20. perdidos na serra

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20. perdidos na serra

  1. 1. PPPPEEEERRRRDDDDIIIIDDDDOOOOSSSS NNNNAAAA SSSSEEEERRRRRRRRAAAA Aventura Texto de: JULIO CARRARA Escrita em 2004
  2. 2. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 1111 PERSONAGENS: ALAN MARÍLIA GABRIEL LILIANE FRED ANA TELMA VELHA CENÁRIO: O prólogo se passa na Serra do Mar. Nas cenas seguintes, na Mata Atlântica. Muitas árvores. O ambiente é sombrio e misterioso. NOTA: Perdidos na Serra é a sequência de Conto de Verão. Para compreender melhor o universo, sugiro a leitura das duas obras.
  3. 3. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 2222 PRÓLOGO (Ouve-se no escuro ruídos de porcos. Luz sobe em resistência. Alan, Marília, Liliane, Gabriel e Fred estão indecisos se entram ou não no veículo.) VOZ DO MOTORISTA Como é que é? Vão ou não aceitar a carona? ALAN E agora, galera? MARÍLIA Nós temos outra saída? ALAN Acho que não. LILIANE Ai, eu não tenho estômago pra ir com esses porcos nojentos. FRED O meu estômago tá revirando com esse cheiro horrível de lavagem. Acho que vou vomitar... MARÍLIA Ah gente, deixa de frescura. GABRIEL Mas a gente não precisa ir com eles. É só rebocar o carro no caminhão e a gente vai dentro dele, só curtindo...
  4. 4. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 3333 ALAN Boa idéia. Vamos vazar... (Enquanto discutem, Ana Telma aparece e entra no porta-malas do Fiat, sem ninguém perceber. Alan pega uma corda e com a ajuda de Gabriel, rebocam o carro no caminhão, enquanto os outros entram no veículo. O caminhão segue viagem, enquanto a galera canta uma música qualquer. O clima é agradável. De repente, Gabriel para de cantar e fica atento nas manobras do caminhoneiro.) GABRIEL Gente, esse cara tá correndo muito. (Buzinas. O caminhoneiro tenta frear, em vão. Uma forte neblina cega os jovens.) FRED (Gritando.) Ai, vai bater. (Começa a rezar.) Ave Maria, cheia de graça... (O caminhoneiro perde a direção e bate. Um forte estrondo é ouvido no áudio, enquanto a corda que rebocava o carro arrebenta e o veículo cai na ribanceira. Todos gritam apavorados. A única visão que o público tem é da forte neblina que encobre todo o espaço cênico. Black-out.) CENA 1 (Luz sobe em resistência revelando a Mata Atlântica. Alan, Marília, Fred, Gabriel e Liliane estão caídos no chão, gemendo. Se recompõe aos poucos. Gabriel se levanta e observa os outros.) GABRIEL Ai... Puta pancada... Tá tudo bem com vocês, galera? Liliane?
  5. 5. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 4444 LILIANE (Suspirando.) Tô bem, só um pouco tonta. GABRIEL Alan, Marília, Fred? ALAN Eu tô legal... MARÍLIA Eu também. GABRIEL (Caminha até Fred.) Fred? (O rapaz não se move.) Fred? (Pausa.) O Fred morreu! (Todos se levantam, sacodem a poeira, tiram as folhas secas do corpo e caminham até ele, apavorados.) ALAN (Coloca a mão sobre o coração do rapaz, em seguida em sua boca para ver se ele respira.) Ele não morreu, não. Só desmaiou... (Tenta reanimá-lo.) Fred! Fred! FRED (Em transe.) ...rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém... (Abre os olhos e sai do transe.) Que bom que vocês me acompanharam. Eu achei que fosse morrer sozinho. GABRIEL Cala a boca, idiota.
  6. 6. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 5555 FRED Eu sempre achei que o céu fosse todo branco e não verde, cheio de árvores... Aqui não é o purgatório, é? Não tenho a mínima idéia de como ele seja. Eu não devia ter pulado essa parte quando li A Divina Comédia pra escola. GABRIEL Você não morreu idiota. Isso aqui é a Serra do Mar, não o purgatório, besta... FRED (Levanta-se e fica feliz.) Eu não morri... eu não morri... (Pula de alegria.) Eu tô vivo... eu tô vivo... Todos nós estamos vivos... LILIANE E perdidos. MARÍLIA Eu tô com medo. ALAN Fica calma. A gente só precisa bolar um jeito de sair daqui o mais rápido possível... GABRIEL Você conhece essa trilha? ALAN Não. (Caminha um pouco.) E sair daqui não vai ser nada fácil. MARÍLIA (Chorando.) Eu quero sair daqui... Eu quero minha casa.
