INTRODUÇÃOA CRÔNICA NAS CRÔNICAS DE A. TITO FILHOEu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores;é...
2A. Tito Filho se utiliza do espaço para produzir um texto que expõe suasimpressões (sua indignação) diante do que observa...
3Quantos processos de vida estão sendo sufocados pelo IAEE?Atesta a LBA, em oficio, que o deve mandar desobstruir fossas d...
4noite, é cêdo, a cidade toda mergulhou na sonolencia, depois dotrabalho exaustivo de seus habitantes. Arrulham ainda pouc...
5Em volta das mesas, as duas qualidades de assistente: o “peru”, quetudo perdeu, inclusive o caminho da honra, e o agiota,...
6Para A. Tito Filho, o jogo se enfileira dentre as piores coisas que poderiamacorrer na cidade, seguido da prostituição (d...
7tenha se fixado décadas após os textos citados acima, quando da publicação deobras como Sermões aos Peixes e Teresina Meu...
8interessantes (e úteis) para o estudo de suas crônicas publicadas no jornal O Dia,entre 1987 e 1992, bem como para a comp...
9repórter em geral um fim, para o cronista é um pretexto: para divagações,comentários, reflexões do pequeno filósofo que n...
10coloquial e o literário, permitindo que o lado espontâneo e sensível permaneça comoo elemento provocador de outras visõe...
11ganharem a visibilidade que a permanência necessita. Além disso, ao analisarmossuas biografias, poderemos perceber até q...
12lhe fornece temas e problemas com os quais discutir quanto modifica e redirecionasuas opções iniciais. Os autores também...
13ser tomadas como séries: a história do Teatro 4 de Setembro, sobre o qual tambémescreveu um livro;31do Liceu Piauiense (...
14Passadas essas abordagens, algumas ideias foram apontadas ao longo dotexto e serão fundamentais para entendermos a forma...
15ponto de vista; afastando-se do desenrolar dos acontecimentos, coloca-se em outroângulo de visão. Assim, se condiciona a...
16pândega. Que dizer das saudosas batalhas de confete e lança-perfume nas praças animadas de inesquecíveis sambas e marcha...
17guia por uma ambição de eficiência e pelo desejo de chegar aalcançar uma determinada realidade, em vez de propor como um...
18significados, pois externam fatos e conflitos existentes, tanto no espaço privadoquanto no espaço público. São resultado...
19cronista consegue fazer funcionar no espaço do texto uma circulação de temas – aí,já é o momento de tomarmos fronteira c...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Introdução

603 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
603
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
52
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
9
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Introdução

  1. 1. INTRODUÇÃOA CRÔNICA NAS CRÔNICAS DE A. TITO FILHOEu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores;é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas corestodas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há sãominúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma.O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo dogrande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. Deágua e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.Rubem BragaTeresina, cidade da perdiçãoEm texto referente aos problemas da cidade de Teresina, “Cidade sem Lei”,1publicado no jornal Resistência,2A. Tito Filho3compara a cidade a um filme tambémchamado Cidade sem lei,4em exibição no Cine Rex. Segundo o autor, qualquer umque tivesse visto o filme observaria o que estava se passando em Teresina, e, noque dizia respeito à insegurança e à ordem pública dos cidadãos, era ela também“uma cidade sem lei.” No perímetro urbano e suburbano, davam-se freqüentesroubos e furtos; a jogatina campeava em todos os recantos da cidade, “enfestada”por legiões de mendigos (alguns verdadeiros e outros falsos) que invadiam lares,cafés e restaurantes. Era possível ver até loucos falando sozinhos e “soltandopinotes”, perambulando pela praça Rio Branco. A. Tito Filho traça também um painelnoturno: das oito da noite em diante a praça Rio Branco se transforma “em cabaréao ar livre”, já que na mesma se aglomeravam dezenas de meretrizes. E finalizaapontando a indiferença (para ele criminosa) das autoridades, sobretudo ogovernador Rocha Furtado,5diante de tais fatos humilhantes e vergonhosos.1TITO FILHO, José de Arimathéa. Cidade sem lei. Resistência, Teresina, 05 novembro 1949, p. 5-6.2Resistência foi um jornal de caráter político (pode-se mesmo considerá-lo um órgão político) dirigidopor Francisco Luís Almeida, destinado a combater o governo de José da Rocha Furtado, que era daUnião Democrática Nacional (UDN).3Biografia do autor4A. Tito Filho provavelmente está se referindo ao filme San Antonio, lançado em 1945 e dirigido porDavid Butler, que contava a história de Jeanne Starr (Alexis Smith), uma dançarina de salão quetrabalhava para o chefe do crime local e que acaba se apaixonando pelo “mocinho” Clay Harden(Errol Flynn).5José da Rocha Furtado (União, 24-02-1909) governou o Estado do Piauí no período de 1947 a 1951e faleceu em Fortaleza (CE) no dia 27 de fevereiro de 2005, aos 96 anos de idade, por conta deproblemas cardíacos. Primeiro governador eleito após o fim do Estado Novo, formou-se em medicinana Universidade do Rio de Janeiro (escola da Praia Vermelha) em 1932. Voltou a Teresina em 1933 e
  2. 2. 2A. Tito Filho se utiliza do espaço para produzir um texto que expõe suasimpressões (sua indignação) diante do que observa no cotidiano da cidade. Mas éimportante perceber também que o espaço do jornal era utilizado para atingir ogovernador: o jornal A Resistência, como o próprio nome já indica, era um espaçode contestação ao governo do interventor federal.6Pensando a crônica a partir docontexto do autor, percebe-se que sua escrita é marcada pelas disputas políticas domomento: a imprensa escrita piauiense foi uma das ferramentas mais utilizadas pelopoder político e partidário em suas propostas e campanhas. Geralmente os jornaispertenciam a políticos ou grupos políticos aliados ao poder (ou contra ele) paraatingir fins político-eleitorais.7É também o próprio autor, em crônica que relembrasua trajetória profissional, que nos possibilita compreender o contexto:Já no Piauí, eleito Rocha Furtado, estive alguns meses na orientaçãodo órgão O Piauí, que circulava nos dias de quinta e domingo, e mefoi confiado por Eurípedes de Aguiar. Posteriormente, fiz parte daredação de outras folhas, sempre partidárias, sob a responsabilidadede governistas ou oposicionistas.8Na crônica A vaca e o Hotel,9A. Tito Filho aborda novamente os problemas dacidade, mas dessa vez já conseguimos identificar alguns elementos que vão além dacrítica política:São 6 horas da tarde de 13 de abril: não há luz. Já comprei, parahoje, 2 pacotões de velas por Cr$ 80,00. O IAEE pagará essadespesa? O IAEE já pagou Cr$ 600.000,00 de lenha que deve aoamigo Edison Parente? Até quando o IAEE martirizará um povo, opovo teresinense?Minha cozinheira afirma que lenha é coisa de civilização primária. Atéquando o IAEE entende que o Piauí deva viver nesse primitivismo decivilizações? Quantas industrias, nesta terra, necessitam de energia?tornou-se diretor dos serviços de cirurgia e pronto-socorro do Hospital Getúlio Vargas, logo após ainauguração do hospital em 1941. Após o fim do governo Vargas em 1945, surgiram vários partidospolíticos, mas os dois mais fortes eram o Partido Social Democrático (PSD) que aglutinousimpatizantes das interventorias – e a União Democrática Nacional (UDN) que reuniu setorescontrários ao governo federal e estadual. Rocha Furtado elegeu-se governador pela UDN, mas seugoverno ficou marcado por graves divergências do Poder Executivo com o Legislativo e o Judiciário,chegando inclusive a sofrer uma tentativa de impeachment pela maioria da Assembléia Legislativa.Ver: bibliografia do livro CEPRO; TITO FILHO, A. Governadores do Piauí: Capitania – Província –Estado. 3. ed. Rio de Janeiro: Artenova, 1978. p. 55.6Para uma leitura ainda mais ríspida da forma como o autor lidava com a situação política deTeresina sob o governo de Rocha Furtado ver: TITO FILHO, A. A sifilização rochista. Resistência,Teresina, 14 novembro 1948, p. 1.7LIMA, Nilsângela Cardoso. Relações de poder e práticas jornalísticas na campanha político-partidária nas emissoras de rádio de Teresina (1948-1962). In: LIMA, Frederico Osanan Amorim;ARAÚJO, Johny Santana de (Orgs.). História: entre fontes, metodologias e pesquisa. Teresina:EDUFPI, 2011. p. 41-54.8TITO FILHO, A. Um pouco de jornalismo. O Dia, Teresina, 22 dezembro 1990, p. 4.9TITO FILHO, A. A Vaca e o Hotel. O Dia, Teresina, 17 abril 1960, p. 1-2, grifos do autor.
