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A IRA DOS ANJOS
SIDNEY SHELDON
Este Livro é dedicado com amor a Mary
A Oitava Maravilha do Mundo
As personagens e aconte...
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do Tribunal Criminal do Centro de Manhattan, Sala de Audiências número dezesseis.
Em vez de Suetônio havia um estenógraf...
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Di Silva tinha sido abordado pelo mais poderoso chefe político do estado.
- Com toda a publicidade que está a adquirir c...
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acabados de sair da Faculdade de Direito, jovens ávidos e excitados com o fato de irem trabalhar
para o Procurador Distr...
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verdadeiro Direito que se ocupava dos seres humanos e das suas loucuras. Jennifer fora a segunda
do seu curso e tinha si...
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- Considerava-se íntimo do acusado?
- Objeção! - Thomas Colfax pôs-se de pé. O advogado de defesa de Michael Moretti era...
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- Encontrava-se presente quando eles foram mortos?
- Sim - todo o seu corpo parecia estremecer.
- Quem é que os matou re...
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tomadas contra si?
- Sim, senhor.
- E que está sob juramento e que a vida de um homem se encontra em perigo?
- Sim, senh...
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- Não sou adivinho - Jennifer ouviu a resposta humilde de Di Silva. - É para isso que temos júris,
senhoras e senhores. ...
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- Mr. Di Silva quer que o senhor refresque a sua memória no que respeita a estas datas.
Stela piscou os olhos e continu...
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- Pagar-me? Ninguém me pagou! - A voz de Jennifer tremia de indignação.
Di Silva pegou no já conhecido sobrescrito de p...
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- Sim. Stela está com mais medo deles do que de nós Voltou-se para dirigir a Jennifer um olhar
maldoso. – Está convenci...
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público.
Jennifer não podia acreditar na súbita e horrorosa publicidade de que estava sendo rodeada.
Atacavam-na de tod...
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preto e olhos de um azul-esverdeado. Era um homem compassivo e com um arraigado sentido de
justiça. Não se interessava ...
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aceitava encontrar-se com eles, mas estava demasiado ocupada para pensar em romances sérios.
O Inverno era frio, úmido ...
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- É um dos mais difíceis do país - advertiu-a o Professor Oakes.
Mas Jennifer sabia.
No mesmo dia recebeu a informação ...
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Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era
portador de um sobrescrit...
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Jennifer tinha contado com o seu ordenado como ajudante do Procurador Distrital, mas isso, é
claro, ficara fora de ques...
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- Olá! - Voltou-se de novo para Kenneth Bailey. - E o senhor é as Investigações de Primeira?
- É verdade. Qual é o seu ...
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Todas as manhãs chegava à sua secretária às nove horas em ponto, mas nada mais tinha para fazer
a não ser ouvir Ken Bai...
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“Emma Lazarus”' era uma idiota sentimental, pensou Jennifer.
“Entreguem-me as vossas multidões cansadas, pobres e confu...
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Quer ajudar-me?
Uma hora depois, Jennifer Parker encontrava-se nos suntuosos escritórios da Peabody & Peabody.
Era este...
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Os ladrões não usavam fatos feitos por medida, nem sapatos Gucci, nem gravatas de seda. Nem
tinham mãos esguias e sensí...
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- Mais chá, Adam? - ofereceu Stewart Needham.
- Não, obrigado. - Adam Warner detestava chá mas, de há oito anos para cá...
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- O nosso respeitável Procurador Distrital perguntou especificamente por ti. Quer ter a certeza de
que nada vai falhar....
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PARKER: Já lhe disse. Vi-o falar consigo, em seguida encaminhou-se para mim com este
sobrescrito, chamou-me pelo meu no...
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Para surpresa de Adam Warner, o caso Jennifer Parker nãoia ser resolvido tão facilmente. Como
homem metódico que era, A...
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novo na ficha de Jennifer Parker, rabiscou umas notas e começou a fazer algumas chamadas
interurbanas.
Adam tomara uma ...
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Vá-se embora, por favor!
Jennifer deu meia volta e refugiou-se na casa de banho, fechando a porta com violência.
Ficou ...
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O rosto de Adam endureceu.
- Lamento, Miss Parker. - Pôs-se de pé e começou a dirigir-se para a porta.
- Espere um minu...
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Jennifer sentiu um nó súbito na garganta. Não tinha a certeza de conseguir falar. Acenou com a
cabeça.
- Quero que me d...
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Mr. Warner, mas não faço a mínima idéia.
- Tem havido muitas pressões. O Procurador Distrital Di Silva andou muito temp...
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- Adam. . .
- Sim?
- Espero não estragar o nosso relacionamento mas murmurou Jennifer -, estou a morrer de fome!
As sem...
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Até essa altura, Jennifer só tinha contatado com secretárias e amanuenses da empresa Peabody.
Era uma firma grande e pr...
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Às duas horas daquela mesma tarde, Jennifer encontrava-se em frente da imponente quinta de
William Carlisle. A casa era...
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árvores nenhumas.
Jennifer encolheu os ombros e replicou:
- O meu chefe disse-me que sim.
- Onde é que posso entrar em ...
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Por fim, Robert Di Silva acabara por declarar:
- Okay, ela continua sendo advogada. Só peço a Deus que exerça em Nova Y...
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Jennifer.
- Vou sentir a sua falta. - E Jennifer era sincera ao dizê-lo. Tinha se lhe afeiçoado muito.
- Tome conta de ...
A ira dos anjos - Sidney Sheldon
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Jennifer Parker realiza seu sonho ao ingressar na equipe do Promotor Distrital de Manhattan, em Nova York. Sua carreira, no entanto, dura exatamente quatro horas - tempo que leva para cair em uma cilada, durante o primeiro julgamento do qual participa. Acusada de suborno, vê seus projetos irem por água abaixo: além do risco de ter a carteira de advogada cassada. Jennifer pode passar o resto de seus dias na cadeia. Assim começa a história de uma jovem bonita e inteligente e dos homens que influenciam sua vida, entre eles o íntegro Adam Warner, destinado a ser um líder de seu país, e Michael Moretti, um anjo das trevas que procura espalhar suas asas de terror sobre tudo e todos. Considerada por muitos como a mais extraordinária criação de Sidney Sheldon.

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  1. 1. 1 A IRA DOS ANJOS SIDNEY SHELDON Este Livro é dedicado com amor a Mary A Oitava Maravilha do Mundo As personagens e acontecimentos deste romance são imaginários. O ambiente, contudo, é real, e agradeço a todos os que generosamente me ajudaram a penetrá-lo. Em certos casos, tomei as liberdades dramáticas que considerei necessárias. Quaisquer erros legais ou factuais são da minha exclusiva responsabilidade. Estou profundamente grato a F. Leé Bailey, Melvin Belli, Paul Caruso, William Hundley, Luke McKissack, Louis Nizer, Jerome Shestack e a Peter Taft por terem partilhado comigo as suas vidas e experiências nas salas de tribunal. Na Califórnia, o Ilustre Wm. Matthew Byrne, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos, foi-me extremamente útil. Em Nova lorque, devo um agradecimento muito especial a Phil Leshin, antigo Comissário Adjunto das Relações Públicas do Departamento Correcional da Cidade de Nova Iorque, por me ter acompanhado através de Riker's Island, e a Pat Perry, Sub-Director Substituto de Riker's Island. A supervisão e as indicações jurídicas de Barry Dastin foram de um valor inestimável. Agradeço a Alice Fisher a sua colaboração na revisão deste livro. E, finalmente, um obrigado a Catherine Munro que, cheia de paciência e alegria, copiou e datilografou, mais de uma dúzia de vezes ao longo de um período de quase três anos, aquilo que começou por ser um manuscrito de mil páginas. SIDNEY SHELDON . . . Fala-nos dos exércitos secretos do mal, ó Cimon. . . Os seus nomes não podem ser pronunciados em voz alta para que não profanem os lábios dos mortais, pois vieram das trevas ímpiase atacaram os céus, mas foram expulsos pela ira dos anjos. . LIVRO I Nova Yorque: 4 de Setembro de 1969 Os caçadores preparavam-se para a matança. Há dois mil anos atrás, em Roma, o torneio teria decorrido no Circo de Nero ou no Coliseu, onde leões vorazes se teriamaproximado silenciosamente da vítima, numa arena de sangue e de areia, ansiosos por a despedaçarem. Mas agora estava-se no civilizado século vinte, e o circo era o Edifício
  2. 2. 2 do Tribunal Criminal do Centro de Manhattan, Sala de Audiências número dezesseis. Em vez de Suetônio havia um estenógrafo do tribunal, encarregado de registrar o acontecimento para a posteridade, e dúzias de homens da imprensa e de visitantes atraídos pelos títulos diários sobre o julgamento do homicídio faziam bicha no exterior da sala, às sete horas da manhã, para assegurarem o seu lugar. O acusado, Michael Moretti, um homem calado e elegante de pouco mais de trinta anos, estava sentado no banco dos réus. Era alto e magro, com o rosto formado por planos convergentes que lhe davam um ar severo e feroz. O seu curto cabelo preto estava penteado à moda, tinha um queixo saliente com uma cova inesperada e profundos olhos verde-escuros. Usava um impecável fato cinzento, camisa azul-clara com uma gravata de seda de um azul mais escuro e sapatos de verniz feitos de encomenda. À exceção dos olhos, que percorriam constantemente a sala, Michael Moretti parecia calmo. O leão que o atacava era Robert Di Silva, o impetuoso Procurador Distrital para a Comarca de Nova Yorque, representante do povo. Se Michael Moretti irradiava calma, Robert Di Silva irradiava dinamismo; vivia a vida como se estivesse cinco minutos atrasado para um encontro. Estava em constante movimento, lutando em segredo contra antagonistas invisíveis. Tinha uma constituição robusta e vigorosa e o cabelo, com um corte antiquado, começava já a branquear. Na sua juventude, Di Silva fora pugilista, e o nariz e o rosto conservavam as cicatrizes dessa atividade. Um dia matara um homem no ringue, mas nunca o lamentara. Nos anos que se seguiram, teve ainda de aprender o que era a compaixão. Robert Di Silva era um homem de uma ambição desmedida que conseguira alcançar a sua posição atual sem o auxílio do dinheiro nem das relações. Durante a sua ascensão, revestira-se da aparência de um civilizado servidor do povo; mas, no íntimo, era um lutador inato, um homem que não esquecia nem perdoava. Em circunstâncias normais, o Procurador Distrital Di Silva não se teria encontrado hoje nesta sala de audiências. Tinha um grande grupo de pessoal, e qualquer um dos seus ajudantes superiores estava apto a encarregar-se deste caso. Mas Di Silva soubera, desde o início, que ia ser ele próprio a tratar do caso Moretti. Michael Moretti era notícia de primeira página e genro de Antonio Granelli, capo di capi, chefe da maior família da Máfia da zona oriental. Antonio Granelli estava a ficar velho e era voz corrente que Michel Moretti estava a preparar-se para ocupar o lugar do sogro. Moretti estivera implicado em dúzias de crimes, desde a mutilação de pessoas até ao assassínio, mas nunca nenhum procurador distrital conseguira provar o que quer que fosse. Havia demasiadas proteções cautelosas entre Moretti e aqueles que executavam as suas ordens. O próprio Di Silva tinha passado três anos a tentar reunir provas contra Moretti. Então, de súbito, Di Silva fora bem sucedido. Camillo Stela, um dos soldati de Moretti, tinha sido preso por um crime cometido durante um assalto. Para salvar a vida, Stela concordou em cantar. Foi a música mais maravilhosa que Di Silva ouviu em toda a sua vida, uma canção que ia pôr de rastos a mais poderosa família da Máfia da zona oriental que ia mandar Michael Moretti para a cadeira elétrica e fazer de Robert Di Silva governador da Albânia. Outros governadores de Nova Yorque tinham conseguido chegar à Casa Branca: Martin Van Buren, Grover Cleveland, Teddy Roosevelt e Franklin Roosevelt. Di Silva tencionava ser o próximo. A programação do tempo estava perfeita. As eleições governamentais iam efetuar-se no próximo ano.
