Almanaque Chuva de Versos n. 392

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Almanaque com trovas, haicais, poesias, e outros gêneros.
Na seção nada de versos, folclore, artigos de literatura, estante de livros, etc.

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Almanaque Chuva de Versos n. 392

  1. 1. 2 Walt Disney Mensagem “E assim, depois de muito esperar, num dia como outro qualquer, decidi triunfar… Decidi não esperar as oportunidades e sim, eu mesmo buscá-las. Decidi ver cada problema como uma oportunidade de encontrar uma solução. Decidi ver cada deserto como uma possibilidade de encontrar um oásis. Decidi ver cada noite como um mistério a resolver. Decidi ver cada dia como uma nova oportunidade de ser feliz. Naquele dia descobri que meu único rival não era mais que minhas próprias limitações e que enfrentá- las era a única e melhor forma de as superar. Naquele dia, descobri que eu não era o melhor e que talvez eu nunca tivesse sido. Deixei de me importar com quem ganha ou perde. Agora me importa simplesmente saber melhor o que fazer. Aprendi que o difícil não é chegar lá em cima, e sim deixar de subir. Aprendi que o melhor triunfo é poder chamar alguém de”amigo”. Descobri que o amor é mais que um simples estado de enamoramento, “o amor é uma filosofia de vida”. Naquele dia, deixei de ser um reflexo dos meus escassos triunfos passados e passei a ser uma tênue luz no presente. Aprendi que de nada serve ser luz se não iluminar o caminho dos demais. Naquele dia, decidi trocar tantas coisas… Naquele dia, aprendi que os sonhos existem para tornar-se realidade. E desde aquele dia já não durmo para descansar… simplesmente durmo para sonhar.” (Walter Elias Disney 1901-1966) Walter Elias Disney (Chicago, 5 de dezembro de 1901 — Los Angeles, 15 de dezembro de 1966) foi um produtor cinematográfico, cineasta, diretor, roteirista, dublador, animador, empreendedor, filantropo e co-fundador da The Walt Disney Company. Tornou-se conhecido, nas décadas de 1920 e 1930, por seus personagens de desenho animado, como Mickey e Pato Donald. Ele também foi o criador do parque temático sediado nos Estados Unidos chamado Disneylândia, além de ser o fundador da corporação de entretenimento, conhecida como a Walt Disney Company.
  2. 2. 3 Uma Trova de Maringá/PR Jorge Fregadolli Bela filha da floresta, Maringá é uma lição: nela o trabalho é uma festa e o progresso é uma canção. Uma Trova de Angra dos Reis/RJ Jessé Nascimento Nossos puros sentimentos são comparados, na vida, a afinados instrumentos numa orquestra bem regida. Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ X SONETO ANTIGO Se acaso o olhar nos vossos olhos ponho, E os supreendo na minha face ruda, A minha vida toda em luz se muda, Porém me sinto sempre mais tristonho. Se cuido que há também vosso o meu sonho, Por mais que o meu pensar engane e iluda, De alma de todo em todo escura e muda, Tanto de vós mais longe me suponho. Há que, Senhora, se, qual sois, tão fria, Assim mudais o meu Destino fero, Matando-me de dor, ou de alegria, Dizei, Senhora: deste Amor sincero, Da natureza minha que seria, Se tanto me quisereis qual vos quero? Uma Trova Humorística de São Gonçalo/RJ Gilvan Carneiro da Silva O “mundo é mesmo um moinho” que preconceitos derruba: – um clarinete magrinho louco de amor pela tuba... Uma Trova de Nova Friburgo/RJ Elisabeth Souza Cruz Deixo a roça na estação, trouxe os sonhos na bagagem, mas a cidade é a impressão de que eu perdi a viagem!
  3. 3. 4 Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ ENCANTAMENTO Ante o deslumbramento do teu vulto sou ferido de atônita surpresa e vejo que uma auréola de beleza dissolve em lua a treva em que me oculto. Estás em cada reza do meu culto, sonhas na minha lânguida tristeza, e, disperso por toda a natureza, paira o deslumbramento do teu vulto. É tua vida a minha própria vida, e trago em mim tua alma adormecida... Mas, num mistério surdo que me assombra, Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace, como um sonho que nunca se sonhasse ou como a sombra vã de uma outra sombra... Uma Quadra Popular Autor Anônimo Se eu soubesse quem tu eras, quem tu havias de ser, meu coração não te dava para agora eu padecer… Uma Trova Hispânica do Chile Germán Echeverría Aros La honestidad elemento es el valor más profundo, es la verdad y argumento para salvar este mundo. Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ HUMILDADE Minha humildade de água me trouxera ao mais íntimo pó dos pós de ti e rira à desatada primavera os ouros e cristais que ela sorri. Trajada de urze, barro, líquen e hera, ficara em desbotado e eterno aqui, marcando, à tinta de ar, pelo ar a espera de se entreabrirem tempestades e
  4. 4. 5 silêncios para os lumes do teu passo. Modelara-me em terra ou limo crasso para ser teu desdém, objeto ou chão. Vivera no final de selva e furna, tornara o coração ilha noturna, século, inverno a dormir o teu clarão. Trovadores que deixaram Saudades José Gil Amora (Zé da Rua) Fortaleza/CE (1883 – 1920) Afeições puras e belas, no mundo empedrado e aflito, lembram linhas paralelas para encontro no Infinito. Uma Trova de Mangualde/Portugal Elisabete Aguiar No meu livro de memórias, guardo, com todo o recato, as mil saudosas histórias que conta o nosso retrato. Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SONETO DOS OLHOS Tu és teus olhos cúmplices e graves. Neles murmuram apagadas vozes, dormem o tacto dessas mãos velozes e o peso oculto de pejadas naves cortando águas convulsas, antes suaves, cheias de malferidos albatrozes; e, entre chamas sem cor, passos ferozes, há uma flor soterrada a sete chaves. São súbitos teus olhos como facas desembainhadas fulgurantemente nos avessos das tenebras opacas. Atrás de suas pálpebras incertas tateia cega luz um poço ardente, correm abismos, erguem-se florestas.
  5. 5. 6 Uma Trova de Curitiba/PR Vanda Fagundes Queiroz Meu caderno confidente, primeiros versos de amor: – ilusão de adolescente… que endeusava um professor! Uma Haicai de São Paulo/SP Alonso Alvarez um pescador remando o mar rimando alguém admirando Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SONETO DO EQUÍVOCO Como se eu fosse este ar que atravessaste, conservo em mim o rastro reticente de linhas de água, fogo, asa e serpente, composição de Deus erguida em haste. Como se fosse o rio que cruzaste, sonho uma barca de ouro transcendente, que me navega tempestuosamente com seus remos de música e contraste. Como se fosse o espelho em que te viste, fende-se em minha sombra um cristal triste. (Flores e ninhos buscam tua mão.) Como se fosse o deus a quem amasses, compreendo o fluido rosto de mil faces, do alto leio a raiz no último chão. Uma Trova de São José dos Campos/SP Amilton Maciel Monteiro Eu creio que a maior prova que eu te quero de verdade é que em toda minha trova ponho a tua identidade! Um Diálogo Poético entre Maringá/PR e Fortaleza/CE José Feldman (Maringá/PR) Andando aqui e acolá, por todo imenso Brasil , pode explicar o que é que há? - Nemésio! Tomou doril?