  3. 3. 3Quantos processos de vida estão sendo sufocados pelo IAEE?Atesta a LBA, em oficio, que o deve mandar desobstruir fossas dosmeninos das Ilhotas. Para isto que serve o IAEE? As turbinas vivemde lenha, primariamente. Energia que vem das turbinas. Quanto deveo IAEE aos fornecedores de lenha para movimentar as turbinas?Verdade é que o IAEE só tem sido útil aos ladrões noturnos e aocomercio de velas. A mais ninguém. Graças a Deus de cá dos meusdomínios ladrão leva o que se leva da vida: nada. Mas tenhopadecido muito, sem defunto em casa, com compra diária depacotões. Cr$ 40,00 cada um. Pior que eu só o correto EdisonParente: compra pacotão e não recebe o dinheiro da lenha quevendeu ao IAEE. (Grifos do autor).Aqui são perceptíveis elementos que diferenciam este texto do anterior, já que,como vimos, o contexto da escrita do autor era marcado pelas disputas políticasdaquele momento. Apontar a lenha como algo pertencente às civilizações primáriasnos dão pistas, indícios, de que há uma elaboração discursiva que tenta organizar acidade, apontar seus defeitos, os culpados e, conseqüentemente, as soluções.10Assim, a falta de luz só pode mesmo ser algo absurdo, coisa de país (ou cidade)atrasada. Ela atrasa os “processos de vida” e as necessidades das indústrias.Portanto, o Instituto de Águas e Energia Elétrica (IAEE)11estaria atrasando oprogresso da cidade. Seria possível para A. Tito Filho, se contentar apenas emquerer organizar a cidade? Pesquisando os textos do autor, sobretudo aquelespublicados no jornal O Dia, percebemos que organizar a cidade é apenas uma etapado processo. É preciso dar conta das pessoas também, ou melhor, da sociedade.Em outra crônica, da década de 1940, percebe-se como o autor lidou com aquestão dos jogos de azar em Teresina, sobretudo o jogo do bicho. Ora, se é dointeresse do autor organizar a cidade, civilizá-la, deparar-se com algo tãocomplicado como o jogo – considerado naquele momento como crime – erainsuportável. Na crônica (na verdade uma crônica-reportagem) Jogo muito Jogo,12que considero importante reproduzi-la aqui praticamente na íntegra, A. Tito Filho falasobre o problema do jogo em Teresina:[...] Despe, leitor amigo, a roupagem vistosa com que te apresentasante as frivolidades da sociedade e vem comigo, lado a lado, parauma peregrinação noturna nos antros da jogatina. São oito horas da10GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, Emblemas, Sinais:morfologia e história. 2. ed. Tradução de Federico Carotti – São Paulo: Companhia das Letras, 1989.p. 145-179.11O IAEE foi o órgão antecessor da Águas e Esgotos do Piauí S.A. (AGESPISA) criada através dasleis estaduais n.º 2.281, de 27 de julho de 1962 e 2.387, de 12 de dezembro de 1962 e das CentraisElétricas do Piauí S.A. (CEPISA) que foi criada em 08 de agosto de 1962.12TITO FILHO, A. Jogo muito Jogo. O Piauhy, Teresina, 11 abril 1948, s/p.
  4. 4. 4noite, é cêdo, a cidade toda mergulhou na sonolencia, depois dotrabalho exaustivo de seus habitantes. Arrulham ainda poucos casaisnos bancos de praça, mocinhas acabam de cansar as batatas daperna volteando na pista da Pedro II. Daqui a pouco tudo dorme.Apenas funciona o jogo, a terrível chaga social – sorvedouro dahonra de muitos, desgraça de tantos lares, causa de inumerastragedias. Funciona o jogo, leitor amigo, no centro da antigaChapada do Corisco – nos clubes, nos bares, em casas particulares,em toda a parte. Desaparecem, no torvelinho medonho da jogatina, opão, a roupa, o livro, a educação de muitas crianças teresinenses.Esposas aflitas rezam no recesso de residencias humildes, chupandomuitas vezes a carie de um dente, ou, em cima de três pedras,preparam um ralo mingau de farinha com que entupir o bucho dascrianças famintas, enquanto o marido, no covil da jogatina, descarta-se do dinheiro, do relogio e da aliança de casamento para alimentaro terrível vicio – fumando e bebendo, dores nas costas, debruçadona mesa fatídica, ou avido, nervoso, espiando a roda de roleta,atento ao ruído da palheta, ou, ainda, ouvido apurado, marcandonumeros, á espera de que lhe dêem, no víspora, a pedra boa ...JOGO, MUITO JOGO- Cinqüenta e cinco ... numero oito ... noventa ...É a voz arrastada do chamador, anunciando as pedras do víspora,uma a uma, os viciados, palidos e pigarrentos, marcam os cartões,entre baforada de um cigarro quando estes desgraça os restos depulmões e o trago de aguardente que lhes corroe as tripas ...Reino da batota e do deboche – a comunidade de caras maldormidas se expande, depois do ultimo rateio, no linguajar de calão,parebenizando os felizardos da noite e consolando, com umapalmada nas costas, so companheiros de desgraça e desventura.Um pouco mais adiante, leitor amigo, o croupier anuncia, com gostoinfinito, o ultimo lance da roleta miserável:- Deu 15, jacaré ... Cercado com dois mil reis.O desgraçado, mãos nos bolsos, coçando os ultimos tostões doordenado ou as ultimas economia do pé de meia, lembra-se dosonho de tres dias atras, soma, multiplica, subtrai, divide por dez – everifica, após maldizer a sorte ingrata, que o bicho era mesmo ojacaré ...A RONDA DOS AGIOTASNão se assuste leitor amigo. Estiremos as peruas um pouco mais, eobservemos a praga do jogo. Da Praça Rio Branco à Piçarra, daPiçarra as imediações da Praça Landri Sales, desta a rua ÁlvaroMendes, daqui à rua Areolino de Abreu. Das frestas das janelas edas portas, saem os minusculos focos das luzes denunciadoras. Emtudo domina o silencio, impera o sussurro. Poucas vezes reboa agargalhada. Ouve-se bem o ruído de mãos tremulas traçando obaralho. Poker. Bacarat. Pifpaf.O Parceiro “chora” as cartas, visando à sensação. “Entrou no meio”,“seus vinte e mais quarenta”, “abro com dez”, “colei umasequenciazinha” – são as frases ensaiadas, ensarilhadas,engatilhadas ...
