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Jorge marcos. a arte de apelidar e a história de tô te-ajeitando pede a palavra.

  1. 1. A “arte” de apelidar1 surgem ainda na infância, e retratam a forma carinhosa com que somos Tô-te-Ajeitando2 tratados no seio da família, ressaltando que, a família é o nosso primeiro núcleo Não se sabe ao certo como e social. Outros apelidos porém, surgemquando surgiram os apelidos, mas desde no decorrer da vida, e nem sempre sea antiguidade eles já eram usados para correlacionam com carinho, e, algumaselogiar ou diferenciar as pessoas. vezes, dizem respeito a umaPrincipalmente, nos exemplos de característica física ou intelectual,grandes lideres. Afinal, quem nunca noutras, simplesmente, viabiliza deouviu falar de Alexandre, o Grande? forma prática o exercício de umaPara alguns historiadores, o apelido profissão”.surgiu como uma forma de defesa e de Para Vladimir Souzaprovocação. Carvalho 4 O apelidar é um hábito Chamamos de “apelido”, o generalizado. Diversas, as suas causas:que deveria ser intitulado como: imaginação, zombaria, desabafo,“Vulgo, Alcunha, Cognome, porque identificação, desforra, etc. muitosestes revelam esta forma distinta de desses apelidos perdem a sua explicaçãotratamento, reservando ao título de ao correr do tempo, e não raro o próprio“apelido” somente aquele destinado a portador não sabe ou não lembra a suadesignar os patronímicos de família”. 3 origem. Segundo Suzana J. de Encontramos apelidos emOliveira Carmo “alguns apelidos vários setores de nossa sociedade. Na1 Jorge Marcos de Oliveira. Professor da rede política, em época de eleição são pública e privada de ensino. Técnico em Assuntos Historiográfico lotado na Biblioteca registrados nomes e apelidos de Clodomir Silva. Criticas e sugestões e-mail candidato os mais variados. Outro setor jorge-oliveira1962@bol.com.br ou face Jorge Marcos de Oliveira. recheado de epítetos é o do futebol e o2 A história de Tô-te-Ajeitando é baseada na reportagem de João Aguiar. Tô-te-Ajeitando meio artísticos. Exemplos: Pelé, Zico, pede a palavra in Correio de Aracaju, Ano XLV, nº 4669 de 10 de setembro de 1952, p. Zezé, Chico (Anísio e o Buarque). Na 4. E no texto Tô te Ajeitando de José de história encontramos vários exemplos – Oliveira B. Filho in http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12 “Flagelo de Deus” (Átila, rei dos /to-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março de 2013. humos), “A Louca” (D. Maria I, rainha3 CARMO, Suzana J. de Oliveira. Brasil: um país onde a adoção de "apelido" tem um 4 privilégio legal inexistente ao prenome. in ® Vladimir Souza Carvalho. Apelidos em BuscaLegis.ccj.ufsc.Br Itabaiana.. Curitiba, Juruá, 1996. p.11.
  2. 2. de Portugal), “Águia de Haia” (Rui É um significado que diz respeito aBarbosa). alguma mania ou característica física da Por fim, outro segmento em pessoa apelidada e o sujeito éque há grande utilização de “acunhas” é catalogado. Alguns apelidos nemo da marginalidade, pois, neste sempre fazem sentido. Em família,submundo da criminalidade todos se tenho um bom exemplo. A irmã maisautointitulam por apelidos.5 Como nova, quando criança, diante daexemplos podemos citar: “O Bandido dificuldade de pronunciar os nomes deda Luz Vermelha”, Manoel Moreira, o suas duas irmãs fez us de apelidos –“Cara de Cavalo” ou o de Sebastião “Isis” (Inês) e “Caquinho” (Gorete).Paes de Almeida, o “Tião Medonho”.6 Graças a Deus essa onda de apelidar Constatamos que “os não caiu sobre mim8. A verdade é queapelidos