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Índice
Mensagem na Garrafa
Benedita Azevedo
A terra continua a girar ......................................................
3
Benedita Azevedo
A terra continua a girar
A vida continua, ainda que tenhamos sofrido
grades perdas materiais ou até um ...
4
Benedita Azevedo nasceu em Itapecuru-Mirim/MA. Filha de Euzébio Alberto da Silva e de Rosenda Matos da Silva.
Radicada n...
5
Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva
Depois que se aposentou,
seu pijama é só frangalho,
pois nunca mais o tiro...
6
Um Poema de Taubaté/SP
Sílvia Simões
Outono II
Cheiro de inverno
Nas folhas mortas
Das calçadas sombrias
...Mofo sem sol...
7
a gente que comprava e que bebia...
O seu Chicão, o Pedro, a Amelinha...
de noite, o lampião que acendia,
os risos, as l...
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Trovadores que deixaram Saudades
Lamartine de Azeredo Babo
Rio de Janeiro/RJ (1904 – 1963)
Homens puros!... Sempre os vi...
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Uma Trova de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro
A estrada da minha vida
é cheia de sobe e desce,
mas na subi...
10
Um Poema de Taubaté/SP
Pedro Luiz de O. Costa Neto
A Quarta Idade
O ainda vivente que haja superado
os quinze lustros p...
11
mas foi cego, coração.
Um Poema de Taubaté/SP
Lygia Therezinha Fumagalli
Ambrogi
Filosofando
Devia nesta vida estar can...
12
na nascente que dá vida.
Brancas como o branco véu,
ficam horas contemplando,
toda a beleza do céu
e banhos de sol toma...
13
Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Ailto Rodrigues
Por ser um falso processo
que envolve o jovem no vício,
a droga é rua de ...
14
Percorro as trilhas-sonhos, e a esperança
em meio ao caos, me diz: “- Estou aqui...
caíste, mas eu venho sem tardança,
...
15
Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira
Quem se vale da mentira
deve lembrar-se, primeiro,
que um dia o feitiço v...
16
17
Aarão Reis te fez surgir,
teus filhos te deram glória,
Belo Horizonte, és porvir
dos cem anos de uma história.
A brisa ...
18
Em nossos dedos, ternura,
lindo troféu de esplendor;
anel que tem espessura
e o brilho do nosso amor.
Entre as dunas da...
19
Na madrugada vazia,
quando o desprezo me invade,
teu desprezo me angustia
num resquício de saudade.
Não desanime, traba...
20
Sob a névoa, sem ruído,
juntei meu sonho aos pedaços:
- no véu do tempo, esmaecido,
senti-me presa em teus braços.
Tive...
21
Jean e La Fontaine
A Cigarra e a Formiga
Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrem...
22
Folclore Indígena Brasileiro
Nação Taulipang
Konewó e as Onças
Konewó é um índio que parecia ter nascido para
disputar ...
23
– O que quer? – disse ele, friamente.
– Vingança!
Ao observar, porém, a calma do índio, a onça não
pôde deixar de pergu...
24
algum por ali. Olhou para cima e viu que o bolo – ou a
lua – agora estava boiando na superfície.
E essa foi a última co...
25
Tatiana Belinky
Viola no Saco
História do Folclore Paulista Recontada
Vocês sabem por que quando alguém perde uma
discu...
26
“a ver navios” porque não havia navios naquela lagoa.
E é por isso que, quando alguém perde a partida e tem
de sair qui...
27
e o brâmane agradeceu e disse que voltaria logo para
buscar a comida. Então, foi procurar o macaco
pendurado pelo rabo ...
28
De 1948 a 1951, criou com o marido várias adaptações de histórias infantis para teatro. Nessas encenações, Tatiana fazi...
29
Deonísio da Silva
Expressões e Suas Origens
Parte VIII
O amor é mais forte do que a morte
Esta frase é de autoria de Sa...
30
que desposou, Eugênia, mas comentando a marcha
nupcial dos casamentos, comparou-a à música dos
soldados que vão à guerr...
31
concepção amarga da literatura nos seus mais de 20
livros publicados, que lhe valeram prêmios e traduções
para diversas...
32
ficaria famosa, proferida em entrevista coletiva que
tinha como assunto principal as negociações que
levariam ao fim da...
33
Diadorim. Guimarães Rosa recomendava a quem já
tinha lido o livro que não revelasse o grande segredo do
romance, envolv...
34
desconcertou a todos. Segundo ele, do modo como o
técnico explicava, para o esquema dar certo era
indispensável a ajuda...
35
acrescentam que a palavra é de prata. Saber calar e
cultivar a discrição são recomendações tão antigas que
já estão pre...
36
Conto do Moçambique
O Coelho e a Hiena
O coelho e a hiena eram amigos.
Um dia, a hiena que estava a passear sozinha,
pa...
37
se e ficou de tal maneira envergonhada que fugiu para
bem longe. E o coelho casou com Chipha Dzuwa.
Fonte:
Lourenço Joa...
38
famosos primeiros versos, que comparam o céu ao
entardecer com “a patient etherised upon a table” (algo
como “um pacien...
39
uma grande influência de Ezra Pound sobre a sua
forma final. A parte IV, “Death by Water”, fora reduzida
de noventa e d...
40
presentes simultaneamente, mas invisíveis para nós:
todas as formas de atravessar o jardim se transformam
numa vasta da...
41
prévia do musical, presenteou o jovem autor musical
com rascunhos de um poema inacabado pelo falecido
marido. Esse poem...
42
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando
amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se
elevando;
Vou revel...
43
Muito vinculadas à sua poesia, as obras para o teatro ganharam destaque com “The Rock” (1934; “O Rochedo”) e “Murder in...
44
Ernesto. A encenação alcança grande sucesso e
repercussão, rebatizada como Alzira Power, retorna
posteriormente para Sã...
45
O diminuto casebre em que morava, na pequena
aldeia encravada na encosta do rio Douro, na Província
de Trás-os-Montes, ...
46
Pegando o podão que carregava na cintura, cortou o
cordão umbilical. Lavou o recém-nascido na água fria
do regato, embr...
47
Alberto Paco
O Escritor em Xeque
Entrevista virtual realizada por José Feldman, em 15 de
fevereiro de 2010
Alberto Paco...
48
livros e viajava com os personagens pelo mundo da
fantasia.
JF: Fale um pouco sobre sua trajetória literária.
Como come...
49
“Presídio feminino” Romance policial Publicado em
2003
“Conjugando o verbo trair” Romance publicado em
2007
“As amantes...
Almanaque Chuva de Versos n. 402
Almanaque Chuva de Versos n. 402
Almanaque Chuva de Versos n. 402
Almanaque Chuva de Versos n. 402
Almanaque Chuva de Versos n. 402
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Mensagem na Garrafa: com Benedita Azevedo, de Magé/RJ, com o texto “A terra continua a girar”;
Na Chuva de Versos, vários poetas de Taubaté/SP;
Na Tertúlia da Saudade, uma homenagem a Conceição Parreiras Abritta, que faleceu recentemente;
Jean de La Fontaine com mais uma fábula em versos: “A Cigarra e a Formiga”
Folclore Indígena Brasileiro, da nação Taulipang, com algumas lendas de “Konewó e as Onças”;
Tatiana Belinky com os contos “Viola no Saco” do folclore paulista e “A Lebre na Lua”, do folclore hindu;
Um pequeno adendo, Tatiana foi minha professora no primário (falando em primário, faz tempo! Na época que existia exame de admissão, uma espécie de vestibular para passar ao ginásio, não como hoje que juntou os dois)
Deonísio da Silva e as Expressões e Suas Origens, com a letra “O”;
Conto do Moçambique: “O Coelho e a Hiena”
Um estudo da obra poética de T. S. Elliot
Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre, com a peça “O Cão Siamês”;
Alberto Paco com o conto “Uma Estranha Mulher”, e logo após uma entrevista virtual que realizei com ele falando de si e de literatura;
O gaúcho Marcelo Spalding com a primeira parte de “História da leitura“;
Fábulas sem Fronteiras, vai ao México, com “Ti, o Pica-pau Avisador”, em uma adaptação de Ana Maria Machado;
Estante de Livros analisa e resume a obra do português Eça de Queirós: “O Crime do Padre Amaro”;
Mais Concursos Literários com Inscrições Abertas, de poesias em Ourinhos e de Trovas em Porto Alegre, Cachoeira do Sul e Caxias do Sul.

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Almanaque Chuva de Versos n. 402

  1. 1. 2 Índice Mensagem na Garrafa Benedita Azevedo A terra continua a girar ...................................................3 Chuvisco Biográfico........................................................4 Chuva de Versos .............................................................5 - 15 Poetas de Taubaté/SP.....................................................6 - 15 Tertúlia da Saudade Conceição Parreiras Abritta ...........................................16 Chuvisco Biográfico...........................................................20 Jean de La Fontaine A Cigarra e a Formiga .......................................................21 Chuvisco Biográfico...........................................................21 Folclore Indígena Brasileiro Nação Taulipang Konewó e as Onças .....................................................22 Tatiana Belinky Viola no Saco ....................................................................25 A Lebre na Lua..................................................................26 Chuvisco Biográfico ..........................................................27 Deonísio da Silva Expressões e Suas Origens Parte VIII ..............................29 Chuvisco Biográfico ..........................................................35 Conto do Moçambique O Coelho e a Hiena...........................................................36 A Obra Poética de T. S. Elliot ..............................................37 Chuvisco Biográfico ..........................................................42 Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre O Cão Siamês...................................................................43 Alberto Paco Uma Estranha Mulher........................................................44 Entrevista com Alberto Paco (O Escritor em Xeque) .........47 Marcelo Spalding História da leitura (I): As tábuas da lei e o rolo..........................................52 Chuvisco Biográfico .....................................................55 Fábulas sem Fronteiras México Ti, o Pica-pau Avisador.................................................55 Estante de Livros Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro .............................................57 Chuvisco Biográfico......................................................68 Mais Concursos Literários com Inscrições Abertas V Concurso de Poesias de Ourinhos......................................69 XXIII Jogos Florais de Porto Alegre........................................70 I Concurso de Trovas de Cachoeira do Sul ............................71 VI Concurso Estadual (RS) de Trovas de Caxias do Sul........72
  2. 2. 3 Benedita Azevedo A terra continua a girar A vida continua, ainda que tenhamos sofrido grades perdas materiais ou até um ente querido. Independente de qualquer situação tem-se de continuar vivendo e dando exemplos de superação. Precisamos pensar positivamente e aceitar as leis da natureza, pois, todos os seres vivos nascem, crescem se reproduzem ou não e morrem. A vida nos é ofertada a partir do relacionamento de duas pessoas que se amam e resolvem formar sua família, baseadas no modelo social que conhecem e herdaram de seus pais. Cada casal cria suas próprias regras, mas, é preciso cuidado para não se isolarem e se afastarem do que é normal e aceitável para seu grupo social e familiar. Além disso, é importante manter o apoio da família, independente, da situação financeira que por ventura tenham alcançado após o casamento. Há momentos na vida, dependendo da gravidade do que nos tenha atingido, que, de bom grado reformularíamos grande parte do que fizemos e vivemos, só para termos de volta uma situação de liberdade, paz ou a família completa à nossa volta. Embora saibamos que são premissas da natureza os ciclos da vida, nem sempre entendemos quando há inversão do que consideramos natural. Por exemplo, a partida precoce de tantas crianças e jovens. Doenças incuráveis, acidentes, violências de todas as ordens, tudo foge ao nosso controle e ficamos atordoados quando o fato acontece conosco. Aí nos indagamos, por que comigo? Onde deixei escapar o fio da meada e não percebi o que estava acontecendo com minha filha, meu filho, meu neto, meu pai, minha mãe? É doloroso e só quem passou por um problema igual será capaz de avaliar tal situação. Entretanto, a misericórdia de divina, a força de renovação da natureza e a nossa fé nos mostram que tudo na vida é transitório e que nós, seres humanos, acompanhamos o mesmo ritual de qualquer ser vivo. O homem, animal racional, socialmente condicionado às leis civis e religiosas, baseadas em sentimentos variados de crenças, rituais e dogmas cria para si uma proteção que às vezes o deixa inseguro e vulnerável. Mesmo assim, a vida continua, precisamos manter o equilíbrio, o pensamento de que não poderemos parar no tempo, seja lá o que nos tenha atingido, a terra continua a girar, o sol continuará a surgir e desaparecer todos os dias, as nuvens carregadas desabarão em forma de chuva, nós teremos sono, fome, sede e demais necessidades fisiológicas e um dia também partiremos. Vamos, pois, superar momentos difíceis com o discernimento de que certas coisas não podem ser mudadas.