  5. 5. 5Em volta das mesas, as duas qualidades de assistente: o “peru”, quetudo perdeu, inclusive o caminho da honra, e o agiota, na rondamacabra, olhos fitos nas joias do parceiro infeliz, consciencia firmenos 40 % ou 50 % de lucros à custa da vida hipnotizada ...Além das questões relativas à cidade e seus problemas, é possível percebernesta crônica boa parte das características do gênero apontadas por vários autoresque estudam ou utilizaram-na como fonte (falarei mais sobre essas questões nasegunda parte desta introdução): a leveza do texto, elaborado num formatoespontâneo, como uma conversa; a cumplicidade entre autor e leitor, sobretudoquando A. Tito Filho assume a responsabilidade de levar o leitor (como que pelamão) por caminhos tortuosos e perigosos da cidade e que poucos (provavelmente)conhecem; a intervenção na realidade, sobretudo na riqueza dos detalhes e dasdescrições; os apelos feitos aos devidos responsáveis para que medidas fossemtomadas, além do conteúdo da crônica em si: o problema dos jogos de azar. Nacrônica Teresina, cidade da perdição,13pouco mais de um ano depois, o autor,agora sob o pseudônimo de PERTINAX e escrevendo para outro jornal da cidade,volta a abordar o tema, no que ele diz ser a primeira de uma série de reportagenssobre o assunto.É o único texto em que A. Tito Filho aborda o tema. Poderíamos, portanto,apontar que a crônica foi marcada pela indeterminação. Apesar do que o autorinformou, perece ter sido a única reportagem sobre o assunto. Pesquisando nosjornais dos dias e meses seguintes, outras reportagens não apareceram. Por quê?Dificílimo apontar algum motivo. Pressões por parte de autoridades e de políticospara que novas reportagens não fossem realizadas, já que elas não só apontavamos problemas do cotidiano da cidade, mas também apontavam a incompetência enegligência destes, ou mesmo simplesmente apareceram temas que o autorconsiderou mais importante abordar, podem ser tomadas como hipóteses. Dequalquer forma, fica claro no texto a preocupação do autor com o jogo. Ele apontaque o jogo de azar campeia livremente nas ruas da capital teresinense, queconsidera uma afronta a Nação inteira (!) e às leis que governam a sociedade, comoque desafiando as autoridades, fazendo com que se duvide até que por trás dosbastidores políticos existam pressões interessadas e coniventes com a situação (tidacomo criminosa).13PERTINAX. Teresina, cidade da perdição. A Resistência, Teresina, 7 ago 1949, p. 5-6.
  6. 6. 6Para A. Tito Filho, o jogo se enfileira dentre as piores coisas que poderiamacorrer na cidade, seguido da prostituição (desenfreada), do alcoolismo (semrepressão), da mentalidade sem auxilio prático e resoluto do Governo e da infânciadelinqüente e abandonada. O jogo se sobrepõe a qualquer outro problema porquederruba instituições, degrada a mente e abre caminho para o crime. O jogo eraconsiderado o início do fim: quando, numa nação ou Estado, as pessoas procuramno vício do jogo um motivo para sua degradação moral, o que existe de mais puronelas estará perdido. Interessante também observar como o autor descreve opróprio trabalho de reportagem:O nosso objetivo era atingir o covil do jogo. Vê-lo de perto. Sentir assensações que ele nos oferece para podermos pintar o quadro realpara os nossos leitores. Dez ou mais cambistas ali estavamlocalizados. De momento a momento, as poules eram arrancadasdos talões e os centavos e os cruzeiros dos incautos caiam em seusbolsos como o maná do Céu no Sermão da Montanha. Mas, não eraali o Quartel General do jogo do bicho. Não seriam, também, o ‘Bardo Carvalho’ e o ‘Restaurante Cairú’, os pontos de reuniões dostransgressores da lei!14A espeficifidade de um tema como o do jogo, para um leitor de hoje, apresentaa necessidade de uma cuidadosa tarefa de interpretação para compreender ostermos do cronista. Só assim será possível relacionar com sucesso esses textos àrealidade que é ao mesmo tempo a matéria-prima e o horizonte de intervenção docronista. Longe de refletir ou espelhar um momento da história de Teresina, o que A.Tito Filho tenta fazer é conhecê-la da forma mais aprofundada possível, indo ondeseja necessário para transformá-la. Para isso, se utiliza de um tom leve, que atrai oleitor, combinado com o alcance possibilitado pelo trabalho na imprensa. Assim, eletambém consegue traçar um perfil para suas séries, que torna a crônica uma formade trabalho ainda mais complexo de se lidar enquanto fonte.Portanto, para atingir os objetivos delimitados nesta introdução, será precisotraçar um perfil da crônica, que nos ajudará a perceber de que forma A. Tito Filho seutilizou dessa ferramenta15para tratar de uma série de temáticas (relacionadas àhistória do Piauí e de Teresina) bem como de conteúdos que surgiam a partir de suarelação com o presente mais imediato (da cidade de Teresina e de um cenário maisamplo referente ao Brasil). Ainda que a identidade do autor enquanto cronista só14TITO FILHO, A. Jogo muito Jogo. O Piauhy, Teresina, 11 abril 1948, s/p.15O que implica não percebê-las como meio. Ver: RORTY, Richard. A contingência da linguagem. In:Contingência, ironia e solidariedade. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2007 –(Coleção Dialética). p. 25-55.
