Husserl, husserl. meditações cartesianas

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Husserl, husserl. meditações cartesianas

  1. 1. Edmund Husserl ~ MEOITAÇOES CARTESIANAS lNTROOUÇÃO- À FENOMENOLOGIA Tradução: Frank de ()liveira SBD-FFLCH-lISP 1111111 11111 1111111111111111111111111111 ~~ 278408 ~~~~~ 1'~1iQ .......­ MAI)RAS
  2. 2. y ,-""' 200 I , Madras Editora Ltda. ..itor: agner Veneziani Costa oordenador: of. Df. Márcio Pugliesi rofessor dos cursos de Pós-graduação em Direi to na Pontifícia Universi­ de Católica de São Paul o, Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Univer­ <.lade de São Paulo ;'adução: rank de Oliveira apa: quipe Técnica Madras rodução: et-up Time Artes Gráficas uso'ação da Capa: enala Guedes Pacces ,evisão: ilson Ryoji abel Ribeiro SBN 85-7374-416-2 'roibida a reprodução towl ou p<lrc j~ll desta o bra. de qualquer forma ou por lualqucr meio eletrônico. mec5nico. inclu sive por lllCj() dc processos xero­ ~ráficos, sem permissão expressa do editor (Lei n~ 9.ú 10, de 19298). ~od os os direitos desta ed ição, reservados pela •.t'~...~ {~1.t. ~~ ; MADR;S EDITORA LTDA. e;':~/' . .; ~c=:,:·~~·,~'~v Rua P"ulo Gonçalves. 88 - Sanlana 024()~-() :' () - .são P~LI10 - Sp Cai x" l'()"t~il I221)) _ . - CEP 0209S-970 SP Te!.: (0__ I I) (,951).1) 27 - Fax: (0_ _ 11 ) ó959.3090 wVw.!lladra!->.l:nl n.!lr DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI 1111111,11111 ~1I1111~11I1IIIIIIIIIIIIII~~ll111111~I~11111111 21200051764 PREFÁCIO ........ ............... ............................................. . . ......... 9 INTRODUÇÃO .............................. ............................. ... 19 I. As lv!editações de Descartes - protótipo da reflexão fil osófica voltada para o "eu" ................. ................. ........... 19 2.· Necessidade de um recomeço radical em filosofia ............. . 21 PRIMEIRA MEDITAÇÃO RUMO AO EGO TRANSCENDENTAL ~ J. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um fundamento absoluto do conhecime ~ tGl ....._;.................. ......... ..... ........ 25 4. Revelação do sentido fin·a~~~c'ítncia pelo esforço de "vi - vê-Ia" como fenômeno noemático ............. ............. . 27 5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira ........... 29 6. Diferenciações da evidência. A exigência filosófica ~Ie uma evidência apodíctica e primeira em si ...,............... . ...... 32 7. A evidência da existência do mundo não é apodíctic,l: "lia inclusão na revolução cartesiana ................. .... ... ..... ... 34 8. O ego cogito como subjetiviclade tran sce ndenta l . ...... ..... . 36 9 Alcance da evidéncia apodíctica cio eu S01f ...... 39 10. Digressão. Como f~dtou a Descartes a orientação tran s­ cendental ....... .... ... .......... ................................ .. 41 5
  3. 3. 7NIcditnrrJrs Ctf1"tt:.~irmns Sumário I. O eu ps icológico e o eu transce nd e nt nl. A. tr<lnscen- QUARTA MEDITAÇÃO dência do mundo .......... ....... ... .. . 42 30. Os pr0 9~ma s constitutivos do r róprio "ego"transcen- . dental (-;:;...,C..L,J/ ..~ !rW !.~.~~ .:~:..c. • A...1-.1.'.i.'.t-(~..!.:.L.Lt."::..~!~.:::li 81 EGUNDA MEDITAÇÃO 31. O eu como pólo Idêntico dos "estados vividos" ...... ........ ..... 82 )CAMPO DE EXPERIÊNCIA TRANSCENDENTAL E SUAS ESTRUTU­ 32. O eu, s ubstrato dos habitus ............ .............. ............... ... ... 82 RA~ERA1S 33. A plenitude completa do eu como mônada e o problema 2. Idéia (ji!~ m fundamento transcende ntal do conhecimento .... 45 de sua autoconstituição ............... ................... ........ .. .. .......... 84 3. Da necessidade de excluir provisoriame nte os problemas 34. A elaboração dos princípios do m~J~do fenom enológ ico. relativos ao alcance do conhecimento transcendental ....... .. 47 A análise tran scendental comcfeY'd'êTica ............................... 8 5 4. A 4sh~~1e das cogitaTiones Cogito e cogiraTwn ..... ........ 49 35. Digressão nó campo da psicologia intel'l1a eidét·ica ........ ..... . 89 S. Reflexão natura l e refle xão transcendental........................ 51 ~"' '-' ~"'..... ""J' .v~'V"'~ " 36. O ego transcendental, U+H.:óefse uas Iormas posslvels de 6. Digressão. Necessidade, tanto {3ara a reflexão "purame nte experi ência. As leis essenciais que determinam a com­ psicológica" como pa ra a reflexão " transcendental", de co­ possibilidade d os estados vividos em sua coexistência e meçar pe lo ego cogiTo ............ ....... ... .... ..... ....... 55 em sua sucessão ....................... ..... ... .......... .... .......... ........... 89 7. O caráter bilateral da investigação da consciência; o ca- ...1.')nu ,, 37. O tempo como fomla universal de toda gênese ego lógica ..... 91 ráter corre bto de seus problemas. Direções da descrição. ~ ~ 38. Gêneses ativa e passiva .................... ..... .............. .. .. ... ......... 93 A síntese, forma original da consc iência ............................ 57 39. A associação como princípio da gênese passiva ............ ..... 96 8. A identificação, forma fundamenta l da síntese. A sínte­ 40. Passagem para o problema do idealismo transcendental ..... 97 se uni versal do tempo transcendenta l. .. ..... ........ ..... ... ..... ..... 59 41. A explicitação fenomenológica verdadeira do ego cogito 9. Atualidade e .f.~~~.~l~~i.~ade da Vida inte ncional . .. .. ....... 61 como idealismo transcendental ......... ......... ....... ....... ............ 98 O. A 01lglJlali'êl6aépâ anallsEf .lI1tenclOp<l1 .... . .... .. ........ 64 I. O objeto mtencional, ~'guUYri~$~·c'I%71tal." ....... ......... . . 67 2. A idéia da unidade universa l de todos os objetos e o probleJ~"t·) QUINTA MEDITAÇÃO .DETERMINAÇÃO DO DOMÍNIO TRANSCENDENTAL COMO ma de sua e lu c idação constitutiva .. ....... ........ ... ..... 70 "lNTERSUBJETIVlDADE MONADOLÓGICA" 42. Exposição do problema d a ex periência do outro; a obje-ERCElRA 11EDITAÇÃO ção ao solipsi sl11o ... .......... .... .......... ........... ....:.. . ............. 104S PROBLEMAS CONSTITUTIVOS VERDADE E RE:'JJDADE nnI11A 43. O modo ele apresentação ontonoemática do "outro" co­3. Prccis:lo do conceito d e constituição tr,lIlscendental pe- Ia Intl odu·.lo as noçoes.," e lazao e n,lO-rdzao .. .... . .. _- d - d" -" .. - - " 7; 111 0 fio condutor transcendental da s ua teoria constitutiva ~ c,!<dÇJ:l rt l M 4. da experiência ........ ... ......................... ..... ................ ......... .. 105 A ~ v,den~ I< CO ~11.0 dado ~ngtn~)~'7~ Ud S v,mant es ........ ... 73 5 Re.llJd,lde e qUdse-re,lldade . r.... . . . 7S 44. Redução da experiência transcendental à esfera da 6. A rca llddde consld er,1d a como corre lato ela venfl cação minha v incu lação .......... ...... ...... ... .... .... .. ..... ............ ....... ... 107 evidente ..... .... .... ... ............ .............. ...... ...... .... .......... 7S 45. O ego transccndental na qualidade de homem psicofí­ 7 EvidêIlCi , habitual e e vid ~ n c ia potenci,1. Se ll papel con s- s ico; a percepção de si mesmo reduzida às vinculações ...... 113 titutivo do "sentido" ele "objeto e xi);tente" .. ...... .. ........ ... ... 76 46. A v incllliição como esfera das atualidades e das potencia­ c ' I~ ' . I ~ I O I~t ';(.'lU.<J>..8 t: VI( CIlCI<l )l I CS11l1tlva ( a ex.lsU!nCI·'l o t11llJl( o. n.1Y nc o, lidades da corrente ela consciênci a ......... ...... ..... . 114 . " . l ~ . '~õ~~~'.'r.....-'>.~rR~~ t .. ( . ' I C!c I ~l cu rrel ;Jta dc lima e Vlc enCla ~.l .... ......... 77 47. O obj e to intencional pertence, também e le, ao ser ple na­ .9. As regiões ontol óg icas materiai s e formais como índices mente concreto (monádico) da "vinculação" . Transcen­ de siste mas transcendentais de ev idênc ias. 79 dência imanente e mundo primordial ....... ... .......... ........... ... 11 7
  4. 4. R J1editnçócs Ca17e.<zn71as 48. A transcendência do mundo objetivo num grau superior em relação à transcendência primordial ........................... 119 49. Esboço prévio da explicitação intenci onal da experiência do"outro" .................. .. .. ..................................................... ]21 50. A intencionalidade mediata da experiência do outro como "apresentação" (percepção por analogia) ......................... 122 51. O "emparelhamento", elemento de constituição por asso­ ciação na experiência do outro .................. .................... 125 52 A apresentação como espécie de experiência, com ma­ neira própria de confirmação .............. ............................. 127 53. As potencialidades da esfera primordial e sua função cons­ . titutiva na percepção do outro ............................................. 130 54. 'Explicitação do sentido da apresentação; experiência do outro ...................................................... ............................ 13] 55. A comunidade das mônadas e a primeira forma da objeti­ vidade: a natureza intersubjetiva ........................................ 134 56. A constituição dos graus superiores da comunidade inter­ monádica..... .......... ............................................................. 142 57. Esclarecimento sobre o paralelismo entre a explicitação da vida psíquica interna e a explicitação egol6gica e trZlns­ cendental .................. ......... .... ....... ..... ..... .................. ........... 144 58. Análise intencional das comunidades intersubjetivas supe­ riores: encadeamento dos problemas. O eu e seu meio..... .. 145 59. A explicitação ontológica e seu lugar no conjunto da feno­ menologia constitutiva tr,lIlscendental .... .... ...... . 149 60 Resultados metafísicos de nossa explicitação ela experiên- Cid do outro. ... ........ 152 61. Os problem<ls traclicionais dZl "orige m psicológlcl" :.' seu esclarecimento fenomenológico ...................................... I S4 62. Explicitação int encional da experiência do uutro car,lcle­ rizadano seuconjunto ............................ .. . ............ 161 CONCLUSÃO 63 A necessidade de uma crítica da experiência c do conhe­ cimento tr,ln sce ndentais ............ ............. .... 164 EPÍLOGO .. 166 SOBRE O AUTOR ... .... .. ....... . 171 BIBLIOGRAFIA ............................... 173 Edmund Husserl nasceu em Prossnitz, Morávia, em 8 de Zlbril de ] 859 e estudou nas Univ e rsidades de Leip z ig. Berlim e Viena,1 tomou-se, em 1883, professor na Universidade de Berlim, como assistente de seu ex-professor Weierstrass, e depois em Viena, Halle, G6ttingen e Freiburg-im-Breisgau onde, após longos quarenta e c inco anos, encerrou suas atividades docentes no ,mo de 1928. Logo após seu doutoramento foi influenciado pelas concepções do professor F.anz Brentano, cuja importância na fil osofia pode ser avaliada pejo C)ue diz Stegmi.iller : ~ "Ele foi o mestre de Husserl, sobre o qu,ll exerceu uma 'influência não desprezível. sendo. dC.S'l forma. por assim dizer, o "avô" espi ritual de Max Schckr e de 1Llrtin Heidegger". A mente analítica de Husserl, entrel,lnto, I1J.O CLlIl--;cguiu permanecer nos horizontes percorridos por seu mestre Cjl1('. ,Ipesar disso, certamente preparou, com seu método. os c<lminh()~ .eguidos pela filosofia analítica anglo-s<lx5. O psicologismo ele BrcllLlllo pare­ Ci,l-lhe por demais acanhado para solver os problem:1s lógico-filosófi- I. Onde. com;1 IC,C "CnnlrihLJi.,-;h) par;l :l Tcori ;l do C;'i1cLJlo de V" ri;l," -'L'<' ObICT ,e u UOlllor;lUO. 2. SlcgmLiller, Wolfg,lIlg - A Fil<.)~oria Conlcmpllf:inc;I-llllrodu<;:io C rÍllcl. '01. I, São Paulo. EPU./EDUSP, 1977, p. 23. 9 •