  3. 3. 4 Benedita Azevedo nasceu em Itapecuru-Mirim/MA. Filha de Euzébio Alberto da Silva e de Rosenda Matos da Silva. Radicada no Rio de Janeiro desde janeiro 1987. Mudou-se para a Praia do Anil, Magé-RJ em janeiro de 1990. Educadora, poeta, escritora e animadora cultural. Formada em Letras, especialista em Educação e pós-graduada em Lingüística. Pertence a várias instituições literárias. É haicaísta premiada em vários concursos nacionais. Publicou 13 livros individuais. Organizou 11 antologias com a participação de vários poetas e escritores. Tem participação em revistas, jornais e sites. Participou de 42 antologias. Recebeu vários prêmios a nível nacional. Fundadora do Grêmio Haicai Sabiá, em Magé, RJ /2006 e do Grêmio Haicai Águas de Março, na cidade do Rio de Janeiro /2008. Tem haikais publicados na Revista Brasil Nikkei Bungaku. Seus haicais têm sido selecionados, na seção de haicais do Jornal Nippo-Brasil, desde 2004, onde tem quase duas centenas de poemas publicados. Livros: Nas trilhas do haicai, Ed. Da autora, 2004; Canto de Sabiá:haikai; Praia do Anil:haikai, Curitiba, Araucária Cultural, 2006; Gota de Orvalho:haikai,2007, Silêncio da Tarde:haicai e Rumor das Ondas:haicai,2010, também da Araucária Cultural. Site: http://www.beneditaazevedo.com Fonte: Haicai, Verso e Prosa
  4. 4. 5 Uma Trova de Curitiba/PR Vanda Alves da Silva Depois que se aposentou, seu pijama é só frangalho, pois nunca mais o tirou para não lhe dar trabalho. Uma Trova de Senhor do Bonfim/BA Clóvis Wilson de Mattos Andrade Não louves minha virtude que os aplausos não são meus, pois mudei minha atitude, graças aos exemplos teus!
  5. 5. 6 Um Poema de Taubaté/SP Sílvia Simões Outono II Cheiro de inverno Nas folhas mortas Das calçadas sombrias ...Mofo sem sol ...Alma sem calor Onde as mãos quentes? Onde o corpo aconchego? Cheiro de inverno Folhas mortas... Amarelecidas ao vento Espio as sombras... Seu contorno ilusão Você não está Nem o ipê floriu! ...Latidos ao longe ...Ruas desertas Meu corpo como as folhas Perdidas no tempo Sem rumo nem porquê Craquela-se sob os passos gelados do não ser... Folhas mortas... Cheiro de inverno ...Levem-me ao vento em busca de um novo amanhecer... Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ Sérgio Ferraz Por um erro na feitura, o coitado do "Parreira" não escova a dentadura. Espana e tira a poeira. Uma Trova de Santos/SP Carolina Ramos Sempre acolho de mãos postas e humilde, tento aceitar o silêncio das respostas que a vida não sabe dar! Um Poema de Taubaté/SP Dom Antonio Affonso de Miranda A minha casa, o largo, a igrejinha, as tropas, os cargueiros, a freguesia, a venda de meu pai, a cachacinha,
  6. 6. 7 a gente que comprava e que bebia... O seu Chicão, o Pedro, a Amelinha... de noite, o lampião que acendia, os risos, as lorotas de quem vinha para comprar o que papai vendia. Lembranças da infância que se foi... gente a cavalo, a pé, carros de boi, as festas, procissões, sino a tanger, foguetes, bandeirinhas que se agitam, as crianças que correm, brincam e gritam, lembranças do passado a remoer... Uma Quadra Popular Autor Anônimo Eu joguei meu limão verde numa moça na janela. O limão caiu no chão e eu caí no colo dela. Uma Trova Hispânica do México Jaime Solís Robledo Desterremos la violencia y el odio entre los humanos sea la música esencia que nos convierta en hermanos. Um Poema de Taubaté/SP Angelica Maria Villela Rebello Santos Roça A tropa segue, com a "madrinha" à frente, tilintando, o cincerro vai guiando. E após galgar a serra - esforço ingente - chega a um rancho, descanso procurando. Logo o café, cheiroso e muito quente, dá ânimo e vigor àquele bando; enquanto a carne seca e a aguardente, de mão em mão também vão repassando. Ali na roça, sob a luz da lua, homens e animais, juntos, adormecem, gozando a doce paz que se insinua, como benção divina aos viajantes. E de manhã, nos pés, já se oferecem, louras espigas, belas e brilhantes.
  7. 7. 8 Trovadores que deixaram Saudades Lamartine de Azeredo Babo Rio de Janeiro/RJ (1904 – 1963) Homens puros!... Sempre os via... E sei que não sou dos tais, porque a gente desconfia quando a pureza é demais. Uma Trova de Santos/SP Mercedes Lisbôa Sutilo Levanto-me quando caio (posso tombar, num tropeço) e logo em seguida ensaio, para a vida, um recomeço!... Um Poema de Taubaté/SP Maria Marlene Nascimento Teixeira Pinto A poesia sou eu! Na sala obscura... tácita... Tateio às cegas, uma estante que jaz num canto, à procura de mim mesma... Com as mãos trêmulas, tento pegar um livro qualquer! Quero entreter-me nas suas entrelinhas, embriagar-me nos escaninhos das suas páginas esmaecidas! Estou à mercê de mim mesma... Sento-me num sofá - solitário - como eu... no canto da sala vazia. Vou abrindo, vagarosamente, página por página, a sondar o desconhecido... Desperto da apatia, da inércia que tomava conta do meu ser, até que, de supetão, o amor se revela! Sem se dar conta, atropela a minha soledade, e me segreda a sua alma, desnudando a sua essência! Uma poesia de versos livres, soltos, à deriva como eu... Contando a paixão enclausurada, no peito do eu lírico... Amor proibido... resignado amor... amor pérfido! Minha lágrimas inundam cada palavra, cada letra, desvendando o óbvio! – Eu sou o eu lírico! A poesia sou eu! Minha voz cavernosa ressoa na sala emudecida: - Eu sou o eu lírico! A poesia... sou eu...
  8. 8. 9 Uma Trova de São José dos Campos/SP Amilton Maciel Monteiro A estrada da minha vida é cheia de sobe e desce, mas na subida ou descida um sol radiante aparece! Um Haicai de Magé/RJ Benedita Azevedo Jardineira em flor. A beleza das rosas agora esquecidas. Um Poema de Taubaté/SP Darcy Azevedo Bandeirante Costa Momentos Quero contar alguns dos meus momentos, posso até revelar algum segredo. Abro a janela dos meus sentimentos onde há tristezas, alegrias, medo. Manhãs de abril, encontros amorosos, tardes de maio, a vida é um sol poente; noites de lua, olhos tão saudosos de um grande amor que já se faz ausente. Nos longos dias que eu estou vivendo, na solidão somente me conforta saber que aos poucos eu vou esquecendo os maus momentos aos quais fecho a porta. Sentindo os bons momentos renascendo, serei feliz, porque a tristeza é morta. Uma Trova de São Paulo/SP Darly O. Barros Um fio de água barrenta, à ponte, num balbucio: “ Velha ponte, vê se aguenta, até que eu volte a ser rio!” Uma Trova Hispânica da Venezuela Iván Valero Bracamonte La música más temprana se escucha por los esteros cuando vuelan la sabana los pájaros mañaneros.
  9. 9. 10 Um Poema de Taubaté/SP Pedro Luiz de O. Costa Neto A Quarta Idade O ainda vivente que haja superado os quinze lustros pode olhar em frente orgulhoso, quiçá, do seu passado, porém, de uma maneira diferente... Não importa o que traga em seu costado, ele agora decerto está consciente de que em breve cremado ou enterrado se encontrará, inevitavelmente... Dois, cinco, dez ou vinte, quantos anos irá ainda o organismo a esmorecer suportar?...Como pôr isso nos planos?... Dou resposta, elementar: não pôr, saborear cada dia com prazer, extrair de cada instante seu sabor.. Uma Trova de São Paulo/SP Ronnaldo Andrade Eu sinto que estou amando, e este amor é tão perfeito, que aos poucos vai ocupando mais espaço no meu peito. Uma Teia de Trovas de Mogi-Guaçu/SP Olivaldo Júnior Todo o amor que não me tinhas Todo o amor que não me tinhas se escondeu num violão, violando as "musiquinhas" que se encontram sem refrão. Todo o amor que não me tinhas se espalhou do coração, violento como as linhas que me cortam toda a mão. Todo o amor que não me tinhas se encantou com a solidão, solidário com as coisinhas que se guardam no porão. Todo o amor que não me tinhas nunca teve compaixão e fez pouco das florinhas que deixei em sua mão. Todo o amor que não me tinhas sempre teve condição de ver tudo que eu lhe tinha,
  10. 10. 11 mas foi cego, coração. Um Poema de Taubaté/SP Lygia Therezinha Fumagalli Ambrogi Filosofando Devia nesta vida estar cansada... Desci ladeiras e escalei montanha... Foi longa e árdua minha caminhada, de sombra e luz, mas, de beleza estranha... Sofri revezes na áspera jornada... Venci, porém, com esta fé tamanha. Os espinhos abriram-se em florada nos desertos e matas que o sol banha... Sobre os fiordes da vida fiz castelo, enfeitei-o com tudo de mais belo, que passava sonhando o viajor... Sob as manhãs douradas colhi flores... Sempre a cantar desfiz os dissabores e nesta vida, só colhi amor… Um Haicai de Curitiba/PR Alice Ruiz aparecem às vezes teias de aranha com borboletas presas Uma Trova de Fortaleza/CE José Pereira de Albuquerque No conceito das cidades, a minha é bem pequenina; porém é lá que as saudades fazem ponto em cada esquina. Um Poema de Taubaté/SP Judite de Oliveira Garças Brancas Para as várzeas verdejantes, lindas garças vão voando, imponentes e elegantes, alimentos procurando. De manhã cedo elas vão, em direção do nascente, à tardinha voltarão, rumo ao lindo sol poente. Na várzea ficam pescando, nunca faltando comida, sua sede vão saciando,
  11. 11. 12 na nascente que dá vida. Brancas como o branco véu, ficam horas contemplando, toda a beleza do céu e banhos de sol tomando. À noite dormem seguras, nos eucaliptos gigantes, pra não terem desventuras, nem surpresas transtornantes. Sem as várzeas não teremos as pastagens verdejantes, nem cruzar o céu veremos brancas garças elegantes. Recordando Velhas Canções Ciúme de você (canção, 1968) Luiz Ayrão Se você demora mais um pouco eu fico louco esperando por você e digo que não me preocupa procuro uma desculpa mas que todo mundo vê que é ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você Se você põe aquele seu vestido lindo, e alguém olha pra' você eu digo que já não gosto dele que você não vê que ele está ficando demodê mas é ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você Esse telefone que não para de tocar está sempre ocupado quando eu penso em lhe falar quero então saber logo, quem lhe telefonou o que disse, o que queria e o que você falou só de ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você Se você me diz que vai sair sozinha eu não deixo você ir entenda que o meu coração tem amor demais, meu bem e essa é a razão do meu ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você do meu ciúme, ciúme de você, ciúme de você, ciúme de você.
  12. 12. 13 Uma Trova de Nova Friburgo/RJ Ailto Rodrigues Por ser um falso processo que envolve o jovem no vício, a droga é rua de acesso que conduz ao precipício!... Um Poema de Taubaté/SP André Bianc Escrevi para ninguém. A desilusão que tudo antecede, no verso ainda sequer gerado, provoca uma convulsão ocultista, na lucidez dos amargos diálogos. Busco a proposta vazia do tema, resultante de vagas intuições, que oprime o poeta desavisado, pelas formas heróicas da obra. E a irrelevância da qualidade proposta, aliada das múltiplas subjetividades, está na importância de apenas criar, independente do medo instituído. Ao fim, se tudo amanhã for deserto, sobreviverá a poesia embalsamada, nas pirâmides, morta-viva e atemporal. Leiam o livro que jamais escrevi. Um Haicai de Belo Horizonte/MG Angela Togeiro Ferreira Táboa no brejo, enfeite do lamaçal, escondendo rãs. Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ Edmar Japiassú Maia Dentre os tantos talismãs que a vida me ofereceu, o sol que acende as manhãs é um talismã todo meu! Um Poema de Taubaté/SP Luiz Antonio Cardoso Soneto da Esperança Escravo da mais mórbida lembrança, de toscos sofrimentos que vivi, eu ando ouvindo a vil destemperança, chorando... mas a face é de quem ri.
