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A
ldo Leopold foi conservacionista, um dos “fundadores” do movimento
(socio)ecológico moderno, da ética ambiental, da implementação de
sistemas de gestão da vida selvagem (e.g. parques nacionais e naturais)
e deu um grande contributo para o entendimento científico dos
ecossistemas. A sua formação tinha como base a ciência cartesiana – reducionista,
materialista, utilitarista, antropocêntrica e dominadora (controlo e domínio sobre
a Natureza). Abraçou a crença de que os seres humanos eram entidades superiores
ao resto das espécies e apoiou na altura em que ainda era jovem adulto a política
do governo norte-americano para erradicar o lobo do território, justificado na
premissa que menos lobos significaria mais veados para os caçadores.
Leopold acalentava fortemente esta opinião,
até que um dia, em 1909, quando saiu com
alguns amigos caçadores durante uma
caminhada nas montanhas do Novo México,
algo surpreendente aconteceu.
Número 26 // 21 de Março 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra
14
ARTIGO
Pensar como uma
Montanha
“As montanhas falaram comigo através [...] da reclamação do
gaio, da risada do guarda-rios1
, do uivo do coiote, da réplica
dos pinheiros ao vento, da resposta das folhas caídas pelo
arrasto dos nossos pés e, para completar a sinfonia, através
das notas cadenciadas do riacho, do tordo-eremita ou de uma
carriça2
” 3
(Brower, 2000, p. 139).
por
Jorge Moreira
Ambientalista e Investigador
	
» shakti@sapo.pt
	
» facebook.com/ecologiaespiritual.
pt
1Do original – kookaburra – ave da família
dos guarda-rios, endémica da Austrália,
Nova Guiné e ilhas do estreito de Torres.
2Do original – canyon wren.
3Tradução livre do autor
Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra
16 17
Durante a hora do almoço, eles encontravam-se sentados
na beira de um penhasco alcantilado com vista para um
rio turbulento e viram o que parecia ser um corço a cruzar
a torrente, mas rapidamente perceberam que era um lobo
que se juntava a uma alcateia. Como bons caçadores, não
perderam a oportunidade e num segundo começaram
a atirar ‘chumbo’ sobre os lobos. Quando esvaziaram as
espingardas, muitos dos lobos tinham desaparecido das
suas vistas, mas ainda conseguiram observar um jovem
animal a arrastar uma perna, tentando fugir ao terror dos
projéteis, deambulando com dificuldade entre as rochas
escorregadias de acesso difícil. Nas imediações deste, um
lobo dava sinais de ter sido abatido. Leopold desceu a correr
de gáudio a íngreme encosta, mas quando chegou ao local
onde jazia o animal, percebeu que era uma velha loba e
deparou-se com algo totalmente inesperado. Algo novo que
transmutou a sua perspetiva de ver e sentir as coisas. Diz
Leopold:
“Chegámos junto da velha loba a tempo de observar um
altivo fogo verde a morrer nos olhos dela. Compreendi
nesse momento, e nunca mais deixei de o saber, que havia
algo de novo para mim naqueles olhos – algo que apenas
ela e a montanha conheciam. Nesse tempo […] pensava
[…] que o desaparecimento total dos lobos seria o paraíso
dos caçadores. Mas depois de ter visto aquele fogo verde a
extinguir-se, senti que nem o[a] lobo[a] nem a montanha
concordavam com essa maneira de ver (Leopold, 2008, p.
130)”
O seu paradigma tinha sido abalado. Leopold teve uma
epifania e utilizou as metáforas ‘loba’ e ‘montanha’
para descrever, por um lado, um elo – a loba – e a sua
importância no todo; por outro, o ecossistema – a montanha
– constituído por todas as espécies de seres vivos, ligados
em rede, em pleno relacionamento entre si e os elementos
abióticos. Para além disso, o lobo tem uma conotação com
a Natureza Selvagem, hoje tão perigosamente ameaçada
pelas atividades humanas insustentáveis. A destruição
da Natureza selvagem – com a perda da biodiversidade,
desflorestação, emissão de poluentes e gases com efeito de
estufa – levou-nos à crise ecológica e climática, que ameaça
o futuro da Humanidade e de muitas das espécies nossas
companheiras na odisseia da vida na Terra, cujos os efeitos
já se fazem sentir em eventos meteorológicos extremos, com
consequências catastróficas para as sociedades e estruturas
humanas atuais (e.g. chuvas torrenciais na Alemanha,
Bélgica e Luxemburgo em julho de 2021 e os fogos na Sul
da Europa, Sibéria e Canadá em julho e agosto de 2021,
que investigadores atribuem às alterações climáticas). Por
isso, Leopold inspirado em Thoreau, diz-nos muito antes
destes eventos, que na Natureza selvagem está a salvação
do mundo. Uma mensagem defendida por cientistas
contemporâneos que pedem que pelo menos metade do
nosso planeta seja deixado para a vida selvagem, para
preservar a estabilidade do clima e a qualidade de vida
humana (e.g. Dinerstein et al. 2019).