são parte de nossa cultura, e quando o apelido é bem achado e puro,usados sem distinção por notáveis, ele é bem aceito. Assim nascem oscelebridades, ou simplesmente, pelos apelidos familiares, os escolares e os de‘anônimos’ que compõem a sociedade. trabalho.Mas, com toda certeza, é para todos de Na maioria dos casos, ostamanha importância e de grande apelidos começam pelos diminutivos atésignificado pessoal”7. Em alguns casos, se tornar mais conhecido que o próprioo apelido é uma espécie de herança. Um nome da pessoa. Alguns apelidos são“bem” que passa de pai para filho. tão fortes queAlgumas pessoas ficam famosas e vão desenvolvendo variações até aconhecidas mais devido a seus apelidos idade adulta e viram uma marcado que pelos seus feitos. Seus feitos registrada. Em alguns casos, o apelidotambém podem gerar apelidos. que nasceu para depreciar a pessoa, A maioria das revela-se como um nome de respeito ealcunhas/apelidos tem sua razão de ser. referência dentro da comunidade. O apelido surgiu como uma forma de5 CARMO, Suzana J. de Oliveira.Brasil: um defesa e de provocação: “O fato, porém, país onde a adoção de "apelido" tem um é que os apelidos, na maioria das vezes, privilégio legal inexistente ao prenome, p. 4. in ® BuscaLegis.ccj.ufsc.Br se restringem a uma localidade”. Em6 Aqui em Aracaju encontramos, nos jornais, diversas alcunhas: Zé da Guarda, Alicate, Cara 8 de Bode, Nariz de Barro, Babau, Bacalhau, Esperava-se que ao crescer, abandonaria esses Pilantra, Bidu, Mocó, Chapeu de Couro, apelidos. Ledo engano. Já se vão mais trinta Labirinto, Gafieira, entre outros. anos e os apelidos se perpetuaram. Apenas a7 Ibid. mais nova fez uso desses apelidos.
  3. 3. vários casos, o apelido “sinônimo de atributo vago para uma verdade muitorespeito, tem legitimidade e identidade mais poderosa: a nossa própriaprópria”. existência, e a intimidade dela com todo Foi-se aquela época “em o redor. Algo místico existe em umque a criançada passava o dia inteiro na nome, reside dentro do própriorua, brincando, jogando bola e andando significado dele para, individualmente,em bandos”. Quem poderia imaginar você. Para os donos, o tom deque “apelidar alguém um dia se tornaria propriedade ganha um senso decrime. Hoje, quando a meninada é essência, de existência. E vem alguém eenclausurada para escapar de mazelas “estraga” os noves meses de gestaçãocomo pedofilia, drogas e outras formas do filho e do nome, colocando umde violência, os pais correm o risco de apelido. Mas dizem que pessoas cheiasaté ir para a cadeia caso um filho de apelidos são queridas.ridicularize alguém com um apelido.”9 Nesta época, o espírito de TÔ-TE-AJEITANDOapelidar alguém não incorporava aperversidade que hoje está incorporado. Tô-te-Ajeitando é,Usados às vezes de forma pejorativa, os possivelmente, um dos maisapelidos dados a alguns carros fizeram emblemático apelido conhecido emalguns estragos. 10 Aracaju. Uma coisa é garantida:quando um apelido tira alguém do sério,a pessoa pode ter certeza: o apelido vaipegar. Vale ressalta que a partirde 1998, com a modificação da lei Leinº 9.708, qualquer pessoa podeacrescentar ou substituir o seusobrenome por um apelido. Como poetiza Shakespeare,nosso nome é nada mais do que um 10 A história de Tô-te-Ajeitando é baseada na reportagem de João Aguiar. Tô-te-Ajeitando9 AMORETI, R (org.). Psicanálise e Violência: pede a palavra in Correio de Aracaju, Ano Metapsicologia – clínica – cultura. 1. ed. XLV, nº 4669 de 10 de setembro de 1952, p. Petrópolis: Vozes, 1992. 152p. 4.
