conta aspectos vinculados à integração de migrantes re uma dimensão histórica (variando no tempo) e umabrasileiras no mercado global de trabalho. base material, intimamente ligado aos modos de pro- dução e reprodução – embora sua existência em modos de produção muito diferentes evoque os pressupostos radicais sobre a dominação masculina transhistóricaDebate feminista, gênero, (Heinen, 2000; Grant, 1993; Mohanty, 1991).diferenças e poder Diversas autoras, porém, passaram a questionar o caráter transhistórico e/ou a fi xidez desse conceito (Apfelbaum, 2000). Elas se perguntaram seriamente Para situar a emergência dessas categorias é im- em que consistia a dominação masculina, como seportante pensar em um momento, no final da década media? Seria possível pensar essa dominação comode 1980. É o grande momento em que várias autoras, universal? Seria possível considerar como equivalen-trabalhando no âmbito de diferentes tradições discipli- tes aspectos tais como o lugar das mulheres na divisãonares, publicaram textos críticos sobre gênero que se sexual do trabalho, sua desvalorização nos mitos ou otornaram referências clássicas nas discussões contempo- controle das mulheres mediante um estupro coletivo?râneas. Refiro-me a Scott (1988) entre as historiadoras, (Rubin, 1975; Reiter, 1975).a Strathern (1988) na antropologia, a Haraway (1991) Nos escritos críticos de finais da década de 1980na história da ciência, a Butler (1990), na filosofia. Al- há sérias problematizações a noções correntes no pen-gumas dessas autoras esperavam, valendo-se do traba- samento feminista sobre as operações do poder, parti-lho com gênero, produzir deslocamentos nos paradig- cularmente à universalização do quadro ideológico domas disciplinares no marco dos quais trabalhavam. poder e das relações de poder presentes no paradigma Por que textos críticos? Porque essas obras ques- ocidental das relações de gênero. Algumas antropó-tionaram os pressupostos embutidos nas primeiras for- logas chamaram a atenção para o fato de que a com-mulações de gênero, as perspectivas sobre poder que preensão do gênero ocidental, incluindo o pensamentoestavam informando várias linhas de análises feminis- feministas, está ligada não apenas às relações entre ostas e, também, a centralidade concedida ao gênero em sexos, mas a idéias mais gerais sobre como a cultura étermos das forças sociais que oprimem às pessoas. diferente de e superior à natureza. No centro desse pa- A partir da segunda metade da década de 1970, radigma haveria uma teoria do poder e o político, queo conceito de gênero, pensado como construção cul- inclui noções muito específicas sobre relações de do-tural e arbitrária, variável, de aspectos vinculados ao minação e subordinação, exploração, coerção, controlesexo biológico, tido como natural é imutável, tinha se e desigualdade (Overing, 1986; Strathern, 1988). Es-difundido de maneira extraordinária. Esse conceito, sas autoras contestaram a universalidade da hierarquiapensado no marco da distinção entre sexo e gênero, e da subordinação feminina com base em leituras deera considerado como um avanço em relação à ca- sistemas nativos de moralidade e de concepções nativastegoria mulher (Piscitelli, 2002). Os escritos críticos do poder e o político. De acordo com elas, a dominân-de finais da década de 1980, porém, questionaram os cia masculina, nos contextos nos quais ela se apresenta,pressupostos presentes na distinção sexo/gênero. Um não poderia ser universalmente pensada em termos dados motivos foi a fi xidez e unidade que essa distinção lógica ocidental, ancorada em pressupostos de proprie-conferia às identidades de gênero, ao formular a exis- dade, à maneira como se possui uma mercadoria.tência de uma base biológica imutável que dividia a Esses questionamentos foram realizados por meiohumanidade em dois sexos e, consequentemente, em de um deslocamento nos referenciais teóricos utiliza-dois gêneros. Outro dos aspectos problematizados foi dos. As autoras passaram a se ancorar em aproxima-a universalidade atribuída a essa distinção. ções desconstrutivistas. Refiro-me ao procedimen- Embora as primeiras formulações da distinção entre to de olhar criticamente para os supostos sustentadossexo e gênero foram pensadas como alternativa possível por diversas disciplinas, examinando e desmontandoao trabalho com o conceito de Patriarcado, muitas te- sua lógica discursiva. A produção crítica sobre gêne-
  3. 3. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras265 Adriana Piscitelli (Unicamp)ro possibilita perceber uma convergência no que se com outras diferenças têm sido tensa, uma vez querefere a problematizar os modelos teóricos totalizan- algumas correntes consideravam que dar peso a elastes. As autoras contestam a validade dos modelos que debilitava um pressuposto político relevante: a iden-buscam analisar e explicar as transformações históricas tidade entre mulheres. Os escritos críticos de finaispressupondo, por exemplo, a continuidade de certas da década de 1980 tendem a reconhecer essas dife-estruturas e/ou instituições. Elas questionam, tam- renças. Entretanto, esse reconhecimento nem semprebém, as abordagens que formulam uma compreensão se expressou no plano analítico e, quando ele existiu,da diferença tendo como referência um Outro exóge- muitas vezes privilegiou uma única diferença articu-no, externo, procedimento que mantém o princípio lada a gênero1.de uma unidade e coerência cultural interna. Essas Algumas das autoras que se envolveram nas refor-teóricas trabalham com a idéia de dissolução do sujeito mulações críticas do conceito de gênero enunciaram auniversal autoconsciente; valorizam a linguagem e o importância de considerar conjuntamente classe, raçadiscurso como práticas relacionais, que produzem e e gênero. Entretanto, elas continuaram privilegiandoconstituem as instituições e os próprios sujeitos como a categoria gênero. Joan Scott (1988), por exemplo,sujeitos históricos e culturais e compreendem, enfim, afirma que, como feminista, seu compromisso é, so-a produção de saber e significação como ato de poder bretudo, com o saber sobre a diferença sexual. Nesse(Bessa, 1995). sentido, segundo ela, com base em sua proposta ana- Nessa produção é visível a tendência a trabalhar lítica, seria possível fazer emergir uma nova históriacom uma noção pulverizada de poder, à maneira de que redefiniria novas questões, em conjunção comFoucault (1977). Um exemplo é oferecido por Joan uma visão da igualdade que também incluísse classe eScott (1988) que, rejeitando a noção de Patriarcado, raça. Entretanto, ela não faz uma tentativa maior depropõe explorar as distribuições diferenciadas de po- elaboração que articule essas diferenciações.der permeando contextos históricos específicos. Com