Leopold deve ter tido junto da loba um momento
de tremenda expansão de consciência, que permitiu
“sintonizar-se” com aquela ampla realidade ecológica,
experimentando o ecossistema como uma unidade
de vida(s) entrelaçada(s), que fez desaparecer aquela
mente cartesiana e manipuladora da vida selvagem,
que via a Natureza como uma máquina inanimada a ser
explorada pelo ser humano, e passou a ver a vida de
forma holística e sistémica (Harding, 2013). Sistémica,
referente à compreensão científica da vida em todos os
níveis dos sistemas vivos — organismos, sistemas sociais
e ecossistemas (Capra, 1996). Esta intuição, que ficou
plasmada no seu livro “A Sand County Almanac and Sketches
Here and There”, publicado em 1949, quatro décadas depois
do insight, obra traduzida para português (de Portugal) com
o título “Pensar Como Uma Montanha” (Leopold, 2008), está
de acordo com a ciência ecológica, como prova o caso da
reintrodução do lobo no Parque Nacional de Yellowstone,
em 1995. Com o desaparecimento dos lobos neste Parque,
os alces e os veados aumentaram as suas populações e isso
teve um impacto brutal no ecossistema. Quando os lobos
chegaram, alteraram o comportamento desses herbívoros,
que passaram a evitar vales e desfiladeiros. Isso resultou
numa recuperação da vegetação, que rapidamente
passou a florestas, trazendo aves, insetos e castores.
Estes últimos, que são engenheiros naturais, criaram
nichos para outras espécies, como lontras, patos, peixes,
répteis e anfíbios. Os lobos caçam coiotes, aumentando
a população de coelhos e ratos. Como consequência,
surgiram os falcões, as doninhas e as raposas. Os corvos
e texugos chegaram para se alimentarem das sobras dos
lobos. Os ursos apareceram devido à presença de presas e
da fruta farta nas árvores. Mas, o mais interessante, é que
os lobos acabaram por mudar o comportamento dos rios,
com a inclusão de mais habitats para a vida selvagem,
como pequenos lagos e charcos. A floresta afetou a erosão,
e as margens dos rios viram os seus cursos estabilizados e os
canais estreitados.
Vinte anos depois da
reintrodução do lobo, mesmo
com poucos indivíduos, o
ecossistema foi recuperado.
A cascata trófica4
provocada por este predador não
só mudou a vida (de) que(m) habita o parque, como a
geologia do lugar (Beschta & Ripple, 2019; Chris & Agnos,
2014; Ripple & Beschta, 2012). Os lobos trouxerem mais
biodiversidade, beleza e estabilidade ao Parque Nacional
4
Propagação do efeito de uma perturbação num determinado nível trófico para os demais níveis da cadeia alimentar. Este efeito pode aumentar ou diminuir o
tamanho de determinadas populações num ecossistema.
Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra
18 19
de Yellowstone. Leopold compreendeu muito antes
desta prática e intuitivamente a importância do lobo no
ecossistema e fez daí a sua máxima, a preservação da
estabilidade, integridade e beleza de toda a comunidade
biótica (ecossistema) como fundamento de uma nova ética
ambiental que relaciona harmoniosamente o ser humano
com a Natureza da qual faz parte (Leopold, 2008). A ética da
terra altera a função do ser humano, onde este deixa de
desempenhar o papel de conquistador da Natureza, para
passar a ser membro e cidadão pleno dela, o que implica
uma nova atitude de respeito pelos outros membros
(outros seres vivos) e a comunidade biótica enquanto tal
(ibid).