  4. 4. Diz a ficha de identidade – nome: Domingos Correia Silva, vulgo Tô-te-Ajeitando. Brasileiro, Alagoano, nascido em 17 de maio de 1915 11. De cor avermelhada, cabelo “a poeta”, olhos sedutores, barba feita, raspada, praticamente sem bigode. Possuía uma especialidade - tenor lírico. Um tipo muito comum nas ruas da cidades sergipanas Segundo João Aguiar, “a vida tem dessas coisas. Uma pilhéria,MELINS, Murillo. Aracaju romântica que vi evivi. Anos 40 e 50. 3ed. Aracaju:Unit, 2007. mesmo sem malicia, pode estragar oCitado por José de Oliveira B. Filho. Tô teAjeitando in nome da gente. Vamos supor que aquelehttp://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12/t rapazola não tivesse soltado o seuo-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de marçode 2013. palavrão pelo jornal – tudo seria sido diferente. Você me chamaria, simplesmente, Domingo. Ou Domingos Correia Silva, se não preferisse a intimidade – declara ao reporte do Correio o popular Tô te Ajeitando, ao iniciar a sua história”. E continua: “Antes eu não tivesse me queimado. Porque, apelido é como sarampo: quanto mais a gente coça mais a coisa pega. Foi o que aconteceu comigo. – e num desabafo honesto e concludente: - hoje eu já nãoJornal Gazeta de Sergipe nr. 7.090 - 11 O José de Oliveira B. Filho, citando Murilo23/24/05/1982. Citado por José de Oliveira B. Melins afirmaque a data de nascimento de Tô-Filho. Tô te Ajeitando in te-Ajeitando é 15 de maio de 1907. Citado porhttp://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12/t José de Oliveira B. Filho. Tô te Ajeitando ino-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12de 2013. /to-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março de 2013.
  5. 5. dou bolas ao caso. Mas o que adianta perfeito tipo de rua. É a história de Tô-isso? A cidade tomou conta de mim, e o te-Ajeitando.meu nome, em todas as bocas, faz partedela. Talvez um dia, erijam uma estátua O TIPO DE RUAem minha memória. Vocês duvidamdisto? Usando a descrição feita do João Aguiar, Tô-te-Ajeitando era deDUAS VIDAS “compleição franzina, gestos dolentes e retardados, cara descarnada e miúda, Retenhamos, porém, o tórax ligeiramente recurvado, quasenosso bisturi, para ma ponderação amorfo”. Continua o autor:necessária. A vida de Domingos temduas facetas distintas. Na primeira – “Tô-te-Ajeitando tem otoda ela frouxa e inclusa – a nossa desaprumo do sertanejo deobjetiva se perderia, sem grandes Euclides da Cunha. Falta-motivos, nas dobra do anonimato lhe, talvez, a condição inatadaquele tipo humano, biograficamente de ser um forte. Mas, a essavulgar. Sem os vai-e-vens das coisas deficiência orgânica, seatribuladas, antes, irritantemente contrapõem umacomum, os novos leitores encontrariam inteligência prática e anela, simplesmente, a história de paciência obstinada de umDomingos Correia Silva, um pobre monge. Dessasdiabo, que os maus ventos de 31 o compensaçõesatraíram de Matinhas para cá. Mas, inconscientes, ele tira oDomingos já não existe. Morreu, máximo, em proveitosimbolicamente, logo depois. Mataram- próprio”.no de azedia,com aquele palavrãoesdrúxulo, que o jornal explorou ... Outra descrição física de Começa, assim, o outro lado Tô-te-Ajeitando é feita por Muriloda sua vida, a sua vida propriamente Melins 12:dita, uma história longa e encrespada, 12forrada, toda ela, de uma originalidade Citado por José de Oliveira B. Filho. Tô te Ajeitando inincomum e as características do nosso http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12 /to-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março de 2013.
