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UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO AO FILOSOFAR.
*João Vicente Hadich Ferreira1

           “SER ou NÃO SER, eis a questão” dirá                  começa a pensar!” Portanto, dentro desta proposta,
Sheakspeare 22 séculos depois da primeira indagação              algumas questões apresentam-se inevitavelmente: por
sobre o SER. Uma depreciação da profundidade desta               quê pensar é uma “aventura filosófica?” Mas, o que é
indagação seria o popular “será que ele É?”, ao que              filosofia? Pra que serve? Por que estudar ou ensinar
cada um deverá responder dando conta de sua opção                Filosofia?
sexual. Para Moisés Deus disse: “EU SOU te envia”,                          Como responder a estas e outras questões
respondendo a angustiada pergunta do profeta: “quem,             que nos afetam? Questões existenciais, como por
direi ao faraó que me envia?” Por outro lado, a resposta         exemplo: “Quem sou”? “De onde vim”? “Para onde vou”?
“SOU, mas quem não É?” poderá justificar a consciência           “Há um sentido para a vida?”.
de quem não deseja mudar e, “SOU produto do meio”                           O homem sempre buscou explicações que
poderá endossar apenas uma visão determinista de um              justificassem sua existência. Como já nos dizia PASCAL,
“SER” sem liberdade para construir-se. Profunda e                o homem é um ser pensante:
intrigante, a questão do “SER” já aparece entre os
gregos e, Parmênides, dos primórdios do pensar                               O homem não passa de um caniço, o mais
criticamente afirmará: “o SER É e, o não-SER, não É”.              fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é
Aparentemente simplória, a conclusão parmenídea                   preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo:
revelará a identidade entre o SER e o PENSAR,                    um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas,
fundamentando o PRINCÍPIO de NÃO-CONTRADIÇÃO,                      mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria
assaz importante para o pensamento lógico. Mas, para             ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que
quê nos interessa tudo isto?                                        morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o
           Evocar a questão do ser é adentrar num dos            universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade
campos de estudo da FILOSOFIA, a metafísica e, neste                          consiste, pois, no pensamento.
sentido, despertar nosso próprio ser para o pensar de
um modo diferente. Despertar para o pensar... em que                        O homem portanto, pensa, não apenas vive.
implica isto? Nós já não pensamos naturalmente? Mas              Dirá o existencialismo, corrente da filosofia surgida no
que tipo de pensamento nós temos, que “pensar”                   século XX que o homem é o único ser que existe, ou
praticamos? Um pensamento livre? Ou será um                      seja, que tem consciência de seu ser. As coisas não
pensamento formatado, definido por alguém ou por                 existem como consciência, como o homem. O homem
algum sistema? Somos autônomos, ou seja, capazes de              pode refletir sobre si, olhar-se de fora, fazer a aventura
pensar por nós mesmos ou dependemos exclusivamente               da      auto-reflexão...     só     o      homem      tem
do pensamento de outros para podermos “viver”? Afinal            consciência...consciência de si.
de contas, o que somos? É a questão do SER que se                           Tal capacidade, que difere o homem de todos
apresenta... Pensar, palavra tão corriqueira, que nos            os seres vivos existentes no mundo, possibilitou não
diferencia dos animais, esconde muito mais do que o              apenas conviver com a realidade, mas também
simples ato de fazer contas ou ouvir coisas... está além         conhecê-la, apreendê-la e explicá-la. Pensar é tão
da condição de entender palavras pelo simples processo           fantástico que não nos torna os mais fortes
de memorização ou visualização. Mas o que é pensar?              necessariamente, os mais perfeitos tecnicamente mas,
Aqui somos convidados para uma viagem que, podemos               nos torna diferentes, humanos e únicos. A capacidade
ficar tranqüilos, não envolve substâncias ilícitas mas,          de pensar nos permite criar, projetar. Dizia o
apenas e tão somente, um exercício: o pensar! É uma              existencialismo também que o homem é um projeto, o
viagem pelo mundo de sophia, palavra grega derivada              único capaz de projetar-se. Mesmo numa teoria mais
de sophos (sábio) e que significa sabedoria. Unida à             materialista, MARX - nos seus estudos sociais e na
palavra philo, que derivou de philia (amor, amizade), deu        produção da sua teoria - enaltece a capacidade do
origem à palavra philosophia, ou seja, filosofia que,            homem de pensar:
etimologicamente significa “amor pela sabedoria”.
           Aventurar-se    portanto     no   mundo     da                   As abelhas constroem colméias tão perfeitas
FILOSOFIA é a proposta, não no sentido de tornarmo-                 que poderiam envergonhar a mais de um mestre-de-
nos professores de filosofia mas de descobrir que somos            obras. Mas o pior mestre-de-obras é superior à melhor
naturalmente filósofos. Como dizia Kant, não se ensina              abelha porque, antes de executar a construção, ele a
filosofia mas apenas a filosofar. E, filosofar, é pensar!!!                       projeta em seu cérebro.
Que maravilha e que impressionante é o homem! Por                          Pensar portanto, é uma grande viagem!
isso, falar em educação, falar em conhecimento, falar no         Podemos num momento estar aqui e noutro instante
pensamento é falar dessa complexidade que é o ser                localizarmo-nos em qualquer lugar. Criamos teorias e
humano. É falar em cultura, é falar no processo de               buscamos conhecer mistérios. Pensamos em Deus e
humanização, no nascimento e na importância da                   pensamos na vida. Mesmo prisioneiros fisicamente de
linguagem, sua relação com o conhecimento e com a                situações adversas, podemos ser livres e independentes
educação. O homem, essa aventura interminável a ser              no nosso pensamento, na nossa alma. Como diria Jean-
vivida, descoberta. Pensar talvez, seja tanto mais               Paul Sartre, “o homem é condenado a ser livre”. Mas, o
complexo quanto mais complexo descobrimos que é o                que é esta liberdade de pensar então? Pensar é buscar
homem. Por isso, pensar é uma grande aventura. Como              respostas, é querer conhecer, entender, descobrir,
dizia Lupicínio Rodrigues, “o pensamento parece uma              explicar. O homem que pensa pergunta, quer saber
coisa à-toa, mas como é que a gente voa quando                   sobre si e sobre a realidade, a que ele vê e a que ele
1
 Professor de Filosofia, formado pela Universidade Estadual de Londrina – U.E.L., com pós-graduação em Filosofia Moderna e
Contemporânea: aspectos Éticos e Políticos pela mesma Universidade.



                                                                                                                         1
não vê. Podemos afirmar que o homem que pensa,                mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas
produz conhecimento e comunicação, aprende também             esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou
a filosofar, ou seja, a ordenar seu pensamento em             precipitadas em outras, que também não dominamos.
função de iluminar as trevas da razão.2 Por isso, o           [...] Perdemos sem cessar nossas idéias. É por isso que
homem que filosofa suspeita a existência de outra             queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas.
realidade que não a apenas aparente, e busca desvelá-                     A filosofia portanto, não quer calar. A sua
la decifrando os enigmas que a permeiam.3                     proposta é de esclarecimento. Sobre esta questão, é
           Mas, qual é a realidade? Ou, filosoficamente       muito interessante a explicação kantiana sobre “o que é
perguntando, o que é a realidade? Aqui está um dos            o esclarecimento” no seu artigo de 1783: Esclarecimento
papéis da filosofia. É a inquietação com o que está dado.     [‘Aufklärung’] é a saída do homem de sua menoridade,
É o voltar-se sobre o que está dito e explicado. Como         da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a
escreveu MERLEAU-PONTY, a verdadeira filosofia é              incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a
reaprender a ver o mundo. Reaprender a ver o mundo é          direção de outro indivíduo. É a idéia de autonomia do
um bom ponto de partida. A leitura que fazemos do             sujeito (autonomia do grego autós – eu próprio e nomos
nosso mundo, a nossa vivência, os nossos valores, as          – norma, ou seja, o indivíduo capaz de determinar suas
nossas crenças... Tudo influi na nossa visão de mundo.        próprias normas).
Deste ponto, destes questionamentos, nasceu a filosofia                   Como escreveu JEAN-PIERRE VERNANT, a
na Grécia. Eis uma boa questão: qual é o mundo que            filosofia traz o mistério para a praça. Não faz mais dele o
vemos? Que mundo vivemos? Que sociedade criamos?              motivo de uma visão inefável, mas o objeto de uma
É uma sociedade crítica? Formamos as pessoas para             investigação em pleno dia. Através do livre diálogo, do
que mundo: o mundo do SER ou o mundo do TER? Que              debate argumentado ou do enunciado didático, o
sociedade criamos e reproduzimos, que existência              mistério se transmuta em um saber cuja vocação é ser
defendemos para o homem: a da humanidade ou a da              universalmente compartilhado. É o querer nietzcheano
“coisificação”? A escola esclarece ou ideologiza o            ao afirmar que caça homens como verdadeiro corsário,
pensamento? Costumo dizer que vivemos uma                     não para vendê-los como escravos, mas para levá-los
sociedade do “fast-food”. Você sabe o que é um fast-          consigo para a liberdade. É, com certeza, uma grande
food, não é? Exatamente: “comida rápida”. São aquelas         aventura.
lanchonetes e restaurantes que te servem em cinco
minutos, que te “satisfazem” rapidamente. O problema é
que, como a comida rápida, que se apresenta como a
melhor alternativa para a vida corrida do dia-a-dia, assim         FRAGMENTOS: QUAL A “UTILIDADE” DA
toda informação praticamente se constrói na sociedade
do “tudo pronto” e do “descartável”. Somos educados                         FILOSOFIA?
dentro do lema “tempo é dinheiro!”. Portanto, não
“podemos” perder tempo. Por isso, ávidos por
informações, mais do que por uma boa formação,                           Para responder à questão, precisamos saber
estamos nos tornando extremamente generalistas e               primeiro o que entendemos por utilidade. Eis o
vazios, transformando nosso cérebro muitas vezes num           primeiro impasse. Vivemos num mundo em que a
voraz consumidor da informação fast-food, como nosso           visão das pessoas está marcada pela busca dos
estômago acostuma-se com o alimento rápido. É                  resultados imediatos do conhecimento. Então, é
inevitável portanto que, nesta sociedade do consumo            considerada importante a pesquisa do biólogo na
rápido, imediatamente depois de experimentarmos a              busca da cura do câncer; ou o estudo de matemática
ilusão de que fomos informados sobre tudo, percebemos          no ensino médio porque “entra no vestibular”; e
que nada sabemos.4                                             constantemente o estudante se pergunta: “Para que
           Libertar-se da ideologia dominante, construir o     vou estudar isto, se não usarei na minha profissão?”
pensamento crítico, refletir sobre a realidade, não aceitar              Seguindo essa linha de pensamento, a
o que está posto - dado como verdade - sem questionar-         filosofia seria realmente “inútil”: não serve para
se, sem procurar “ler a entrelinha”, é pensar o próprio        nenhuma alteração imediata de ordem pragmática.
pensamento. Por isso podemos dizer que FILOSOFIA É             Neste ponto, ela é semelhante à arte. Se
O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE DE                             perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte,
PENSAR O PRÓPRIO PENSAMENTO. Pensar todos                      veremos que ela tem um fim em si mesma e, nesse
praticamente pensam mas, pensar o próprio                      sentindo, é “inútil”.
pensamento... é um exercício.
                                                                         Entretanto, não ter utilidade imediata não
           Como escreveu BRECHT, Nós vos pedimos
                                                               significa ser desnecessário. A filosofia é necessária.
com insistência: Não digam nunca: isso é natural! Diante
dos acontecimentos de cada dia, Numa época em que                        Onde está a necessidade da filosofia?
reina a confusão, Em que corre sangue, Em que o                          Esta no fato de que, por meio da reflexão
arbitrário tem força de lei, Em que a humanidade se            (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia permite
desumaniza, Não digam nunca: isso é natural! Para que          ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é
nada passe a ser imutável!”                                    dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se
           A Filosofia busca um despertar, um “algo”           encontra mergulhado.
diferente para o que é comum. É a busca de uma ordem,                    É a filosofia que dá o distanciamento para a
da reflexão, como nos apontam DELEUZE &                        avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos
GUATTARI: Pedimos somente um pouco de ordem para               fins a que eles se destinam; reúne o pensamento
nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais               fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade;
angustiante do que um pensamento que escapa a si               retoma a ação pulverizada no tempo e procura
                                                               compreendê-la.
2
  LOVO & RODRIGUES, 2000, p. 4.                                          Portanto, a filosofia é a possibilidade da
3
  Idem, ibidem.                                                transcendência humana, ou seja, a capacidade que
4                                                              só o homem tem de superar a situação dada e não-
  CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 298.



                                                                                                                       2
escolhida. Pela transcendência, o homem surge como              liberdades, é a de minar, pelas análises que ela opera
 ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o seu         e pelas ações que desencadeia, as instituições
 destino.                                                        repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência,
           O distanciamento é justamente o que                   do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da
 provoca a aproximação maior do homem com a vida.                família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas
 Whitehead,       lógico     e    matemático     britânico       burocráticos, o que importa é fazer aparecer a
 contemporâneo, disse que “a função da razão é                   máscara, deslocá-la, arrancá-la...”
 promover a arte da vida”. A filosofia recupera o                         Finalmente, a filosofia exige coragem.
 processo perdido no imobilismo das coisas feitas                Filosofar não é um exercício puramente intelectual.
 (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia impede a          Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as
 estagnação.                                                     formas estagnadas do poder que tentam manter o
           Por isso, o filosofar sempre se confronta com         status quo, é aceitar o desafio da mudança. Saber
 o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e à         para transformar.
 política. É o que afirma o historiador da filosofia                      Lembremos que Sócrates foi aquele que
 François Châtelet: “Desde que há Estado – da cidade             enfrentou com coragem o desafio máximo da morte.
 grega às burocracias contemporâneas –, a idéia de
 verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos
 poderes (ou foi recuperada por eles, como
                                                                 (ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires.
 testemunha, por exemplo, a evolução do pensamento
                                                                 Filosofando: introdução à filosofia. 2ª ed. rev. e
 francês do século XVIII ao século XIX). Por
                                                                 atualizada. São Paulo: Moderna, 2001.)
 conseguinte, a contribuição específica da filosofia que
 se coloca ao serviço da liberdade, de todas as




    UNIDADE 2 – O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA GRÉCIA.
                                                             mitos mas, em determinado momento, é preciso uma
*João Vicente Hadich Ferreira                                racionalidade maior, a necessidade de uma explicação
                                                             mais coerente e científica para os fenômenos.
                                                                        O mito, portanto, pode ser compreendido já de
           Para melhor compreendermos como nasce a           início, como a primeira forma de explicação que o
Filosofia, é fundamental entendermos primeiro como se        homem tem para os fenômenos que contempla e para
dá e o que representa um tipo de pensamento tão antigo       as realidades em que se encontra e, cujas respostas, ele
quanto o próprio homem: o mito. Compreender a                desconhece. Mas, qual a definição de mito? Um olhar
questão do mito não implica em estabelecer um olhar          apressado pode levar-nos ao “olhar negativo” sobre o
negativo, condenatório mas, na realidade, buscar as          mesmo, onde o mito aparece-nos apenas como sendo
bases desta forma quase natural, ou imediata, do             algo fabuloso, alegórico, sem realidade. Podemos ver,
homem dar respostas aos problemas que o afligem. Na          por exemplo, no mini-dicionário Silveira Bueno a
Filosofia não entenderemos o mito de forma pejorativa        seguinte explicação: fato, passagem dos tempos
ou completamente negativa. Para nós, o mito é a              fabulosos, tradição que, sob forma de alegoria, deixa
primeira forma de explicação que o homem encontra            entrever um fato natural histórico ou filosófico; (fig.)
para aquilo que ele desconhece. Todos os povos, todas        coisa inacreditável, sem realidade.5 A definição não está
as culturas possuem seus mitos: egípcios, babilônios,        errada mas, dentro da concepção filosófica, porém,
caldeus, romanos, gregos... Hoje ainda transmitimos          interessa-nos aprofundar um pouco mais esta questão.
nossos mitos de geração em geração, tornando                            Vinda do grego mythos, a palavra mito é
plausíveis explicações que poderiam ser no mínimo            derivada de dois verbos especificamente: mytheyo (que
constrangedoras para os nossos filhos se recorrêssemos       significa contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e
apenas à racionalidade. Por exemplo, quando os pais          mytheo (que apresenta a idéia de conversar, contar,
recorrem ao mito da cegonha, buscam dar a explicação         anunciar, nomear, designar). A importância disto é que
para a indagação da criança supondo que o interesse          os gregos entendiam o mito como sendo um discurso
dela é o mesmo que eles pensam como resposta: o              pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem a
sexo. O que a criança espera é uma reposta à sua             narrativa como verdadeira porque confiam naquele que
pergunta sobre a sua origem, se ela é filha deles na         narra; é uma narrativa feita em público, baseada,
verdade e não um tratado de sexologia. Recorremos a          portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do
vários tipos de mitos, como o Papai Noel e Coelhinho da      narrador.6 Este narrador ou presenciou os fatos
Páscoa, ou a mitos de “heróis”, buscando tranqüilizar        narrados, testemunhou-os pessoalmente ou conheceu
nossa realidade, nossos sentimentos. Num determinado         quem o fez e recebeu dele a narrativa. Na tradição
momento, contudo, o mito não satisfará mais como             grega, quem detinha esta autoridade eram os poetas, ou
resposta à criança que amadureceu e, nem tampouco            os chamados aedos e rapsodos. Eram cantores
será coerente com a realidade que ela observa. Neste         ambulantes que apresentavam de forma poética os
sentido, ela buscará uma explicação mais racional.           relatos populares, recitando-os de cor em praça pública
Assim acontece com o homem na história do                    (ARANHA & MARTINS, 2003, p. 79). Sua narrativa era
pensamento. No início, tudo era explicado através dos
                                                             5
                                                               BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa, p.
                                                             435.
                                                             6
                                                               CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 35.