  5. 5. I ívfcditaçocs Cartesianaso os_ Assim, por exemplo, a identificação do sujeito do conhecimellto om o sUjeito psicológico parecia-lhe introduzir questões relevantes. Mas, antes de nos aventurarmos nessa seara, apresentaremos ma versão simplificada do exame das questões de Husser! pelo pris­ la de Descartes, precisamente porque, a partir desse mirante, edificou fenomenólogo o seu edifício. Buscava o fi lósofo francês, de resto, como também o fez 1usserl, um fundamento último para o conhecimento e compôs, além lO famoso Disçurso sobre o A1étodo, uma série de investigações cerca da natureza do conhecer e do sujeito cognoscente. Assim, ,roGurando estabelecer a existência enquanto ser pensante, afir­ nou na Segunda A1editaçZío que essa evidência era dada na medi­ la em que se repetia interiormente a fórmula do cogito, isto é, o ujeito cognoscente ao perceber que pensava, concomitantemente ssegurava, visto que do nada, nada, seu próprio existir. Para a fun­ lamentação de uma ciência isso era pouco satisfatório. O ponto lrquimediano, se pudesse comprová-lo, deveria defluir de algo ndubitável por si. Pensou, então, em um Deus não-enganador, que ervísse de aval para qualquer tipo de desenvolvimento racional que e desejasse estabelecer. Isso acaboll ocorrendo na Terceira Me­ litaçZío, através do recurso à idéia de perfeição e da evidência de lue esta idéia não pode ser produto do pensamento, lima vez que é, :ste finito, limitado e imperfeito e que é evidente '1ue uma causa -inita não poderi<1 produzir um efeito infilúto. Observe-se que esta déia de infinito, em Descartes, não é fruto da negatIva da finitude, ni1S sim positiva e anterior a tod<1s as demais 1 perfeição divina ü'io é potencial, mas é em ato; nosso elltendimento se desenvolve ndefínidamente por 3.dições subjetivas; Deus, contrariamente, é o ;er a que nada pode ser juntado, o ser absolutamente completo. Se )ells não pode vir de nós enquanto idéia, é preciso que exista para ]ue possamos pCllS:l-lo. Por outro lado. da idéla de Deus decorre sua própri3. existência, Jois este é um elemento esscncial da pcrfeição, sem a qual Deus ,cria o mais imperfeito dos seres. Este argumento que fOI desenvolvi­ jo por S1o. Allselmo não é o mesmo dilquele de Descartes. Não Jevemos dizer, segundo nosso autor: Deus existe porque meu espírito J concebe, IT1as sim. minha razão concebe Deus, porque Ele existe, o Prefácio 11 verdadeiro fundamento de nossa fé em Deus não é nossa concepção dele, mas sim Deus que em nós se afinna através da idéia de infinito. Sabemos então, até a Terceira lvfeditaçZío que: I - eu existo; 2 - Dells existe. Esta segunda certeza, no sistema cartesiano, é de importância capital, pois é nela que nosso autor funda toda verdade, toda certeza, toda ciência positiva e, através dela possibilita superar o abismo que a dúvida h3.via estabelecido entre meus pensamentos e as coisas exteriores. É a idéia de Deus que mostra a existência do mundo corporal e afasta totalmente do ceticismo, posto que se não homresse um Deus sempre poder-se-ia admitir que o mundo sensível fosse uma ilusão causada pelo Gênio Maligno ou ainda pela própria natureza de nosso espírito, mas como a existência de Deus·.implica a de perfeição e um ser perfeito não pode nos enganar, a existência do mundo está fundada. A Sexfa iV1editaçZlo é que se ocupará da existência dos corpos e isso segundo diz Gueroult em dois·tempos: a Quinta servirá para mostrar a realidade de sua essência e a Sexta de sua existência. Já na Quinto JvfeditaçZío ci1be notar a seguinte afirmativa: "'COII/O, por eXé'lJIplo, CJuando considero a .natureza do trWIl­ guio. conheço é'vldentemente, eu que sou pouco versado· em geometria, que se1ls três ângulos são iguais a dois retos e n{/o /IIé' é possível lIão acreditar nisso enquanto aplico IIIé'U !)el7.IOll1ellto ci sila demollstroçào; mos tZío logo eu o deSVie delo. e/llboru me recorde ré-la claramente CO/J7preel1­ c/u/o, l)()c!e ocoITeljacilmente que eu duvide de suo verdo­ dé' caso ignore que há /Im Deus." Serve então a idéia do ser perfeito ou ens ré'ulissilllus como fUllllamellto das certezZlS ,Ia adquiridas, conforme se pode depreender f{wiJ c cliret,llllellte cio cllLIIlciaclo número] 3 da mesma JHedituçâo: "Pois (lindo qzlé' e/l seja de tol 1I00urezo que. tilo logo COIII­ (;rcel/da basfol/tc c/ura e distif/rClll7ente, SOl! l1uf/lroll77é'nte levado {[ acreditá-lo '·é'rdadé'iro, no entanto, já que sou 10171­ béll7 c/c rol natureza que nZío posso manter sé'lI7pre o espírito ligado a uma mesmo coisa, e que amiúde me recordo de ter
  6. 6. 2 Meditações Cm'tcsimzns ;ulgado uma coisa verdadeira, qualldo deixo de COllside­ rar as razões que me obrigam a julgá-la dessa maneira. pode acontecer que nesse ínlerim ou/ras raziJes se J7le opre­ sentem, as quais me fariam facilmel1le mudar de opiniào se eu ignorasse que há um Deus. E, assim. eu jornais lerio uma ciência verdadeira e cerla de qualquer coisa que sejo. mas opiniões vagas e inconstantes, " E ainda, na Quinta Mediwção, 15: "jUas após haver reconhecido haver UI1l Deus, porque ao mesmo lempo reconheci também que todas as coisas depen­ dem dele e que ele não é engallador, e qlle. em seguida a isso julguei que ludo quanto concebo clora e distin/al7lente não pode deixar de ser verdadeiro: ail1da qlle ,uío mais pense nas razões pelas quais julguei tal ser verdade iro, desde que me lembre de lê-lo compreendido clora e dislil1­ tamente, ninguém pode apresentar-me razão contrária al­ guma que me faço jamais colocú-lo em dúvida, e, assilll, tenho dele uma ciência cerla e verdadeiro, E esta mesma ciência se estende a todas as Olltras coisas que elt me lem­ bro ter olltrora demonstrado, COIIIO us "eul{/des da Ceome­ , Iria e outras sell1elhan/es; pois qlle me p oderão objetu/'. para obrigar-me a colocá-las em dúvidos? Dir-lIw-no que minha na/lIi'eza é tal que sou muito sujei/() li engullor-lIle) Alos já sei que me /7(10 posso enganar lias jllí::os cujos as raú5es conheço claramente. Dir-me-clu que Oll/rora /ive l7lui/as coi­ sas por verdodeiras e cerlOS, os quois /I/((is lorde reconheci serem folsas? lUas eu não havia cOJlheódo cloramel//e e dis/il7twllente tais coisas e nDo conhecendo ainda es/u re­ gro pela qllal me cerrifico da venlucle, cru levado a ucrei/i­ rar nelas j)()r razcJes que reconheci dCji(Jis serem menos jór­ /es do que cnlão imaginara. () que mui.' podere/o. pois, obje/CI/'-llIe/ Que /olvez eu durlllo (CO!110 ell meSlilO llIe ohje­ lei acilJla) ou que todos 05 penSmllel7/()S (jue lenho 0/1101­ mente não são mais verdadeiros que os sonhos que imagi­ namos ao dormir? Mas, mesmo que estivesse dormindo, tudo ~ P1Tfácio 13 que se apresenta a meu espírito com evidência é absoluta­ mente verdadeiro. E, assim, reconheço milito claramente que {[ certeza e a verdade de toda ciência dependem do tão-só conhecimento do verdadeiro Deus de sorte que, an­ tes que eu o conhecesse, niio podia saber perfeitamente nenhuma outra coisa, E agora que o conheço tenho meio de adquirir uma ciência no tocante a uma infinidade de coisas não somente das que existem nele, mas lambém das que pertencem a nalureza corpórea, na medida em que ela pode servir de objeto às demonstrações dos geõmelras, 05 quais não' .se preocupam de m odo algum com sua exislência, "(grifos meus) Até este momento, segundo a ordem de suas razões, Descartes pode afiançar a certeza científica para os domínios que lidem com as essências das coisas, a metafísica funda a ciência que se refira às essências, mas não ainda das coisas corpóreas, dos existentes corpo­ rais, É a Quinta Meditação que, operando a distinção entre alma e corpo no homem3 e estabelecendo a existência das coisas corporais possibilitçuá a inclusão da física no quadro das ciências cartesianas. Já na Sexla Meditação; Descartes admite a possibilidade da existência das coisas materiais, uma vez que podem ser objeto das demonstrações da geometria, por serem concebíveis clara e distinta­ mente, A segu ir, quando passa ao exame da imagi nação acaba por concluir como provável a ex istência das coisas materiais: "o espírilo .... se volta poro o corpo e cOllsidero ne/L olgo de conforme à idéio que formou de si meslllo ou que rece­ beu pelos sentidos. Concebo, digo, faci lmente que pode realizar-se dessa I!7cmeiro, se é verdode que heí corpos; e, 111110 vez que n clU posso encontrar l7enhlll11(( olltra vio para mostrar COIIIO elo se reolizo, conjecturo daí p/'ovavelmenle que os há. mos nelO é senão provavelmeJl/e e, emboro e,'o­ lIline cuidadosalllente rodos os coisas. nrlo "('l'ifico, 110 el7­ 3, Distinçào essa que ocupará muitos filósofos ao longo de séc ulos. entre os quais: Malebranche, Spinosa. An thony FlelV. etc.
  7. 7. 14 ,Hcditrzçõcs Cartcsimlt/s tanto. que, desta idé ia distinta da natureza corporal que tenho em minha imag inação, possa tirar algum argumento que Deus IlCIO é enganador e que não tendo c/atado o sujei­ to cognoscente de nenhuma fa culdade que impeça o erro de tomar como corpo uma criatura mais nobre que o corpo em que a realidade das idéias esteja eminente e não for­ II/almente, seja preciso que há coisas cOlpóreas que exis­ tem. "(5 a 20) Assim, a metafísica cartesiana serve de substrato à possibilida­ :le de qualquer ciência que possa ser entendida C01ll 0 tal. Observe-se =lue relativam ente ao método empregado para a 'construção de sua física (particularmente) há discordância muito grande, ficand o pro­ fundamente aba lada a pretensão de nosso autor frente a construção je u 'a mothesis ulliversalis, ou mai s precisamente, de uma constru­ ;ão de teorias tomand o por base o m étodo elas matemáticas, pela introdução da experiência como critério de decisão em sua teoria fí s ica. O problema da ba se empírica da fí sica cartesiana não é :ranscurável como poderia ser aparente. É verdade que na Regra JI lfirma: "de 1Il0do que, se nosso cálc~(lo é exato. a observállcia Je nossa regra nos produz, entre as ciéncias já uchodas (os cos­ 'umes dos homens, as propriedades das plantas, movimento de -:1.1/1'05. trCll7sj'ormaçues dos metois e objetos de disciplinas aná­ 'oga.',) ali descohertas, à aritmética e à geometrio tclo-solllente ", 11as que também. no parágrafo precedente dei:-.:ar;-t claro que admite =Jue se cheguc a opin iões prováve is e não ú c iência perfeita. Ainda. na Regra 11 nos diz que : agoro. entrefanto, como dissemos mais ucillla que entre os c1iscipli11(fS cOllhecidas openCls a ari tmética e a geome fI' ia es favalJl IfTes de tod{/s falsidade 011 illcel'tr.':;u, VOIII OS e.'u­ JIIinor /I/{/is cllidu(/os(l/J1ente o roz(/o pelu (jllol isto é deslC/ !()}'IIlCl. OhSCITCIl7c!O q1le é duplo o camin/ro que nOS conduz ao conhecimellto dos coisas, {/ soher. () da experiência e () da deduç'r[o Deve-se 7101C/r, além disso. qlle us experiéncias que se refereJII eiS coisas são freqü entelllente enganosas. enqual7lo a dedução ou a operação pura pela qual se infe­ hefcíáo 15 re uma coisa da outra, pode não ser levada a cabo de modo incorreto pelo entendimento, nem pelo m enos razoável dos entendimentos. ... porque todo erro possível - e falo dos ho­ mens, não dos animais,- nunca provém de u 'a má inferência, mas somente do fato de que parte de certas experiências pouco compreendidas ou do fato de se formular juízos levia­ na e infundadamente. " Deste modo, embora a me.tafísica sirva de base para constityi­ ção de uma ciência segura, quando esta se imbrica com os dados da experiência parece perder seu caráter de certeza absoluta, uma vez que mesmo empregando os critérios estabelecidos na Regra XII para evitar que o entendimento caia em erro induzido por experiências, estes repousam nas naturezas simples que compõem as demais coi­ sas existentes, e que teriam sido originadas por Deu s, dotadas de certa quantidade de movimento, etc. e passíveis de demonstração. Embora neste contexto seja válida a observação de L oparic : " nesse contexto a palavra 'demonstrar' é usada ambiguamente como sinô­ nima ora de provar, ora de explicar . Para a distinção dos dois senti­ dos, Descartes rem ete ao Discurso do l1étodo: efeitos sensíveis atestados pela experiência sensível e deduz idos de causas invisíveis servem para demonstrar, 110 sentido de provar, essas causas, eJlquan­ to as últimas serv'em mais para demonstrar, 110 sentido de explicar os efei tos: prevê-se ainda um caso em que se pode di ze r também que as causas sel-vem para provar efeitos: é o caso em que é questi onada a existência dos efeitos que podem ser deduzidos de caL1sas já prova­ das por outros efe itos. Finalmente, quanto à aparente faciliel;-tde ele ajustar causas a efeitos sensíveis ela seria apenas aparente, sobretu­ do se fosse levado em conta o número muito gril ncle de fen (lIm:nos explicaelos e a extrcma economia e simplicidade de ca us:.1S propos­ tas. Assim, o poder exp licativo das causas seri;t p,lra nus persuadir de que os efe itos ex plicados nâo têm outras causas scnão aquelas quai s sâo deduzidos" (pp. J53- 154, Rev Discurso) De qualquer Illodo remontaríamos 8 experiência sensível e se posso demo nstrar as verdadeiras causas não sensíve is de efeitos sen­ síveis, não tenho como depurar as experiências sensíve is de possíveis más interpretações do entendimento.