  3. 3. 3 Di Silva tinha sido abordado pelo mais poderoso chefe político do estado. - Com toda a publicidade que está a adquirir com este caso, você é um dos favoritos para ser proposto e eleito governador, Bobby. Deite a mão a Moretti e será o nosso candidato. Robert Di Silva não fizera as coisas ao acaso. Preparou o caso contra Michael Moretti com um cuidado meticuloso. Pôs os seus ajudantes a reunir provas, a juntar todos os fragmentos soltos, a cortar todas as vias legais de fuga que o advogado de Moretti tentasse explorar. Um a um, todos os meios de evasão tinham sido fechados. Tinham sido necessárias quase duas semanas para escolher o júri, e o Procurador Distrital insistira em selecionar seis "pneus sobressalentes" - jurados substitutos - como uma precaução contra um possível julgamento incorreto. Em alguns casos em que tinham estado envolvidas figuras importantes da Máfia, certos jurados haviam desaparecido ou sofrido inexplicáveis acidentes fatais. Di Silva providenciara para que este júri fosse seqüestrado desde o início, fechado à chave todas as noites num lugar onde ninguém pudesse aproximar-se dele. A chave do caso contra Michael Moretti era Camillo Stela, e a principal testemunha de Di Silva encontrava-se fortemente protegida. É que o Procurador Distrital recordava-se bem demais do exemplo de Abe Kid Twist, a testemunha governamental que “caíra" de uma janela do sexto andar do Half Moon Hotel, em Coney Island, embora se encontrasse guardado por meia dúzia de polícias. Robert Di Silva escolhera ele próprio os guardas de Camillo Stella e, antes do julgamento, Stella tinha sido levado em segredo, todas as noites, para locais diferentes. Agora, com o julgamento em curso, Stella era mantido em segurança numa cela isolada, guardado por quatro agentes armados. Ninguém estava autorizado a aproximar-se dele, pois a decisão de Stela em testemunhar baseava-se na sua convicção de que o Procurador Distrital Di Silva seria capaz de o proteger da vingança de Michel Moretti. Estava-se na manhã do quinto dia de julgamento. Era o primeiro dia de Jennifer Parker no tribunal. Estava sentada no banco do promotor público com mais cinco jovens ajudantes do procurador distrital que, juntamente com ela, tinham prestado juramento naquela manhã. Jennifer Parker era uma esbelta rapariga de vinte e quatro anos de cabelo escuro e tez pálida, com um rosto inteligente e volúvel e de pensativos olhos verdes. Tinha um rosto mais atraente do que belo, um rosto que refletia orgulho, corageme sensibilidade, um rosto que não era fácil esquecer. Estava sentada muito direita, como se se defrontasse com invisíveis fantasmas do passado. O dia começara muito mal para Jennifer Parker. A cerimônia do juramento, no gabinete do Procurador Distrital, estava marcada para as oito horas da manhã. Jennifer arranjara cuidadosamente a roupa, na noite anterior, e pusera o relógio a despertar para as seis, de modo a poder ter tempo de lavar a cabeça. O relógio não despertou. Jennifer acordou às sete e meiae entrou em pânico. Fez uma malha na meia quando partiu o salto do sapato e foi obrigada a mudar de fato. Acabava de bater com a porta do seu minúsculo apartamento, quando descobriu que deixara as chaves lá dentro. Tinha planeado ir de autocarro para o Edifício do Tribunal Criminal, mas isso agora estava fora de questão, e correu para apanhar um táxi, que era um luxo a que não podia dar-se e foi conduzida por um motorista que lhe explicou, ao longo de todo o trajeto, o motivo pelo qual se aproximava o fim do mundo. Quando, por fim, Jennifer chegou, ofegante, ao Edifício do Tribunal Criminal, no número 115 da Leonard Street, estava quinze minutos atrasada. Havia vinte e cinco advogados reunidos no gabinete do Procurador Distrital, a maior parte deles
  4. 4. 4 acabados de sair da Faculdade de Direito, jovens ávidos e excitados com o fato de irem trabalhar para o Procurador Distrital da Comarca de Nova Yorque. O gabinete era magnífico, com almofadas de madeira e decorado com um bom gosto sóbrio. Havia uma grande secretária à frente da qual se encontravam três cadeiras, uma confortável cadeira de couro por trás dela, uma mesa de reuniões com doze cadeiras em volta e estantes repletas de livros de Direito. Nas paredes havia fotografias autografadas de J. Edgar Hoover John Lindsay, Richard Nixon e Jack Dempsey. Quando Jennifer entrou no gabinete, desfazendo-se em desculpas, Di Silva encontrava-se a meio de um discurso. Fez uma pausa, desviou a atenção para Jennifer e perguntou: - Que raio pensa a senhora que isto é - um chá? - Lamento imenso, eu. . . - Quero lá saber que lamente! Não volte a chegar atrasada ! Os outros olharam para Jennifer, disfarçando cuidadosamente a sua solidariedade. Di Silva voltou-se para o grupo e falou de improviso: - Conheço o motivo pelo qual aqui se encontram. Vão andar por aí o tempo suficiente para me interrogarem minuciosamente e aprenderem meia dúzia de truques de tribunal e depois vão achar que estão preparados e ir-se-ão embora para se tornarem em importantes advogados de Direito Penal. Mas talvez um de vós - talvez - seja suficientemente bom para ocupar um dia o meu lugar - Di Silva fez um sinal ao seu ajudante. - Fá-los prestar juramento. E eles juraram em voz baixa. Quando tudo acabou, Di Silva disse: - Muito bem. Que Deus nos ajude! Este gabinete é o palco da ação, mas não percam a esperança. Vão mergulhar o nariz em investigações legais e em minutas de documentos intimações, procurações - todas aquelas coisas maravilhosas que vos ensinaram na Faculdade de Direito. Não vão poder ocupar-se de um julgamento antes de um ou dois anos. Di Silva fez uma pausa para acender um charuto curto e grosso. -Neste momento estou a ocupar-me de um processo. Talvez alguns de vós tenham já lido a esse respeito - o tom da sua voz tornara-se sarcástico. - Posso utilizar meia dúzia de vocês para me levarem recados. - A mão de Jennifer foi a primeira a erguer- se. Di Silva hesitou durante um momento e em seguida, escolheu-a, juntamente com outros cinco. - Dirijam-se à Sala de Audiências Dezesseis. Quando abandonaram a sala, foram-lhes entregues cartões de identificação. Jennifer não se sentira desencorajada pela atitude do Procurador Distrital.Tem de ser duro..,pensou. Desempenha um cargo duro. E agora trabalhava para ele. Fazia parte da equipa do Procurador Distrital da Comarca de Nova Yorque! Os anos intermináveis passados naquela droga da Faculdade de Direito tinham chegado ao fim. Os seus professores tinham conseguido que o Direito parecesse atrativo e antiquado mas, por trás disso, Jennifer fora sempre capaz de descortinar a Terra Prometida: o
  5. 5. 5 verdadeiro Direito que se ocupava dos seres humanos e das suas loucuras. Jennifer fora a segunda do seu curso e tinha sido mencionada na Revista de Direito. Obtivera aprovação, à primeira tentativa, no exame para exercer advocacia enquanto que a terça parte dos que tinham ido com ela, falhara. Sentia que compreendia Robert Di Silva, e tinha a certeza de que seria capaz de desempenhar qualquer missão de que ele a incumbisse. Jennifer fizera bem o seu trabalho. Sabia que existiam quatro secções diferentes a cargo do Procurador Distrital - Julgamentos, Apelações, Contas e Fraudes - e perguntava a si própria para qual delas iria ser designada. Havia mais de duzentos ajudantes de procurador distrital na cidade de Nova Yorque e cinco procuradores distritais, um para cada município. Mas, como é evidente, o município mais importante era Manhattan: Robert Di Silva. Jennifer encontrava-se agora sentada na sala de audiências, no banco do promotor público, vendo trabalhar Robert Di Silva, um Juiz poderoso e implacável. Jennifer olhou de relance para o réu, Michael Moretti. Apesar de tudo o que Jennifer lera a seu respeito, não podia convencer-se de que Michael Moretti fosse um assassino. Parece um jovem ator de cinema num cenário de tribunal, pensou Jennifer. Estava ali sentado, sem se mexer, e só os profundos olhos negros traíam a perturbação interior que devia sentir. Moviam-se sem cessar, examinando todos os cantos da sala como se tentassem descobrir um meio de evasão. Mas não havia hipótese, Di Silva providenciara nesse sentido. Camillo Stela estava no banco das testemunhas. Se Stela fosse um animal, teria sido uma doninha. possuía um rostoesguio e atormentado, com lábios finos e dentes amarelos e salientes. Os olhos eram dardejantes e manhosos e duvidava-se dele antes mesmo de ele abrir a boca. Robert Di Silva tinha consciência das fraquezas da sua testemunha, mas não se importava com elas. O que lhe interessava era aquilo que Stela tinha para dizer. Tinha para contar histórias de terror que nunca contara antes e que tinham um inconfundível toque de verdade. O Procurador Distrital encaminhou-se para o lugar das testemunhas onde Camillo Stela tinha prestado juramento. - Mr. Stela, quero que este tribunal saiba que o senhor é uma testemunha relutante e que, para o persuadir a prestar declarações, o Estado concordou em autorizá-lo a apelar para acusação menor de homicídio involuntário no assassínio de que é acusado. É verdade? - Sim, senhor - o braço direito estremecia-lhe. - Mr. Stela, conhece o acusado, Michael Moretti? - Sim, senhor - conservava o olhar afastado do banco dos réus em que Michael Moretti estava sentado. - Qual era a natureza do vosso relacionamento? - Trabalhei para Mike. - Há quanto tempo conhece Michael Moretti? - Há cerca de dez anos - a sua voz quase não se ouvia. - Pode falar mais alto, por favor? - Há cerca de dez anos - agora era o pescoço que lhe estremecia.
  6. 6. 6 - Considerava-se íntimo do acusado? - Objeção! - Thomas Colfax pôs-se de pé. O advogado de defesa de Michael Moretti era um homem alto e grisalho, de uns cinqüenta anos de idade, consigliere do Sindicato e um dos mais sagazes advogados de Direito Penal do país. – O Procurador Distrital está a tentar manipular a testemunha. - Objeção aceita - declarou o Juiz Lawrence Waldeman. - Vou reformular a pergunta. Que tipo de trabalho executou para Mr. Moretti? - Eu era uma espécie daquilo a que se pode chamar de eliminador de dificuldades. - Poderia ser um pouco mais explícito? - Sim. Se surgia algum problema. . . Se alguém punha o pé em ramo verde. . . Mike mandava-me meter o tipo na ordem. - Como é que fazia isso? - Sabe. . . músculo. - Pode dar um exemplo ao júri? Thomas Colfax erguera-se. - Objeção, Vossa Honra. Esta linha de interrogatório é imaterial. - Objeção recusada. A testemunha pode responder. - Bom, Mike empresta dinheiro a juros, não é? Há alguns anos atrás, Jimmy Serrano atrasou-se nos pagamentos e Mike mandou-me dar uma lição a Jimmy. - Em que consistiu essa lição? - Parti-lhe as pernas. Sabe... - explicou Sela, muito sério - se se deixa passar um tipo, todos os outros vão querer fazer a mesma coisa. Pelo canto do olho, Robert Di Silva via as reações horrorizadas no rosto dos jurados. - Em que negócios estava metido Michael Moretti, para além da usura? - Jesus! Diga o senhor! - Gostaria que fosse o senhor a dizê-lo, Mr. Stela. - Bem, no cais, Mike ganhou bastante dinheiro com o sindicato. O mesmo aconteceu com a indústria do vestuário. Mike estava metido no jogo, em juke boxes, na recolha do lixo, no fornecimento de roupas. Coisas assim. - Mr. Stela, Michael Moretti é acusado de ter assassinado Eddie e Albert Ramos. Conhecia-os? - Oh, é claro.
  7. 7. 7 - Encontrava-se presente quando eles foram mortos? - Sim - todo o seu corpo parecia estremecer. - Quem é que os matou realmente? - Mike. - Por um segundo, o seu olhar cruzou-se com o de Michael Moretti, e Stela desviou rapidamente o seu. - Michael Moretti? - Sim. - Qual foi o motivo que o acusado invocou para querer que os irmãos Ramos fossem mortos? - Bem, Eddie e A1 dirigiam um registro de... - Era uma agência de apostas? Apostas ilegais? - Sim. Mike descobriu que eles estavam a passar por cima dele. Tinha de lhes dar uma lição porque faziam parte dos homens dele, sabe? Então pensou... - Objeção ! - Aceite. A testemunha deve limitar-se aos fatos. - Os fatos foram que Mike me mandou convidar os rapazes... - Eddie e Albert Ramos? - Sim. Para uma pequena festa no Pelican. É um clube de praia privado - o braço começou-lhe de novo a tremer e Stela, apercebendo-se disso, agarrou-o com a outra mão. Jennifer Parker voltou-se para olhar Michael Moretti. Continuava impassível, a observar tudo, o rosto e o corpo imóveis. - O que se passou então, Mr. Stela? - Fui buscar Eddie e A1 e levei-os para o estacionamento. Mike encontrava-se lá, à espera. Quando os tipos saíram do carro, desviei-me e Mike começou a disparar. - Viu cair os irmãos Ramos? - Sim, senhor. - E estavam mortos? - Pelo menos foram enterrados como se estivessem mortos. Ouviu-se uma onda de murmúrios através da sala do tribunal. Di Silva esperou que se restabelecesse o silêncio. - Mr. Stela, sabe que as declarações que acaba de prestar nesta sala de audiências podem ser
  8. 8. 8 tomadas contra si? - Sim, senhor. - E que está sob juramento e que a vida de um homem se encontra em perigo? - Sim, senhor. - O senhor viu o acusado, Michael Moretti, matar dois homens, a sangue-frio, por lhe terem sonegado dinheiro? - Objeção! Ele está a manipular a testemunha. - Recusada. O Procurador Distrital Di Silva olhou para as caras dos jurados, e, aquilo que viu, disse-lhe que a sua causa estava ganha. Voltou-se para Camillo Stela. - Mr. Stela, sei que precisou de muita coragem para entrar nesta sala de audiências e testemunhar. Em nome do povo deste estado, quero apresentar-lhe os meus agradecimentos Di Silva voltou-se para Thomas Colfax. - A testemunha é sua. Thomas Colfax ergueu-se com dignidade. - Muito obrigado, Mr. Di Silva. - Consultou de relance o relógio da parede e, em seguida, virou-se para o estrado do juiz. - É quase meio-dia, Vossa Honra. Preferia que o meu contra-interrogatório não fosse interrompido. Posso solicitar que o tribunal seja agora suspenso para almoço e que eu contra-interrogue durante a tarde? - Muito bem - o Juiz Lawrence Waldman bateu na mesa com o martelo. - Este tribunal fica suspenso até às duas horas. Todos os que se encontravam na sala de audiências se levantaram e atravessaram a porta lateral em direção às respectivas dependências. Os jurados começaram a abandonar a sala, uns atrás dos outros. Quatro agentes armados rodearam Camillo Stela e escoltaram-no através de uma porta situada perto da frente da sala de audiências e que conduzia à sala das testemunhas. Di Silva viu-se imediatamente rodeado de repórteres. - Quer prestar alguma declaração? - Como pensa que vai terminar o caso, senhor Procurador Distrital? - De que modo vai proteger Stela quando isto acabar? Se as circunstâncias fossem outras, Robert Di Silva não teria tolerado uma tal intromissão na sala de audiências mas, neste momento, dadas as suas ambições políticas, necessitava de manter a imprensa do seu lado, e assim esforçou-se por os tratar com delicadeza. Jennifer Parker continuava sentada, observando o Procurador Distrital esquivar-se às perguntas dos jornalistas. - Vai conseguir uma prova de culpabilidade?
