Thiago ingrassia pereira

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Thiago ingrassia pereira

  1. 1. PAULO FREIRE E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE SOCIOLOGIAThiago Ingrassia PereiraUFFS – Campus Erechimthiago.ingrassia@gmail.comEixo 6: Paulo Freire e a Formação de ProfessoresResumo: a formação do professor de sociologia a partir do pensamento de Paulo Freire é otema deste texto que tem dois objetivos básicos: a) fomentar o debate acerca da licenciaturaem ciências sociais como espaço por excelência da formação do professor de sociologia e b)ressaltar a dimensão metodológica na formação do professor a partir da interface entre oscampos científicos das ciências sociais e da educação. Ao apresentar algumas reflexões sobrea relação ensino – aprendizagem em sociologia, busco aproximar a perspectiva de educaçãofreireana dos princípios epistemológicos contidos nas Orientações Curriculares Nacionaispara o ensino de sociologia. Assim, construo minha argumentação assumindo o pressupostoda “do-discência”, ou seja, que o professor ao ensinar aprende e que o aluno ao aprenderensina.Palavras-Chave: Formação de Professores, Metodologia de Ensino, Ensino de Sociologia.A partir da Lei 11.684/2008 o ensino de sociologia1tornou-se obrigatório nos três anosdo ensino médio nas escolas brasileiras. Diante disso, um conjunto de desafios para a efetivaconsolidação dessa área do conhecimento nos currículos escolares passou a fazer parte daagenda de universidades e das redes públicas e privadas de ensino básico.Potencializar o espaço da licenciatura em ciências sociais, inclusive com a expansãode novos cursos, se colocou como necessidade para o aprofundamento do tema formação deprofessores de sociologia em termos acadêmicos e profissionais. Nesse sentido, apresentoalgumas breves reflexões, com base no pensamento freireano, acerca da formação deprofessores da área de ciências sociais.Como ensinar? Pergunta central para quem se coloca na condição de ser professor. Hávárias tendências pedagógicas que, historicamente, se dispuseram a enfrentar essa questão. Deum modo geral, o ato de ensinar está associado ao ato de aprender. Somente aprendendo algoposso ensinar algo. E nessa relação entre ensino e aprendizagem, anuncio o campo dametodologia de ensino como uma das principais questões a serem trabalhadas na formaçãodos professores de sociologia:1O campo científico das ciências sociais (antropologia, ciência política e sociologia) é representado peladisciplina de sociologia. Nesse sentido, assumo a perspectiva que a disciplina escolar sociologia deve trabalharos conteúdos provenientes das três ciências referidas.
  2. 2. 2Formação do Professor de SociologiaNesse sentido, chego a Paulo Freire2(1921-1997), educador pernambucano, brasileiroe do mundo. Freire produz uma visão antropológica essencial que se desdobra em suapedagogia. Para ele, os seres humanos são seres inacabados, portanto, necessitam daeducação como uma forma de humanização. A partir da consciência de sua finitude, os sereshumanos buscam construir o mundo como espaço de crescimento. Nisso reside a vocaçãoontológica para ser mais, tão presente na obra de Freire.Ao ser “programado” para aprender, homens e mulheres se fazem no mundo e com omundo, portanto, se constituem como seres de relação, seres culturais. A educação, assim, éuma ação cultural que permite aos humanos (re)produzirem sua existência. Qualquerempecilho à concretização da ação educativa em uma perspectiva libertadora é uma práticadesumanizadora. Freire, durante toda sua produção acadêmica e atividade militante,problematizou o capitalismo como um sistema desumanizante.Dessa forma, escreveu sua Pedagogia do Oprimido (FREIRE, 2005a), livrofundamental para a compreensão de sua filosofia da educação. Mais do que um método, doque uma didática, Freire assenta a intervenção educativa a partir de uma antropologia e deuma filosofia. Há uma concepção de ser humano que se desdobra em uma posição políticacontra a exploração dos humanos e da natureza.Por isso, ao refletirmos, na qualidade de professores de sociologia, sobre nossa práticapedagógica, encontramos em Paulo Freire alguns subsídios epistemológicos e metodológicosque podem direcionar nossa atividade pedagógica.2Para uma biografia de Freire, acessar o Centro Paulo Freire da UFPE emhttp://www.paulofreire.org.br/asp/Index.asp. Acesso em 6 fev 2013.