                                                                                                                          3
respeitada porque acreditava-se que o poeta era um         representavam a própria natureza (a beleza, o amor, a
escolhido dos deuses. Estes, ao escolherem-no,             colheita, a fertilidade...).
mostravam-lhe os acontecimentos passados e permitiam                  Toda esta tradição mítica dos gregos foi
que eles vissem a origem de todos os seres e de todas      construída, como já apontamos, a partir da autoridade
as coisas para que pudessem transmiti-las aos ouvintes     dos poetas. Os dois grandes representantes desta
(CHAUÍ, 2003, p. 35). Portanto, sua palavra – o mito – é   tradição foram Homero e Hesíodo. Ao primeiro atribuem-
sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é,      se duas grandes obras clássicas: a Ilíada e a Odisséia.
pois, incontestável e inquestionável.7                     A Ilíada trata da Guerra de Tróia (Ílion é o original grego
           Apesar do mito pertencer à cultura dos mais     de Tróia) e a Odisséia refere-se ao retorno de Ulisses
diversos povos, dedicaremos nossa atenção de forma         (cujo nome em grego é Odisseu) para casa após a
especial aos gregos. O motivo disto está em que, a         guerra. É bem verdade que não temos a confirmação
Filosofia, no entendimento que nos interessa abordar, é    histórica de que Homero realmente as tenha escrito. O
grega e fundamentou todo o pensamento Ocidental a          mais provável é que tenha sido o compilador dos mitos e
partir do pensamento grego. Veremos que a Filosofia        tradições que se mantinham por gerações. O fato é que
nasce na Grécia e que, somente lá houve uma                sua importância é fundamental na construção desta
sistematização do pensamento de tal forma a propiciar a    tradição. E é exatamente esta tradição, a chamada
passagem deste pensamento mítico para o que os             “tradição homérica” que Platão criticará quando
gregos chamaram de logos, ou seja, a razão, a palavra,     “expulsa” os poetas da sua “cidade perfeita”. Homero
o discurso racional.                                       representa o ápice e a vitalidade de todo um impulso
           A preocupação do mito não está na               cultural dos gregos. É considerado o “pai” da cultura
veracidade, no provar a realidade mas, apenas e tão        helênica pois, dele, deriva a idéia marcante da mitologia
somente em explicá-la. Sem respostas para os               grega: o destino, que comanda a vida dos homens e
sentimentos, fatos e fenômenos que contempla, o            dos deuses. E esta força, atrelada ao mito é a pergunta
homem recorre a mitos e encontra respostas que lhe         básica na formação do pensamento ocidental: o que é
dão segurança. Saber o que é o amor, por que o             essa força do destino que domina tudo? Por isso, a
universo está estruturado como está, por que a colheita    originalidade de Homero consiste no fato de ter legado à
foi boa ou não, são algumas das indagações que tomam       posteridade uma visão clara do espírito grego, em que a
conta do homem antigo. Procurando respostas, os            existência humana é profundamente permeada da
gregos apresentaram seus mitos relacionados à              presença do divino: cada momento da vida, nenhum
genealogias. Tais genealogias são compreendidas como       detalhe da vida parece ter sentido sem referência à
teogonias e cosmogonias. A palavra gonia, do verbo         divindade. O ser divino não representa explicação,
grego gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer)    interrupção ou suspensão do curso natural do mundo: é
e do substantivo genos (nascimento, gênese,                o próprio mundo natural.9 Durante os séculos homéricos
descendência, gênero, espécie), unida à palavra theos      a narração se organiza em torno dos personagens
(deuses, coisas divinas ou seres divinos), representa a    divinos, sendo os humanos reduzidos à essências com o
idéia do nascimento, da origem dos deuses, ou seja,        estatuto da quase-dependência. Por isso tudo se explica
teogonia. No caso da cosmogonia, a mesma palavra           pelas cosmogonias e teogonias, conforme já foi relatado.
gonia aparece unida à palavra cosmos (mundo ordenado                  Num determinado momento contudo, o
e organizado, o contrário de caos), o que nos remete à     pensamento mítico começará a ser questionado. Não
idéia do nascimento e a organização do mundo a partir      perderão suas crenças mas, buscando respostas de
de forças geradoras (pai e mãe) divinas.8                  forma mais racional, os gregos darão nascimento ao
           Para apresentar estas origens, do mundo e       pensamento filosófico. Por quê isto acontece na Grécia e
das coisas, os mitos narram-nas de três maneiras:          não nos demais povos? No Egito e na China, entre os
relatam o nascimento de tudo a partir da relação sexual    Caldeus e Babilônios, saberes também se construíram
entre os seres divinos que governam o mundo e os           mas, nada como a Filosofia grega. O que permitiu à
homens (mitos sobre o nascimento dos titãs, dos heróis,    Grécia desenvolver tal condição? É o que tentaremos
dos humanos, dos animais, dos materiais da natureza e      entender na próxima Unidade.
das qualidades, como bem e mal, justo e injusto, o
nascimento do amor através do mito de eros...), da luta
entre estes deuses que afeta o mundo humano (o ciúme
das deusas na origem da Guerra de Tróia, por exemplo)               FRAGMENTOS: MITOS GREGOS
e das alianças destes com os homens (o mito de
Prometeu, que protegia os homens e lhes dá a “luz
divina” como presente). Os deuses gregos, neste                Um pai cruel.
sentido, eram antropomórficos (do grego antropós =
homem e morfo = forma), ou seja, criados à imagem e                     No alto da luminosa montanha grega do
semelhança dos homens, diferentemente da concepção             Olimpo, na qual o ar era claro e transparente e onde
judaico-cristã, onde Deus nos fez a sua imagem e               reinava uma eterna primavera, habitava Cronos, o rei
semelhança. Criando e crendo em vários deuses – era            do Universo, num magnífico palácio.
uma cultura politeísta -, a relação que estabeleciam com                Cronos, chamado Saturno pelos romanos,
o divino era uma relação com a natureza. Por isso o            era filho de Géia (a Terra) e de Urano (o Céu), os
antropomorfismo, onde estes seres divinos não                  quais haviam tido, antes, muitos filhos, chamados os
diferenciavam-se muito dos homens em seus                      Urânidas: doze Titãs, seis varões e seis mulheres;
sentimentos e atitudes (eram bons ou maus, invejosos,          três Ciclopes (Brontes, Esteropes e Arges) e três
ciumentos, apaixonavam-se por humanos ou humanas e             Centímanos (Briareu, Cotos e Gias), que haviam sido
protegiam os homens ou faziam deles seus joguetes...) e

                                                           9
7                                                           PAIM, Antônio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo
  Idem, ibid.                                              Velez. Curso de Humanidades 5 – Filosofia: guia de estudos,
8
  Idem, p.36.                                              p. 45.



                                                                                                                     4
todos precipitados pelo pai no Tártaro, para que não                           A luta contra os Titãs durou dez anos. Foi
 pudessem destroná-lo.                                                 terrível e sem tréguas. Ao ver que não conseguia
          Cronos tomou por esposa a Réia, que se                       dominá-los, Zeus recorreu ao auxílio dos Ciclopes,
 sentia muito infeliz porque tinha tido muitos filhos                  irmãos dos Titãs, enormes gigantes de um olho só, no
 formosos e o cruel marido os havia devorado. Um                       meio da testa e, para assegurar a vitória, pôs
 oráculo anunciara ao feroz pai que seria destronado                   igualmente em liberdade os Centímanos (por ter cem
 por um dos filhos e ele tratava de evitar essa desdita,               mãos cada um). Desencadeou-se, então, uma
 engolindo-os quando nasciam.                                          espantosa luta: os Centímanos atiravam enormes
          A pobre mãe estava desesperada. Ao                           penhascos contra os Titãs e os Ciclopes feriam-nos e
 nascer-lhe um novo filho, ao qual pôs o nome de                       queimavam-nos com raios de fogo. O ardor e a cólera
 Zeus, saiu do Olimpo com o menino nos braços                          dos combatentes sacudiam toda a terra, desde os
 envolto no manto da Noite. Levou-o a uma gruta                        seus alicerces, e seus gritos raivosos rasgavam o céu.
 escondida na ilha de Creta e confiou-o ao cuidado das                 Zeus, no meio da peleja, resplandecente no seu carro
 Ninfas. Depois, tranqüila quanto à sorte de seu último                doirado, animava os seus defensores e lançava contra
 rebento, voltou aos altos cimos de sua régia morada e                 os inimigos poderosos raios, acompanhados de
 apresentou ao marido uma pedra envolta em                             relâmpagos e trovões.
 paninhos, que ele engoliu, pensando que era o novo                             Por fim, decidiu-se a vitória e os Titãs foram
 recém-nascido.                                                        precipitados no tenebroso Tártaro, por toda a
                                                                       eternidade.
 Titãs, Ciclopes e Centímanos.                                                  Apenas vencidos os Titãs, Zeus teve de lutar
                                                                       novamente contra cem gigantes, nascidos do sangue
                                                                       de Urano, aos quais sua mãe, a Terra, incitou contra
          Zeus, a quem os romanos, mais tarde,                         Zeus, para vingar aqueles; mas foram também
 chamaram Júpiter, cresceu belo, forte e bom. Quando                   derrotados. Depois desta nova e dura luta, chamada a
 se tornou adulto, obedeceu ao que o Fado havia                        Gigantomaquia, todos os deuses do Olimpo se
 estabelecido: subiu ao Olimpo, destronou o pai e                      submeteram a Zeus, que pode, então, reinar em paz
 reinou em seu lugar. Mas os primeiros tempos do seu                   sobre o Universo.
 reinado foram turbulentos: ele era jovem e, portanto,
 inexperiente. Num momento de generosidade, pôs em
 liberdade os Titãs, monstros gigantescos, que, desde,
 muitos séculos, haviam sido encarcerados nas                          (MADEIRA, Marcos Almir (coord.). O livro dos
 entranhas da Terra por Saturno. Eles, porém, em vez                   nossos filhos: enciclopédia para adolescentes.
 de ficarem agradecidos ao generoso soberano,                          Volume primeiro. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Editora
 saíram de sua morada subterrânea e, julgando-se                       Alfa S. A., 1961.)
 com mais direito a reinar do que o próprio Zeus,
 assaltaram o Olimpo.




                               UNIDADE 3 – NASCE A FILOSOFIA.
* João Vicente Hadich Ferreira.

           Filha dos gregos, a Filosofia tem data e local de nascimento específicos e, também, um “pai”, considerado o
primeiro filósofo datado historicamente: Tales. Mileto, a cidade de Tales, ficava na Jônia, atual Turquia, uma das colônias
micênicas desenvolvidas após a invasão dos dóricos. É exatamente aí portanto, na Jônia, no século VI a. C. que surge a
primeira proposta filosófica. Mas, antes de tratarmos dos primeiros filósofos, vamos entender o contexto de formação do
povo grego e o processo que levou ao nascimento do pensamento filosófico.
           Geograficamente dispersa, a Grécia Antiga constituía-se por um grande número de pequenas comunidades
independentes, no mar Mediterrâneo, desde o Jônia – atual Turquia -, na Ásia Menor até o sul da Itália. Apesar desta
dispersão, havia uma certa unidade cultural, expressa por uma língua comum, formas de organização política semelhantes
e mesmas crenças religiosas. A dispersão destas comunidades deveu-se, em grande parte, às invasões em busca de terras
para cultivo mas, também, devido aos conflitos entre dois povos que praticamente formaram a cultura grega. Vindos da
Europa, os micênicos, um povo mais avançado culturalmente, chega à Grécia por volta do ano 2.000 a. C. e, encontrando
um povo mais atrasado na região, logo se estabelece como a cultura dominante. Os micênicos – ou aqueus, como também
ficam conhecidos – encontravam-se na idade do bronze e tornam-se uma grande civilização, representada pela punjância
da cidade de Micenas. Isto prevalece até que, por volta do séc. XII a. C., os dóricos – povo guerreiro que já dominava o
ferro – invade a região e obriga o êxodo dos micênicos em busca de novas terras. Emigrando para a Ásia Menor - chamada
Jônia na época -, os gregos fundaram novas colônias para fugir ao domínio dórico e preservar suas tradições. Desta
colonização surgem duas cidades que se tornaram grandes centros culturais e econômicos: Mileto e Éfeso. Portanto, é
nesse conjunto de comunidades independentes que, no século VI antes de Cristo, vai se formando um dos elementos que
marcaram o surgimento do pensamento ocidental: a racionalidade.10


10
     PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 45.




                                                                                                                             5
Como já podemos perceber, a filosofia não       ciência filosófica. Nas demais culturas geralmente existia
nasce na Grécia propriamente dita, mas na Jônia e na       uma casta sacerdotal dominante, responsável pela
Magna Grécia, colônias desta no Oriente e no Ocidente.     interpretação dos livros sagrados e de verdades
Mas, por quê nasce na Grécia e não nas culturas            reveladas, o que determinava o comportamento moral,
orientais antigas como Egito, Babilônia, China, Índia ou   político e econômico do povo. A escrita era restrita aos
entre os Hebreus? Sofreu influência destas pelo menos      escribas – tratada como segredo e, portanto, acessível
ou, terá sido apenas um "milagre" o que aconteceu na       apenas à iniciados -, proibida aos homens comuns, o
Grécia? Este é um ponto que nos interessa discutir.        que impedia a ampla difusão e discussão de idéias.
Durante algum tempo duas teses foram defendidas para       Religiões com dogmas e uma certa teologia elaborada
o fato de a Filosofia ter tido seu início na Grécia. Uma   eram outros         fatores que impediam o livre
considerava o fato um “milagre”, ou seja, algo “a-         desenvolvimento do pensamento, tornando a religião um
histórico”, desconsiderando as condições sócio-            instrumento de poder. Aliado a isto ainda, a cultura do
econômico-culturais e políticas que faziam parte da        poder vitalício do Rei e a figura do súdito, o que impedia
cultura grega. A outra considerava o nascimento da         qualquer manifestação política ou reflexão sobre a
Filosofia como sendo devida a “ensinamentos esotéricos     questão do poder. Pois bem, o contexto grego era
que os gregos adquiriram em suas viagens pelo Oriente,     contrário a este modo de ser.
ou seja, a Filosofia nasceu por influência dos povos                   Com o fim do domínio dórico, nós vemos a
orientais, sem mérito algum dos gregos e não,              reconstrução da sociedade grega. Há um renascimento
novamente, por um contexto sócio-cultural próprio que      do comércio em torno do século VIII a.C. e a tendência à
existia na Grécia. Estas duas correntes portanto,          formação de centros maiores ao redor da ágora, - a
“milagre grego” versus influência oriental estão           praça pública - local das transações comerciais e das
desacreditadas academicamente. A tese aceita               discussões sobre a vida da cidade. É o nascimento da
atualmente defende o nascimento da Filosofia devido a      política. Esclarece-nos Paim, Prota & Rodriguez (1999):
uma série de fatores sócio-político-econômico-culturais
que aconteceram somente na Grécia. Por isso, neste                   Vencendo o princípio de que todos são iguais
entendimento não foi possível o mesmo acontecer em                   diante da lei, a discussão torna-se a forma
outras culturas, não da forma como se dá no Ocidente.                normal de tratar-se não só a política mas os
Com isto esclarecemos que, no entendimento                           acontecimentos em geral; prevalece a opinião
acadêmico estamos falando da Filosofia Ocidental e não               de quem expõe suas idéias corretamente e
das “filosofias orientais”, que apresentam sua sabedoria             com argumentos válidos, quer dizer há a
e importância mas, num olhar mais depurado, não                      supremacia do logos (que significa "palavra",
desenvolveram uma sistematização do pensamento de                    "razão"). Assim que, enquanto antes os
tal forma que permitisse o nascimento do que viria a ser             fenômenos      divinos, naturais e humanos
conhecido posteriormente como ciência.                               confundiam-se e eram vivenciados sem
           Retomando a questão da formação da Grécia,                necessidades de explicação, com a pólis,
alguns contextos então contribuirão para uma                         esses fenômenos tornam-se problemas, à
construção diferente da cultura grega com relação às                 procura de explicação.11
outras culturas. No mesmo período, as outras
civilizações     existentes     apresentavam     algumas
características que, contrapostas à cultura grega, podem
nos ajudar a esclarecer porque estes últimos               11
apresentaram um terreno fértil para o surgimento da          PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo
                                                           Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 47.