  7. 7. 7tenha se fixado décadas após os textos citados acima, quando da publicação deobras como Sermões aos Peixes e Teresina Meu Amor, o que procuro deixarmarcado aqui é que de certa forma a crônica já estava presente na obra (jornalística)do autor mesmo quando seu campo de atuação ainda era aquele relacionado aojornalismo, sobretudo um jornalismo de forte caráter político, seu principal espaço deatuação durante as décadas de 1950 e 1960.16Quando mantinha uma coluna diáriano Jornal do Piauí o autor já se debatia acerca das dificuldades relacionadas aogênero:A crônica é gênero dificílimo. Tornar os pequenos como os grandesepisódios do dia-a-dia da vida, penetrar-lhe a sutileza, o poético, otrágico, interpretá-los com sensibilidade, alcançar de cada um aessência para projetá-la na inteligência do leitor – tudo isto é tarefade muita nobreza intelectual. A crônica deve ser precisa e natural. Deredação artística. De índole diversa, mas sempre de interêsse geral.A razão de ser do cronista está no esforço de FAZER VIVER, deTORNAR VIVOS os pormenores, as cousas, os seres, os pedaçosde natureza.17Assim, percebo que ao longo da carreira do autor a crônica teve presençaconstante, ainda que na forma de reportagens e o cronista aparecesse na forma dejornalista. Nas crônicas citadas acima, penso que começa a aparecer (melhor seriadizer, forjar-se) a identidade que marcaria a obra (e mesmo a vida) de A. Tito Filho: ado cronista da cidade amada.18Mas é preciso, então, estabelecer um perfil dascrônicas que serão trabalhadas ao longo desta dissertação. Para isso faremos umaleitura das diferentes formas e abordagens que a crônica tomou e continua a tomarem diferentes autores, e tentar identificar que elementos serão aqueles mais16A. Tito Filho atuou em diversos órgãos de imprensa do Piauí (chegou inclusive a criar alguns) apartir de 1948, quando retornou à Teresina vindo do Rio de Janeiro, local onde realizou sua formaçãoem direito e jornalismo. Ainda no Rio de Janeiro, fundou o jornal Libertação, em parceria com LuísCosta, Virmar Soares, Vinícius Soares e Tibério Nunes. Redigido e impresso no Rio de Janeiro, ondeos fundadores eram estudantes, o jornal era transportado de avião para Teresina e teve apenas trêsnúmeros. A. Tito Filho também atuou (ou dirigiu) outras publicações (algumas eram revistas) como OPirralho (1948), Jornal do Piauí (1951), A Luta (1952), Crítica (1952), Panóplia (1953), Folha daManhã (1958), Cidade de Teresina (1959), Folha do Nordeste (1962), Voz do Piauí (1964) e Jornal deBolso (1966). Seus espaços de atuação na imprensa que podemos considerar como os mais “fixos”foram: jornal O Dia, onde trabalhou em boa parte da década 1960, depois retornando no períodoabordado por esta pesquisa, de 1987 à 1992, ano de seu falecimento; no Jornal do Piauí, onde erapublicada sua coluna Caderno de Anotações, de 1970 à 1982; passagens pelo jornais O Estado eJornal do Comércio ao longo da década de 1980. Além disso, publicou dezenas de texto e discursosem revistas como Presença, Almanaque da Parnaíba e Revista da Academia Piauiense de Letras.Ver mais em: PINHEIRO FILHO, Celso. História da Imprensa no Piauí. Teresina: COMEPI, 1972. p.79-99.17TITO FILHO, A. Caderno de Anotações. Jornal do Piauí, Teresina, 03 dezembro 1971, p. 6.18MOURA, Francisco Miguel de. Tito Filho – namorador-mor de Teresina. In: TITO FILHO, A.Cronista da cidade amada. Seleção de textos de Cineas Santos e M. Paulo Nunes. Teresina:Prefeitura Municipal de Teresina, 1992.
  8. 8. 8interessantes (e úteis) para o estudo de suas crônicas publicadas no jornal O Dia,entre 1987 e 1992, bem como para a compreensão das diferentes abordagens quefaremos ao longo dos capítulos. Portanto, a crônica referente aos jogos de azar emTeresina, que citei quase em sua totalidade, será de fundamental importância parapercebermos a importância que a crônica (e o cronista) tem no estudo dos textos deA. Tito Filho, bem como demonstrar as inúmeras possibilidades que elas podemproporcionar ao historiador. Delimitarei que critérios serão importantes para aanálise das crônicas do autor, no intuito de demonstrar de que forma ele se utilizouda crônica para a realização de sua escrita. Ou melhor, de que forma a crônica lhepermitiu historiar temáticas da história e do cotidiano de Teresina, do Piauí e doBrasil, e ao mesmo tempo atravessar para o outro lado da crônica, aquele que lhepermitiu fazer dela um testemunho de si mesmo.Com muito farás pouco19Muitas abordagens diferentes marcam o estudo da crônica, mas algumascaracterísticas são mais presentes, e alguns aspectos se repetem em diferentesautores. De certa forma, ela ganha contornos específicos de acordo com o momentoestudado, bem como os objetivos estabelecidos. Para Afrânio Coutinho, a crônicasurge como desdobramento do ensaio, gênero tradicional entre os britânicos.20Égênero específico, estritamente ligado ao jornalismo. A crônica pode tornar-se umpoderoso agente de correção dos costumes, ainda que tenha “ares de umpassatempo frívolo”. Numa classificação dos cronistas brasileiros bem como dastemáticas relacionadas ao estudo da crônica no Brasil, aponta dentre outras arelação entre a crônica e a reportagem: a crônica que não seja meramente noticiosa,é uma reportagem disfarçada, ou antes, uma reportagem subjetiva e às vezesmesmo lírica, na qual o fato é visto por um prisma transfigurador. O fato que é para o19Referência a uma passagem de artigo de Carlo Ginzburg presente em A micro-história e outrosensaios, “Os pombos abriram os olhos: conspiração popular na Itália do século XVII”. No texto,Ginzburg apresenta um estudo do que ele chama de “mediadores culturais”: figuras que conseguemfazer a passagem de temas da cultura erudita para a cultura popular e vice-versa. A frase “com poucoconseguirás muito” é uma espécie de referência que o autor faz a pouca documentação apresentadano artigo. Penso que trabalhar com crônicas tem a ver com o que ele aponta: o cronista é umaespécie de mediador cultural, já que está entre o leitor e o cotidiano. Não sei se isso ficou claro notexto, mas de qualquer forma eu queria explicar o título da seção. Além disso, como a professoraTeresinha Queiroz apontou, no que diz respeito a A. Tito Filho poderíamos mesmo dizer – “com muitofarás pouco!”.20COUTINHO, Afrânio. Ensaio e crônica. In: A Literatura no Brasil: volume 6 – parte 3 – Relações ePerspectivas (Conclusão). 7. ed. São Paulo: Global, 2004. p. 117-143.