Outras autoras ratificam a importância de pensaresse objetivo, a autora propõe substituir a noção de em diversas categorias de diferenciação, contudo aca-que o poder social é unificado, coerente e centraliza- bam prestando particular atenção à articulação entredo por uma idéia de poder como constelações disper- algumas diferenças específicas. Uma delas é a relaçãosas de relações desiguais. entre gênero e sexualidade. Judith Butler, uma das críticas mais radicais do conceito de gênero, oferece um exemplo dessa posição. A autora pensa gênero como o mecanismo se-Diferença sexual e outras diferenças gundo o qual se produzem e naturalizam noções do masculino e feminino, mas também como o mecanis- mo mediante o qual esses termos são desconstruídos Essas leituras críticas do conceito de gênero, for- e desnaturalizados (Butler, 2002). A radicalidade demuladas no plano teórico, coincidem com intensas sua formulação consiste em que gênero para ela é re-reivindicações, internas ao movimento feminista, re- lacional, não no sentido de tratar-se de relações entrelativas à diferença, formuladas por mulheres negras, homens e mulheres, ou entre masculino ou feminino,do Terceiro Mundo e por feministas lésbicas (Hara- mas porque pensa em gênero como um fazer, comoway, 1991). Entretanto, as reelaborações teóricas não uma atividade que é performada para alguém, mes-incorporaram as exigências de prestar atenção a outras mo que esse alguém seja inteiramente imaginário. Eladiferenças, para além da sexual, de maneira homogê- propõe afastar o gênero de idéias como a relação entrenea. Na história do pensamento feminista, a relação masculinidade e feminilidade, pois o binário mascu-1 O pensamento feminista vinculado ao marxismo e ao socialismo sempre levou em conta as diferenças de classe. Vale lembrar a força concedidaa essa distinção nos escritos das primeiras décadas do século XX (Goldman, 1917) e também as infinitas discussões, no âmbito do feminismoda “segunda onda”, durante a década de 1970, entre as radicais que concediam primazia ao patriarcado e as socialistas, que se centravam naarticulação entre patriarcado e capitalismo, prestando séria atenção às diferenças de classe entre as mulheres (Beechey, 1979). O feminismo ra-dical da segunda onda, ao contrário, caracterizou-se por minimizar diferenças que não fossem as sexuais, às quais conferiam absoluta primazia.Assim, as discriminações vinculadas à classe e raça não encontravam abrigo nessas formulações. Nesse sentido, são significativos os comentáriosde Shulamith Firestone (1976), no que se refere ao racismo. A autora afirma que o racismo está limitado ao âmbito da cultura ocidental. Mas, aluta das feministas deveria ir além dessa cultura específica, questionando a própria organização da cultura e da natureza, nas quais se ancora adesigualdade das mulheres. Essas idéias são relevantes porque remetem à centralidade concedida à diferença sexual, em termos universais, poralgumas correntes do pensamento feminista. Observe-se, porém, que a raça é tratada como se apenas oferecesse elementos para estabeleceranalogias, comparações entre formas de opressão, em diversas formulações feministas. Neste sentido, vale a pena prestar atenção à maneiracomo Gayle Rubin (1975) trata das diferenças raciais. Quando a autora formula a idéia de sistema de sexo e gênero, estabelece paralelismos entrediferentes movimentos de oprimidos que deveriam unir-se: feministas; negros americanos; pessoas do terceiro mundo; indígenas americanos, masnão há tentativas de articular as diferenças nas quais se ancoram essas opressões.
  4. 4. 266 Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008lino/feminino não esgotaria o campo semântico do e nacionalidade (Shohat, 1992; MacKlintock, 1992;gênero. Em um diálogo múltiplo com aspectos do Mohanty, 1991). Com esse último termo elas aludiampensamento feminista, do pensamento queer e com os ao posicionamento desigual, em escala global, propi-movimentos da Nova Política do Gênero que reivin- ciado pela nacionalidade. Isso que, à falta de um nomedicam direitos sexuais, incluindo os direitos de pessoas melhor, chamo de localização, para aludir à posiçãointersex e trans, a autora afirma que a existência de estrutural das nacionalidades que estão interagindo.transgêneros sugere que o gênero se desloca além des- Finalmente, outras autoras concedem relevânciase binarismo naturalizado. à análise conjunta de uma constelação de diferenças. No que se refere à relação entre gênero, sexua- No entanto, consideraram que para analisar de ma-lidade e raça, Butler assume uma posição ambígua. neira adequada a operação conjunta dessas diferenças éEla afirma reiteradamente a necessidade de analisar necessário criar categorias alternativas a gênero e tam-essa relação. Em Gender Trouble (1990) alega que gê- bém à raça. Donna Haraway, bióloga e historiadora danero estabelece interseções com modalidades raciais, ciência, oferece um exemplo dessa posição.classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades Segundo ela, ao insistir no caráter de construçãodiscursivamente constituídas. Essas interseções não social do gênero, nem o sexo nem a natureza forampoderiam ser hierarquizadas nos termos de alguma historicizadas e, com isso, ficaram intactas idéias pe-condição primária de opressão. Contudo, ela só reali- rigosas relacionadas com identidades essenciais taisza uma tentativa de análise articulando esse conjunto como mulheres ou homens. Ela considera que, traba-de diferenças em um capítulo de uma obra posterior, lhando com a distinção sexo/gênero, seria impossívelBodies that Matter (1993). desconstruir como os corpos, sexualizados e racializa- Nesse livro, a autora considera sexo e raça como dos, aparecem como objetos de conhecimento e espa-efeito de regimes de produção reguladora que operam ços de intervenção na biologia. E, sobretudo, consi-na produção dos contornos corporais. Além de con- dera que a centralidade concedida à categoria gênerotestar a idéia de que a diferença sexual seja a diferen- obscurece ou subordina todas as outras, como raça eça da qual podem ser derivadas as outras diferenças, classe, outras, que emergem nitidamente das ‘políticasJudith Butler afirma que a reprodução da heterosse- da diferença’, em um movimento imperalista do femi-xualidade assume formas diferentes segundo como nismo branco e ocidental.se entendam a raça e a reprodução da raça. Entretan- Como saída, ela propõe trabalhar com um con-to, excetuando o capítulo mencionado desse livro, ceito diferente, os aparatos de produção corporal,os restantes lidam exclusivamente com sexualidade e que historicizando categorias como sexo, carne, cor-gênero, que certamente é a articulação central para a po, biologia, raça e natureza, permitiria