  9. 9. 9 - Não sou adivinho - Jennifer ouviu a resposta humilde de Di Silva. - É para isso que temos júris, senhoras e senhores. Os jurados é que terão de decidir se Mr. Moretti está inocente ou culpado. Jennifer viu que Michael Moretti se levantava. Tinha uma expressão calma e tranqüila. Pueril foi a palavra que veio à mente de Jennifer. Era-lhe difícil acreditar que ele fosse culpado de todas as coisas terríveis de que o acusavam. Se eu tivesse de escolher o culpado, pensou Jennifer, "escolhia Stela, o “Tremeliques”... Os jornalistas tinham-se afastado e Di Silva conferenciava agora com alguns elementos da sua equipa. Jennifer teria dado tudo para ouvir o que diziam. Jennifer viu um homem dizer algo a Di Silva, destacar-se do grupo que rodeava o Procurador Distrital e encaminhar-se a toda a pressa para Jennifer. Era portador de um enorme sobrescrito de papel manilha. - Miss Parker? Jennifer ergueu os olhos, surpreendida. - Sim? - O chefe quer que entregue isto a Stela. Diga-lhe que procure recordar-se destas datas. Colfax vai tentar deitar abaixo o seu testemunho, esta tarde, e o chefe quer ter a certeza de que Stela não vai baralhar tudo. Entregou o sobrescrito a Jennifer e ela olhou para Di Silva. Lembrou-se do meu nome, pensou.É bom sinal. - É melhor ir já. O Procurador Distrital está convencido de que não vai ser fácil para Stela. - Sim, senhor. - E Jennifer apressou-se. Encaminhou-se para a porta através da qual vira desaparecer Stela. Um agente armado barrou-lhe a passagem. - Posso ajudá-la, menina? - Serviço do Procurador Distrital - declarou Jennifer num tom decidido. Puxou do cartão de identificação e mostrou-lhe. - Tenho de entregar um sobrescrito a Mr. Stela da parte de Mr. Di Silva. O guarda examinou cuidadosamente o cartão, depois abriu a porta e Jennifer viu-se no interior da sala das testemunhas. Era uma sala pequena e de aspecto desconfortável, cujo mobiliário consistia numa secretária quebrada, num sofá velho e em algumas cadeiras de madeira. Stela estava sentado numa delas e o braço tremia-lhe freneticamente. Encontravam-se na sala quatro agentes armados. Quando Jennifer entrou, um dos guardas interpelou-a: - Alto lá! Ninguém pode entrar aqui! - Não há problema, A1. É serviço do Procurador Distrital - esclareceu o guarda que se encontrava do lado de fora. Jennifer estendeu o sobrescrito a Stela.
  10. 10. 10 - Mr. Di Silva quer que o senhor refresque a sua memória no que respeita a estas datas. Stela piscou os olhos e continuou a estremecer. Quando Jennifer se preparava para sair do Edifício do Tribunal Criminal para ir almoçar, passou pela porta aberta de uma sala de audiências deserta. Não resistiu a entrar por uns momentos. Havia quinze filas de bancos para o público, de cada lado da zona do fundo. Em frente da bancada do juiz estavam duas mesas compridas, a da esquerda com o letreiro Queixoso e a da direita com o letreiro Réu. A zona dos jurados era constituída por duas filas de oito cadeiras. É uma vulgar sala de audiências", pensou Jennifer, modesta, feia até - mas é o coração da liberdade.., Esta sala e todas as outras salas de tribunal como ela, representavam a diferença entre a civilização e a selvajaria. O direito a um julgamento por um júri constituído por pessoas iguais a nós era o que sossegava a alma de todos os países livres. Jennifer pensou em todas as nações do mundo que não possuíam esta pequena sala, países em que cidadãos eram arrancados das suas camas a meio da noite e torturados e assassinados por inimigos anônimos por razões desconhecidas: Irão, Uganda, Argentina, Peru, Brasil, Romênia, Rússia, Tchecoslováquia. . . a extensão da lista era deprimente. Se os tribunais americanos fossem algum dia despojados do seu poder, pensou Jennifer, se negassem aos cidadãos o direito ao julgamento por um júri, então a América deixaria de existir como nação livre. Fazia agora parte do sistema e, ao encontrar-se ali, de pé, Jennifer foi invadida por um irresistível sentimento de orgulho. Iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para o honrar, para ajudar a preservá-lo. Permaneceu ali durante muito tempo e, por fim, preparou-se para sair. Vindo do fundo do átrio, ouvia-se um sussurro distante que se foi tornando cada vez mais forte e que, finalmente, se transformou num pandemônio. As campainhas de alarme começaram a tocar. Jennifer ouviu o som de pés que corriam pelo corredor e viu polícias que, com as armas apontadas, se precipitavam para a entrada principal do Palácio da Justiça. O primeiro pensamento de Jennifer foi que Michael Moretti se evadira, que conseguira, de qualquer maneira, transpor a barreira de guardas. Saiu rapidamente para o corredor. Era uma confusão. As pessoas corriam desvairadas de um lado para o outro, gritando ordens por cima do ruído estridente das campainhas. A polícia de choque tomara posições junto das portas de saída. Os jornalistas, que tinham estado a telefonar os seus artigos, precipitavam-se para o corredor tentando descobrir o que se estava a passar. Quase ao fundo do átrio, Jennifer viu o Procurador Distrital Robert Di Silva que, furioso e de rosto muito corado, dava instruções a meia dúzia de polícias. “Meu Deus! Vai ter um ataque cardíaco", pensou Jennifer. Abriu caminho por entre a multidão e dirigiu-se para ele, pensando que talvez pudesse ser-lhe útil. Ao aproximar-se, um dos agentes que estivera de guarda a Camillo Stela levantou os olhos e viu Jennifer. Ergueu um braço, apontou para ela e, cinco segundos depois, Jennifer Parker sentiu-se agarrada, algemada e presa. Encontravam-se quatro pessoas no gabinete do Juiz Waldman, o Procurador Distrital Robert Di Silva, Thomas Colfax e Jennifer. - Tem direito a mandar chamar um advogado antes de prestar qualquer declaração - informou-a o Juiz Waldman -, e tem também o direito de se calar. Se. . . - Não preciso de nenhum advogado, Vossa Honra! Posso explicar o que aconteceu. Robert Di Silva estava tão inclinado para ela que Jennifer conseguia ver-lhe latejar uma veia na têmpora. - Quem lhe pagou para entregar aquele embrulho a Camillo Stela?
  11. 11. 11 - Pagar-me? Ninguém me pagou! - A voz de Jennifer tremia de indignação. Di Silva pegou no já conhecido sobrescrito de papel manilha, que se encontrava sobre a secretária do Juiz Waldman. - Ninguém lhe pagou? Foi ter com a minha testemunha, sem mais nem menos, para lhe entregar isto? - Agitou o sobrescrito e o corpo de um canário amarelo caiu sobre a secretária. Tinham-lhe partido o pescoço. Jennifer fitou-o, horrorizada. - Eu. . . um dos seus homens. . . deu-me. . . . - Qual dos meus homens? - Eu. . . eu não sei. - Mas sabe que era um dos meus homens. - Na sua voz transparecia um tom de incredulidade. - Sim. Vi-o falar consigo, em seguida encaminhou-se para mim, entregou-me o sobrescrito, e disse- me que o senhor queria que eu o levasse a Mr. Stela. Ele. . . ele até sabia o meu nome. - Aposto que sim. Quanto é que lhe pagaram? “É um pesadelo", pensou Jennifer. Vou acordar a qualquer momento, serão seis horas da manhã, vou vestir-me e ser admitida na equipa do Procurador Distrital." - Quanto? - A ira dele era tão violenta que obrigou Jennifer a pôr-se de pé. - Está a acusar-me de. . . ? - Acusá-la! - Robert Di Silva cerrou os punhos. Minha senhora, ainda nem sequer comecei. Na altura em que sair da prisão, já estará velha de mais para gastar esse dinheiro. - Não há dinheiro nenhum! - E Jennifer olhou-o com ar de desafio. Thomas Colfax tinha estado sentado lá atrás, escutando a conversa em silêncio. - Perdoe-me, Vossa Honra, mas receio que isto não nos leve a nenhum lado. - Concordo - replicou o Juiz Waldman. Voltou-se para o Procurador Distrital. - O que tenciona fazer? Stela continua a querer ser contra-interrogado? - Contra-interrogado? É um caso perdido! Está completamente apavorado. Não voltará a comparecer. - Se eu não puder contra-interrogar a principal testemunha de acusação, Vossa Honra, terei de declarar o julgamento incorreto. Todos os que se encontravam na sala sabiam o que isso significaria: Michael Moretti iria abandonar a sala de audiências como homem livre. O Juiz Waldman olhou para o Procurador Distrital. - Disse à sua testemunha que pode ser presa por desobediência ao tribunal?
  12. 12. 12 - Sim. Stela está com mais medo deles do que de nós Voltou-se para dirigir a Jennifer um olhar maldoso. – Está convencido de que já não o podemos proteger. - Nesse caso, receio que a este tribunal não reste outra alternativa senão garantir o pedido da defesa e declarar o julgamento incorreto - disse lentamente o Juiz Waldman. E Robert Di Silva, parado ali estava, a ouvir a sua causa ser destruída. Sem Stela, não haveria causa. Michael Moretti encontrava-se agora fora do seu alcance, mas Jennifer não. La obrigá-la a pagar pelo que lhe fizera. - Vou dar instruções para que o acusado seja libertado e o júri desfeito - informou o Juiz Waldman. - Obrigado, Vossa Honra - agradeceu Thomas Colfax. Não havia no seu rosto qualquer sinal de triunfo. - Se não há mais nada. . . - começou o Juiz Waldman. - Há ainda uma coisa! - Robert Di Silva voltou-se para Jennifer Parker. - Quero que seja detida por obstrução à justiça, por interferir com uma testemunha num caso capital, por conspiração, por... - A ira tornava-o incoerente. De tão furiosa que estava, Jennifer recuperou a voz. - O senhor não pode provar uma única dessas acusações porque não são verdadeiras. Eu... eu posso ter culpa de ser estúpida, mas é a única coisa de que sou culpada. Ninguém me subornou para fazer o que quer que fosse. Pensei que estava a entregar um embrulho da sua parte. O Juiz Waldman olhou para Jennifer e disse: - Qualquer que tenha sido a motivação, as conseqüências foram extremamente infelizes. Vou pedir que a Secção de Apelação faça uma investigação e, se as circunstâncias o justificarem, que inicie contra si o processo de exclusão da Ordem dos Advogados. Jennifer sentiu um desfalecimento súbito. - Vossa Honra, eu. . . - Por agora é tudo, Miss Parker. Jennifer permaneceu ali por um momento, fitando-lhes os rostos hostis. Nada mais tinha a dizer. O canário amarelo que estava em cima da secretária tinha dito tudo. Oásis de silêncio, vendo Jennifer Parker na televisão. Ergueu o copo para brindar à saúde dela e bebeu o conteúdo de um trago. Jennifer Parker não se limitou a aparecer nas notícias da tarde - era a notícia da tarde. A história de ela ter entregue um canário morto à testemunha principal do Procurador Distrital era irresistível. Todos os canais de televisão apresentavam imagens de Jennifer abandonando o gabinete do Juiz Waldman, tentando sair à força do Palácio da Justiça, assediada pelas perguntas da imprensa e do
  13. 13. 13 público. Jennifer não podia acreditar na súbita e horrorosa publicidade de que estava sendo rodeada. Atacavam-na de todos os lados: repórteres da televisão e da rádio, e jornalistas. Queria desesperadamente livrar-se deles, mas o seu orgulho impedia-a de o fazer. “Quem lhe entregou o canário amarelo, Miss Parker? Já alguma vez tinha visto Michael Moretti? Sabia que Di Silva tencionava servir-se deste caso para chegar a governador?" “O Procurador Distrital diz que vai expulsá-la da Ordem dos Advogados. Tenciona tomar algumas medidas?” A todas as perguntas que lhe faziam, Jennifer respondia, com os lábios apertados. - Não tenho comentários. Nas notícias da noite, da CBA, chamaram-lhe “Parker do Caminho Errado", a rapariga que partira na direção errada. Um jornalista do ABC referia-se a ela como o “Canário Amarelo". No NBC um comentador desportivo comparou-a a Roy Riegels, o futebolista que atirara a bola para a baliza da sua própria equipa. No Tony's Place, um restaurante de que Michael Moretti era proprietário, estava a decorrer uma festa. Havia uma dúzia de homens na sala, bebendo e fazendo uma enorme barulheira. Michael Moretti estava sozinho, sentado junto do bar. Os advogados discutiam por todo o lado o episódio Jennifer Parker. Metade deles acreditava que ela tinha sido subornada pela Máfia e, a outra metade, que ela se deixara enganar inocentemente. Mas, fosse qual fosse o lado em que se encontravam, todos eram unânimes num ponto: a curta carreira de Jennifer Parker como advogada tinha terminado. Durara exatamente quatro horas. Nascera em Kelso, Washington, uma pequena cidade dedicada à indústria da madeira, fundada em mil oitocentos e quarenta e sete por um explorador escocês saudoso da pátria, que lhe deu o nome da sua cidade natal da Escócia. O pai de Jennifer era advogado e trabalhara primeiro para as empresas de serração que dominavam a cidade e, mais tarde, para os trabalhadores dessas mesmas serrações. As mais antigas recordações que Jennifer conservava da sua infância ali eram muito agradáveis. O estado de Washington era, para as crianças, um local saído de um livro de contos, cheio de montanhas espetaculares, de glaciares e parques nacionais. Fazia ski, andava de canoa e, já mais crescida, trepava pelo gelo dos glaciares e fazia excursões a lugares com nomes maravilhosos: Ohanapecosh, Nisqually, lago Cle Elum, cataratas de Chenuis, Horse Heaven, vale de Yakima. Com o pai, Jennifer aprendeu a fazer alpinismo no monte Rainier e a esquiar em Timberline. O pai dispunha sempre de tempo para ela, enquanto que a mãe, encantadora e irrequieta, andava misteriosamente ocupada e raras vezes se encontrava em casa. Jennifer adorava o pai. Abner Parker era uma mistura de sangue inglês, irlandês e escocês. Tinha uma estatura mediana, cabelo