  3. 3. 3Há, portanto, uma posição política que indica uma prática educativa (pedagógica). Aodemonstrar o caráter político da educação, Freire mostra a impossibilidade de sermos neutros,de não tomarmos posição, ou seja, de nos perguntarmos a favor de quem e contra quematuamos na educação.O respeito ao saber originário dos alunos é outro ponto fundamental da pedagogiafreireana. Partir do conhecimento que os alunos chegam à escola não significa ficar neles, ouseja, devemos respeitar esse “saber de experiência feito” (senso comum), mas problematizá-lopara superá-lo a partir de noções críticas acerca da realidade social.Assim, ao buscarmos em Freire possíveis respostas à pergunta “como ensinar?”,típicas da formação dos licenciados, chegamos a alguns pontos: Ensinar não é transferir conhecimento; Só posso ensinar aquilo que sei; portanto, para ensinar é preciso aprender; Apostar em uma “pedagogia da pergunta” (FREIRE; FAUNDEZ, 2002) emdetrimento de uma “pedagogia da resposta”; Partir do senso comum para superá-lo (sem “rupturas”); Construir uma ação educativa pautada na liberdade; Ser rigoroso e alegre em sala de aula; Não dicotomizar teoria e prática, ou seja, trabalhar em nível da “práxis”; Buscar dotar a aula de sentido, mobilizando a “curiosidade” dos estudantes; Assumir o diálogo como compromisso e estratégica metodológica.Nada menos freireano do que imaginar a prática pedagógica a partir de “receitas” pré-estabelecidas. Contudo, ao nos situarmos epistemologicamente, passamos a assumir posições.Um exemplo: ao assumir o “construtivismo” adotamos a perspectiva de construção doconhecimento em detrimento de sua transmissão ou simples reprodução. E o conhecimento éparte do trabalho do professor. Em especial, o professor de sociologia, a partir dos princípiosdo estranhamento e da desnaturalização (BRASIL, 2006), pode encontrar na propostafreireana um excelente embasamento teórico-prático para suas atividades nas escolas.Por falar nisso, para Freire a escola é um espaço especial. Por isso, defendia que aescola precisa ser reinventada, democratizada e ser, principalmente a pública, “popular”, pois,como instituição histórica, é um projeto em permanente disputa.Escola é...o lugar onde se faz amigosnão se trata só de prédios, salas, quadros,programas, horários, conceitos...Escola é, sobretudo, gente,
  4. 4. 4gente que trabalha, que estuda,que se alegra, se conhece, se estima.O diretor é gente,O coordenador é gente, o professor é gente,o aluno é gente,cada funcionário é gente.E a escola será cada vez melhorna medida em que cada umse comporte como colega, amigo, irmão.Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’.Nada de conviver com as pessoas e depois descobrirque não tem amizade a ninguémnada de ser como o tijolo que forma a parede,indiferente, frio, só.Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,é também criar laços de amizade,é criar ambiente de camaradagem,é conviver, é se ‘amarrar nela’!Ora , é lógico...numa escola assim vai ser fácilestudar, trabalhar, crescer,fazer amigos, educar-se,ser feliz.(Paulo Freire)Paulo Freire possui uma extensa produção bibliográfica disponível para pesquisa3.Seus livros partem de sua prática como educador na alfabetização de adultos, mas ultrapassamapenas essa dimensão, tratando de todos os aspectos relativos à pedagogia, sociologia,economia, cultura, ética, história etc.O ensino de sociologia na educação básica mantém uma íntima relação potencial comas propostas freireanas, pois ambos buscam a construção da criticidade indispensável àcompreensão e intervenção na realidade social.É por isso que sugiro (re)estudar Paulo Freire. Apenas vale a pena lermos autores paranos tornarmos um. O próprio Freire queria ser “reinventado” (FREIRE, 2001) e essa é nossamissão: com criatividade, criarmos e recriarmos estratégias pedagógicas em nosso trabalho.Particularmente, nossa comunidade docente na sociologia é ainda carente de discussõesmetodológicas (didáticas) mais aprofundadas. Tal cenário é originado pela “jovialidade” daatual obrigatoriedade da sociologia na escola, bem como de sua intermitência ao longo detodo século XX na escola brasileira. Porém, estamos num momento fecundo para a produçãode um diálogo que possibilite avançarmos na legitimação do espaço curricular da sociologiana educação básica.3Recomendo o acervo do Instituto Paulo Freire, disponível em http://acervo.paulofreire.org/xmlui. Acesso em 6fev 2013.