pensar naautora. Não é por acaso que toda a sua formulação so- emergência de corpos marcados por diferenças, embre a abjeção, designando as zonas inabitáveis da vida uma perspectiva na qual a natureza não fosse ima-social, está ancorada na relação entre gênero e sexua- ginada como um recurso para a cultura, ou como olidade, na produção dos gêneros não inteligíveis que sexo para o gênero.desestabilizam a harmonia binária e linear entre sexo, Os questionamentos presentes nas formulaçõesgênero e desejo. dessas autoras continuaram sendo elaborados com Outras autoras privilegiaram a articulação entre intensidade durante a década de 1990, sob a intensaraça e gênero, em linhas de discussão que denunciam pressão dos movimentos políticos. No bojo desse mo-as exclusões do pensamento feminista da segunda vimento, na procura de categorias analíticas alterna-onda, que já não é mais pensado apenas como pen- tivas, surge a formulação dos conceitos categorias desamento feminista, mas como pensamento feminis- articulação e/ou interseccionalidades.ta branco (Bhavnani, 2001; Haraway, 1991). Nessadiscussão, algumas teóricas questionam, com baseem experiência como mulheres negras em contex-tos marcados pelo racismo, a centralidade concedida Interseccionalidades e/ouà sexualidade como diferença em algumas linhas do categorias de articulaçãopensamento feminista (Amos e Parmar, 1984). Nessalinha de debate, há autoras que chegam até mesmoa privilegiar, a priori, a raça entre outras diferenças A proposta de trabalho com essas categorias épossíveis (Baca Zinn/Dill, 1996). oferecer ferramentas analíticas para apreender a ar- As insatisfações com a centralidade concedida à ticulação de múltiplas diferenças e desigualdades. Écategoria gênero suscitaram ainda outras problemati- importante destacar que já não se trata da diferençazações. As feministas do Terceiro Mundo e/ou que sexual, nem da relação entre gênero e raça ou gêne-trabalham com teoria pós-colonial chamaram a aten- ro e sexualidade, mas da diferença, em sentido amploção para a necessidade de articular gênero não ape- para dar cabida às interações entre possíveis diferençasnas a sexualidade, raça, classe, mas também a religião presentes em contextos específicos.
  5. 5. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras267 Adriana Piscitelli (Unicamp) O debate sobre as interseccionalidades permite situação das mulheres de castas inferiores na Índia.perceber a coexistência de diversas abordagens. Di- As mulheres dalit, espancadas em espaços públicosferentes perspectivas utilizam os mesmos termos para quando realizam suas responsabilidades femininas,referir-se à articulação entre diferenciações, mas elas como buscar água na fonte. Os abusos ocorrem emvariam em função de como são pensados diferença e contextos em que a suposta condição de intocável aspoder. Essas abordagens divergem também em termos deixa vulneráveis à violência das castas mais altas.das margens de agência (agency) concedidas aos sujei- Essa violência não seria apenas discriminação de cas-tos, isto é, as possibilidades no que se refere à capaci- ta, mas intersecional. Segundo a autora, as mulheresdade de agir, mediada cultural e socialmente. estão situadas em uma posição na qual as responsa- Essas discordâncias podem ser percebidas contra- bilidades marcadas por gênero as posiciona de formapondo as formulações de autoras relevantes no deba- que elas absorvam as conseqüências da discriminaçãote. Uma delas é Kimberlé Crenshaw, cujos textos se de casta na esfera pública (Crenshaw, 2002).tornaram leitura obrigatória na primeira metade da Uma das minhas principais questões em relaçãodécada de 1990. A revista Estudos Feministas (2002) à generalização dessa abordagem, pensada para ca-publicou em português seu Documento para o en- sos de graves violações dos direitos humanos, é que,contro de especialistas em aspectos da discriminação em uma perspectiva antropológica, essa formulaçãoracial relativos ao gênero. A autora é uma advogada apresenta uma séria fragilidade: ela funde a idéia deque procura oferecer elementos para formular polí- diferença com a de desigualdade. As leituras críticasticas com o objetivo de evitar a violação dos direitos sobre interseccionalidade consideram essa leitura dehumanos das mulheres, em escala global. Crenshaw expressiva de uma linha sistêmica, que des- taca o impacto do sistema ou a estrutura sobre a for- mação de identidades. Nesse sentido, problematizam outros aspectos dessa formulação. Questionam o fatoKimberlé Crenshaw – de que gênero, raça e classe são pensados como siste-leituras sistêmicas mas de dominação, opressão e marginalização que de- terminam identidades, exclusivamente vinculadas aos efeitos da subordinação social e o desempoderamento Segundo Crenshaw, as interseccionalidades são (Prins, 2006).formas de capturar as conseqüências da interação en- Outro problema apontado nessa abordagem é quetre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, ra- nela o poder é tratado como uma propriedade que unscismo, patriarcalismo. Essa noção de ‘interação’ entre têm e outros não, e não como uma relação. De acordoformas de subordinação possibilitaria superar a noção com Baukje Prins (2006), as linhas que se inserem node superposição de opressões. Por exemplo, a idéia enfoque sistêmico sobre interseccionalidades às vezesde que uma mulher negra é duplamente oprimida, à trabalham com o referencial oferecido por Foucault,opressão por ser mulher deve ser adicionada a opressão mas utilizam seletivamente sua noção de poder. Elaspor ser negra. A interseccionalidade trataria da forma ignorariam o fato de que esse autor pensa em podercomo ações e políticas específicas geram opressões que não apenas em sentido repressivo, mas também pro-fluem ao longo de tais eixos, confluindo e, nessas con- dutivo, que não apenas suprime, mas produz sujeitos.fluências constituiriam aspectos ativos do desempo- Finalmente, não consideram que as relações de poderderamento. A imagem que ela oferece é a de diversas se alteram constantemente, marcadas por confl itos eavenidas, em cada uma das quais circula um desses pontos de resistência.eixos de opressão. Em certos lugares, as avenidas secruzam, e a mulher que se encontra no entrecruza-mento tem que enfrentar simultaneamente os fluxosque confluem, oprimindo-a. Anne McKlintock e Avtar Brah – Essa formulação retoma a idéia de patriarcado. abordagens construcionistasNa verdade, a linguagem parece remeter aos tex-tos da década de 1970: patriarcalismo, experiência,subordinação. Diferentemente das formulações fe- Uma segunda linha de abordagem, denominadaministas da segunda onda, porém, na elaboração de pela autora de construcionista, destaca, sobretudo, osCrenshaw, gênero não é o único fator de discrimina- aspectos dinâmicos e relacionais da identidade social.ção. Outros fatores estão operando conjuntamente. Nessa abordagem são marcantes a visão de poder deA autora utiliza reiteradamente termos como vul- Gramsci, em termos de lutas contínuas em torno danerabilidade, desempoderamento, o que faz sentido hegemonia, e o trabalho com a noção de articulaçãoquando se pensa em seu objetivo. Os exemplos que entendida como prática que estabelece uma relaçãoela oferece são extremos, como os estupros coletivos, entre elementos, de maneira que sua identidade sepor motivos étnicos, em Ruanda e na Bósnia, ou a modifica como resultado da prática articulatória. Nes-