  6. 6. marcado. Irritava-o, um “ele tinha baixa estatura, simples fuzilar de um olhar branco, raquítico, olhos derramado, furtivamente, azuis, rosto esquálido e pelo transeunte curioso. O sempre trajando paletó, choque,portanto, era gravata e camisa de cores inevitável. Precipitou-o, berrantes”. porém aquela rusga do popular imprudente. Bastou Acrescente uma um grito. Ao berro docircunstancia agravante. Tô-te- polissílabo desentado, oAjeitando é um homem fisicamente nosso herói estrilou. Foi umfeio. Aqui, o adjetivo leva a ampla deus nos acuda. Parecera,honestidade do termo. Não há exagerá- solto, o diabo em plena Rualo. A natureza rude, ainda aqui, o João Pessoa! Largou ascastigou, desabridamente, deformando- gaiolas adubadas deo, como se amassasse uma lata. passarinhos, que vendia, eTorturou-o, quase lhe tirando a forma reagiu. Deitou um semhumana. Fê-lo, assim, enteado numero de impropérios.só adesnaturado. Mais do que isso. Atirou-o custo, evitou-se oa execração pública. escândalo, a que se degeneraria, fatalmente, oCOMO TUDO COMEÇOU – A incidente. Conjurou-o, aPRIMEIRA RUSGA. interferência amigável de várias pessoas, que Segundo João Aguiar, passavam. Ente estas, Tô-te- Ajeitando se recorda muito Reunindo tais bem de uma: o características, nenhum desembargador Hunald homem fugiria as Cardoso, na época, imprecauções de destino Interventor Federal. Valeu- cruel. E, além de tudo Tô- lhe a oportunidade para te-Ajeitando herdará a conhecer o palácio do sensibilidade exagerada dos governo. Esta recordação fracos. Era um homem lhe é cara. Para ali foi
  7. 7. conduzido, logo depois. E Mais adiante em sua quando desceu as suas reportagem, afirma João Aguiar, escadarias, trouxe consigo uma resolução: não daria O mal estava feito. É como mais bolas a que o ele próprio afirma: chamasse pelo apelido. “apelido é como sarampo”. Pensava vencer pela A sua resolução de por impassibilidade. Mas saiu água fria em fogo, nada vencido. adiantaria. De fato. A cidade tomou conta ele, Outra explicação para a fazendo-o o seu maisorigem do apelido é dada pelo professor popular tipo de rua. JáFernando Lins de Carvalho 13: agora, Tô-te-Ajeitando “o apelido veio de uma sente-se mesmo honrado moça que ele paquerava nas com o superlativo. Acha-o Festinhas de Natal no uma honra rara. “Algum Parque Teófilo Dantas, e dia a história fará justiça” que trabalhava em um dos – diz ele, apelando para a bares que lá existia. posteridade ... Quando perguntavam para ele se já tinha conseguido PAU PRÁ TODA OBRA namorar a tal moça , ele respondia tô ajeitando, tô Quando se fala em tipo ajeitando”.14 popular, tipos de rua, quase sempre associam a pessoas portadoras deAPÉLO À POSTERIDADE distúrbios psiquiátricos – doidos, alienados ... Esse não é o caso do personagem em questão.13 Citado por José de Oliveira B. Filho. Tô te Ajeitando in Como bem diz João Aguiar http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12 “Tô-te-Ajeitando não é um caso de /to-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março de 2013. A referencia citada pelo autor psiquiatria”. Muito pelo contrário. Diz é Jornal Gazeta de Sergipe nº. 7.090 de 23/24/05/1982. Entrevista pelo próprio Tô-te- o jornalista, Ajeitando.14 Dizem alguns cronista que o mesmo tinha outro apelido - "Macaca de Maiô".
  8. 8. Atrás daquele tipo esquisito, metara cento o seu velho meio ridículo, meio pau, e armará a sua rede de grotesco, tão conhecido e caroá, na varanda. Se não discutido pelo público, há tiver, dá no mesmo; botará um homem afeito ao o saco nas costas e sairá trabalho, a que se dedica pelas ruas cantarolando: com uma ousadia rara. Já fui tudo na vida. De Eu comunico que meu pai é vendedor de cana caiana a fazendeiro comprador de garrafa, por Eu sou um rapaz ligeiro e tudo passou. Cantou gosto de trabalhar também no Radio. Comprei garrafa e vendo Atualmente vende bilhete da cana caiana Loteria Federal. Na Rua de Itabaiana quando saio a passear Segundo José de Oliveira B. Naquela rua já chegando aFilho, “sempre foi um homem de certo meiomistério. Um desafortunado que vendia Lá eu tenho um arrodeiosorte, vendia loteria”15. Ao final do que não deixo de passarartigo, João Aguiar se apropria da fala Tem um doutor que medo personagem e afirma: presta atenção Que é o doutor Nyceu um Não é um grande negócio, homem de posição mas serve. Às vezes faz (não foi revisto pelo orador) também um fezinha. Isto somente quando tem um daqueles sonhos fantásticos, com a cobra ou a vaca. Se tiver sorte, comparará a sua casinha pintada de branco,15 Citado por José de Oliveira B. Filho. Tô te Ajeitando in http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2009/12 /to-te-ajeitando.html. Acessado em 26 de março de 2013.

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