  14. 14. 14 preto e olhos de um azul-esverdeado. Era um homem compassivo e com um arraigado sentido de justiça. Não se interessava pelo dinheiro, mas sim pelas pessoas. Era capaz de ficar sentado a conversar com Jennifer, horas a fio, falando-lhe dos casos que tinha entre mãos e dos problemas das pessoas que iam ao seu pequeno e modesto escritório, e só alguns anos depois é que Jennifer compreendeu que ele conversava com ela porque não tinha mais ninguém com quem partilhar as coisas. Assim que saía da escola, Jennifer corria para o Palácio da Justiça para ver trabalhar o pai. Se o tribunal não estava em sessão, vagueava pelo escritório dele, ouvindo-o discutir os casos com os clientes. Nunca falavam na ida dela para a Faculdade de Direito; era algo que consideravam assente. Quando Jennifer tinha quinze anos, começou a trabalhar com o pai durante as férias de Verão. Numa idade em que as outras raparigas marcavam encontros com rapazes e tinham namorados certos, Jennifer embrenhava-se em ações judiciais e testamentos. Os rapazes interessavam-se por ela, mas raras vezes saía. Quando o pai lhe perguntava o motivo, replicava: - São todos tão jovens, papá. Sabia que um dia havia de casar com um advogado como o pai. No dia em que Jennifer fez dezesseis anos, a mãe abandonou a cidade com o filho do vizinho do lado, que tinha dezoito anos, e o pai de Jennifer morreu serenamente. O seu coração só deixou de bater sete anos depois, mas morreu no momento em que ouviu a notícia acerca da mulher. Toda a cidade estava a par do assunto e manifestou a sua solidariedade o que, é claro, piorou tudo, pois Abner Parker era um homem orgulhoso. Foi então que começou a beber. Jennifer fez tudo o que pôde para o consolar, mas foi inútil, e nada voltou a ser como dantes. No ano seguinte, quando chegou a altura de ir para o colégio, Jennifer quis ficar em casa com o pai, mas ele não lhe deu ouvidos. - Vamos ser sócios, Jennie - declarou-lhe. - Tira depressa esse curso de Direito. Quando obteve o diploma, matriculou-se na Universidade de Washington, em Seattle, para estudar Direito. Durante o primeiro ano letivo, enquanto os colegas de Jennifer mergulhavam num mar impenetrável de contratos, delitos, propriedades, procedimento civil e direito criminal, Jennifer sentia-se como se tivesse regressado a casa. Mudou-se para o dormitório da Universidade e arranjou emprego na Biblioteca de Direito. Jennifer adorava Seattle. Aos domingos, ela e um estudante indiano chamado Ammini Williams e uma enorme e ossuda rapariga irlandesa chamada Josephine Collins iam remar em Green Lake, no centro da cidade, ou assistiam às corridas da Taça de Ouro no lago Washington e viam passar os hidroaviões de cores brilhantes. Havia em Seattle grandes clubes de jazz, e o preferido de Jennifer era o Peet's Poop Deck onde, em vez de mesas, havia caixotes com pranchas de madeira no topo. À tarde, Jennifer, Ammini e Josephine encontravam-se no The Hasty Tasty, uma espelunca onde comiam as melhores batatas fritas caseiras do mundo. Havia dois rapazes que se interessavam por Jennifer: um jovem e atraente estudante de Medicina, chamado Noah Larkin e um estudante de Direito chamado Ben Munro; de vez em quando, Jennifer
  15. 15. 15 aceitava encontrar-se com eles, mas estava demasiado ocupada para pensar em romances sérios. O Inverno era frio, úmido e ventoso e parecia chover todo o tempo. Jennifer vestia um espesso casaco aos quadrados azuis e verdes, que absorvia as gotas de chuva na sua lã felpuda e que lhe fazia brilhar os olhos como esmeraldas. Passeava à chuva, perdida nos seus pensamentos secretos, sem poder adivinhar que todos eles iriam ficar para sempre gravados na sua memória. Na Primavera, as raparigas desabrochavam nos seus vestidos de algodão claro. Havia seis associações de estudantes numa das ruas da Universidade e os seus membros costumavam reunir- se no relvado a ver passar as raparigas, mas Jennifer tinha qualquer coisa que os fazia sentir-se tímidos. Possuía uma qualidade especial que lhes era difícil definir, tinham a sensação de que ela alcançara já algo de que eles andavam ainda à procura. No Verão, Jennifer ia sempre a casa visitar o pai. Este mudara muito. Nunca estava embriagado, mas também não estava sempre sóbrio. Refugiava-se numa fortaleza emocional onde nada o poderia voltar a atingir. Morreu quando Jennifer freqüentava o último período da Faculdade de Direito. A cidade recordava- se, e foram quase cem pessoas ao funeral de Abner Parker, pessoas que ele tinha ajudado, aconselhado e de quem fora amigo ao longo de todos aqueles anos. Jennifer chorou a sua dor longe de todos. Perdera mais do que um pai. Perdera um mestre e um mentor. Depois do funeral, Jennifer regressou a Seattle para terminar os estudos. O pai tinha-lhe deixado menos de um milhar de dólares e ela precisava de tomar uma decisão sobre o que iria fazer da sua vida. Sabia que não podia regressar a Kelso para exercer advocacia, pois seria sempre vista ali como a rapariguinha cuja mãe fugira com um adolescente. Devido à sua brilhante média de curso, Jennifer teve entrevistas com uma dúzia das mais importantes firmas jurídicas do país e recebeu várias propostas. Warren Oakes, o seu professor de Direito Criminal, disse -lhe: - É um verdadeiro tributo, minha jovem. É muito difícil, para uma mulher entrar numa boa firma jurídica. O dilema de Jennifer era que já não tinha nem lar nem raízes. Não tinha a certeza onde queria viver. Pouco antes de terminar o curso, o problema de Jennifer foi resolvido. O Professor Oakes pediu-lhe que fosse procurá-lo depois da aula. - Recebi uma carta do gabinete do Procurador Distrital de Manhattan, pedindo-me que recomende o meu aluno mais brilhante para a sua equipa. Interessada? - Nova Yorque. - Sim, senhor. - Jennifer estava tão atordoada que a resposta foi imediata. Voou para Nova Yorque para fazer o exame de admissão para advogada no foro e regressou a Kelso para fechar o escritório do pai. Foi uma experiência ao mesmo tempo amarga e doce, cheia de recordações do passado e Jennifer teve a sensação de ter crescido naquele escritório. Arranjou um emprego como ajudante na biblioteca de Direito da Universidade, para passar o tempo até a informarem se tinha passado no exame em Nova Yorque.
  16. 16. 16 - É um dos mais difíceis do país - advertiu-a o Professor Oakes. Mas Jennifer sabia. No mesmo dia recebeu a informação de que tinha passado e uma proposta do gabinete do Procurador Distrital de Nova Yorque. Uma semana mais tarde, Jennifer encontrava-se a caminho do leste. Descobriu um minúsculo apartamento (espaçoso, água e luz, lareira, boa localização e precisando de algumas obras, dizia o anúncio) ao fundo da Terceira Avenida, com uma lareira fingida e situado num alto prédio de quatro andares semelevador. O exercício vai fazer-me bem, disse Jennifer para com os seus botões. Em Manhattan não havia montanhas para escalar, nem rápidos para percorrer. O apartamento consistia numa pequena sala de estar com um sofá que se transformava numa cama desconfortável, numa minúscula casa de banho com uma janela que alguém pintara há muito tempo com tinta preta, para que não se visse lá para dentro. O mobiliário parecia ter sido doado pelo Exército de Salvação. - Bom, não vou morar neste lugar durante muito tempo, pensou Jennifer. É apenas provisório, até eu me afirmar como advogada. Isso fora o sonho. A realidade era que se encontrava em Nova Iorque há menos de setenta e duas horas, fora despedida da equipa do Procurador Distrital e estava sujeita a ser expulsa da ordem dos advogados. Jennifer desistiu de ler jornais e revistas e deixou de ver televisão pois, para onde quer que se virasse, era a si mesma que via. Sentia as pessoas olharem-na na rua, no autocarro e no mercado. Começou a refugiar-se no seu pequeno apartamento e recusava-se a atender o telefone e a responder à campainha da porta. Pensou fazer as malas e regressar a Washington. Pensou dedicar- se a qualquer outra atividade. Pensou suicidar-se. Passou longas horas a redigir cartas para o Procurador Distrital Robert Di Silva. Metade das cartas eram acusações severas à sua insensibilidade e falta de compreensão. A outra metade eram desculpas abjetas, rogando-lhe que lhe concedesse outra oportunidade. Não chegou a mandar nenhuma delas. Pela primeira vez na sua vida, Jennifer sentia-se dominada por um sentimento de desespero. Não tinha amigos em Nova Yorque, não tinha ninguém com quem falar. Passava o dia fechada no apartamento e, noite já alta, saía furtivamente para percorrer as ruas desertas da cidade. Os vagabundos que povoavam a noite nunca a abordavam. Talvez visse a sua própria solidão e desespero refletidos nos olhos dela. Vezes sem conta, enquanto caminhava, Jennifer visionava no seu espírito a cena da sala de audiências, mas alterava-lhe sempre o desfecho. Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era portador de um sobrescrito de papel manilha. - Miss Parker ? - Sim. - O chefe quer que entregue isto a Stela. Jennifer olhou-o com frieza. Mostre-me a sua identificação, por favor. O homem entrou em pânico e fugiu.
  17. 17. 17 Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era portador de um sobrescrito papel manilha. - Miss Parker ? - Sim. - O Chefe quer que entregue isto a Stela. Confia o sobrescrito nas suas mãos. Jennifer abriu o sobrescrito e viu lá dentro o canário morto. Vou mandá-lo prender. Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era portador de um sobrescrito de papel manilha. Passou por ela, aproximou-se de outro jovem ajudante do Procurador Distrital e estendeu-lhe o sobrescrito. O chefe quer que dê isto n Stela. Podia reconstituir a cena quantas vezes quisesse, mas nada mudara. Um estúpido erro tinha-a destruído. E, no entanto quem disse que ela estava destruída? A imprensa? Di Silva? Não voltara a ouvir falar na sua exclusão da Ordem dos Advogados e, até isso acontecer, continuava a ser advogada. Há firmas jurídicas que me fizeram propostas, recordou Jennifer. Invadida por um novo sentido de determinação, Jennifer pegou na lista das firmas com quem contatara e começou a fazer uma série de telefonemas. Nenhum dos homens com quem pediu para falar a atendeu, e nem um único dos seus telefonemas obteve resposta. Levou quatro dias a compreender que era o pária da profissão legal. A agitação provocada pelo caso tinha-se desvanecido, mas todos ainda se lembravam. Jennifer continuou a telefonar a patrões em perspectiva, passando do desespero à indignação à frustração e de novo ao desespero. Pensava no que iria fazer durante o resto da vida e, de todas as vezes, chegava sempre à mesma conclusão: tudo o que queria fazer, a única coisa que lhe importava na realidade, era exercer advocacia. Era advogada, e, se Deus o permitisse, até a impedirem de o fazer, havia de descobrir uma maneira de exercer a sua profissão. Começou a fazer a ronda dos escritórios dos advogados de Manhattan. Entrava sem ser anunciada, dizia o nome à recepcionista e pedia para ver o chefe do pessoal. De vez em quando prometiam-lhe uma entrevista mas, nessas alturas, Jennifer tinha a sensação de que era apenas por curiosidade. Era uma aberração e queriam ver como é que ela era em pessoa. Na maior parte das vezes informavam-na simplesmente de que não havia vagas. Ao cabo de seis semanas, o dinheiro de Jennifer começou a esgotar-se. Gostaria de se ter mudado para um apartamento mais barato, mas não havia apartamentos mais baratos. Passou a prescindir do pequeno-almoço e do almoço, e jantava numa das pequenas dinners de esquina onde a comida era má mas os preços acessíveis: descobriu o Steak & Brew e o Roast-and-Brew onde, por uma quantia modesta, lhe serviam um prato principal, toda a salada que conseguia comer e todaa cerveja que conseguia beber. Jennifer detestava cerveja, mas alimentava. Quando Jennifer esgotou a lista de grandes firmas judiciais, armou-se com uma lista de firmas mais pequenas e começou a telefonar-lhes, mas até aí a sua reputação a precedera. Recebeu bastantes propostas de homens interessados nela, mas nenhuma oferta de emprego. Começava a sentir-se desesperada. “Muito bem, pensou, como um desafio. Se ninguém me quer contratar, vou abrir o meu próprio escritório." O problema era que isso custava dinheiro. Dez mil dólares, pelo menos. Precisaria do suficiente para a renda, telefone, uma secretária, livros de Direito, uma mesa e cadeiras, papelada. Nem sequer tinha dinheiro para os selos.