  6. 6. 268 Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008sa abordagem se traçam distinções entre categorias de contradições é possível encontrar estratégias para adiferenciação e sistemas de discriminação, entre dife- mudança. A articulação seria perceptível ao conside-rença e desigualdade. Por exemplo, há um questiona- rar como, no âmbito imperial, gênero está vinculadomento à fusão entre raça e racismo, considerando que à sexualidade, mas também ao trabalho subordinadonessa fusão há uma visão estática do significado da e raça é uma questão que vai além da cor da pele,categoria raça e se trata o racismo como um sistema incluindo a força de trabalho, atravessada por gênero.único. Ao analisar as categorias articuladas, McKlintock ex- De acordo com Prins (2006), na primeira linha plora políticas de agência diversificadas, que envolvemde abordagem (sistêmica), a agência não é negada coerção, negociação, cumplicidade, recusa, mimesis,aos sujeitos. A idéia é contribuir para o empodera- compromisso e revolta.mento dos grupos subordinados. Entretanto, a inter- A noção de articulação e uma leitura ampla dasseccionalidade aparece voltada para revelar o poder políticas de agência estão presentes também no tra-unilateral das representações sociais e as conseqüên- balho Brah (2006), que rejeita o conceito de patriar-cias materiais e simbólicas para os grupos atingidos cado, preferindo pensar em relações patriarcais nospelos sistemas de subordinação. Os sujeitos apare- casos específicos em que as mulheres ocupam posi-cem como constituídos por sistemas de dominação e ções subordinadas. Essa autora, após uma trajetóriamarginalização e, nesse sentido, carentes de agência. marcada pelo deslocamento por diversos contextos,Na segunda linha de abordagem (construcionista), se envolveu com o trabalho com a articulação entreos processos mediante os quais os indivíduos se tor- gênero, raça, etnicidade e sexualidade, no feminis-nam sujeitos não significam apenas que alguém será mo negro, na Inglaterra 2 . A autora publicou um li-sujeito a um poder soberano, mas há algo mais, que vro, em 1996, Cartographies of Diaspora, que se tornouoferece possibilidades para o sujeito. E os marcadores uma referência, um de cujos capítulos foi traduzidode identidade, como gênero, classe ou etnicidade não nos Cadernos PAGU (2006). Nesse livro, faz umaaparecem apenas como formas de categorização ex- série de formulações inovadoras no seio do movi-clusivamente limitantes. Eles oferecem, simultanea- mento feminista. Em algumas dessas formulações elamente, recursos que possibilitam a ação. segue Hall (1996) 3. Entretanto, diferentemente dele, Nesta segunda linha podemos situar autoras como ela se situa no bojo da discussão do feminismo negroMcKlintock (1995) e Brah (2006). A primeira delas, e concede um lugar relevante a gênero.no marco dos estudos culturais, em Estados Unidos, A autora propõe uma análise macro, consideran-analisa o poder imperial afi rmando que raça, gêne- do simultaneamente subjetividade e identidade pararo e classe não são âmbitos diferentes de experiência compreender as dinâmicas de poder na diferenciaçãoque existem isoladamente uns dos outros, nem podem social. Este é um aspecto característico das feminis-ser simplesmente montados em conjunto como se fos- tas do Terceiro Mundo e que trabalham como teoriasse um lego. Essas categorias existem em e por meio pós-coloniais, porque as preocupações políticas quedas relações entre elas. Por esse motivo são catego- as orientam requerem que as análises compreendamrias articuladas. As categorias de diferenciação não são a produção de subjetividades no marco da história doidênticas entre sim, mas existem em relações, íntimas, imperialismo e do capitalismo. Avtar Brah levanta vá-recíprocas e contraditórias. Nas encruzilhadas dessas rios pontos importantes.2 Avtar Brah nasceu na Índia, cresceu em Uganda de onde fugiu com a família antes que Idi Amin expulsasse os asiáticos do país, estudou nosEstados Unidos e morou depois na Inglaterra, onde se envolveu nos movimentos feministas, anti-racistas e nas tentativas socialistas de imaginarum mundo democrático.3 Hall (1996) estava interessado em entender as relações entre classe social e racismo em um momento no qual considerava não existir elemen-tos teóricos que possibilitassem fazê-lo. Trabalhando com tradições marxistas e seguindo Foster Carter, explora as possibilidades das categoriasde articulação. A articulação seria uma metáfora utilizada para indicar relações de conexões e eficácia entre diferentes níveis de todo tipo decoisas. Essas coisas estariam conectadas, mas não haveria uma identidade entre elas. A unidade formada por essa articulação é uma estruturacomplexa que as relaciona por suas diferenças e semelhanças. Segundo Hall, o importante é desvendar qual é o mecanismo que conecta ascoisas e a natureza das relações entre as partes. Considerando que o econômico não determina outros níveis da formação social nem suaforma de operação, Hall afirma que ao analisar as relações entre diversos níveis de uma formação social, seriam necessários outros conceitos,além dos níveis econômicos do modo de produção. O autor recorre também a Gramsci, particularmente ao conceito de hegemonia, comoestado de total autoridade social que em conjunturas específicas possibilita o domínio de uma classe sobre toda uma formação social, poruma mistura de coerção e consentimento, não apenas no nivel econômico, mas também político e ideológico, na vida civil, intelectual e moralassim como no aspecto material. Mas, essa autoridade está sujeita a relações de forças sociais, das quais o equilibrio instável é um resultadoprovisório. Para sustentar-se, a hegemonia exige ser continuamente trabalhada e reconstruída. A luta de classes não assumiria a forma de umataque frontal, mas de lugares estratégicos, tácticas, explorando diferentes contradições. E o que interessa seria entender como as ideologiasexistentes, que são contraditórias, podem ser trabalhadas para transformar-se na base de uma luta mais consciente, uma form de intervençãono processo histórico.