                                                                                                                   6
Na estruturação política, cada comunidade              moeda e um desenvolvimento da escrita e do
grega era uma cidade-Estado – as chamadas polis -,                calendário. Criada pelos sumérios, a escrita ganha novo
autônoma, com a dimensão de pequeno município. Na                 sentido com os gregos que descobrem-se capazes de
Pólis é que se efetua a conquista política do estatuto            expressar seu pensamento não mais de forma verbal
cívico, da ordem da cidadania, na qual o destino de cada          apenas mas, a partir da concepção do alfabeto e da
um é definido não pela obrigação de lealdade à um                 construção fonética, de forma mais elaborada, por
chefe, mas pela relação ao princípio abstrato que é a lei         escrito. Estes fatos exigem uma abstração do
- primeira etapa. Num segundo momento. A democracia               pensamento, um maior rigor na formulação das idéias e,
se instaura em Atenas. Apresenta-se a idéia de governo            conseqüentemente, uma mudança cultural. O grego
do povo ou, governo no "meio" do povo e não governo               descobre que não precisa trocar as mercadorias através
do "povinho". O grego tem consciência de sua cidadania            de coisas concretas (um cavalo por um boi, por
porque participa da vida pública da cidade. Os destinos           exemplo) mas sim, que é possível uma troca abstrata
da pólis são de responsabilidade comum de todos os                (um cavalo por 20 moedas, por exemplo). É o
cidadãos, acima dos quais nada a não ser as leis que              desenvolvimento da capacidade de elaboração do
eles mesmos elaboraram. Escreve HOWART (1984):                    pensamento de forma diferente. O calendário produz
                                                                  condições semelhantes ao permitir uma observação
          Pode parecer exagero, porém acredito que                sobre os dias e as estações do ano e, desta forma a
          seja justo afirmar que as realizações políticas         percepção da natureza em seu curso, desmistificando a
          e as experiências práticas de governo dos               ação divina sobre os fenômenos da natureza (como no
          gregos, nas quais se basearam todas as                  caso de a colheita ter sido boa ou ruim devido ao “deus”
          formas modernas de política da Europa                   e não às condições climáticas ou época do ano). Por fim,
          ocidental, pelo menos até a aparição do                 o surgimento da vida urbana, que impulsiona este
          marxismo, não poderiam ter acontecido em                renascimento comercial e diminui o prestígio da classe
          outro ambiente que não fosse o da pólis.                aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política,
          Conceitos tão familiares como, por exemplo,             que exige a construção de uma nova relação social,
          governo constitucional, império da lei,                 como já foi explicado anteriormente.
          democracia e, acima de tudo, cidadania, eram                       Por todos estes fatores portanto, e não por um
          completamente desconhecidos até que os                  “milagre” ou por “influência do oriente” como já
          gregos começaram a experimentá-los.12                   esclarecemos, é que, no século VI a.C. Tales inicia a
                                                                  jornada que se tornará a grande aventura na História do
           O modelo de governo da pólis como esforço              Ocidente: o pensamento filosófico.
coletivo e exclusivo dos cidadãos, até então                                 As mudanças começam a acontecer. Em torno
desconhecida em outras civilizações tem por                       do século V a.C. o homem, como cidadão-guerreiro, que
fundamento a idéia de que os deuses abandonaram os                fala e que combate, aparece como assumindo o seu
homens. E a idéia do Destino, como força superior aos             destino. Nesta época, os gêneros culturais mudam de
próprios deuses, sugere a visão democrática de que a lei          sentido e de estilo. A tragédia, antes fundamentalmente
está acima dos indivíduos. É nesse quadro que surge a             religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografia
reflexão filosófica, que busca uma lei universal, acima de        se afirma. As descrições lendárias e as genealogias
todas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo             míticas dão lugar à paisagens e costumes analisados e
sem recorrer a forças divinas.                                    descritos com precisão. No campo da medicina surge
           Outras condições histórico-sociais também              um apelo pela investigação das causas das
foram proporcionando o questionamento do mito. O                  enfermidades e não mais aos recursos ambíguos da
renascimento comercial citado exigiu do homem grego o             adivinhação. Na física o grego passa pouco a pouco das
“lançar-se ao mar” para encontrar novos mercados. Com             especulações mágicas para o estudo das relações
o desenvolvimento das viagens marítimas, os gregos                fenomenais. A “arte da palavra” por sua vez deixa de ser
começam a confrontar os fatos reais com as tradições              privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qual
míticas. Chegando às ilhas e regiões que constituem o             todo cidadão dispõe, pelo menos em direito, para fazer
pano de fundo das epopéias e dos relatos poéticos, o              valer suas opiniões e interesses.
grego não encontra as “divindades” e as “criaturas”                          O mito contudo, não perdeu sua beleza, seu
citadas pela tradição. Singrando os mares não encontra            sentido que propiciou todo este progresso. É uma forma
as sereias e nem tampouco é confrontado com                       diferente de olhar a realidade. Hesíodo fala em suas
Posseidon13. Em Creta não depara-se com o Minotauro14             obras do "abandono dos deuses" com relação aos
mas sim, com um povo que está disposto a                          homens. Há um princípio de "secularização" do
comercializar também, como nas demais regiões.                    pensamento. O homem não precisa mais recorrer aos
Questionamentos surgem sobre a veracidade do mito e               deuses para explicar o mundo. Na Teogonia – de
a possibilidade ou não de encontrar novas explicações             Hesíodo - o homem encontra-se sem deuses,
para os fatos e fenômenos antes entendidos apenas de              abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre os
forma mítica. Concomitante a isto, há a invenção da               séculos VIII e V a.C., portanto, desenvolve-se o esforço
                                                                  para a construção de uma sociedade justa, propiciada
12                                                                pelas condições históricas próprias do mundo grego. É
   HOWART, Ian. In.: HUMANIDADES, Ed. Universidade de
Brasília, Janeiro / março – 1984 – vol. II – n.º 6, p. 170-171.   neste contexto que nasce a filosofia e aparecem os
13
   Posseidon: na mitologia grega é o nome do “deus do mar”,       primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos.
irmão de Zeus. Teria, de acordo com o relato da Odisséia, sido
o mentor dos problemas de Ulisses (do grego Odisseu) no seu          FRAGMENTOS: “TUDO COMEÇOU...”
retorno para casa. Para os romanos chamava-se Netuno.
14
   Minotauro: criatura que habitava o labirinto em Cretas, onde
Minos, rei da ilha colocava seus inimigos para serem mortos                   Tudo começou no início do século VI a.C., na cidade
pelo monstro. Teseu, o herói grego, vence a criatura e             grega de Mileto, no litoral da Ásia Menor; onde os jônios
consegue sair do labirinto utilizando-se de um novelo de linha     estabeleceram colônias ricas e prósperas. No espaço de
para reencontrar o caminho.



                                                                                                                                7
cinqüenta anos sucederam-se três homens, Tales,                         um círculo restrito de iniciados, ao lado também da profusão de
 Anaximandro e Anaxímenes, cujas pesquisas são bastante                  crenças comuns de que todo o mundo participa sem que
 próximas pela natureza dos problemas abordados e pela                   ninguém se interrogue a seu respeito, define-se e afirma-se uma
 orientação espiritual para que se os tenham considerado, desde          nova noção da verdade: verdade aberta, acessível a todos e que
 a Antiguidade, como os formadores de uma única e mesma                  fundamenta em sua própria força demonstrativa os seus critérios
 escola. Quanto aos historiadores modernos, alguns acreditaram           de validade. [...]
 reconhecer, na florescência desta escola, o fato decisivo                            Assim reconstitui, por detrás da natureza e além das
 anunciador do “milagre grego”. A Razão ter-se-ia subitamente            aparências, um pano de fundo invisível, uma realidade mais
 encarnado na obra desses três filósofos milésios. Pela primeira         verdadeira, secreta e escondida, que o filósofo se encarrega de
 vez, em Mileto, descendo do céu para a terra, ela ter-se-ia             atingir e da qual ele faz o próprio objeto da sua meditação. Ao se
 irrompido no cenário da história; a sua luz, doravante revelada,        prevalecer desse ser invisível contra o visível, do autêntico contra
 como se tivessem enfim caído as escaras dos olhos de uma                o ilusório, do permanente contra o fugaz do certo contra o
 humanidade cega, não teria mais cessado de iluminar os                  incerto, a filosofia substitui, à sua maneira, o pensamento
 progressos do conhecimento. [...]                                       religioso. Ela se situa no próprio quadro que a religião havia
             “Admirar-se”, declara o Sócrates do Teeteto, “a             constituído quando, ao colocar além do mundo da natureza as
 filosofia não tem outra origem”. Admirar-se diz-se thaumazein, e        forças sagradas que, no invisível, asseguram o seu fundamento,
 este termo, pelo fato de testemunhar a derrocada que a                  ela estabelecia um completo contraste entre deuses e os
 investigação dos milésios efetua com relação ao mito,                   homens, os imortais e os mortais, a plenitude do ser e as
 estabelece-os no mesmo ponto em que se origina a filosofia. No          limitações de uma existência fugaz, vã fantasmática. Entretanto,
 mito, thauma é “o maravilhoso”; o efeito de assombro que ele            a filosofia opõe-se à religião até nesta aspiração comum em
 provoca é o sinal da presença nele do sobrenatural. Para os             ultrapassar o plano das simples aparências para aceder aos
 milésios, a estranheza de um fenômeno, em vez de impor o                princípios ocultos que as confortam e as sustentam. Por certo, a
 sentimento do divino, propõe-no ao espírito em forma de                 verdade que a filosofia tem o privilégio de atingir e de revelar é
 problema. O insólito não fascina mais, ele mobiliza a inteligência.     secreta, dissimulada no invisível para as pessoas comuns; a sua
 De silenciosa veneração, a admiração faz-se questionamento,             transmissão, através do ensino do mestre ao discípulo, conserva
 interrogação. Quando o thauma, no final da investigação, foi            em alguns aspectos o caráter de uma iniciação. Mas a filosofia
 reintegrado na normalidade da natureza, do maravilhoso só               traz o mistério para a praça. Não faz mais dele o motivo de uma
 resta a engenhosidade da solução proposta. Essa mudança de              visão inefável, mas o objeto de uma investigação em pleno dia.
 atitude ocasiona toda uma série de conseqüências. Para atingir          Através do livre diálogo, do debate argumentado ou do
 o seu objetivo, um discurso explicativo deve ser exposto, não           enunciado didático, o mistério se transmuta em um saber cuja
 somente enunciado sob uma forma e nos termos que permitem               vocação é ser universalmente compartilhado. O ser autêntico ao
 compreendê-lo bem, mas ainda entregue a uma publicidade                 qual se liga o filósofo aparece assim como o contrário, tanto
 inteira, colocado aos olhos de todos, do mesmo modo que a               quanto herdeiro, do sobrenatural mítico; o objeto do logos é a
 redação das leis, na cidade, torna-se um bem comum para cada            própria racionalidade, a ordem que preside à dedução, o
 cidadão, distribuído com igualdade. Despojada do secreto, a             princípio de identidade da qual todo conhecimento verdadeiro tira
 theoria do físico transforma-se assim no objeto de um debate;           a sua legitimidade.
 ela se prepara para justificar-se; ser-lhe-á necessário prestar
 contas do que afirma, prestar-se à crítica e à controvérsia. As         VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre
 regras do jogo político – a livre discussão, o debate contraditório,    os gregos. Tradução de Haiganuch Sarian. Rio de
 o confronto das argumentações contrárias – impõem-se desde              Janeiro: Paz e Terra, 1990. P. 375-81.
 então como regras do jogo intelectual. Ao lado da revelação
 religiosa que, na forma do mistério, permanece o apanágio de




          UNIDADE 4 – UM OLHAR SOBRE OS PRÉ-SOCRÁTICOS.
* João Vicente Hadich Ferreira.                                         o problema da física, da natureza o primeiro a receber o
                                                                        olhar do filósofo. Da atitude de espanto e perplexidade
          Já vimos o contexto que permitiu o nascimento                 surge a pergunta: o que é essa natureza, que apresenta
da Filosofia na Grécia e onde ela nasce                                 tantas variações e mudanças? Há nela uma ordem ou é
especificamente. Vimos também o primeiro filósofo,                      absolutamente caótica? Os primeiros a se colocarem tal
Tales mas, é importante ainda, entendermos um pouco                     questionamento foram os pré-socráticos. Assim
do seu pensamento e dos seus contemporâneos e                           chamados por antecederem à Sócrates, que será
sucessores, que formarão as diversas escolas que se                     considerado posteriormente um marco no pensamento
seguirão na busca por respostas mais racionais sobre a                  filosófico clássico, ponto de mudança da perspectiva
realidade. Na busca por estas respostas, os filósofos                   inicial dos antecessores, os pré-socráticos são
estabelecerão suas teorias, acabarão formando “escolas                  conhecidos também como “fisicóides” – relativo à physis
de pensamento” e encontrarão críticas às suas teorias.                  – ou “filósofos da natureza”.
Começa a filosofia. O processo é de constante busca, de                            Tentando entender a natureza, os primeiros
construção e desconstrução de teorias. Na crítica ao                    filósofos buscam um princípio para tudo. É a idéia de
antecessor, o filósofo constrói sua teoria e, desta forma,              que há uma arcké. Traduzida portanto como princípio
dá nova resposta ou vislumbra novo caminho para o que                   geral, original, a arcké possibilita a construção de uma
ele considera “incompleto”. A filosofia ao nascer                       cosmologia, que se contrapõe às cosmogonias e
defronta-se com problemas. E, o primeiro problema que                   teogonias anteriores. Do grego cosmos – que significa
desperta o pensar filosófico está relacionado à physis.                 ordem, universo – e logos – palavra, razão – a derivação
Do grego, physis significa física, ou natureza. É portanto,             logia pode ser entendida como teoria, estudo.