A experiência que Leopold teve junto da loba moribunda
tem ainda uma perspetiva mais profunda, compreendida
por místicos de todos os tempos como um evento
espiritual. Estes insights são experiências diretas que o
indivíduo pode ter com um determinado elemento, sistema
ou fenómeno, alcançando uma realidade mais profunda
deste(s). Uma fusão entre a consciência do indivíduo e
o elemento em observação, sem que o primeiro perca a
sua singularidade. Isto dá-se quando a consciência de
forma espontânea ou treinada se desdobra em dimensões
espaço-temporalmente mais subtis, que leva o observador
a compreender num ápice particularidades ou a totalidade
de algo em observação que se encontra normalmente
oculto aos sentidos comuns. Muitas vezes são as relações
entre entidades que surgem, tornando visível a teia que
une toda a vida. O fogo verde que saia dos olhos da loba
levou Leopold pela intuição a uma consciência ecológica
profunda (da Montanha), que segundo Fritjof Capra, é em
última análise, uma consciência espiritual (Capra, 1996).
Capra corrobora também que
o conhecimento intuitivo se
baseia na experiência direta,
não-intelectual, da realidade,
em decorrência de um
estado ampliado de perceção
consciente, [que] tende a ser
sintetizador, holístico e não-
linear (Capra, 2006, p. 35).
Esta experiência mística, intuitiva ou de expansão da
consciência pode ser desenvolvida com técnicas especiais.
Felice Wyndham, antropóloga, ecóloga e etnobióloga,
estudou pessoas que podiam sentir intimamente o mundo
para além do seu corpo. Diz Wyndham: “É uma forma de
atenção plena (mindfulness). É muito comum. É uma base
de habilidade extremamente desenvolvida de agilidade
cognitiva, de ser capaz de se colocar num ponto de vista
e perspetiva de muitas criaturas ou objetos - rochas,
água, nuvens. Nós, como seres humanos, temos uma
notável sensibilidade, imaginação e capacidade de ser
cognitivamente ágeis. (…) Se estivermos abertos e nos
treinarmos para aprender a abandonar todas as distrações
à nossa capacidade sensorial, podemos fazer muito mais
biologicamente do que usamos na sociedade industrial
contemporânea (apud Robbins, 2018, paras. 24–25)”.
A epifania de Leopold prova também a existência de uma
realidade mais profunda e alcançável e a importância
dessa realidade na evolução das nossas vidas individuais,
coletivas e planetárias. Surgiu na Natureza, e se estivermos
atentos, é capaz de levar à nossa natureza interior a estados
de compreensão, alegria e preenchimento indiscritíveis,
num feedback contínuo, porque em última essência, a
nossa natureza e a Natureza são unas. Paisagens belas e
biodiversas são um elixir para o espírito, sentidas como
templos naturais de comunhão com o mistério da vida
e do Cosmos e, por isso, são consideradas sagradas. O
reconhecimento que somos interdependentes com todos
os elementos naturais, diminui o nosso ego mesquinho
e aumenta a nossa natureza espiritual que se manifesta
em conexão plena com toda a comunidade da vida.
Destruir, explorar com ganância ou poluir o Jardim de Éden
é inconcebível para o eco-espiritualista. Por isso, a Ecologia
Espiritual – também conhecida por eco-espiritualidade,
ecosofia ou espiritualidade da Natureza – tem surgido nos
últimos anos como novo paradigma capaz de dar resposta
efetiva à crise ecológica, climática e multidimensional
da contemporaneidade, porque repõe a sacralidade da
Natureza e encerra uma perceção da interdependência e
relação profunda que existe entre tudo e todos. A ideia de
vermos a Natureza como algo separado de nós, quando
somos filhos dela, constituintes dela, alimentamo-
nos dela, vivemos no seio dela, inspiramo-nos nela e
evoluímos através dela, só pode ser fruto de um deficit de
perceção da nossa parte, que conduziu o ser humano ao
afastamento e desconexão com ela. Ao fazê-lo, desligou-
se também de si mesmo (da sua natureza interna).
Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra
20 21
Por isso a nossa insatisfação
constante e até estados
depressivos em ambientes
artificiais, consumistas e
competitivos, que é apanágio
da sociedade vigente.
Para Leopold, abusamos da Natureza porque a vemos
como um bem que nos pertence e só conseguiremos
mudar esse paradigma quando começarmos a vê-la como
uma comunidade à qual pertencemos (Leopold, 2008).
Provavelmente, para restaurar a Natureza e salvar a
Humanidade não vai chegar ‘vê-la’ dessa maneira, mas
quando as nossas práticas sejam realmente um reflexo
dessa visão. Segundo Annemarie Mol, diferentes práticas
tendem a produzir não apenas diferentes perspetivas,
mas também diferentes realidades (2002).