  13. 13. 14 Percorro as trilhas-sonhos, e a esperança em meio ao caos, me diz: “- Estou aqui... caíste, mas eu venho sem tardança, iluminar o amor que vejo em ti”. Ouvindo aquela voz, eis que desperta minha alma que dormia... e se liberta, para cumprir a mais bela missão: encontrar minha Musa Inspiradora... a grande amiga... amante... redentora! A Dona deste ardente coração! Hinos de Cidades Brasileiras Imaruí/SC Na Beleza ao sul do Brasil, Despontou um lugar sem igual, Um pedaço então esquecido, Destacou-se no litoral. Descendentes dos açores trouxeram, A cultura e mistura de raças, De origens jamais esquecidas, Nos deram clamores de graças. Imaruí, Imaruí, Pequena joia no sul do Brasil, No litoral, tanta grandeza, E amor a terra jamais se viu. Freguesia gerou o progresso, E por severos foi saqueada, O massacre nos lembra a história, E a coragem de um povo de raça. A cultura também se consagra, Entre as glórias de nosso Imaruí Religião sempre forte e presente, Terra querida de amor sem fim. Imaruí, Imaruí, Pequena joia no sul do Brasil, No litoral, tanta grandeza, E amor a terra jamais se viu. Com a pesca e agricultura, As margens da lagoa azul, Que sustentam as nossas famílias, Tem fartura na região sul. Hoje humilde ilustre e serena, Natureza de terras bem farta, Brilha o sol, reflete a luz, No esplendor e nos verdes das matas. Imaruí, Imaruí, Pequena joia no sul do Brasil, No litoral, tanta grandeza, E amor a terra jamais se viu.
  14. 14. 15 Uma Trova de Belém/PA Antonio Juraci Siqueira Quem se vale da mentira deve lembrar-se, primeiro, que um dia o feitiço vira contra o próprio feiticeiro! Um Poema de Taubaté/SP Cesídio Ambrogi Minha terra Meu vilarejo um cromo estilizado. O Largo da Matriz. Uma palmeira. A cadeia sem preso nem soldado. Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira. Andorinhas em bando no ar lavado. O rio. O campo. Além de uma porteira, Um velho casarão acaçapado. Nossa casa tranqüila e hospitaleira. O Cruzeiro lá em cima, em plena serra, Braços abertos para a minha Terra... E, eu criança e feliz. Que doce idade ! Hoje, porém meu Deus, quanta emoção! Do meu peito no triste mangueirão, Cavo e soturno, o aboio da saudade...”.
  15. 15. 16
  16. 16. 17 Aarão Reis te fez surgir, teus filhos te deram glória, Belo Horizonte, és porvir dos cem anos de uma história. A brisa passou cantando, e trouxe, com seus enleios, teu rosto, em sonho, singrando as águas dos meus anseios. A cara de Sá Constança é de osso e pele somente, mas tem ela uma poupança tão gorda que assusta a gente. A cortina solta ao vento dança, insone, o seu bailado: - revolve o velho aposento e os segredos do passado. A gata ruiva e bonita passa toda rebolando; o garotão logo grita: - tem "filet mignon" sobrando!... A vida me revigora, lembranças que tanto amei! E dos sonhos, junto, agora, os retalhos que guardei. Belô, mais bela e altaneira, em teus cem anos de glória, és raínha e timoneira de teu povo e de uma história. Canto, alegre, a fortaleza que sempre cobriu meus passos, porém escondo a fraqueza de não contar meus fracassos. Chuva fina nas calçadas vai regando a minha dor, que cresce nas madrugadas, distante do meu amor. Com juras apaixonadas, compondo sonhos a dois, brindamos às madrugadas, num talvez... que vem depois.
  17. 17. 18 Em nossos dedos, ternura, lindo troféu de esplendor; anel que tem espessura e o brilho do nosso amor. Entre as dunas da lembrança a saudade, em fantasias, deixa areia de esperança no deserto de meus dias. Entre colinas reinando, Belô, és sonho encantado: mulher bonita enfeitando cem anos de teu passado! Foi tão lindo o sentimento que nos uniu, sem apelos, que o luar brindando o evento prateou nossos cabelos. Hoje a vitória te alcança! Cuidado, ao virar a mesa, a vida é imensa cobrança, num mercado de surpresa. Já nasceste Capital, traçada em retas iguais; hoje és linda e magistral, centenária das Gerais. Lá no alto, bem escondido, no velho tronco que o enlaça, um coração esculpido veste a ramagem da praça. Manhã dourada, sol quente, nós dois e o sonho que aflora. Deitados na areia ardente... Só o amor importa agora! Marido a deixa sozinha... E, com medo de ladrão, a beldade da vizinha chama o gato do patrão. Na balança deste mundo, pesa mais que seu talento, ser honesto, ser profundo, ser direito em pensamento.
  18. 18. 19 Na madrugada vazia, quando o desprezo me invade, teu desprezo me angustia num resquício de saudade. Não desanime, trabalhe, combata o mal, queira o bem... Pois o bom, mesmo que falhe, é sempre luz para alguém! Nesta aflição que me cansa, distante de teu amor, com timidez, a esperança tenta acalmar minha dor. Nunca, em tardes de sol-posto, eu me ponho esmorecida; rasgo o véu do meu desgosto e brindo ao sabor da vida! O luar flertando a areia, cai do céu feliz, por certo, enamorado vagueia, cobrindo em prata o deserto. O luar, olhando a areia, cai do céu, quase desmaia; em vigília ele vagueia cobrindo de prata a praia. O tempo não mede espaços, passa em corrida fatal, e o trovador, em seus passos, nunca passa, é um imortal. Passa a noite... raia a aurora... Só pensamento enfadonho; o teu desprezo se ancora na solidão do meu sonho. Recordam tempos passados, toda magia e ternura, nossos sonhos enlaçados no retrato na moldura. Se o seu horizonte brilha, não se esqueça do irmão pobre, veja que, na mesma trilha, passa o humilde e passa o nobre.
  19. 19. 20 Sob a névoa, sem ruído, juntei meu sonho aos pedaços: - no véu do tempo, esmaecido, senti-me presa em teus braços. Tive alegrias e penas, vi noites e amanhecer, fui palco de muitas cenas, na conquista do viver. Transformei em lindo adorno os ritos do meu sonhar... Andei, vaguei sem retorno, me acampei no teu olhar. Um manto em prata orvalhada acobertou com pudor, o nascer da madrugada no seio de nosso amor. Maria da Conceição Antunes Parreiras Abritta nasceu em Crucilândia/MG, em 19 de dezembro de 1941. Radicada em Belo Horizonte desde criança, formou-se em Magistério, Letras (Literatura Infantil), Canto Orfeônico e Literatura Infantil. Pertenceu à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Academia Feminina Mineira de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerias e União Brasileira de Trovadores (UBT)/Seção de Belo Horizonte. Foi Presidente eleita na UBT/Belo Horizonte, durante três biênios seguidos (seis anos). Presidente Emérita desta entidade. Presidente da Academia Feminina Mineira de Letras, por duas vezes; Vice-Presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, e Presidente de Honra da AFEMP (Associação Feminina do Ministério Público). Seu nome consta da "Enciclopédia de Literatura Brasileira" de Afrânio Coutinho e Galante de Sousa , "Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras" de Nelly Novaes Coelho, do "Dicionário de Mulheres " de Hilda Agnes Hübner Flores ,do "Dicionário Bibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos" de Adrião Neto e “Dicionário Bibliográfico de Escritores Mineiros” de Constância Lima Duarte. Possui muitas premiações literárias, inclusive o Prêmio "João Alphonsus" em 2000 , da Academia Mineira De Letras, pelo seu livro já publicado, de Contos, intitulado "Janela Dos Ventos". Faleceu em Belo Horizonte, em 29 de abril de 2015. Publicou doze livros de sua autoria: "De Braços Com A Saudade"- contos ; "Frasco de Cristal"- poemas; "A História de Crucilândia"- histórico-geográfico; "Janela Dos Ventos"- contos; "Canto Das Águas"- poemas; "Portal Das Rosas"- trovas; "O Baú Que Contava Histórias", infanto-juvenil; "História Sem Pé Nem Cabeça ou As Aventuras De Um Casaco Esquecido",infanto-juvenil; "O Urso Que Amava A Roça", infanto-juvenil; “O Rodeio”, infanto-juvenil; “Belo Horizonte, Nossa Capital”, infanto-juvenil; e, “Descortinando Alvoradas”, romance.
  20. 20. 21 Jean e La Fontaine A Cigarra e a Formiga Tendo a cigarra, em cantigas, Folgado todo o verão, Achou-se em penúria extrema, Na tormentosa estação. Não lhe restando migalha Que trincasse, a tagarela Foi valer-se da formiga, Que morava perto dela. – Amiga – diz a cigarra – Prometo, à fé de animal, Pagar-vos, antes de Agosto, Os juros e o principal. A formiga nunca empresta, Nunca dá; por isso, junta. – No verão, em que lidavas? – À pedinte, ela pergunta. Responde a outra: – Eu cantava Noite e dia, a toda a hora. – Oh! Bravo! – torna a formiga – Cantavas? Pois dança agora! Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695.
  21. 21. 22 Folclore Indígena Brasileiro Nação Taulipang Konewó e as Onças Konewó é um índio que parecia ter nascido para disputar com as bichanas. Certo dia, ele estava sentado, encostado a uma árvore, quando uma onça chegou e perguntou: – Por que está aí sentado, a escorar esta árvore? – Para que ela não caia – respondeu Konewó, secamente. – Todas as árvores estão por cair. Por que não faz o mesmo que eu com aquela outra árvore ali? A onça viu uma árvore que parecia prestes a ruir e achou que seria uma boa distração ficar escorando-a, pois não tinha nada melhor para fazer. Depois de encostar-se ao tronco, a onça fechou os olhos, sentindo-se vagamente virtuosa. “De vez em quando é bom ser útil”, pensou, vaidosa da sua virtude. Mas a virtude logo transformou-se em sono, e, quando a onça começou a roncar, Konewó ergueu-se e, ligeirinho, amarrou-a ao tronco com cordas trançadas de cipó. Konewó desapareceu, a reprimir o riso, e a onça só acordou algumas horas depois, completamente imobilizada. Os dias se passaram e ela já estava quase morta de fome quando um macaco surgiu. – O que faz aí, toda amarrada à árvore? – Fui amarrada, não está vendo? – rugiu a fera. – Vamos, solte-me já! – Ah, isso eu não faço, não! Se soltá-la, você me come! – Não comerei, dou-lhe minha palavra! O macaco não foi muito atrás da onça, e ela precisou insistir várias vezes para que ele finalmente se decidisse a arriscar o pelo. Com toda a cautela, ele desamarrou a onça, e só por isso escapou vivo. Atento, assim que viu a pata peluda eriçar as unhas na sua direção, deu um pulo para longe. O macaco desapareceu dentro da mata, enquanto a onça ficou maquinando a sua vingança contra o índio que a aprisionara. Depois de andar muito, farejando o rastro de Konewó, ela finalmente encontrou o seu desafeto, desta vez escorado numa rocha. – Ah! Aí está você! – disse ela, pulando à frente do índio. – Desta vez você me paga! Konewó olhou serenamente para a onça.