                                                                                                                                            8
Etimologicamente portanto, cosmologia pode ser                 e aritmética surgiram os termos matemáticos “média
definida como “ordem racional” ou, “teoria racional para       harmônica”        e   “progressão     harmônica”.16   No
o universo”. Esta é a busca dos primeiros pensadores.          entendimento pitagórico provavelmente as coisas
Neste sentido, cada pré-socrático apresentará a sua            manifestariam, de forma externa, a estrutura numérica
“tese” sobre a arcké da physis, construindo assim sua          da qual seriam compostas. Difícil de compreender mas,
cosmologia. Vejamos alguns.                                    possível de imaginar, o sentido seria a composição das
           Para Tales (séc. VI a.C.), o princípio de tudo,     diversas substâncias através de unidades mínimas de
a arkhé, seria a água. Apresentaremos duas                     matéria, unidades estas que promovem diversas
interpretações para o seu pensamento. Na primeira              combinações em conjuntos de diferentes quantidades.
acredita-se que Tales entenderia que, no princípio tudo        Conforme esclarece BERTRAND RUSSEL (1967), ele
estava encoberto pelas águas e que, ao evaporarem              (sic!) considerava o mundo, provavelmente, como
estas surgem as coisas, a natureza. Na outra versão, a         atômico, e os corpos feitos de moléculas compostas de
afirmação de que “tudo surgia da água” permite entender        átomos dispostos de várias formas. Esperava, assim,
que esta, ao resfriar-se, torna-se deusa e dá origem à         fazer da aritmética o estudo fundamental para a física e
terra. Ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que,         a estética.17
por sua vez, novamente esfriados, retornam como                            Empédocles de Agrigento (viveu em torno de
chuva. Desse ciclo provocado pela água, nascem as              440 a.C.). Figura controversa e interessante, este pré-
diversas formas de vida. Independente de qual seja a           socrático era um político democrático que, ao mesmo
interpretação correta, o importante é compreendermos           tempo, reivindicava para si a qualidade de Deus.18 Teria
que Tales expressa a primeira forma, rudimentar ainda,         morrido por saltar à cratera do Etna tentando provar que
de se fazer ciência. É o uso de um pensamento novo, de         era deus. Escreveu-se num poema que O grande
uma racionalidade que é produzida filosoficamente.             Empédocles, essa alma ardente, Saltou no Etna e foi
           Contemporâneo de Tales, Anaximandro                 totalmente torrado.19 Mas, independente disso,
(610-545 a.C.) por sua vez, procura uma explicação             Empédocles propõe uma cosmologia que merece ser
diferente. Para ele o princípio de tudo, da phisis, é o        tratada. Para ele, quatro elementos constituiriam todas
ápeiron, que significa "indeterminado", "ilimitado". É a       as coisas: a terra, o ar, o fogo e a água. Permanentes,
idéia de uma substância infinita, eterna e sem idade, que      estes elementos poderiam contudo misturar-se em
envolveria todos os mundos. Para ele haveriam outros           diferentes proporções e produzir, assim, as substâncias
mundos.15 Transformada nas várias substâncias que              complexas mutáveis que encontramos no mundo.20 Na
conhecemos, que por sua vez se transformariam umas             sua teoria, o Amor unia as coisas e a Luta as separava.
nas outras, está em contínuo movimento, dando origem           Substâncias primitivas, o Amor e a Luta alternavam sua
a uma série de opostos, como água e fogo, frio e calor,        predominância, ou seja, ora um era mais forte, ora outro
dia e noite. A água, de Tales, seria muito “material” para     e, desta forma estabelece-se um ciclo. Quando o Amor
explicar o imaterial, como no caso dos contrários. O           une os elementos, a Luta aos poucos os separa e,
ápeiron, desta forma, originaria tudo.                         quando isto acontece, o Amor novamente os reúne,
           Também      de     Mileto,   como     Tales   e     gradativamente. Por isso toda substância é temporal –
Anaximandro, Anaxímenes (séc. VI a.C.) encontra uma            passageira – e só os quatro elementos com o Amor e a
resposta intermediária, considerando como princípio de         Luta são eternos. Todas as transformações no mundo
tudo o ar – pneuma em grego -, que é um elemento nem           não obedecem a uma finalidade mas, são produzidas
tão abstrato como o ápeiron, nem tão palpável como a           apenas pelo Acaso e pela Necessidade. Neste sentido, a
água. O ar é respiração e vida; o fogo é ar rarefeito; a       originalidade da teoria de Empédocles, à parte a ciência,
água e a terra são condensação do ar; tudo o que existe,       consiste na doutrina dos quatro elementos, e no
reduz-se a variações quantitativas do ar. Neste sentido,       emprego (sic!) dos princípios do Amor e da Luta para
todas as coisas seriam produzidas por um duplo                 explicar a mudança.21
processo: a rarefação, que representaria a expansão, e                       Na “escola atomista” encontramos Leucipo
a condensação, entendida como compressão. A água               (provavelmente em torno de 440 a.C.) de Mileto e
surgiria da condensação inicial do ar. Mais condensado         Demócrito (aproximadamente 432 a.C.) de Abdera.
ainda, teríamos a terra e, por fim, a pedra. Anaxímenes        Acreditando que tudo é composto por átomos, estes pré-
estabelece diferenças quantitativas entre substâncias          socráticos formularam a teoria que ficou conhecida como
diferentes, dadas pelo grau de condensação, o que não          “atomismo”. Geralmente mencionados juntos, torna-se
deixa de ser um mérito. Juntamente com seus dois               difícil distinguir a obre de um e de outro. Os átomos
contemporâneos, constitui o que ficou conhecido como a         seriam fisicamente mas, não geometricamente,
“escola de Mileto” ou, a filosofia dos milésios.               indivisíveis. Entre eles existiria um espaço vazio e, em
           Na ilha de Samos, surge Pitágoras e,                eterno movimento, os átomos seriam também infinitos e
posteriormente os seguidores deste que constituirão a          indestrutíveis. Sendo de diversas espécies, seriam – os
“escola pitagórica”. Voltado para a matemática,                átomos – diferentes quanto à forma e ao tamanho.
Pitágoras será o responsável pela criação do termo             Seriam as combinações destes átomos portanto, que
filosofia. Considerado sábio pelos seus conterrâneos, o        formariam os diversos tipos de substâncias existentes no
matemático dirá que sábios seriam os deuses e que, ele,        Universo. Criticados na antiguidade como atribuindo
seria um amigo (philo) da sabedoria (sophia). Criador do       tudo à casualidade, os atomistas na realidade eram
famoso teorema que recebe seu nome, será um dos                deterministas rigorosos, que acreditavam que tudo
responsáveis pela íntima ligação entre a matemática e a
filosofia nos tempos que se seguirão. Para ele “todas as       16
                                                                  Id., p. 40.
coisas são números”, representando estes não                   17
quantidades mas a própria essência dos seres.                     Id., ibid.
                                                               18
Descobriu a importância dos números na música e,                  RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro
desta descoberta estabelecendo a relação entre música          primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 61.
                                                               19
                                                                  Id. Ibid.
                                                               20
15
   RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro      Id., p. 63.
                                                               21
primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 31                       Id., p. 66.



                                                                                                                              9
acontece de acordo com as leis naturais.22 Aproximando-
se mais da ciência moderna do que os seus
antecessores, os atomistas produzem uma explicação
mecanicista do Universo. Considerando não o princípio
original do mundo mas sim que, uma vez este existindo,
o seu desenvolvimento posterior teria sido fixado de
forma inalterável por princípios mecânicos. Ao contrário
de Sócrates, Platão e Aristóteles, procuravam explicar o
mundo sem introduzir a noção de ‘propósito’ ou ‘causa
final’.23 Revivida nos tempos modernos para explicar os
fatos da química, a teoria atômica era original nos
gregos, dada a questão de que eles desconheciam
completamente estes “fatos”. Sem ser uma proposta
empírica real, os atomistas contudo chegaram a uma
hipótese cuja comprovação se verificou mais de dois mil
anos depois.




22
     Id., p. 76.
23
     Id., p. 77




                                                           10
UNIDADE 5 – HERÁCLITO E PARMÊNIDES: sobre o
                            SER e o DEVIR.
* João Vicente Hadich Ferreira.

Heráclito (544-484 a. C.)                                    ser é’ e o ‘não-ser não é’. Mais tarde, os lógicos
                                                             chamarão a isto de princípio de identidade, base de toda
           Nascido em Éfeso, na Jônia (atual Turquia),       construção metafísica posterior.28 Considerando que só
Heráclito é aquele que trata do devir. É a idéia do          o ser existe, isto deve ser para sempre, de forma única,
movimento, de que tudo flui, nada é imóvel e os              permanente, imóvel, imutável e eterna. Ou seja, não
contrários formam uma unidade. Neste entendimento,           pode mudar a todo instante. Por isso ele pode concluir
para Heráclito, a unidade do mundo resulta da contínua       que o ser é único, imutável, infinito e imóvel.
tensão da oposição das coisas: a harmonia nasce da                      Para explicar a questão do movimento (as
própria oposição. Aliás, a contradição não só produz a       coisas nascem, morrem, mudam de lugar...),
unidade do mundo, mas também a sua transformação.            Parmênides afirmará que as mudanças, as contradições
O mundo é como um rio que flui continuamente; é              e os aspectos diferentes que o mundo apresenta são
impossível banhar-se duas vezes na mesma água.24             simples ilusões, aparências, fruto de opiniões e não de
           Buscando compreender a multiplicidade do          conhecimento do verdadeiro ser.29 Tudo isto existe
real mas, contrariando os pré-socráticos anteriores,         apenas no mundo sensível e, este, é o mundo da ilusão.
Heráclito não rejeita as contradições e quer aprender a      Desta forma, só o ‘mundo inteligível’ é verdadeiro, pois
realidade na sua mudança, no seu devir. Conforme o           está submetido ao princípio que hoje chamamos de
esclarecimento de ARANHA & MARTINS (2003), todas             identidade e de não-contradição.30 Em consenso com
as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de          ARANHA & MARTINS (2003), afirmamos que a teoria
nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e        parmenídea produz como conseqüência a identidade
do que será depois25. Por isso é impossível nos              entre o ser e o pensar, ou seja, a idéia de que o que eu
banharmos duas vezes no mesmo rio pois, na segunda           não posso pensar equivale a dizer que não existe. O que
vez nós já mudamos e o rio também. Portanto, no              está fora de mim deve ser idêntico ao meu pensar e,
entendimento heraclitiano não há ser estático e, o           deste modo, o ser é pensável e por isso existe. Assim,
dinamismo de tudo pode ser representado pela metáfora        ser e pensável se equivalem31. Parmênides estaria aqui
do fogo, forma visível da instabilidade, símbolo da          inaugurando a lógica com esta teoria, que encontra-se
eterna agitação do devir, ‘o fogo eterno e vivo, que ora     no seu poema Sobre a Natureza. Dividido em três partes
se acende e ora se apaga’.26                                 – introdução, “via da verdade” e “via da opinião” -, o
           O ser em Heráclito é múltiplo. Esta               poema parmenídeo permite deduzir que ele inaugura ao
multiplicidade não refere-se à idéia da existência de        mesmo tempo a lógica e a metafísica. Enquanto a lógica
múltiplas coisas apenas, mas ao entendimento que o ser       se coloca contra a “via da opinião”, a metafísica
é composto de oposições internas, por isso múltiplo em       investiga o que está por trás das coisas naturais e
si mesmo. Para este pré-socrático, o que mantém o            físicas; procura algum princípio ou essência das coisas.
fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos         Em Parmênides, a idéia abstrata de Ser indica
seres, mas a luta dos contrários, pois ‘a guerra é pai de    precisamente o conjunto de toda realidade como a sua
todos, rei de todos’. E é da luta que nasce a harmonia,      essência.32 Por isso a identidade entre o ser e o pensar.
como síntese dos contrários.27 Heráclito intui, com muita
antecedência, a lógica dialética, uma das grandes                             FRAGMENTOS:
contribuições do pensamento hegeliano - e depois
marxista, no século XIX -, para a filosofia.
                                                             Heráclito:
Parmênides (540-470 a. C.)                                   “Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito
                                                             nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é
           Tendo vivido em Eléia, sul da Magna Grécia        e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem
(que é configurada na atual Itália), Parmênides é o          e unidades que se apagam. [...] As transformações do
principal expoente da escola eleática. Defendendo a          Fogo são, antes de tudo, os mares; e o mar é metade
imobilidade do ser, afirmará que os contrários jamais        terra, metade turbilhão. [...] Os homens não sabem – diz
podem coexistir. Elaborou importantíssima teoria             êle – de que maneira o que não concorda está de
filosófica na medida em que influenciou de forma             acôrdo consigo mesmo. É uma harmonia de tensões
decisiva     o    pensamento      ocidental.    Ocupou-se    opostas, como a do arco e a lira. [...] As coisas pares
longamente em criticar a filosofia heraclitiana opondo ao    são inteiras e não inteiras, o unido e o separado, o
"tudo flui"(panta rei) de Heráclito, a imobilidade do ser.   harmonioso e o discordante. O uno é feito de tôdas as
Na sua teoria entende como absurdo e impensável
considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo
tempo. À contradição opõe o princípio segundo o qual ‘o      28
                                                                Idem, Ibid.
                                                             29
                                                                PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo
24
   PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo        Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49.
Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 48.      30
                                                                ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires.
25
   ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires.               Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119.
Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119.           31
                                                                PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo
26
   Idem, ibid.                                               Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49.
27                                                           32
   Idem, ibid.                                                  Idem, ibid.



                                                                                                                  11
coisas, e tôdas as coisas provém do uno. [...] Deus é dia
e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fom;
mas Êle adota várias formas, como o fogo, que, quando
é misturado a especiarias, é chamado segundo o sabor
de cada uma delas. [...] O fogo vive a morte do ar, e o ar
vive a morte do Fogo; a água vive a morte da terra, a
terra a da água. [...] Devemos saber que a guerra é
comum a tudo, e que a luta é justiça. [...] Não se pode
pisar duas vêzes nos mesmos rios, pois as águas novas
estão sempre fluindo sôbre ti.”33

Parmênides.

          “Não podes saber o que não é – isso é
impossível – nem manifestá-lo; porque é a mesma coisa
que pode ser pensada e existir. [...] Como pode, então, o
que é vir a ser no futuro? Ou como poderia vir a ser? Se
vem a ser, então não é; tampouco o é, se vai ser no
futuro. Assim, o tornar-se desaparece, e o passar não se
percebe. [...] A coisa que pode ser pensada, e aquilo
pelo qual existe o pensamento, é o mesmo; porque não
podes encontrar uma idéia sem algo que é, e a respeito
do qual ela se manifesta.”34




33
   RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro
primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 50-51.
34
   Id., p. 56.



                                                               12
UNIDADE 6 – SÓCRATES E A BUSCA DO CONCEITO.

* João Vicente Hadich Ferreira

Sócrates (469 ou 470 - 399 a.C.)                              necessário produzir-se um “parto”, um “parto de idéias.”
                                                              Neste sentido Sócrates cria um método que, em
            Considerado um marco na filosofia, nunca          homenagem a sua mãe, que era maieuta – parteira em
escreveu nada. Filho de um escultor – Sofronisco - e de       grego -, chama-se maiêutico. “Parir idéias” é a proposta
uma parteira – Fenareta -, nasceu em Atenas, onde             para o “conhecer-se a si mesmo”, encontrar a essência
viveu o apogeu e a crise da democracia. Levando a             dos conceitos e compreender do que se está falando. É
filosofia para a ágora, criticando os sofistas e atraindo a   deixar o mundo da opinião e alcançar a ciência.
admiração dos jovens, Sócrates provoca também o                           Como funciona este método? Pautado na
desafeto de outros que o combatem por considerá-lo um         ironia, o grande mérito dele é a busca do conceito. A
perigo para as tradições da pólis e uma má influência         ironia tem um duplo aspecto: a refutação e a maiêutica.
para a juventude. Admirado e criticado, Sócrates foi          A primeira significa não responder à pergunta formulada,
figura controversa e causou problemas à sociedade da          mas retomar a resposta do interlocutor e demonstrar as
época. O que sabemos de Sócrates foi-nos legado por           contradições nela contidas. A função da refutação
seus discípulos ou detratores. Dentre os discípulos, os       portanto, é a libertação do espírito, preparando-o para
principais são Platão e Xenofonte. Platão é o grande          encontrar a solução. Esta será encontrada pelo próprio
divulgador do mestre, colocando-o como o principal            interlocutor, já que Sócrates finge ser capaz de atuar
interlocutor de seus diálogos e enaltecendo sua               unicamente como parteiro, porém incapaz de conceber
sabedoria. Na crítica, o principal desafeto socrático era     por conta própria; quer dizer, capaz de interrogar e não
Aristófanes, um comediante. Valoroso, virtuoso e              de ensinar, porque o conhecimento já está dentro de
destemido, Sócrates foi levado a julgamento acusado de        nós. Trata-se tão somente de extraí-lo do nosso interior.
“não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas         Aqui temos a maiêutica propriamente dita. Um claro
divindades e corromper a juventude”. O julgamento,            exemplo da aplicabilidade do método está na obra
relatado por Platão no texto Apologia de Sócrates,            chamada Laqués, de Platão. Laqués e Nícias são dois
apresenta-nos o pensador enfrentando seus opositores          famosos generais que travam uma discussão com dois
– o poeta Meleto, o político Anitos e Licão, um               cidadãos sobre o exercício militar. A questão levantada é
personagem de pouca importância – e mantendo sua              se “é útil ou não este exercício, se ele serve ou não para
integridade, suas convicções. Condenado por uma               formar homens corajosos”. Convidado a participar da
pequena margem de votos, Sócrates beberá cicuta e             discussão, Sócrates muda o rumo da conversa: para
morrerá entre os seus amigos de forma serena e                sabermos se a arte militar é útil para formar homens
confiante. Poderia ter evitado a morte – ele podia fixar      corajosos, deve-se saber em primeiro lugar, o que é
outra pena para si – mas não abriu mão de sua                 coragem. É a busca pela essência do conceito, aquilo
consciência pois, escapar à morte seria admitir a culpa       que é o verdadeiro ponto da discussão. Conforme nos
no processo. Que ela recaísse sobre seus algozes. Ele         indicam PAIM, PROTA & RODRIGUEZ (1999), as
cumpriria a lei.                                              questões que Sócrates privilegia são as referentes à
            Mas, por quê Sócrates incomodou tanto?            moral. Por exemplo: o que é a coragem? O que é a
Conversando com todos, discutindo e instigando seus           justiça? O que é a virtude? Quer saber o que é a
interlocutores, o filho do escultor buscava a essência dos    "coragem em si", o universal que representa, ou seja,
conceitos, a definição destes para fugir ao relativismo       um conceito que seja o mesmo para todos e não apenas
sofístico, tão comum naquele momento. A crítica               construído conforme o interesse de quem o expõe.
socrática aos sofistas está tanto na cobrança pelos           Dando novo sentido ao termo logos - que na linguagem
ensinamentos que eles dão quanto na “manipulação”             comum significava conversa, palavra -, Sócrates
que eles fazem dos conceitos para atender aos                 desenvolve a idéia do mesmo com o sentido de “a razão
interesses de quem os contrata. Tal atitude mantém os         que se dá de algo”, o conceito. Por isso, buscando a
homens na ignorância, sem desenvolverem o verdadeiro          essência das coisas nunca vai diretamente a pergunta o
conhecimento. Aqui Sócrates entende sua missão:               que é. Antes, ouve e apresenta objeções aos
“libertar” os homens desta ignorância.                        argumentos dos outros. A pergunta remonta ao tempo
            Sobre esta “missão”, ela teria tido início        dos jônios. Enquanto estes buscavam resolver o
praticamente depois da visita de um amigo seu,                problema da natureza - physis –, Sócrates pretende
Querofonte, ao oráculo de Delfos. Este, querendo saber        indagar o problema dos valores. Acompanhando a
se havia homem mais sábio do que Sócrates, obtém              decadência da democracia ateniense, momento em que
uma resposta negativa dos deuses, ou seja, Sócrates é         os valores políticos e morais aparecem sempre mais
o mais sábio. Recebendo o relato do amigo, e não se           conflitantes, Sócrates procura algo que constitua a
considerando sábio, Sócrates fica pensativo e resolve         essência de todas as virtudes particulares como a
descobrir por que é considerado sábio. Intrigado, aborda      coragem, a sabedoria, a justiça. Ele identifica a virtude
um político considerado sábio e, na discussão descobre        com o Bem que, por sua vez, é identificado com a
que este na realidade se considera sábio, sem saber de        própria Razão. Conhecer a virtude portanto é o objetivo
nada. Entende então que ele – Sócrates - é mais sábio         da ciência, do verdadeiro conhecimento. No
por saber que nada sabe, ou seja, tem consciência de          entendimento socrático só pratica o mal quem
sua ignorância. Lembrando-se da inscrição na entrada          desconhece o que seja a Virtude. Quem tem o
do Templo de Delfos, o “conhece-te a ti mesmo”, e             verdadeiro conhecimento só pode praticar o bem. A
afirmando que “de tudo quanto sabe só sabe que nada           ciência para Sócrates é, desta forma, a ciência do
sabe”, Sócrates entende que o conhecimento está               universal, do permanente. Do indivíduo mutável só se dá
dentro do homem e que este o desconhece por não               opinião. Desta forma Sócrates prepara a doutrina de
buscá-lo. Para encontrá-lo, ele entende que é                 Platão: se com efeito, somente o conhecimento dos