Passados todos estes anos e em pleno século XXI ainda
alimentamos a cegueira que nos impede de ver o
parentesco que temos com todas as outras espécies e, em
vez disso, nutrimos um mundo fragmentado e dicotómico
que nos separa dos outros e da vida em geral e praticamos
um paradigma de tiro à ‘loba’ e de exploração desenfreada
da ‘montanha’. Nesse sentido, é importante tornar visíveis
novas práticas mais em consonância com a realidade
[socio]ecológica, que afinal já temos algum vislumbre e
se encontram alavancadas numa visão sistémica. Sendo
a natureza da consciência ecológica profunda uma
consciência espiritual, e sendo a vida espiritual identificada
por práticas alicerçadas em virtudes como a compaixão, a
paz, a empatia, o discernimento, a humildade, o altruísmo
e o amor, então essas práticas devem incluir a consideração
ética pelas outras entidades naturais, tais como árvores,
rios, mamíferos, cogumelos, aves, glaciares, insetos ou
montanhas. Para Leopold era inconcebível que uma relação
ética pudesse existir sem amor, respeito e admiração
pela terra (Leopold, 2008, p. 205). A Ecologia Espiritual
é simultaneamente uma ética ambiental e uma prática
espiritual, que para além de nos dar uma perceção
mais real dos fenómenos da vida e de um estado de
felicidade interior através da compreensão e da evolução
da consciência, traduz-se numa resposta efetiva capaz
de alterar comportamentos e atitudes mais egoístas,
especistas, antropocêntricas e insustentáveis, para
práticas que refletem uma cidadania ecológica.
A metáfora de Aldo Leopold “pensar como uma montanha”
pode ser transportada para uma prática capaz de expandir
a nossa consciência e identidade para abarcar todo
o ecossistema ao qual também pertencemos. A loba
transmitiu esse conhecimento sábio a Leopold, até pela
sua idade avançada. Fê-lo através do olhar – forma de
comunicação entre espécies – exibindo um fogo verde
perante Aldo Leopold. Não é por acaso que o fogo verde
surge aqui. Por um lado, o verde é o arquétipo da ecologia
e da ciência ecológica. Por outro, o fogo é símbolo do
‘espírito santo’. Nesse sentido, a loba manifestou para além
da dimensão científica, a natureza espiritual da Natureza.
A montanha é ainda um símbolo do caminho espiritual
– subir a montanha até ao topo para estar ‘mais perto do
céu’, mas sem tirar os pés no chão, e conseguir ver tudo o
que se encontra ao redor. Ver que no fundo a montanha, o
caminho, somos nós próprios. Nas palavras de um Mestre,
eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Como seria a nossa vida, as
nossas escolhas, a forma como
olhamos e interagimos com
a Natureza, seus animais e
plantas, se considerássemos
a Natureza uma entidade/
comunidade sagrada e
espiritual da qual fazemos
parte?
Referências bibliográficas:
Beschta, R. L., & Ripple, W. J. (2019). Can large carnivores change
streams via a trophic cascade? Ecohydrology, 12(1), 1–13. https://
doi.org/10.1002/eco.2048
Brower, D. (2000). Let the Mountains Talk, Let the Rivers Run. New
Society.
Capra, F. (1996). A Teia da Vida - Uma Nova Compreensão Científica
dos Sistemas Vivos. Editora Cultrix. https://doi.org/10.20873/rtg.
v9n18p232-237
Capra, F. (2006). O Ponto de Mutação - A Ciência, A Sociedade e a
Cultura emergente. Cultrix.
Chris, & Agnos, D. (2014). How Wolves Change Rivers. YouTube.
https://youtu.be/ysa5OBhXz-Q
Dinerstein, E., Vynne, C., Sala, E., Joshi, A. R., Fernando, S., Lovejoy,
T. E., Mayorga, J., Olson, D., Asner, G. P., Baillie, J. E. M., Burgess,
N. D., Burkart, K., Noss, R. F., & Zhang, Y. P. (2019). A Global Deal
For Nature: Guiding principles, milestones, and targets. Science
Advances, April, 1–18. https://doi.org/10.1126/sciadv.aaw2869
Harding, S. (2013). Animate Earth: Science, Intuition, and Gaia (2nd
Editio). Green Books Ltd.
Leopold, A. (2008). Pensar Como Uma Montanha. Edições Sempre-
em-Pé.
Mol, A. (2002). The Body Multiple: Ontology in Medical Practice.
Duke University Press.