  7. 7. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 6666 ALAN (Grita ao ver o Fiat destroçado.) Não... Não pode ser... LILIANE O que foi? ALAN Meu carro virou sanfona. MARÍLIA Demorou. Foi tarde! Esse lixo só trouxe azar pra gente. GABRIEL Não fique triste, cara. Pense que a gente poderia estar dentro dele, presos nas ferragens... LILIANE E o caminhão de porcos? ALAN Nem sinal dele. LILIANE E agora, o que a gente faz? GABRIEL Acho melhor a gente armar as barracas. Vai que apareça algum bicho... Melhor prevenir do que virar jantar de alguma fera. (Pegam as barracas e começam a montá-las. Enquanto realizam essa tarefa, ouve-se um ruído estranho. Parece um animal ferido. Pausa tensa.)
  8. 8. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 7777 MARÍLIA Vocês ouviram? (Novo ruído.) GABRIEL Acho que é algum bicho... LILIANE Parece estar machucado. (Fred se aproxima e vê algo no chão coberto por folhas. Muito curioso, tira as folhas que cobrem o suposto animal.) FRED (Aos prantos.) Nããããããooooo! TODOS O que foi? (Percebe-se que o suposto bicho é Ana Telma.) FRED Eu devo ter mijado na cruz... O que fiz para merecer isso? ANA TELMA (Gemendo.) Ai, benzinho. Acho que torci meu pé. Me ajuda aqui... (Fred fica sem ação.) GABRIEL Vai Fred, seja cavalheiro com sua mulher...
  9. 9. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 8888 FRED Vão pro inferno... Eu só vou ajudar ela porque não gosto de ver ninguém sofrendo... Eu estaria sendo desumano com ela. LILIANE Ah, Fred, assume logo, vai. Vocês formam um casal bem bonito. GABRIEL (Cochichando.) Eu já vi gente feia, mas igual à ela, nunca. ALAN Ela parece ter nascido ao avesso, coitada! LILIANE Mas pro Fred tá muito bom... FRED (Para Ana Telma.) Você tá bem? ANA TELMA Acho que sim. Só de ter você do meu lado já me sinto bem... Me abraça? (Fred resiste. Os outros começam a zoar com ele, exceto Marília.) TODOS (MENOS MARÍLIA) (Batendo palmas.) Abraça, abraça, abraça... FRED (Para eles.) Eu odeio vocês.
  10. 10. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 9999 GABRIEL Vai Fred, não precisa ficar com vergonha, chega junto. Você não vai fazer uma desfeita dessas... FRED Só porque você tá com essa gostosona da Liliane acha que pode tirar uma da minha cara? GABRIEL Mas essa aí também é gostosona. O que estraga é a cara. É só botar uma máscara nela que resolve o problema. LILIANE O que importa é o conteúdo, não a forma. MARÍLIA Olha quem fala em conteúdo. Logo você Liliane, que não tem nenhum... LILIANE O que você quer dizer com isso? MARÍLIA Isso mesmo que você ouviu. LILIANE Olha aqui, garota, eu não vou permitir que você fique me tirando... Quer partir pra briga? MARÍLIA (Enfrenta-a.) É pra já!
  11. 11. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 10101010 GABRIEL (Separando as duas.) Oh, gente... Paz... LILIANE Foi ela quem começou. Eu estava quietinha no meu canto. MARÍLIA Mas tava caçoando da infeliz... FRED (Berrando.) Chega!!!!! Eu tô cansado de vocês... Não sei por que fiz a cagada de vir pra essa droga de viagem. Eu só me fodi o tempo inteiro. Perdi o casbaço com esse ser de outro planeta que agora não para de me perseguir... Pode existir alguém mais desgraçado do que eu? Eu quero ir embora. (Sai correndo.) Nunca mais quero ver nenhum de vocês outra vez... OS DOIS Fred, volta aqui. (Saem.) ANA TELMA Tchutchuco... Não me deixa. (Gabriel e Alan vão atrás dele. Marília, Liliane e Ana Telma em cena. Marília fica indiferente com Liliane.) LILIANE (Tenta uma reconciliação.) Marília... MARÍLIA Não vem, não, Liliane. Não quero saber de conversa.