  6. 6. 7 Nemésio Prata (Fortaleza/CE) De fato, "tomei" Doril. Por Vírus fui atacado; mas fique tranquilo, amigo, porque Deus está comigo, e agradeço o seu cuidado. A despeito da virose que me deixou acamado, sem vontade e sem ação, sem qualquer disposição, febril e mal humorado, todo dia o meu remédio, pelo amigo ministrado, é chuva em forma de verso que neste período adverso deixa-me mais aliviado! Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ DESESPERO Fulgura o luar, e lembra-me que existes: uma lança me fura lado a lado, e sinto-me deserto e embebedado das bebidas mais pálidas e tristes. Doem o ar, o silêncio, a hora pendida — tal de invisível haste incerta rosa, e a paisagem copia, silenciosa, o avesso desta vida numa vida. Fecho os túneis das noites e dos dias, neles me morro e enterro sem morrer. As gastas mãos de tudo estão vazias, pesam os pés de pedra e a alma cadente, enchem-se os olhos lancinantemente da cegueira mortal de não te ver. Uma Trova de São José dos Campos/SP Décio Rodrigues Lopes Na minha "Melhor Idade", sendo velho, sou criança. Vivendo a felicidade... no carrossel "Esperança"! Uma Trova Humorística de Curitiba/PR Vanda Alves da Silva Pomposo no clarinete, já se sentindo aclamado,
  7. 7. 8 soprou pequeno falsete e foi mesmo “ovocionado”... Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SOB O TEU SILÊNCIO Não me doeria ser o teu ditado, e só pelos teus olhos tudo ter; sob os teus pés sentir-me derramado como seu chão de afeto e de prazer; ser em teu sonho gesto de passado, buscar teu sol e lua e dissolver- me, pelo seu excesso fulminado; ser fragmento da sombra do teu ser: ainda formas de luz inventaria, frutos no céu, manhãs na ramaria, montanhas de ouro, lira à flor do mar, se o sim nem não, sem letras e sem boca, em que te enterras não me fosse a oca morte onde murcho e cevo a dor de amar. Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ Celso Pestana Dois passarinhos - Também vou ajeitando Meu ninho de pedras. Uma Trova Humorística de São José dos Campos/SP Cleópatra Olhei a fruta madura, chuchei; ela foi ao chão. Esqueci a dentadura… assim eu fiquei na mão... Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SONHO DE VERÃO DE UMA NOITE Se eu encontrasse o til de uma intenção em resto de unha tua ou num só fio solto dos teus cabelos, meu vazio fluíra em ouro sobre a tua mão,
  8. 8. 9 pusera chama à fria imensidão do teu reinado e mar fizera o esguio sonho de águas em que arfa o teu navio, entre âncoras e velas de evasão, sob a avidez da carga prisioneira; do fundo dos teus olhos sem desígnios surgira a grave noite que tu és; esquecerias a última fronteira e atirarias aos meus lagos ígneos o universo que sobe dos teus pés. Recordando Velhas Canções Travessia (canção, 1967) Fernando Brant e Milton Nascimento Quando você foi embora fez-se noite em meu viver Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar Estou só e não resisto, muito tenho prá falar. Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de pedras, como posso sonhar? Sonho feito de brisa, vento vem terminar Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar. Vou seguindo pela vida me esquecendo de você Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver. Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de pedras, como posso sonhar Sonho feito de brisa, vento vem terminar Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar. Vou seguindo pela vida
  9. 9. 10 me esquecendo de você Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver. Uma Trova de São José dos Campos/SP Glória Tabet Marson Com mentiras, a cigana me enganou. Fui um bobão! Levou toda a minha grana; comprei ouro...era latão! Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SOLIDÃO O rio se entristece sob a ponte. Substância de homem na torrente escura flui, enternecimento ou desventura, misturada ao crepúsculo bifronte. Antes que débil lume além desponte, a sombra, que se apressa, desfigura e apaga o casario em sua alvura e a curva esquiva e sábia do horizonte. Os bois fecham nos olhos os arados, o pasto, a hora que tomba das subidas. Dorme o ocaso, pastor, entre as ovelhas. Sobem névoas dos vales fatigados e das árvores já enoitecidas pendem silêncios como folhas velhas. Um Haicai de São Paulo/SP Cláudio Daniel A ventania rouca Em cada folha Cria uma boca Uma Trova de São Paulo/SP Ana Cristina Voltaste... E a saudade é tanta que ouço o acorde sonhador de uma orquestra que me encanta embalando o nosso amor...
  10. 10. 11 Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SONETO AO POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Amo-te o engenho subversivo e grave, que levedou seu próprio pão de vida e nele talha a forma apetecida: tarde de chuva, sol, sal, pouso de ave. Amo-te o verbo extremo de suicida, essa implícita música sem clave, pélago no recôncavo da nave: tua poesia isenta e acontecida. Amo-te a destra, que nos ares lança, de dentro da tua arca, a nua herança: os teus conflitos de esplendor e bruma, teus peixes, teus demônios, tua ordem, — claros enigmas que no tempo acordem teu cosmos e teu caos de pedra e espuma. Hinos de Cidades Brasileiras Coruripe/AL A minha terra é tão fértil e feliz É o mais sublime torrão que eu já vi Como berço de bravos heróis Vem dos tempos primitivos do Brasil. A minha terra surgiu dos Caetés é uma herança que deles nos restou. Coruripe centelha da fé De Alagoas recanto de amor. Salve, salve a minha terra! Seio da felicidade. Coruripe no seu vale encerra Viva a esperança da prosperidade! O progresso que desfrutas Sob a vastidão de anil Dos teus filhos representa as lutas Pela Grandeza do Brasil A minha terra encanta o mundo inteiro Com aprazível passagem de coqueiros Ouro verde, riqueza ideal Coruripe na beleza do Pontal de Dom Fernandes Sardinha à memória e Dom Rodrigo o seio da história Coruripe centelha da paz Entoamos o teu nome, a tua glória! Salve, salve a minha terra! Seio da felicidade Coruripe no seu vale encerra Viva a esperança da prosperidade!
  11. 11. 12 O progresso que desfrutas Sob a vastidão de anil Dos teus filhos representa as lutas Pela Grandeza do Brasil. Uma Trova de Bandeirantes/PR Lucília Alzira Trindade Decarli Ao embalar a criança, junto à canção de ninar, transcende o sonho... a esperança, que a mãe põe nesse cantar! Um Soneto de Barbacena/MG Abgar Renault (1901– 1995) Rio de Janeiro/RJ+ SONETO DA INSÔNIA Um emergente vértice resiste. Sua luz contagia a escuridão onde os teus olhos se consumirão reconstruindo o silêncio onde subsiste a furna de que, um dia, tu partiste. Com tua carga de fulguração, viajas a treva, e uma conflagração te arrasta ao mesmo cais aceso e triste. Quando derivas, lusco e fusco, à borda, diálogos cindem queda e evanescência, o desfazer se esfaz em refazer. No combate que incende a noite e a acorda, não terás teu quinhão de morte e ausência e és improvável como o amanhecer. Abgar de Castro Araújo Renault, nasceu em Barbacena/MG em 15 de abril de 1901. Era filho de Leon Renault e de Maria José de Castro Araújo Renault. Foi casado com D. Ignez Caldeira Brant Renault, com quem teve três filhos, três netos e uma bisneta. Sua formação escolar deu-se toda em Belo Horizonte, onde começou a exercer o magistério. Trabalhou como professor no Ginásio Mineiro de Belo Horizonte, e na Universidade Federal de Minas Gerais. Mudou-se posteriormente para o Rio de Janeiro onde deu aulas no Colégio Pedro II e na Universidade do Distrito Federal. Foi eleito deputado estadual por Minas Gerais, e exerceu o cargo de direção no Colégio Universitário da Universidade do Brasil e no Departamento Nacional da Educação. Foi ainda secretário da Educação do Estado de Minas Gerais em dois governos, quando se notabilizou por incentivar o ensino no
  12. 12. 13 meio rural. Depois disso foi também ministro da Educação e Cultura no governo de Nereu Ramos e ministro do Tribunal de Contas da União. Dirigiu o Centro Regional de Pesquisas Educacionais João Pinheiro em Belo Horizonte. No período de 1956 a 1959 foi membro da Comissão Internacional do Curriculum Secundário da Unesco. Em 1961 atuou como consult or da Unesco na Conferência sobre Necessidades Educacionais da África, em Adis Abeba. Em 1963 participou da Comissão Consultiva Internacional do The World Book Encyclopædia Dictionary, Estados Unidos. Foi membro da Comissão Consultiva Internacional sobre Educação de Adultos, também da Unesco nos anos de 1968 a 1972. Representou o Brasil em numerosas conferências internacionais sobre educação em Londres, Genebra, Paris, Teerã, Belgrado e Santiago do Chile. Por várias vezes foi eleito membro da Comissão de Redação Final dos documentos dessas reuniões. Esteve no Conselho Federal de Educação e no Conselho Federal de Cultura. Foi nomeado Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Como professor, esteve sempre ligado à educação e preocupou-se com a língua portuguesa, de que foi um conhecedor exímio e representante fiel. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Mineira de Letras, da Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte, da Academia Brasiliense de Letras, da Academia Brasileira de Educação, da Academia Brasileira de Filologia e do Conselho Curador da Fundação Getúlio Vargas. Pertenceu ao Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Stanford, Califórnia, Estados Unidos, e foi Presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa de Belo Horizonte. Abgar Renault registrou todos os seus estudos e reflexões em A palavra e a ação, de 1952, e em Missões da Universidade, de 1955. Além disso, foi um grande poeta. Fez parte do grupo surrealista moderno e participou do movimento modernista de Minas Gerais. A partir daí aumentou sua participação na literatura contemporânea. Apesar de ter sua obra associada ao Modernismo, fazia uma poesia original, não ligada a nenhuma escola poética. Como tradutor especializou-se em poetas alemães, espanhóis, ingleses, estado-unidenses e franceses. Era um especialista em Shakespeare. Sua poesia tem sido incluída em antologias no Brasil e no exterior. Faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 31 de dezembro de 1995. Obras Sonetos antigos (1968) A lápide sob a lua - poesia (1968) Sofotulafai - poesia (1971) A outra face da lua - poesia (1983) ___________________________