  9. 9. 9repórter em geral um fim, para o cronista é um pretexto: para divagações,comentários, reflexões do pequeno filósofo que nele exista.Veremos mais a frente, na crônica sobre os jogos de azar em Teresina, comoA. Tito Filho, fazendo uma reportagem, se utiliza de uma série de elementos dacrônica para fazer do texto uma abordagem pessoal da realidade, onde o leitor éconduzido “como que pela mão” para uma peregrinação noturna aos espaços dacidade onde a jogatina era praticada. Além disso, o texto possui um forte caráterdialógico, onde o autor a todo o momento tenta imprimir a marca de umaconversação, que tem como base a observação direta do que é descrito. Quanto aocaráter apontado por Afrânio Coutinho acerca da “correção dos costumes”, veremostambém a forma como A. Tito Filho cobra medidas enérgicas das autoridades. Noterceiro capítulo, veremos como essa característica é bem mais acentuada nascrônicas publicadas no jornal O Dia,21sobretudo ao abordar uma série de temas quevão do carnaval à política nacional.Para Jorge de Sá, a crônica torna os fatos efêmeros mais concretos. Essaconcretude lhes assegura a permanência, impedindo que caiam no esquecimento, elembra aos leitores que a realidade – conforme a conhecemos, ou como é recriadapela arte – é feita de pequenos lances. Essa estratégia estabelece o principio básicoda crônica: registrar o circunstancial.22Para ele, o cronista é uma espécie denarrador-repórter, que relata um fato não mais a um só receptor privilegiado, mas amuitos leitores que formam um público determinado. Assim como Afrânio Coutinho,reafirma a relação que a crônica mantém com o jornalismo e a literatura: ela seriauma soma das duas. A crônica surge primeiramente no jornal, herdando a suaprecariedade, esse seu lado efêmero que nasce no começo de uma leitura e morreantes que se acabe o dia. O jornal, portanto, nasce, envelhece e morre a cada 24horas. A crônica também assume essa transitoriedade, dirigindo-se sobretudo aleitores apressados. Sua elaboração também assume essa urgência: o cronistadispõe de pouco tempo para produzir seu texto. Não é a toa que a falta de tempo, oumesmo de assunto, é tema recorrente nas crônicas de vários autores. Outracaracterística marcante da crônica é o coloquialismo do texto, que marca a intençãodo cronista de elaborar um diálogo com o leitor. Esse dialogismo equilibra o21As crônicas estudadas aqui e ao longo da pesquisa estão disponíveis na internet, no endereço: <www.acervoatitofilho.blogspot.com >. Acesso em: 01 abril 2013.22SÁ, Jorge de. A crônica. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987. p. 06.
  10. 10. 10coloquial e o literário, permitindo que o lado espontâneo e sensível permaneça comoo elemento provocador de outras visões do tema e subtemas tratados nas crônicas.O cronista busca, assim, o circunstancial. Este é o pequeno acontecimentocotidiano do dia a dia, que poderia passar despercebido ou relegado amarginalidade por ser considerado insignificante. Com seu toque de lirismo reflexivo,o cronista capta esse instante brevíssimo que também faz parte da condiçãohumana e lhe confere (ou lhe devolve) a dignidade de um núcleo estruturante deoutros núcleos, transformando a simples situação no diálogo sobre a complexidadedas nossas dores e alegrias. A pressa de viver desenvolve no cronista umasensibilidade especial, que o predispõe a captar com maior intensidade os sinais davida que diariamente deixamos escapar. Sua tarefa, então, consiste em ser nossoporta-voz, o intérprete aparelhado para nos devolver aquilo que a realidade não-gratificante sufocou: a consciência de que o lirismo no mundo atual não pode ser asimples expressão de uma dor de cotovelo, mas acima de tudo um repensarconstante pelas vias da emoção aliada à razão.23Além disso, o cronista não perdede vista que a situação particular só conta para o leitor na medida em que funcionacomo metáfora de situações universais, o que permite que façamos da leitura umaforma de catarse e empatia. Recompor a própria história individual é uma forma de ocronista nos ensinar a compor a nossa história na condição de pessoas ligadas atantas e tantas heranças culturais. É importante que o cronista se defina numdeterminado tempo e espaço, compondo uma cronologia nunca limitadora, massempre esclarecedora da sua/nossa relação com os seres e com os objetos.Essas ideias serão importantíssimas para compreendermos, no primeirocapítulo, de que forma o autor se utilizou da crônica para biografar a vida de autorese intelectuais piauienses do passado (e alguns do presente). Não as escreviaapenas com o intuito de prestar homenagens, mas para tornar visíveis figuras “queos piauienses desconhecem”,24ou porque são figuras que “infelizmente, o Piauíignora os filhos que o honraram e enalteceram nos domínios da inteligência”.25Acrônica, dotada daquela concretude que assegura a permanência, ajudava o autor aassegurar a visibilidade necessária para vencer o circunstancial. Os biografados porA. Tito Filho, ainda que ignorados pelos piauienses, poderiam por meio das crônicas23SÁ, Jorge de. A crônica. 3. Ed. São Paulo: Ática, 1987. p. 11-13.24TITO FILHO, A. Caçador. O Dia, Teresina, 10 março 1988, p. 4.25TITO FILHO, A. João Alfredo. O Dia, Teresina, 08 abril 1988, p. 4.
  11. 11. 11ganharem a visibilidade que a permanência necessita. Além disso, ao analisarmossuas biografias, poderemos perceber até que ponto (e como) A. Tito Filho elaborouesses textos para também se inserir entre os intelectuais sobre os quais escreve. Aoescrever sobre os intelectuais piauienses ele também escreve sobre sua própriatrajetória de intelectual. Portanto, o objetivo será saber como, ao escrever sobreautores do passado da literatura (e intelectualidade) piauiense, ele buscou darsentido a sua própria trajetória de intelectual e também como esta escrita nospermite conhecer aspectos da vida literária do Piauí.O cronista, portanto, também é um escritor, também deseja escrever algo quefique para sempre. A crônica é uma tenda de cigano enquanto consciência da nossatransitoriedade; no entanto é casa, quando reunida em livro, onde se percebe commaior nitidez a busca de coerência no traçado da vida. Quando o cronista fala de simesmo, é a vida que está sendo focalizada por uma câmera disposta a alcançar umamplo raio de ação. Ao narrar o mundo, o cronista narra a si mesmo, e assim vencea passagem do tempo.26Já para Chalhoub et al, as crônicas são textos surgidos ao acaso, daespontaneidade de uma conversa – as crônicas teriam como uma de suascaracterísticas primeiras a leveza. Elas surgem da tensão entre a elaboraçãonarrativa e o dever de dialogar de forma direta com os temas e questões de seutempo, definindo-se o perfil de um gênero que teria importância central na produçãoliterária brasileira a partir de meados do século XIX.27Dentre as características quemarcam o gênero, apontam a cumplicidade construída entre o autor e o leitor quantoaos temas e questões a serem discutidos. Ao estabelecer essa espécie de acerto decontas com o presente, a crônica teria como uma de suas marcas esse caráter deintervenção na realidade, com a qual interagia. As formas pelas quais os cronistasbrasileiros buscaram realizar tal intento foram variadas. Em comum, no entanto,estava o cuidado demonstrado na delimitação de um perfil próprio para suas séries,que torna um tanto mais complexo o tipo de intervenção caracterizado pelascrônicas.Outra característica é a indeterminação, sobretudo a natureza de suaindeterminação. O cronista está sempre sujeito ao imponderável do cotidiano, que26SÁ, Jorge de. A crônica. 3. Ed. São Paulo: Ática, 1987. p. 17-22.27CHALOUB, Sidney et al. Apresentação. In: CHALOUB, Sidney; NEVES, Margarida de Sousa;PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas: capítulos de história social dacrônica no Brasil. Campinas: UNICAMP, 2005. p. 11.