  12. 12. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 11111111 LILIANE Foi mal. Desculpa. MARÍLIA Não é pra mim que você tem que pedir desculpa. É pra ela! (Para Ana Telma.) Olha, peço desculpas em nome do grupo. Não sei como você pode aguentar tanta gozação e ficar calada. Por quê? ANA TELMA Eu já me acostumei. MARÍLIA E sua família? ANA TELMA Minha mãe me deixou logo que eu nasci. Meu pai era um estivador do porto de Santos, e na primeira oportunidade entrou clandestinamente num navio e foi sei lá pra onde, me deixando sozinha lá no porto.... Eu só queria um pouco de amor, entendem?...Poder amar alguém e ser correspondida... E quando conheci meu Tchutchuco, achei que ele seria o homem da minha vida. Mas ele vive fugindo de mim! Sabe o que é pior? Eu nunca vou fazer parte de nenhuma turma... MARÍLIA Não fique assim... Quero que saiba que eu serei sua amiga, e não vou me importar com que os outros pensem ou deixem de pensar a seu respeito. LILIANE (Emocionada.) Desculpa, tá?
  13. 13. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 12121212 MARÍLIA (Impaciente.) Não vem com essa, Liliane. Você arrebenta com a menina e acha que pedir desculpa resolve? LILIANE Eu não fiz por mal. Foi só uma brincadeira. MARÍLIA Brincadeira de mau gosto... LILIANE Por que você tá implicando só comigo. Todo mundo tava zoando com ela. Inclusive o Alan. MARÍLIA Porque são uns idiotas. LILIANE Eu não devia ter vindo com vocês. Eu e o Gabriel poderíamos ter pegado um ônibus em São Vicente. E agora estamos aqui, perdidos nessa Serra, onde não há uma alma pra ajudar a gente e eu vou ter que aguentar desaforo? Maldita a hora eu que fiz as pazes com você... MARÍLIA Faço as minhas as suas palavras... ANA TELMA (Acalma os ânimos.) Ei, sem estresse... Vamos parar de brigar? Quem deveria estar chateada era eu, e, no entanto, tô aqui de boa. (Silêncio mortal.) Marília, me dá o seu dedinho. (Marília dá o dedo mínimo para ela.) Liliane, me dá o seu. (Liliane faz o mesmo. Ana Telma junta os dedos mínimos das duas.) Agora vocês vão ficar de bem... As crianças não fazem assim? Brigam, brigam e cinco
  14. 14. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 13131313 minutos depois não fazem as pazes? (Pausa.) De agora em diante não quero ver vocês discutindo, até porque não sabemos até quando vamos ficar aqui. Precisamos buscar uma solução pra sairmos dessa enrascada. Combinado? (As três se olham por um tempo.) MARÍLIA e LILIANE Combinado. (Abraçam-se.) (Ana Telma sorri mostrando a banguela.) MARÍLIA Olha, vamos fazer de tudo para que o Fred se apaixone por você. ANA TELMA (Preocupada.) Ai, ai, ai. Onde será que ele se meteu? LILIANE Pode ficar tranquila. O Alan e o Gabriel seguiram ele. MARÍLIA Espero que não tenham se perdido. (Nesse momento aparece Gabriel e Alan segurando Fred, que se esperneia.) FRED Vocês não podem me obrigar a fazer o que eu não quero. Me solte, eu quero ir embora. ALAN Acorda, cara. A gente tá sem saída...
  15. 15. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 14141414 FRED Me solta... Me solta... Estúpidos. GABRIEL (Para Alan.) Deixa comigo. (Segura Fred pelos ombros com as duas mãos e chacoalha-o com força, como se exorcizasse um demônio. Fala brandindo, olhando para seus olhos.) Fica quieto, fica quieto... Cale a boca, cala a boca... Obedece, obedece... (Em seguida dá três tapas na cara do rapaz, que fica parado e calmo.) Tá mais calmo? FRED (Tranquilíssimo.) Agora tô... ANA TELMA (Abraça o amado.) Meu amor, que bom que você voltou... São e salvo... (Fred se desvencilha dela.) ALAN Gente, precisamos pensar numa forma de sair daqui. Já tá anoitecendo, o frio tá aumentando e não temos água nem comida. GABRIEL Mas e o frango com a farofa? FRED Já era. GABRIEL Mas não sobrou nem uma coxinha, nem uma asinha?