  8. 8. 6 Meditações Cartesianas Dessarte, se a metafísica fundamenta a possibilidade de todas as ciências, não é suficiente para fundamentar as ciências que se relacionam com a experiência, tomando-as não certas, mas simples­ mente prováveis. Por sua vez, Husserl buscou, também, esse ponto arquimediano e, em particular, para as ciências humanas. Um de seus principais pressupostoS consistiu, sempre, em admitir que um filósofo jamais deve considerar finda a busca e deve estar pronto a abandonar resul­ tados e começar tudo novamente. Desenvolveu um procedimento baseado no exame dos conteúdos da consciência do sujeito com ex­ clusão de todas assunções acerca de causas externas e resultados desses conteúdos, conhecido como a fenomenologia pura. A expressão "fenomenologia" utilizada por Husserl teve um cunho distinto daqueles usuais até esse tempo. O autor sustenta que seu método é descritivO mas distinto da descrição psicológica. Todas as coisas do mundo aí estão, percebamo-Ias ou não. A cons­ ciência é constituída por atos (noesis) que visam algum componen­ te desse mundo (noema). Assim , diversas noesis podem referir-se a um único l1oema. Assim a fenomenologia sendo a pesquisa des­ critiva pura das vivências é uma psicologia descritiva e a funda­ mentação última do conhecer só pode ocorrer a partir de uma pes­ quisa sobre os atos do conhecimento. Isto significa: não se contentá o filó sofo com as palavras mas deseja retornar às próprias coisas. Sendo essas últimas dadas em vivências, isto é, atos intuitivos, o mund o psíquico manifesta-se como inst5.ncia à qual os objetos são dad os de diferentes modos e a consciência torna-se inst ância constituti va do mundo objetivo. Husserl distingue, ao menos, dois conceitos de consciência: aquela rehlli va a uma relação consciente com al go, isto é, a intencionalidade ou vivência intencional, isto é, a consciência no sentido pleno da paL.l­ vra e um outro, diverso, representado apenas por uma corrente de vivências. intencionais e não intencionais, num fluxo contínuo, um movimento permanente de fenômeno, o fen ôme no originário. A':'. di­ ferenças essenciais d,lS vivências ucnuem da maneira como se refe­ rem aos objetos e se há diferentes modos ele dar-se o objeto, há dife­ rentes objetividades e esses diferentes modos pelos quais o objeto se apresenta ressaltam a necessidade ele se estudar os fen ômenos. Prefácw 17 As vlvenc ias intencionais podem ser propos icionais ou não proposicionais e essas últimas dispensam mediação lingüística por pressuporem uma relação direta sujeito-objeto, raiz da certeza da existência de uma objetividade. Assim, a ciência seria a conexão objetiva e ideal de noesis e noemas puros e caracterizar-se-ia por exigir uma noção de unidade, isto é, além das verdades empíricas construídas ou verificadas e das leis lógicas pressupõe uma esfera de condições (l priori de possibili­ dade de seu objeto e de seus métodos. A fenomenologia'ao descrever os atos intencionais, o vivido, o mundo da vida, os correlatos intencionais possibilita a instaura<;ão de uma filosofia como ciência de rigor e a fundamentação da.lógica. Papel importante na fenomenologia é desempenhado pela ope­ ração que permite abstrair a aceitação tácita da realidade do ohjeto para simplesmente aplicar-se às operações realizadas pela consciên­ cia. A redução fenomenológica afasta a tese natural do mundo e investiga como funciona e se estrutura a consciência para, en tão, assumi-la não como pressuposto, mas como etapa de um processar científico, haja vista sua fundamentação filo sófica. A epoque fenomenológica dá-se em dois movimentos: no primeiro há a redução eidética que busca essências ou significados e no segundo, a redução tran scendental, busca a essência da consciência enquanto constituin­ te das essências ideais. Haveria, então, pelo próprio flu xo elas vivências, a possibilidade ela fragmentação do eu? Ao contL1rio, Husserl acre­ ditava que não apenasseria possível captar a percepção pe.';so,d de outras pes':'.oas e coisCls por aplicação da redu ção fenomenológica mas, ainda, descobrir-se o próprio ego tran scc ndcnwl. Ao ' c' ;t k ,l n­ çar essa etapa o ponto arquimediano estaria dado: LI verdadeird t<l­ refa fenomenológica principia com o reconheci mento ela inegóvel existência do ego como pura consciência di ..;tinguindo-se d,lquele psicológico que é assunto da Psicologia. Mas, finalme nte, qual a rel;lção entre o pens;lr cLlrtesiClno e o de Hu sserJ'7 Antes de mais nada a exigência de um método. um a rerl exi'io acerca dos procedimentos exigíveis p:l ra o pensar filo só fi­ co e, adel11'lis. a demonstração de que a subjetividacle. C U I11 su a propriedade de permClnecer a mesma e conferir se ntido ao múltiplo, é o ponto arquimcdiano para a constituiçiio cio saber e não se con­ funde com o "eu psicológico" suj e ito à realidade empírica. A cone­
  9. 9. 8 Meditações Cartesianas :ão é imediata: só possui sentido a subjetividade transcendental que : absolutamente e se permanece no texto de Descartes a questão la possível relatividade de apreensão do mundo objetivo pela subje­ ividade solitária, pela introdução da intersubjetividade acredita -:lusserl ter resolvido esse problema. E o outro problema caracte­ ístico de todo idealismo, ou seja, a da transformação de significa­ los ao longo do tempo, seria resolvido por serem esses significados deais sedimentados e reapropriados pela cultura. Este livro proporcionará ao leitor uma possibilidade ímpar de ,bservar a aplicação sistemática de um método de filosofar e a ho­ estidade inrelectual de um dos maiores filósofos do século passado , sem dúvida, um dos marcos da reviravolta filosófica que ainda rossegue motivando nosso pensar. Márcio Pugliesi ~ ~~lRODUÇAO 1. As (~cditações) de Descartes - protótipo da reflexão filosófica voltada para o ((eu)) Sinto-me feliz de poder falar da fenomenologia transcendental nessa honorável casa dcntre todas por onde floresce a ciência fran­ cesa. Tenho par<l isso razões especiais. Os novos impulsos que a fenomenoJogi<l recebeu devem-se a René Desca rtes, o maior pensa­ dor da França É pelo estudo das suas lvfecliloçi5es que a nascente fenoll1enologiZl tr;m sfo rl1lou-se em um novo tipo de filosofia tran sc~ ndentJI. PoderíaIllos quase cJ~nominá-la um ncocartesianismo. ainda que ela se tenh,l visto forçZlda a rejeitar quase todo o conteúdo doutrinário conhecido do cartesianismo, pelo próprio fato de ter con­ ferido a cer-tos termos cartesi,ll1OS um desenvolvimento radical. Nessas circl/Ilst,i ncias, desde o início posso esUlr seguro de en­ contrar junto aos senhores ullla acolhida favorcível se csclJliler, como ponto de p<lrlicla. entre os temas das A1edilul!0I1('S de prilllo !J!1I1osophia aqueles que tl'lll, a meu vet, um ZlIc~lllCC eterno, e se em seguida tentZlr C<lfZlctcrizZlr as transformações e inov~lções que derilm nascimento ao método e aos problemas tr,mscendentais. Todo inicianle em filosofia conhece a notélvel e surpreendente seqüência de pensamentos das Mediloçi5es. Vamos recordar sua idéia 19
  10. 10. J) )'v1editaçõcs Cartesiai/as iiretriz. Ela objetiva uma refonna total ua filosofia, para fazer dela lIna ciência com fundamentos absolutos, o que implica, para Descar­ es, uma reforma paralela de todas as ciências, pois, a seu ver, essas 'iências não passam de componentes de ullla ciência universal, que ão é outra senão a filosofia. É somente na unidade sistemática desta ..ue elas podem tomar-se ciências de fato. Ora, se consideramos ssas ciências em sua formação histórica, percebemos que lhes falia sse caráter de verdade, que permite reconduzi-Ias integralmente e, 'm última análise, a intuições absolutas, além das quais não se pode "etroceder. E' é por isso que se faz necessário reconstruir o edifício ue poderia corresponder à idéia da filosofia, concebida como unida­ je universal das ciências que se ergue sobre um. fundamento de ca­ áter absoluto. Essa necessidade de reconstrução, que se impunha a escal1es, realiza-se nele sob a fonna de uma filosofia orientada Dara O sujeito. Em primeiro lugar, quem quiser realmente tornar-se filósofo cle­ erá "uma vez na vida" voltar-se para si mesmo e, dentro de s i, pro­ ~urar inverter todas as ciências admitidas até aqui e tentar recons­ ruí-Ias. A filosofia - a sabedoria - é de qualquer forma um assunto essoal do filósofo. Ela deve constituir-se como algo de/e , ser a sua sabedoria, seu saber, que, embora se volte para o universal, seja adqui­ ida por ele e a qual ele possa ter condições de justificar desde a origem ~ em cada uma de suas etapas, apoiando-se em suas intuições abso lu­ as. A .partir do momento em CJue tomei a uecisão de me voltar para esse objetivo, decisão essa que só pode l11e levar à vida c ao desenvol­ vimento filos ófico, conseqüentemente fi z c1 c ~~a forma meu voto de pobreza em matéria de conhecimcnto Desde cnt;lo fiC<1 claro que scr:i necessário primeiro me perguntar como poderia encont ri1" um método que me desse o caminho a seguir para chegar ao saber n ::rdadeiro. As meditações de Descartes não almejam, portanto. ser um assunto es­ sencialmente exclusi vo desse filósofo, e menos ainda uma :,;impks for­ Illel liter(tria que ele usaria para expor :,;uas visões filosóficas. Ao CO I1­ t,(II·io. cs:,;as mcclililçõcs desenham o protótipo do gênero de meditações necessárias a toclo fil ósofo que comcçLl SULl ohra. medit;H;ões CJue s07.i­ nhas podem elar origem a uma fil o~o ria I I. Para conllnnaressa interprelação, cc. a COr/u (/o!1l/{or c/U Íradl/{ordos Prin cíp ios (Descartes). Introdução 2 1 Se consideramos agora o conteúdo das Meditações, bem es­ tranho a nós, destacamos aí um segundo "voltar-se" para o eu do filósofo, num sentido novo e mais profundo: o "voltar-se" para o eu das cogitationes puras. Isso se dá pelo método bem conhecido e bastante estranho da dúvida. Sem conhecer outro objetivo senão o de um conhecimento absoluto, ele se proíbe de admitir como existente o que não está totalmente ao abrigo de qualquer possibilidade de ser posto em dúvida. Submete, portanto, a uma crítica metódica, quanto às possibilidades da dúvida que possa apresentar, tudo aquilo que na vida da experiência e do pensamento apresenta-se como certo, e busca alcançar - se possível - pela exclusão de tudo o que poderia apresentar uma possibilidade de dúvida, um conjunto de dados absolu­ tamente evidentes. Se aplicamos esse método à certeza da experiência sensível, na qual o mundo nos é mostrado na vida cotidiana, ele não resiste de forma alguma à crítica. Será preciso então que neste esta­ do inicial a existência do mundo seja colocada em suspenso. Diante da realidade absoluta e indubitável, o sujeito que medita só retém a si próprio como ego puro de suas cogitationes, como algo que existe indubitavelmente sem poder ser suprimido mesmo que esse mundo não existiss~. A partir daí, o eu, assim reduzido, realizará um modo de filosofar solipsista. Partirá en)" busca de caminhos de um caráter apodíctico, pelos quais poderá encontrar, em sua interioridade pura, uma ex terioridade objetiva. Sabe-se como Descartes procede dedu­ zindo de início a existência e a veracidade de Deus, depo is, graças a e las, a naturez;] objetiva, o duali smo das substâncias acabadas, em uma palavra o terreno objetivo da metafísica c d;JS ciências positivas, assim como essas próprias ciências. Todas essas inferência:,; scg lilc'm, como não poderia deixar de ser, os princípios imanentes ,lO ego, que lhe são "inatos". 2. N Ccc.:íidadCde um rccm11CfO radical C71'lfilosofia Tudo isso é Descartes. Mas valeria a pena, perguntamos nós, ten­ tar descobrir um sentido etemo escondido por trás dessas idéias? São elas ainda capazes de comunicar em nossa época forças novas e vivas?