  22. 22. 23 – O que quer? – disse ele, friamente. – Vingança! Ao observar, porém, a calma do índio, a onça não pôde deixar de perguntar-lhe: – Ei! O que faz escorado aí nesse pedregulho? – Estou impedindo que ele caia. Todos os rochedos estão por cair. Konewó, então, olhou para o lado e apontou outro rochedo dez vezes maior. – Se você fosse uma onça realmente útil, faria como eu, impedindo que aquele rochedo caia. Uma espécie de nuvem estúpida desceu sobre a mente da onça, obrigando-a a ir tomar o seu lugar, mas assim que ela o fez, o índio ergueu-se. – Espere aí, sabichão, onde pensa que vai? – gritou ela. – Tive uma excelente ideia para poupar-me trabalho. Vou procurar um tronco para fazer uma escora e assim livrar-me de ficar o resto da vida escorando a minha pedra. A onça sentiu o pedregulho chacoalhar às suas costas e deu um grito: –Traga uma escora para mim também! Konewó sumiu e nunca mais apareceu com escora alguma. Quanto à onça, das duas uma: ou está lá até hoje, escorando o pedregulho, ou terminou sepultada viva pelo desabamento.  Certo dia, ele estava sentado à beira de um rio de águas profundas quando uma onça surgiu por detrás. – Que faz aí, bobão? – disse a onça, mais curiosa do que esfomeada. – Estou pensando em mergulhar no rio para apanhar aquele bolo de tapioca que está lá no fundo. Konewó apontou para o reflexo da lua sobre a água. – Então vá – disse a onça, desconfiada. – Quero ver se consegue apanhá-lo! Konewó tinha escondido debaixo da tanga um pedaço de bolo e mergulhou para logo em seguida retornar. – Ah, aqui está! – disse ele, dando uma dentada no bolo. A onça lambeu os beiços, mas o índio enfiou ligeiro o resto na boca. – Por que não trouxe o bolo inteiro? – disse a onça, frustrada. – Acontece que sou muito leve – respondeu o índio. – Por que você, que é mais pesada, não desce e traz o restante do bolo? A onça estava tão ávida por provar aquela delícia que aceitou na hora o desafio. – Amarre esta pedra ao pescoço – disse o índio. – Ela a ajudará a descer mais rápido, pois há muita correnteza nestas águas. A onça aceitou, e depois de ter o pedregulho bem amarrado ao pescoço, mergulhou. Quando chegou ao fundo do rio, porém, constatou que não havia bolo
  23. 23. 24 algum por ali. Olhou para cima e viu que o bolo – ou a lua – agora estava boiando na superfície. E essa foi a última coisa que a desgraçada viu antes de morrer afogada.  Mais uma com onça. Konewó ia andando na mata quando viu uma trilha de antas. No mesmo instante, uma onça surgiu. – O que espia aí? – perguntou a bichana. – Não está vendo? – respondeu o índio. – É o rastro de uma anta gorda. A onça lambeu-se três vezes antes de voltar a falar. – Acha que está longe? – Que nada! Veja, o rastro ainda está fresco! – Então deixe comigo! – disse a onça, preparando-se para uma boa corrida. – Não, espere, tenho um plano melhor – disse Konewó. – Está vendo aquele morro elevado e coberto de vegetação? Foi por lá que ela se escondeu. Eu vou atrás dela, e você fica aqui embaixo. Vou assustá-la e encaminhá-la bem na direção da sua boca. A onça adorou a ideia e foi colocar-se na base do morro, enquanto o índio o escalava. Ao chegar ao topo, Konewó encontrou um pedregulho enorme e rolou-o até o começo da descida. – Aí vai a anta! – gritou o índio. Ao escutar o ruído de algo pesado descendo, a onça firmou-se nas pernas. – Que anta enorme deve ser! – disse ela, lambendo os bigodes. De repente, porém, surgiu do matagal inclinado o pedregulho enorme, a rolar furiosamente, e passou por cima da onça, deixando-a esmigalhada e fininha como um tapete. E esse foi o fim de mais uma onça.  Uma última. Konewó estava sentado em um galho elevado de uma enorme árvore. Ele havia encontrado uma colmeia e estava se deliciando com o mel quando uma onça chegou e perguntou: – Que faz aí? – Estou saboreando esta delícia – disse Konewó, lambendo os dedos dourados de mel. – Também quero! – disse a onça, apaixonada por mel. – Então, façamos o seguinte: eu desço e corto a árvore. Quando ela cair, você apara a colmeia nos braços e fica o resto do dia se deliciando. A onça topou e ficou aguardando enquanto o índio metia o machado na árvore. Quando a árvore finalmente começou a inclinar- se, a onça fez menção de sair correndo. – Idiota, fique no lugar! – berrou Konewó. – Apare a colmeia, senão ela vai se estraçalhar. A onça se encheu de coragem e esticou os braços na direção da colmeia. Só que atrás dela vinha a árvore inteira, e foi assim que a pobre felina viu-se esmagada e coberta de picadas de abelhas. Fonte: Franchini, Ademilson S. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto Alegre/RS: L&PM, 2011.
  24. 24. 25 Tatiana Belinky Viola no Saco História do Folclore Paulista Recontada Vocês sabem por que quando alguém perde uma discussão, ou coisa assim, e tem de se calar, se diz que “fulano meteu a viola no saco”? Pois eu vou contar. Há muito tempo, quando os bichos falavam e muitas coisas eram diferentes, havia muita festança no mundo. Um dia houve uma festa no céu e todos os bichos foram convidados. Entre eles, um dos mais esperados era o Urubu, porque as danças dependiam das músicas que ele tocava na viola. No dia da festa, o Urubu enfiou sua viola no saco e, antes de iniciar a viagem, foi beber água na lagoa. Lá encontrou o Sapo Cururu, que se secava ao sol. Enquanto o Urubu bebia, o espertalhão do Cururu, que também queria ir à festa, se escondeu dentro da viola para viajar de carona. Quando o Urubu chegou ao céu, foi muito bem recebido, pois todos esperavam por ele para começar a dançar o cateretê e a quadrilha. Mas antes o chamaram para beber umas e outras. O Urubu foi, deixando a viola encostada num canto. O Cururu aproveitou para pular da viola sem ser visto e foi se empanturrar com os quitutes da festa. O Urubu também comeu e bebeu até não poder mais e não viu que o Cururu, aproveitando uma distração sua, se escondera de novo dentro da viola para tornar a tirar uma carona na volta para a terra. Quando chegou a hora de voltar, o Urubu guardou a viola no saco e saiu voando de volta para casa. Durante o vôo, estranhou que a viola estivesse tão pesada. “Na vinda foi fácil, mas na volta está difícil. Será que fiquei fraco de tanto comer e beber?”, pensou ele. Por via das dúvidas, examinou o saco com a viola e acabou descobrindo o malandro do Sapo Cururu agachado lá dentro. Furioso por ser usado desse jeito, o Urubu começou a sacudir o saco com a viola, para despejar o Cururu lá do alto e se ver livre dele. O Cururu, com medo de se esborrachar no chão pedregoso lá em baixo, recorreu à sua proverbial esperteza e começou a gritar: “Urubu, Urubu, me jogue sobre uma pedra, não me jogue na água, que eu morro afogado!”. O Urubu, tolo, querendo se vingar do Sapo, viu lá de cima uma lagoa e tratou logo de despejar o Sapo dentro d’água, que era pra ele se afogar. O espertalhão do Cururu, que só queria era isso mesmo, saiu nadando, feliz da vida. O bobão do Urubu só não ficou
  25. 25. 26 “a ver navios” porque não havia navios naquela lagoa. E é por isso que, quando alguém perde a partida e tem de sair quieto e calado, dizem que “fulano teve de meter a viola no saco”… Fonte: Revista Nova Escola: Contos Imagem: Rogério Borges Tatiana Belinky A Lebre na Lua Lenda Indiana Recontada Segundo alguns povos do Oriente, as manchas que aparecem na face da lua cheia se assemelham à figura de uma lebre. E diz a lenda que isto aconteceu assim… Há muitos milênios, viviam, à margem do rio Ganges, quatro bichos diferentes que eram amigos e companheiros: um macaco, uma lontra, um pequeno chacal e uma lebre, a mais virtuosa dos quatro. Um dia ela reuniu os amigos e lhes disse: “Amanhã será lua cheia, o dia que nós reservamos para meditar e fazer jejum. Não precisamos, pois, de comida, mas sugiro que cada um de nós saia à procura de alimentos necessários para dar de esmola caso alguém nos venha pedir”. Os bichos concordaram e cada um foi se recolher para passar a noite, e no dia seguinte sair em busca de comida. O chacal subtraiu o almoço de um pastor distraído, que era uma gamela de coalhada com arroz. O macaco tirou algumas mangas maduras de uma mangueira próxima. A lontra apanhou alguns peixinhos esquecidos por um pescador. E a lebre, que passara a noite em profunda meditação, pensou consigo mesma: “Não vou preparar nada. Se algum necessitado vier pedir comida, darei meu próprio corpo para ele se alimentar”. Essa ideia tão generosa chamou a atenção dos mundos superiores, e um dos espíritos, o deus Sekra, decidiu descer até a terra, encarnado no corpo de um brâmane, para conferir em pessoa as dádivas dos quatro amigos animais. Primeiro, ele apresentou-se à lontra: “Minha filha lontra, estou com fome, desde ontem não como nada. Será que você poderia ceder-me algum alimento? Em troca, eu lhe darei as minhas bênçãos.” A lontra entregou-lhe os peixinhos, e ele agradeceu, dizendo que voltaria logo mais para buscá- los. E foi falar com o pequeno chacal: “Amigo chacal, você não teria algum alimento para dar a um pobre faminto?” O chacal ofereceu-lhe a coalhada com arroz,
  26. 26. 27 e o brâmane agradeceu e disse que voltaria logo para buscar a comida. Então, foi procurar o macaco pendurado pelo rabo num galho de árvore e fez o mesmo pedido. O macaco ofereceu-lhe as mangas maduras. O brâmane agradeceu, dizendo que voltaria logo para buscá-las. Por último, o deus Sakra disfarçado em brâmane foi procurar a lebre que continuava a meditar à beira da sua toca, e tornou a fazer a mesma pergunta, à qual a lebre respondeu: “Meu santo homem, vou oferecer- lhe um lauto almoço. É um pedaço de carne fresca, que você só terá de assar numa pequena fogueira. Prepare o braseiro. Quando o fogo estiver alto, eu trarei a carne para o seu almoço.” O brâmane juntou alguns gravetos, acendeu uma alegre fogueira ao lado da toca da lebre e perguntou então qual seria a carne que lhe serviria de almoço. “É o meu corpo”, respondeu a lebre, e no mesmo instante pulou para o meio do fogo. Mas o fogo ardia e não queimava a lebre, que até reclamou: “Ó santo homem, o seu fogo não queima. Você vai ter de aumentá-lo, pois do jeito que está, chego a sentir frio”. Em vez de responder, o brâmane desapareceu e no seu lugar surgiu um belíssimo e luminoso jovem, que se apresentou como o deus Sakra encarnado e disse: “Um ato tão nobre e generoso como este tem de ficar para sempre na memória dos homens.” E, crescendo desmesuradamente, ele arrancou com a mão o cume de uma montanha próxima, amassou-o dentro do punho, e com essa massa lambuzou a face da lua cheia que acabava de surgir no céu, formando uma figura na forma de lebre. Esta figura apareceria aos homens a cada lua cheia para lembrar-lhes a bela ação daquela pequena lebre, que mostrou que quem dá uma esmola deve dá-la de todo o coração, dando tudo, e às vezes até o próprio corpo. Fonte: Revista Nova Escola: Contos. “Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro de mim continua vivinha a criança que fui e isto me permite estar em sintonia com crianças e jovens, com quem procuro repartir minhas curtições de ontem e de hoje. Meu prêmio maior é saber que meus livros irão para as mãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se emocionarem, ou ficarem pensativas, eu ficarei feliz”. Tatiana Belinky é uma das mais importantes escritoras infanto-juvenis contemporâneas. Embora russa, está radicada no Brasil há quase oitenta anos. Nasceu em São Petersburgo (Rússia) no dia 18 de março de 1919, mudando-se para Riga aos dois anos de idade. Seu pai, Aron, era comerciante e a mãe, Rosa, cirurgiã-dentista. A menina Tatiana aprendeu a ler no idioma materno, o russo. Aos dez anos de idade, fugindo das guerras civis que assolavam a então União Soviética, Tatiana já falava russo, alemão e letão. Devido à perseguição aos judeus na Rússia Soviética, a família Belinky, que era judia, resolveu se mudar para o Brasil, chegando a São Paulo em 1929. Aos dezoito anos, após concluir um curso preparatório, começou a trabalhar como secretária-correspondente bilíngüe, nos idiomas português e inglês. Aos vinte (1939) ingressou no curso de Filosofia da Faculdade São Bento, mas abandonou-o em 1940, quando casou-se com o médico e educador Júlio Gouveia.