  16. 16. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 15151515 FRED Nada... GABRIEL Danou-se. Tamo fritos ALAN Não tamo, não. Agora precisamos fazer o teste de sobrevivência. Amanhã, logo cedo vamos explorar a Mata e procurar comida. Deve ter várias árvores frutíferas por aqui. E também vamos caçar algum animal pra gente se alimentar... FRED Só espero não ter que comer lesma nem olho de cabra. TODOS Cala a boca, Fred! MARÍLIA Precisamos encontrar alguma cachoeira... Sem água não dá pra ficar... Eu tô louca por um banho. ALAN Pois é. Mas vamos nos recolher, porque amanhã vamos ter um longo dia pela frente. FRED E como vamos dormir se só tem duas barracas? MARÍLIA Dorme três em cada barraca... O Fred, a Tchutchuca e o Gabriel numa e eu, o Alan e a Liliane em outra.
  17. 17. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 16161616 FRED Eu dormir com ela? (Aponta Ana Telma.) Nunca! Prefiro ficar no porta- malas do carro que ainda tá inteiro... É mais seguro. Quero preservar o meu pintinho... Vamos fazer como em São Vicente: o Alan e a Marília numa barraca, o Gabriel e a Liliane em outra e eu substituo o saco de dormir pelo porta-malas do carro. ANA TELMA Mas e eu? FRED Você fica em pé com os braços abertos como um espantalho, que é o que você é.... MARÍLIA (Repreende Fred.) Fred? FRED É isso mesmo... (Vai em direção ao carro.) Bem, vou pros meus aposentos. Boa noite. (Sai.) MARÍLIA Como é mesmo seu nome? ANA TELMA Ana Telma. MARÍLIA Vem, Ana Telma, você dorme na barraca com a gente.
  18. 18. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 17171717 ALAN (Cochicha para Marília.) Não faz isso, amor. Eu não sei o que eu faço se acordo de noite e dou de cara com esse bicho dentro da barraca. MARÍLIA Cala a boca... ANA TELMA Eu não quero atrapalhar vocês... MARÍLIA Não vai atrapalhar em nada... ALAN (Tenta se safar.) Eu tenho chulé, ronco e peido pra caramba.... ANA TELMA Não tem problema... Eu também... GABRIEL (Zomba o amigo.) Ih, fodeu, Alan! Vem Liliane! (Gabriel e Liliane entram na barraca e Marília, Ana Telma e Alan caminham para a outra. Alan é o último a entrar. Gabriel, na abertura de sua barraca, satiriza o amigo.) GABRIEL Cuidado, Alan. Essa baranga pode fazer com você o que fez com o Fred lá em São Vicente... É melhor colocar o cinto de castidade... Dorme bem! E cuidado com o bicho! (Entra na barraca gargalhando. Alan, desolado, entra na barraca. A noite cai. Black- out.)
  19. 19. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 18181818 CENA 2 (Luz volta devagar. Amanhece. Ouvem-se ruídos de pássaros. Ana Telma sai da barraca, faz uns alongamentos nada convencionais e caminha até o porta-malas do carro com uma grande dose de sensualidade. Abre o porta-malas. Fred está chupando o dedo e tudo leva a crer que está tendo um sonho erótico. A garota, delicadamente, o acorda.) ANA TELMA Bom dia, Tchutchuco. FRED (Sonâmbulo, abraça Ana Telma, que deita com ele.) Vem cá, meu amor. Me beija. Quero sentir esses seus lábios carnudos e esse seu hálito de cereja. (Ana Telma beija Fred, que acorda e ao olhar a garota, tem um sobressalto.) O que é isso? Sai daqui, sai... (Sai do porta-malas.) ANA TELMA Foi você quem me puxou, delícia... Eu só fiz o que você pediu... E como você beija bem! Meus lábios estão formigando... Tô toda arrepiada. Agora vai ter que dar conta do recado. FRED (Tem uma ideia.) Eu... eu jogo em outro time. ANA TELMA O quê? FRED Eu gosto do que você gosta. Dou ré no quiabo. ANA TELMA Como?
  20. 20. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 19191919 FRED Eu sou gay. ANA TELMA Conta outra. Ontem você não era. FRED Mas hoje sou. Hoje eu resolver sair do armário. Meu negócio é bofe, racha uó. E se você tentar qualquer coisa comigo de novo eu não respondo por mim. Eu tiro meu sapato e lhe bato com o salto na testa. (Pega uma flor do chão e coloca atrás da orelha e solta a franga.) Eu sou gay...O mundo é gay... (Grita.) Ai, eu tô looooooouca! ANA TELMA Não me decepciona, amor meu. Não faz isso comigo. FRED E vamos deixar de conversa e acordar os outros. Temos que sair atrás de comida e de água, Meu estômago tá nas costas. E se você tentar qualquer coisa comigo... (Põe o dedo indicador na boca e em seguida toca na testa da garota.) Eu te afogo! (Ana Telma fica sem reação. Fred tira um apito da boca e começa a apitá-lo.) FRED Vamos acordar! Ao trabalho, pessoal! (Alan, Marília, Gabriel e Liliane saem das barracas, mal-humorados.) GABRIEL Pô Fred. Você é um mala!