  13. 13. 14
  14. 14. 15 Aprendi, na tua ausência, uma lição ponderada: – que a espera, com paciência, torna mais breve a chegada. As trovas são diamantes que certo ourives, um dia, com suas mãos operantes, cravou no anel da poesia. Cem anos da abolição e o negro sofre a desgraça de acorrentar-se à prisão do preconceito da raça! Chove a cântaros... e o frio cai sobre tudo, por fim... E, enchendo este meu vazio, chovem saudades em mim... É carnaval… e em meu peito qual um sagaz folião, brinca o meu sonho desfeito nas alas da solidão… É o mais belo panorama e de Deus o melhor verso o sol ressurgindo em chama, banhando de ouro o universo. Essas rugas que há no rosto, mostrando a idade inclemente, são rumos onde o desgosto caminha, pisando a gente. Esse gemido tristonho das ondas, sempre a chorar, é a voz queixosa de um sonho preso nas conchas do mar! Felicidade... momentos de emoções transcendentais, que se vão na asa dos ventos e não voltam nunca mais! Lançada a sorte! Em verdade, eu parti... Mares medonhos!... E, no Porto da Saudade, fui ancorar com meus sonhos…
  15. 15. 16 Leu tanto amor… e, no entanto, sozinha, a cigana, à morte, convive com o desencanto de não ler a própria sorte!… Não deixes preto o teu céu... Vê que as grandes tempestades espalham sombras ao léu, mas vêm, depois, claridades. Nesta existência sofrida, triste certeza me invade: – o sonho ardendo na vida, e a vida a arder na saudade. O teu adeus, mesmo em sonho, me aniquila de tal sorte que, estando viva, suponho estar nos braços da morte! Por te amar tão loucamente, fui-me tornando um palhaço, fazendo rir tanta gente às custas do meu fracasso. Por um momento de sonho, que dure uma eternidade, darei tudo e não me oponho a viver só da saudade. Ri, palhaço, que o teu riso vai à dor dar acolhida, transformando em paraíso teu picadeiro da vida. Se a noite vem, com azedume, vestindo de preto o céu, que sejas tu, vagalume, e espalhes luz a granel. Sê como o mar, grandioso, cujo esplendor estonteia, mas, humilde e generoso, vem bordar rendas na areia! Se vires um tom de escuro na trilha dos rumos teus, não temas, e vai seguro, que é a sombra da mão de Deus.
  16. 16. 17 Sublime, aquele momento em que o poeta, risonho, põe asas no pensamento e voa, buscando o sonho. Tenta esconder o teu pranto, às frustrações, ao desgosto, pois não há maior encanto que mostrar a paz no rosto. Teu olhar, por sorte, às águas, sombra nenhuma deixou, no entanto deixou-me mágoas nesta sombra que hoje eu sou! Teus olhos, ardentes círios, meus dias tornam risonhos, e tuas mãos, brancos lírios, vão modelando meus sonhos. Vasculhando meu passado, encontrei nele, tristonho, teu retrato empoeirado na gaveta do meu sonho. Vencendo todo o cansaço, decerto gargalharei, pois hoje sou um palhaço dos sonhos que não sonhei.
  17. 17. 18 J.B. Xavier Cunhaporã - Uma história de amor VIII A CASCATA E O CARVALHO Sob as águas da cascata Cor de prata Entre risos de alegria, Banham-se ledos Um guerreiro e sua amante. Sem medos, Apenas O riso contagiante. "Que é essa história De um certo charrua Coberto de glória Que com as mãos nuas Venceu um valente E grande chefe tupi? Meu pai disse a mim Que seu pai lhe contou Por já ter ouvido do seu avô..." "Ah!... A lenda de Cunhaporã ... Vês essa linda cascata Sob o carvalho Todo em flor? É Cunhaporã , dizem, Cujas lágrimas Correm aos pés De seu amor... Sentes o Vento Rondando pelas matas Acariciando as cascatas, Num frêmito eterno De loucura? É Ygarussú , dizem, Que alucinado pela doce amada Procura... Vês o carvalho frondoso Na fímbria da cascata Firmemente postado? E as flores,
  18. 18. 19 E os galhos arqueados Por sobre a água? É Nhuamã , dizem, O amante caloroso Que no abraço apaixonado Entrega-se aos amores Desse lago ensolarado..." E num beijo apaixonado Os dois amantes Se abraçaram... E por instantes Da cascata veio um brilho Fulgurante... No carvalho, flores lindas, Cintilantes Se desfaziam. E caíam E caíam Perfumadas, Inebriantes, Coloridas, Delicadas Sobre as águas. E em rodopios de alegria Elas dançavam. E as pétalas que assim Se desprendiam Em pouco todo o lago Coloriam... As águas e as flores Se abraçavam... À luz clara do dia Yara sorria. E à luz quente do sol E nos beijos dos amantes, Outro sonho de amor Renascia... FIM ____________________________
  19. 19. 20 Profa. Ana Suzuki AULA 5 O HAICAI COMO FLASH DE UMA CENA O haicai tem semelhança com certo tipo de pintura chinesa, feita apenas de algumas pinceladas, pois é isto que ele propõe: descrever um quadro com poucas palavras. Por isto ele está sempre no tempo presente, como se o autor estivesse mostrando uma foto, a cena congelada de um filme ou coisa assim. Ele é um flash do cotidiano ou, na expressão feliz de nossa amiga Rosane Villela, a captação de um instante de "súbita graça". 1. O sol escandeia Um gato busca refúgio Na sombra do cão. 2. As renas galopam sobre nuvens de algodão Aqui, solidão! 3. Lá vem o vendaval Esqueceu, o desvairado, que hoje é carnaval. Notem, também, que o haicai não procura definir nada. Coisas do tipo "o amor é isto, a primavera é assim ou assado", podem cair bem numa trova, não têm nada a ver com o haicai. Se há uma definição, ela está implícita. E observem que ele apenas insinua, apenas sugere um sentimento, nele não cabendo expressões como eu te amo, quero morrer, minha esperança foi pro brejo, nada disso. No haicai 1 vocês podem imaginar uma situação de crise, pois cachorro e gato são tradicionalmente (apenas tradicionalmente) inimigos. No número 2, um Natal solitário. No 3, uma sensação de contrariedade. Resumindo: O haicai é um flash do cotidiano, apresenta-se no tempo presente e não admite definições nem tampouco confissões abertas de um sentimento. continua… O haicai e seu abrasileiramento
  20. 20. 21
  21. 21. 22 Folclore Indígena Brasileiro Aruanã, lenda e ritual de dança Aruanã, filho de Aruá e primo dos Lendários Arumanás, vivia solitário e triste dentro das fundas águas do imenso Araguai. Ele era um eterno enamorado da vida terrestre, particularmente da vida do homem. Um dia, a poderosa Jururá-Açú, deusa das chuvas, do orvalho e irmã de Iara, impelida por sagrado desejo, chamou em meio das águas, os angás, os arumaçás e seus filhos, para irem honrar o poderoso Boto, senhor das águas, na funda Loca onde habitava o deus marinho. Todos os seres das águas do volumoso e imenso Araguaia correram para o fundo do rio, a fim de erguerem suaves preces entre cantos e louvores. Somente Aruanã não conseguiu com a turba e exclamou: -“Pobre de mim, nas águas nasci, nas águas me criei, contudo já não tenho felicidade!” Assim falou o valente Aruanã e colocando a cabeça fora da água, continuou: -“Ó pai Tupã, se a ti próprio te apraz, a felicidade de um pobre mortal, se propício a mim, faze-me um ser humano e, se algum dia eu tenho que morrer, não me deixe nestas águas, tira-me delas.” Tanto suplicou Aruanã que sua prece acabou sendo ouvida. No aprazível e sagrado monte Ibiapaba, Tupã observou com seus olhos divinos e compadecidos o que estava se passando nas margens do rio Araguaia. -“Vai tu Polo e satisfaz os desejos de Aruanã.” Obedecendo as ordens do supremo, o deus do vento, aproximou-se do local onde estava o formoso peixe e tomando-o levou-o para o verde campo. -“És tu, um valente guerreiro, Tupã mais do que dele esperavas!” Assim disse Polo, o deus dos ventos e desapareceu. Ó maravilha! Ali estava um homem! Então vieram, por ordem do criador, as belas e divinas Parajás deusas da honra, do bem e da justiça e assim falaram:
  22. 22. 23 -“Aruanã, peixe foste tu; Aruanãs hás de chamar-te daqui para o futuro.” E, foi deste modo que nasceram os valentes Aruanãs e habitaram as margens do lendário rio Juruá. Eram uma tribo poderosa, laboriosa, resistente e reconhecida. Deles vieram mais tarde os Aruaques, que foram habitar nas Antilhas, os Aruãs que ficaram na ilha de marajó; os Arucuinas, que habitaram nas fronteiras do Brasil com a lendária Guiana Francesa; os Arumás, que foram viver nos altos do rio Parú, os conservadores e canoros Karajás, que foram habitar as margens do Araguaia, onde todos os anos organizam o sagrado Ritual do Aruanã, com suaves danças e divinos cantos, em homenagem ao inesquecível Aruanã, pai da nação Karajá. O mundo Karajá é habitado por um grande número de personagens mais ou menos fantásticos, os aõni e outros seres que os Karajá distinguem como habitantes do céu (biuludu) da terra (suuludu) e da água (beeludu). Grande parte desses seres, principalmente os celestes, semelhantes aos pássaros que voam ou diversos Ijasó, são “pessoal” do Xiburè, imahãdu, ou “criação dele”, ou seja, são seres animados por Xiburé. São formas diferentes que Xiburè assume; mas todas elas são Xiburè. Grande parte ou a totalidade dos animais valorizados pelos Karajá e que existem aqui na terra são pertencentes, ou parte dos ijasò que vivem nas profundezas. RITUAL DO ARUANÃ Os Karajá vivem no Brasil central, nas margens do rio Araguaia, o Berohokã – que significa a água grande, e é neste rio que está a sua mais importante fonte de subsistência. A vida cultural dos Karajá está também estreitamente ligada ao Berohokã. Os acontecimentos do cotidiano, assim como o período de plantação, colheita e caça, como também as festas e os rituais sagrados, acompanham os períodos das estações de chuva e seca, isto é, da vazante e das cheias do rio Araguaia. Em princípio, as datas dos eventos são marcadas pelo Xamã, pois os índios dizem que só ele é capaz de enxergar e entender as mensagens dos seres sobrenaturais, seus ancestrais que vivem no fundo do rio. A estrutura ritual dos Karajá tem dois grandes rituais como referências: o rito de iniciação masculina, o Hetohoky, e a Festa de Aruanã, que apresentam ciclos anuais, baseando-se na subida e descida do rio Araguaia. Durante a encenação do ritual de dança, os Aruanã transmitem, cantando, as mensagens dos seres sobrenaturais que vivem debaixo da água do rio Araguaia. Os dançarinos ficam praticamente imperceptíveis; vestem-se de palha de buriti, cobrindo a cabeça até abaixo dos joelhos, mas se mantêm com os braços de fora. As palhas são colocadas formando dois grandes saiotes. Um deles, amarrado na cintura e o outro, preso em cima da cabeça. Na parte superior da cabeça é montado um adereço no formato de
  23. 23. 24 cartucho cilíndrico completando-se com penachos. Esses cilindros são decorados com desenhos simétricos coloridos que inicialmente eram feitos de plumagem, mas hoje são realizados com pedaços de pano ou papel grosso colorido. As máscaras também fazem parte das vestimentas. Este assunto é envolvido em mistérios, cujas informações os índios passam com muitas reservas. As dançarinas usam uma tanga feita da entrecasca da madeira de adehyre, e enrolam nos braços, tornozelos e joelhos enfeites confeccionados de algodão tingido de urucu. O enfeite dos joelhos é um pouco mais largo e tem alguns fios pendurados. No rosto e algumas áreas bem definidas do corpo desenham motivos geométricos, sendo que as mais jovens se adornam com colares confeccionados com miçanga coloridas. ENCENAÇÃO Os Aruanã começam o Ritual de Dança saindo da Casa dos Homens. Depois passam a cantar e dançar cada música durante três voltas, percorrendo a estrada entre o pátio masculino e o feminino. Na segunda volta duas dançarinas saem andando do pátio feminino, indo se encontrar com os Aruanã no meio da estrada. Colocam-se à sua frente e, juntos, dançando, retornam ao pátio feminino. Na última volta, isto é, na terceira, os Aruanã param de cantar quando atingem o pátio feminino, e em total silêncio retornam, sem dançar, ao espaço masculino, para então recomeçar a dança com outra música. Considerando também os conteúdos simbólicos e culturais dos Karajá foi possível chegar à imagem do princípio, isto é, à estrutura da coreografia da dança, como uma representação simbólica do universo Karajá: os três mundos, o do fundo das águas, onde vivem os Aruanã, o do meio, onde vivem os humanos Karajá e o mundo do céu. Os cantos apresentam sempre dois temas, que os Karajá chamam de primeira e segunda música. À primeira, denominam “Iumy”, (corpo), e à segunda, “Ito ou Iòwòna”, (subida). Cantam primeiro três vezes o tema A, depois o tema B uma, duas ou três vezes, isto sem sair do espaço masculino. Quando começam a dançar pela estrada retornam ao tema A, cantando até alcançar o meio da estrada. Aí então voltam a cantar o tema B, que também podem cantar uma, duas, ou três vezes, conforme a disposição da permanência neste espaço. Ao retornarem à dança prosseguem pela estrada, com o tema A, que vão cantando até atingir o pátio feminino, onde passam a cantar o tema B. E assim sucessivamente, até completarem três voltas, que fazem durante todo o percurso de cada música. Porém, na última volta, ainda no espaço feminino, depois de cantarem o tema B com suas devidas repetições retornam sempre ao tema A para finalizar. Assim sendo, de certa maneira o tema A está associado ao gênero masculino, assim como o tema B ao feminino. Como se vê, esta representação estética obedece a uma ordenação, e expõe características que
  24. 24. 25 priorizam certos elementos simétricos enfatizados por tríades. Esses elementos configuram a seguinte forma: A 3 vezes (No espaço masculino)B 1,2,ou 3 vezes (Ainda no espaço masculino)A Sucessivamente (Na estrada)B 1,2,ou 3 vezes (No meio da estrada)A Sucessivamente (Na estrada)B 1,2,ou 3 vezes (No espaço feminino)A 3 vezes (No espaço feminino, cantam para retornar à estrada, ou para finalizar). A IMPORTÂNCIA DO MITO PARA O POVO INDÍGENA: Segundo Samuel Yriwana Karajá: “O mito é quando agente está próximo da nossa origem. Quando a gente conhece o nosso mito de origem agente se aproxima da nossa origem. O mito é importante nesse momento que agente está vivendo para a gente não perder a nossa origem porque sem ele agente perderia totalmente a nossa origem. O mito conta a história do nosso povo. Essas explicações nós não encontramos em nenhum outro lugar, é só no mito que encontramos essa explicações. Para nós Karajá, os nossos mitos têm força espiritual, porque no mito encontramos a história do povo Karajá, a história de outros povos, a história dos animais, a história das plantas. Para os Karajá, o mito é uma coisa viva, porque ele conta a história do povo. O mito é muito importante na comunidade porque ele é contado e os Karajá considera como uma realidade porque ele foi contado antigamente. Então a raiz do índio está no mito e se agente não guardar o que vai valer é a lei do branco. As mulheres também contam os mitos e as histórias “. Concluímos que para os Karajá, o mito é fundamental importância, porque ele conta a história do povo, conta a história de outros povos, dos animais, das plantas. Além disso, o mito tem força espiritual. É através do mito e da celebração de rituais que os Karajá lutam para preservar e revitalizar sua história, sua língua, enfim, suas tradições culturais. “Olhem as árvores acompanhando o movimento da tempestade, elas preservam seus ramos tenros. Se quiserem erguer-se contra o vento, são carregadas, com raiz e tudo.” Fonte: http://www.rosanevolpatto.trd.br/
  25. 25. 26 Aventuras de Pedro Malasartes Pedro se vinga do Fazendeiro Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este último era tão astucioso, vadio e inteligente que todos o chamavam de PEDRO MALASARTES. Como era gente pobre, o filho mais velho, João, saiu para ganhar a vida e empregou-se numa fazenda onde o proprietário era rico e cheio de velhacaria, não pagando aos empregados porque fazia contratos impossíveis de serem compridos. João trabalhou quase um ano e voltou para casa quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro, o Malasartes, ficou furioso e saiu para vingar o irmão. Procurou o mesmo fazendeiro e pediu trabalho. O fazendeiro disse que o empregava com duas condições: Primeiro, não enjeitar serviço e segundo, quem ficasse zangado primeiro tirava uma tira de couro do outro. Pedro não pensou duas vezes, de pronto aceitou as condições impostas pelo patrão. No primeiro dia foi trabalhar numa plantação de milho. O patrão mandou que uma cachorrinha o acompanhasse. E disse: Só pode voltar pra casa quando a cachorra voltar. Pedro meteu o braço no serviço até meio-dia. A cachorrinha deitada na sombra nem se mexia. Vendo que a cachorra era treinada e que aquilo era uma artimanha do Patrão, Malasartes deu uma grande paulada na cachorra que saiu ganindo e correndo até o alpendre da casa. O Malasartes, para surpresa do velho patrão, voltou e almoçou. A tarde ele nem precisou bater na cachorra, fez só o gesto e a cachorra com medo voou pelo caminho em direção a casa do fazendeiro. No outro dia o fazendeiro escolheu uma outra tarefa e o mandou limpar a roça de mandioca. Malasartes arrancou toda a plantação, deixando o terreno completamente limpo. Quando foi dizer ao patrão o que fizera este ficou com a cara feia e Malasartes perguntou: – Zangou-se, meu amo e senhor?