  27. 27. 28 De 1948 a 1951, criou com o marido várias adaptações de histórias infantis para teatro. Nessas encenações, Tatiana fazia o roteiro e o marido, a direção. As peças eram encenadas em teatros da Prefeitura de São Paulo, com recursos da prefeitura. Em 1952, o casal encenou sua bem-sucedida adaptação “Os três ursos” na extinta TV Tupi. Com o sucesso da encenação na televisão, a Tupi convidou o casal a elaborar o programa “Fábulas Animadas”, preenchendo uma lacuna da programação da época para o público infanto-juvenil. A primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, estreou em 1952, e a direção coube a Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Foram 300 episódios, mas infelizmente não ficou nada registrado pois o programa era feito ao vivo. A primeira adaptação ocorreu no Teatro Escola de São Paulo – TESP – um teleteatro dirigido ao público infantil, criado em 1948 por Tatiana e Júlio Gouveia. “A Pílula Falante”, um dos capítulos do livro “Reinações de Narizinho”, foi a história escolhida para ser exibida ao vivo na Tupi. O sucesso alcançado por esta única apresentação levou a emissora a produzir a primeira série de televisão do “Sítio do Picapau Amarelo”. Torna-se presidente da CET (Comissão Estadual de Teatro de São Paulo). Paralelamente à atividade como roteirista de teatro e televisão, Tatiana Belinky deu início, em 1952, à atividade como tradutora literária, iniciada com suas adaptações de peças de teatro infantis e contos russos. Traduziu mais de 80 livros do russo, alemão, inglês e francês. Entre os textos que traduziu e adaptou estão obras de autores como Dostoiévski, Tolstói, Gorki, Gogol, Turgueniev, Goethe, Brecht, Irmãos Grimm e Lewis Carroll. Sua especialidade sempre foi a literatura infantil russa, ajudando a divulgar a cultura russa entre crianças e adolescentes. Também atuou, a partir de 1972, como crítica de literatura infanto-juvenil e de teatro, como colaboradora dos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde e da TV Cultura. Finalmente, em 1985, Tatiana Belinky desponta como escritora de livros, colaborando em uma série infanto-juvenil. Seu primeiro livro de poesia infantil, “Limeriques das Coisas Boas”, foi publicado em 1987. Os poemas do livro, que brincam com cacófatos e exploram a riqueza verbal da língua portuguesa, inspiram-se nos “limerick”, poemas de origem irlandesa de apenas cinco versos, cuja característica é o non-sense e o bom-humor. A partir desta publicação, Tatiana passa a trabalhar fervorosamente sobre novas criações, chegando a escrever mais de cem obras. Suas publicações são acompanhadas por vários prêmios literários, entre eles o célebre Prêmio Jabuti, recebido em 1989. Tatiana Belinky é autora premiada em literatura e teatro. Recebeu o Prêmio Mérito Educacional em 1979, e o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1989, entre outras premiações. Faleceu em São Paulo/SP, em 15 de junho de 2013. Fontes: wikipedia Fidus Interpress http://fidusinterpres.com/?p=523 http://contoscantoseencantos.blogspot.com/2009/03/dica-de-leitura-especial-tatiana.html http://lendoesonhando.blogger.com.br/2004_10_01_archive.html
  28. 28. 29 Deonísio da Silva Expressões e Suas Origens Parte VIII O amor é mais forte do que a morte Esta frase é de autoria de Salomão, célebre rei dos hebreus e filho de outro rei famoso, Davi, de quem se tornou sucessor. Sua sabedoria passou à História como digna de ser seguida. Teve muito mais mulheres do que seu pai, mas não mandou o marido de nenhuma delas para a frente das batalhas para ficar com a mulher do próximo. Foi ele quem construiu o templo de Jerusalém e escreveu três dos livros bíblicos: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, onde encontramos frases deslumbrantes como esta, em português chamadas de versículos por uma convenção aplicada aos textos bíblicos. Não se pode contestar a experiência amorosa deste rei-escritor, senão qualitativa, quantitativa, pois que amou a mais de mil mulheres. O amor é uma enxaqueca universal A frase é do poeta, romancista e ensaísta inglês Robert von Ranke Graves (1895-1985), autor de mais de 120 livros, que incluem pesquisas reveladoras de importante religião baseada na figura de uma deusa branca, cuja adoração teria existido ainda no cristianismo. Outros livros seus muito conhecidos são uma autobiografia sobre sua participação na primeira guerra mundial, em que foi gravemente ferido, e o romance Eu, Cláudio, narrado pelo famoso imperador romano, que tão pouco amou. Seus sofrimentos não o impediram de escrever notáveis livros de poemas, tratando de sentimentos profundos, vividos num século que fez mais a guerra – duas mundiais – do que amor. O amor é uma loucura Esta frase é atribuída ao extraordinário poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), cujos versos estão cheios de melancolia. Apesar, porém, da tristeza de sua poesia, Heine tinha muito humor em seus textos de prosa, entre os quais estão narrativas de viagem e o romance O rabino de Bacherach. Adorava a mulher
  29. 29. 30 que desposou, Eugênia, mas comentando a marcha nupcial dos casamentos, comparou-a à música dos soldados que vão à guerra. Crítico com o próprio país, dizia que as únicas boas coisas da Alemanha eram as salsichas e a cerveja. De ascendência judaica, de família de banqueiros, converteu-se ao cristianismo “para não ter que encontrar-se com os parentes judeus no outro mundo”. O amor que não ousa a dizer seu nome Identificando a homossexualidade, esta frase, muito citada, é um verso do poema “Dois amores”, de autoria do lorde inglês Alfred Douglas (1870-1945), escritor de reconhecidos méritos que influenciou até mesmo o francês André Gide (1869-1951), prêmio Nobel de literatura em 1947. O lorde foi um dos muitos jovens aristocratas britânicos a ter caso com o escritor inglês Oscar Wilde (1854-1900). Entretanto, quando se tratou de punir as práticas homossexuais de todos ele, o autor de O retrato de Dorian Gray e A alma do homem sob o socialismo, foi o único a ser condenado à prisão pelo amor que não ousava dizer seu nome, já que seus amados também não ousaram declarar-se. O cinema não tem futuro comercial Esta frase é de autoria de Auguste Lumière (1862- 1954) que, juntamente com o irmão, Louis Lumière (1864-1948), é tido como um dos inventores do cinema. Ele a teria pronunciado por ocasião da primeira projeção de um filme, ainda mudo, ocorrida em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895. Os industriais inventores estavam enganados. O cinema tomou conta do mundo e hoje movimenta verdadeiras fortunas, a ponto de um filme apenas, O parque dos dinossauros, ter arrecadado um bilhão de dólares. Também os investimentos comerciais foram aumentando, e Waterworld, produzido em 1995, custou 150 milhões de dólares. O coração tem razões que a razão desconhece A história desta frase não poderia Ter origem mais paradoxal, pois foi proferida e escrita por um personagem que deu grande valor à ciência, o célebre matemático, físico, filósofo e escritor francês Blaise Pascal (1623-1662). Aos 16 anos já tinha escrito um ensaio científico e aos 18 inventou uma máquina de calcular, base de nossos atuais computadores. Depois que sua irmã Jacqueline entrou para um convento, Pascal retirou-se para a célebre localidade de Port- Royal-des-Champs, que deu nome a uma escola de língua francesa, escreveu sempre em estilo irrepreensível. A frase dá grande valor à intuição. O escritor é irmão de Caim e primo distante de Abel Esta frase, inspirada na história bíblica de Caim – filho mais velho de Adão e Eva, que matou o irmão Abel -, é o penúltimo haicai da série de 123 que constam de um folheto distribuído a algumas pessoas em 1993 pelo escritor curitibano Dalton Trevisan e posteriormente reunidos em livro publicado pela Editora Record com o título de Ah, é? Conciso, lacônico, avesso a entrevista, o ficcionista de reconhecido talento tem espelhado essa
  30. 30. 31 concepção amarga da literatura nos seus mais de 20 livros publicados, que lhe valeram prêmios e traduções para diversas línguas. O estado sou eu Esta frase é sempre citada como exemplo de personalismo de reis e presidentes. Foi pronunciada pela primeira vez por Luís XIV (1638-1715), rei da França, no dia 13 de abril de 1655, aos 17 anos, ao entrar no parlamento em trajes de caça. Advertido pelo presidente da Casa, respondeu: L’État c’est moi! (o Estado sou eu!). Voltou a pronunciá-la sempre que era contrariado por seus ministros e ainda mandou inseri- la num curso de Direito Público, feito especialmente para um de seus duques, acrescentando: “na França, a nação reside toda na pessoa do rei”. O tempo mostrou o quanto o rei estava enganado. Na Revolução Francesa, não foi a França quem perdeu a cabeça. O homem põe, mas deus dispõe Esta frase, tão citada como provérbio, deve sua fama ao enorme sucesso do livro A imitação de Cristo, um best-seller que está na lista dos mais vendidos e, neste caso, também dos mais lidos, há vários séculos. Publicado pela primeira vez em 1441 e só perdendo em traduções para a Bíblia, é de autoria do escritor e asceta alemão Tomás de Kempis, que viveu no século XV. A frase significa que, por mais que o homem planeje meticulosamente sua vida, algo de imponderável pode acontecer e deve ser creditado à intervenção divina. Com o passar dos anos outras variações foram surgindo e uma das mais comuns, no Brasil, é Deus não joga, mas fiscaliza. Olho por olho, dente por dente Esta frase, que consagra a vingança do preceito jurídico, está inscrita num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792-175 a.C.), o criador do império Babilônico. Em 1901, arqueólogos franceses descobriram, em território hoje pertencente ao Irã, uma estrela cilíndrica de diorito onde está gravado este célebre conjunto de leis, um dos mais antigos que se tem notícia. Baseado na lei de talião, presente também num dos livros da Bíblia, o Levítico, prescreve para o transgressor pena igual ao crime que praticou. Ainda é aplicado em várias sociedades do Oriente. O pior cego é o que não quer ver Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver. O poder é o afrodisíaco mais forte do mundo O Prêmio Nobel da Paz de 1973, Henry Alfred Kissinger (73), surpreendeu os jornalistas com esta frase que
  31. 31. 32 ficaria famosa, proferida em entrevista coletiva que tinha como assunto principal as negociações que levariam ao fim da guerra do Vietnã, nos anos 70. Responsável também pelo cessar-fogo de uma das muitas guerras travadas entre árabes e israelenses, Kissinger foi o secretário de Estado de 1973 a 1977 e um dos primeiros idealizadores das aproximações políticas dos Estados Unidos com a ex-União Soviética e a China. Atuando como um dos homens mais poderosos do mundo numa época marcada pela geração que proclamava ser melhor fazer o amor do que a guerra, apresentou, com esta frase, um outro mirante de desejo. O povo quer pão e circo Segundo uma das sátiras do escritor latino Décimo Júnio Juvenal (60-140), a plebe romana só queria saber de pão e circo, sendo esta uma das razões do declínio do Império. Vários imperadores providenciaram o cumprimento desta máxima, entre os quais Lúcio Vero (130-169), que partilhava com o povo o gosto pelos esportes, principalmente os espetáculos de gladiadores, bem antes das perseguições que levaram os cristãos à maior arena do Ocidente para serem comidos por leões. A frase, retomada por autores de diversas épocas e países, consolidou-se como sinônimo de uma certa preguiça universal. Mas certamente este não é um ponto de vista popular, já que quem mais come, bebe e se diverte é a classe social privilegiada, tanto no capitalismo como no socialismo, haja vista a famosa nomenclatura soviética. Ordem e progresso Esta frase, lema inscrito em nossa bandeira, é de autoria de Benjamim Constant, cujo nome completo é Benjamim Constant Botelho de Magalhães (1836- 1891), militar e político brasileiro, um dos fundadores da República. Foi ele quem, inspirado nas idéias do fundador da sociologia, o positivista francês Auguste Comte (1798-1857), orientou o desenho da bandeira nacional. Engenheiro de formação e defensor da premissa de que a ordem é indispensável ao progresso, lutou na Guerra do Paraguai, onde foi o responsável pelas fortificações de Tuiuti. Foi ministro da Guerra do governo provisório e mais tarde da Instrução, onde travou sua melhor guerra, realizando uma reforma educacional de excelentes resultados em instituições que se tornaram famosas pela qualidade de ensino, como o Colégio Pedro II e a Escola Normal, ambos no Rio. O real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia Eis uma frase que poderia ser inscrita na nova moeda brasileira, o real. É da autoria do grande escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967). Foi profecia pelo jagunço letrado Riobaldo no célebre Grande Sertão: veredas, publicado pela primeira vez em 1956 e levado à televisão com Bruna Lombardi no papel, misterioso e repleto de sutis complexidades, de