  21. 21. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 20202020 FRED Como vai, meu gatão? (Beija Gabriel e caminha para Alan, anasalando a voz.) E aí bofe, dormiu bem? Ai, eu fico louca quando vejo esses seus olhos e esses seus cachinhos. É super fashion... (Beija Alan.) ALAN O que é isso, Fred? Virou boiola? FRED Pois é. Saí do armário... Fiquei louca!!! (Ana Telma chora num canto.) ANA TELMA Nada dá certo pra mim... GABRIEL (Sacando.) Ah, saquei... (Ri.) Boa jogada, Fred. ALAN Bem gente, ao trabalho. LILIANE Vamos formar dois grupos de três e vasculhar a mata. ALAN Acho perigoso dividir o grupo. A gente não sabe o que pode encontrar pela frente. Vamos ficar todos juntos. É mais seguro. MARÍLIA Eu também acho.
  22. 22. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 21212121 GABRIEL Vou pegar o facão. MARÍLIA Aproveita e pega também as garrafas plásticas pra gente encher de água. (Gabriel sai.) FRED (Tira um estilingue do bolso.) Eu vou armado com esse estilingue. LILIANE Por quê? FRED Pra matar algum animal selvagem que queira nos atacar. TODOS Cala a boca, Fred. (Gabriel volta com o facão e diversas garrafas de 2 litros de refrigerantes, vazias.) GABRIEL Pronto... tá tudo aqui. ALAN (Pega uma bússola.) Essa bússola nos servirá de guia. Bem, ao trabalho!!! (Saem.)
  23. 23. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 22222222 CENA 3 (O palco fica vazio por alguns instantes. Música. Entra em cena uma velha misteriosa. Seu rosto é coberto por rugas, longos cabelos desgrenhados brancos. Parece que esse cabelo nunca viu uma tesoura. É uma figura quase pré-histórica. Seu andar se assemelha com os dos macacos. A velha vasculha os objetos de cena, sem emitir nenhum som. Não encontra nada do que procura e vai se sentar em posição de “iogue”, num canto afastado do palco, lembrando a postura de um dos macacos orientais: o que não fala. Permanece assim por muito tempo.) CENA 4 (Os jovens aparecem todos sujos e suados, carregando nas mãos as vasilhas de refrigerantes cheias de água, cachos de bananas e algumas achas de lenha. Alan traz nas mãos algum animal morto embrulhado numa folha de bananeira. Colocam tudo no centro. Alan acende uma fogueirinha e põe o animal para assar.) MARÍLIA Ufa! FRED (Pega duas bananas, descasca e come uma seguida da outra.) Essa banana tá deliciosa. Acho que vou comer o cacho inteiro. ALAN Nem pensar. Depois vai ficar peidando aí... A gente vai dividir tudo em partes iguais. Todo mundo vai comer a mesma quantidade que o outro. FRED Tá certo. Fico aliviado de saber que não vou precisar comer lesma nem olho de cabra.
  24. 24. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 23232323 ANA TELMA (Começa a sentir enjoo.) Ai... Eu tô enjoada. LILIANE É por causa da fome. Aguente um pouco... ANA TELMA Tá tudo girando... Acho que vou desmaiar. (Desmaia.) ALAN (Corre socorrer a menina.) Ana Telma! Ana Telma! ANA TELMA (recobra os sentidos) Ai... MARÍLIA Tá melhor? Come uma banana... (Ana Telma come a banana) ANA TELMA Tô. Obrigada. MARÍLIA Você tá tremendo... LILIANE Ela tá muito fraca! FRED (Sem se importar.) Ai, deixa essa amapô trash pra lá. ALAN Pô Fred seja mais humano...
  25. 25. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 24242424 ANA TELMA Deixa Alan. Não quero ver ninguém mais brigando por mim. Eu preciso descansar um pouco. Posso ficar lá na sua barraca, Marília? MARÍLIA Claro. Vem que eu te ajudo! (Leva Ana Telma até a barraca e volta para o grupo.) Tô preocupada com ela. Ela tá muito fraca! ALAN Vem comer, Marília. (Alan divide a caça em partes iguais e entrega um pedaço a cada um e separa o de Ana Telma. Comem.) GABRIEL Mas você hein, Fred? FRED O que é que tem? GABRIEL Ficar fingindo que é boiola só pra escapar dela. FRED E eu tive escolha? Cara, essa menina é tarada. Se der moleza ela ataca. Por pouco não fui violentado por ela de novo. Ainda bem que acordei a tempo de escapar. ALAN Fred, numa boa, vocês usaram camisinha?