  7. 7. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras269 Adriana Piscitelli (Unicamp) A autora afi rma que a procura de grandes teorias as percepções sobre essas migrantes incidem em suasespecificando as interconexões entre racismo, gênero inserções no mercado global de trabalho e no merca-e classe tem sido pouco produtiva. Essas intercone- do matrimonial.xões seriam melhor compreendidas como relaçõescontextuais e dependentes/contingentes (contingents),em termos históricos. Ela considera que analisar asinterconexões entre racismo, gênero, classe, sexuali- Brasileiras no cenário globaldade etc. requer levar em conta a posição de diversosracismos, um em relação aos outros. No que se re-fere aos processos de racialização, assinala que não A experiência de migrantes (e viajantes) bra-sempre têm lugar em uma matriz simples de bipola- sileiras é afetada por aspectos que não podem serridades, de negatividade ou positividade, de inclusão compreendidos considerando uma ou duas catego-ou exclusão. Em um contexto racializado, todas as rias de diferenciação, tais como gênero e nacionali-sexualidades estão inscritas em matrizes racializadas dade, por exemplo. Esclareço que estou pensando,de poder, mas os encontros racializados também têm à maneira de Scott (1998), não em indivíduos ‘quelugar em espaços de profunda ambivalência, admira- têm’ experiências, mas em ‘sujeitos constituídosção, inveja, desejo. mediante a experiência’. Essas migrantes são afe- A proposta de Avtar Brah é trabalhar, não com tadas pela imbricação entre noções de sexualidade,gênero como categoria analítica, como, por exem- gênero, raça, etnicidade e nacionalidade. Refi ro-plo, Scott, mas com ‘diferença’ como categoria ana- me às noções sexualizadas e racializadas de femini-lítica. Essa idéia remete à análise de como as formas lidade pelo fato de serem brasileiras. Independente-específicas de discursos sobre a diferença se consti- mente de serem consideradas no Brasil, brancas outuem, são contestados, reproduzidos e (re)significa- morenas, nos fluxos migratórios para certos paísesdos, pensando na diferença como experiência, como do Norte as brasileiras são racializadas como mesti-relação social, como subjetividade e como identida- ças. No lugar desigual atribuído ao Brasil no âmbitode. A autora afi rma que há discursos que apresentam global, a nacionalidade brasileira, mas do que a cordiferenças, como o racismo, que traçam limites fi xos. da pele, confere-lhes essa condição. E essa raciali-Entretanto, outras diferenças podem ser apresentadas zação é sexualizada. Nos últimos anos, o fato de ocomo relacionais, contingentes. Como a diferença Brasil ter sido incluído nos circuitos mundiais denem sempre é um marcador de hierarquia nem de turismo sexual e das brasileiras adquirirem visibili-opressão, uma pergunta a ser constantemente feita é dade na indústria do sexo em países dos Sul da Eu-se a diferença remete à desigualdade, opressão, ex- ropa, tem acentuado essas relações entre categoriasploração. Ou, ao contrário, se a diferença remete a no cenário global (Piscitelli, 2004; 2007).igualitarismo, diversidade, ou a formas democráticas A maioria das brasileiras que viaja não tem vin-de agência política. culação com esse setor de atividade. Entretanto, essa Algumas discussões sobre interseccionalidade articulação entre marcadores de diferença é ativadaconsideram que essa conceitualização é problemá- independentemente de que as mulheres estejam outica porque coloca excessiva ênfase nos eixos classi- não vinculadas à indústria do sexo. A idéia de queficatórios não prestando suficiente atenção à expe- elas são portadoras de uma disposição naturalmenteriência. Assim, poderia ser pensado que o trabalho intensa para fazer sexo e uma propensão à prosti-com categorias de articulação se diferencia da aná- tuição, combinadas com noções ambíguas sobre seuslise das interseccionalidades, pois as autoras que tra- estilos de feminilidade, tidos como submissos, combalham com categorias articuladas concedem lugar uma alegre disposição para a domesticidade e a ma-de destaque à experiência. Contudo, nesse debate ternidade tende a atingir indiscriminadamente essasas visões sobre diferença, poder e agência presen- migrantes.tes nas diversas abordagens são mais importantes do Essas conceitualizações variam, claro, em contex-que os termos que designam esses conceitos (inter- tos migratórios que têm diferentes relações históricasseccionalidade ou categorias de articulação). Brah com o Brasil e também de acordo com a classe so-(2006; 2004), por exemplo utiliza alternativamente cial e, em certos casos, a cor das mulheres (quandoa idéia de categorias de articulação e de intersec- fenotipicamente não são percebidas como mestiças/cionalidades. mulatas, mas como negras). No entanto, nos fluxos Essa última linha de pensamento sobre a interse- para países ricos da América do Norte e Europa, ação entre diferenciações é sugestiva para pensar como tradução cultural da posição subalterna ocupada peloconstruções de diferença e distribuições de poder Brasil nas relações transnacionais é um dos aspectosincidem no posicionamento desigual dos sujeitos no principais que afetam as experiências dessas mulheres.âmbito global. Tomo como exemplo as recentes mi- E essa tradução é realizada mediante uma articulaçãograções internacionais de mulheres brasileiras, e como entre diferenciações.