  26. 26. 27 O Patrão a contragosto pra não perder a aposta respondeu: – De jeito nenhum, meu caro. No terceiro dia o patrão acordou Malasartes bem cedinho e disse: – Pegue o carro de boi e me traga mil estacas de um pau liso, linheiro e sem nó. Malasartes não contou conversa, cortou todo o bananal, explicando ao patrão que bananeira era o pau que liso, linheiro e sem nó. O patrão fez uma careta de raiva e Malasartes perguntou: – Zangou-se, meu amo e senhor? O patrão, para não perder a aposta disse: – De jeito nenhum, meu caro. No dia sequinte, quarto dia de trabalho do Malazartes na Fazenda, o patrão mandou que ele levasse o carro e a junta de bois, para dentro de uma sala numa casinha bem perto, sem passar pela porta. E para atrapalhar ainda mais, fechou a porta e escondeu a chave. Malasartes agarrou um machado e fez o carro em pedaços, em seguida matou e esquartejou os bois e os sacudiu, carnes e madeiras, pela janela, para dentro da sala. O patrão quando viu fez uma careta de raiva e Malasartes perguntou: – Ficou com raiva, meu amo e senhor? O patrão, mais uma vez, para não perder a aposta respondeu: – De jeito nenhum, meu caro. A noite o patrão ficou pensando como pegar aquele cabra tão vivo. Levantou-se de supetão, foi até a rede onde Malasartes estava dormindo, o acordou, ordenando: – Você vai agora mesmo vender meus porcos lá na feira. Malasartes não contou duas vezes e levou mais de quinhentos porcos para vender na feira. Antes porém de fazer o grande negócio, cortou todos os rabos dos porcos. Vendeu os porcos bom um preço muito bom, além do preço que pagavam no mercado, dizendo ser aqueles porcos de uma raça muito especial. Voltando para casa, enterrou todos os rabos num lamaçal e chegou na casa do fazendeiro aos gritos de desespero dizendo que a porcada toda estava atolada no lameiro. O patrão desesperado correu para ver a desgraça. Malasartes sugeriu cavar com duas pás. Correu para a casa e pediu a mulher do fazendeiro para lhe entregar duas notas de dinheiro para comprar as pás. A velha, que também era tão ruim quanto o marido, não queria dar mas Malasartes para mostrar a ela que era verdade perguntava através de gestos ao patrão se devia levar uma ou duas pás, e o patrão aos gritos respondia: – Traga duas e entregue logo, velha rabugenta. Obedecendo as ordens a velha deu as duas notas para Malazartes que tratou de esconde-las nos bolsos que trazia dentro das calças escondidos. Voltou para o lameiro, reclamou da surdez da velha mulher do patrão que não lhe entregou as pás, entrou no lameiro e começou a puxar os rabos dos porcos que dizia estar enterrado, e ia ficando com todos nas mãos. O Patrão
  27. 27. 28 fez uma careta horrível de raiva e Malazartes perguntou: – Está zangado, meu amo e senhor? E o patrão, fulo de raiva, mas sem querer perder a aposta, respondia: – De jeito nenhum, meu caro, de jeito nenhum. De noite, sozinho, pensando no que estava ocorrendo e vendo que a cada dia aquele empregado o deixava mais pobre, o fazendeiro resolveu o matar o mais rápido possível, de um modo que ninguém desconfiasse e que ele não tivesse problemas com a justiça. Pensou, rolou na cama, e pronto, já tinha o golpe certo, tão certo que Malasartes nunca vai descobrir, pensou erradamente o patrão assassino. Levantou-se aos gritos chamando Malasartes e esse como um raio entrou pela porta e já estava bem na frente do patrão. – Pois não, meu amo e senhor. O patrão olhou bem para o seus olhos e disse: – Meu filho, como sei que você é muito eficiente e como estou muito satisfeito com o seu trabalho, vou lhe incumbir de uma tarefa muito difícil e árdua. Malasartes respondeu. – Diga logo, meu amo e senhor, estou pronto a lhe servir da melhor maneira possível, como sempre fiz. O patrão quase morreu com um acesso de tosses. Respirou e disse a Malasartes. – Ultimamente anda rondando a minha casa e me roubando um ladrão desconhecido. Tome aqui essa arma. Eu fico vigiando primeiro, já tô sem sono, quando for de madrugada, antes do galo cantar, você vem me render. A idéia do derrotado patrão, era atirar em Malasartes e dizer a polícia que tinha se enganado, pensando que era o ladrão. De madrugada, assim como tava combinado, Malasartes olhou pelo buraco da fechadura e viu encostado na cerca, armado até os dentes, o patrão. Deu volta pelo oitão da casa grande, entrou pela porta da cozinha, subiu para o quarto do velho e começou a acordar a velha, dizendo que o seu marido a esperava lá fora no curral, e que era melhor ela levar a espingarda dele, que tava bem carregada, pois se ela visse o ladrão podia plantar chumbo nele. A velha pegou a espingarda e saiu. Quando chegou bem perto da cerca do curral, o patrão pensando que era o Malasartes começou a atirar na velha, acertando um tiro bem no peito. Pensando que tinha matado o Malasartes e só para se certificar da conclusão do trabalho, foi chegando para perto para olhar. Qual não foi o seu espanto ao ver a sua velha mulher estatelada agonizando no chão. Naquela hora, Malazartes chegou por traz dele, chorando e o acusando de ter matado a mulher e dizendo: – Vou agora mesmo contar a polícia que o senhor é um assassino. O patrão num aperreio danado, não sabia se acudia a mulher ou se tentava convencer a Malasartes para não o denunciar. Malasartes, olhou pra ele e perguntou com uma cara chorosa e safada. – Tá com raiva, meu amo e senhor?
  28. 28. 29 O patrão respondeu: – De forma alguma, meu caro, porém me diga logo quanto quer pra ficar calado e quanto quer pra sumir da minha fazenda e da minha vista? Malazartes cobrou muito caro, pegou muito dinheiro, deixou o fazendeiro liso e pobre e voltou rico, vingado e satisfeito para casa de seus pais, cantando: Sou mala sem ser maleiro sou ferro sem ser ferreiro sou nordestino e brasileiro, eternamente herdeiro do meu passado estrangeiro. Luís Fernando Veríssimo Pechada O apelido foi instantâneo. No primeiro dia de aula, o aluno novo já estava sendo chamado de “Gaúcho”. Porque era gaúcho. Recém-chegado do Rio Grande do Sul, com um sotaque carregado. — Aí, Gaúcho! — Fala, Gaúcho! Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas variações? — Mas o Gaúcho fala “tu”! — disse o gordo Jorge, que era quem mais implicava com o novato. — E fala certo — disse a professora. — Pode-se dizer “tu” e pode-se dizer “você”. Os dois estão certos. Os dois são português. O gordo Jorge fez cara de quem não se entregara. Um dia o Gaúcho chegou tarde na aula e explicou para a professora o que acontecera. — O pai atravessou a sinaleira e pechou.