                                                                                                                    13
conceitos é verdadeiro conhecimento, será verdadeira
realidade, unicamente, o objeto destes conceitos, isto é,
o mundo das Idéias eternas.35 Este é outro assunto.


      FRAGMENTOS: DISCURSO SOCRÁTICO.


    “Enquanto viver, não deixarei jamais de filosofar. E,
  de instruir quem quer que eu encontre, dizendo-lhe à
       minha maneira habitual: Querido amigo, és um
 ateniense, um cidadão da maior e mais famosa cidade
     do mundo, pela sua sabedoria e pelo seu poder; e
   não te envergonhas de velar pela tua fortuna e pelo
  seu aumento constante, pelo teu prestígio e pela tua
 honra, sem em contrapartida te preocupares em nada
 conheceres o bem, e a verdade, e com tornares a tua
   alma o melhor possível? E se algum de vós duvidar
     disto e asseverar que com tal se preocupa, não o
  deixarei em paz; nem seguirei tranqüilamente o meu
  caminho, mas interrogá-lo-ei, examiná-lo-ei e refutá-
    lo-ei; e se me parecer que não tem qualquer arete,
  mas que apenas a aparenta, investigá-lo-ei, dizendo-
   lhe que sente o menor respeito pelo que há de mais
      respeitável, e o respeito mais profundo pelo que
  menos respeito merece. E farei isto com os jovens e
  com os anciãos, com todos os que encontrar, com os
    de fora e com os de dentro; mas sobretudo com os
    homens desta cidade, pois são por origem os mais
 próximos de mim. Pois ficai sabendo que Deus assim
      me ordenou, e julgo que até agora não houve na
     nossa cidade nenhum bem maior para vós do que
    este serviço que eu presto a Deus. É que todos os
 meus passos se reduzem a andar por aí, persuadindo
     novos e velhos, a não se preocuparem nem tanto,
  nem em primeiro lugar, com o seu corpo e com a sua
     fortuna, mas antes com a perfeição da sua alma”.


                               Sócrates, Livro Paidéia.




35
  MONDOLFO, Rodolfo. In.: Paim, Antonio; Prota,
Leonardo; Rodriguez, Ricardo Velez. Filosofia – curso de
Humanidades 5, 1999, p. 51.



                                                            14
UNIDADE 7 – PLATÃO E O MUNDO DAS IDÉIAS.
* João Vicente Hadich Ferreira,
em parceria com José Roberto Garcia.

      Para compreensão da concepção de conhecimento            personagens de seus escritos iam desenvolvendo temas
sustentada por Platão (428-347 a.C.), temos que                polêmicos a partir de discussões entre si. Nos “Diálogos
analisar alguns traços principais de sua vida e de seu         Platônicos”, Sócrates era o personagem principal.
pensamento filosófico.                                         Podemos dizer que Platão tentava reproduzir, em seus
      Platão nasceu em Atenas e seu verdadeiro nome            escritos, o jogo de perguntas e respostas sobre o qual
era Arístocles. Platão é um apelido que provavelmente          se assentava a “Ironia Socrática”. Através da boca de
tenha derivado ou de seu vigor físico ou da largura de         Sócrates, Platão cuida de disseminar suas teorias
sua testa (platos em grego significa amplidão, largura).       epistemológicas e políticas. Algumas de sua principais
      Nosso filósofo era descendente da fina flor da           obras são: A República, Laqués, O Banquete, Fédro,
aristocracia ateniense, pelo lado paterno, Platão              Fédon, Teeteto, Timeu e Hípias Maior, entre outras.
descendia do rei Codros e pelo lado materno do grande
legislador Sólon. Diante disso, é natural de desde tenra       6.1 - O mundo das idéias.
idade ele tenha tomado contato com questões
importantes, principalmente de ordem política e                            Considerando os conceitos como convenções,
epistemológica.                                                os sofistas estabelecerão assim também a questão da
      Platão foi discípulo de Sócrates, com quem entrou        justiça ou injustiça. No entendimento socrático uma e
em contato, provavelmente, com vinte anos de idade.            outra se confundem, fato devido ao desconhecimento
Acredita-se que, no início, ele freqüentou o círculo           que os homens têm da essência da justiça. Recusando a
socrático com os mesmos objetivos da maior parte dos           concepção sofística, Platão aprofunda a idéia de
outros jovens atenienses, ou seja, para melhor se              Sócrates. O mundo dos sentidos seria constituído de
preparar para a ativa vida política da Cidade Estado. No       aparências. Chamado de mundo sensível, nele tudo é
entanto, a convivência com o mestre e os demais                instável e variável, sujeito às circunstâncias. Neste
acontecimentos de sua vida orientaram-no para outro            sentido, há muitas opiniões variadas e divergentes
rumo.                                                          relacionadas à forma como cada um percebe o mundo.
      O profundo desgosto com a política praticada em          Viver desta opinião - doxa, no grego - não permite ao
Atenas chegou ao ponto máximo com a condenação à               homem alcançar o conhecimento real, verdadeiro. Este é
morte do amigo e mestre Sócrates. A partir daí, o nosso        chamado de episteme, ou seja, o conhecimento das
filósofo resolve manter-se afastado da política militante.     essências, das realidades que estão acima da opinião.
      Em 388 a.C., Platão empreende uma grande                 Tal conhecimento implica no que Platão chamou de
viagem passando, entre outros lugares, pelo Egito e pela       mundo inteligível ou, mundo das Idéias. Para que esta
Itália. Durante sua estadia na península itálica, Platão foi   passagem ocorra, ou seja, do sensível para o inteligível,
convidado por Dionísio I para ir até Siracusa, na Sicília.     da doxa para a episteme, é fundamental admitir que
Parece claro que Platão tinha a intenção de inculcar no        existem as essências. Partindo de dois princípios –
tirano o ideal do rei filósofo, exposto no seu diálogo         identidade e permanência – Platão recorre aos exemplos
Górgias. Esta pretensão do filósofo ateniense logo fez         da geometria, onde temos diversas figuras que, na
surgir uma indisposição entre Dionísio I e ele. O tirano       realidade, não existiriam neste mundo sensível mas,
ficou tão irado com Platão que acabou vendendo-o como          apenas no inteligível (somente lá elas permanecem, não
escravo a um embaixador espartano na cidade de Egina.          mudam, não são diferentes de acordo com a
Felizmente foi resgatado por um amigo da cidade de             interpretação de cada um). É o caso das diversas
Cirene que, por sorte, se encontrava naquela cidade.           árvores ou diversos cavalos. Apesar das diferenças
      Ao retornar a Atenas, Platão funda sua famosa            entre os vários tipos, há algo, um essência que nos faz
Academia num ginásio que se situava em um parque               perceber, reconhecer em cada um algo que não muda,
dedicado ao herói Academos, de onde derivou seu                que permanece e lhe dá identidade de cavalo ou árvore.
nome.                                                          Para Platão isto se dá no inteligível. Assim também se
      Não contente com sua malfadada experiência               dá com os conceitos. Da justiça, por exemplo, o homem
anterior, Platão retorna a Siracusa em 367 a.C., depois        tem uma certa intuição. As opiniões divergem mas,
da morte de Dionísio I. Quem assumiu o trono foi               todos trazemos em nós a essência do que seja a justiça.
Dionísio II que, para desespero de Platão, herdara do          Denominadas por Platão de Eidós ("idéia" ou "forma"),
pai a mesma incompreensão e truculência, basta dizer           as essências existem como idéias perfeitas lá no mundo
que manteve o filósofo ateniense prisioneiro por alguns        inteligível. Dentro do sistema platônico, a teoria do
meses, somente permitindo que este retornasse à                mundo das idéias (hiperurânio) é um dos pontos
Grécia porque Siracusa estava envolvida em uma                 centrais, pois nos dá a chave para a compreensão de
guerra.                                                        boa parte de seu pensamento político e epistemológico.
      Em 361 a.C., Platão retorna pela terceira vez a                O “Mundo das Idéias” é uma espécie de mundo
Siracusa atendendo a um convite do próprio Dionísio II,        transcendente, um lugar onde se encontram as formas,
no entanto o tirano não queria outra coisa senão cuidar        os modelos perfeitos, os paradigmas eternos e imutáveis
se sua formação pessoal, o que causou uma nova e               de tudo o que existe e dos quais os objetos que se
definitiva decepção em Platão, que retornou a Atenas,          encontram no mundo de nossa experiência sensível são
onde permaneceu na direção da Academia até sua                 apenas cópias imperfeitas. Em resumo, as idéias que
morte.                                                         estão no hiperurânio são as verdadeiras e supremas
      Durante sua vida, Platão escreveu muitas obras e,        causas e modelos do mundo sensível (o nosso).
segundo os especialistas, seus escritos chegaram até
nós na totalidade (cerca de 36 trabalhos). Normalmente
ele escrevia na forma de diálogos, ou seja, os



                                                                                                                    15
6.2 - O conhecimento como reminiscência                                 Não podemos nos esquecer que Platão é um
(anamnese) e seus graus: a opinião (doxa) e a                     idealista, isto é, alguém que acredita que as idéias são
ciência (episteme).                                               mais perfeitas e reais que as próprias coisas do mundo
                                                                  sensível. Portanto, quando falamos em contemplação
      Embora o problema do conhecimento tenha sido                das “coisas verdadeiras” estamos falando em
ventilado por alguns filósofos precedentes. Foi com               contemplação do “Mundo das Idéias”.
Platão que o problema ganhou um tratamento mais                         A análise da alegoria da caverna pode ser feita a
pormenorizado e claro. Sem entrar nas minúcias do                 partir de duas perspectivas: a epistemológica (relativa ao
problema, podemos afirmar que o nosso filósofo                    conhecimento) e a política, neste caso vamos nos ater à
percorre um caminho totalmente novo, ou seja, para ele            primeira.
o conhecimento é anamnese, isto é, uma forma de                         Quanto à dimensão epistemológica, Platão
recordação daquilo que já existe desde sempre no                  compara os homens acorrentados aos homens comuns,
interior de nossas almas, cumpre dizer que, para Platão,          que permanecem dominados pelos instintos e só
as almas dos homens, antes de se encarnarem tiveram               alcançam um conhecimento imperfeito da realidade
como morada o Mundo das Idéias e, portanto, as                    (conhecimento do mundo sensível, corruptível e
recordações seriam a partir das “marcas” ou impressões            mutável) , a esse conhecimento imperfeito do real o
deixadas pelas idéias em nossas almas.                            filósofo dá o nome de doxa (opinião). O homem que se
       Vamos agora tentar ilustrar a questão dos graus de         liberta dos grilhões é o filósofo, ele ultrapassa os limites
conhecimento a partir do capítulo VII do diálogo “A               do conhecimento sensível e alcança o conhecimento do
República”, onde Platão expõe o mito da caverna, na               mundo das idéias, a esse conhecimento (das essências
verdade uma alegoria usada para tornar mais clara a               eternas e imutáveis das coisas, as idéias) Platão chama
sua teoria. Segundo esse famoso relato, os homens                 de episteme (ciência).
encontram-se acorrentados em uma caverna desde sua                      Resumindo, as almas de todos os homens tiveram,
infância, de tal forma que, não podendo voltar para sua           em um dado momento, como morada, o mundo das
entrada, enxergam apenas o fundo da mesma. Aí são                 idéias, e ali conheceram as essências de todas as
projetadas somente as sombras das coisas que passam               coisas. No entanto, estas foram esquecidas no momento
às suas costas. Ora se um desses homens conseguisse               da encarnação, quando as almas se tornaram
libertar-se dessas correntes para contemplar, à luz do            prisioneiras do corpo. Por isso para nosso filósofo toda
dia, os “verdadeiros objetos”, quando voltasse para               busca pelo conhecimento nada mais é do que o esforço
contar o que vira, não mereceria o crédito de seus                para lembrar daquilo que outrora conhecemos,
antigos companheiros, que o tomariam por insano e                 passando assim da doxa para a episteme, esta é a
possivelmente o matariam.                                         teoria da reminiscência.


                                FRAGMENTOS: A ALEGORIA DA CAVERNA.


         Trata-se de um trecho do livro VII de A República: no diálogo, as falas na primeira pessoa são de
Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão.

           ---Agora --- continuei ---representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e à
ignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha toda a largura uma entrada aberta
para a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que não
podem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vem de um
fogo aceso sobre uma eminência, ao,longe atrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imagina
que, ao longo desde caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches
erigem à frente deles e por cima dos quais exibem as suas maravilhas.
           --- Vejo isso --- disse ele.
           --- Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo o gênero, que ultrapassam
o muro, bem como estatuetas de homens e animais de pedra, de madeira, e de toda a espécie de matéria: naturalmente,
entre estes portadores, uns falam e outros se calam.
           ---Eis---exclamou---um estranho quadro e estranhos prisioneiros!
           ---Eles se nos assemelham ---repliquei---mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de si
próprios e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está a sua frente?
           ---E como poderiam?---observou---se não forçados a quedar-se a vida toda com a cabeça imóvel?
           ---E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo?
           ---Incontestavelmente
           ---Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tomariam por objetos reais as sombras que
avistassem?
           ---Necessariamente
           ---Considera agora o que lhes sobreviverá naturalmente se forem libertos das cadeias e curados da ignorância.
Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço , a caminhar, a
erguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedira de distinguir os objetos cuja
sombra enxergava há pouco. O que achas, pois que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira até
então eram fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneira
mais justa? Se enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas passantes, o obrigar, à força de perguntas, a dizer que é isso?
Não crês que ficará embaraçado e que as sombras que viu há pouco lhe parecerão mais verdadeiras do que objetos que
ora lhe são mostrados?
          ---Muito mais verdadeiras ---reconheceu ele.