  8. 8. 270 Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008 Em termos de migração internacional, Brasil foi nas empresárias (Cavalcanti, 2006). Entretanto, comoconsiderado um país predominantemente receptor em outras mulheres do Terceiro Mundo, desempenhamum passado muito recente4. Na década de 1980, pela atividades especialmente em serviços domésticos:primeira vez, no contexto de uma séria crise econô- limpando, cuidando de crianças ou idosos (Oliveira,mica, o país apresentou uma emigração significativa. 2006; Messias, 2001). E, particularmente em paísesA partir de então, a falta de oportunidades laborais e do Sul da Europa, também trabalham na indústria dode possibilidade de mobilidade social, sobretudo para sexo (Mayorga 2006; Piscitelli, 2007). Apesar de quealguns setores das classes médias, alimentaram os flu- apenas uma parte das brasileiras está ocupada nesse se-xos de migração ao exterior. tor, a relevância dessa atividade é amplificada por uma Em 2006, relatórios do governo estimavam que cobertura de imprensa que freqüentemente funde osem torno de 3.000.000 de brasileiros estavam moran- deslocamentos internacionais para trabalhar na indús-do no exterior, (1,7 % do total da população)(Mag- tria do sexo com o tráfico internacional de pessoas.no, 2006) 5. Parte significativa desse contingente vive A presença feminina é particularmente relevantecomo irregular fora, e isso torna difícil ter estatísticas nas comunidades brasileiras nos países do Sul da Eu-precisas. A escassa atenção prestada ao sexo ao coletar ropa. Em 2006, elas eram em torno do 60% na Espa-os dados coloca ainda maiores dificuldades para esti- nha e aproximadamente metade da população brasileiramar o número de mulheres migrantes no exterior. En- vivendo em Portugal (Instituto Nacional de Estadísti-tretanto, o deslocamento das mulheres aparece como ca, 2006; Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 2005).significativo. De acordo com dados da Polícia Federal Nesses países, assim como na Itália, as brasileiras sãoBrasileira, em 2005 elas constituíam em torno de 30% consideradas uma presença relevante na indústria dodo total de pessoas devolvidas de países estrangeiros, sexo e também integram os principais contingentes deincluindo deportadas e uma vasta maioria de mulheres esposas estrangeiras casadas com homens nacionais. E,não admitidas, cujo ingresso é recusado em países que nesses países, os escassos casamentos transnacionais en-não requerem vistos de turistas brasileiros, especial- volvendo homens brasileiros sugerem que as mulheresmente nos aeroportos europeus. adquirem um valor particular no mercado matrimo- Recentes relatórios governamentais sugerem que nial6. Ter ou não visto de permanência, direito a tra-a maioria das mulheres deportadas é de classe média balhar legalmente, oportunidades laborais, casar combaixa. Trata-se, majoritariamente de solteiras ou di- homens residentes dos países receptores e ter filhos nosvorciadas na casa dos 20 e 30 anos, a metade tem fi lhos contextos migratórios são aspectos que marcam dife-e se consideram majoritariamente morenas ou pardas renças significativas nas experiências dessas migrantes(Secretaria Nacional de Justiça 2006; 2005). As mo- brasileiras.tivações econômicas aparecem como a principal razão Afirmar que mulheres de diversas origens de clas-para migrar, seja em razão de estratégias familiares ou se e níveis de escolaridade são afetadas pela recriação depessoais. Contudo, esses perfis não podem ser genera- imagens racializadas e sexualizadas vinculadas a estiloslizados. Pesquisas sobre migrantes internacionais bra- de feminilidade brasileiros requer considerar dois aspec-sileiras apontam para uma diversificação em termos tos. Embora as mulheres de países do Sul estejam confi-das origens de classe, escolaridade e cores da pele. Es- nadas em ocupações específicas, elas não constituem umses aspectos interferem na inserção social dessas mu- todo homogêneo nos países de origem nem nos de desti-lheres em suas trajetórias migratórias. no. No marco das desigualdades entre Norte e Sul, essas Em diferentes contextos migratórios, as brasilei- diferenças são freqüentemente traduzidas por fronteirasras trabalham no comércio, em serviços administrati- etno-sexuais (Nagel, 2003), delimitações traçadas navos, educacionais e de saúde e também como peque- interação entre sexualidade e etnicidade que, de acordo4 De acordo com os estudos sobre migração, entre a década de 1890 e a Primeira Guerra Mundial, Brasil era o terceiro país receptor em América,depois dos Estados Unidos e Argentina, recebendo imigrantes, sobretudo, de Itália, Portugal e Espanha (Menezes 2001). Entre 1908 e 1940houve também fluxo significativos de japoneses e de cidadões de outros países europeus (Seyferth 2001). No momento atual, o país recebe,sobretudo, imigrantes de outros países latino-americanos.5 Segundo o Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito de Emigração, em 2006, os principais países receptores eram Estados Unidos(1,800,000), Paraguai (450,000), Japão (250,000), Portugal (100,000), Reino Unido (100,000). Nos últimos três anos, os migrantes brasileiros cres-ceram rapidamente em algumas partes do mundo, particularmente nos países do Sul da Europa. Desde 2005 México exige visto dos cidadãosbrasileiros, dificultando o acesso à fronteiras dos Estados Unidos. Os efeitos dessa exigência são o aumento nas vinculações transnacionais entre ostraficantes de migrantes e a elevação dos custos e o aumento dos riscos dessas viagens ao tentar atravessar clandestinamente mais de uma fronteira.Como resultado, o fluxo migratório voltado para os países europeus tem aumentado (Secretaria Nacional de Justiça, 2007). Agentes consulares naEspanha e a Itália afirmam estar oferecendo serviços a um número muito mais elevado de brasileiros que três anos atrás. (Piscitelli 2005; 2007).6 Em 2006 as brasileiras integravam o Segundo coletivo nacional de estrangeiras que casaram com homens espanhóis (Instituto Nacional deEstadística 2006; 2005). Na Itália, de acordo com as analises do censo de 2001, Brasil foi o principal país latino-americano que forneceu esposasaos italianos. Istituto Nazionale de Statistica: Gli stranieri in Italia: analisi dei dati censuari, 2005. In: www.istat.it.