  29. 29. 30 — O que? — O pai. Atravessou a sinaleira e pechou. A professora sorriu. Depois achou que não era caso para sorrir. Afinal, o pai do menino atravessara uma sinaleira e pechara. Podia estar, naquele momento, em algum hospital. Gravemente pechado. Com pedaços de sinaleira sendo retirados do seu corpo. — O que foi que ele disse, tia? — quis saber o gordo Jorge. — Que o pai dele atravessou uma sinaleira e pechou. — E o que é isso? — Gaúcho… Quer dizer, Rodrigo: explique para a classe o que aconteceu. — Nós vinha… — Nós vínhamos. — Nós vínhamos de auto, o pai não viu a sinaleira fechada, passou no vermelho e deu uma pechada noutro auto. A professora varreu a classe com seu sorriso. Estava claro o que acontecera? Ao mesmo tempo, procurava uma tradução para o relato do gaúcho. Não podia admitir que não o entendera. Não com o gordo Jorge rindo daquele jeito. “Sinaleira”, obviamente, era sinal, semáforo. “Auto” era automóvel, carro. Mas “pechar” o que era? Bater, claro. Mas de onde viera aquela estranha palavra? Só muitos dias depois a professora descobriu que “pechar” vinha do espanhol e queria dizer bater com o peito, e até lá teve que se esforçar para convencer o gordo Jorge de que era mesmo brasileiro o que falava o novato. Que já ganhara outro apelido: Pechada. — Aí, Pechada! — Fala, Pechada! Fonte: Revista Nova Escola. Ensino Fundamental -1. http://revistaescola.abril.com.br/fundamental- 1/pechada-634220.shtml Luis Fernando Verissimo nasceu em 26 de setembro 1936, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Filho do grande escritor Érico Veríssimo, iniciou seus estudos no Instituto Porto Alegre, tendo passado por escolas nos Estados Unidos quando morou lá, em virtude de seu pai ter ido lecionar em uma universidade da Califórnia, por dois anos. Voltou a morar nos EUA quando tinha 16 anos, tendo cursado a Roosevelt High School de Washington, onde também estudou música, sendo até hoje inseparável de seu saxofone. Participou da televisão, criando quadros para o programa "Planeta dos Homens", na Rede Globo e, fornecendo material para a série "Comédias da Vida Privada", baseada em livro homônimo. Escritor prolífero, tem textos de ficção e crônicas publicadas nas revistas Playboy, Cláudia, Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e nos jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e, a partir de junho de 2.000, no jornal O Globo.
  30. 30. 31 Lucia Helena L. Santos Silva e Sueli Rocha Contar histórias para promover leitura Era uma vez um menino que adorava ouvir histórias antes de dormir. A cada noite, um criado enchia sua imaginação de fadas, bruxas, dragões etc. O pequeno dormia feliz, exausto por vivenciar tantas aventuras, nas quais com certeza era sempre ele o herói, o vencedor. O menino era egoísta e, por mais que os amigos pedissem, não recontava a eles as histórias ouvidas. O tempo passou,o criado envelheceu, o menino cresceu e não quis mais saber de histórias. Eram outros os seus interesses, então. Já rapaz, apaixonou-se e quis casar. Um dia antes do casamento, o velho empregado foi ao quarto do noivo, ajudá-lo nos preparativos. Com surpresa, ouviu ruídos estranhos que vinham de um saco há muito esquecido atrás da porta. Veio-lhe à memória que aquele era o saco onde ficavam guardados os espíritos de todas as histórias que ele contava ao garoto, agora rapaz. Prestou atenção e ouviu que os espíritos das personagens que eram más planejavam uma vingança mortal àquele que, por egoísmo, manteve-os presos por tanto tempo. Os espíritos das personagens boas, por medo, mantinham-se calados. Usando de toda a sua experiência e sabedoria, o velho destruiu cada uma das armadilhas preparadas para o rapaz, matando até uma cobra escondida no quarto do jovem casal. A cobra foi o último recurso usado pelos espíritos maus em sua vingança contra o egoísta que os prendera durante tanto tempo. O criado contou então a todos sobre a vingança dos espíritos das histórias, esquecidos presos na velha sacola. Agradecido por ter sido salvo, o rapaz prontamente acreditou no que ouvira e, arrependido, prometeu que, de ora em diante, contaria muitas histórias. A cada história contada, os espíritos presos eram libertados para, felizes, povoarem a imaginação de outras pessoas. Essa história (resumo do conto coreano “A sacola de couro”, recontado por Zette Bonaventure, no livro “O que conta o conto?”, publicado pelas Editoras Paulinas) nos faz refletir sobre quantos contos já não se perderam por falta de alguém que os contasse. Quem ainda se lembra de Pele de Asno, de A Moura Torta e das façanhas de Mata Sete? Esses e tantos outros estão à espera de serem servidos como um banquete a crianças ávidas de aventuras e emoções.
  31. 31. 32 Esse conto nos remete também a uma outra reflexão: mudaram os tempos, mudam os costumes. À hora de dormir, o sono infantil era embalado por alguém de voz carinhosa que contava, contava e recontava mil e uma aventuras, abrindo as portas para o mundo da ficção. É evidente que poucos tinham criados contadores de histórias. Mas sempre havia uma avó, um pai, mãe ou tia a fazer, através da oralidade, o primeiro contato da criança com o mundo da fantasia. E era essa fantasia que possibilitava à criança, sem sair do lugar, descobrir outros lugares e outros tempos, vivenciar as mais diferentes emoções (o riso, o choro,a raiva, a tranquilidade), descobrir soluções para os próprios conflitos, viver outros papéis, identificar-se com personagens, enfim abrir os olhos para a vida e ver a vida com outros olhos. Mudaram os tempos, mudam os costumes. Hoje, poucas famílias conservam o antigo hábito de contar histórias para as crianças à hora de dormir. Para quem ficou a função de provocar a imaginação infantil? Não queremos entrar na polêmica sobre o papel da televisão, nesse aspecto. A nossa preocupação é que a escola, que também deveria suscitar o imaginário infantil, dedica a essa tarefa um tempo insuficiente para obter algum resultado minimamente satisfatório. Acreditamos que o professor, enquanto verdadeiro agente da ação educativa, deve tomar para si a função de estimular a imaginação dos alunos contando histórias de maneira natural, e sempre, não apenas na restrita “hora do conto”. Vários são os momentos propícios para isso: um fato é melhor entendido se acompanhado de sua história: a história das grandes descobertas e invenções, as lendas, a história dos vencidos, a história da matemática, da mitologia greco-romana, por exemplo, podem servir como elementos instigadores da imaginação do aluno, levando-os a questionar, a formular hipóteses, a inventar outras histórias. Ao contar histórias, o professor estabelece com o aluno um clima de cumplicidade que os remete à época dos antigos contadores que, em volta do fogo, contavam a uma platéia atenta as histórias de seu povo, as origens das coisas, os costumes, os valores etc. Para que não precisemos inventar a roda a cada dia, é necessário que o patrimônio cultural que a humanidade acumulou durante séculos seja conhecido pelas novas gerações. E nada melhor do que contar histórias, para fazer reviver o que existe na memória coletiva. A esse respeito o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu em A paixão de dizer/2: “Esse homem, ou mulher, está grávido de muita gente. Gente que sai por seus poros. Assim mostram, em figuras de barro, os índios do Novo México: o narrador, o que conta a memória, coletiva, está todo brotado de pessoinhas” (O livro dos abraços, L&PM). É que, ao narrar um conto da memória coletiva, o professor/contador reativa uma cadeia de contadores de histórias que vem do início das civilizações até os nossos dias. É difícil imaginar, por exemplo, por quantas bocas passou o conto “Festa no Céu” (cujos registros em cerâmica e tapeçaria datam do século IV A.C., como relata Maria Clara Cavalcanti de