  18. 18. 18 Jennifer tinha contado com o seu ordenado como ajudante do Procurador Distrital, mas isso, é claro, ficara fora de questão. Podia tirar da idéia qualquer indenização por despedimento; não tinha sido despedida; fora decapitada. Não, não tinha possibilidades de abrir o seu próprio escritório, por muito pequeno que fosse. A solução era encontrar alguém com quem partilhar o escritório. Jennifer comprou um exemplar do New York Times e começou a procurar nos anúncios das ofertas. Só quando se encontrava já no fundo da página é que descobriu um pequeno anúncio que dizia: Precisa-se/cavalheiro exercendo profissão liberal para partilhar pequeno escritório com outros 2 cavalheiros também exercendo profissão liberal. Renda acessível. As duas últimas palavras atraíram enormemente Jennifer. Não era um cavalheiro exercendo uma profissão liberal, mas o seu sexo não devia ter importância. Recortou o anúncio e, tomando o metropolitano, dirigiu-se à morada indicada. Era um velho prédio quase em ruínas, ao fundo da Broadway. O escritório ficava no décimo andar e a tabuleta da porta dizia: KENNETH BAILEY INVEST GAÇÕES DE PRIMEIRA E por baixo: AGÊ NCIA DE CO BRANÇAS ROCKEFELLER Jennifer respirou fundo, abriu a porta e entrou. Viu-se no meio de um escritório pequeno e sem janelas. Havia amontoadas na sala três secretárias e cadeiras manchadas, e duas delas estavam ocupadas. Sentado a uma das secretárias encontrava-se um homem de meia-idade, calvo e pobremente vestido, que se debruçava sobre alguns papéis. Encostado à parede oposta, noutra secretária, estava um homem com mais de trinta anos. Tinha cabelo cor de tijolo e olhos de um azul vivo. O rosto era pálido e sardento. Vestia uns jeans muito apertados, uma T-shirt e sapatos de lona sem meias. Estava a falar ao telefone. - Não se preocupe, Mrs. De sser, tenho dois dos meus melhores detetives a trabalhar no seu caso. Por estes dias devemos ter notícias do seu marido. Receio ter de lhe pedir mais algum dinheiro para as despesas... Não, não vale a pena mandá-lo pelo correio. Os correios são terríveis. Esta tarde tenho de ir para os seus lados. Vou aí buscá-lo. Pousou o auscultador, ergueu os olhos e viu Jennifer. Pôs-se de pé, sorriu e estendeu uma mão vigorosa e firme. - Sou Kenneth Bailey. Em que posso ser-lhe útil? Jennifer percorreu com o olhar a sala pequena e abafada e respondeu, pouco segura: - Eu... eu vim por causa do anúncio. - Ah! - Havia nos seus olhos uma expressão de surpresa. O tipo careca fitava Jennifer. - Este é Otto Wenzel - informou Kenneth Bailey. - É a Agência de Cobranças Rockefeller. Jennifer acenou com a cabeça.
  19. 19. 19 - Olá! - Voltou-se de novo para Kenneth Bailey. - E o senhor é as Investigações de Primeira? - É verdade. Qual é o seu negócio? - O meu...? - E depois, compreendendo: - Sou advogada. Kenneth Bailey observou-a com ar céptico. - E quer montar um escritório aqui ? Jennifer olhou de novo em redor do lúgubre escritório e imaginou-se sentada à secretária desocupada, entre estes dois homens. - Talvez vá procurar mais um pouco - respondeu. Não tenho a certeza. . . - A sua renda seria apenas de noventa dólares mensais. - Por noventa dólares mensais, eu podia até comprar todo o prédio - replicou Jennifer. Voltou-se para sair. - Eh, espere um minuto. Jennifer deteve-se. Kenneth Bailey passou a mão pelo queixo pálido. - Vou fazer um acordo consigo. Sessenta. Quando o seu negócio começar a prosperar, falamos num aumento. Era uma proposta vantajosa. Jennifer sabia que, por aquela quantia, não conseguiria nunca arranjar um lugar vago em mais nenhum sítio. Por outro lado, não tinha hipótese de atrair clientes a este lugar infernal. Havia ainda outra coisa a considerar. Não possuía os sessenta dólares. - Aceito - declarou Jennifer. - Não vai arrepender-se - prometeu Kenneth Bailey. Quando é que quer trazer as suas coisas? - Já cá estão. O próprio Kenneth Bailey pintou o letreiro da porta. Dizia o seguinte: Jennifer Parker LICENCIADA EM DIREITO Jennifer observou o letreiro, possuída de sentimentos confusos. Nos momentos de maior depressão, nunca lhe ocorrera que havia de ver o seu nome escrito por baixo dos de um detetive particular e de um cobrador de faturas. No entanto, ao olhar para a tabuleta ligeiramente torta, não podia deixar de se sentir orgulhosa. Era advogada. A tabuleta da porta provava-o. Agora que Jennifer tinha um escritório, só lhe faltavam os clientes. Jennifer já nem sequer tinha dinheiro para ir ao Steak & Brew. Preparava um pequeno-almoço de torradas e café na chapa que colocara sobre o aquecedor elétrico da sua minúscula casa de banho. Não almoçava e ia jantar ao Chock Full O'Nuts ou no Zum Zum, onde serviam grandes pedaços de wurst, fatias de pão e salada de batata quente.
  20. 20. 20 Todas as manhãs chegava à sua secretária às nove horas em ponto, mas nada mais tinha para fazer a não ser ouvir Ken Bailey e Otto Wenzel falarem ao telefone. Os casos de Ken Bailey pareciam consistir, na maior parte das vezes, em descobrir esposas e crianças desaparecidas, e, ao princípio, Jennifer convencera-se de que ele era um homem desonesto, fazendo promessas extravagantes e cobrando avultados adiantamentos. Mas Jennifer depressa aprendeu que Ken Bailey trabalhava muito e cumpria quase sempre. Era brilhante e esperto. Otto Wenzel era um enigma. O seu telefone tocava constantemente. Levantava o auscultador, murmurava algumas palavras, escrevia qualquer coisa num bocado de papel e desaparecia durante horas. - Oscar faz recuperações - explicou um dia Ken Bailey a Jennifer. - Recuperações? - Sim. As companhias de cobrança utilizam-no para recuperarem automóveis, aparelhos de televisão, máquinas de lavar. . . e coisas assim. - Olhou para Jennifer com curiosidade. - Já arranjou alguns clientes? -Tenho algumas coisas em perspectiva – respondeu Jennifer num tom evasivo. Ele fez um sinal com a cabeça. - Não se deixe abater. Toda a gente comete erros. Jennifer sentiu-se corar. Queria dizer que ele sabia a seu respeito. Ken Bailey estava a desembrulhar uma enorme e grossa sanduíche de rosbife. - É servida? Tinha um aspecto delicioso. - Não, obrigada - disse Jennifer com firmeza. – Nunca almoço. - Okay. Viu-o enterrar os dentes na suculenta sanduíche. Ele reparou na expressão dela e insistiu: - Tem a certeza que. . . ? - Não, obrigada. Eu... eu tenho um encontro. Ken Bailey viu Jennifer sair do escritório e o seu rosto ficou pensativo. Orgulhava-se da sua habilidade para ler o caráter das pessoas, mas Jennifer Parker deixava-o intrigado. Pelas notícias da televisão e dos jornais, ficara convencido de que alguém pagara a esta rapariga para destruir a causa contra Michael Moretti. Depois que conhecera Jennifer, Ken já não estava assim tão seguro. Fora casado uma vez e sofrera muito, e agora tinha as mulheres em fraca conta. Mas qualquer coisa lhe dizia que esta era especial. Era encantadora, brilhante e muito orgulhosa. Jesus!, disse para consigo. Não sejas louco! Já te chega um assassínio na consciência.
  21. 21. 21 “Emma Lazarus”' era uma idiota sentimental, pensou Jennifer. “Entreguem-me as vossas multidões cansadas, pobres e confusas que desejam respirar livremente. Deixai vir a mim os que não têm lar, os açoitados pelo vento.” (1849-1887) Escritora americana, autora de poemas, romances, peças teatrais e ensaios (N. T.) Excerto do soneto "O Novo Colosso", de Emma Lazarus, cujo texto completo se encontra gravado no pedestal da Estátua da Liberdade (N. T.) Realmente, dizia Jennifer para consigo. Qualquer pessoa que organizasse reuniões de boas-vindas, em Nova Yorque, perderia o negócio em menos de uma hora. Em Nova Iorque, ninguém se importa que estejamos vivos ou mortos. Deixa-te de lamentações! Mas era difícil. O seu pecúlio ficara reduzido a dezoito dólares, a renda do apartamento estava atrasada, e a comparticipação na renda do escritório tinha dois dias de atraso. Não tinha dinheiro para continuar mais tempo em Nova Yorque, e também não possuía o suficiente para partir. Jennifer percorrera as Páginas Amarelas, telefonando por ordem alfabética para escritórios de advogados, tentando arranjar emprego. Fez as chamadas de cabines públicas porque estava demasiado atrapalhada para deixar que Ken Bailey e Otto Wenzel ouvissem as suas conversas. Os resultados eram quase sempre os mesmos. Ninguém estava interessado em contratá-la. Teria de regressar a Kelso e arranjar emprego como ajudante de advogado, ou como secretária de um dos amigos do pai. Como ele teria ficado desiludido! Era uma derrota amarga, mas não havia outra alternativa. Regressaria a casa como uma falhada. O problema imediato a enfrentar era o transporte. Folheou o New York Post da tarde e descobriu um anúncio em que procuravam alguém para partilhar as despesas de viagem até Seáttle. Havia um número de telefone e Jennifer telefonou para lá. Não obteve resposta. Decidiu tentar de novo no dia seguinte. No dia seguinte, Jennifer foi pela última vez ao escritório. Otto Wenzel encontrava-se ausente, mas Ken Bailey estava lá, ao telefone, como de costume. Vestia blue jeans e uma camisola de caxemira com decote em bico. - Descobri a sua mulher - dizia ele. - O único problema, amigo, é que ela não quer ir para casa... Eu sei. Quem é que consegue entender as mulheres?. . . Okay. Vou dizer-lhe onde é que ela está e o senhor pode tentar murmurar-lhe palavrinhas doces, a ver se ela volta. - Deu a morada de um hotel do centro da cidade. - O prazer foi todo meu. - Desligou e deu meia volta para encarar Jennifer. - Hoje atrasou-se. - Mr. Bailey, eu... eu receio ter de partir. Assim que puder, mando-lhe o resto do dinheiro que lhe devo. Ken Bailey recostou-se na cadeira e pôs-se a observá-la. O seu olhar fez Jennifer sentir-se pouco à vontade. - Pode ser? - perguntou ela. - De volta a Washington? Jennifer fez que sim com a cabeça. - Antes de se ir embora, poderia prestar-me um pequeno favor? - começou Ken Bailey. - Um amigo meu, que é advogado, tem andado atrás de mim para lhe distribuir algumas intimações, e eu não tenho tempo para isso. Paga doze cêntimos e meio por cada intimação, mais a quilometragem.
  22. 22. 22 Quer ajudar-me? Uma hora depois, Jennifer Parker encontrava-se nos suntuosos escritórios da Peabody & Peabody. Era este o tipo de firma em que ela sonhara trabalhar um dia como sócia plena e com um encantador gabinete de canto. Acompanharam-na a uma pequena sala das traseiras onde uma secretária com ar preocupado lhe estendeu um maço de intimações. - Aqui tem. É melhor registrar a quilometragem. Tem carro, não tem? - Não, eu receio que... - Bom, se for de metropolitano, tome nota das tarifas. - Está bem. Jennifer passou o resto do dia a distribuir um dilúvio de intimações em Bronx, Brooklyn e Queens. Às oito horas da noite já tinha feito cinqüenta dólares. Regressou gelada e exausta ao seu minúsculo apartamento. Mas, pelo menos, tinha ganho algum dinheiro, o primeiro desde que chegara a Nova Yorque. E a secretária dissera-lhe que havia muitas mais intimações para entregar. Era um trabalho duro, tinha de correr a cidade de lés a lés e, além disso, era humilhante. Tinham- lhe batido com portas na cara, tinham-na insultado, ameaçado e recebera duas propostas dúbias. A perspectiva de enfrentar outro dia como aquele era desencorajante; e, no entanto, enquanto pudesse continuar em Nova Yorque, havia esperança, por muito leve que fosse. Jennifer preparou um banho quente e meteu-se lá dentro, afundando-se lentamente na banheira e sentindo uma sensação de prazer quando a água lhe envolveu o corpo. Não se dera ainda conta de como estava exausta. Todos os músculos pareciam doer-lhe. Achou que aquilo de que necessitava era um bom jantar para a fazer sentir mais animada. Ia fazer uma extravagância.Vou oferecer-me um verdadeiro restaurante com toalhas e guardanapos, pensou Jennifer. Talvez haja até música suave e vou beber um copo de vinho branco e. . . Os pensamentos de Jennifer foram interrompidos pelo toque da campainha da porta. Era um som estranho. Não tinha recebido uma única visita desde que se mudara para ali, havia dois meses. Só podia ser a antipática senhoria por causa da renda em atraso. Jennifer ficou quieta, esperando que ela se fosse embora sentindo-se demasiado fraca para se mexer. A campainha tocou de novo. Contrariada, Jennifer saiu da banheira tépida. Enfiou um roupão de pano turco e encaminhou-se para a porta. - Quem é? - Miss Jennifer Parker? - perguntou uma voz masculina do outro lado da porta. - Sim. - Chamo-me Adam Warner. Sou advogado. Intrigada, Jennifer pôs a corrente na porta e entreabriu uma nesga. O homem que se encontrava à entrada aparentava trinta e poucos anos era alto, louro e de ombros largos, com perscrutadores olhos azul-acinzentados por trás dos óculos com uma armação grossa. Vestia um fato feito por medida, que devia ter custado uma fortuna. - Posso entrar? - perguntou ele.