  11. 11. 23~2 },;!rd'lflj ,ics Cm'{c:rirl7llu Um fato , é certo, convida à reflexão: as ciências positivas estão muito pouco preocupadas com essas Meditações, que, no entanto, se riam clpazes de lhes fornec er um fundamento racional absoluto . É verdade que, após terem se desenvol vido de forma brilhante durante três séculos, essas ciências se vêem hoje bloqueadas em seu pro­ gresso pela obscuridade que reina em seus próprios fundamentos. Mas mesmo quando tentam renovar seus fundamentos elas não pen­ sam em se voltar para as Meditações de Descartes. Por outro lado, é notáve l que em filosofia as M editações tenham marcado época, e isso de maneira bem peculiar, precisame nte em virtude de seu retor­ no ao ego cogito puro. Desca rtes inaugura um novo tipq de filosofia. Com e le a filosofia muda totalme nte de estilo e passa radicalmente UOobJeti vismo ingênuo ao subjeti vismo transcendental, subjetivismo esse que, apc~ar de ensaios sempre novos c sempre insuficientes, p'-lrece tender, no entanto, para uma forma definitiva. Essa tendência constante não teria um sentido eterno, não implicaria uma tarefa imi­ nente a nós imposta pela própria história e para a qual todos seríamos chamados a colaborar? O estado de divisão no qual se encontra atualmente a filosofia, a Ll tividade desordenada que ela empreende nos levam a pensar. Do ponto de vista da unidade científica, a filosofia ocidental e ncontra-s~, desde meados do sécul o passado, num visível estado de decadência· , e m re lação ~IS ép ocas precedentes. Por toda a parte, desapareceu a unidLlue: tanto na determinação do objetivo quanto na colocação dos problemas c no método. No iníc io da era moderna a fé religiosa trans­ formou-se cada vez mais em convenção externa, uma fé nova cap­ tou e pôs em destaque a hum,midadc intelectual a fé em uma filoso­ fia e em umLl ciência autônomas. A partir de então, toda a cultura humana devia ser guiada e esc larecida por visões científicas e por esse mesmo caminho reformad a c transformaua em uma cultura nova c autônoma. No cnt,lIllO, tLlmbém essa nova fé empobreceu: deixou de ser uma ré ve rdadeira. Não sem razão. Com ereito. em 'cz de um,1filo­ sofi LI viva e lInific;(b , o que te mos nós? U md produção de obras fil osófiGISque cresce infinitamente, m,IS;1CIll,t1 Ltlta qualquer ligação interna. Em lugar de um embate sério entre tcoriLlS diverge ntes, c uj o próprio antagonismo é suficiente para comprov'-lr a solidariedade in­ terna, a comunhão dos fundamentos e a fé inquebrantável de seus Introdltção autores em uma filosofia v.erdadeira, temos uma pseudo-exposição e uma pseudocrítica, uma aparência de colaboração verdadeira e de ajud a mútua no trabalho filosófico. Esforços recíprocos, consciência das respon sabilidades, espírito de colaboração séria visando a resul­ tados objetivamente válidos, ou seja, purificados pela crítica mútua e capazes de resistir a qualquer crítica posterior - nada disso existe. Como então seriam possíveis uma pesquisa e uma colaboração ver­ dadeiras? Não existem quase tantas filosofias quanto filósofos? Exis­ tem ainda Congressos Filosóficos; nees os filósofos encontram-se, mas não as filosofias. O que falta a elas é um "lugar" espiritual co­ mum em que possam tocar~se e fecundar- se mutuamente. A unidade é, talvez, mais bem preservada no interior de certas "escolas" ou "tendências", mas esse mesmo particularismo pe rmite manter nossa característica de estado geral da filosofia, ao menos em seus pontos essenciais. Essa situação atual, tão funesta, não é análoga à que Descartes encontrou em sua juventude? Não é o momento de fazer reviver seu radicalismo filosófico? A imensa produção filosófica de hoje, com sua mistura desordenada de grandes tradições, de recomeços e ensaios literários da moda -- visando não ao esforço, mas ao "efeito" -, não deveríamos, por nossa vez, submetê-Ias a uma revolução caltesiana e levar a efe ito novas Mcditationes de prima plzilosophia? A confu­ são da atual situação não seria decorrente do f,110 de os impulsos pro­ venientes dessas Mediraç()es terem perdido sua vitalidade primitiv·a, porque o espírito de rcsponsabilidade filosófica radical desapareceu? Qual é o sentido fundamental de toda filosofia verdaueira? Não é o de buscar libertm a filosofia de qualquer preconceito possível, para f'-lzer dela uma ciência realmente autônoma, realizada em vi rtude de evidên­ cias últimas tirauas uo próprio sujeito, e encontrando nessas evidências sua justificação ,Ibsoluta') ESSd exigência, que alguns acreditam ser exagerada, ni!o pertence ü própria es~ê n c ia ele qualquer filosofia ver­ dade ira? Em nossos dids, a nostal gia de uma fil osofia viva conduziu a muit os renascimentos. Perguntamos: o único renascimento realmen­ te fecundo 1:10 consistiria em ressuscitar as 1v1edir(/ç()l!s cartesianas, não, é claro, para adotá-Ias integralmente, mas para desvelar já de início o significado profundo de um retorno radical ao ego cogito
  12. 12. 24 ivIcditnçõcs CaI"tesianas puro, e fazer reviver em seguida os valores eternos que dele decor-. rem? É, pelo menos, o caminho que conduziu à fenomenologia transcenden tal. Esse caminho vamos percorrer juntos. Como filósofos que bus­ cam um primeiro ponto de partida e não o têm ainda, vamos tentar meditar à maneira cartesiana. Naturalmente, observaremos uma ex­ trema prudência crítica, sempre prontos a transformar o antigo cartesianismo toda vez que a necessidade disso se fizer sentir. Deve­ mos também trazer à luz e evitar certos erros sedutores dos quais nem Descartes nem seus sucessores souberam evitar a armadilha. PRIMEIRA MEDITAÇÃO RUMO AO "EGO" TRANSCENDENTAL 3. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um fundamento absoluto do conhecimento Como filósofos que adotam por princípio o que podemos cha­ mar de radicalismo do ponto de partida, vamos começar, cada um por si e em si, colocando de lado nossas convicções admitidas até aqui e, em paI1icular, não aceitando como certas as verdades da ciência. Como fez Descartes, vamos nos deixar gui ar em meditações pela idéia de uma ciência autêntica, possuidora de fundamentos absoluta­ mente CC I1 0S . pela idéia da ciência universal. Mas lIIlla dificuldacle se apresenta. Colocadas de lado as ciências (n?ío admitimos o valor- de nenhuma), nada mais resta que possa nos servir de exemplo de ciên­ cia verdadeira. Não se poderá então duvidar dessa própri a idéia, ou seja, da idéia de uma ciência de fund amento absoluto? Designa ela lIma idéia-fim legítima, um fim confiado a qualquer disciplina prótica possível') É evidente que não podemos admiti-la desde o início, e Illuito menos podemos reconhecer uma norma reguladora da estrutura COIl­ siderada naturéll e própria de uma ciência verdadeira como tal. Isso resultaria em outorgar de antemão todo um sistema lógico e toda lima teoria das ciências, quando, na verdade, também elas devem ser en­ globadas na revolução cartesiana. 25
  13. 13. 26 27l11cdita0õC5 Cm·tcsianm o próprio Descartes inicialmente se propusera um ideal cientí­ fico, o da geometria, ou, mais exatamente, o da física matemática. Esse ideal exerceu durante séculos uma influência nefasta. Também suas A1ediLações se ressentem do fato de ele ter sido adotado sem uma crítica prévia. Parecia natural a Descartes que a ciência univer­ sal devesse ter a forma de um sistema dedutivo, sistema do qual toda a construção repousaria ordine geomelrico num fundamento axio­ mático que serviria de base absoluta para a dedução. O axioma da certeza absoluta do eu e de seus princípios axiomáticos inatos de­ sempenha em Descartes, em relação à ciência universal; um papel análogo àquele dos axiomas geométricos na geometria. Mas o funda­ mento é ainda mais profundo aqui do que na geometria e é chamado a constituir o último fundamento da própria ciência geométrica. Quanto a nós, tudo isso não deve de forma alguma nos influen­ ciar. Como filósofos que buscam aillda o ponto de partida, não admi­ timos como válido nenhum ideal de ciência normativa; somente pode­ remos tê-lo à medida que nós próprios o criarmos. Mas nem por isso abandonamos nosso objetivo geral, que é o de conferir às ciências um fundamento absoluto. Como em Descartes. esse objetivo vai orientar o tempo todo o desenrolar de nossas medi­ tações, tornando-se cada vez mais precIso e concreto à medida que formos avançando. Mas será necessário usarmos de prudência quanto, à maneira de colocá-lo como objetivo, e evitar, por ora, prejulgar atl~ mesmo a sua possibilidade. Como elucidar c, ao mC"smo tempo, fixar agora esse modo de posição? t claro que pedimos emprestaci:1 a idéia geral de ciênCia às ciências existentes. Ora, em Ilossa atitllde de crítica radical, essas ciências tornaram-se hipotéticas. Portanto, a idéia de seu {11l1 geral também é hipotética e não sabemos se ela é realizável. Ainda as­ sim, sob a forma de hipótese c a título ele generalidade fluida e indeterminada, lemos essa i(k·ia. Portanto, temos também a idéia de uma filosofia, sem saber se ela é realizflvel e ele que Illanelra o será jceitaremos essa idéia como hlpótese provisória, a título de ens<1io. para guiar-nos nas mcditações. e vamos avaliar em que me­ dida ela é possível e realizávcl. I~ bem verdade que entraremos assim cm estranhas complIcações, pelo menos no começo; mas estas serão lI1evitáveis se nosso radicalismo quiser passar para a ação em vez de permanecer um simples gesto. Sigamos então paciente­ mente nosso camm·ho. 4. ReJJelaçâo do sentido final da ciênciapelo e~forr:o de ((vivê-la)) conlOfenômeno noemático Em pnmeiro lugar, vamos tentar tornar clara a idéia diretriz que, no início, só se apresentava a nós como vaga generalidade. Vale es­ clarecer que não se trata aqui da formação de um conceito de ciênci.a por um.a abstração comparativa, que toma as ciências existentes como. ponto de partida Não há identidade entre as ciências como fenôme­ no cultural e as ciências "no sentido verdadeiro e estrito": o próprio sentido de nossas considerações implica essa afirmação. As primei­ ras encerram nelas, para além de sua existência de fato, uma preten­ são que não é justificada pelo próprio fato de soa existência como fenômeno cultural. Éjustamente nessa pretensão que está "implicada" a idéia de cicncia crdadeira. Como cxplic3r essa idéia e captá-la? QualqucrJ1Ilgill1lcnto pode nos ser proibido quanto ao valor das ciências existentes (quaisquer que seji11l1 suas pretensões em relação a isso), quanto à exaticliío de suas teorias e, ele forma correlata, quan­ to à sol idez de seus métodos construtivos. Em contrapartida, nada poderia nos impedir ele "viver" é1S tendências c a atividade científica, e de elabormmos uma opinião cbra e nítida do objetivo que busca­ mos. Se, agindo ao aCé1SD, c1ptamos progressivamentc a "intenção" da tendência científica. acabaremos por descobrir os elementos constitutivos da idéia teleológica geral, que é própria de toda ciência verdadeira. Antes de tudo, trato-se elc elucidar o ato de "julgar" e o próprio "j ulgamento'-. De In íc io. vamos fazer a cl ist inção cn tre julgamentos imediatos c rncdlatos O sentido dos julgamentos mediatos mantém com o de outros uma rciaçiio tal que a crcnça. que lhes é inerente, "pressupôe" a desses outros Julgamentos: uma crença é admitida porque outra o é. Em seguida, é preciso elucidar o sentido da tendên­ cia da ciência de "fundamentar" seus julgamentos, respectivamente,