  12. 12. 12lhe fornece temas e problemas com os quais discutir quanto modifica e redirecionasuas opções iniciais. Os autores também reforçam a estreita ligação da crônica coma imprensa. Essa ligação vincula a crônica e o cronista ao jornal em que sepublicam, e também permite o aparecimento de colunas especializadas. Por último,apontam que da aparente contradição entre a leveza e a cuidadosa elaboração desuas séries, da tensão entre a tarefa de comentar a realidade e o intuito detransformá-la; e da variedade de formas e temas por elas assumidos, define-seenfim um perfil para a crônica.28Ainda que façam questão de apontar essas características como maisfreqüência na produção dos autores brasileiros da segunda metade do século XIX eda primeira metade do século XX, e mesmo que algumas das características sejamcontestáveis – como a (suposta) indeterminação presente nas crônicas –, acaracterística referente à elaboração de séries será fundamental para entendermoscomo A. Tito Filho construiu em suas crônicas um conjunto delas, que serãoestudadas aqui. As crônicas referentes aos intelectuais piauienses, por exemplo,constituem a série a ser trabalhada no primeiro capítulo.Outro conjunto é a série referente à história contemporânea do Brasil, que éabordada por Tito Filho nas crônicas estudadas no segundo capítulo: abordamdesde a Independência do Brasil à abolição da escravatura no Piauí; do povoamento(“desbravamento”) do Piauí ao Estado Novo no Piauí. Nelas, o autor buscacaracterizá-las como textos que historiam,29marcadas pelo conceito antigo decrônica, ou seja, textos que procuram zelar pela memória dos acontecimentosimportantes. O cronista almeja, “pondo em crônica”, organizar cronologicamentehistórias existentes, ou organizar do ponto de vista da memória (portanto, um pontode vista subjetivo), fixar aquilo que um dia aconteceu, que um dia foi presente. Aambição do cronista é justamente escrever algo que fique num espaço que é feitopara as pessoas lerem e se esquecerem do que foi lido.30Além das temáticascitadas anteriormente, outras marcam presença em seus textos, e também podem28CHALOUB, Sidney et al. Apresentação. In: CHALOUB, Sidney, Margarida de Sousa; PEREIRA,Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas: capítulos de história social da crônica noBrasil. Campinas: UNICAMP, 2005. p. 17.29LOPES, Telê Porto Ancona. A crônica de Mário de Andrade: impressões que historiam. In:Candido, Antonio [et al]. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil.Campinas: UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 165-188.30LOPES, Telê Porto Ancona. A crônica de Mário de Andrade: impressões que historiam. In:Candido, Antonio [et al]. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil.Campinas: UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 165-66.
  13. 13. 13ser tomadas como séries: a história do Teatro 4 de Setembro, sobre o qual tambémescreveu um livro;31do Liceu Piauiense (onde foi professor); o Brasil Republicano,sobretudo a trajetória constitucional do poder executivo e o momento mais presenteda chegada de Fernando Collor ao poder; e alguns textos que abordam autores (ehistoriadores) piauienses, onde fez questão de deixar marcada uma abordagem dahistória e do cotidiano de Teresina (e do Piauí) a partir de leituras de obras literáriasque considerava importantes (a literatura piauiense como lugar de produçãohistoriográfica?), como por exemplo: Benedita,32Malhadinha,33Um Manicaca34eContos do Sertão do Piauí.35Um problema importante a ser resolvido é o que diz respeito à motivação que oautor teve para a produção destas séries de crônicas sobre a história do Brasil e doPiauí. Além disso, o porquê de uma atenção tão grande dada à literatura do Piauí,sobretudo se levarmos em conta que os livros citados acima têm em comum umaintensa vontade de não apenas narrar uma história, mas ao mesmo tempo retrataruma realidade. O primeiro problema poderia ser resolvido a partir do estudo deaspectos relativos ao processo de redemocratização do Brasil: seria a necessidadede atualizar a história do Brasil e do Piauí por conta de uma demanda?36Umapreocupação do autor em fazer da história do Piauí parte da história nacional?37Quanto à atenção dada à literatura piauiense, poderíamos relacioná-la ao fato deque nessas crônicas A. Tito Filho buscou construir para si uma identidade de sujeitoleitor, de sujeito que aprendeu a partir do hábito da leitura, que cultivou desde ainfância.38No segundo capítulo, veremos como o autor se utilizou da crônica parafazer uma leitura da história do Brasil e do Piauí, e ao mesmo tentar resolver doisproblemas: inserir a história do Piauí na História do Brasil e construir para si umaidentidade de leitor.31TITO FILHO, A. Praça Aquibadã, sem número. Teresina: Governo do Estado do Piauí, 1975.32PACHECO, Edson. Benedita: a pureza que emergiu do lodo. Brasília: Gráfica do Senado Federal,1983.33RÊGO, José Expedito. Malhadinha. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 1990.34NEVES, Abdias da Costa. Um Manicaca. 5. ed. Teresina: CORISCO, 2012.35GAMEIRO, Alvina. Contos dos Sertões do Piauí. Teresina: Academia Piauiense de Letras/ProjetoPetrônio Portella, 1988.36MONTEIRO, Charles. Porto Alegre e suas escritas: história e memórias da cidade. Porto Alegre:EDIPUCRS, 2006. p. 25.37TITO FILHO, A. Independência no Piauí. O Dia, 05 abril 1990, p. 4. Disponível em: <http://migre.me/cwvWn >. Acesso em: 20 dezembro 2012.38TITO FILHO, A. Leitura. O Dia, 26 abril 1990, p. 4. Disponível em: < http://migre.me/cww1M >.Acesso em: 20 dezembro 2012.
  14. 14. 14Passadas essas abordagens, algumas ideias foram apontadas ao longo dotexto e serão fundamentais para entendermos a forma como A. Tito Filho elaborouos temas que perpassam os capítulos desta dissertação: a intenção do cronista deatuar como uma espécie de “agente de correção” do costumes, apontada por AfrânioCoutinho; a relação entre efemeridade e concretude, a crônica como o registro docircunstancial; e por último, a construção de séries (temáticas) ao longo da trajetóriado cronista, apontada por Chalhoub et al. De certa forma, elas estão presentes emtodos os capítulos. Mas no terceiro capítulo elas aparecem com muito maisintensidade, onde veremos como o tema mais presente nas crônicas de A. TitoFilho, a cidade de Teresina, é trabalhado. Ela é tema de uma de suas obras maisconhecidas39e espaço central de uma série de temas que marcaram, sobretudo,seus textos publicados em livros: os carnavais de Teresina, a história do Teatro 4 deSetembro, episódios relativos à fundação da cidade, bem como personagens quemarcaram a história da cidade ou que o cronista considerava importantes e julgavaesquecidos – muitos dos quais ele conheceu pessoalmente. Assim, o objeto dascrônicas é o cotidiano construído pelo cronista através da seleção que o leva aregistrar alguns aspectos e eventos e abandonar outros.40As crônicas chamam a atenção por ser correspondente, em seu estilo, àprópria dinâmica do momento vivido. Através das crônicas procuramos perceber deque forma um determinado presente é entendido ou vivido.41Assim, pensamos ocronista como alguém que está como que vivendo entre o passado e o futuro. Aintenção é justamente mostrar que a forma como ele observa o cotidiano42da cidade(e estabelece diálogos com o cotidiano nacional, já que boa parte dos textostambém trata de temas relativos ao Brasil, sobretudo a cultura brasileira) se dá emtermos extemporâneos,43ou seja: o que vai de encontro ao espírito da época, o quea ele se contrapõe. O extemporâneo é aquele que adota duas posturas básicas: ocombate e a distância. Põe-se à distância do que ocorre à sua volta, para alterar o39TITO FILHO, A. Teresina meu amor. Teresina: COMEPI, 1973.40NEVES, Margarida de Sousa. Uma escrita do tempo: memória, ordem e progresso nas crônicascariocas. In: Candido, Antonio [et al]. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações noBrasil. Campinas: UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 75-92.41BERBERI, Elizabeth. Impressões: a modernidade através das crônicas no início do século emCuritiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. 115 p.42MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e cultura: história, cidade e trabalho. Bauru: EDUSC,2002.43MARTON, Scarlett. Por que sou um extemporâneo. In: Extravagâncias: ensaios sobre a filosofiade Nietzsche. 2. ed. São Paulo: Discurso Editorial/UNIJUÍ, 2001. p. 19-49.