  23. 23. 23 Os ladrões não usavam fatos feitos por medida, nem sapatos Gucci, nem gravatas de seda. Nem tinham mãos esguias e sensíveis com unhas cuidadosamente tratadas. - Um momento. Jennifer soltou a corrente e abriu a porta. Quando Adam Warner entrou Jennifer olhou em volta do apartamento com uma só sala, observando-o através dos olhos dele, e estremeceu. Tinha aspecto de ser um homem habituado a coisas melhores. - Em que posso ser-lhe útil, Mr. Warner? Enquanto falava Jennifer soube de súbito por que motivo ele se encontrava ali, e foi tomada por uma rápida sensação de entusiasmo. Era por causa de um dos empregos a que se candidatara! Desejou estar vestida com um lindo e elegante roupão azul-escuro, que o seu cabelo estivesse penteado, que... - Sou membro da Comissão Disciplinar da Associação do Foro de Nova Iorque, Miss Parker - declarou Adam Warner. O Procurador Distrital Robert Di Silva e o Juiz Lawrence Waldman requereram à Divisão de Apelação que desse início ao seu processo de exclusão da Ordem dos Advogados. Os escritórios de Needham, Finch, Pierce e Warner ficavam situados em Wall Street, número trinta, e ocupavam todo o piso superior do edifício. Havia cento e vinte e cinco advogados na firma. Os gabinetes eram luxuosos e tinham aquela elegância sóbria própria de uma organização que representava alguns dos maiores nomes da indústria. Adam Warner e Stewart Needham estavam a tomar o seu ritual chá da manhã. Stewart Needham, que andava pelos seus sessenta anos, era um homem ativo e bem disposto. Tinha uma barba à Vandyke, cuidadosamente tratada, e vestia um fato de tweed com colete. Parecia pertencer a uma era mais antiga mas, como centenas de antagonistas seus tinham aprendido, com grande desgosto, ao longo dos anos, a mentalidade de Stewart Needham estava inteiramente enquadrada no século vinte. Era um titã, mas o seu nome só era conheci do em círculos muito reduzidos. Preferia manter-se afastado e utilizar a sua considerável influência para atacar os efeitos da legislação, os altos compromissos governamentais e a política nacional. Nascera na Nova Inglaterra e fora sempre taciturno. Adam Warner era casado com Mary Beth, sobrinha de Needham, e era o protegido dele. O pai de Adam fora um senador respeitado. O próprio Adam era um advogado brilhante. Quando obteve o diploma magna cum laude, da Faculdade de Direito de Harvard, recebeu propostas de firmas jurídicas de prestígio de todo o país. Escolheu Needham, Finch e Pierce e, sete anos mais tarde, tornou-se sócio. Adam era fisicamente atraente e fascinante, e a sua inteligênciaparecia acrescentar-lhe uma dimensão suplementar. Possuía uma confiança em si próprio que as mulheres achavam provocante. Adam desenvolvera havia muito tempo um sistema para dissuadir as clientes femininas excessivamente apaixonadas. Estava casado há catorze anos com Mary Beth e não aprovava os casos extraconjugais.
  24. 24. 24 - Mais chá, Adam? - ofereceu Stewart Needham. - Não, obrigado. - Adam Warner detestava chá mas, de há oito anos para cá, bebia-o todas as manhãs só porque não queria ferir a susceptibilidade do seu sócio. Era uma infusão preparada pelo próprio Needham e tinha um sabor horrível. Stewart Needham tinha duas coisas em mente e, como de costume, começou pela notícia agradável: - Ontem à noite reuni-me com alguns amigos – disse Needham. Alguns amigos significava um grupo das mais importantes personalidades do país. - Estão a pensar pedir-te que te candidates a senador dos Estados Unidos, Adam. Adam foi invadido por uma sensação de júbilo. Conhecendo a natureza reservada de Stewart Needham, Adam tinha a certeza de que a conversa fora mais do que casual, ou então Needham não teria tocado no assunto. - A questão, é claro, é saber se estás interessado. Isso significaria uma grande mudança na tua vida. Adam Warner tinha consciência disso. Se vencesse a eleição, teria de mudar-se para Washington, D.C., abandonar a advocacia, iniciar uma vida completamente nova. Tinha a certeza de que isso agradaria a Mary Beth; no que lhe dizia respeito Adam já não estava tão seguro. E, no entanto, fora habituado a assumir as responsabilidades. Tinha também de admitir que sentia um certo prazer no poder. - Estou muito interessado, Stewart. Stewart Needham acenou com a cabeça, satisfeito. - Ótimo. Eles vão ficar contentes. - Serviu-se de outra chávena da horrível beberagem e, como por acaso, tocou no outro assunto que tinha em mente. - Há um pequeno trabalho que a Comissão Disciplinar da Associação do Foro gostaria que executasses, Adam. Não deve levar mais do que uma ou duas horas. - O que é? - É o julgamento de Michael Moretti. Aparentemente, alguém se aproximou de uma das jovens ajudantes de Di Silva e a subornou. - Li qualquer coisa a esse respeito. O canário. -Exato. O Juiz Waldman e Bobby gostariam que o nome dela fosse riscado da lista da nossa honrada profissão. Eu também. Cheira que tresanda. - O que querem eles que eu faça? - Que faças uma ligeira investigação, que verifiques se essa tal Parker se comportou ilegal ou imoralmente e que, em seguida, recomendes o processo de exclusão da Ordem dos Advogados. Será notificada para apresentar a sua defesa e eles tratarão do resto. É pura rotina. Havia algo que intrigava Adam. - Porquê eu, Stewart? Temos aqui dúzias de jovens advogados que podiam ocupar-se disto.
  25. 25. 25 - O nosso respeitável Procurador Distrital perguntou especificamente por ti. Quer ter a certeza de que nada vai falhar. Como ambos sabemos - acrescentou em tom seco -, Bobby não é o homem mais misericordioso do mundo. Quer ver a pele dessa tal Parker pregada na parede. Adam Warner continuou sentado, pensando na sua agenda ocupada. - Nunca se sabe quando se poderá precisar de um favor do Procurador Distrital, Adam. Quid pro quo. É apenas rotina. - Muito bem, Stewart. - E Adam pôs-se de pé. - Tens a certeza de que não queres mais chá? - Não, obrigado. Estava bom, como sempre. Quando Adam regressou ao seu gabinete, tocou a campainha para chamar uma das suas ajudantes paralegais, Lucinda, uma inteligente e jovem negra. - Cindy, obtenha-me todas as informações que puder sobre uma advogada chamada Jennifer Parker. - O canário amarelo - respondeu ela, com um sorriso. Toda a gente sabia. Ao fim daquela tarde, Adam Warner estava a estudar a ata da ação legal no caso do Povo de Nova Yorque contra Michael Moretti. Robert Di Silva recebera-a das mãos de um mensageiro especial. Já passava muito da meia-noite quando Adam terminou. Pedira a Mary Beth que comparecesse sem ele a um jantar e mandara que lhe trouxessem sanduíches. Quando Adam acabou de ler a ata, não lhe restavam dúvidas que Michael Moretti teria sido considerado culpado pelo júri, se o destino não tivesse intervindo na pessoa de Jennifer Parker. Di Silva tinha conduzido o processo sem uma única falha. Adam voltou-se para a ata do depoimento prestado mais tarde no gabinete do Juiz Waldman. DI SILVA: Tem um curso superior? PARKER: Sim, senhor. DI SILVA: E possui o diploma da Faculdade de Direito ? PARKER: Sim, senhor. DI SILVA: E um desconhecido entrega-lhe um embrulho, diz-lhe que o leve a uma testemunha chave num julgamento de homicídio, e a senhora fá-lo, sem mais nem menos? Não acha que isso ultrapassa os limites da estupidez ? PARKER: Não foi assim que as coisas se passaram. DI SILVA: A senhora é que o disse. PARKER: O que eu queria dizer é que não me passou pela cabeça que se tratasse de um desconhecido. Pensei que pertencesse à sua equipa. DI SILVA: O que é que a levou a pensar isso?
  26. 26. 26 PARKER: Já lhe disse. Vi-o falar consigo, em seguida encaminhou-se para mim com este sobrescrito, chamou-me pelo meu nome e disse-me que o senhor queria que eu o entregasse à testemunha. Passou-se tudo tão depressa que. . . DI SILVA: Não creio que se tivesse passado assim tão depressa. Acho que levou tempo a planear. Levou tempo a arranjar alguém que a subornasse para o entregar. PARKER: Não é verdade. Eu. . . DI SILVA: O que é que não é verdade? Que a senhora não sabia que estava a entregar o sobrescrito? PARKER: Eu não sabia o que se encontrava lá dentro. DI SILVA: Então é verdade que alguém Lhe pagou. PARKER: Não vou deixar que o senhor distorça o sentido das minhas palavras. Ninguém me pagou nada. DI SILVA: Fê-lo como se se tratasse de um favor? PARKER: Não. Pensei estar a seguir as suas instruções. DI SILVA: Disse que o homem a chamou pelo seu nome. PARKER: Sim. DI SILVA: Como é que ele sabia o seu nome? PARKER: Não sei. DI SILVA: Deixe-se disso. Deve ter qualquer idéia. Talvez tivesse adivinhado. Talvez tivesse olhado em redor da sala de audiências e dito:Está ali alguém com ar de se chamar Jennifer Parker. Acha que foi assim? PARKER:Já lhe disse. Não sei. DI SILVA: Há quanto tempo é amante de Michel Moretti ? PARKER: Mr. Di Silva, já recapitulamos tudo. Está a interrogar-me há cinco horas. Estou cansada. Nada mais tenho a acrescentar. Posso retirar-me? DI SILVA: Se sair dessa cadeira, mando-a prender. Encontra-se em muito maus lençóis, Miss Parker. Só há uma maneira de sair disto. Deixe-se de mentiras e trate de dizer a verdade. PARKER: Eu disse-lhe a verdade. Contei-lhe tudo o que sabia. DI SILVA: Exceto o nome do indivíduo que lhe entregou o sobrescrito. Quero o nome dele e quero saber quanto lhe pagou. A ata tinha ainda mais trinta páginas. Robert Di Silva fizera tudo para confundir Jennifer Parker. Todavia, ela insistia na sua versão dos fatos. Adam fechou a ata e esfregou os olhos, fatigado. Eram duas horas da madrugada. Amanhã começaria a tratar do caso Jennifer Parker.
  27. 27. 27 Para surpresa de Adam Warner, o caso Jennifer Parker nãoia ser resolvido tão facilmente. Como homem metódico que era, Adam procedeu a uma investigação sobre o passado de Jennifer Parker. Tanto quanto pôde determinar, não estava implicada em crimes e nada tinha que a ligasse a Michael Moretti. Havia algo acerca do caso que perturbava Adam. A defesa de Jennifer Parker era demasiado inconsistente. Se estivesse a trabalhar para Moretti, ele tê-la-ia protegido com uma história razoavelmente plausível. Do modo como as coisas se apresentavam, a sua história era de uma infantilidade tão transparente que chegava a possuir um toque de verdade. Ao meio-dia, Adam recebeu um telefonema do Procurador Distrital. - Como vão as coisas, Adam? - Bem, Robert. - Compreendo que está a fazer um papel de refinado patife no caso Jennifer Parker. Adam Warner pestanejou ao ouvir aquela frase. - Sim, concordei em fazer uma recomendação. - Vou afastá-la durante muito tempo. - Adam ficou surpreendido com o ódio que transparecia na voz do Procurador Distrital. - Calma, Robert. Ela ainda não foi excluída da Ordem dos Advogados. Di Silva emitiu um risinho sarcástico. - Encarrego-o disso, meu amigo. - O tom da sua voz modificou-se. - Ouvi uns rumores a respeito da sua próxima ida para Washington. Quero que saiba que pode contar com todo o meu apoio. Que era considerável, como Adam sabia. O Procurador Distrital andava no mundo há muito tempo. Sabia como é que se faziam as coisas e sabia também como aproveitar ao máximo aquela informação. - Obrigado, Robert. Fico-lhe muito grato. - O prazer é todo meu, Adam. Espero as suas notícias. Referia-se a Jennifer Parker. O quid pro quo que Stewart Needham mencionara e em que a rapariga servia de joguete. Adam Warner pensou nas palavras de Robert Di Silva:Vou afastá-la durante muito tempo. Pela leitura da ata, Adam ficara convencido de que não existia qualquer prova material contra Jennifer Parker. A não ser que ela confessasse ou que aparecesse alguém com uma informação que provasse cumplicidade criminosa, Di Silva não poderia tocar na rapariga. Ele contava com Adam para o vingar. As palavras frias e ríspidas da ata eram incisivas mas, apesar disso, Adam desejava ter podido ouvir o tom da voz de Jennifer Parker quando ela negara a sua culpa. Havia casos urgentes reclamando a atenção de Adam, casos importantes que envolviam clientes de nomeada. Teria sido fácil ir para a frente e executar as ordens de Stewart Needham, do Juiz Lawrence Waldman e de Robert Di Silva, mas o instinto de Adam Warner fazia-o hesitar. Pegou de
  28. 28. 28 novo na ficha de Jennifer Parker, rabiscou umas notas e começou a fazer algumas chamadas interurbanas. Adam tomara uma responsabilidade e tencionava cumpri-la o melhor que pudesse. Estava por de mais familiarizado com as longas e fatigantes horas de estudo e com o trabalho árduo que era necessário para se ser advogado e para se passar no exame de admissão ao foro. Era um prêmio que levava anos a alcançar e não se sentia disposto a privar ninguém dele, a não ser que tivesse a certeza de que havia uma justificação para tal. Na manhã seguinte, Adam Warner encontrava-se a bordo de um avião para Seattle, Washington. Teve encontros com os professores de Direito de Jennifer Parker, com o chefe de uma firma jurídica onde ela trabalhara como escrevente durante dois verões, e com alguns dos antigos condiscípulos de Jennifer. Stewart Needham telefonou a Adam, para Seattle. - O que estás aí a fazer, Adam? Tens aqui muito trabalho à tua espera. Esse caso Parker devia ter sido mais rápido. - Surgiram alguns problemas - respondeu Adam, cauteloso. - Regresso dentro de um ou dois dias, Stewart. Houve uma pausa. - Compreendo. Não percamos com ela mais tempo do que o necessário. Quando Adam Warner saiu de Seattle, tinha a sensação de conhecer Jennifer Parker quase tão bem como ela se conhecia a si própria. Construíra uma imagem dela no seu espírito, um bilhete de identidade mental, a partir das peças fornecidas pelos seus professores de Direito, pela senhoria, por membros da firma jurídica onde trabalhara como escrevente, e pelos condiscípulos. A imagem que Adam construíra não se assemelhava em nada à imagem que Robert Di Silva lhe dera. A não ser que Jennifer Parker fosse a mais consumada atriz de todos os tempos, não havia possibilidade de se ter envolvido numa tramóia para libertar um homem como Michael Moretti. Agora, decorridas quase duas semanas sobre aquela conversa matinal com Stewart Needham, Adam Warner encontrava-se perante a rapariga cujo passado andara a investigar. Adam tinha visto fotografias de Jennifer nos jornais, mas estas não o tinham preparado para o impacto que ela causava em pessoa. Mesmo vestida com um velho roupão, sem pintura, e com o cabelo castanho-escuro molhado, ela era de fazer cortar a respiração. - Fui designado para investigar o seu papel no julgamento de Michael Moretti, Miss Parker - disse Adam. - Ah, foi? - Jennifer sentiu-se invadir pela ira. Começou como uma faísca e tornou-se numa chama que explodiu no seu íntimo. Ainda não tinham desistido. Iam fazê-la pagar para o resto da vida. Estava a começar a ficar farta. Quando Jennifer falou, a sua voz tremia. - Não tenho nada para lhe contar! Vá-se embora e diga-lhes o que lhe apetecer. Fiz uma coisa estúpida mas, que eu saiba, não existe nenhuma lei contra a estupidez. O Procurador Distrital está convencido de que alguém me subornou. Fez um gesto desdenhoso com a mão. - Se eu tivesse dinheiro, acha que estaria a viver num sítio destes? - A sua voz começava a ficar sufocada. - Eu. . . eu estou-me nas tintas para o que tencionam fazer. Só quero que me deixem em paz.