  26. 26. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 25252525 FRED E de que jeito? Ela pulou em cima de mim feito louca. Achei que fosse quebrar o meu pinto. Ainda bem que tive ejaculação precoce. Foi uma transa de coelho... E eu espero que ela não tenha nenhuma doença venérea. Só faltava eu pegar verruga, igual a que teve o meu amigo Gustavo. MARÍLIA Esses enjoos dela pode ser um aviso... FRED Como? GABRIEL Já parou pra pensar que você possa ter engravidado a Ana Telma, Fred? (Fred engasga, tosse e cospe um pedaço de carne.) FRED Deus não seria tão cruel comigo. ALAN É uma hipótese. FRED Não, não, não!!! (Fred começa a correr desesperado pela mata. Pega uma pedra e atira longe. A pedra atinge os pés da velha que grita de dor.) VELHA AAAAAAAAAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!
  27. 27. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 26262626 (Ela tenta tapar a boca, mas a dor é mais intensa. O grito ecoa pela mata.) MARÍLIA O que foi isso? (Todos caminham na direção do barulho e se espantam ao ver a velha.) GABRIEL Meu Deus. Não bastava uma. Agora temos duas criaturas bizarras no mesmo ambiente? VELHA AAAAAAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiii!!!! (Revoltada, para Fred.) Desgraçado, você me fez quebrar o meu voto de silêncio! FRED Como? VELHA Há mais de vinte anos eu tô calada, sem emitir nenhum som, nenhum ruído e agora você me acerta essa pedra nos pés? AAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiii! (Começa a se empolgar ao se ouvir). Eu estou falando, falando, falando... Há mais de vinte anos eu mantive as palavras dentro de mim e agora sinto um desejo louco de libertá-las. O mameluco melancólico meditava e a megera megalocéfala macabra e maquiavélica mastigava mostarda na maloca miasmática migalhas minguadas de moagem mitigavam míseras meninas moleques magricelas mergulhavam no mucurro murmurando como uma matinada de macacos três pratos de trigo para três tigres um tigre dois tigres três tigres como quiabo cru como quiabo cru como quiabo cru como quiabo cru o peito do pé do padre Pedro é preto quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo olhando pra você e as mesmas emoções sentindo eu vi na tv uma atriz fazendo amor ela olhava o ator como eu olho você com cara de
  28. 28. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 27272727 quem está no céu é proibido fumar diz o aviso que eu li vai lacraia vai lacraia tô mandando um beijinho pra filhinha e pra vovó só não posso esquecer da minha éguinha pocotó pocotó pocotó pocotó pocotó quando a luz dos olhos teus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar ai que bom que isso é meu Deus que frio que me dá o encontro desse olhar entardeceu ai que vontade de brincar de pega-pega de macaca de comer goiaba de trepar no muro se a ran becucanie ninqüencos se a ran becucanie niqüencos mudos nascemos mudos um dia estaremos mas nesse intervalo nos dedicamos a falar fala-se tanto que sem nos darmos conta passamos a maior parte do tempo falando fala-se pelos ouvidos e pelos cotovelos. (Todos ficam boquiabertos e não suportando mais, berram em uníssono.) TODOS Cala a boca! VELHA Não. Vocês me fizeram quebrar o meu voto de silêncio, invadiram a minha mata e agora querem que eu fique quieta? (Volta a falar compulsivamente.) Boi touro rã macaco arara rinoceronte cachorro gato galinha pato porco hipopótamo rato tava a velha em seu lugar veio uma mosca lhe fazer mal a mosca na velha e a velha a fiar tava a mosca em seu lugar veio a aranha lhe fazer mal a aranha na mosca a mosca na velha e a velha a fiar tava a aranha em seu lugar veio um rato lhe fazer mal o rato na aranha a aranha na mosca a mosca na velha e a velha a fiar... (Continua cantando, mais baixo.) MARÍLIA Pelo amor de Deus, Alan, amordace a boca dessa velha. Ela não vai parar de falar pelos próximos 50 anos.