Ripple, W. J., & Beschta, R. L. (2012). Trophic cascades in
Yellowstone: The first 15years after wolf reintroduction. Biological
Conservation, 145(1), 205–213. https://doi.org/10.1016/j.
biocon.2011.11.005
Robbins, J. (2018). Native Knowledge: What Ecologists Are Learning
from Indigenous People. Yale Environment 360. https://e360.yale.
edu/features/native-knowledge-what-ecologists-are-learning-
from-indigenous-people?fbclid=IwAR26sJdtnZTpz1-Sj0S4tOyUn3q
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Pensar como uma Montanha

  • 1. A ldo Leopold foi conservacionista, um dos “fundadores” do movimento (socio)ecológico moderno, da ética ambiental, da implementação de sistemas de gestão da vida selvagem (e.g. parques nacionais e naturais) e deu um grande contributo para o entendimento científico dos ecossistemas. A sua formação tinha como base a ciência cartesiana – reducionista, materialista, utilitarista, antropocêntrica e dominadora (controlo e domínio sobre a Natureza). Abraçou a crença de que os seres humanos eram entidades superiores ao resto das espécies e apoiou na altura em que ainda era jovem adulto a política do governo norte-americano para erradicar o lobo do território, justificado na premissa que menos lobos significaria mais veados para os caçadores. Leopold acalentava fortemente esta opinião, até que um dia, em 1909, quando saiu com alguns amigos caçadores durante uma caminhada nas montanhas do Novo México, algo surpreendente aconteceu. Número 26 // 21 de Março 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra 14 ARTIGO Pensar como uma Montanha “As montanhas falaram comigo através [...] da reclamação do gaio, da risada do guarda-rios1 , do uivo do coiote, da réplica dos pinheiros ao vento, da resposta das folhas caídas pelo arrasto dos nossos pés e, para completar a sinfonia, através das notas cadenciadas do riacho, do tordo-eremita ou de uma carriça2 ” 3 (Brower, 2000, p. 139). por Jorge Moreira Ambientalista e Investigador » shakti@sapo.pt » facebook.com/ecologiaespiritual. pt 1Do original – kookaburra – ave da família dos guarda-rios, endémica da Austrália, Nova Guiné e ilhas do estreito de Torres. 2Do original – canyon wren. 3Tradução livre do autor
  • 2. Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra 16 17 Durante a hora do almoço, eles encontravam-se sentados na beira de um penhasco alcantilado com vista para um rio turbulento e viram o que parecia ser um corço a cruzar a torrente, mas rapidamente perceberam que era um lobo que se juntava a uma alcateia. Como bons caçadores, não perderam a oportunidade e num segundo começaram a atirar ‘chumbo’ sobre os lobos. Quando esvaziaram as espingardas, muitos dos lobos tinham desaparecido das suas vistas, mas ainda conseguiram observar um jovem animal a arrastar uma perna, tentando fugir ao terror dos projéteis, deambulando com dificuldade entre as rochas escorregadias de acesso difícil. Nas imediações deste, um lobo dava sinais de ter sido abatido. Leopold desceu a correr de gáudio a íngreme encosta, mas quando chegou ao local onde jazia o animal, percebeu que era uma velha loba e deparou-se com algo totalmente inesperado. Algo novo que transmutou a sua perspetiva de ver e sentir as coisas. Diz Leopold: “Chegámos junto da velha loba a tempo de observar um altivo fogo verde a morrer nos olhos dela. Compreendi nesse momento, e nunca mais deixei de o saber, que havia algo de novo para mim naqueles olhos – algo que apenas ela e a montanha conheciam. Nesse tempo […] pensava […] que o desaparecimento total dos lobos seria o paraíso dos caçadores. Mas depois de ter visto aquele fogo verde a extinguir-se, senti que nem o[a] lobo[a] nem a montanha concordavam com essa maneira de ver (Leopold, 2008, p. 130)” O seu paradigma tinha sido abalado. Leopold teve uma epifania e utilizou as metáforas ‘loba’ e ‘montanha’ para descrever, por um lado, um elo – a loba – e a sua importância no todo; por