  5. 5. 5Paulo Freire não produziu reflexões específicas sobre o ensino de sociologia, mas suaobra nos fornece pistas preciosas de seu entendimento sobre o papel da ciência da sociedadena formação das pessoas:não importa em que sociedade estejamos, em que mundo nos encontremos, não épossível formar engenheiros ou pedreiros, físicos ou enfermeiras, dentistas outorneiros, educadores ou mecânicos, agricultores ou filósofos, pecuaristas oubiólogos sem uma compreensão de nós mesmos enquanto seres históricos, políticos,sociais e culturais; sem uma compreensão de como a sociedade funciona. E isto otreinamento supostamente apenas técnico não dá (FREIRE, 2008, p. 134).Assim, creio que o ensino de uma ciência que se preocupa exatamente com acompreensão de como a sociedade funciona é essencial. O ensino de sociologia possui umahistória de muitas rupturas ao longo do século XX em nosso país, até chegar ao ostracismodurante a ditadura militar (1964-1985).A própria sociologia como ciência e a profissão de sociólogo sofrem contestações emseus métodos e na sua finalidade, tendo, nas palavras do sociólogo inglês Anthony Giddens(2001, p. 11), “algo capaz de causar polêmicas jamais geradas por outras disciplinas”.Contudo, a atual presença curricular da sociologia é ilustrativa de sua importância naformação das pessoas, pois, queiramos ou não, estamos “condenados” à vida em sociedade e,assim, torna-se fundamental sabermos viver nesta sociedade. Deixar de estudar sociologiarepresenta algo próximo a jogar um jogo todos os dias sem saber de suas regras...Dessa forma, essas singelas reflexões sobre as concepções freireanas procuramfomentar o debate sobre a formação de professores de sociologia. Assumo o pressuposto deque “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 2005b,p. 23) e, a partir dele, procuro contribuir4para a formação de professores com consciênciaética e sólidos fundamentos epistemológicos e metodológicos (didáticos).Por força de Lei a sociologia está presente nas escolas de nível médio de todo o país,resta, portanto, examinarmos suas dimensões curriculares, carga horária, conteúdosministrados e estratégias metodológicas, além de trabalharmos para a superação da baixapresença de professores com formação em ciências sociais em regência de classe. Exatamentenum contexto de “crise” do modelo escolar tradicional (CANÁRIO, 2006) e de algumaspropostas para sua superação5, junto à desvalorização da carreira docente, é que a sociologiapassa a integrar o cenário escolar com o propósito de contribuir para a formação de sujeitoscom consciência crítica.4Depois de uma passagem pela docência em sociologia na educação básica, atualmente ministro as disciplinasde Estágio Curricular Supervisionado no curso de licenciatura em ciências sociais da UFFS/Erechim.5Em nível nacional, temos a proposta do “Ensino Médio Inovador”; no Rio Grande do Sul, está em andamento areorganização curricular a partir do “Ensino Médio Politécnico”.
  6. 6. 6Mesmo diante dessas dificuldades e desafios, o ensino de sociologia, especialmente naescola pública6, pode ser um canal importante para a formação de pessoas aptas a refletirem etomarem posição na sociedade. Para isso, precisamos de professores comprometidos, bemformados e com reconhecimento profissional.ReferênciasBRASIL. Orientações Curriculares Nacionais – Sociologia. Brasília: MEC, 2006.CANÁRIO, R. A escola tem futuro? das promessas às incertezas. Porto Alegre: Artmed,2006.FREIRE, P. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Ed. UNESP, 2001._____; FAUNDEZ, A. Por uma pedagogia da pergunta. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,2002._____. Pedagogia do oprimido. 41 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005a._____. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 31 ed. São Paulo:Paz e Terra, 2005b._____. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. 15 ed. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 2008.GIDDENS, A. Em defesa da sociologia: ensaios, interpretações e tréplicas. São Paulo: Ed.UNESP, 2001.PEREIRA, T. I. O professor de sociologia como educador popular: abrindo o diálogo naperspectiva freireana. In: 3º Encontro Estadual de Ensino de Sociologia (ENSOC). Rio deJaneiro: Anais do 3º ENSOC, 2012.6A presença da disciplina sociologia na escola pública proporciona pensarmos a partir de pressupostosconstruídos no movimento de educação popular. Tenho procurado pensar nesta relação entre o ensino desociologia nas escolas públicas e a educação popular (PEREIRA, 2012).

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