  15. 15. 15ponto de vista; afastando-se do desenrolar dos acontecimentos, coloca-se em outroângulo de visão. Assim, se condiciona a combater a cultura de seu tempo, para dizera (sua) verdade. A todo o momento, veremos como A. Tito Filho procura estabelecercontrastes e paralelos entre a Teresina do presente e a do passado. Por exemplo,em uma de suas crônicas podemos ler que[...] a criança vive entregue a própria sorte. A rua simboliza o lar –pois as nossas crianças moram na rua, ou porque não têm lar ouporque apenas conhecem a casa da moradia – a casa em que osmembros da família se encontram para o repouso madrugadino.44Para ele, que fala sobre o momento presente da cidade, as mulheres são asculpadas por esta situação de abandono das crianças, já que sua entrada nomercado de trabalho as retirou do espaço doméstico e o resultado se vê “noabandono dos filhos pequenos, que se criam sem carinho e sem afeto”. O mesmotipo de reflexão aparece em seus textos sobre os carnavais de Teresina, em que oautor despreza os carnavais da cidade do presente, como na passagem abaixo:Na terça-feira fui ver a carnavalescação da avenida Frei Serafim.Mau gosto generalizado. Frescura muita. No meu tempo de rapaz, sóhavia de baitola o animado Bernardo Alfaiate, que sempre saía debaiana cheia de enfeites, de vistosos adornos na cabeça, mas sempeitos. Aplaudidíssimo. Agora o carnaval se faz com veados ebumbuns. Cada maricas de seios e salamaleques que dá gosto. Asfêmeas de traseiros à mostra e algumas até de boi de cara preta deninguém botar defeito. Não vi exibição de beleza feminina, massimples e veemente pornografia.45A essa imagem, o autor contrapõe a de um carnaval do passado, um carnavaldas letras,46sobretudo pela presença marcante de intelectuais, políticos e pessoasligadas à cultura, o que podemos observar em Carnavais de Teresina e na série detextos que foram publicados no jornal O Dia:O carnaval valia uma festa de graça, de bom humor e de contagiantealegria. Em tempos mais remotos, quando a folia se iniciava, depoisque se proibiu a estúpida brincadeira do entrudo, ainda no séculopassado, o carnaval se fazia nos bailes dos clubes sociais e nas ruas- e nessa época mais antiga a máscara era a principal fantasia noreino de Momo. E a evolução para melhor se processou ano por ano,apareceram os ranchos, os cordões, os blocos, cheios deentusiasmo, que percorriam as ruas e prestigiavam as danças nossalões. Uma beleza, momentos de efusivas manifestações de44TITO FILHO, A. As pobres vítimas. O Dia, 19 outubro 1987, p. 4. Disponível em: <http://migre.me/cww3v >. Acesso em: 20 dezembro 2012.45TITO FILHO, A. Carnavalescação. O Dia, 07 março 1989, Teresina, p. 4. Disponível em: <http://migre.me/cww5D >. Acesso em: 20 dezembro 2012.46LAZZARI, Alexandre. Coisas para o povo não fazer: carnaval em Porto Alegre (1870-1915).Campinas: Editora da Unicamp/CECULT, 2001. – (Coleção Várias Histórias).
  16. 16. 16pândega. Que dizer das saudosas batalhas de confete e lança-perfume nas praças animadas de inesquecíveis sambas e marchasexecutadas pelas bandas militares? O automóvel e o caminhãofizeram o corso gostoso. Percorriam-se ruas previamente escolhidase veículos, marcha vagarosa, lotados de moças e rapazes, seenfeitavam e de um para outro jogava-se colorida serpentina. Muitacantiga bonita e movimento de corpo. Pelas vias públicas desfilavamhomens fantasiados. Muito bom humor em tudo. Raras brigas severificavam. Nos grandes centros registrava-se as vezes um crime demorte. Governos federais, estudais e municipais nada gastavamnessa ruidosa brincadeira nacional.47Essa carnavalescação48do cotidiano, onde mães viram trabalhadoras, homensviram baitolas (sic), o carnaval vira pornografia e não uma face da vida literária éjustamente o que se pretenderá abordar no terceiro capítulo: a visão do cronista émarcada pela lógica da inversão (onde ele vê as coisas e os valores invertidos), masao mesmo tempo uma visão que não se deixa escapar da ambivalência,49afinal decontas o cronista é uma figura que possui muitas máscaras e muito do que ele diznão necessariamente correspondia ao que ele fazia.50O presente da cidade, opresente da escrita do autor, é aquele referente ao presente do contemporâneo:aquele que, graças a uma diferença, uma defasagem ou um anacronismo, é capazde captar seu tempo e enxergá-lo. Por não se identificar com o presente, cria umângulo (de visão) do qual é possível expressá-lo. O escritor contemporâneo pareceestar motivado por uma grande urgência em se relacionar com a realidade histórica,estando consciente, entretanto, da impossibilidade de captá-la na sua especificidadeatual, em seu presente. Essa escrita é marcada, portanto, por uma necessidade devingar-se:Dois argumentos se juntam aqui: uma escrita que tem urgência, querealmente ‘urge’, que significa, segundo o Aurélio, que se faz semdemora, mas também que é eminente, que insiste, obriga e impele,ou seja, uma escrita que se impõe de alguma forma. Ao mesmotempo, trata-se de uma escrita que age para ‘se vingar’, o quetambém pode ser entendido, recuperando-se o sentido etimológicoda palavra ‘vingar’, como uma escrita que chega a, atinge ou alcançaseu alvo com eficiência. O essencial é observar que essa escrita se47TITO FILHO, A. Quase no fim. O Dia, 07 março 1989, p. 4. Disponível: < http://migre.me/cww7Y >.Acesso em: 20 dezembro 2012.48DISCINI, Norma. Carnavalização. In: BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. SãoPaulo: Contexto, 2008. p. 53-93.49“A ambivalência é a imagem viva da dialética (da contradição)”. Ver: BENJAMIN, Walter. Paris,capital do século XIX. Tradução de Maria Cecília Londres. In: A Teoria da Literatura em suasfontes, vol. 2. 3. ed. Organização de Luiz Costa Lima. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.P. 689-706.50BORGES, Jorge Luis. everything and nothing. In: Antologia Pessoal. Tradução de Josely VianaBaptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 136-139.