  32. 32. 33 Diadorim. Guimarães Rosa recomendava a quem já tinha lido o livro que não revelasse o grande segredo do romance, envolvendo Riobaldo e Diadorim, porque, como sugere a frase, no desfecho do romance é que os leitores entendem melhor algumas de suas passagem mais memoráveis. O rei reina, mas não governa Esta frase e seu sentido estão muito bem estudados numa obra clássica do ensaísta brasileiro Raymundo Faoro (71), Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, que recebeu no ano de seu lançamento o prestigioso Prêmio José Veríssimo de Ensaio e Crítica da Academia Brasileira de Letras. A frase sintetiza a base das monarquias constitucionais. Válida para as outras cortes, no caso da portuguesa não poderia ser empregada, pois o rei reinava e governava, sendo chefe político, religioso e militar. Acima do rei e seu poder incontestável, estava apenas o papa. O papa, e não o clero. Um dos primeiros a proclamar esta frase foi o célebre político, historiador e depois presidente francês Adolphe Thiers (1797-1877). Os acionistas são ovelhas ou tigres Esta frase é de autoria do lendário banqueiro israelense Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), fundador da casa de crédito que levaria seu nome. A família obteve muita fortuna com suas operações, especialmente com o financiamento de várias guerras européias. No final do século XIX, os Rothschild lideravam o ranking dos bancos, mas depois outras casas de créditos os superaram. A família distinguiu-se também na política, tendo vários membros barões do então poderoso império austríaco, além de um descendente deles ter sido o primeiro judeu a entrar para o parlamento britânico. A frase indica o comportamento dos acionistas diante de operações que dão lucro ou prejuízo. Os aduladores são os piores inimigos A cada nova mudança no governo, surgem, inevitáveis, os aduladores, que se comprazem em lisonjear com o fim de obter recompensas que de outro modo não alcançariam, dada a ausência de méritos. Em todas as sociedades, os favores prestados a aduladores demonstraram ser perigosos àqueles que os concederam, beneficiando apenas aos puxa-sacos, que é como a linguagem popular, sem nenhum eufemismo, os denominou. A frase é do historiador latino Públio Cornélio Tácito (55-120), alertando as autoridades romanas contra esta praga universal. O mesmo pensamento foi expresso em outras palavras na Bíblia em textos de doutores de Igreja. O senhor combinou com os adversários? Esta frase lendária entrou para o folclore do futebol como tendo sido dita por Garrincha (1933-1983) após ouvir a preleção do técnico Vicente Feola (1909-1975) sobre o esquema de jogo contra a então União Soviética na Copa de 1958. Garrincha, tido por simplório, mas um dos maiores jogadores de todos os tempos, fez uma pergunta que, por sua lógica absurda,
  33. 33. 34 desconcertou a todos. Segundo ele, do modo como o técnico explicava, para o esquema dar certo era indispensável a ajuda dos adversários. No primeiro minuto de jogo, Garrincha esqueceu os planos, driblou meio mundo e chutou na trave. Diante do carnaval que fez, a derrota por 2 a 0 saiu barata a URSS. O ser humano não pode suportar muita realidade A imprensa caracteriza-se por extremado realismo, tanto em jornais e revistas como no rádio e na televisão, como fez a literatura do século passado e até meados deste século. Entretanto, todas as pessoas têm necessidade de fantasia e para tanto a indústria cultural tem-se esforçado para atender a este anseio. A sétima arte, como é chamado o cinema, tem sido, entre todas as manifestações artísticas, a que mais se preocupou em fornecer fantasia ao público, com o intuito de atenuar a realidade, cada fez mais dura, da vida cotidiana. Em outros tempos este propósito teria sido acusado de alienante, mas os tempos modernos deram razão a esta famosa frase do escritor anglo- americano Thomas Stearns Eliot, mais conhecido como T.S. Eliot (1888-1965). O sertanejo é, antes de tudo, um forte Esta frase, uma das mais repetidas da vida nacional, foi escrita pela primeira vez em O Estado de S. Paulo pelo engenheiro civil, professor de lógica e jornalista, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, que se tornaria escritor famoso justamente com as reportagens onde está esta frase, depois reunidas em livro sob o título de Os sertões, em 1902. Cobrindo a campanha de Canudos, o escritor captou e expressou com argúcia o sertão, o povo e sua famosa trágica luta. Soube ver a força dos fracos, escondida em aparências que indicavam, ao primeiro olhar, o cansaço e a fraqueza do sertanejo, que ele chamou de “Hércules- Quasímodo”, desgracioso, desengonçado, torto. Mas, antes de tudo, um forte. Os fins justificam os meios A idéia de que não importam que os meios sejam ilícitos quando os fins são nobres consolidou-se nesta frase, atribuída, entre outros, aos jesuítas e aos autores italianos Niccolò Machiavelli (1469-1527) e Francesco Guicciardini (1483-1540), dois filósofos que se preocuparam com o poder e a ética dos governantes, o último dos quais é autor das célebres Ricordi – em italiano, advertências, conselhos – somente agora traduzidas para o português com o título de Reflexões, mais de acordo com os temas do livro. O silêncio é de ouro Esta frase já estava na boca de muitos povos quando o cineasta René Clair (1898-1981) a utilizou literalmente, no original francês, como título de um filme, Le silence est d’or, cujo tema é o cinema antigo, quando o som não era ainda utilizado. A aquisição da linguagem é etapa decisiva do desenvolvimento humano. Porém, tendo aprendido a falar, o homem precisa aprender também a calar, daí a razão da sabedoria desta frase, presente em muitas outras línguas, algumas dos quais
  34. 34. 35 acrescentam que a palavra é de prata. Saber calar e cultivar a discrição são recomendações tão antigas que já estão presentes também em famoso livro da Bíblia, o Eclesiastes. No Brasil, a variante popular é “em boca fechada não entra mosca”. Os negócios são o dinheiro dos outros Esta frase, tornada proverbial, aparece em A questão do dinheiro, comédia do escritor francês Alexandre Dumas Filho (1824-1895), também autor de A dama das camélias. É pronunciada na cena sete do segundo ato. A frase desagradou um importante banqueiro francês, que atacou o autor pelos jornais. O teatrólogo respondeu com ironia, também pela imprensa: “Quando quiser uma peça honesta, pedirei seus conselhos; quando você fizer uma operação bancária honesta, pedirei ações”. Filho natural de Alexandre Dumas (1802-1870), suas obras obtiveram grande sucesso de público, mas algumas foram proibidas várias vezes. As do banqueiro, não. O viaduto é a menor distância entre dois engarrafamentos Frase do ex-prefeito de Curitiba e governador do Paraná, Jaime Lerner (59), já famosa, mas que se tornou ainda mais célebre depois de proferida na Conferência Internacional do Meio Ambiente, denominada Hábitat 2, realizada em junho de 1996, em Istambul, principal cidade da Turquia. O autor da frase imprimiu à cidade de que foi prefeito por muitos anos um projeto urbanístico marcado por eficiente rede viária para os transportes públicos, tornando-a cidade- modelo no mundo, segundo critérios adotados pela UNESCO. Para substituir os viadutos, evitados pelo governador, são feitas propostas alternativas de trânsito, como as vias expressas e o ônibus conhecido como Ligeirinho, a grande vedete daquele evento internacional. Fonte: SILVA, Deonísio da. Expressões e suas origens. Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras".
  35. 35. 36 Conto do Moçambique O Coelho e a Hiena O coelho e a hiena eram amigos. Um dia, a hiena que estava a passear sozinha, passou por uma povoação e viu algumas raparigas a pilar. Entre elas havia uma muito bonita e que se chamava Chipha Dzuwa. A hiena disse: “És muito bonita, casa comigo”. A rapariga respondeu: “Primeiro tens de falar com os meus pais, traz o teu padrinho. E caso contigo”. Entretanto, o coelho, que pouco depois passou pela mesma povoação, apaixonou-se pela mesma rapariga. “Casa comigo”, disse-lhe o coelho. “Não posso, já dei a minha palavra à hiena. Ele vem apresentar-se aos meus pais”, respondeu a rapariga. O coelho começou a soltar grandes gritos e a rebolar-se no chão. Riu e zombou da rapariga: “Não compreendo nada. Então tu, tão bonita que és, casas com um qualquer? Não sabes que a hiena é meu serviçal e serve-me de cavalo quando entendo?” “Não acredito, apresenta-me provas”, pediu a rapariga, humilhada e espantada. Quando o coelho se encontrou com a hiena, nada disse. Esta, porém, estava feliz e pediu ao amigo para ser seu padrinho no dia da apresentação aos pais. O coelho fingiu: “Não sei, amigo, é que não ando lá muito bem. Além disso, piquei-me num pé e não consigo caminhar longas distâncias”. A hiena ofereceu-se logo cheia de boa vontade: “Não faz mal, eu carrego-te às costas. O que eu quero é que vás apresentar-te aos pais da Chipha Dzuwa”. Mas o coelho insistiu: “Tu andas muito depressa, tenho receio que me deixes cair. Só se permitires que eu ate uma corda ao teu pescoço”. A hiena estava por tudo naquele momento. Aceitou. No dia combinado, lá foram os dois, o coelho no dorso do amigo e com as mãos na corda. Quando chegaram à povoação, o coelho começou a fazer manobras como se estivesse montado num cavalo e logo que viu a rapariga, começou a gritar: “Corre depressa, aí está a nossa amiga”. A hiena, que não tinha percebido ainda o que o coelho estava a fazer, correu mesmo. Ao chegarem ao pé da rapariga, o coelho saltou para o chão e disse-lhe: “Estás a ver como eu tinha razão? A hiena é ou não o meu servidor fiel?” Esta apercebeu-se então do que estava a passar-
  36. 36. 37 se e ficou de tal maneira envergonhada que fugiu para bem longe. E o coelho casou com Chipha Dzuwa. Fonte: Lourenço Joaquim da Costa Rosário. Contos moçambicanos do vale do Zambeze. Moçambique: Editora Texto/Leya, 2001. A Obra Poética de T. S. Elliot A obra poética de T. S. Eliot não é de fácil compreensão. Alguns comentadores chegam a afirmar que foi um "poeta para literatos". Tal juízo, no entanto, não nos parece o mais correto. O autor de "A Terra Desolada" apenas não estava disposto a fazer concessões a certo tipo de leitor, que buscava na poesia um meio de entretenimento ou mesmo uma espécie de lenitivo; tinha a convicção de que deveríamos optar pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição. Como Kafka, acreditava que precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos magoem profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. Para Eliot, a poesia deveria ser um meio de despertar a consciência de uma sociedade que se contentava com os prazeres efêmeros de uma rotina medíocre. Daí a sua aversão à bem-comportada poesia de salão, poesia tão ao gosto das madames do “five clock tea." A crítica tende a considerar a "Canção de amor de J. Alfred Prufrock", "Os Homens Ocos", "A terra desolada "e os "Quatro Quartetos "como as obras máximas de T. S. Eliot. Poemas como "Gerontion "e "Quarta-feira de cinzas", embora bem realizados, não atingem o nível estético nem a densidade filosófica dos quatro poemas acima elencados. The Love Song of J. Alfred Prufrock (1915) Em 1915 Ezra Pound, editor da revista “Poetry”, recomendou a Harriet Monroe, fundadora da revista, que ela publicasse “The Love Song of J. Alfred Prufrock”. Embora Prufrock parecesse tratar-se de um homem na meia idade, Eliot escreveu a maior parte do poema quando tinha apenas 22 anos. Os seus hoje
  37. 37. 38 famosos primeiros versos, que comparam o céu ao entardecer com “a patient etherised upon a table” (algo como “um paciente anestesiado sobre a mesa.”) foram considerados chocantes e ofensivos, ainda mais numa época na qual a poesia Georgiana imperava, com suas derivações românticas do século XIX. O poema retrata uma experiência consciente de um homem, Prufrock, sob a forma de um “stream of consciousness” (figura de linguagem típica do modernismo, que consiste em mostrar por escrito o monólogo interior de um personagem). Prufrock lamenta sua inércia física e intelectual, as oportunidades que perdeu ao longo de sua vida e a falta de um progresso espiritual, recorrente de amor carnal que não conseguira atingir. Os estudiosos não sabem dizer se o narrador sai de sua casa ao longo da narração, pois as localidades descritas podem ser interpretadas tanto como experiências reais, lembranças, ou mesmo imagens simbólicas do subconsciente, como por exemplo no refrão “In the room woman come and go / talking about Miguel Angelo“. A estrutura do poema foi imensamente influenciada por Dante Alighieri. Há ainda referências a Hamlet de Shakespeare e outras tantas obras literárias: essa técnica de alusão e citação foi muito usada em toda poesia posteriormente escrita por Thomas Stearns Eliot. The Waste Land (1922) Em outubro de 1922, Thomas Eliot publicou “The Waste Land” no jornal “The Criterion”. Composto durante um período turbulento na vida do autor – seu casamento estava acabando, pois tanto ele quanto sua esposa Vivienne sofriam de uma desordem neural – este poema é muitas vezes lido como uma alegoria à desilusão experimentada pela geração pós-guerra. Mesmo antes de “The Waste Land” ser publicado como livro (em dezembro de 1922) Eliot já havia se distanciado da visão desesperadora do poema: “No que diz respeito a “The Waste Land”, esse poema ficará no passado, pois agora estou trabalhando com formas e estilos diferentes”, escreveu ele para Richard Aldington no dia 15 de novembro de 1922. A despeito da obscuridade do poema – que tem sátiras e profecias; mudanças abruptas de narrador, localidade e tempo; além de invocar uma vasta e dissonante gama de culturas e obras literárias – ele acabou se tornando referencial da literatura moderna, sendo considerado o reflexo poético de um romance publicada no mesmo ano: Ulysses, de James Joyce. Entre seus muito famosos versos estão “April is the cruellest month” (referência ao fato que abril é o mês de recomeçar a plantar, e não há colheitas na Europa), “I will show you fear in a handful of dust” e “Shantih shantih shantih”, (Sânscrito que deve ser lido pausadamente e de forma onamatopeica. Algo como “Xantir… Xantir… Xantir…”. Shantih significa “paz” e o sânscrito segue uma súplica pela paz). A obra de Eliot foi muito apreciada pelos poetas da geração de trinta. Em certa ocasião W.H. Auden leu em voz alta todo o poema durante um encontro social. A publicação do esboço do poema em 1972 mostrava