                                                                                                                          16
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  • 1. UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO AO FILOSOFAR. *João Vicente Hadich Ferreira1 “SER ou NÃO SER, eis a questão” dirá começa a pensar!” Portanto, dentro desta proposta, Sheakspeare 22 séculos depois da primeira indagação algumas questões apresentam-se inevitavelmente: por sobre o SER. Uma depreciação da profundidade desta quê pensar é uma “aventura filosófica?” Mas, o que é indagação seria o popular “será que ele É?”, ao que filosofia? Pra que serve? Por que estudar ou ensinar cada um deverá responder dando conta de sua opção Filosofia? sexual. Para Moisés Deus disse: “EU SOU te envia”, Como responder a estas e outras questões respondendo a angustiada pergunta do profeta: “quem, que nos afetam? Questões existenciais, como por direi ao faraó que me envia?” Por outro lado, a resposta exemplo: “Quem sou”? “De onde vim”? “Para onde vou”? “SOU, mas quem não É?” poderá justificar a consciência “Há um sentido para a vida?”. de quem não deseja mudar e, “SOU produto do meio” O homem sempre buscou explicações que poderá endossar apenas uma visão determinista de um justificassem sua existência. Como já nos dizia PASCAL, “SER” sem liberdade para construir-se. Profunda e o homem é um ser pensante: intrigante, a questão do “SER” já aparece entre os gregos e, Parmênides, dos primórdios do pensar O homem não passa de um caniço, o mais criticamente afirmará: “o SER É e, o não-SER, não É”. fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é Aparentemente simplória, a conclusão parmenídea preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: revelará a identidade entre o SER e o PENSAR, um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas, fundamentando o PRINCÍPIO de NÃO-CONTRADIÇÃO, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria assaz importante para o pensamento lógico. Mas, para ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que quê nos interessa tudo isto? morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o Evocar a questão do ser é adentrar num dos universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade campos de estudo da FILOSOFIA, a metafísica e, neste consiste, pois, no pensamento. sentido, despertar nosso próprio ser para o pensar de um modo diferente. Despertar para o pensar... em que O homem portanto, pensa, não apenas vive. implica isto? Nós já não pensamos naturalmente? Mas Dirá o existencialismo, corrente da filosofia surgida no que tipo de pensamento nós temos, que “pensar” século XX que o homem é o único ser que existe, ou praticamos? Um pensamento livre? Ou será um seja, que tem consciência de seu ser. As coisas não pensamento formatado, definido por alguém ou por existem como consciência, como o homem. O homem algum sistema? Somos autônomos, ou seja, capazes de pode refletir sobre si, olhar-se de fora, fazer a aventura pensar por nós mesmos ou dependemos exclusivamente da auto-reflexão... só o homem tem do pensamento de outros para podermos “viver”? Afinal consciência...consciência de si. de contas, o que somos? É a questão do SER que se Tal capacidade, que difere o homem de todos apresenta... Pensar, palavra tão corriqueira, que nos os seres vivos existentes no mundo, possibilitou não diferencia dos animais, esconde muito mais do que o apenas conviver com a realidade, mas também simples ato de fazer contas ou ouvir coisas... está além conhecê-la, apreendê-la e explicá-la. Pensar é tão da condição de entender palavras pelo simples processo fantástico que não nos torna os mais fortes de memorização ou visualização. Mas o que é pensar? necessariamente, os mais perfeitos tecnicamente mas, Aqui somos convidados para uma viagem que, podemos nos torna diferentes, humanos e únicos. A capacidade ficar tranqüilos, não envolve substâncias ilícitas mas, de pensar nos permite criar, projetar. Dizia o apenas e tão somente, um exercício: o pensar! É uma existencialismo também que o homem é um projeto, o viagem pelo mundo de sophia, palavra grega derivada único capaz de projetar-se. Mesmo numa teoria mais de sophos (sábio) e que significa sabedoria. Unida à materialista, MARX - nos seus estudos sociais e na palavra philo, que derivou de philia (amor, amizade), deu produção da sua teoria - enaltece a capacidade do origem à palavra philosophia, ou seja, filosofia que, homem de pensar: etimologicamente significa “amor pela sabedoria”. Aventurar-se portanto no mundo da As abelhas constroem colméias tão perfeitas FILOSOFIA é a proposta, não no sentido de tornarmo- que poderiam envergonhar a mais de um mestre-de- nos professores de filosofia mas de descobrir que somos obras. Mas o pior mestre-de-obras é superior à melhor naturalmente filósofos. Como dizia Kant, não se ensina abelha porque, antes de executar a construção, ele a filosofia mas apenas a filosofar. E, filosofar, é pensar!!! projeta em seu cérebro. Que maravilha e que impressionante é o homem! Por Pensar portanto, é uma grande viagem! isso, falar em educação, falar em conhecimento, falar no Podemos num momento estar aqui e noutro instante pensamento é falar dessa complexidade que é o ser localizarmo-nos em qualquer lugar. Criamos teorias e humano. É falar em cultura, é falar no processo de buscamos conhecer mistérios. Pensamos em Deus e humanização, no nascimento e na importância da pensamos na vida. Mesmo prisioneiros fisicamente de linguagem, sua relação com o conhecimento e com a situações adversas, podemos ser livres e independentes educação. O homem, essa aventura interminável a ser no nosso pensamento, na nossa alma. Como diria Jean- vivida, descoberta. Pensar talvez, seja tanto mais Paul Sartre, “o homem é condenado a ser livre”. Mas, o complexo quanto mais complexo descobrimos que é o que é esta liberdade de pensar então? Pensar é buscar homem. Por isso, pensar é uma grande aventura. Como respostas, é querer conhecer, entender, descobrir, dizia Lupicínio Rodrigues, “o pensamento parece uma explicar. O homem que pensa pergunta, quer saber coisa à-toa, mas como é que a gente voa quando sobre si e sobre a realidade, a que ele vê e a que ele 1 Professor de Filosofia, formado pela Universidade Estadual de Londrina – U.E.L., com pós-graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea: aspectos Éticos e Políticos pela mesma Universidade. 1
  • 2. não vê. Podemos afirmar que o homem que pensa, mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas produz conhecimento e comunicação, aprende também esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou a filosofar, ou seja, a ordenar seu pensamento em precipitadas em outras, que também não dominamos. função de iluminar as trevas da razão.2 Por isso, o [...] Perdemos sem cessar nossas idéias. É por isso que homem que filosofa suspeita a existência de outra queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas. realidade que não a apenas aparente, e busca desvelá- A filosofia portanto, não quer calar. A sua la decifrando os enigmas que a permeiam.3 proposta é de esclarecimento. Sobre esta questão, é Mas, qual é a realidade? Ou, filosoficamente muito interessante a explicação kantiana sobre “o que é perguntando, o que é a realidade? Aqui está um dos o esclarecimento” no seu artigo de 1783: Esclarecimento papéis da filosofia. É a inquietação com o que está dado. [‘Aufklärung’] é a saída do homem de sua menoridade, É o voltar-se sobre o que está dito e explicado. Como da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a escreveu MERLEAU-PONTY, a verdadeira filosofia é incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a reaprender a ver o mundo. Reaprender a ver o mundo é direção de outro indivíduo. É a idéia de autonomia do um bom ponto de partida. A leitura que fazemos do sujeito (autonomia do grego autós – eu próprio e nomos nosso mundo, a nossa vivência, os nossos valores, as – norma, ou seja, o indivíduo capaz de determinar suas nossas crenças... Tudo influi na nossa visão de mundo. próprias normas). Deste ponto, destes questionamentos, nasceu a filosofia Como escreveu JEAN-PIERRE VERNANT, a na Grécia. Eis uma boa questão: qual é o mundo que filosofia traz o mistério para a praça. Não faz mais dele o vemos? Que mundo vivemos? Que sociedade criamos? motivo de uma visão inefável, mas o objeto de uma É uma sociedade crítica? Formamos as pessoas para investigação em pleno dia. Através do livre diálogo, do que mundo: o mundo do SER ou o mundo do TER? Que debate argumentado ou do enunciado didático, o sociedade criamos e reproduzimos, que existência mistério se transmuta em um saber cuja vocação é ser defendemos para o homem: a da humanidade ou a da universalmente compartilhado. É o querer nietzcheano “coisificação”? A escola esclarece ou ideologiza o ao afirmar que caça homens como verdadeiro corsário, pensamento? Costumo dizer que vivemos uma não para vendê-los como escravos, mas para levá-los sociedade do “fast-food”. Você sabe o que é um fast- consigo para a liberdade. É, com certeza, uma grande food, não é? Exatamente: “comida rápida”. São aquelas aventura. lanchonetes e restaurantes que te servem em cinco minutos, que te “satisfazem” rapidamente. O problema é que, como a comida rápida, que se apresenta como a melhor alternativa para a vida corrida do dia-a-dia, assim FRAGMENTOS: QUAL A “UTILIDADE” DA toda informação praticamente se constrói na sociedade do “tudo pronto” e do “descartável”. Somos educados FILOSOFIA? dentro do lema “tempo é dinheiro!”. Portanto, não “podemos” perder tempo. Por isso, ávidos por informações, mais do que por uma boa formação, Para responder à questão, precisamos saber estamos nos tornando extremamente generalistas e primeiro o que entendemos por utilidade. Eis o vazios, transformando nosso cérebro muitas vezes num primeiro impasse. Vivemos num mundo em que a voraz consumidor da informação fast-food, como nosso visão das pessoas está marcada pela busca dos estômago acostuma-se com o alimento rápido. É resultados imediatos do conhecimento. Então, é inevitável portanto que, nesta sociedade do consumo considerada importante a pesquisa do biólogo na rápido, imediatamente depois de experimentarmos a busca da cura do câncer; ou o estudo de matemática ilusão de que fomos informados sobre tudo, percebemos no ensino médio porque “entra no vestibular”; e que nada sabemos.4 constantemente o estudante se pergunta: “Para que Libertar-se da ideologia dominante, construir o vou estudar isto, se não usarei na minha profissão?” pensamento crítico, refletir sobre a realidade, não aceitar Seguindo essa linha de pensamento, a o que está posto - dado como verdade - sem questionar- filosofia seria realmente “inútil”: não serve para se, sem procurar “ler a entrelinha”, é pensar o próprio nenhuma alteração imediata de ordem pragmática. pensamento. Por isso podemos dizer que FILOSOFIA É Neste ponto, ela é semelhante à arte. Se O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE DE perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte, PENSAR O PRÓPRIO PENSAMENTO. Pensar todos veremos que ela tem um fim em si mesma e, nesse praticamente pensam mas, pensar o próprio sentindo, é “inútil”. pensamento... é um exercício. Entretanto, não ter utilidade imediata não Como escreveu BRECHT, Nós vos pedimos significa ser desnecessário. A filosofia é necessária. com insistência: Não digam nunca: isso é natural! Diante dos acontecimentos de cada dia, Numa época em que Onde está a necessidade da filosofia? reina a confusão, Em que corre sangue, Em que o Esta no fato de que, por meio da reflexão arbitrário tem força de lei, Em que a humanidade se (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia permite desumaniza, Não digam nunca: isso é natural! Para que ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é nada passe a ser imutável!” dada pelo agir imediato no qual o “homem prático” se A Filosofia busca um despertar, um “algo” encontra mergulhado. diferente para o que é comum. É a busca de uma ordem, É a filosofia que dá o distanciamento para a da reflexão, como nos apontam DELEUZE & avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos GUATTARI: Pedimos somente um pouco de ordem para fins a que eles se destinam; reúne o pensamento nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade; angustiante do que um pensamento que escapa a si retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la. 2 LOVO & RODRIGUES, 2000, p. 4. Portanto, a filosofia é a possibilidade da 3 Idem, ibidem. transcendência humana, ou seja, a capacidade que 4 só o homem tem de superar a situação dada e não- CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 298. 2
  • 3. escolhida. Pela transcendência, o homem surge como liberdades, é a de minar, pelas análises que ela opera ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o seu e pelas ações que desencadeia, as instituições destino. repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, O distanciamento é justamente o que do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da provoca a aproximação maior do homem com a vida. família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas Whitehead, lógico e matemático britânico burocráticos, o que importa é fazer aparecer a contemporâneo, disse que “a função da razão é máscara, deslocá-la, arrancá-la...” promover a arte da vida”. A filosofia recupera o Finalmente, a filosofia exige coragem. processo perdido no imobilismo das coisas feitas Filosofar não é um exercício puramente intelectual. (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia impede a Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as estagnação. formas estagnadas do poder que tentam manter o Por isso, o filosofar sempre se confronta com status quo, é aceitar o desafio da mudança. Saber o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e à para transformar. política. É o que afirma o historiador da filosofia Lembremos que Sócrates foi aquele que François Châtelet: “Desde que há Estado – da cidade enfrentou com coragem o desafio máximo da morte. grega às burocracias contemporâneas –, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperada por eles, como (ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. testemunha, por exemplo, a evolução do pensamento Filosofando: introdução à filosofia. 2ª ed. rev. e francês do século XVIII ao século XIX). Por atualizada. São Paulo: Moderna, 2001.) conseguinte, a contribuição específica da filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de todas as UNIDADE 2 – O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA GRÉCIA. mitos mas, em determinado momento, é preciso uma *João Vicente Hadich Ferreira racionalidade maior, a necessidade de uma explicação mais coerente e científica para os fenômenos. O mito, portanto, pode ser compreendido já de Para melhor compreendermos como nasce a início, como a primeira forma de explicação que o Filosofia, é fundamental entendermos primeiro como se homem tem para os fenômenos que contempla e para dá e o que representa um tipo de pensamento tão antigo as realidades em que se encontra e, cujas respostas, ele quanto o próprio homem: o mito. Compreender a desconhece. Mas, qual a definição de mito? Um olhar questão do mito não implica em estabelecer um olhar apressado pode levar-nos ao “olhar negativo” sobre o negativo, condenatório mas, na realidade, buscar as mesmo, onde o mito aparece-nos apenas como sendo bases desta forma quase natural, ou imediata, do algo fabuloso, alegórico, sem realidade. Podemos ver, homem dar respostas aos problemas que o afligem. Na por exemplo, no mini-dicionário Silveira Bueno a Filosofia não entenderemos o mito de forma pejorativa seguinte explicação: fato, passagem dos tempos ou completamente negativa. Para nós, o mito é a fabulosos, tradição que, sob forma de alegoria, deixa primeira forma de explicação que o homem encontra entrever um fato natural histórico ou filosófico; (fig.) para aquilo que ele desconhece. Todos os povos, todas coisa inacreditável, sem realidade.5 A definição não está as culturas possuem seus mitos: egípcios, babilônios, errada mas, dentro da concepção filosófica, porém, caldeus, romanos, gregos... Hoje ainda transmitimos interessa-nos aprofundar um pouco mais esta questão. nossos mitos de geração em geração, tornando Vinda do grego mythos, a palavra mito é plausíveis explicações que poderiam ser no mínimo derivada de dois verbos especificamente: mytheyo (que constrangedoras para os nossos filhos se recorrêssemos significa contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e apenas à racionalidade. Por exemplo, quando os pais mytheo (que apresenta a idéia de conversar, contar, recorrem ao mito da cegonha, buscam dar a explicação anunciar, nomear, designar). A importância disto é que para a indagação da criança supondo que o interesse os gregos entendiam o mito como sendo um discurso dela é o mesmo que eles pensam como resposta: o pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem a sexo. O que a criança espera é uma reposta à sua narrativa como verdadeira porque confiam naquele que pergunta sobre a sua origem, se ela é filha deles na narra; é uma narrativa feita em público, baseada, verdade e não um tratado de sexologia. Recorremos a portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do vários tipos de mitos, como o Papai Noel e Coelhinho da narrador.6 Este narrador ou presenciou os fatos Páscoa, ou a mitos de “heróis”, buscando tranqüilizar narrados, testemunhou-os pessoalmente ou conheceu nossa realidade, nossos sentimentos. Num determinado quem o fez e recebeu dele a narrativa. Na tradição momento, contudo, o mito não satisfará mais como grega, quem detinha esta autoridade eram os poetas, ou resposta à criança que amadureceu e, nem tampouco os chamados aedos e rapsodos. Eram cantores será coerente com a realidade que ela observa. Neste ambulantes que apresentavam de forma poética os sentido, ela buscará uma explicação mais racional. relatos populares, recitando-os de cor em praça pública Assim acontece com o homem na história do (ARANHA & MARTINS, 2003, p. 79). Sua narrativa era pensamento. No início, tudo era explicado através dos 5 BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa, p. 435. 6 CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 2003, p. 35. 3