  29. 29. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 28282828 ALAN (Pega uma mordaça e põe na boca da velha que continua cantando “A velha a fiar”.) É fala recolhida, ela precisa liberar. LILIANE Haja saco! GABRIEL E tudo por sua culpa, Fred. FRED Minha culpa? Agora eu sou o culpado de tudo? Não tenho culpa se esse ser pré-histórico fez voto de silêncio... Eu tô preocupado comigo e com o meu futuro... Deus, não me castigue. Oh, Pai, porque me abandonaste? Já sofri o bastante. Poderei suportar mais ainda? MARÍLIA É demais pra minha cabeça. (Ouve-se o ruído de um helicóptero sobrevoando a região. Os jovens olham para cima e começam a acenar para o alto, berrando. O helicóptero desaparece, deixando os jovens frustrados.) LILIANE Droga! Era bom demais pra ser verdade! ALAN Eles podem estar procurando a gente. Com certeza já souberam do acidente. O que nos resta é esperar pelo resgate. (Sentam-se todos, suspirando. A velha continua cantando, mesmo amordaçada. Eles tapam os ouvidos e fecham os olhos.)
  30. 30. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 29292929 CENA 5 (Todos continuam na mesma posição da cena anterior. A velha vai parando de cantar e fica em silêncio. Está ofegante.) LILIANE Até que enfim! Não sei como os pulmões dela puderam suportar tanto! ALAN Será que ela pode nos mostrar a saída? GABRIEL É possível! Afinal ela vive aqui. ALAN Eu vou tirar a mordaça dela. (Faz o que diz. Todos caminham até ela.) Ei senhora, poderia nos mostrar o caminho que leva à estrada? VELHA Poder eu posso. (Todos se alegram.) Mas da minha boca não ouvirão nada! (Todos se entristecem.) Nem uma frase, nem uma palavra, nem uma sílaba, nem uma letra! FRED Mas por quê? VELHA Porque você, seu idiota, me fez quebrar o meu juramento! FRED Eu? Eu ia adivinhar que você tava lá, camuflada, parecendo uma sapa velha no tronco da árvore?
  31. 31. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 30303030 MARÍLIA Peraí... Que juramento? VELHA Eu prometi que nunca mais iria abrir a minha boca, que ia ficar enterrada o resto da minha vida aqui nesta mata, por um crime que cometi. GABRIEL E que crime cometeu? VELHA O pior crime que alguém pode cometer... Eu sou um monstro... (Começa a chorar.) FRED Ah, é mesmo. TODOS Cala a boca, Fred! LILIANE E que crime foi esse? VELHA (Soluçando.) Durante vinte e dois anos estou com a consciência pesada... Nunca mais dormi desde aquele maldito dia... pareço estar com cem anos... FRED Duzentos no mínimo...
  32. 32. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 31313131 MARÍLIA Desabafe com a gente... Isso vai te fazer bem... VELHA Ela era pequena... tinha acabado de nascer... uma criança frágil... Minha família não aceitava a minha gravidez, e eram contra o meu casamento. Meu marido era pobre. Trabalhava como estivador no porto de Santos. E logo que a criança nasceu eu abandonei a criança e fugi de tudo e de todos. Não podia voltar pra casa, não tinha condições de criar o bebê. Deixei ela lá no hospital... era uma menininha... Fugi de lá, deixando pra trás o meu passado, o meu marido e minha filha. Eu queria morrer. Mas como isso não aconteceu, fiz um juramento: eu iria ficar calada até o fim dos meus dias... Vim pra cá, fiz minha cabaninha e vivi durante esses anos todos comendo raízes e frutas... (Altera-se.) E no momento em que estava em êxtase, limpando meu espírito da podridão, me vem esse desgraçado (Para Fred.) e me acerta uma pedra nos pés? (Escutam silenciosamente o relato da velha. Marília e Liliane começam a juntar as peças do quebra cabeças.) MARÍLIA Você está pensando o que eu estou pensando, Liliane? LILIANE Sim. AS DUAS (Num rompante.) A gente sabe onde tá sua filha! MENINOS O quê?
  33. 33. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 32323232 VELHA Como? MARÍLIA Sua filha tá bem próxima da senhora. O que ela nos contou bate com tudo o que a senhora disse. Ela foi abandonada logo que nasceu e seu pai era um estivador do porto de Santos. Tudo se encaixa perfeitamente. ALAN Mas de quem você está falando, Marília? MARÍLIA Da Ana Telma. GABRIEL (Surpreso.) A Ana Telma? LILIANE Olhando bem, vocês são bem parecidas... VELHA E onde ela tá? MARÍLIA Na barraca descansando... Ela não tava passando bem... GABRIEL Gravidez é assim mesmo. VELHA O quê? Minha filha, grávida?