  29. 29. 29 Vá-se embora, por favor! Jennifer deu meia volta e refugiou-se na casa de banho, fechando a porta com violência. Ficou encostada ao lavatório, respirando fundo e limpandoas lágrimas dos olhos. Reconhecia que se comportara de um modo estúpido. É a segunda vez, pensou, desgostosa. Devia ter tratado Adam Warner de outra maneira. Devia ter tentado explicar, em vez de o atacar. Talvez, nesse caso, não fosse excluída da Ordem dos Advogados. Mas sabia que isso não passava de um sonho. O fato de mandarem alguém interrogá-la era uma farsa. O próximo passo seria entregarem-lhe uma notificação para apresentar a sua defesa, e o maquinismo formal seria posto em movimento. Haveria uma comissão de inquérito formada por três advogados que fariam a sua recomendação ao Conselho Disciplinar que, por sua vez, apresentaria o seu relatório ao Conselho de Administração. A recomendação era óbvia: exclusão da Ordem dos Advogados. Ficaria proibida de exercer advocacia no estado de Nova Yorque. Jennifer pensou, amargurada:Isto tem um lado bom. Posso constar do Guinness Book of Records com a mais curta carreira de Direito da história. Meteu-se de novo no banho e recostou-se, deixando que a água ainda morna a envolvesse aliviando- lhe a tensão. Neste momento, sentia-se demasiado cansada para se importar com o que pudesse vir a acontecer. Fechou os olhos e deixou voar o pensamento. Estava meio adormecida quando o frio da água a despertou. Não fazia a mínima idéia de quanto tempo estivera na banheira. Contrariada, saiu e começou a secar-se com uma toalha. Já não sentia fome. A cena com Adam Warner tinha-lhe tirado o apetite. Jennifer penteou o cabelo, pôs creme na cara, e resolveu ir para a cama sem jantar. De manhã telefonaria por causa da viagem para Seattle. Abriu a porta da casa de banho e entrou na sala de estar. Adam Warner estava sentado numa cadeira, folheando uma revista. Ergueu o olhar quando Jennifer entrou nua na sala. - Desculpe - disse Adam. - Eu. . . Jennifer deu um pequeno grito assustada e correu para a casa de banho, onde vestiu o roupão. Quando regressou para enfrentar outra vez Adam, Jennifer estava furiosa. - O interrogatório acabou. Pedi-lhe que se retirasse. Adam pousou a revista e disse, muito sereno: - Miss Parker, acha que podemos discutir isto calmamente por uns momentos? - Não! - A raiva anterior apossava-se novamente de Jennifer. - Nada mais tenho para lhe dizer, nem ao seu maldito conselho disciplinar. Estou farta de ser tratada como. . .como se fosse uma espécie de criminosa! - Eu chamei-lhe criminosa? - perguntou Adam em tom brando. - O senhor. . . não é para isso que está aqui? - Já lhe disse por que motivo estou aqui. Fui encarregado de investigar e recomendar ou não o processo de exclusão da Ordem dos Advogados. Quero ouvir a sua versão da história. - Compreendo. E como é que posso suborná-lo?
  30. 30. 30 O rosto de Adam endureceu. - Lamento, Miss Parker. - Pôs-se de pé e começou a dirigir-se para a porta. - Espere um minuto! - Adam voltou-se. - Perdoe-me - disse ela. - Eu... Todos me parecem inimigos. Peço-lhe que me desculpe. - Aceito as suas desculpas. De súbito, Jennifer deu conta do roupão ligeiro que tinha vestido. - Se continua a querer fazer-me perguntas, vou vestir-me e depois podemos conversar. - De acordo. Já jantou? Ela hesitou. -Eu... - Conheço um restaurantezinho francês que é ideal para interrogatórios. Era um local sossegado e agradável, na Avenida Cinqüenta e Seis, no East Side. - Este lugar não é conhecido de muita gente – explicou Adam Warner quando se sentaram. - Pertence a um jovem casal francês que trabalhava em Les Pyrénées. A comida é excelente. Jennifer tinha de acreditar na palavra de Adam. Sentia-se incapaz de apreciar o que quer que fosse. Não comera durante todo o dia, mas estava tão nervosa que não conseguia que a comida lhe passasse pela garganta. Tentou acalmar-se, mas era impossível. Por muito que ele fingisse, Jennifer não podia esquecer que o homem fascinante que se encontrava à sua frente era o inimigo. E Jennifer tinha de admitir que ele era fascinante. Era divertido e atraente e, noutras circunstâncias, Jennifer teria apreciado muito a noite; mas estas não eram outras circunstâncias. Todo o seu futuro estava nas mãos deste desconhecido. As próximas duas horas iam decidir que rumo tomaria o resto da sua vida. Adam fazia os possíveis para tentar acalmá-la. Regressara havia pouco de uma viagem ao Japão, onde se tinha encontrado com funcionários superiores do governo. Tinham oferecido um banquete especial em sua honra. - Já alguma vez comeu formigas cobertas de chocolate? - perguntou Adam. - Não. Ele sorriu. - São melhores do que os gafanhotos cobertos de chocolate. Falou sobre uma caçada que fizera no ano anterior, no Alaska, em que tinha sido atacado por um urso. Falou em tudo menos naquilo pelo qual ali se encontravam. Jennifer tinha estado a couraçar-se para o momento em que Adam começasse a interrogá-la, mas quando ele finalmente tocou no assunto, todo o seu corpo ficou rígido. Tinha terminado a sobremesa quando ele anunciou, em tom calmo: - Vou fazer-lhe algumas perguntas, mas não quero que fique preocupada. Okay ?
  31. 31. 31 Jennifer sentiu um nó súbito na garganta. Não tinha a certeza de conseguir falar. Acenou com a cabeça. - Quero que me diga exatamente o que se passou naquele dia, na sala de audiências. Tudo aquilo de que se recordar, tudo o que sentiu. Leve o tempo que quiser. Jennifer tinha-se preparado para o desafiar, para lhe dizer que fizesse o que lhe apetecesse. Mas agora, sentada em frente de Adam Warner, escutando a sua voz calma, a resistência de Jennifer desaparecera. Toda a experiência estava ainda tão viva no seu espírito que, só de pensar nela, se sentia sofrer. Passara mais de um mês a tentar esquecer. E agora ele pedia-lhe que repetisse tudo de novo. Respirou fundo, trêmula e respondeu: - Muito bem. Vacilante, Jennifer começou a repetir o que se passara na sala do tribunal, mas, a pouco e pouco, o tom da sua voz tornou-se mais rápido, à medida que ia revivendo tudo. Adam escutava-a calmamente, observando-a em silêncio. Quando Jennifer terminou, Adam perguntou-lhe: - O homem que lhe deu o sobrescrito. . . encontrava-se no gabinete do Procurador Distrital na manhã em que prestou juramento? - Já pensei nisso. Para ser sincera, não me lembro. Havia muita gente no gabinete, naquele dia, e eram todos desconhecidos. - Já tinha visto o homem em algum lado? Jennifer abanou a cabeça, desamparada. - Não consigo recordar-me. Acho que não. - Disse que o viu falar com o Procurador Distrital, pouco antes de se ter dirigido a si para lhe dar o sobrescrito. Viu o Procurador Distrital entregar-lhe alguma coisa? - Eu. . . não. - Viu mesmo esse indivíduo falar com o Procurador Distrital, ou estava apenas no meio do grupo que o rodeava? Jennifer fechou os olhos durante uns segundos, tentando recordar aquele momento. - Lamento. A confusão era tão grande. Eu. . . eu não sei. - Faz alguma idéia de como é que ele terá podido descobrir o seu nome? - Não. - Ou por que motivo a escolheu? - Isso é fácil. Talvez fosse capaz de reconhecer uma idiota à primeira vista. - Abanou a cabeça. - Não. Lamento,
  32. 32. 32 Mr. Warner, mas não faço a mínima idéia. - Tem havido muitas pressões. O Procurador Distrital Di Silva andou muito tempo atrás de Michael Moretti. Até você aparecer, este caso foi incontestável. O P.D. não está nada satisfeito consigo. - Eu também não estou nada satisfeita comigo. - Jennifer não podia censurar Adam Warner pelo que estava prestes a fazer. Estava apenas a cumprir a sua missão. Tinham feito tudo para a apanharem e haviam-no conseguido. Adam Warner não era responsável; era apenas um simples instrumento. Jennifer sentiu uma súbita e opressiva necessidade de ficar sozinha. Não queria que mais ninguém presenciasse a sua desgraça. - Desculpe - pediu ela. - Eu... eu não estou a sentir-me muito bem. Gostaria de ir para casa, por favor. Adam observou-a durante uns momentos. - Acha que ficaria melhor se eu lhe dissesse que vou recomendar que o seu processo de exclusão da Ordem dos Advogados seja arquivado? Levou alguns segundos para que as palavras de Adam fossem entendidas. Jennifer olhou para ele, sem conseguir falar, perscrutando-lhe o rosto, contemplando aqueles olhos azul-acinzentados por trás dos óculos de armação grossa. - Está. . . está a falar a sério? - É muito importante para si ser advogada, não é? - inquiriu Adam. Jennifer pensou no pai e no seu confortável escritoriozinho, nas conversas que costumavam ter, nos longos anos passados na Faculdade de Direito, e nas suas esperanças e sonhos. “Vamos ser sócios. Tira depressa esse curso de Direito.” - Sim - murmurou Jennifer. - Se conseguir vencer um começo difícil, tenho a impressão de que será uma excelente advogada. Jennifer esboçou um sorriso de gratidão. - Obrigada. Vou tentar. Repetiu muitas vezes aquelas palavras para si própria. “Vou tentar." Não importava que compartilhasse um escritório pequeno e sombrio com um maltrapilho detetive particular e com um homem que recuperava carros. Era um escritório jurídico. Ela era membro da profissão legal e iam deixá-la exercer Direito. Sentia-se exultar. Olhou para Adam e soube que iria ficar eternamente grata a este homem. O empregado começara a retirar os pratos da mesa. Jennifer tentou falar, mas o que saiu foi algo entre o riso e um soluço. - Mr. Warner. . . - Depois de tudo o que passamos juntos, parece-me que devia chamar-me Adam - disse ele, em tom grave.
  33. 33. 33 - Adam. . . - Sim? - Espero não estragar o nosso relacionamento mas murmurou Jennifer -, estou a morrer de fome! As semanas que se seguiram passaram a correr. Jennifer viu-se ocupada desde manhã cedo até altas horas da noite, distribuindo citações - ordens do tribunal para se comparecer a fim de se responder numa ação legal - e intimações - ordens do tribunal para se comparecer como testemunha. Ela sabia que não tinha a menor hipótese de entrar para uma grande firma jurídica visto que, depois do escândalo em que estivera envolvida, não passava pela cabeça de ninguém contratá-la. Restava-lhe apenas descobrir uma maneira de arranjar certa reputação, de começar tudo de novo. Entretanto, havia na sua secretária o monte de citações e intimações da Peabody & Peabody. Embora isso não significasse exatamente exercer advocacia, sempre eram doze cêntimos e meio, mais as despesas. Por vezes, quando Jennifer trabalhava até mais tarde, Ken Bailey convidava-a para jantar. Tinha uma aparência cínica, mas Jennifer sentia que isso não passava de uma fachada. Tinha o pressentimento de que era um solitário. Graduara-se pela Universidade de Brown, era esperto e lia muito. Não conseguia imaginar por que motivo ele se sentia satisfeito em passar a sua vida trabalhando num escritório lúgubre, tentando localizar maridos e mulheres extraviados. Era como se se tivesse resignado a ser um falhado e receasse tentar a sua sorte. Uma vez em que Jennifer se referiu ao seu casamento, ele resmungou. - Isso não lhe diz respeito. Jennifer nunca mais tocou no assunto. Otto Wenzel era completamente diferente. Aquele homem baixinho e barrigudo vivia um casamento feliz. Considerava Jennifer como uma filha e levava-lhe constantemente sopas e bolos feitos pela mulher. Infelizmente, a mulher era uma péssima cozinheira, mas Jennifer esforçava-se por comer tudo o que Otto Wenzel trazia, pois não queria ferir-lhe a sensibilidade. Numa sexta-feira à noite, Jennifer foi convidada para jantar em casa dos Wenzel. Mrs. Wenzel tinha feito couve estufada, que era a sua especialidade. A couve estava mal cozida, a carne do recheio era dura e o arroz estava meio cru. Todo o prato nadava num lago de gordura de frango. Jennifer atacou-o corajosamente, engolindo bocados muito pequenos e espalhando a comida em volta do prato, para dar idéia de que estava a comer. - Gosta? - inquiriu Mrs. Wenzel com um sorriso. - É... é um dos meus pratos favoritos. Dali em diante, Jennifer passou a jantar todas as sextas-feiras em casa dos Wenzel, e Mrs. Wenzel preparava sempre o prato favorito de Jennifer. Uma manhã, Jennifer recebeu um telefonema da secretária particular de Mr. Peabody, Jr. - Mr. Peabody gostaria de vê-la hoje de manhã, às onze horas. Seja pontual, por favor. - Sim, minha senhora.