  14. 14. 28 i1ediraçõcs Cartesianas o sentido do ato de "fundamentar" (provar), ato no qual se deve "de­ monstrar" a exatidão ou a "verdade" de um julgamento, Oll, ao cOIÍ­ trário, sua "inexatidão" ou "falsidade". Nosjulgamentos mediatos essa "demonstração" é mediata; apóia-se naquela dos julgamentos imedia­ tos envoltos no seu sentido e engloba igualmente a justificação des­ ses. Podemos "voltar" à vontade, a uma justificação uma vez estabelecida, ou à "verdade", uma vez "demonstrad8". Essa libcrda­ de que temos de reproduzir e de perceber novamente em nOSS<l cons­ ciência lima verdade concebida, como sendo identicamente "a mes­ ma", faz eom que essa verdade seja para nós um bem definitivamente adquirido, chamado então de conhecimento. Se, prosseguindo nesse caminho (deve ficar claro que aqui nos limitamos evidentemente a simples indicações). analis<lI11os com mais exatidão o própri o sentido dajustificação ou do conhecimento, somos levados à idéia de evidência. Na justificação verdadeira, os julga­ mentos demonstram sua "exatidão" , seu "acordo", ou seja, o acordo de nosso julgamento com a própria coisa julgada. Ou, mais exat<l­ mente: o ato de julgar é uma "intenção" e em geral uma simples presunção de que uma coisa existe ou é de tal maneir<l. Nesse caso, o julgamento, quer dizer, o que é colocado pelo julgamento, é some nte coisa ou "fato" ("estado de coisas") presumido, ou ainda co isa ou "fato" visto. Mas, em relação a isso, pode haver ainda um o utro tipo , dejulgamento intencional, muito particular, uma outra maneira de ter a coisa presente em nossa consciência: a evidência. Na evidênci<l , a coisa ou o " fato" não é somente "vista", de ll1<lneira di stante e inadc­ quada; ela prójJrio está presente dion/e de nós, e o s ujeito que julga tem del<l UI113 consciência imanente. Umjulgamento quc se li­ mita a um3 simples pres unção, se é passado na consci ênci3 à evidê n­ cia correlativa, ajusta-se às coisas e aos " fatos" em si. Essa p<lssa­ ge m tem llm carúte r especial , pe la qual a simples intcnção vazia se " pree nche-- e se " completa": ela assume o caráter de lima sínte ~e pela recuperação exata ela intuiçiio e ela evidência correspondente. 3 i intuição ev idente de que essa intenção, até ent50 " distanci<ld<l da co i- ' S<l", é exal<l. Procedendo dessa forll1<l, logo vemos surgir cenos elementos fundamentai s da idéia teleológ ica que rege toda atividade científica. Vemos, por exemplo, que o estudioso quer não apenas emitir julga- Primeira Meditação 2') mentos, mas fundamentá-los. Ou, mais exatamente, ele se recusa a atribuir a um julgamento o título de "verdade científica", para si e p<lr<l outros, se de antemão não o fundamentou perfeitamente, e se não pode a cada momento retornar livremente a essa demonstração para justificá-Ia até em seus mínimos elementos. De fato, essa exi­ gência pode permanecer no estado de simples pretensão; no entanto, aí esconde-se um objetivo ideal. A título de complementação, vale a pena ressaltar ainda o se­ guinte: é preciso distinguir entrejulgamento (no sentido muito amplo de intenção existencial) e evidência, de um lado, e julgamento e evi­ dência antipredicativos, de Dutro. A evidência predicativa implica a antipredicativa. Toda coisa vjsta, respectivamente toda coisa vista na evidência, é expressa . Em geral , a ciência quer emitir julgamentos expressos e fixá-los, a verd<lde, a título de verdade expressa. Mas a expressão como tal corresponde mais ou menos bem à coisa vista ou dada "em si", portanto à s ua evidência ou à sua não-evidência pró­ prias, elementos constitutivos da predicação. Esta torna precisa a idéia de verdade científica, concebida como um conjunto de relações predicativas fundamentadas ou a serem fundamentadas de maneira absoluta. 5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira Assim meditando, reco nhecemos que a idé ia cartesiana cI<l ciên­ cia, no caso Ull1a ciência lInivers<l1 funel<llllentada e justi fíCil ch. com todo rigor, nada mais é que o ideal que guia constantemente todas as ciências em sua tendência à universalidade, qualquer que seja o gr<lu de sua realiz3ção prática. Na evidência, 170 sell/ido mais omplo desse termo, temos <l expe riência ele um ser e de sua maneira de ser; é pOl1anto nela que o olhar de nosso espírito alcança a cois<l em si. A contr<ldição entre nOSS<l " intenção" e a coisa que essa " experiênci<l" nos mostra produz a negativa da evidência Oll a evidência negativa, cujo contellclo é a fal sidade evidente. A evidência - que abrange na realidade qual­ quer experiência no sentido comum , mais restrito do termo - pode
  15. 15. .31 "U Al,dirl1 Ffiís ( ~n rtcsimws ser mai s Oll menos perfeita. A e1'idêncio perfeila e seu correlato, u verdade' pura e estrita, apresentam-se como lima idéio inerente à tcndência de conhecer, de preencher a intenção significante; a idéia que é possível obter ao se tentar viver essa tendênc ia. A verdade ou a falsidade, a crítica ou a adequação crítica a dados ev identes, eis aí tant os temas banai s que já atuam se m cessar na vida pré-científica. i v idJ cotidiana, para seus fins ariáveis e relativos. pode contcntar­ se com evidências e verdades relativas. Já a ciência quer verdades válidos de ImlO ve.::- por todas e pora todos, definitivas, partindo de verificações novas e finai s. Se, de fato. como ela mesma deve aca­ bar.se convencendo a respeito, a ciênci,l não cunsegue ~unslrllir um sistema de verdades "abso lutas", se precisa o tempo todo modifie<lr as "verdades" adquiridas, ela obedece, no entanto, à idéia de verdade absoluta, de verdade científica, e tcnd e por aí ir par;l um hori zonte infinito de aproximações que convergem tod as para essa idéia. Com a ajuda dessas apru.x.jmaçües, eld acredita poder ultrcq.Jas';d r seu C)­ nheci mento ingên uo e assim ultrapassa r infinitamente a si próp~ia. Crê poder fazê-lo também pelo objetivo que se propõe, o da universa­ lidade sistemática do conhecimento, universalidade relativa. seja num determinado campo científico fechado, seja na. unidade uniersa l do ser em geral, a qUJI deve pressupor se se trata de umJ "filosofi<1"'c se ela deve ser possível. Em conseqüência, do ponto de vista dJ in- ' tençi"ío final. a idé ia de ciência e de fil osofia impl ica l/IIIU orc!i!11/ di! conhecimentos ul/leriores em si. relucionados (/ oUlros. elll .i 1)()s{eriores. c, no final das contas, U III começo e 11111 progresso. começo c progresso não fortuitos. mas, ao con trário, funclamellt ,ldos "' na nature7.;1 das próprias coi sas'". Assi m. sem que tenhamos prej uIgado o que quer que sei a so bre a possibilidade de uma ciência verdadeir,l ou sobre Ui1l ide,ll científico prctensamellte "natuf<1 I", pelo simples fato de que vivernos por meio de noss<lllleciitaçfio o esforço cielltífico no que ele tem de mais geral, vemos surgir ce rtos elementos fundamentais da idéia tel eológlca dc ciência verdadei"l. idéia que, ilinda que c1e maneira muito agil de início, ori enta esse esforço do pcn s;jl1lento científico. Que n30 se diga aqui: De que serve se incomodar com con statações semelhan­ tes? Elas pertencem e lmarnente à ep istemologia geral ou à lógica . P'l!11ám AIcriirnrfio Ba staria simplesmente aplicá-Ia, tanto aqui como na sequencla. Ora, é exatamente con tra esse "si mplesmente" que devemos nos precave r. Vale sa lientar o que já hav íamos dito a respeito de Descartes: a revoluçào geral que levam os a efeito colocou de lado toda s as ciên­ cias e. em conseqüência. a própria lógica. Tudo o que poderia nos servi r ele ponto de partida possíve Iem fi losofia deve ser obtido unica­ mente por nossas próprias força s. Uma ciência rigorosa do tipo da lógica tradicional nos será concedida em conseqi.iencia? No momen­ to, nada podemos saber a respeito. Graças ao trabalho preparatório - mais esboçado do que efe­ tuado ou mesmo explic itad o ·~ que acabamos de real izar, adquirimos luzes suficientes para ter condições de fixar um primeiro princípio me/(Jc!icu. destinado a reger todos os nossos esforços posteriores. A ssumindo como filósofo meu ponto de partida, volto-me para o ob­ jetivo presumido de lima ciência verdadeira. Em conseqüência, nào poderia evidentemente nem em itir nem admitir como válido nenhulIl julgallJl.'nto, se 11(70 o obtellho a partir da evidêllcia, ou seja, em e:'periências em que as "coisas" e os "fatos" em questão me são apresentados "em si". Deverei, então, é verdade, refletir sobre a evi­ dência em questão, avnliar seu alcance e tomar evidentes para mim seus limites e seu grau de "perfeição", ou seja, ver a que ponto as coisas me são realmente mostradas em si mesmas. À medida que ho uver falha na evidência. não poderei querer chega r a nada de defi-. nitivo: na melhor das hipóteses, poderei conferir aoj ul ga mento o va­ lor de uma etapa intermediária possível no caminho queleva a ela. As cicllcias v isam a predicações destinadas a fo rnecer uma expressão completa e adequada da intuição antipredicativa . Fica cb­ ro que esse aspecto da evidencia científica não deverá ser negligen­ ciado. A linguagem comum é fugidia, equívoca. Tlluito pouco exige nte quanto à ;ldeq uaçi"ío dos term os. É por isso que, <l li mesmo onde se us meios de e"pressiio serão empregados, sera prec ISo cOlltenr as sig­ nifieaçôcs U1ll novo fundamellto. orielllj-Ias de modo original sobre as evidências adquiridas 110 tr,lba lho científico e fí:'ar Ila linguagem esses significados fundilll1 enwdos de rUfIl1 ,1 nova. O princípio metó­ dico da evidência, que, a partir de agora, deve reger todos os nossos esforços, prescreve-nos essa tarefa.