  34. 34. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 33333333 GABRIEL Pois é. FRED Não pode ser... não pode ser... LILIANE É só uma suposição... GABRIEL E esse aqui é o pai da criança... Seu genro. VELHA (Para Fred.) Que Deus o abençoe. Eu quero que você seja muito feliz com minha filha... GABRIEL Aí Fred. Já ganhou a bênção da sogrinha... agora é tarde... FRED Eu te odeio! MARÍLIA Eu vou chamar a Ana Telma... (Caminha até a barraca.) Eu tenho uma surpresa pra você, Ana Telma. ANA TELMA (Saindo da barraca.) O que é? MARÍLIA Vem aqui...
  35. 35. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 34343434 (Coloca Ana Telma de frente para a velha. Ambas se olham. Parecem estar na frente de um espelho. São idênticas.) VELHA (Estendendo os braços.) Filhinha!!! ANA TELMA (Idem.) Mamãe!!! (Música cinematográfica. As duas correm em câmera lenta, se abraçam afetuosamente e choram.) VELHA Como eu sonhei com esse momento... ANA TELMA Eu também... (Tempo.) GABRIEL (Quebra o gelo.) Tá bom... Isso aqui não é o Programa do Gugu! ALAN Bem, agora que resolvemos o problema da senhora, precisamos ir embora. Agora a senhora vai nos mostrar a saída? VELHA Com uma condição... ALAN Qual?
  36. 36. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 35353535 VELHA (Para Fred.) Que eu vá morar com você e com minha filha. FRED Mas a gente nem tá junto... Era tudo brincadeira deles, dona. Esse lance de gravidez não é verdade! VELHA É verdade, sim. Coração de mãe não se engana. Minha filha tá grávida, sim. FRED (Apavorado, tenta sair.) Eu quero sair daqui... VELHA Vai sair daqui direto pra Igreja. Desonrou minha filha, agora vai assumir o que fez... vai se casar com ela e vai criar o filho de vocês... Eu só mostro o caminho de volta se você fizer isso. FRED Prefiro a morte. Ou melhor: vou também fazer um juramento. A partir de agora farei um voto de silêncio e ficarei mudo e enclausurado nesta mata até o fim dos meus dias. (Fica na mesma posição da velha. A velha o agarra e coloca-o de frente com Ana Telma.) VELHA Deixa de fita. Vou fazer o casamento simbólico de vocês (Age como padre.) Ana Telma, aceita... (Não sabe o nome do rapaz e pede auxílio a Gabriel.)
  37. 37. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 36363636 GABRIEL Frederico... FRED Eu te mato! VELHA ... Frederico como seu legítimo esposo? ANA TELMA (Sorri.) Aceito. VELHA Frederico, aceita Ana Telma como sua legítima esposa? (Silêncio mortal. A velha repete a pergunta mais duas vezes.) Diz: aceito. FRED Não tem outra alternativa? VELHA Não... FRED (À contragosto) Tá. Fazer o que. Aceito, né?... VELHA Eu vos declaro marido e mulher... Podem se beijar. (Fred não se move. Ana Telma fica movimentando a boca. A velha repete a pergunta mais duas vezes.) Beija logo! (Ambos se beijam. Fred tenta escapar, mas Ana Telma prolonga o beijo.)
  38. 38. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 37373737 ALAN Agora a senhora pode nos mostrar o caminho? VELHA Agora sim. Venham comigo... (Os jovens desmontam as barracas, colocam as mochilas nas costas e seguem a velha. Alan olha tristemente para os destroços do carro. Marília o abraça afetuosamente e o beija apaixonadamente. Liliane e Gabriel fazem o mesmo. Ana Telma para não ficar por baixo, força Fred a beijá-la. Seguem a velha até saírem de cena. Black-out.) CENA 6 (Estrada. Todos aparecem, exceto a velha. Estão desanimados.) MARÍLIA Vai começar tudo outra vez pela terceira vez... ALAN Só que desta vez, não temos mais o carro... GABRIEL Pois é. Vamos ter que pedir mais uma carona! FRED Na ida fomos com caminhão de galinhas. Na tentativa de volta com um caminhão de porcos e agora, vamos como? (Relinchar de cavalo. entra a velha sentada numa charrete.) VELHA Foi tudo o que consegui...
  39. 39. Julio CarraraJulio CarraraJulio CarraraJulio Carrara Perdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na SerraPerdidos na Serra 38383838 ALAN Vamos nessa, galera! (Os jovens sobem na charrete. O cavalo sai em disparada e o que se ouve além do seu trotar, são os ruídos de latinhas presas por um fio na charrete, comuns em carros de recém-casados. Black-out final.) FIM Agosto/2004

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