  32. 32. 33 Albuquerque, em Kayuá – o dom da palavra, monografia não editada, 1998) para chegar aos nossos dias, contando uma história tão atual como a das artimanhas de alguém que quer entrar numa festa como “penetra”, por não ter sido convidado. A voz do contador de história perpetuou esse e outros contos da tradição oral. Nas sociedades primitivas africanas, ainda não abrangidas pela escrita sistematizada, os contadores de histórias (os “griots”), considerados verdadeiras bibliotecas vivas, são poupados até das guerras “para que continuem narrando as proezas dos povos africanos” (Barbosa, R. A., Bichos da África 2, editora Melhoramentos). A importância desses contadores de histórias é tal que, segundo Alex Haley, em Negras Raízes (editora do Círculo do Livro), “quando um griot morre é como se toda uma biblioteca tivesse sido arrasada pelo fogo“. Mudaram os tempos, mudam os costumes. A platéia não se reúne mais em volta do fogo, mas numa escola: as histórias saídas da boca do velho contador foram parar dentro dos livros. Os contadores de histórias, no entanto, continuam sendo cada vez mais necessários. Por quê? É preciso lembrar que os livros só são úteis se existissem leitores. A escola, preocupada com a ação de ensinar a ler, relegou a um último plano a formação de leitores, assunto complexo, mas que certamente passa pelo estímulo à leitura pelo simples prazer de ler. Ler pelo gosto de ler, sem cobrança maior que a de deixar a imaginação correr solta para criar outros mundos. Então os contadores de histórias, os professores contadores de histórias são necessários, sim. São eles o elo entre a criança e o livro. Enquanto ouve uma história, o aluno transforma-se em produtor de texto, em co-autor da história que lhe é contada, pois com as pistas que a voz do contador lhe oferece, desenha na cabeça épocas, lugares, personagens. E a voz do contador, atenta à reação da platéia, alteia-se, sussurra, faz pausas, treme, transforma a leitura do conto num mágico momento de cumplicidade. Terminada a história, o ouvinte quer prolongar seu prazer de ouvir. É a hora em que o professor contador deve promover o encontro entre o aluno e o livro onde está a história contada; é a hora de ler o registro escrito e a ilustração, é a hora de confirmar/negar as hipóteses levantadas enquanto a história era ouvida. É também a hora em que o ouvinte/leitor percebe que pode reler os trechos de que mais gostou, pular páginas, ler uma frase aqui, outra ali, enfim, pode escolher o rumo de sua leitura e ir em busca de outras histórias do mesmo autor ou de outras histórias do mesmo gênero, trilhando os caminhos para a sua formação de leitor crítico, constatando, cotejando, transformando, como diz o Prof. Dr. Ezequiel T. Silva, em O ato de ler (editora Cortez: Autores Associados). O que temos comprovado na prática é que, depois de ouvir uma história bem contada, a reação imediata do aluno é pedir o livro para ler. O professor que se preocupa com a promoção da leitura deve disponibilizar para os alunos livros dos mais variados gêneros e autores, gibis, jornais e revistas, de forma a
  33. 33. 34 possibilitar-lhes a ampliação do repertório enquanto leitores. O ser humano é, por natureza, contador de histórias. Algumas técnicas e vivências podem ajudar o professor a utilizar bem essa característica que lhe é própria. Dessa forma, a atividade de contar histórias pode se transformar num importantíssimo recurso de formação do leitor para toda a vida e não apenas para a escola. Fontes: Leia Brasil: http://www.leiabrasil.org.br/index.php?leia=texto&id=105 Imagem = http://aycorrea.blogspot.com Estante de Livros Rodrigo Garcia Lopes Solarium artigo de Marciano Lopes, sob o título “A Poética do Solarium, de Rodrigo Garcia Lopes” Solarium, primeiro livro individual de Rodrigo García Lopes, reúne o fruto de mais de dez anos de caminhada poética, o que explica a variedade de influências e identidades literárias muitas vezes contraditórias – entre as quais se encontram poetas ingleses e americanos, incluindo a geração beatnik e autores mais contemporâneos, como Sylvia Plath (de quem é tradutor); os poetas fundadores da modernidade, tais como Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud (de quem também é tradutor); o concretismo brasileiro e a poesia oriental, representada principalmente pela poética do haicai. E na alquimia resultante de todas estas leituras, duas grandes vertentes temáticas se sobressaem em seu livro de estréia: por um lado, uma poesia que tematiza o caos da modernidade, trazendo à tona os conflitos e a barbárie do mundo urbano, massificado pela tecnologia e pelo mercado; por outro, uma poesia que recusa a massificação e o narcisismo comuns ao homem moderno, buscando na filosofia do zen- budismo o caminho reto para a iluminação e a ascese. Nas próprias palavras de Rodrigo Garcia Lopes (1996,
  34. 34. 35 p. 139-140), é possível afirmarmos que a tensão dominante em sua poética resulta, em parte, do “diálogo entre o impulso apolínio à forma-objeto de Mallarmé e o impulso dionisíaco à imagem-música de Rimbaud”, nos quais se encontram dois dos principais procedimentos (não antagônicos, em sua opinião) da poética contemporânea. Dioramas e Polaróides Nas duas primeiras partes de Solarium – intituladas “Dioramas” e “Polaróides” – predomina uma poesia sintética e racionalmente elaborada que busca uma linguagem poética autônoma, pois regida por uma sintaxe própria que valoriza principalmente o espaço em branco da página – conforme a lição pioneira que Mallarmé nos deu com seu poema Un coup de dés jamais n’abolira le hasard. Em vários poemas, como Phanums, Outro outono, Zen Breakfast Club, Morning Glory e Tempestade invisível, encontramos a eleição de uma sintaxe espacial resultante de diferentes direções, sentidos e configurações da composição tipográfica no branco da página; e associado a esse primeiro passo rumo à desintegração do verso e da sintaxe linear através de uma “subdivisão prismática das idéias”, também encontramos o recurso da desintegração e do recorte das palavras, que E. E. Cummings utilizava de maneira a ampliar-lhes o potencial significativo – conforme se vê no poema Não minto. O predomínio da visualidade que estamos apontando na utilização de diversos recursos gráficos e espaciais em substituição à linearidade discursiva também nos remete ao concretismo, presença marcante nestas duas primeiras partes que compõem Solarium e que encontra uma bela realização artística no poema snow here. Nele, as letras da palavra neve (snows) são dispostas na página de maneira a representar visualmente o movimento de queda dos flocos de neve. À medida que se aproximam do solo/pé da página, os flocos maiores, que são as palavras, vão se desintegrando e assumindo novas formas-flocos que geram novas palavras e significados, pois as letras, soltas no branco da página, dançam um balé, ora se separando, ora se juntando, de modo a produzir novas e conflitantes palavras e significações. Paradoxalmente, a neve (snows) que cai agora (now), cai aqui e em algum/nenhum lugar (nowhere). Seguindo a trilha que privilegia a significação através da imagem em detrimento da lógica linear, também é recorrente na poesia de Rodrigo G. Lopes o recurso ao ideograma. Um bom exemplo é o poema peônias negras, formado por sete haicais que, seguindo a tradição oriental, desenvolvem seus temas a partir de imagens da natureza. Imagens que, nesse caso, constituem metáforas da transitoriedade da vida e das coisas: peônias negras serenas quase secas
  35. 35. 36 (…) o inverno furta a flor a cor da fruta (…) a tarde passa arrasta e deixa um rastro prata. (peônias negras) É importante ressaltar que a importância dada à imagem e à utilização dos recursos espaciais e gráficos não ocorre em detrimento da sonoridade, pois a preocupação com a melopéia encontra-se presente em todo o livro. Dois exemplos são os poemas Cet obscur objet du désir e Montanhas: no café del prado em barcelona um bando de pombas rebolam pelas ramblas (Cet obscur objet du désir) não são nuvens mas tão brancas solitárias (mas são tantas) (Montanhas) Ainda considerando a melopéia, são dignos de nota o leminskiano tudo tem sentido, onde o poeta joga com os diferentes sentidos da palavra “sentido”; e os poemas você me toca e somos, nos quais reencontramos o tema da ausência do Eu e a conseqüente solidão que permanece existindo, mesmo quando estamos lado a lado com alguém que desejamos ou no meio da multidão, conforme se vê no poema você me toca. Nele, parodiando Baudelaire, o poeta deseja uma passante que se perde na multidão, inacessível ao seu desejo. A diferença com o poema de Baudelaire fica por conta da mudança de tom. No poema dele, esse é marcado pelo tormento resultante da efemeridade das relações e pela insatisfação do desejo; no poema de Rodrigo, é marcado pela aceitação da efemeridade e do caos da vida moderna que, ao invés de atormentar o flaneur/vouyer, docemente o entretém nas horas vagas. O desejo que antes expressava a angústia da solidão e do vazio em meio ao caos e à multidão do mundo moderno torna-se um sentimento tão passageiro e supérfluo quanto a sedutora passante: você me toca você me toca como quem troca de roupa