  16. 16. ••••••••••••• •• ••••••• ~2 j1.cdltaçõr.s Cm'tcsianas Masde que nos serviriam esse princípio e todas as meditações efetuadas se eles não nos fornecessem o meio de adotar um ponto de partida real, permftindo-nos concretizar a idéia de ciência verdadei­ ra? Essa idéia implica a de uma ordem sistemática de conhecimen­ tos, e de conhecimentos verdadeiros. Em conseqüência, o verdadeiro problema inicial é este: quais são as verdades primeiras em si que deverão e poderão sustentar todo o edifício da ciência universal? Se o objetivo que presumimos deve ser praticamente realizável, é preci­ so que nós, que meditamos com o absoluto despojamento de todo conhecimento científico, possamos atingir as evidências que trazem, nelas mesmas~ a marca dessa prioridade, no sentido de que sejam reconhecidas como anteriores a todas as outras evidências imagináveis. Mas a evidência dessa própria prioridade deverá comportar também certa perfeição, lima certeza absoluta. Isso é indispensável se quiser­ mos que o progresso e a edificação, a partir dessas evidências primi­ tivas, de uma ciência adequada à idéia de um sistema de conheci­ mentos - com a infinidade que , presume-se, essa idéia implica-, tenha algum sentido. 6. Diferenciações da' evidência. A exigênciafilosófica de uma evidência apodíctica eprimeira em si Mas nesse ponto inicial e decisivo em que nos encontramos, trata-se de ir cada vez mais adiante em nossas meditações, Í.:: preciso elucidar a expressão de cerlez.{/ olJsolllta ou, o que dá no mesmo, de illdllbitabilidade absoluTa, Ela atrai nossa atenção para O fato de que, à luz de uma explicação mais completa, a perfeiçào ideal exigida para a evidêllcio dlferenciu-se, Ei-nos aqui no limiar da meditação fil osófica , tend o diante de nós a infinidade ilimitada das ex periências ou evidências pré-científicas. Ora, todas são mais ou menos perfei­ tas. Aqui , imperfeiçJo quer dizer, em regra geral, ill.l'lIficiên<Ío i'S l: v idência ~ imperfeitas são Lmilalcrais, relati vamente obSl't1 raS, indi s­ tintas quanto à maneira pela qual as coisas ou os "fat os" süo ,lí mos­ trados "em si". A "experiência" no caso é, portanto, viciada por ele­ m entos de intenção significantes não preenchidos (lindo por wno . ,PnmciraMedita.çiio ~.) íntwçao correspondente. O aperfeiçoamento dá-se, então, numa progressão sintética de experiências concordantes, em que essas in­ tenções significantes chegam ao estado da experiência real, que os •confirma e preenche. A idéia correspondente de perfeição seria a de evidência adequada, sem que pesquisemos se, em princípio, essa idéia está ou não si tuada no infinito. Ainda que essa idéia não cesse de guiar as preocupações cien­ tíficas, um outro tipo de perfeição da evidência assume aos olhos do estudioso uma dignidade mais alta. Nós o captamos à medida que, como dissemos, tentamos "viver" suas preocupações científicas. Trata­ se da apodicticidade. A apodicticidade pode, conforme o caso, per­ tencer a evidências inadequadas. Ela possui umo indubitabilidwle absolllta de uma categoria especial e bem determinada, aquela que o estudioso atribui a todos os princípios. Manifesta a superioridade de seu valor na tendência que tem o estudioso de justificar novamen­ te e num plano superior os raciocínios já evidentes em si, elevando-os a princípios, e de lhes proporcionar dessa forma a dignidade suprema da apodicticidade. O caráter fundamental dessa evidência deve ser descrito, como se segue. Em cada evidência, o ser ou a determinação de uma coisa é captada pelo espírito no modo "ela mesma" e com a certeza absolnta de que esse ser existe, certeza que exclui a partir de então qualquer •possibilidade de dúvida. No entanto, a evidência não exclui a possibi­ •lidade de seu objeto tornar-'se, em seguida, objeto de dúvida: o ser •pode revdar-se uma simples aparência; a experi ência sensível no ~ fornece muitos exemplos dela. De resto, essa possibilidade, ~e mpre '.aberta ao objeto da evidência de tornar-se, e m seguida, (lbjcto de dú vida, de poder não ser - apesar d(l evidência - , pode se r prc­ visl<l por nós por meio de uma reflexão crítica. Em contrapartida, uma n'idéllcia opodícTica tem essa particularidade de não ser so­ mente, de maneira geral. certeza da exis tê ncia das coisas ou "fatos" •ev identes: ela se revela ao mesmo tt::mpo à retlexão crítica como uma impossibilidade absoluta de que se conceba a sua não-existência e, portanto, exclui de antemão toda dú vida imaginável COlllO despro­ vicia clt:: sentido. Além disso, a evidência dessa reflexdo crílica em si é ainda uma evidência apodícti ca ; em conseqüência, a evidência da existência dessa impossibilidade de não ser aquil o que é dado e m
  17. 17. 34 35l',.fcditações Cnrtcsirmas uma certeza evidente também o é . E o mesmo vale para qualquer reflexão crítica de ordem mai s elevada. Record emos imed iatamente o princípio cartesian o da indu­ bitabilidade absoluta, pel o qual deveria ser excluída qualquer dúvida concebível e mesmo qualque r dúvida não justificada, e vam os lem­ brar disso à medida que ele serve à edificação de uma ciência verda­ deira. Graças à nossa meditação, esse princípio foi sendo progress i­ va mente realçado e assumiu forma mais c lara. Trata-se agora de saber se ele pode nos ajudar a adotar um ponto de partida real e de que maneira pode fazê-lo. Conforme nossas afinnações anteriores, a primeira pergunta a ser formulada por uma filosofia que se inic ia é a seguinte: podemos "descobrir" evidências que contêm a "apodíctica" adiantar, como "primeiras em si", todas as outras evidências concebí­ vei s, e ao mes mo tempo percebê-las como apodícticas? Se elas fos­ se m inadequ ad as, ao menos deveriam ter um conteúdo apodíctico passível de ser conhec id o, um conteúd o assegurad o, graç as à apodicticidade, "de uma vez por todas", ou seja, de maneira absoluta e inquebrantável. A questão de como se pode e de se é possível ir mais longe na construção de uma filosofia apodicticamente segura com cer­ teza há de ser uma cura posterior. 7. A evidên.cia da existência do mun.do não é apodictica; sua inclusão na reJ7olucão cartesianaJ o problema relativo ús evidências primeiras em si parece reso l­ ver-se sem dificuldade. A ex istência de um mundo não ocorre como uma evidência desse tipo') Ao mund o re lac iona-se a atividade da vida coticli ;ma, assim como o conjunto das c iênc ias, as ciênc ias de fato de forma imed i.ll a, as c iências apri orístiC<ls de forma med iata co mo ins­ trurnentos de mét odo. A ex istência elo mundo OC OITe por si: eJ,) é de !<lI forma natural que ninguém pensarj em enunc iá-la explic itamente num<l proposição. Não temos nós LI cOIltinuidade da experiência, em qu e o Jl1l1ndo est,í o tempo todo presente diante de nossoS olh os de man eira incontest6vel? Essa ev idênci a é, e m si própria, anterior, tan­ to ~l S evidências da v ida cotidiana, que se relacionam com o mundo, 1'rimcirn 1Hcditt1ftZO qu anto ~Iqu e hl s de tod as as c iênc ias, que tê m o mundo como objeto, ciências d as quais a vida é, aliás, o fundamen to e o suporte perma­ nentes. No ent,mto, podemos nos perguIllar se, nessa fun ção de an­ terioridade CJue é a sua, ela pode almejar a um ca ráter apodíctico. Prossegu indo llessa dúvida, achamos que ela não pode nem mesmo almejar o privilégio da ev idência primeira e absoluta. N o que COllcerne ao prime iro ponto, fica claro que a experiên­ cia sensíve l universal , na ev idênc ia da qual o mundo nos é perpetu a­ m ente dado , não saberia ser considerada sem m ais como apodíctica, ou seja, como exc luindo de mane ira absoluta a possibilidade de duvi ­ dar da ex istência do mundo , quer di zer, a possibilidade de sua não­ existência. Uma experiência indi vidual pode perder seu valor e ver­ se degradar ant e uma simples aparência sensível. Também tod o o co njunto de ex pe riências, do qu al podemos abraçar ti unidade, poele revelar-se co m o simples apa rênc ia e ser apenas um "sonho coeren­ te". Não é o caso de já ver nessas observações que. acabamos de fazer, sobre as mudanças bruscas possíve is e reais da evidência, uma crítica sufic iente dessa própria ev idência, nem uma prova peremptó­ ria de que podemos conceber a não-ex istênc ia do mundo, apesar da experiê nc ia contínua que temos dele O impo rtante é le mbrar o se­ guinte: se qu eremos fundamentar as c iências ele mane ira radical ; a evidência do mundo que LI experiência nos fornece necessita de qual­ quer forma de uma crítica p révia de sua au to ridade e de seu alcance: pOl1anto, nJO podemos, sem contestaçJo, considerá-I a como apodíctica. N ão basta então suspend er nossa adesão" tod as as ciências e tratá­ las C0 l110 prcj ul gal11clllos inadmissíveis p,lr<1 nós. É prec iso tam bé m retir<lr cio t ~' ITc n o lllli ve rs,ll , cio qu;t! CL1S se ,t1imentalll, cio te rreno d o muncl o e mpíri co, sua aut oridade cspolltilnca. A existência el o mund o. fundamentada na ev idência da ex periência natural, não pode ma is ser para nós UJ1l fato que ocorre por si: ela em si não é pJra nós ma is gue um objeto de ,lfirmação T1as se 11 0S ati vermos a esse ponto , restar-nos-á ainda uma base para julgamentos qu,lisquer, ,llé mesmo ev idências, base gue possa sCl"vir de fund ament o, e ele fumLtmc llto apodíctico a uma fil o­ sofia llni 'crs,l]"l O mund o n:ío englob'l a ulli'crsalidade ele tnd o o glle é? Poderíamos a partir daí ev itar levar a efei to, ainda ass im, in eXTen­ so e a títul o de tarefa primeira, a críti ca da experiência do mundo que
  18. 18. •••• •••••• ••••••• 36 31-1cditações Cm'tcúanas acabamos de esboçar? E se o resultado dessa crítica se afirmasse ela forma como o havíamos suposto, seria então o fracasso de toela nos­ sa empreitada filosófica? Mas o que dizer se o mundo n50 fos se. no final das contas, o domínio absolutamente primeiro de todo julgamen­ to, e se com a existência desse mundo já estivesse pressuposto UI11 domínio de ser anterior em s i? 8. O ((ego cogitoJJ.como subjetividade transcendc'fltal Façamos aqui, seguindo os passos de Descartes, o gr;lnde ges­ to de voltar-se sobre si mesmo, o qual, se corretamente r'ea li zado, conduz à subjetividade transcendental: o debruçar-se sobr:; o ego cogito, domínio último e apodicticamente celta sobre o qual deve se r f undamentada toda filosofia radical. Reflitamos. Como filósofos que meditam de manei ra radical , não possuímos no momento nem uma ciência válida nem um mundo existente. Em lugar de meramente existir, ou seja, de se apresentar a nós apenas na crença existe ncial (naturalmente válida) da e.' peri ên ­ cia, esse mundo é para nós uni camente um fenômeno que cria uma pretensão de existência. 