  34. 34. 34 Até essa altura, Jennifer só tinha contatado com secretárias e amanuenses da empresa Peabody. Era uma firma grande e prestigiosa, uma daquelas para as quais os jovens advogados sonhavam ser convidados a ingressar. Enquanto se dirigia para o encontro, Jennifer pôs-se a fantasiar. Se o próprio Mr. Peabody queria vê-la, tinha de ser por causa de algo importante. Talvez se tivesse feito luz no seu espírito e fosse oferecer-lhe um lugar de advogada na empresa, dar-lhe uma oportunidade de mostrar o que valia. Ela ia surpreendê-los a todos. Talvez um dia a empresa viesse a chamar-se Peabody, Peabody & Parker. Jennifer esperou trinta minutos no corredor, fora do escritório e, às onze horas em ponto, entrou na recepção. Não queria parecer demasiado ansiosa. Fizeram-na aguardar duas horas e, finalmente, foi introduzida no gabinete de Mr. Peabody, Jr. Era um homem alto e magro que usava um fato completo e sapatos mandados fazer de encomenda em Londres. Não a convidou a sentar-se. - Miss Potter. . . - O tom da sua voz era alto e desagradável. - Parker. Pegou numa folha de papel que se encontrava em cima da secretária. - Isto é uma intimação. Gostava que a entregasse. Naquele momento, Jennifer sentiu que não ia tornar-se membro da firma. Mr. Peabody, Jr., estendeu a intimação a Jennifer e declarou : - A sua gratificação será de quinhentos dólares. Jennifer estava certa de que o compreendera mal. - Disse quinhentos dólares? - Exatamente. Isto se for bem sucedida, é claro. - Há qualquer problema - conjeturou Jennifer. - Há, sim - admitiu Mr. Peabody, Jr. - Há mais de um ano que andamos a tentar intimar este indivíduo. Chama-se William Carlisle. Vive numa propriedade, em Long Island, e nunca sai de casa. Para ser sincero, já uma dúzia de pessoas tentaram intimá-lo. Tem um mordomo que lhe serve de guarda-costas e que afasta toda a gente. - Não estou a ver como é que eu. . . - começou Jennifer. Mr. Peabody, Jr., inclinou-se para a frente. - Está aqui em jogo muito dinheiro. Mas não posso levar William Carlisle ao tribunal, a não ser que o consiga intimar, Miss Potter. - Jennifer não se deu ao trabalho de o corrigir. - Acha que consegue tratar disto? Jennifer pensou no que poderia fazer com os quinhentos dólares. - Hei de descobrir uma maneira.
  35. 35. 35 Às duas horas daquela mesma tarde, Jennifer encontrava-se em frente da imponente quinta de William Carlisle. A casa era georrgiana e erguia-se no meio de dez acres de belos terrenos cuidadosamente tratados. Um caminho particular conduzia à fachada da casa, que era ladeada por abetos graciosos. Jennifer pensara muito no problema. Uma vez que era impossível entrar na casa, a única solução era arranjar maneira de fazer sair Mr. William Carlisle. A meio do caminho estava um carro de jardim. Jennifer observou o carro durante uns momentos e, em seguida, encaminhou-se para ele, à procura dos jardineiros. Encontrou três a trabalhar, e todos eles japoneses. Jennifer dirigiu-se aos homens. - Quem é o encarregado? Um deles endireitou-se. - Sou eu. - Tenho um trabalhinho para os senhores. . . – começou Jennifer. - Lamento, Miss. Muito ocupados. - São só cinco minutos. - Não. Impossível. - Pago-lhes cem dólares. Os três homens interromperam o trabalho e olharam para ela. - Paga-nos cem dólares por cinco minutos de trabalho? perguntou o jardineiro-chefe. - Isso mesmo. - O que temos de fazer. . .? Cinco minutos mais tarde, o carro de jardim deteve-se à entrada da residência de William Carlisle e Jennifer e os três jardineiros apearam-se. Jennifer olhou em redor, escolheu uma bela árvore junto da porta principal e ordenou-lhe: - Arranquem-na. Eles tiraram as pás do carro e começaram a cavar. Ainda não tinha decorrido um minuto quando a porta principal se abriu repentinamente e um homem enorme, fardado de mordomo, saiu vociferando. - Que diabo estão vocês a fazer? - Viveiro de Long Island - disse Jennifer em tom resoluto. - Vamos arrancar todas estas árvores. - É impossível! Mr. Carlisle teria um ataque! - Voltou-se para os jardineiros. - Parem com isso! - Olhe, senhor - disse Jennifer. - Estou apenas a cumprir a minha missão. - Olhou para os jardineiros: - Continuem a cavar, amigos! - Não! - gritou o mordomo. - Digo-lhes que houve um engano! Mr. Carlisle não mandou arrancar
  36. 36. 36 árvores nenhumas. Jennifer encolheu os ombros e replicou: - O meu chefe disse-me que sim. - Onde é que posso entrar em contato com o seu chefe? Jennifer consultou o relógio. - Saiu para Brooklyn em serviço. Deve regressar ao escritório por volta das seis horas. O mordomo fitou-a, furioso. - Um minuto! Não façam nada até eu voltar! - Continuem a cavar - ordenou Jennifer aos jardineiros. O mordomo voltou as costas e entrou rapidamente em casa, atirando com a porta. Momentos depois, a porta abriu-se e o mordomo regressou, acompanhado por um homenzinho de meia-idade. - Importa-se de me dizer que diabo se passa aqui? - O que tem o senhor com isso? - inquiriu Jennifer. - Já lhe digo o que é que eu tenho com isso – vociferou ele. - Sou William Carlisle e acontece que esta propriedade é minha. - Nesse caso, Mr. Carlisle - atalhou Jennifer -, tenho uma coisa para si. - Meteu a mão ao bolso e estendeu-lhe a intimação. Depois voltou-se para os jardineiros: - Já podem parar de cavar. No dia seguinte, de manhã cedo, Adam Warner telefonou. Jennifer reconheceu-lhe logo a voz. - Pensei que gostaria de saber - disse Adam - que o processo de expulsão da Ordem dos Advogados foi oficialmente arquivado. Escusa de continuar preocupada. Jennifer fechou os olhos e proferiu uma ação de graças, silenciosa. - Eu. . . eu não sei exprimir-lhe a minha gratidão pelo que o senhor fez. - A justiça nem sempre é cega. Adam não se referiu à cena que tivera com Stewart Needham e com Robert Di Silva. Needham ficara desapontado, mas encarara o fato com serenidade. O Procurador Distrital continuara como um touro furioso. - Deixou que aquela puta se safasse? Jesus Cristo, ela pertence à Máfia, Adam! Não percebeu isso? Ela está a enganá-lo ! E continuou a falar até Adam ficar farto. - Toda a evidência contra ela era circunstancial, Robert. Ela estava no lugar errado na altura errada, e foi apanhada numa ratoeira. Isso, para mim, não significa que pertença à Máfia.
  37. 37. 37 Por fim, Robert Di Silva acabara por declarar: - Okay, ela continua sendo advogada. Só peço a Deus que exerça em Nova Yorque pois, no minuto em que ela puser o pé nas minhas salas de audiência, liquido-a. Agora, ao falar com Jennifer, Adam não contou nada disto. Jennifer arranjara um inimigo de morte, mas não havia nada a fazer. Robert Di Silva era um homem vingativo e Jennifer era um alvo vulnerável. Era inteligente, idealista, dolorosamente jovem e sedutora. Adam sabia que não devia voltar a vê-la. Havia dias, semanas e meses em que Jennifer tinha vontade de desistir. A tabuleta da porta continuava a anunciar Jennifer Parker, Licenciada em Direito, mas isso não enganava ninguém, e muito menos Jennifer. Não estava a exercer advocacia: passava os dias à chuva, ao granizo e à neve, entregando citações e intimações a pessoas que a odiavam por isso mesmo. Uma vez por outra aceitava uma causa pro bono, ajudando os velhos a arranjar cartões de racionamento, resolvendo diversos problemas jurídicos dos negros e porto-riquenhos do ghetto e de outras pessoas desprivilegiadas. Mas sentia-se presa numa ratoeira. As noites eram ainda piores do que os dias. Pareciam não ter fim, pois Jennifer sofria de insônias, e os seus sonhos eram povoados de demônios. Tudo começara na noite em que a mãe abandonara Jennifer e o pai, e ela não tinha sido capaz de esconjurar aquilo que lhe causava os pesadelos. A solidão oprimia-a. Por vezes saía com jovens advogados mas, como era inevitável, Jennifer dava consigo a compará-los com Adam Warner, e todos eles ficavam muito aquém. Jantavam, iam ao cinema ou ao teatro e depois travava-se uma luta à porta de casa dela. Jennifer nunca tinha a certeza se esperavam que fosse com eles para a cama porque a tinham levado a jantar, ou porque tinham sido obrigados a subir e a descer quatro íngremes lanços de escadas. Havia alturas em que se sentia seriamente tentada a dizer Sim, apenas para ter alguém com ela durante a noite, alguém a quem abraçar, alguém a quem se entregar. Mas necessitava de ter na sua cama mais do que um corpo ardente que falasse; necessitava de alguém que se preocupasse com ela, alguém com quem ela se pudesse preocupar. Os homens mais interessantes que faziam propostas a Jennifer eram todos casados, e ela recusava- se redondamente a sair com qualquer deles. Recordava uma frase do admirável filme de Billy Wilder, O Apartamento:”Quando se ama um homem casado, não se deve usar rímel.” A mãe de Jennifer destruíra um casamento, matara o pai de Jennifer. Não poderia nunca esquecê-lo. Chegou o Natal e a véspera de Ano Novo, e Jennifer passou-os sozinha. Tinha caído um forte nevão e a cidade parecia um gigantesco cartão de boas-festas. Jennifer percorreu as ruas, vendo os transeuntes dirigirem-se apressados para o calor dos lares e das famílias, e sentia-se invadida por uma dolorosa sensação de vazio. O pai fazia-lhe uma falta terrível. Ficou satisfeita quando as férias acabaram. “O ano de mil novecentos e setenta vai ser melhor", disse Jennifer para com os seus botões. Nos dias em que Jennifer se sentia pior, Ken Bailey procurava animá-la. Levava-a ao Madison Square Garden para ver jogar os Rangers, a uma discoteca e, uma vez por outra, ao teatro ou ao cinema. Jennifer sabia que ele se sentia atraído por ela mas, no entanto, continuava a manter uma barreira entre eles. Em Março, Otto Wenzel decidiu mudar-se para a Florida com a mulher. - Os meus ossos estão a ficar demasiado velhos para estes Invernos de Nova Yorque - explicou ele a
  38. 38. 38 Jennifer. - Vou sentir a sua falta. - E Jennifer era sincera ao dizê-lo. Tinha se lhe afeiçoado muito. - Tome conta de Ken. Jennifer olhou-o com uma expressão zombeteira. - Ele nunca lhe contou, pois não? - Não me contou o quê? Ele hesitou, e por fim respondeu: - A mulher suicidou-se. Ele sente-se culpado. Jennifer ficou abalada. - Que horror! Por. . . por que motivo é que ela fez isso? - Apanhou Ken na cama com um jovem loiro. - Oh, meu Deus ! - Deu um tiro em Ken e depois voltou a arma contra si própria. Ele sobreviveu. Ela não. - Que horror! Não fazia a mínima idéia que. . . que. . . - Eu sei. Ele sorri bastante, mas a sua vida é um inferno. - Obrigada por mo ter dito. Quando Jennifer regressou ao escritório, Ken comentou - Com que então o velho Otto vai deixar-nos. - Pois vai. Ken Bailey sorriu. - Parece-me que vamos ficar sozinhos no mundo. - Parece que sim. “E de certo modo”, pensou Jennifer, “é verdade.” Agora Jennifer via Ken com outros olhos. Almoçavam e jantavam juntos, e Jennifer não conseguia detectar nele quaisquer sinais de homossexualidade, mas Jennifer sabia que Otto Wenzel lhe dissera a verdade: Ken Bailey trazia consigo o seu inferno particular. Começavam a aparecer alguns clientes. De um modo geral vinham pobremente vestidos, desnorteados e, por vezes, apresentavam-lhe casos completamente loucos. Prostitutas vinham pedir a Jennifer que lhes tratasse da caução, e Jennifer surpreendia-se com o fato de algumas delas serem muito jovens e bonitas. Elas tornaram-se numa pequena mas contínua fonte de rendimento. Não conseguia descobrir quem é que as mandava ter com ela. Quando falou

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