  36. 36. 37 você me provoca e troça dessa minha doce distração pra que tanta pressa você mulher na multidão? Solarium Na terceira parte, intitulada “Solarium”, a busca de uma nova linguagem se faz principalmente através da vertente dionisíaca. Diversamente do que vimos nas duas primeiras partes, o autor deixa de privilegiar o planejamento racional e objetivo, que caracteriza o concretismo e a poesia de Mallarmé, em favor dos impulsos e divagações, nem sempre conscientes, que caracterizam uma dicção muito próxima daquela que marcou a poesia de Rimbaud e da geração beatnik. Nela, predominam longos poemas de versos livres, em que o texto, aparentemente linear, se desenrola de modo fragmentário como em um fluxo de consciência, sem que haja um único fio condutor do discurso e, portanto, sem maior coesão e coerência. A menção ao uso de drogas, como acontece no poema Phanopium, cujo título pode ser interpretado como a aglutinação de phanus e/ou phanopéia mais opium = ópio, constitui um outro índice de afinidade com a poesia de Rimbaud e dos Beatniks. Na busca de uma nova linguagem, Rodrigo Garcia Lopes procura despersonalizar a linguagem através da negação de qualquer centro discursivo, de modo que a representação ocorra através de uma sintaxe descontínua e fragmentada – o que resulta em um processo esquizofrênico de captação alegórica, sinestésica e ideogrâmica do que costumeiramente chamamos de mundo real (o que é claramente tematizado no metapoema Processo). Com tais procedimentos, perde-se a noção de tempo e espaço, os sentidos se misturam e se espera que a personalidade desapareça. Em vários poemas desta parte do livro, também encontramos a tematização da cidade como caos e a negação do consumismo, da mecanização, da violência e da exploração presentes na sociedade burguesa. A América urbana e tecnológica, massificada e violenta, é comparada à cidade de “Roma em chamas” (América # 2). Nas megalópolis – representadas no poema New York – não há mais espaço para a reflexão, o sentimento e a utopia. Nelas, “a serpente das ruas arrasta seus ruídos, raps & neons / devora um real que acumula seus pós / sobre nós, camadas / de civilização sem fim e sem saída”. Caos urbano digno do cenário de filmes como Blade Runner, a cidade de New York representa a demência e a desumanização de uma sociedade regida pela racionalidade pragmática, pela idéia do progresso material e técnico que leva o homem à escravidão dos relógios. Nesse mundo fragmentado e sem sentido, que também encontramos no poema “M”, os seres humanos são reduzidos ao estado de mercadoria, cujas
  37. 37. 38 relações são medidas pelo moderno design do corpo e pela produtividade do prazer tecnológico. Em busca de phanus A constância dos temas da dissolução da realidade e do Eu não deve ser vista apenas como uma crítica ao padrão de vida moderno que, regido pela incessante produção de novas mercadorias e valores, dissolve e pluraliza as identidades em um caleidoscópio de máscaras. Outro importante aspecto que envolve o motivo da despersonalização também se encontra na afirmação da primeira das quatro grandes verdades da mundividência budista, que perpassa todo o conjunto da obra. Segundo a filosofia do budismo tudo é sofrimento, pois “não há coisa alguma que não esteja submetida a incessantes mudanças. E quanto mais o homem se esfalfa, procurando alguma coisa permanente a qual se possa apegar neste mundo efêmero, tanto mais sofre” (Gira, 1992:53). A verdade está no karma, que leva o homem ao infinito ciclo de renascimentos e mortes neste plano cósmico marcado pela imperfeição e pelo sofrimento. E outra não parece ser a lição que encontramos em tantos poemas de Rodrigo Garcia Lopes. A transitoriedade que marca a existência dos seres também se estende ao Eu do indivíduo, pois para o budismo esse não possui unidade e permanência, o que nega a idéia de uma essência humana. Para Buda, a busca de um Eu permanente, ou seja, da realidade interior e do Absoluto, “não era diferente da procura da Fonte da Eterna Juventude. (…) E na mesma proporção em que um homem gasta suas energias em uma busca dessa espécie, se afasta da possibilidade real que teria de se libertar do samsara” (Gira, 1994:55). Daí resulta a constância dos temas da busca infrutífera do Eu e da sua ausência, assim como da solidão e da estranheza entre os seres, mesmo quando eles estão lado a lado, numa cama ou na multidão. (…) O que carregamos são espelhos que refletem sempre o diferente, enquanto nós, eu e você mudamos juntos. Nuvens (Outras praias). Na caminhada em busca da libertação, de acordo com as outras três nobres verdades, deve o homem abrir mão dos seus desejos e ouvir o que o “(…) outono / tem pra nos dizer: / tempo de se desfolhar / – cores, peles, percepções”, conforme lemos em Um poema para o deserto. Na busca da iluminação, deve-se renunciar ao desejo de possuir um Eu permanente através de um comportamento reto, de uma disciplina mental em que a concentração constitui o caminho para a “eliminação de tudo aquilo que alimenta a ignorância do homem” (Gira, 1994:91). Daí a necessidade de se eliminar os “cinco agregados” que constituem aquilo que percebemos como um indivíduo: a matéria, as sensações, as percepções, os desejos e a consciência, em suma, todos os vínculos que ligam o homem ao mundo material. Somente assim, por esse processo de
  38. 38. 39 ascese e meditação, em que “(…) é preferível / eliminar este pensamento e deixá-lo livre” (Improvisos), é possível o encontro com a sabedoria, com a iluminação que caracteriza o nirvana. É devido ao diálogo com a filosofia do zen- budismo que encontramos constantemente, nas três partes da obra, a presença das imagens do outono e das folhas secas que o vento leva e que sempre se renovam, revelando em sua alegoria o eterno movimento cíclico da vida – conforme vemos em O eterno renovo do mesmo (poema concreto e metalingüístico pertencente a Dioramas). Desta forma também se explica a obsessão pelo deserto “com seus rios secos desde o começo / com sua sede sonora / com o sal que não pergunta / do sentido / deste paraíso perfeito” (Um poema para o deserto) em que não há “nenhum milagre a não ser / as coisas como são” (Sedona), onde “tudo é phanus” (O fotógrafo), ou seja: templo, iluminação – conforme o significado grego. Como vemos, o orientalismo e especialmente o zen-budismo atravessam o livro inteiro, convivendo com a racionalidade ocidental – tão bem representada por Mallarmé e pelo concretismo –, com a contracultura do movimento beatnik, e com a fragmentação alegórica de um mundo moderno (ou pós-moderno?) em ruínas. Em meio a este caos e à esquizofrenia geral, fica, no fim, a sensação de que o poeta luta entre ser um zen-fotógrafo – procurando congelar em suas iluminuras o tempo eternamente cíclico da existência – ou então ser um câmera-zen, almejando registrar o fluxo ininterrupto e fragmentário da existência. _________________________ Referências Bibliográficas GIRA, Dennis. Budismo: história e doutrina. São Paulo: Vozes, 1992. LOPES, Rodrigo Garcia; MENDONÇA, Maurício Arruda. Iluminuras: poesia em transe. In: Rimbaud, Arthur. Iluminuras: Gravuras Coloridas (Tradução de Rodrigo Garcia Lopes & Maurício Arruda Mendonça). São Paulo: Iluminuras, 1996. _____ Nota: Texto escrito originalmente para a saudosa revista eletrônica No Meio do Caminho, em Maio/2004. Fonte: MetAArte http://marcianolopes.blogspot.com.br/ Rodrigo Garcia Lopes nasceu em Londrina/PR, a 2 de outubro de 1965. Formado em Jornalismo, em 1984-85 viajou pela Europa e, na volta, publicou a página literária "Leitura" e as revistas "Hã". Trabalhou em jornais e veículos literários em São Paulo ("Ilustrada") e Curitiba ("Nicolau"). De 1990 a 1992 viveu nos Estados Unidos, onde realizou mestrado na Arizona State University com tese sobre os romances de William S. Burroughs. Neste período, também reuniu material para seu livro de 19 entrevistas com escritores e artistas (como John Ashbery, William Burroughs, Marjorie Perloff, Allen Ginsberg, Nam June Paik, Charles Bernstein and John Cage). Ao longo destes anos traduziu, entre outros, a poesia de Ezra Pound, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Laura Riding, Charles Bukowski, John Ashbery, Jim Morrison, e Samuel Beckett. Atualmente prepara tese de doutorado sobre a poesia de Laura (Riding) Jackson Vive na ilha de Florianópolis.
  39. 39. 40 Nota sobre o Almanaque Este Almanaque é distribuído por e-mail e colocado nos blogs http://www.singrandohorizontes.blogspot.com.br e http://universosdeversos.blogspot.com.br Os textos foram obtidos na internet, em jornais, revistas e livros, ou mesmo colaboração do autor. Algumas imagens são montagens, cujas imagens principais foram obtidas na internet e geralmente sem autoria, caso contrário, constará no pé da figura o autor. Este Almanaque tem a intencionalidade de divulgar os valores literários de ontem e de hoje, sejam de renome ou não, respeitando os direitos autorais. Seus textos por normas não são preconceituosos, racistas, que ataquem diretamente os meios religiosos, nações ou mesmo pessoas ou órgãos específicos. Este almanaque não pode ser comercializado em hipótese alguma, sem a autorização de todos os seus autores e ilustradores.

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