  • 4. respeitada porque acreditava-se que o poeta era um representavam a própria natureza (a beleza, o amor, a escolhido dos deuses. Estes, ao escolherem-no, colheita, a fertilidade...). mostravam-lhe os acontecimentos passados e permitiam Toda esta tradição mítica dos gregos foi que eles vissem a origem de todos os seres e de todas construída, como já apontamos, a partir da autoridade as coisas para que pudessem transmiti-las aos ouvintes dos poetas. Os dois grandes representantes desta (CHAUÍ, 2003, p. 35). Portanto, sua palavra – o mito – é tradição foram Homero e Hesíodo. Ao primeiro atribuem- sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, se duas grandes obras clássicas: a Ilíada e a Odisséia. pois, incontestável e inquestionável.7 A Ilíada trata da Guerra de Tróia (Ílion é o original grego Apesar do mito pertencer à cultura dos mais de Tróia) e a Odisséia refere-se ao retorno de Ulisses diversos povos, dedicaremos nossa atenção de forma (cujo nome em grego é Odisseu) para casa após a especial aos gregos. O motivo disto está em que, a guerra. É bem verdade que não temos a confirmação Filosofia, no entendimento que nos interessa abordar, é histórica de que Homero realmente as tenha escrito. O grega e fundamentou todo o pensamento Ocidental a mais provável é que tenha sido o compilador dos mitos e partir do pensamento grego. Veremos que a Filosofia tradições que se mantinham por gerações. O fato é que nasce na Grécia e que, somente lá houve uma sua importância é fundamental na construção desta sistematização do pensamento de tal forma a propiciar a tradição. E é exatamente esta tradição, a chamada passagem deste pensamento mítico para o que os “tradição homérica” que Platão criticará quando gregos chamaram de logos, ou seja, a razão, a palavra, “expulsa” os poetas da sua “cidade perfeita”. Homero o discurso racional. representa o ápice e a vitalidade de todo um impulso A preocupação do mito não está na cultural dos gregos. É considerado o “pai” da cultura veracidade, no provar a realidade mas, apenas e tão helênica pois, dele, deriva a idéia marcante da mitologia somente em explicá-la. Sem respostas para os grega: o destino, que comanda a vida dos homens e sentimentos, fatos e fenômenos que contempla, o dos deuses. E esta força, atrelada ao mito é a pergunta homem recorre a mitos e encontra respostas que lhe básica na formação do pensamento ocidental: o que é dão segurança. Saber o que é o amor, por que o essa força do destino que domina tudo? Por isso, a universo está estruturado como está, por que a colheita originalidade de Homero consiste no fato de ter legado à foi boa ou não, são algumas das indagações que tomam posteridade uma visão clara do espírito grego, em que a conta do homem antigo. Procurando respostas, os existência humana é profundamente permeada da gregos apresentaram seus mitos relacionados à presença do divino: cada momento da vida, nenhum genealogias. Tais genealogias são compreendidas como detalhe da vida parece ter sentido sem referência à teogonias e cosmogonias. A palavra gonia, do verbo divindade. O ser divino não representa explicação, grego gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer) interrupção ou suspensão do curso natural do mundo: é e do substantivo genos (nascimento, gênese, o próprio mundo natural.9 Durante os séculos homéricos descendência, gênero, espécie), unida à palavra theos a narração se organiza em torno dos personagens (deuses, coisas divinas ou seres divinos), representa a divinos, sendo os humanos reduzidos à essências com o idéia do nascimento, da origem dos deuses, ou seja, estatuto da quase-dependência. Por isso tudo se explica teogonia. No caso da cosmogonia, a mesma palavra pelas cosmogonias e teogonias, conforme já foi relatado. gonia aparece unida à palavra cosmos (mundo ordenado Num determinado momento contudo, o e organizado, o contrário de caos), o que nos remete à pensamento mítico começará a ser questionado. Não idéia do nascimento e a organização do mundo a partir perderão suas crenças mas, buscando respostas de de forças geradoras (pai e mãe) divinas.8 forma mais racional, os gregos darão nascimento ao Para apresentar estas origens, do mundo e pensamento filosófico. Por quê isto acontece na Grécia e das coisas, os mitos narram-nas de três maneiras: não nos demais povos? No Egito e na China, entre os relatam o nascimento de tudo a partir da relação sexual Caldeus e Babilônios, saberes também se construíram entre os seres divinos que governam o mundo e os mas, nada como a Filosofia grega. O que permitiu à homens (mitos sobre o nascimento dos titãs, dos heróis, Grécia desenvolver tal condição? É o que tentaremos dos humanos, dos animais, dos materiais da natureza e entender na próxima Unidade. das qualidades, como bem e mal, justo e injusto, o nascimento do amor através do mito de eros...), da luta entre estes deuses que afeta o mundo humano (o ciúme das deusas na origem da Guerra de Tróia, por exemplo) FRAGMENTOS: MITOS GREGOS e das alianças destes com os homens (o mito de Prometeu, que protegia os homens e lhes dá a “luz divina” como presente). Os deuses gregos, neste Um pai cruel. sentido, eram antropomórficos (do grego antropós = homem e morfo = forma), ou seja, criados à imagem e No alto da luminosa montanha grega do semelhança dos homens, diferentemente da concepção Olimpo, na qual o ar era claro e transparente e onde judaico-cristã, onde Deus nos fez a sua imagem e reinava uma eterna primavera, habitava Cronos, o rei semelhança. Criando e crendo em vários deuses – era do Universo, num magnífico palácio. uma cultura politeísta -, a relação que estabeleciam com Cronos, chamado Saturno pelos romanos, o divino era uma relação com a natureza. Por isso o era filho de Géia (a Terra) e de Urano (o Céu), os antropomorfismo, onde estes seres divinos não quais haviam tido, antes, muitos filhos, chamados os diferenciavam-se muito dos homens em seus Urânidas: doze Titãs, seis varões e seis mulheres; sentimentos e atitudes (eram bons ou maus, invejosos, três Ciclopes (Brontes, Esteropes e Arges) e três ciumentos, apaixonavam-se por humanos ou humanas e Centímanos (Briareu, Cotos e Gias), que haviam sido protegiam os homens ou faziam deles seus joguetes...) e 9 7 PAIM, Antônio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Idem, ibid. Velez. Curso de Humanidades 5 – Filosofia: guia de estudos, 8 Idem, p.36. p. 45. 4
  • 5. todos precipitados pelo pai no Tártaro, para que não A luta contra os Titãs durou dez anos. Foi pudessem destroná-lo. terrível e sem tréguas. Ao ver que não conseguia Cronos tomou por esposa a Réia, que se dominá-los, Zeus recorreu ao auxílio dos Ciclopes, sentia muito infeliz porque tinha tido muitos filhos irmãos dos Titãs, enormes gigantes de um olho só, no formosos e o cruel marido os havia devorado. Um meio da testa e, para assegurar a vitória, pôs oráculo anunciara ao feroz pai que seria destronado igualmente em liberdade os Centímanos (por ter cem por um dos filhos e ele tratava de evitar essa desdita, mãos cada um). Desencadeou-se, então, uma engolindo-os quando nasciam. espantosa luta: os Centímanos atiravam enormes A pobre mãe estava desesperada. Ao penhascos contra os Titãs e os Ciclopes feriam-nos e nascer-lhe um novo filho, ao qual pôs o nome de queimavam-nos com raios de fogo. O ardor e a cólera Zeus, saiu do Olimpo com o menino nos braços dos combatentes sacudiam toda a terra, desde os envolto no manto da Noite. Levou-o a uma gruta seus alicerces, e seus gritos raivosos rasgavam o céu. escondida na ilha de Creta e confiou-o ao cuidado das Zeus, no meio da peleja, resplandecente no seu carro Ninfas. Depois, tranqüila quanto à sorte de seu último doirado, animava os seus defensores e lançava contra rebento, voltou aos altos cimos de sua régia morada e os inimigos poderosos raios, acompanhados de apresentou ao marido uma pedra envolta em relâmpagos e trovões. paninhos, que ele engoliu, pensando que era o novo Por fim, decidiu-se a vitória e os Titãs foram recém-nascido. precipitados no tenebroso Tártaro, por toda a eternidade. Titãs, Ciclopes e Centímanos. Apenas vencidos os Titãs, Zeus teve de lutar novamente contra cem gigantes, nascidos do sangue de Urano, aos quais sua mãe, a Terra, incitou contra Zeus, a quem os romanos, mais tarde, Zeus, para vingar aqueles; mas foram também chamaram Júpiter, cresceu belo, forte e bom. Quando derrotados. Depois desta nova e dura luta, chamada a se tornou adulto, obedeceu ao que o Fado havia Gigantomaquia, todos os deuses do Olimpo se estabelecido: subiu ao Olimpo, destronou o pai e submeteram a Zeus, que pode, então, reinar em paz reinou em seu lugar. Mas os primeiros tempos do seu sobre o Universo. reinado foram turbulentos: ele era jovem e, portanto, inexperiente. Num momento de generosidade, pôs em liberdade os Titãs, monstros gigantescos, que, desde, muitos séculos, haviam sido encarcerados nas (MADEIRA, Marcos Almir (coord.). O livro dos entranhas da Terra por Saturno. Eles, porém, em vez nossos filhos: enciclopédia para adolescentes. de ficarem agradecidos ao generoso soberano, Volume primeiro. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Editora saíram de sua morada subterrânea e, julgando-se Alfa S. A., 1961.) com mais direito a reinar do que o próprio Zeus, assaltaram o Olimpo. UNIDADE 3 – NASCE A FILOSOFIA. * João Vicente Hadich Ferreira. Filha dos gregos, a Filosofia tem data e local de nascimento específicos e, também, um “pai”, considerado o primeiro filósofo datado historicamente: Tales. Mileto, a cidade de Tales, ficava na Jônia, atual Turquia, uma das colônias micênicas desenvolvidas após a invasão dos dóricos. É exatamente aí portanto, na Jônia, no século VI a. C. que surge a primeira proposta filosófica. Mas, antes de tratarmos dos primeiros filósofos, vamos entender o contexto de formação do povo grego e o processo que levou ao nascimento do pensamento filosófico. Geograficamente dispersa, a Grécia Antiga constituía-se por um grande número de pequenas comunidades independentes, no mar Mediterrâneo, desde o Jônia – atual Turquia -, na Ásia Menor até o sul da Itália. Apesar desta dispersão, havia uma certa unidade cultural, expressa por uma língua comum, formas de organização política semelhantes e mesmas crenças religiosas. A dispersão destas comunidades deveu-se, em grande parte, às invasões em busca de terras para cultivo mas, também, devido aos conflitos entre dois povos que praticamente formaram a cultura grega. Vindos da Europa, os micênicos, um povo mais avançado culturalmente, chega à Grécia por volta do ano 2.000 a. C. e, encontrando um povo mais atrasado na região, logo se estabelece como a cultura dominante. Os micênicos – ou aqueus, como também ficam conhecidos – encontravam-se na idade do bronze e tornam-se uma grande civilização, representada pela punjância da cidade de Micenas. Isto prevalece até que, por volta do séc. XII a. C., os dóricos – povo guerreiro que já dominava o ferro – invade a região e obriga o êxodo dos micênicos em busca de novas terras. Emigrando para a Ásia Menor - chamada Jônia na época -, os gregos fundaram novas colônias para fugir ao domínio dórico e preservar suas tradições. Desta colonização surgem duas cidades que se tornaram grandes centros culturais e econômicos: Mileto e Éfeso. Portanto, é nesse conjunto de comunidades independentes que, no século VI antes de Cristo, vai se formando um dos elementos que marcaram o surgimento do pensamento ocidental: a racionalidade.10 10 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 45. 5
  • 6. Como já podemos perceber, a filosofia não ciência filosófica. Nas demais culturas geralmente existia nasce na Grécia propriamente dita, mas na Jônia e na uma casta sacerdotal dominante, responsável pela Magna Grécia, colônias desta no Oriente e no Ocidente. interpretação dos livros sagrados e de verdades Mas, por quê nasce na Grécia e não nas culturas reveladas, o que determinava o comportamento moral, orientais antigas como Egito, Babilônia, China, Índia ou político e econômico do povo. A escrita era restrita aos entre os Hebreus? Sofreu influência destas pelo menos escribas – tratada como segredo e, portanto, acessível ou, terá sido apenas um "milagre" o que aconteceu na apenas à iniciados -, proibida aos homens comuns, o Grécia? Este é um ponto que nos interessa discutir. que impedia a ampla difusão e discussão de idéias. Durante algum tempo duas teses foram defendidas para Religiões com dogmas e uma certa teologia elaborada o fato de a Filosofia ter tido seu início na Grécia. Uma eram outros fatores que impediam o livre considerava o fato um “milagre”, ou seja, algo “a- desenvolvimento do pensamento, tornando a religião um histórico”, desconsiderando as condições sócio- instrumento de poder. Aliado a isto ainda, a cultura do econômico-culturais e políticas que faziam parte da poder vitalício do Rei e a figura do súdito, o que impedia cultura grega. A outra considerava o nascimento da qualquer manifestação política ou reflexão sobre a Filosofia como sendo devida a “ensinamentos esotéricos questão do poder. Pois bem, o contexto grego era que os gregos adquiriram em suas viagens pelo Oriente, contrário a este modo de ser. ou seja, a Filosofia nasceu por influência dos povos Com o fim do domínio dórico, nós vemos a orientais, sem mérito algum dos gregos e não, reconstrução da sociedade grega. Há um renascimento novamente, por um contexto sócio-cultural próprio que do comércio em torno do século VIII a.C. e a tendência à existia na Grécia. Estas duas correntes portanto, formação de centros maiores ao redor da ágora, - a “milagre grego” versus influência oriental estão praça pública - local das transações comerciais e das desacreditadas academicamente. A tese aceita discussões sobre a vida da cidade. É o nascimento da atualmente defende o nascimento da Filosofia devido a política. Esclarece-nos Paim, Prota & Rodriguez (1999): uma série de fatores sócio-político-econômico-culturais que aconteceram somente na Grécia. Por isso, neste Vencendo o princípio de que todos são iguais entendimento não foi possível o mesmo acontecer em diante da lei, a discussão torna-se a forma outras culturas, não da forma como se dá no Ocidente. normal de tratar-se não só a política mas os Com isto esclarecemos que, no entendimento acontecimentos em geral; prevalece a opinião acadêmico estamos falando da Filosofia Ocidental e não de quem expõe suas idéias corretamente e das “filosofias orientais”, que apresentam sua sabedoria com argumentos válidos, quer dizer há a e importância mas, num olhar mais depurado, não supremacia do logos (que significa "palavra", desenvolveram uma sistematização do pensamento de "razão"). Assim que, enquanto antes os tal forma que permitisse o nascimento do que viria a ser fenômenos divinos, naturais e humanos conhecido posteriormente como ciência. confundiam-se e eram vivenciados sem Retomando a questão da formação da Grécia, necessidades de explicação, com a pólis, alguns contextos então contribuirão para uma esses fenômenos tornam-se problemas, à construção diferente da cultura grega com relação às procura de explicação.11 outras culturas. No mesmo período, as outras civilizações existentes apresentavam algumas características que, contrapostas à cultura grega, podem nos ajudar a esclarecer porque estes últimos 11 apresentaram um terreno fértil para o surgimento da PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 47. 6