  38. 38. 39 uma grande influência de Ezra Pound sobre a sua forma final. A parte IV, “Death by Water”, fora reduzida de noventa e duas linhas para dez apenas, e com dez linhas foi publicado. Pound repreendeu Eliot por ter rasgado a maior parte do poema. Eliot o agradeceu por “incentivar-me a fazer as coisas do meu jeito”. The Hollow Men (1925) Publicada em várias partes e com vários títulos diferentes, a versão final de “The Hollow Men” data de 3 de março de 1925. O poema faz referências a diversas obras do próprio Eliot e, embora tenha grande densidade literária, muitos críticos o consideram somente como um post scriptum de “The Waste Land”. Seu conteúdo é metafórico e de difícil interpretação, mas estudiosos dizem tratar-se de um poema que filosofa sobre os aspectos da mente humana num contexto ora social, ora religioso. Trata ainda dos medos humanos, considerando-os “more distant and more solemn/than a fading star” (mais distantes e solenes/que uma estrela cadente) e mostrando que mesmo nos sonhos é difícil visualizá- los sem temor. São estes medos “Eyes I dare not meet in dreams/In death’s dream kingdom” (olhos que temo encontrar em sonhos/e no reino de sonho da morte). Esses olhos são muito similarmente descritos aos olhos de Beatriz, em “A Divina Comédia”. Há ainda uma passagem que mostra um ritual dançante, “Here we go around the prickly pear” (andamos em torno da pêra espinhenta) que tem relação com os rituais missais, sendo a pêra a representação de um altar, sem ter portanto, centro exato, mas sendo o centro em si. O poema tem ainda grande musicalidade, com várias repetições e rimas eventuais. Four Quartets (1943) O próprio Thomas Eliot considerava “Four Quartets” sua obra-prima, embora muitos críticos literários preferissem seus trabalhos anteriores. “Four Quartets” é baseado nos conhecimentos de Eliot nas áreas de misticismo e filosofia. O poema consiste de quatro poemas longos, que foram publicados individualmente: “Burnt Norton” (1936), “East Coker” (1940), “The Dry Salvages” (1941) e “Little Gidding” (1942), cada um deles dividido em cinco partes. Embora seja difícil fazer comparações entre eles, nota-se que cada um tem uma descrição geográfica da localidade em seus títulos, todos especulam sobre a natureza do tempo, seja ela teológica, histórica ou física, e sobre a influência exercida pelo tempo nos humanos. Além disso, cada um está associado a um elemento da antigüidade clássica: ar, terra, água e fogo, respectivamente. Eles se aproximam nas idéias, de forma variável porém intercalada. Os poemas não esgotam seu questionamento e nem obtêm respostas suficientes às perguntas feitas. “Burnt Norton” (ar) questiona de que adianta considerar o que podia ter sido e não foi. Há nele a descrição de uma casa abandonada, e Eliot brinca com a idéia que todas essas possíveis realidades estão
  39. 39. 40 presentes simultaneamente, mas invisíveis para nós: todas as formas de atravessar o jardim se transformam numa vasta dança que não podemos ver, e crianças que não estão ali se escondem nos arbustos. Burnt Norton é uma casa de campo situada em Cotswold Hills, na cidade de Gloucestershire, Reino Unido. “East Coker” (terra) continua a examinar o tempo e seu significado, mas agora focando também na natureza da linguagem e da poesia. Saído da escuridão, Eliot fortalece a sua idéia de solução: “I said to my soul, be still, and wait without hope” (algo como “Eu disse à minha alma: fique quieta, e espere sem esperança”). East Coker é uma pequena vila, no sul do Reino Unido. “The Dry Salvages” (água) trata do elemento água via imagens de rios e mares. Nesse poema, os opostos parecem se aproximar de forma impossível, como no barroco: “…the past and future/Are conquered, and reconciled” (algo como “…o passado e o futuro/são conquistados e reconciliados”). The Dry Salvages são um grupo de rochas com um farol para navios em Cape Ann, Massachusetts, como explicado no prefácio do poema. “Little Gidding” (fogo) é o mais antagonizado dos quartetos. As próprias experiências do autor como voluntário na equipe civil antiataque aéreo dão força ao poema, e ele se imagina encontrando com Dante no meio do bombardeio alemão. O cenário mostrado no começo dos quartetos (“Houses…/Are removed, destroyed” ou “Casas…/são removidas, destruídas.”) haviam se tornado uma experiência cotidiana, o que cria uma série de imagens, entre elas a do amor: a força condutora de toda a experiência. O quarteto acaba então com uma frase de Julian of Norwich: “all shall be well and/All manner of things shall be well.” ou “Tudo ficará bem e/todo tipo de coisa ficará bem”. Little Gidding é uma igreja localizada em Huntingdonshire, Reino Unido. Old Possum’s Book of practical Cats (1939) É composto por quinze poemas com a temática “Gatos”. Cada um dos poemas conta a história em particular ou uma característica de um determinado gato. Eliot os escrevera ao longo da década de 1920 como presentes de aniversário para seus afilhados, herdeiros do dono da editora Faber & Faber. Os poemas são, no mais íntimo, metáforas com os testamentos da sociedade. Durante muito tempo os poema ficaram esquecidos dentro dos pertences dos afilhados, até que um deles já adulto, mexendo em velhos papéis, os encontrou e notou a grande possibilidade de publicá-los. Eliot, entretanto, ficou apreensivo com as críticas, pois considerava os poemas fracos e exclusivos para crianças. Uma semana antes da publicação mudou-se para uma vila no interior da Inglaterra, tamanho era o seu medo, mas, logo depois do lançamento em Londres, recebeu um telefonema do afilhado dizendo que o livro fizera o maior sucesso. Na década de 1970, já 10 anos após a morte de Eliot, o então jovem Andrew Lloyd Webber musicou alguns dos poemas e fez uma versão reduzida do musical Cats. A viúva de Eliot, Esme Valerie Eliot, após assistir essa
  40. 40. 41 prévia do musical, presenteou o jovem autor musical com rascunhos de um poema inacabado pelo falecido marido. Esse poema chamava-se Grizabella: The Glamour Cat, e foi determinante para a finalização do famoso musical, dando abertura para a composição Memory, gravada por mais de 170 artistas até hoje. Os quinze poemas que compõe o livro são: The Naming of Cats; The Old Gumbie Cat; Growltiger’s Last Stand; The Rum Tum Tugger; The Song of Jellicles; Mungojerrie and Rumpleteazer; Old Deuteronomy; Of the Awefull Battle of the Pekes and Pollicles; Mister Mistoffelees; Macavity: The Mistery Cat; Gus: The Theatre Cat; Bustopher Jones: The Cat About Town; Skimbleshanks: The Railway Cat; The Ad- dressing of Cats; Cat Morgan Introduces Himself. Note o senso de humor no último poema, feito exclusivamente para finalizar o livro, na última estrofe: “So if yo ‘ave business with Faber – or Faber – I’ll give yu this tip, and it’s worth a lot more: You’ll save youself time, and you’ll spare yourself labour If jist you make friends with the Cat at the door. MORGAN.” Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/T._S._Eliot http://portalconservador.com/importancia-e-legado-de-t-s-eliot A Terra Desolada Abril é o mais cruel dos meses, germina Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva Agônicas raízes com a chuva da primavera. O inverno nos agasalhava, envolvendo A terra em neve deslembrada, nutrindo Com secos tubérculos o que ainda restava de vida. O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten, Tomamos café, e por uma hora conversamos. Quando éramos crianças, na casa do arquiduque, Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó. E eu tive medo. Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos. Nas montanhas, lá, onde livre te sentes. Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno. Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham Nessa imundície pedregosa? Filho do homem, Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol, E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos, E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas Uma sombra medra sob esta rocha escarlate. (Chega-te à sombra desta rocha escarlate), E vou mostrar-te algo distinto
  41. 41. 42 De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando; Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó. (Trecho de “Terra Desolada”, de T. S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira) Thomas Stearns Eliot (St. Louis, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965) foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário britânico-norte-americano. Em 1948, ganhou o Prémio Nobel de Literatura. Membro de uma família puritana de origem britânica, naturalizou-se inglês e morou em Londres a partir dos 22 anos de idade. Em 1906, aos 18 anos de idade, seguiu para Boston para estudar em Harvard, onde se dedicou a estudar literatura e filosofia. Editou a revista universitária “The Harvard Advocate”, na qual publicou alguns trabaIhos. Após diplomar-se em letras clássicas, em 1909, foi a Paris, onde fez cursos de língua e literatura francesas, na Universidade Sorbonne. De volta a Harvard, voltou à filosofia e às letras, com ênfase na literatura sânscrita e na filologia indiana, o que o ocupou de 1911 a 1913. Em 1915 o poeta publica seu primeiro poema mais conhecido, The Love Song of John Alfred Prufrock, na revista Poetry, da cidade de Chicago, depois aproveitado por Pound em sua obra Catholic Anthology. Neste mesmo ano, Eliot contrai matrimônio com Vivienne Haigh-Wood. Lecionou no Highgate College, pequena escola para crianças nos arredores de Londres, mas depois o deixou para se tornar funcionário do Lloyds Bank Ltd., de Londres. Ele também atuou como editor-assistente do veículo Egoist, de 1917 a 1919, além de colaborar com outros impressos literários, entre eles The Athenaeum. Em 1917, publicou “Prufrock and Other Observations” (“Prufrock e Outras Observações”), obra ao mesmo tempo satírica e pessimista. Em seguida, começou a satirizar o passado da Europa com a coletânea “Poems” (1919; Poemas) e “The Waste Land” (1922; “A Terra Devastada”). Em 1920, um ano após a publicação de um pequeno estudo sobre Ezra Pound, ele reuniu, em “The Sacred Wood”, alguns de seus mel hores textos críticos da juventude. Seu trabalho como crítico começou com o ensaio “The Metaphysical Poets” (1921), sobre a poesia de John Donne e outros metafísicos. Um de seus poemas mais famosos, The Waste Land, lançado em 1922, guardava vestígios da ascendência de Ezra Pound sobre a obra deste poeta, principalmente em seus esboços manuscritos. Esta publicação é considerada uma autêntica fonte de ensinamentos sobre a poética, e logo se torna um clássico, consagrando o autor nos meios literários, principalmente os de língua inglesa. Neste momento de sua existência, Eliot era descrito por seus companheiros como um verdadeiro britânico, no modo de agir, de se vestir, de pensar, fugindo do padrão inglês apenas no sotaque e na nacionalidade. Sua formação religiosa se manifestou nos livros seguintes: “Ash Wednesday” (1930; “Quarta-feira de Cinzas”) e, “Four Quartets” (1935-1943; “Quatro Quartetos”). O verso livre na obra de Eliot foi instrumento de uma renovação das estruturas formais. Publicou também “Homage to John Dryden” (1924; Homenagem a John Dryden), e colaborações na revista “The Criterion” (1922-1939). Na década de vinte, no pós-guerra, Eliot passa a freqüentar assiduamente a cidade de Paris, ao lado de vários outros artistas famosos desta época. O poeta Charles Baudelaire influencia definitivamente a obra de Eliot. Seu retrato da existência parisiense torna-se para o poeta norte-americano uma fonte de inspiração para sua própria reprodução da vida em Londres. Quando ele se torna membro da Igreja Anglicana, sua produção literária ganha contornos nitidamente religiosos e tradicionais, marcas que se refletem na tentativa de manter o inglês arcaico e certos valores cultivados na Europa. Eliot se tornou editor em 1923, quando assumiu a diretoria da Faber & Faber, à frente da qual se manteve até a morte. Este cargo lhe propicia a oportunidade de agir como um incentivador de estudos no campo da estética, um mecenas da moderna literatura de língua inglesa.