outro, o ecossistema – a montanha – constituído por todas as espécies de seres vivos, ligados em rede, em pleno relacionamento entre si e os elementos abióticos. Para além disso, o lobo tem uma conotação com a Natureza Selvagem, hoje tão perigosamente ameaçada pelas atividades humanas insustentáveis. A destruição da Natureza selvagem – com a perda da biodiversidade, desflorestação, emissão de poluentes e gases com efeito de estufa – levou-nos à crise ecológica e climática, que ameaça o futuro da Humanidade e de muitas das espécies nossas companheiras na odisseia da vida na Terra, cujos os efeitos já se fazem sentir em eventos meteorológicos extremos, com consequências catastróficas para as sociedades e estruturas humanas atuais (e.g. chuvas torrenciais na Alemanha, Bélgica e Luxemburgo em julho de 2021 e os fogos na Sul da Europa, Sibéria e Canadá em julho e agosto de 2021, que investigadores atribuem às alterações climáticas). Por isso, Leopold inspirado em Thoreau, diz-nos muito antes destes eventos, que na Natureza selvagem está a salvação do mundo. Uma mensagem defendida por cientistas contemporâneos que pedem que pelo menos metade do nosso planeta seja deixado para a vida selvagem, para preservar a estabilidade do clima e a qualidade de vida humana (e.g. Dinerstein et al. 2019). Leopold deve ter tido junto da loba um momento de tremenda expansão de consciência, que permitiu “sintonizar-se” com aquela ampla realidade ecológica, experimentando o ecossistema como uma unidade de vida(s) entrelaçada(s), que fez desaparecer aquela mente cartesiana e manipuladora da vida selvagem, que via a Natureza como uma máquina inanimada a ser explorada pelo ser humano, e passou a ver a vida de forma holística e sistémica (Harding, 2013). Sistémica, referente à compreensão científica da vida em todos os níveis dos sistemas vivos — organismos, sistemas sociais e ecossistemas (Capra, 1996). Esta intuição, que ficou plasmada no seu livro “A Sand County Almanac and Sketches Here and There”, publicado em 1949, quatro décadas depois do insight, obra traduzida para português (de Portugal) com o título “Pensar Como Uma Montanha” (Leopold, 2008), está de acordo com a ciência ecológica, como prova o caso da reintrodução do lobo no Parque Nacional de Yellowstone, em 1995. Com o desaparecimento dos lobos neste Parque, os alces e os veados aumentaram as suas populações e isso teve um impacto brutal no ecossistema. Quando os lobos chegaram, alteraram o comportamento desses herbívoros, que passaram a evitar vales e desfiladeiros. Isso resultou numa recuperação da vegetação, que rapidamente passou a florestas, trazendo aves, insetos e castores. Estes últimos, que são engenheiros naturais, criaram nichos para outras espécies, como lontras, patos, peixes, répteis e anfíbios. Os lobos caçam coiotes, aumentando a população de coelhos e ratos. Como consequência, surgiram os falcões, as doninhas e as raposas. Os corvos e texugos chegaram para se alimentarem das sobras dos lobos. Os ursos apareceram devido à presença de presas e da fruta farta nas árvores. Mas, o mais interessante, é que os lobos acabaram por mudar o comportamento dos rios, com a inclusão de mais habitats para a vida selvagem, como pequenos lagos e charcos. A floresta afetou a erosão, e as margens dos rios viram os seus cursos estabilizados e os canais estreitados. Vinte anos depois da reintrodução do lobo, mesmo com poucos indivíduos, o ecossistema foi recuperado. A cascata trófica4 provocada por este predador não só mudou a vida (de) que(m) habita o parque, como a geologia do lugar (Beschta & Ripple, 2019; Chris & Agnos, 2014; Ripple & Beschta, 2012). Os lobos trouxerem mais biodiversidade, beleza e estabilidade ao Parque Nacional 4 Propagação do efeito de uma perturbação num determinado nível trófico para os demais níveis da cadeia alimentar. Este efeito pode aumentar ou diminuir o tamanho de determinadas populações num ecossistema.