  17. 17. 17guia por uma ambição de eficiência e pelo desejo de chegar aalcançar uma determinada realidade, em vez de propor como umamera pressa ou alvoroço temporal.51(Grifos do autor).A urgência é a expressão sensível da dificuldade de lidar com o mais próximo eatual, ou seja, a sensação, que atravessa alguns escritores, de ser anacrônico emrelação ao presente, passando a aceitar que a “realidade” mais real só poderá serrefletida na margem e nunca enxergada de frente ou capturada diretamente.Por último, pretendo ressaltar também que uma das máscaras utilizadas pelocronista é a do narrador: é dela que Tito Filho se utilizou para escrever, por exemplo,sobre os fundadores e personagens da cidade. O narrador é aquele que conseguefazer de sua escrita um intercâmbio de experiências. A experiência que passa depessoa para pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores. O narrador,portanto, é aquele que retira da experiência o que ele conta: suas própriasexperiências ou as experiências relatadas por outros. 52É o que podemos perceber,com mais ênfase, em obras como Gente e Humor, Sermões aos Peixes eTeresinando em Cordel. Essa postura do narrador, que também traz em si a marcado historiador, é perceptível, sobretudo, nos textos sobre personagens como oConselheiro Saraiva, o frei Serafim de Catânia e espaços como a Igreja de SãoBenedito (outrora Igreja do Alto da Jurubeba) e a Praça Pedro II (outrora PraçaAquibadã). A história de Teresina estaria marcada, portanto, pela atuação de figurascentrais que dirigiram o processo desde sua fundação e de espaços que marcarama história e desenvolvimento de todas as cidades – como a criação de praças eigrejas de onde a cidade se irradia.Até aqui, imagino que já ficou claro que pretendo abordar a crônica e como aentendo; como pretendo tomar o autor como cronista e como se dava sua atuaçãoenquanto tal, e por último, como esse gênero permitiu ao autor tratar de uma sériede temas e ao mesmo tempo falar de si. As crônicas permitem ao autor fixarposições, construir conteúdos e sentidos, fazer aparecer um arranjo cultural, extratosde vivências, modos de pensar e sensibilidades; além disso, elas operam comestratégias, tentando aproximar-se do imaginário de uma época.53São ricas de51SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Que significa literatura contemporânea? In: Ficção brasileiracontemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 9-19.52BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia etécnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio PauloRouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p 197-221.53Essa frase eu não sei se faz sentido aqui, faz?
  18. 18. 18significados, pois externam fatos e conflitos existentes, tanto no espaço privadoquanto no espaço público. São resultados de vivencias e de interlocuções docronista com o social, com o seu lugar de discurso, utilizando uma das várias formasde “dizer”, mas que pela riqueza de detalhes tornam-se um meio essencial eimportante de análise histórica.54Além disso, também poderia apontar apossibilidade de pensarmos a obra do autor como um espaço de construção deidentidades, como a de intelectual;55ou mesmo como um espaço de construção deuma escrita de si, o que significa dizer que as crônicas podem ser tomadas comouma escrita autoreferencial: a necessidade e a relevância que o cronista tem dedotar o mundo que o rodeia de significados especiais relacionados com sua própriavida, para efetuar uma escrita de si.56Finalmente, cabe apontar que todos esses movimentos que o cronista é capazde efetuar, todas as características apontadas até aqui, são possíveis a partir dapercepção de que a crônica pode ser tomada como gênero literário de fronteira,entre a literatura e a história, estabelecendo uma reflexão sobre se o autor, aoescrever a crônica está a fazer uma história de seu tempo.57Me interessa apontaraqui, a partir da análise Sandra Jatahy Pesavento, que as crônicas podem referir-sehá outro tempo, no passado. São elas narrativas memorialísticas, quase semprebaseadas, na maioria dos casos, na experiência e nas recordações de alguém queviveu, viu e ouviu outro tempo. Tais crônicas são especialistas em assinalar adiferença entre o tema/objeto da recordação tal como era no passado e o tempo danarrativa, o presente onde se realiza o ato de rememorar. Não raro esta diferença notempo é qualificada, é julgada, como perda. De um modo geral, concordo que acrônica é um gênero de fronteira, tomando fronteira como o espaço entre tempos:essa intensa circulação de temporalidades que o cronista consegue fazer funcionarno espaço do texto. Interessa-me apontar com mais intensidade a forma como o54BRANDIM, Ana Cristina Meneses de Sousa. Entre letras e papéis: a crônica como vestígio dacidade de Teresina. In: ADAD, Sarah Jane Holanda Costa; BRANDIM, Ana Cristina Meneses deSousa; RANGEL, Maria do Socorro (Orgs). Entre Línguas: movimento e mistura de saberes.Fortaleza: UFC, 2008. p. 28-32.55BRANDIM, Ana Cristina Meneses de Sousa. Escrita dos movimentos interiores: escrita de si econstrução de uma trajetória de intelectualidade e distinção em A. Tito Filho (1971-1992). / AnaCristina Meneses de Sousa Brandim. Recife: UFPE, 2012. Tese (Doutorado em História do Norte-Nordeste do Brasil). UFPE. 2012.56GOMES, Angela de Castro. Lapidação de si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES,Angela de Castro (Org.). Escrita de Si, Escrita da História. Rio de Janeiro: FGV, 2004. p. 7-24.57PESAVENTO, Sandra Jatahy. Crônica: fronteiras da narrativa histórica. In: História UNISINOS,volume 8, nº 10, julho/dezembro, 2004, p. 61-80 – Disponível em: < http://bit.ly/JLDlkb >. Acesso em:21 maio 2012.
  19. 19. 19cronista consegue fazer funcionar no espaço do texto uma circulação de temas – aí,já é o momento de tomarmos fronteira como o espaço entre perspectivas. ParaPesavento, a crônica é a fronteira pela qual o cronista passa do presente para opassado, de volta para o presente, ou mesmo para o futuro. No caso deste trabalho,pretendo apontar como a crônica é a fronteira que o cronista utiliza para fazer passara si mesmo enquanto escreve sobre seus temas, ou fazer passar seus temasenquanto escreve sobre si mesmo. Ficamos de acordo que ela é um gênero defronteira, mas a forma como ele atravessa, e com que intenções, podem variar. ParaPesavento, as crônicas intensificam a temporalidade, para mim elas intensificamuma perspectiva.Pretendo, enfim, elaborar uma abordagem da produção escrita de A. Tito Filho,sobretudo suas crônicas (sem, é claro deixar de lado alguns de seus livros), partindodas vidas literárias abordadas no primeiro capítulo; depois, no segundo capítulo,analisando as temáticas de história do Brasil e do Piauí, bem como da literaturapiauiense presentes em suas crônicas; e por último, sua perspectiva acerca dahistória de Teresina, que parte de temáticas relativas à história da cidade, sobretudoao narrar sua fundação e retratar personagens que considera centrais e que vãodesde intelectuais, como o Conselheiro Saraiva, até figuras do cotidiano, comoMaria Preá, chegando a uma série de temáticas que marcaram presença em seustextos: como os carnavais de Teresina, as mulheres, os cabarés, a política, dentreoutros.

×