  42. 42. 43 Muito vinculadas à sua poesia, as obras para o teatro ganharam destaque com “The Rock” (1934; “O Rochedo”) e “Murder in the Cathedral” (1935; “Assassinato na Catedral”). Ele ganha, em 1948, o Prêmio Nobel de Literatura. Dez anos após se tornar viúvo, ele se casa novamente, em 1957, desta vez com Valerie Fletcher, sua secretária na Faber & Faber. Com o passar do tempo, ele se torna mais introspectivo, isolando-se gradualmente em Kensington, bairro de Londres onde residia. No dia 4 de janeiro de 1965, morre o poeta T S Eliot, na cidade que adotou em sua juventude, Londres. Fontes: http://www.infoescola.com/biografias/t-s-eliot/ http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u329.jhtm http://pt.wikipedia.org/wiki/T._S._Eliot Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre O Cão Siamês Peça de Antônio Bivar lançada em 1969, na esteira do sucesso aberto por Cordélia Brasil, traz uma marcante interpretação de Yolanda Cardoso, que divide a cena com Antonio Fagundes, sob a direção de Emílio Di Biasi. A encenação é materialmente modesta, mas iluminada pelos intérpretes. Espetáculo cult, faz breve temporada e tem pouco público. A peça é centrada na figura de Alzira, uma explosiva outsider, crítica, bem informada, desbocada e irreverente, que atende a Ernesto, vendedor de enciclopédias que bate à sua porta. O rapaz, casado e com filhos pequenos, revela-se uma pessoa sem sonhos, conformado com sua vida modesta e sem perspectivas. O encontro entre figuras tão díspares produz um conflito: o anarquismo de Alzira triunfa, massacrando a racionalidade de Ernesto. Para Emílio Di Biasi, “Alzira é uma heroína marginal, já que ela faz a apologia de tudo o que vai contra os princípios do que se convencionou chamar sociedade. A sociedade absurda de Ernesto contra o absurdo mundo de Alzira. […] Ela se recusa a qualquer tipo de sentimentalismo pessoal e leva seu subconsciente violento até as últimas conseqüências”. Em 1970, o diretor Antônio Abujamra monta o texto no Rio de Janeiro, retrabalhado e aumentado por Bivar, com a mesma atriz e com Marcelo Picchi vivendo
  43. 43. 44 Ernesto. A encenação alcança grande sucesso e repercussão, rebatizada como Alzira Power, retorna posteriormente para São Paulo, onde faz longa carreira. A encenação carioca desperta vivo entusiasmo na crítica especializada, como anota Henrique Oscar no seu comentário: “O espetáculo de Abujamra está todo apoiado numa hábil direção de atores. Neste sentido, o rendimento obtido com Yolanda Cardoso é muito grande. Ela assume o papel com uma garra impressionante. Outro que se sai muito bem é o ator paulista Marcelo Picchi, em seu segundo desempenho profissional. Num papel que pede muito menos do intérprete do que sua parceira, ele tem um trabalho perfeitamente realizado, inclusive nos momentos mais perigosos que o texto lhe exige”. Antônio Bivar completa em seu livro detalhes peculiares sobre a montagem de Abujamra: “Tirando o Hair, onde todos ficavam nus, Alzira era novidade também por, além de ser uma peça que falava fundo às mulheres – como nenhuma peça brasileira até então (a personagem-título era uma libertária desvairada) – tinha, como sobremesa, a exibição demorada e ritualística de um rapaz pelado. Não estava no texto, era coisa da direção picárdica de Antonio Abujamra”. Yolanda Cardoso recebe, com este desempenho, todos os prêmios como melhor atriz do ano, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural Alberto Paco Uma Estranha Mulher O apelido dela era “peixeira”, mas o nome ninguém sabia, nem se preocupava em perguntar. Alta, magra e sisuda, tinha apenas trinta anos de idade, embora aparentasse muito mais. Suas vestes eram pretas e longas, deixando aparecer somente os sapatos pretos e rasos de verniz. Completando sua indumentária, um lenço preto como as vestes, amarrado por baixo do queixo pontudo, cobria-lhe por inteiro a cabeça e as orelhas, sem deixar entrever o cabelo, que ninguém sabia qual era a cor. Essa taciturna figura sobrevivia da venda de peixe, que uma camionete lhe entregava uma vez por semana. Daí provinha sua alcunha.
  44. 44. 45 O diminuto casebre em que morava, na pequena aldeia encravada na encosta do rio Douro, na Província de Trás-os-Montes, em Portugal, tinha somente a porta de entrada e uma estreita janela, ambas confeccionadas com madeira grossa e pesada. A janela estava permanentemente fechada. A porta era entreaberta o suficiente para dar passagem à enigmática figura da “peixeira”. Os curiosos, que formavam a totalidade dos moradores locais, esticavam os pescoços, querendo bisbilhotar o interior da diminuta moradia, que se resumia a um único cômodo de apenas dezesseis metros quadrados. As paredes eram constituídas de grossas e irregulares pedras, com espessura de no mínimo quarenta centímetros. O telhado sem forro, de telhas velhas e desgastadas pelo tempo, era sustentado por vigas enegrecidas pela fumaça da fogueira que ardia em cima de grossa laje de cantaria, colocada em um dos cantos do casebre, à guisa de lareira. No outro, canto uma cama de ferro, cujo estrado era formado por grossas tiras de borracha entrelaçadas, cobertas por um colchão de cor indefinida e recheado de palha de centeio. Uma pequena mesa de madeira, de um metro quadrado, com uma banqueta feita de um tronco de árvore, colocadas no centro do cômodo por sobre o chão de terra batida, completavam a modesta mobília da estranha mulher. O inverno naquelas paragens era rigoroso. Os aldeões se preveniam para os dias mais frios, carregando grande quantidade de lenha apanhada nas matas que circundavam a aldeia. A “peixeira” seguia o exemplo dos outros moradores, apenas com uma diferença. Os camponeses carregavam a lenha em barulhentos e desengonçados carros puxados por parelhas de bois ou em feixes amarrados sobre o lombo dos burricos. Enquanto isso, a pobre mulher, que nada tinha de seu, carregava os pesados fardos na cabeça, percorrendo a grande distância a pé, entre seu humilde barraco e o local onde se abastecia de lenha. Certa manhã, fria e cinzenta de fim de outono, a esguia “peixeira” pegou seu podão, um pedaço de corda grossa e dirigiu-se para o extenso e cerrado matagal. Com a afiada ferramenta cortou boa quantidade de galhos secos e amarrou-os com a corda. Retesando seus magros e longos braços, ergueu o pesado feixe de lenha, colocou-o na cabeça e dirigiu-se ao estreito caminho que trilharia de volta para casa. Ao pular o pequeno regato de água cristalina que cortava o caminho entre dois muros de uma propriedade rural, sentiu um líquido quente escorrer por suas coxas. Pousou o pesado fardo de lenha sobre um dos muros que ladeavam o caminho e agachou-se ao lado do riacho. Arregaçou a longa saia e abriu as pernas, ficando à espera de que um ser vivo saísse de seu ventre. Após algumas contrações, fez um violento esforço e finalmente nasceu um saudável menino.
  45. 45. 46 Pegando o podão que carregava na cintura, cortou o cordão umbilical. Lavou o recém-nascido na água fria do regato, embrulhou-o em seu grosso xale preto e amarrou-o contra o peito para aquecê-lo. Carregou novamente o feixe de lenha na cabeça e caminhou lentamente em direção de seu mísero casebre. A coragem e o esforço sobre-humanos daquela enigmática mulher foram admirados e respeitados por todos os moradores da pequena localidade. As piedosas esposas dos aldeões puderam finalmente adentrar o casebre da “peixeira”, levando- lhe roupas e alimentos, enquanto os maridos levavam montes de lenha para o inverno que se aproximava. Entretanto, ninguém ficou sabendo quem era o pai daquela criança, porque a “peixeira” nunca fora vista na companhia de nenhum homem. Apesar das perguntas diretas formuladas pelas matronas da aldeia, ela nunca lhes satisfez a curiosidade. O garoto cresceu saudável, brincando com as outras crianças do lugar. Era esperto e comunicativo. Um dia, após atingir cinco anos de idade, grudou-se nas pernas de um policial chamando-o de pai. Dali por diante, qualquer homem fardado que passasse por perto era cercado pelo garoto, que se agarrava nas pernas dele gritando: Pai! Pai! Pai! Na pequena aldeia onde nada acontecia, aquilo serviu de especulações maldosas, ocasionando até desavenças entre os poucos policiais do lugar e suas esposas. Com o tempo tudo ficou no esquecimento. Nas poucas vezes em que ainda se comentava o assunto, o gesto do garoto era atribuído à maldade de algum gaiato que incutiu na mente da criança aquela estranha mania, para causar desavença entre os moradores. A “peixeira” continuou por muitos anos sua vida simples, vendendo seu peixe e cuidando do filho, sem nunca revelar quem era o pai dele. Fontes: Olga Agulhon e Eliana Palma (organizadoras). VI Coletânea 2011, da Academia de Letras de Maringá. Maringá: ALM, 2011. Imagem:http://www.iplay.com.br/Imagens/Divertidas/0Ink/Mulher_Carregando_Enormes_Peixes _Amarrados_Sobre_A_Cabeca
  46. 46. 47 Alberto Paco O Escritor em Xeque Entrevista virtual realizada por José Feldman, em 15 de fevereiro de 2010 Alberto Paco, contabilista, empresário e escritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos – Portugal. Com vinte e dois anos chegou no Brasil para ficar residindo em caráter permanente. Em 2001 lançou seu primeiro romance que foi escrito entre 1958 e 1959, logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu a cadeira de número 23 da Academia de Letras de Maringá ocupando o cargo de tesoureiro. Desde a posse escreveu mais oito livros sendo um de contos, um de poesias e seis romances. Além de membro da ALM é membro da UBT- Maringá, e do Elos Clube Maringá. Cadeira n. 25 da Academia de Letras do Brasil/Paraná, cujo patrono é Jorge Amado. JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou. AP: Nasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos Galegos, distrito de Mogadouro, na Província de Trás- os-Montes. Ali vivi meus primeiros onze anos. Completei o quarto ano primário, único estudo existente naqueles lugares longínquos. Com essa idade mudei com a família para Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que a primeira, mas com as mesmas necessidades. Com doze anos fui morar na cidade do Porto onde me formei em Contabilidade enquanto trabalhava. Com vinte e dois vim morar no Brasil em caráter permanente. JF: Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era? AP: Meu pai era militar. Impunha aos filhos o regime do quartel, mas nos ensinou a respeitar os outros e principalmente a ler. Não admitia erros de português. JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever? AP: O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entre os onze e doze anos, recebi diversos livros de presente. Eram obras famosas de diversos autores. Acredito que aí começou minha ligação com a escrita. Lia esses
  47. 47. 48 livros e viajava com os personagens pelo mundo da fantasia. JF: Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor? AP: Ao chegar em São Paulo no ano de 1958 entrei a serviço de grande empresa multinacional no setor de contabilidade. Lá publicavam um jornal mensal com a tiragem de trinta mil unidades distribuídas pelos funcionários das diversas filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores, vendo que eu gostava de leitura porque nas horas vagas estava sempre com algum livro em mãos, me convidou a participar do jornal com algum artigo. Escrevi uma poesia que foi publicada e daí por diante, durante os dois anos que permaneci na empresa sempre era publicado algum trabalho de minha autoria. Foi nessa época que escrevi o meu primeiro romance. JF: Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros? AP: São muitos os apreciadores de livros no Brasil, porém poucos têm acesso ao preço que custam. Por isso são raros os que vivem de literatura. Somente alguns privilegiados pela mídia ou então autores estrangeiros, priorizados pelas editoras nacionais. JF: Como começou a tomar gosto pela escrita? AP: Como disse quando falei de minha infância, comecei a ler obras famosas de aventuras, de amores intensos e policiais. Continuei sempre preferindo esses estilos e daí surgiu minha tendência por esse tipo de literatura. JF: Como definiria seu estilo literário? AP: Meu estilo literário é simples e objetivo. Evito fazer “rodeios” para não cansar o leitor nem desviar sua atenção da história. Meus romances são do estilo que sempre gostei de ler, mas com meu próprio estilo sem imitar ninguém. Digamos uma mistura de todos. JF: Quais foram os seus livros escritos ? AP: Entre 1958 e 1959 escrevi meu primeiro romance. Somente quarenta anos depois voltei a escrever. Em todo esse período que fiquei afastado da escrita continuei lendo muito, mas os afazeres eram tantos, envolvido com diversas atividades, principalmente a monetária para dar um futuro digno aos familiares que foram surgindo ao longo do caminho, que não houve tempo para continuar escrevendo. Finalmente no ano de 2001 publiquei aquele livro de quarenta anos atrás. Com essa publicação fui convidado a entrar para a Academia de Letras de Maringá e daí por diante recomecei minha trajetória literária. Meus livros publicados são “O homem do rio” romance (escrito em 1958) publicado em 2001“ “No coração do vulcão” Romance de aventuras publicado em 2002 “Caminhos…” Poesias Publicado em 2002
  48. 48. 49 “Presídio feminino” Romance policial Publicado em 2003 “Conjugando o verbo trair” Romance publicado em 2007 “As amantes de Carolino” Romance publicado em 2007 “ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007 “Mãe solteira” Romance JF: Dentre os seus livros escritos , qual te chamou mais atenção? E por quê? AP: O livro de minha autoria que mais gosto é o romance “Mãe solteira” porque é extraído de um caso real. Mostra a incompreensão de alguns pais com esse tabu que dá nome ao livro. Felizmente esse preconceito aos poucos vai sendo anulado. JF: Que acha de sua obra? AP: Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo isso para meus leitores. No entanto, digo que gosto muito de tudo que escrevo. JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho? AP: Em minha opinião, a internet é um meio rápido e eficiente de se tomar conhecimento de tudo (bom e ruim), mas como divulgação de livros de tamanho razoável, deixa um pouco a desejar. Acho que os reais adeptos da leitura gostam mais de manusear as páginas do livro do que acionar o mouse. É mais prazeroso. JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ? AP: A criação literária existe dentro da minha mente. Simplesmente aflora sem muito esforço. Gosto de escrever de noite, quando reina o silêncio. Costumo rascunhar meus escritos durante a madrugada. Os personagens e os acontecimentos vão surgindo e passo-os rapidamente para o papel. Quando a obra termina é que passo a corrigir tudo, mas a história já esta delineada. JF: Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial? AP: Acredito que a vocação é essencial, mas é necessário ler muito porque vocação sem conhecimento não leva a lugar nenhum. JF: Como é que você concebe suas obras? AP: O momento de escrever um livro às vezes surge de uma conversa com alguém que nos conta uma história. A partir daí, modela-se o que nos foi contado, acrescentam-se fatos e personagens e a obra surge. JF: Quanto tempo você leva para escrever um livro? AP: Alguns livros são escritos em dois meses, mas para lhe dar forma aceitável demoram mais quatro ou cinco.

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