  • 3. Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra 18 19 de Yellowstone. Leopold compreendeu muito antes desta prática e intuitivamente a importância do lobo no ecossistema e fez daí a sua máxima, a preservação da estabilidade, integridade e beleza de toda a comunidade biótica (ecossistema) como fundamento de uma nova ética ambiental que relaciona harmoniosamente o ser humano com a Natureza da qual faz parte (Leopold, 2008). A ética da terra altera a função do ser humano, onde este deixa de desempenhar o papel de conquistador da Natureza, para passar a ser membro e cidadão pleno dela, o que implica uma nova atitude de respeito pelos outros membros (outros seres vivos) e a comunidade biótica enquanto tal (ibid). A experiência que Leopold teve junto da loba moribunda tem ainda uma perspetiva mais profunda, compreendida por místicos de todos os tempos como um evento espiritual. Estes insights são experiências diretas que o indivíduo pode ter com um determinado elemento, sistema ou fenómeno, alcançando uma realidade mais profunda deste(s). Uma fusão entre a consciência do indivíduo e o elemento em observação, sem que o primeiro perca a sua singularidade. Isto dá-se quando a consciência de forma espontânea ou treinada se desdobra em dimensões espaço-temporalmente mais subtis, que leva o observador a compreender num ápice particularidades ou a totalidade de algo em observação que se encontra normalmente oculto aos sentidos comuns. Muitas vezes são as relações entre entidades que surgem, tornando visível a teia que une toda a vida. O fogo verde que saia dos olhos da loba levou Leopold pela intuição a uma consciência ecológica profunda (da Montanha), que segundo Fritjof Capra, é em última análise, uma consciência espiritual (Capra, 1996). Capra corrobora também que o conhecimento intuitivo se baseia na experiência direta, não-intelectual, da realidade, em decorrência de um estado ampliado de perceção consciente, [que] tende a ser sintetizador, holístico e não- linear (Capra, 2006, p. 35). Esta experiência mística, intuitiva ou de expansão da consciência pode ser desenvolvida com técnicas especiais. Felice Wyndham, antropóloga, ecóloga e etnobióloga, estudou pessoas que podiam sentir intimamente o mundo para além do seu corpo. Diz Wyndham: “É uma forma de atenção plena (mindfulness). É muito comum. É uma base de habilidade extremamente desenvolvida de agilidade cognitiva, de ser capaz de se colocar num ponto de vista e perspetiva de muitas criaturas ou objetos - rochas, água, nuvens. Nós, como seres humanos, temos uma notável sensibilidade, imaginação e capacidade de ser cognitivamente ágeis. (…) Se estivermos abertos e nos treinarmos para aprender a abandonar todas as distrações à nossa capacidade sensorial, podemos fazer muito mais biologicamente do que usamos na sociedade industrial contemporânea (apud Robbins, 2018, paras. 24–25)”. A epifania de Leopold prova também a existência de uma realidade mais profunda e alcançável e a importância dessa realidade na evolução das nossas vidas individuais, coletivas e planetárias. Surgiu na Natureza, e se estivermos atentos, é capaz de levar à nossa natureza interior a estados de compreensão, alegria e preenchimento indiscritíveis, num feedback contínuo, porque em última essência, a nossa natureza e a Natureza são unas. Paisagens belas e biodiversas são um elixir para o espírito, sentidas como templos naturais de comunhão com o mistério da vida e do Cosmos e, por isso, são consideradas sagradas. O reconhecimento que somos interdependentes com todos os elementos naturais, diminui o nosso ego mesquinho e aumenta a nossa natureza espiritual que se manifesta em conexão plena com toda a comunidade da vida. Destruir, explorar com ganância ou poluir o Jardim de Éden é inconcebível para o eco-espiritualista. Por isso, a Ecologia Espiritual – também conhecida por eco-espiritualidade, ecosofia ou espiritualidade da Natureza – tem surgido nos últimos anos como novo paradigma capaz de dar resposta efetiva à crise ecológica, climática e multidimensional da contemporaneidade, porque repõe a sacralidade da Natureza e encerra uma perceção da interdependência e relação profunda que existe entre tudo e todos. A ideia de vermos a Natureza como algo separado de nós, quando somos filhos dela, constituintes dela, alimentamo- nos dela, vivemos no seio dela, inspiramo-nos nela e evoluímos através dela, só pode ser fruto de um deficit de perceção da nossa parte, que conduziu o ser humano ao afastamento e desconexão com ela. Ao fazê-lo, desligou- se também de si mesmo (da sua natureza interna).