1sso te m que ver também com a existênci<:) de todos os outros eus, na medida em que eles fazem parte do mundo circundante, se bem que no fundo não tenhamos mais o direito de falar no plural. Os o utros homens e os animais não passam par.:! mim de dados de experi ênda decorrentes daquela sensíve l que ten ho de seus corpos; pOl1anto, não posso me servir da a utoridade desta. posto que seu valor é colocado em questão. Com os outros eus desapare­ cem naturalmente todas as formas sociais e culturais. Em reStlmo, não somente a natureza corpo ral, mas o conjullto cio 111undo concreto que me circunda, a partir de agora, não é mai s pa ra mim um 111undo ex isten te, mas somente " fenômeno ele ex istênc ia:'. No entanto, qua lquer que seja a pretensão exi stenc ial rl'a l ine­ rente a esse fenômen o, e Cju;Iiquer que seja, e m reldçàn a i~ Sll. a miJ1ha deci são crítica - que cu opte pelo ser o u pela ;tparênci:1 --, esse fenômeno, como m eu. não é um puro nada. Elc é, ao contrário, justamente o que me torna possível uma tal dec isão: é também. po r­ P"imcim i1cdiração tanto, o que torna possível que haja para mim uma crítica do ser "verdadeiro", que determina o próprio sentido da validade de uma tal asserção. E mais: se, como pude fazê-lo livremente e como realmente acabo de fazer, abstenho-me de toda crença empírica, de maneira que a existência do mundo empírico não mais seja válida para mim, essa abste nção é O que ela é, e está incluída e m todo o coticliano da vicia perceptiva. Essa vida está continuamente ali para mim, tenho constantemente a consciência perceptiva dela num campo de per­ •cepção presente; ora ela está presente para mim em sua originalida­ ele mai s concreta, ora tais e tais formas passadas dessa vida " to r­ nam-se novamente" conscientes para mim pela memória, e isso implica que elas se tornem novamente conscientes como "essas próprias for­ mas passadas". Posso, a qualquer momento, na reflexão, dirigir um olhar de minha atenção a essa vicia espontânea, captar o presente como presente, o passado como passado, como eles de fato são. E o I • • • • • • • •• faço agora como eu filosófico, que pratica a citada abstenção. Num certo sentido, para mim, o mundo percebido nessa vida reflex iva está sempre ali; ele é percebido como antes, com o conteú­ do que, e m cada caso, lhe é próprio. Continua a aparecer para mim como até então, mas, n'a atitude refl ex iva qpe me é própria como filóso fo, não efetuo mais o ato de crença existencial da experiência .natural: não admito mais essa crença como válida, ainda que, ao mesmo tempo, c la esteja sem pre aI i e possa até mesmo ser ca ptad;l pelo 0 1h;1r da atenção. O mesmo vale pma tod as as outras intenções que pertencem ao meu cotidiano de vicia c que ultrapassam as intuições e mpíricas: representações abstratas, julgamentos de exist0Jlc ia c de va lo r, determ inações, pos ições de fin s e de me ios, etc.; ta111 béll1 n:l0 executo mais atos de autodeterminaç50, não " tomo posição": atos que são natural e necessariam ente executados na atitude irrefletida e ingênua da vida cotid iana; abste nho-mc de fazer isso precisamente na medida em que essas atitudes pressupõem o mundo e, por1anto, contêm nelas lima crença existcncial rel at iva ao mundo. Também aí , a bs t e n ç8o e o a t o de de ix a r c m s e gun do p Ian o a s a t it ucI c s determinativas pelo meio reJ1ex ivo do filósofo n30 significam que e las desa pareça m de seu campo de experiência. Os estados ps íquicos concretos, vale repetir, são o objeto do o lhar da atenção; mas o eu
  19. 19. 39 ;~ /vI(dirn( rlc<Cnrtcsit17/aJ atcn cional, como e/l filosófico, pratica a abstenção em relação a esse ,ldo intuiti vo. D~l mesma forma, tudo O que nos estados vividos des­ se tipo estava, no scio da consciência significante, presente a título de coisa visado, ou seja, um julgamento determinado, uma teoria dos valores ou dos fins, nada disso é suprimido. Mas todos esses fenôme­ nos perderam sua "validade" e sofrem uma "modificação de valor"; eles nJo passam ilgora de "simples fellÔmenos·'. Em conseqüência, essa invalidação universal, essa "inibição" de todas as atitudes que podemos tcr em relação ao mundo objetivo - e, de início, das atitudes relativas à: existência, aparência, existên­ cia possível, hipotética, provável e outras - ou, ainda, como se.cos­ tunJa di ze r: essa E1lOX11 fenomenológica", essa "colocação entreya­ rênteses" cio mundo objetivo, não nos põem diante de um puro nada. O que, cm contrapartida e justamente por isso, torna- se nosso, ou melhor, o que dessa forma torna-se me u, a mim sujeito que medita, é minha vida pur~l com o conjunto de seus estados vividos puros e de scus objetos intencionais, Oll seja, a universalidade dos "fenômenos" no sentido especial e ampliado da fenomenologia. Pode-se dizer as­ sim que <1 E1l0Xll é o método universal e radical pelo qual me perce­ bo como eu puro, com a vida de consciência pura que me é própria, vicia na qual e pela qual todo o mundo objetivo existe pãra mim, exa­ tamente da fonna como exiqe para mim. Tudo o que é "mundo", todo ser cs pa c i~ll c temporal ex iste para mim, quer dizer, valc para l11im~ o próprio fato de eu ter dele a experiência, de percebê-lo, rCTllclllorú-lo , pensar nele de qu,t1qucr maneira, elaborar em relaçJo d .:Ic julg;lmenlOs de ex istência a li de valor, clesejj-lo, e as im por di'lnte. Tudo is:-;o. DCSGlrlcS designa. como se sa be, pela p;t1élvra C()giTO. A bem dizer, o mundo n:io é para mim outra coisa senão O que existe, e vale para a minh~l consc iência num cogito semclh'lIlte. Todo o seu scntido uni ve rs.t1 e )J<lrlicular, toda sua validade ex istcn­ Ci:l!. cle os tir~l exclusivanwnte desas cogit(l/iollcs. N elas transcor­ re toda d minha vida intrzlmundana, portanto também .15 PcsCluisas e es forços CJue te nham que ver eom minha vida científica. NJo ])OSO VI'er, cxperill1Cn!<IL pCnS(L ]) JU posso agir e emitir julgamentos de ',l1or num mundo OUlro que ,1LJlICil: CJue encontra em mim e lir'l de mim mesmo scu sentido e sua valid'1de. Se me coloco llcima de toda essa vida e me abstenho de efetuar a menor crença existencial que Primeira lvlailrnçiio coloca "o mundo" como existente, se volto exclusivamente para essa vida em si, na medida em que ela é consciência "desse" mundo, en­ tão me encontro como ego puro, com o cotidiano puro de minhas cogirationes. Em conseqüência, de fato, a existência natural do mundo - do qual posso falar - pressupõe, como uma existência em si anterior, a do ego puro e de suas cogitationes. O domínio de existência natural, portanto, só tem uma autoridade de segunda categoria e pressl1põe sempre o domínio transcendental. É por is so que o esforço fenomenológico fundamental, ou seja, a E1l0Xll transcendental, na medida em que nos leva a esse domínio original, chama-se redução fenomenológica transcendental. 9, Alcance da evidência apodíctica do ((eu souJ ) A qu estão seguinte é saber se essa redução toma possível uma evidência apodíctica da existência da subjetividade transcendental. A experiência transcendental do eu não poderá servir de suporte a julgamentos apodícticos, a não ser que ela própria o seja. É só então que uma filosofia será possível, ou seja, que ela será possível de criar, a partir desse campo de experiências e de julgamentos original , um edifício sistemático de conhecimentos apodícticos. Que o ego S Wl1 ou o S /.I!J1 cogitans deva ser visto como apodíctico e, portanto, que com cle tenhamos sob nossos pés um domínio de ser apodíctico e primeiro, Descartes, sabemos, já viu Ele assinala bem o clr:iter indubitáve l dessa proposição e afirma em alto e bom tom que mcsm o o eu duvido jú supõe o eu SOI/. Trata-se, é claro, também no caso dele, do eu que percebe a si próprio, após ter colocado de lado o mund o empírico como podendo ser objeto dc dúvida. Fica claro, após nossos esclarecimento. que o cnticio da certeza na Cjual, gr~lças ;1 red llc;Jo transcendental. o ego consegue revelar-se a nós correspon­ de realmente :10 conceito de apodicticidade que explicitamos acima. É verdade CJue o problem<t ela "podiclicid<tele e. dessa rorm,1. o cio fllnddm cnto primeiro de Uilla filosofia ainda nJo está de 1ll:IlCir:l alguma resolvido. Com efeito, as dúvidas Jogo surgem. Por exemplo, a subjetividade transcendental não contém necessariamente seu passa­
  20. 20. •• ••••• ••••••••• 40 j11edirafue>" CClrtesianm do eventual, acessível, por sua vez, apenas pela memória? Podemos pensar no caso dela numa evidência apodíctica? É verdade que seria falso querer negar por causa disso a apodicticidade do eu sou; isso só é possível se, em lugar de a tomarmos presente, limitanno-nos a argumentar de maneira totalmente externa. Mas há um outro proble­ ma que irá se colocar agora: o do alcance de nossa evidência apodíctica. Vamos lembrar aqui uma observação anterior. Numa evidência, dizíamos então, a adequação e a apodicticidade não Ilecessaria­ mente camillham juntas. Talvez essa observação, no fundo, visasse ao caso da experiênciÇ! transcendental do eu. Nessa experiência, o ego é originalmente acessível a si mesmo. Mas, em cada caso, essa experiência não oferece mais que um núcleo de experiências "propria­ mente adequadas". Esse núcleo é a presença viva do eu, tal como o expressa o sentido gramatical da proposição ego cog ilO. Para além desse núcleo, estende-se apenas um horizonte indeterminado, de uma generalidade vaga, horizonte daquilo que, na realidade, não é o objeto imediato de experiências, mas somente o do pensamento, que, neces­ sariamente, o acompanha. A esse horizonte pertence o passado do eu, quase sempre totalmente obscuro, assim como as suas faculda­ des transcendentais próprias e as particularidades que, em cada caso, lhe são habituais. A percepção ex terna (que certamente não é apodíctica) é, sem dúvida, uma experiência do objeto em si - o pró­ prio objeto est:i ali [diante de mim] -, mas, nessa presença, o objeto possui, para o SUj eito que percebe, um conjunto aberto e infinito de possibilidades indeterminadas que não são, elas próprias, atualmente percebidas. Esse espectro, esse ·'horizonte" é tal que implica a possi­ bilidade de ser determinado em e por experiências possíveis. De maneira igualmente análoga, a certeza apodíctica da experiência transcendental percebe o meu ell sou transcendental como capaz de implicar a ind e terlTlina~ão de um horizonte aberto. A realidade cio domínio de conhecimento original está, portanto, absolut,ll11Cnle esta­ belecid;l, mas também sua limitação, que exclui tudo aquilo CJue aincla não se apresentou, "ele próprio". a descoberto na evidênci,l viva elo cu SOLl. Todos os atos de pensamento significante que <Jcompanham a experiência da evidência transcendental - e são implic;ldos por ela - não concorrem para sua apodicticidade, e a possibilidade que Primrirn Meditarão ·11 ••possuem -ou pretendem possuir - de poder ser "preenchidos" por uma intuição correspondente deve ser submetida à crítica, que, even­ tualmente, limitará de forma apodíctíca seu alcance. Em que medida o eu transcendental pode enganar-se a respeito de si próprio, e até onde se estendem, apesar dessa ilusão possível, os dados absolutos e indubitáveis? Por outro lado, ao instituirmos o ego transcendental - e nles­ •mo se negligenciarmos por enquanto os problemas difíceis relativos à •apodi.cticidade - chegamos a um pont~ perigoso. ••10. Digressão. Como faltou a Descartes a orientação transcendental Pode parecer fácil, se acompanhamos Descartes, captar o e/l puro e suas cogitationes. Mas, no entanto, parece que acabamos chegando num cume escarpado. Avançar com calma e segurança .:por esse cume é uma questão de vida ou mone para a filo sofia Des­ cartes tinha a firme vontade de se desfazer radicalmente de qu,llqtler preju lgamento. Mas sabemos, graças a pesquisas recentes e sobre­ tudo aos excelentes e profundos trabalhos de Gilson e Koyré, quantos "prejulgamentos" não esclarecidos, herdados da escolástica. as Me­ rlúoÇ"(Jes ainda contêm. Mas isso· não é tudo; é preciso acrescentar <.linda o prejulgamcnto que mencionamos acima, deco!TcJ1le ele sua admiração pelas ciê ncias m;ltem;'ticas. Nós próprios sofremos ;lin(b J influência dessa herança anti ga, da qual deve mos nos resguarddl Falo da tendência a consider;r o ego cogiTO como um "axiom;l" apodíctico, que, junto com outros ainda não desvelados, ou me ~ mo com hipóteses encontradas por um caminho indutivo. deve servir de /"undamento a uma ciência "dedutiva" e explicativa do mundo. ciên­ Ci;l "nomológica", e CJue procede orrli/le gCOIl1eTrico exatamente igual ús ciê ncias matcm;íticas. De furmd corrclata, não deveremos pens<lr de 1l1,1llcira ,1IgUI11<.l que, em IWS -;O c'1I J)lfro <Ipodíctico, conseguimos preservar uma pequcna parccl;1 ci o mundo. parcela que, p"rd o ( ' /f ji/osófico, seria a única co is;l não sujeita à dúvida, e que se tr,t, agora de reconquistar, por deduções bem conduzidas e seguindo ()s princípios inatos ao ego, tocl o O resto do mundo.