  9. 9. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras271 Adriana Piscitelli (Unicamp)com o contexto, afetam mulheres de regiões e países de para a sensualidade, se tornam parte do arsenal que essasmaneiras diferenciadas. Tendo como referência a posição mulheres utilizam na luta por um lugar melhor nessesocupada pelas mulheres latino-americanas nos Estados cenários (Pinto 2004; Beserra, 2007; Piscitelli, 2005).Unidos, seria possível pensar que as tropicalizações (Apa- Essas negociações são descritas em estudos realiza-ricio; Chávez-Silverman, 1997), imagens sexualizadas e dos em Boston, que mostram como alguns desses atribu-racializadas associadas aos trópicos, impingem em qual- tos são utilizados para obter, por exemplo, acesso a níveisquer mulher dessa região do mundo. privilegiados de trabalho doméstico pago (Assis, 2004). Estudos realizados nos Estados Unidos e em países A suposta abertura das brasileiras, sua alegria e propen-do Sul da Europa mostram, porém, que essas noções são ao cuidado são exibidos para atrair clientes para suastropicalizadas de feminilidade afetam, sobretudo, mu- próprias firmas de limpeza. Esses atributos étnicos sãolheres de certos países. Trata-se de países como Brasil, ativados para abrir firmas, nas quais muitas vezes elas sãoCuba e Colômbia, associados com misturas raciais que as chefes dos homens de suas redes de parentesco. Es-evocam misturas raciais, particularmente, com traços ses trabalhos alteram as dinâmicas de gênero familiares eafricanos. O serviço doméstico e de cuidados absorve oferecem a essas mulheres o que elas consideram comolatino-americanas de diversas nacionalidades. Entre- uma atividade autônoma e bem paga.tanto, nos países do Sul da Europa, cubanas, colom- Em diversos meios, as migrantes brasileiras rejeitambianas e brasileiras são as mulheres que adquirem vi- abertamente a conexão entre sensualidade e brasilida-sibilidade nos mercados do sexo e matrimonial. Nos de. Ao mesmo tempo, em certas situações essa conexãoprocessos de racialização que as atingem há, às vezes, aparece como sendo estrategicamente performada. Oum racismo aberto. No entanto, e aqui vale a pena sex appeal étnico é utilizado como um bem por mulhe-lembrar a relevância que Avtar Brah concede à inte- res que trabalham na indústria do sexo, que acreditamração entre racismos, nos países do Sul da Europa, o que é útil para atrair clientes. No entanto, esse sex appealracismo atinge com mais suavidade as brasileiras, par- também é percebido como oferecendo benefícios paraticularmente as que não são vistas como negras, que a brasileiras de classe média, que trabalham em setoresmulheres de outras nacionalidades. acadêmicos em Los Angeles (Beserra, 2007), e traba- A interseção entre nacionalidade, gênero e sexuali- lhadoras nos serviços públicos em Lisboa (Pinto 2004).dade e o particular estilo de racialização permeado por Entretanto, os principais benefícios obtidos mediante aessas diferenças incide em um racismo etnicizado, dis- corporificação da sensualidade por mulheres que nãotante da intensidade daquele que atinge, entre as latino- trabalham na indústria do sexo estão relacionados, so-americanas, a mulheres tidas como negras e àquelas cuja bretudo, com o mercado matrimonial. Nesses casos, asnacionalidade é associada a traços considerados indíge- mulheres combinam sensualidade com outros atribu-nas e pouco sensualizados. Essas últimas não integram tos, performando a imagem de esposas sensuais, doces,as comunidades nacionais nas quais os homens nativos domésticas, dedicadas e ávidas por serem mães.escolhem esposas. Esposos estadounidenses e dos países do Sul da Os efeitos dessas noções são mais atenuados entre Europa parecem perceber os relacionamentos com es-mulheres que obtêm melhores posições, em termos de sas mulheres como uma oportunidade para recriar, emclasse, nos países receptores. No entanto, brasileiras de algum ponto, padrões tradicionais de masculinidade,diversas origens são afetadas por essas idéias. A relação com o tempero adicional de desfrutar de um estilodessas migrantes com a articulação entre diferenças que particular de sexualidade (Beserra, 2007; Assis, 2004;as sexualiza e racializa não é estável. Há movimentos Piscitelli, 2005). Para as brasileiras, performar essade resistência e rejeição. Entretanto, situacionalmente, combinação de noções abre caminhos, às vezes estra-também assumem posições de cumplicidade utilizan- tégicos, para desejados casamentos. Essas uniões mis-do aspectos das imagens sobre elas para negociar seus tas às vezes expõem as mulheres a riscos, particular-posicionamentos nos contextos migratórios nos quais mente àquelas com menos recursos, sujeitas a um grauestão em situação de desigualdade. É um jogo que re- mais intenso de desigualdade e racismo. Entretanto,força certos estereótipos ao passo que debilita outros. esses casamentos, que oferecem a principal via paraTanto no mercado de trabalho como no mercado de a obtenção de vistos de residência no marco de polí-casamento as conexões da feminilidade brasileira com ticas migratórias cada vez mais restritivas, são alme-a idéia de serem amigáveis, de terem um compromisso jados por diversos motivos. Eles são particularmentecom a domesticidade, de serem muito limpas e de te- valorizados como recursos simbólicos que contribuemrem uma natural propensão para o cuidado e também a obter cidadania cultural (Ong, 1996) no exterior7.7 Na pesquisa sobre migrantes brasileiras que realizei na Itália (Piscitelli, 2007) o casamento representa mais do que a possibilidade de ‘papéis’. Anali-sando os processos mediante os quais os migrantes procuram obter acesso à ‘cidadania cultural’, Aiwa Ong destaca a importância de práticas culturaise crenças nas negociações com critérios relativos à ‘pertença’ a um território e população nacional. O valor concedido pelas entrevistadas ao casamentomantém vinculações com essas idéias. Entre minhas entrevistadas, o casamento representa a materialização do sonho da ascensão social que, indo alémda mobilidade em termos de classe social, envolve a ilusão da plena inclusão na Europa através da via legitimadora da inserção numa família italiana.