  • 4. Número 30 // 21 de Setembro 2021 Vento e Água // Ritmos da Terra 20 21 Por isso a nossa insatisfação constante e até estados depressivos em ambientes artificiais, consumistas e competitivos, que é apanágio da sociedade vigente. Para Leopold, abusamos da Natureza porque a vemos como um bem que nos pertence e só conseguiremos mudar esse paradigma quando começarmos a vê-la como uma comunidade à qual pertencemos (Leopold, 2008). Provavelmente, para restaurar a Natureza e salvar a Humanidade não vai chegar ‘vê-la’ dessa maneira, mas quando as nossas práticas sejam realmente um reflexo dessa visão. Segundo Annemarie Mol, diferentes práticas tendem a produzir não apenas diferentes perspetivas, mas também diferentes realidades (2002). Passados todos estes anos e em pleno século XXI ainda alimentamos a cegueira que nos impede de ver o parentesco que temos com todas as outras espécies e, em vez disso, nutrimos um mundo fragmentado e dicotómico que nos separa dos outros e da vida em geral e praticamos um paradigma de tiro à ‘loba’ e de exploração desenfreada da ‘montanha’. Nesse sentido, é importante tornar visíveis novas práticas mais em consonância com a realidade [socio]ecológica, que afinal já temos algum vislumbre e se encontram alavancadas numa visão sistémica. Sendo a natureza da consciência ecológica profunda uma consciência espiritual, e sendo a vida espiritual identificada por práticas alicerçadas em virtudes como a compaixão, a paz, a empatia, o discernimento, a humildade, o altruísmo e o amor, então essas práticas devem incluir a consideração ética pelas outras entidades naturais, tais como árvores, rios, mamíferos, cogumelos, aves, glaciares, insetos ou montanhas. Para Leopold era inconcebível que uma relação ética pudesse existir sem amor, respeito e admiração pela terra (Leopold, 2008, p. 205). A Ecologia Espiritual é simultaneamente uma ética ambiental e uma prática espiritual, que para além de nos dar uma perceção mais real dos fenómenos da vida e de um estado de felicidade interior através da compreensão e da evolução da consciência, traduz-se numa resposta efetiva capaz de alterar comportamentos e atitudes mais egoístas, especistas, antropocêntricas e insustentáveis, para práticas que refletem uma cidadania ecológica. A metáfora de Aldo Leopold “pensar como uma montanha” pode ser transportada para uma prática capaz de expandir a nossa consciência e identidade para abarcar todo o ecossistema ao qual também pertencemos. A loba transmitiu esse conhecimento sábio a Leopold, até pela sua idade avançada. Fê-lo através do olhar – forma de comunicação entre espécies – exibindo um fogo verde perante Aldo Leopold. Não é por acaso que o fogo verde surge aqui. Por um lado, o verde é o arquétipo da ecologia e da ciência ecológica. Por outro, o fogo é símbolo do ‘espírito santo’. Nesse sentido, a loba manifestou para além da dimensão científica, a natureza espiritual da Natureza. A montanha é ainda um símbolo do caminho espiritual – subir a montanha até ao topo para estar ‘mais perto do céu’, mas sem tirar os pés no chão, e conseguir ver tudo o que se encontra ao redor. Ver que no fundo a montanha, o caminho, somos nós próprios. Nas palavras de um Mestre, eu sou o caminho, a verdade e a vida. Como seria a nossa vida, as nossas escolhas, a forma como olhamos e interagimos com a Natureza, seus animais e plantas, se considerássemos a Natureza uma entidade/ comunidade sagrada e espiritual da qual fazemos parte? Referências bibliográficas: Beschta, R. L., & Ripple, W. J. (2019). Can large carnivores change streams via a trophic cascade? Ecohydrology, 12(1), 1–13. https:// doi.org/10.1002/eco.2048 Brower, D. (2000). Let the Mountains Talk, Let the Rivers Run. New Society. Capra, F. (1996). A Teia da Vida - Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos. Editora Cultrix. https://doi.org/10.20873/rtg. v9n18p232-237 Capra, F. (2006). O Ponto de Mutação - A Ciência, A Sociedade e a Cultura emergente. Cultrix. Chris, & Agnos, D. (2014). How Wolves Change Rivers. YouTube. https://youtu.be/ysa5OBhXz-Q Dinerstein, E., Vynne, C., Sala, E., Joshi, A. R., Fernando, S., Lovejoy, T. E., Mayorga, J., Olson, D., Asner, G. P., Baillie, J. E. M., Burgess, N. D., Burkart, K., Noss, R. F., & Zhang, Y. P. (2019). A Global Deal For Nature: Guiding principles, milestones, and targets. Science Advances, April, 1–18. https://doi.org/10.1126/sciadv.aaw2869 Harding, S. (2013). Animate Earth: Science, Intuition, and Gaia (2nd Editio). Green Books Ltd. Leopold, A. (2008). Pensar Como Uma Montanha. Edições Sempre- em-Pé. Mol, A. (2002). The Body Multiple: Ontology in Medical Practice. Duke University Press. Ripple, W. J., & Beschta, R. L. (2012). Trophic cascades in Yellowstone: The first 15years after wolf reintroduction. Biological Conservation, 145(1), 205–213. https://doi.org/10.1016/j. biocon.2011.11.005 Robbins, J. (2018). Native Knowledge: What Ecologists Are Learning from Indigenous People. Yale Environment 360. https://e360.yale. edu/features/native-knowledge-what-ecologists-are-learning- from-indigenous-people?fbclid=IwAR26sJdtnZTpz1-Sj0S4tOyUn3q 8TumfZWfFeKNhT2toHtx2uv-iGtxvbbA