  21. 21. 42 i'vJ.crútnçe"'i.:s Cnrtesirmas fnfelizm ente, é O que acontece com Descartes, em resultaclo de uma confusão, que parece pouco importante, mas acaba sendo muito funesta, e faz do ego uma substantia cogi/ans separada, um mens sive animus humano, ponto de partida de raciocínios de ca usalidade. É essa confusão que fez de Descartes o pai do contra-senso fi losófi­ co, que é o realismo tran scendental, o que, no entanto, não podemos ell:ergar ainda. Nada se melhante nos acontecerá se permanecer­ mos fi éis ao radicalismo do voltar-se para si mesm o e, dessa forma , ao princípio da " intuição" (ou evidência) pura, e se, em conseqüência, fizerm os valer a penas aquilo que nos é dado realmente - e imedia­ tamente - no campo do .ego cogito que a ErroXll nos abriu; portan­ to, se ev itarmos e nunciar o qu e nós próprios não vemos. Descartes não se conformou pl e namente com esse princípio. É po r isso que, num certo sentido, tend o feito já a maior das desco bertas, não captou nela o sentido co rreto, O da subj etividade transcendental. Ele não atra­ vessou O pórtico que leva à filosofia transcende ntal verdade ira. 11. O ((euJJ psicológico e o ((eu JJ transcendental. A transcendência do l1~undo Se mantenho em sua pureza o que, pela li vre EnoXll e l11 rel a­ çZio D. ex istência do mund o empírico, se ofe rece ao meu olhar. a lúil11. sujeito que medita, capto Ull1 fa to s ignificati vo: que eu mesmo e mi­ Ilha prórria vida permallecemos intatos (qu:lJ1to à posição dc nosso ser qu e permanece válida), qu a lquer qu e seja a ex istênci a ali não­ e: istênc ia do m li ndo, e q lla Iq lIU que possa se r o julgamento q lIC tere i sobre esse sujeito . Esse e u e sua v ida psíquica, que mantenho nec es­ sariamente apesa r da f noXll. n{ío sZio uma parte elo mundo: e se esse eu diz: ElI so u, cg () (;og i/o. isso ni'ío mai s quer dizer: Eu, como esse ho mcm. sou "Eu" nJ o é mai s o ho mem que se perccbe na intuiçZio niltmal de si cOll s idcrado como homem natural, nem tampo uco () honlC': Jll que. limitad o pe l:l abstraçZio aos eJéldos puros da e:pcri ên­ cia " inte rna" e purame nte ps icológica, ca pta se u próprio JIl l!JlS .., II·I! U77iIl7US sive in/ellcc/lIs, nem mesmo a alma, e ln própri a. tomada separadamente. Nesse modo de percepção "natural", eu e todos os 1'17i11Úm .;"''f..dira~iio 43 outros homens servimos de objeto ,1s ciências positivas ou objetivas no sentido comum do termo, como a biologia, a antropologia e a psi­ cologia empíricn. A vida ps íquicn, de que fala a psico logia, sempre foi concebida como vida psíquica no mundo. Isso vale manifesta­ mente també m para minha própria vida , já que podemos captá-Ia e analisá-Ia na e..periência puramente interna. Mas a oWXTJ feno­ men o lógica. tal como exige de nós o andamento das Meditaç ões cartesianas pllrificadas, inibe o valor ex istencial do mundo obj etivo e, dessa forma, o exclui totalme nte do campo dos nossos julgame ntos. O mesmo se dá com o valor ex isten c ial de todos os fatos obj etiva­ mente constatados pela experiência externa , assim como daqu e les da experiência interna . Para mim , sujeito que medita, colocado e per­ sistindo na é:nOX11', e pos icion a ndo-me assim como fo nte exclu s iva de todas as afirmaç ões e ele todas as justificações objetivas. ele I1Zio é, portanto , nem eu psicológico ncm fenomenos psíquicos no sentido da ps icologia. o u seja, compreendidos como elementos reais de seres humanos (ps icofísicos). Pela EnoXTJ fenomenol ógica, reduzo meu eu humano natural e minlw v ida rsíquica - elo míni o de minha experiência psicológica interno __o a mc:u eu transce ndental e fenomenológico, domíni o da experiêncio interno transcende77/ol e fenomenológica. O mundo objetivo, que ex iste para mim, quc ex istiu ou ex istirá para mim , esse mun do objetivo eo m todos os se us obj etos encontra em lIIim mesmo, com o disse ilcim,L todo o sentido e todo o val o r existencial que tem para mim; cle os encontra no II/C/! ell trulJ.lu:lldelltal, que só reve la a EnoX11 fellolllcnológic1 tr'1JlsCCnd,;ll(ll. DeCI1WS busc lr esse co nccitu llc tr,lIlsccnclclltal e se u conel:lt',. o conce ito de tr,mscendenle. c:cJus i<1mc nte em nossa própria Illedi­ tação fil osó fi ca. ; esse rcspe ito, vale ressaltar quc se o cu reduz ido nZio é ul11a p:lrte cio mundo. da meSlllZl (01'111<1, inve rs<1mentc, o mundo e seu s obj etos 11;10 S:IO partes re a is (lo meu e /l. Não é p oss ível enco ntr,í-l os Cm Jllil1h a vida pSÍqUi C:1 cumo r a rtes reai s dess<l vid<l, como um complexo de d<ld os scnS()ri ,l is ou de atos psíq uicos. ESS ,1 /rol1scel1dêllCIU é In erente no selll id u cspcc ífíco elc tlido o qu e faz pnrle do l1lundo, ,1iJl(1;} que n,ll) pOSS<t lllOS dar a essc " nlllI1d ) " c a suas determinações nenhum ) ulro scn lido senão aquele que c:traí­ mos de nossas experiências, n::pnêsclllilções, pensamentos,j ulgamentos
  22. 22. 44 ,V1cditaFõcs Cartesianas de valor e ações, da mesma forma que não podemos justificar a atri­ buição a esse mundo de uma existência evidente, a não ser p::Htilldo de nossas próprias evidências e atos. Se essa "transcendência" de inerência irreal pertence ao sentido próprio do mundo, então o eu em si, que carrega nele o mundo como unidade de sentido e que justa­ mente por isso é uma premissa necessária dele, esse eu chama-se transcendental no sentido fenomenológico do termo, e os problemas fílosófícos decorrentes dessa correlação chamam-se problemas fílo­ sófíeos transcendentais. • •SEGUNDA •MEDITAÇÃO .'•••o CAMPO DE EXPERIÊNCIA .'TRANSCENDENTAL E SUAS •ESTRUTURAS GERAIS •••12. Idéia de umfundamento transcendental do conhecimento •Vamos agora dar uma nova direção à nossa meditação. Somen­ te dessa forma os resultados de nossas consideraçoes anteriores po­ •derão gcrar seus frutos. Eu, que medito segundo o modo cal1csiano, •o que posso extr:1ir do eu transcendental do ponto de vista filosófico? Cert:1lllcnte, do ponto de vista do conhecimento, o ser desse eu pre­ •cedc qualquer existência objetiva. Ele é num certo sentido o scu do­ •mínio. em que se fOflna todo o conhecimento objetivo no sentido nor­ malmente atribuído a esse termo. Mas esse fato de "preceder·' todo •o conhecimento objetivo acaso quer dizer simplesmente fazer uma •"premissa" dele? Não que se trate de abandonar a grande idéia •cartcsi:ll1a de ir buscar I12l subjctividade transcendental ajustifiC:1Ção t'i1tima de tod:ls as ciências. até mesmo da existência de Ulll mundo •objetivo. Nesse caso, não teríalllos conferido uma modific:1ção críti­ ca ;10 andamento das A1edi/oç-?5es; não scguiríamos mais nenhum r:1:-;ro delas_ Mas pode ser que a descoberta cartesiana clo eu •transcendental revele também uma idéio nova do jUlzdo!l7(!1710 do conhecimenlo, a saber de UIll fundamento ele ordem transcendental. •Com efeito, em lugar de utilizar o ego cogito como premissa •45 •••
  23. 23. 46 47 .Jt'ilitl/{lIr:.< C nrtr.<imlf7s apodicticamcnte certa p<lfa raciocínios que devem nos levar a uma subjetividade transcendental. ei s aqui para o que iremos voltar nossa atenção: aos olhos do filósofo que medita, a E.TCOXll fenomenológica põe em destaque uma e.fera nova e illfilIita de ex istênci(/ que pod e atingir uma experi ênc ia nova, a experiência tran scendental. Observe rnos uma coisa: ~I cada tipo de experiência real e aos modos gcrili s de sua especificaçJo - perce pção, retenção, lembrança e outros - corresponde também uma ficção pura, uma "quase-experiên­ cia", que possui modos de especificação paralelos (percepção, reten­ ção, lembrança fictícios) . Assim sendo, estamos no direito de nos ater àquilo que existe também no domínio da possibilidade pura (re-: presentação pura ou irnagi nação), uma c iência especial de ordem '. a p riorís tica cuj os jul g amentos base iam-se não e m rea lidades tr;lllscenckntilis. mas ê m po~s ibilidad es apriorísticas, e que assim sendo prescreve regras, {l priori. a essas realidades. 1'.13s nos permitindo vagm ao acaso no sentido de conceber a idéia de uma ciência fen omenológica que deve trans formar-se numa jllosofia, logo encontramos, com o imperativo metódico fundamen­ taI de uma evidência que seria apodíctica, as difi culdades menciona­ das acima . Porque, como vimos, por mais absolutLl qu e seja essa ev idência para a exi stênci;1 do eg o e para esse próprio ego , 'ela n50 O é da me s llla forma P()f<1 o s múltiplo s dados da e xperi ê nciá tr;lllscendent<ll. C om efe it o. as cogiwlion es dadas na atitude da re­ dução tran scenden(;]1 como objetos de percepção, de lembrança. etc ., nJo poderiam ser tid as como ilbsolutamente certas qua nto ~I seu ser presente ou pass;l(o. No cnt :Il IO, é poss ível m ostrar que ;1evidência ilbsoluta do (:'// SOl! estende-se também , necessari amcnt e. ;IS 1l1ulti­ plic idades da ex periênci:1 interna que temos da vidu frU!1. u!/u lel1fu/ i' (Ins p{/uic l!l{./ ri r/(/(les /lOhifllnis do (' 11 , ;Ii nda qu e e b se iltenh,) a ,:crtos limitcs d e t e rlllill ~ ld os reln :Ilcance de t:1Ís ev idênc ias (por exem­ plo. as cid Icmbr;lllç:1 lllL'di:ltd ou illleúi:ltd, etc .). V :llll OS csc lmecer 11 0 SS0 pensillllclllo . O cUlllclÍd o ,Ibso lutillllcllte certo qu e nos é forne­ c icl o n;! cxpcri ênei;1 intcrIL! lransccndentdl não se reduz uni c;lll1ente ;1 idcnticbd e ci o C II S OIl . Por me io de t ()do~ os d,lc! OS singllLlres ela experi ênci<t interna rc;rI e possível - ainda quc n;IO sejam ,)bsoluta­ mente cert os no detalhe -, estende-se UJlla estrullll'o unive rsal e ({podícric(/ ria I'!xperii'n c iu d o eu, como, por e xemplo, :1 forma tem- Segunda .Hrditnplo poral imanente da corrente de con sciênci~, Em virtude dessa estmtu­ ra - e este é um dos seus caracteres próprios - , o eu possui um esquema apodíctico de si mesmo, esquema indeterminado que o faz aparecer a si mesmo como eu concreto, que existe com um conteú­ do individual de estados vividos, de faculdades e de tendências, por­ tanto, como um objeto de experiência, acessível a uma experiência interna poss ível, que pode ser infinitamente ampliada e enriquecida. 13. Da necessidade de excluirprovisoriamente osproblen"tas relativos ao alcance do conhecimento transcendental A realizaç ão efetiva dessa "descoberta" seria a /(Irefa ell7i­ n enle de umu c rítica da exp eriênc ia interna transcendenla l, crí­ tica que se basearia nas formas individuais e determinadas dessa experiência. Essa tarefa , como se vê, é de ordem superior e faz supor o cumprimento de uma primeira providência: seria preciso que, seguindo a evidência concordante da experiência tran scendental em Sl:U jogo, por ass im di zer, ingênuo, fôssemos de início orientados em seus dados c os tivéssemos descrito em seus caracteres gerai s. A ampliação das llll:ditações cartesianas que acabamos de efe­ tuar v,lÍ de terminar d e forma ~ e me lh a nte nossos esforços futuros. Pre vemos a partir de agura que os trabalhos científi cos agrupados sob o título coletivo de j<'l7 om el1 () /ogio Iml7sCendenlO/ deverão e fe­ tuar-se e m duos el({/m,'. Nu jJril/l eir{/, será nccess;írio perco rre r Ullla primei)';) '(:~z o CillllpO - imenso, como ve remos - do experiêl/c ia frol7 SCelldel/ fl/ / do eu. VdIllOS. desde o inÍL'i o. II/)ulldoll(lr-IIOS puro (' simp/esm el/ f(' (i ev;rlêllc;o /)/'/)/)ri(l do d e.·('1I1'o/,illl ellf u (,ollcordu/'I fe d cssl/ ex ­ jJ ('riêllci(/ . V,IIllOS, portanto. dci x:lr p,lra o futuro os pro bkll1 ~l" dl' lima crítica ci o ;rlc;rnce dos princípi os ;Ipodícticos. ESSLl prime ir;! cta­ pa (Iilldo n{IO é .fi/osójico !I() sentido pIeI/O da jJiI!UV/'O . V~lITlOS proceder no C<l SO à mane ira do naturalista que se ab;mdOIl<l ir evidên­ c ia da experi ência n;llur;r!, e que , como naturalistLl, exclui elo te ma de suas pesqui sas as questões re lacionadas a uma crítica geral dessa própria experiência.

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