  10. 10. 272 Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008Além disso, esses casamentos freqüentemente possi- tes para compreender a produção de sujeitos na novabilitam alterar a posição social no Brasil, por diversas ordem global.ações mediadas pelo poder econômico e tingidas pelo Nos contextos migratórios acima comentados,prestígio conferido por morar na Europa. pensar nas articulações entre gênero, sexualidade, raça e etnicidade/ nacionalidade contribui para com- preender as experiências das migrantes brasileiras. As interseções entre essas categorias dotam de sentido aConclusão percepção que se tem das brasileiras e as ações dessas mulheres, jogando com as interseções entre diferen- ças que elas corporificam nos cenários descritos. A história do feminismo está marcada pela pro- A princípio, essas articulações situam essas mi-cura de ferramentas analíticas para compreender as grantes em posições inferiorizadas, com efeitos con-distribuições diferenciadas de poder que situam as cretos na inserção no mercado de trabalho. Ao mesmomulheres em posições desiguais e, com base no co- tempo, as ambigüidades e contradições envolvendonhecimento, modificar essas posições. Os conceitos esses processos de racialização/sexualização articula-de interseccionalidade e categorias articuladas fazem dos a gênero e nacionalidade, abrem brechas para asparte dessa história. Para além de situar a emergência negociações nesses contextos migratórios. Essas nego-desses conceitos, nesse texto procurei mostrar como, ciações só podem ter lugar se consideramos, à maneirano momento atual, certas abordagens que trabalham de Brah, que as formas de categorização podem limi-com interseccionalidades oferecem recursos relevan- tar, mas também abrem possibilidades para a agência.ReferênciasAMOS, Valerie; PARMAR, Pratibha. Challenging Impe- visting Intersectionality. Journal of International Women’srial Feminism, Feminist Review, n. 17, p. 3-19, 1984. Studies, 5, 3, may, p.75-86, 2004.APARICIO, Frances R.; CHÁVEZ-SILVERMAN, Su- BRAH, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação, Ca-sana (ed.). Tropicalizations. Transcultural Representations dernos Pagu 26, p.329-365, 2006.of Latinidad. Hanover, University Press of New England, BUTLER, Judith. Gender Trouble. New York, Routledge,1997. 1990.APFELBAUM, Érika. “Domination”. In: HIRATA, Hele- BUTLER, Judith. Undoing Gender, New York, Routledge,na; LABORIE, Françoise; DE DOARÉ, Hèléne; SENO- 2002.TIER, Danièle (coord): Dictionnaire critique du féminisme. CASA DO BRASIL EM LISBOA. “A 2° vaga da imigra-Presses Universitaires de France, Paris, 2000. ção brasileira para Portugal (1998-2003): Estudo de opi-ASSIS, Gláucia de Oliveira. De Criciúma para o mundo: rear- nião a imigrantes residentes nos distritos de Lisboa e Se-ranjos familiares e de gênero nas vivências dos novos migran- túbal – Informação estatística e elementos de análise”. In:tes brasileiros. Phd Dissertation, Campinas, Unicamp, 2004. Imigração Brasileira em Portugal (ed.). Jorge Macaísta Malhei-AZEVEDO, Débora B. Brasileiros no exterior, Nota Téc- ros, Lisboa, Alto Comissariado para a Imigração e Diálogonica, Consultoria Legislativa da Área XVIII, Congresso Intercultural, 227-245, 2007.Nacional, Brasília, 2004. URL (accessed in August, 2007. CAVALCANTI, Leonardo. “O protagonismo empresarialDisponível em: http://www2.camara.gov.br/internet/pu- imigrante a partir de uma perspectiva de gênero: o caso dasblicacoes/estnottec/tema3/pdf/2004_3518.pdf. brasileiras nas cidades de Madri e Barcelona”. Paper deli-BACAZINN, Maxine; DILL, Bonnie Thornton. Theo- vered at the Seminário Internacional Fazendo Gênero 7, Santarizing difference from multiracial feminism. Feminist Stud- Catarina, 2006.ies, 22, n. 2, p. 321-331, 1996. COSTA, Maria Tereza Paulino da. “Algumas considera-BEECHEY, Veronica. On Patriarchy. Feminist Review, n. ções sobre imigrantes brasileiros na jurisdição do Consu-3, p. 66-83, 1979. lado Brasileiro de Nova York”. In: Brasileiros no exterior:BESERRA, Bernadete. Sob a sombra de Carmen Miranda Caminhos da Cidadania, ed. Bela Feldman-Bianco ande do carnaval: brasileiras em Los Angeles, Cadernos Pagu Carlos Vianna, Campinas, Papirus. No prelo.38, Campinas, Unicamp, 313-344, 2007. CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro deBESSA, Karla. Pós-modernismo. Mimeo, IFCH, 1995. especialistas em aspectos da discriminação racial relativosBHAVBANI, Kum Kum. Feminism and Race. Oxford ao gênero, Estudos feministas 1, p.171-189, 2002.University Press, 2001. FIRESTONE, Shulamith. A dialética do sexo. Labor, RioBRAH, Avtar; PHOENIX, Ann. “Ain’t I a Woman? Re- de Janeiro, 1976.
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