  • 7. Na estruturação política, cada comunidade moeda e um desenvolvimento da escrita e do grega era uma cidade-Estado – as chamadas polis -, calendário. Criada pelos sumérios, a escrita ganha novo autônoma, com a dimensão de pequeno município. Na sentido com os gregos que descobrem-se capazes de Pólis é que se efetua a conquista política do estatuto expressar seu pensamento não mais de forma verbal cívico, da ordem da cidadania, na qual o destino de cada apenas mas, a partir da concepção do alfabeto e da um é definido não pela obrigação de lealdade à um construção fonética, de forma mais elaborada, por chefe, mas pela relação ao princípio abstrato que é a lei escrito. Estes fatos exigem uma abstração do - primeira etapa. Num segundo momento. A democracia pensamento, um maior rigor na formulação das idéias e, se instaura em Atenas. Apresenta-se a idéia de governo conseqüentemente, uma mudança cultural. O grego do povo ou, governo no "meio" do povo e não governo descobre que não precisa trocar as mercadorias através do "povinho". O grego tem consciência de sua cidadania de coisas concretas (um cavalo por um boi, por porque participa da vida pública da cidade. Os destinos exemplo) mas sim, que é possível uma troca abstrata da pólis são de responsabilidade comum de todos os (um cavalo por 20 moedas, por exemplo). É o cidadãos, acima dos quais nada a não ser as leis que desenvolvimento da capacidade de elaboração do eles mesmos elaboraram. Escreve HOWART (1984): pensamento de forma diferente. O calendário produz condições semelhantes ao permitir uma observação Pode parecer exagero, porém acredito que sobre os dias e as estações do ano e, desta forma a seja justo afirmar que as realizações políticas percepção da natureza em seu curso, desmistificando a e as experiências práticas de governo dos ação divina sobre os fenômenos da natureza (como no gregos, nas quais se basearam todas as caso de a colheita ter sido boa ou ruim devido ao “deus” formas modernas de política da Europa e não às condições climáticas ou época do ano). Por fim, ocidental, pelo menos até a aparição do o surgimento da vida urbana, que impulsiona este marxismo, não poderiam ter acontecido em renascimento comercial e diminui o prestígio da classe outro ambiente que não fosse o da pólis. aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política, Conceitos tão familiares como, por exemplo, que exige a construção de uma nova relação social, governo constitucional, império da lei, como já foi explicado anteriormente. democracia e, acima de tudo, cidadania, eram Por todos estes fatores portanto, e não por um completamente desconhecidos até que os “milagre” ou por “influência do oriente” como já gregos começaram a experimentá-los.12 esclarecemos, é que, no século VI a.C. Tales inicia a jornada que se tornará a grande aventura na História do O modelo de governo da pólis como esforço Ocidente: o pensamento filosófico. coletivo e exclusivo dos cidadãos, até então As mudanças começam a acontecer. Em torno desconhecida em outras civilizações tem por do século V a.C. o homem, como cidadão-guerreiro, que fundamento a idéia de que os deuses abandonaram os fala e que combate, aparece como assumindo o seu homens. E a idéia do Destino, como força superior aos destino. Nesta época, os gêneros culturais mudam de próprios deuses, sugere a visão democrática de que a lei sentido e de estilo. A tragédia, antes fundamentalmente está acima dos indivíduos. É nesse quadro que surge a religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografia reflexão filosófica, que busca uma lei universal, acima de se afirma. As descrições lendárias e as genealogias todas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo míticas dão lugar à paisagens e costumes analisados e sem recorrer a forças divinas. descritos com precisão. No campo da medicina surge Outras condições histórico-sociais também um apelo pela investigação das causas das foram proporcionando o questionamento do mito. O enfermidades e não mais aos recursos ambíguos da renascimento comercial citado exigiu do homem grego o adivinhação. Na física o grego passa pouco a pouco das “lançar-se ao mar” para encontrar novos mercados. Com especulações mágicas para o estudo das relações o desenvolvimento das viagens marítimas, os gregos fenomenais. A “arte da palavra” por sua vez deixa de ser começam a confrontar os fatos reais com as tradições privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qual míticas. Chegando às ilhas e regiões que constituem o todo cidadão dispõe, pelo menos em direito, para fazer pano de fundo das epopéias e dos relatos poéticos, o valer suas opiniões e interesses. grego não encontra as “divindades” e as “criaturas” O mito contudo, não perdeu sua beleza, seu citadas pela tradição. Singrando os mares não encontra sentido que propiciou todo este progresso. É uma forma as sereias e nem tampouco é confrontado com diferente de olhar a realidade. Hesíodo fala em suas Posseidon13. Em Creta não depara-se com o Minotauro14 obras do "abandono dos deuses" com relação aos mas sim, com um povo que está disposto a homens. Há um princípio de "secularização" do comercializar também, como nas demais regiões. pensamento. O homem não precisa mais recorrer aos Questionamentos surgem sobre a veracidade do mito e deuses para explicar o mundo. Na Teogonia – de a possibilidade ou não de encontrar novas explicações Hesíodo - o homem encontra-se sem deuses, para os fatos e fenômenos antes entendidos apenas de abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre os forma mítica. Concomitante a isto, há a invenção da séculos VIII e V a.C., portanto, desenvolve-se o esforço para a construção de uma sociedade justa, propiciada 12 pelas condições históricas próprias do mundo grego. É HOWART, Ian. In.: HUMANIDADES, Ed. Universidade de Brasília, Janeiro / março – 1984 – vol. II – n.º 6, p. 170-171. neste contexto que nasce a filosofia e aparecem os 13 Posseidon: na mitologia grega é o nome do “deus do mar”, primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos. irmão de Zeus. Teria, de acordo com o relato da Odisséia, sido o mentor dos problemas de Ulisses (do grego Odisseu) no seu FRAGMENTOS: “TUDO COMEÇOU...” retorno para casa. Para os romanos chamava-se Netuno. 14 Minotauro: criatura que habitava o labirinto em Cretas, onde Minos, rei da ilha colocava seus inimigos para serem mortos Tudo começou no início do século VI a.C., na cidade pelo monstro. Teseu, o herói grego, vence a criatura e grega de Mileto, no litoral da Ásia Menor; onde os jônios consegue sair do labirinto utilizando-se de um novelo de linha estabeleceram colônias ricas e prósperas. No espaço de para reencontrar o caminho. 7
  • 8. cinqüenta anos sucederam-se três homens, Tales, um círculo restrito de iniciados, ao lado também da profusão de Anaximandro e Anaxímenes, cujas pesquisas são bastante crenças comuns de que todo o mundo participa sem que próximas pela natureza dos problemas abordados e pela ninguém se interrogue a seu respeito, define-se e afirma-se uma orientação espiritual para que se os tenham considerado, desde nova noção da verdade: verdade aberta, acessível a todos e que a Antiguidade, como os formadores de uma única e mesma fundamenta em sua própria força demonstrativa os seus critérios escola. Quanto aos historiadores modernos, alguns acreditaram de validade. [...] reconhecer, na florescência desta escola, o fato decisivo Assim reconstitui, por detrás da natureza e além das anunciador do “milagre grego”. A Razão ter-se-ia subitamente aparências, um pano de fundo invisível, uma realidade mais encarnado na obra desses três filósofos milésios. Pela primeira verdadeira, secreta e escondida, que o filósofo se encarrega de vez, em Mileto, descendo do céu para a terra, ela ter-se-ia atingir e da qual ele faz o próprio objeto da sua meditação. Ao se irrompido no cenário da história; a sua luz, doravante revelada, prevalecer desse ser invisível contra o visível, do autêntico contra como se tivessem enfim caído as escaras dos olhos de uma o ilusório, do permanente contra o fugaz do certo contra o humanidade cega, não teria mais cessado de iluminar os incerto, a filosofia substitui, à sua maneira, o pensamento progressos do conhecimento. [...] religioso. Ela se situa no próprio quadro que a religião havia “Admirar-se”, declara o Sócrates do Teeteto, “a constituído quando, ao colocar além do mundo da natureza as filosofia não tem outra origem”. Admirar-se diz-se thaumazein, e forças sagradas que, no invisível, asseguram o seu fundamento, este termo, pelo fato de testemunhar a derrocada que a ela estabelecia um completo contraste entre deuses e os investigação dos milésios efetua com relação ao mito, homens, os imortais e os mortais, a plenitude do ser e as estabelece-os no mesmo ponto em que se origina a filosofia. No limitações de uma existência fugaz, vã fantasmática. Entretanto, mito, thauma é “o maravilhoso”; o efeito de assombro que ele a filosofia opõe-se à religião até nesta aspiração comum em provoca é o sinal da presença nele do sobrenatural. Para os ultrapassar o plano das simples aparências para aceder aos milésios, a estranheza de um fenômeno, em vez de impor o princípios ocultos que as confortam e as sustentam. Por certo, a sentimento do divino, propõe-no ao espírito em forma de verdade que a filosofia tem o privilégio de atingir e de revelar é problema. O insólito não fascina mais, ele mobiliza a inteligência. secreta, dissimulada no invisível para as pessoas comuns; a sua De silenciosa veneração, a admiração faz-se questionamento, transmissão, através do ensino do mestre ao discípulo, conserva interrogação. Quando o thauma, no final da investigação, foi em alguns aspectos o caráter de uma iniciação. Mas a filosofia reintegrado na normalidade da natureza, do maravilhoso só traz o mistério para a praça. Não faz mais dele o motivo de uma resta a engenhosidade da solução proposta. Essa mudança de visão inefável, mas o objeto de uma investigação em pleno dia. atitude ocasiona toda uma série de conseqüências. Para atingir Através do livre diálogo, do debate argumentado ou do o seu objetivo, um discurso explicativo deve ser exposto, não enunciado didático, o mistério se transmuta em um saber cuja somente enunciado sob uma forma e nos termos que permitem vocação é ser universalmente compartilhado. O ser autêntico ao compreendê-lo bem, mas ainda entregue a uma publicidade qual se liga o filósofo aparece assim como o contrário, tanto inteira, colocado aos olhos de todos, do mesmo modo que a quanto herdeiro, do sobrenatural mítico; o objeto do logos é a redação das leis, na cidade, torna-se um bem comum para cada própria racionalidade, a ordem que preside à dedução, o cidadão, distribuído com igualdade. Despojada do secreto, a princípio de identidade da qual todo conhecimento verdadeiro tira theoria do físico transforma-se assim no objeto de um debate; a sua legitimidade. ela se prepara para justificar-se; ser-lhe-á necessário prestar contas do que afirma, prestar-se à crítica e à controvérsia. As VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre regras do jogo político – a livre discussão, o debate contraditório, os gregos. Tradução de Haiganuch Sarian. Rio de o confronto das argumentações contrárias – impõem-se desde Janeiro: Paz e Terra, 1990. P. 375-81. então como regras do jogo intelectual. Ao lado da revelação religiosa que, na forma do mistério, permanece o apanágio de UNIDADE 4 – UM OLHAR SOBRE OS PRÉ-SOCRÁTICOS. * João Vicente Hadich Ferreira. o problema da física, da natureza o primeiro a receber o olhar do filósofo. Da atitude de espanto e perplexidade Já vimos o contexto que permitiu o nascimento surge a pergunta: o que é essa natureza, que apresenta da Filosofia na Grécia e onde ela nasce tantas variações e mudanças? Há nela uma ordem ou é especificamente. Vimos também o primeiro filósofo, absolutamente caótica? Os primeiros a se colocarem tal Tales mas, é importante ainda, entendermos um pouco questionamento foram os pré-socráticos. Assim do seu pensamento e dos seus contemporâneos e chamados por antecederem à Sócrates, que será sucessores, que formarão as diversas escolas que se considerado posteriormente um marco no pensamento seguirão na busca por respostas mais racionais sobre a filosófico clássico, ponto de mudança da perspectiva realidade. Na busca por estas respostas, os filósofos inicial dos antecessores, os pré-socráticos são estabelecerão suas teorias, acabarão formando “escolas conhecidos também como “fisicóides” – relativo à physis de pensamento” e encontrarão críticas às suas teorias. – ou “filósofos da natureza”. Começa a filosofia. O processo é de constante busca, de Tentando entender a natureza, os primeiros construção e desconstrução de teorias. Na crítica ao filósofos buscam um princípio para tudo. É a idéia de antecessor, o filósofo constrói sua teoria e, desta forma, que há uma arcké. Traduzida portanto como princípio dá nova resposta ou vislumbra novo caminho para o que geral, original, a arcké possibilita a construção de uma ele considera “incompleto”. A filosofia ao nascer cosmologia, que se contrapõe às cosmogonias e defronta-se com problemas. E, o primeiro problema que teogonias anteriores. Do grego cosmos – que significa desperta o pensar filosófico está relacionado à physis. ordem, universo – e logos – palavra, razão – a derivação Do grego, physis significa física, ou natureza. É portanto, logia pode ser entendida como teoria, estudo. 8
  • 9. Etimologicamente portanto, cosmologia pode ser e aritmética surgiram os termos matemáticos “média definida como “ordem racional” ou, “teoria racional para harmônica” e “progressão harmônica”.16 No o universo”. Esta é a busca dos primeiros pensadores. entendimento pitagórico provavelmente as coisas Neste sentido, cada pré-socrático apresentará a sua manifestariam, de forma externa, a estrutura numérica “tese” sobre a arcké da physis, construindo assim sua da qual seriam compostas. Difícil de compreender mas, cosmologia. Vejamos alguns. possível de imaginar, o sentido seria a composição das Para Tales (séc. VI a.C.), o princípio de tudo, diversas substâncias através de unidades mínimas de a arkhé, seria a água. Apresentaremos duas matéria, unidades estas que promovem diversas interpretações para o seu pensamento. Na primeira combinações em conjuntos de diferentes quantidades. acredita-se que Tales entenderia que, no princípio tudo Conforme esclarece BERTRAND RUSSEL (1967), ele estava encoberto pelas águas e que, ao evaporarem (sic!) considerava o mundo, provavelmente, como estas surgem as coisas, a natureza. Na outra versão, a atômico, e os corpos feitos de moléculas compostas de afirmação de que “tudo surgia da água” permite entender átomos dispostos de várias formas. Esperava, assim, que esta, ao resfriar-se, torna-se deusa e dá origem à fazer da aritmética o estudo fundamental para a física e terra. Ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que, a estética.17 por sua vez, novamente esfriados, retornam como Empédocles de Agrigento (viveu em torno de chuva. Desse ciclo provocado pela água, nascem as 440 a.C.). Figura controversa e interessante, este pré- diversas formas de vida. Independente de qual seja a socrático era um político democrático que, ao mesmo interpretação correta, o importante é compreendermos tempo, reivindicava para si a qualidade de Deus.18 Teria que Tales expressa a primeira forma, rudimentar ainda, morrido por saltar à cratera do Etna tentando provar que de se fazer ciência. É o uso de um pensamento novo, de era deus. Escreveu-se num poema que O grande uma racionalidade que é produzida filosoficamente. Empédocles, essa alma ardente, Saltou no Etna e foi Contemporâneo de Tales, Anaximandro totalmente torrado.19 Mas, independente disso, (610-545 a.C.) por sua vez, procura uma explicação Empédocles propõe uma cosmologia que merece ser diferente. Para ele o princípio de tudo, da phisis, é o tratada. Para ele, quatro elementos constituiriam todas ápeiron, que significa "indeterminado", "ilimitado". É a as coisas: a terra, o ar, o fogo e a água. Permanentes, idéia de uma substância infinita, eterna e sem idade, que estes elementos poderiam contudo misturar-se em envolveria todos os mundos. Para ele haveriam outros diferentes proporções e produzir, assim, as substâncias mundos.15 Transformada nas várias substâncias que complexas mutáveis que encontramos no mundo.20 Na conhecemos, que por sua vez se transformariam umas sua teoria, o Amor unia as coisas e a Luta as separava. nas outras, está em contínuo movimento, dando origem Substâncias primitivas, o Amor e a Luta alternavam sua a uma série de opostos, como água e fogo, frio e calor, predominância, ou seja, ora um era mais forte, ora outro dia e noite. A água, de Tales, seria muito “material” para e, desta forma estabelece-se um ciclo. Quando o Amor explicar o imaterial, como no caso dos contrários. O une os elementos, a Luta aos poucos os separa e, ápeiron, desta forma, originaria tudo. quando isto acontece, o Amor novamente os reúne, Também de Mileto, como Tales e gradativamente. Por isso toda substância é temporal – Anaximandro, Anaxímenes (séc. VI a.C.) encontra uma passageira – e só os quatro elementos com o Amor e a resposta intermediária, considerando como princípio de Luta são eternos. Todas as transformações no mundo tudo o ar – pneuma em grego -, que é um elemento nem não obedecem a uma finalidade mas, são produzidas tão abstrato como o ápeiron, nem tão palpável como a apenas pelo Acaso e pela Necessidade. Neste sentido, a água. O ar é respiração e vida; o fogo é ar rarefeito; a originalidade da teoria de Empédocles, à parte a ciência, água e a terra são condensação do ar; tudo o que existe, consiste na doutrina dos quatro elementos, e no reduz-se a variações quantitativas do ar. Neste sentido, emprego (sic!) dos princípios do Amor e da Luta para todas as coisas seriam produzidas por um duplo explicar a mudança.21 processo: a rarefação, que representaria a expansão, e Na “escola atomista” encontramos Leucipo a condensação, entendida como compressão. A água (provavelmente em torno de 440 a.C.) de Mileto e surgiria da condensação inicial do ar. Mais condensado Demócrito (aproximadamente 432 a.C.) de Abdera. ainda, teríamos a terra e, por fim, a pedra. Anaxímenes Acreditando que tudo é composto por átomos, estes pré- estabelece diferenças quantitativas entre substâncias socráticos formularam a teoria que ficou conhecida como diferentes, dadas pelo grau de condensação, o que não “atomismo”. Geralmente mencionados juntos, torna-se deixa de ser um mérito. Juntamente com seus dois difícil distinguir a obre de um e de outro. Os átomos contemporâneos, constitui o que ficou conhecido como a seriam fisicamente mas, não geometricamente, “escola de Mileto” ou, a filosofia dos milésios. indivisíveis. Entre eles existiria um espaço vazio e, em Na ilha de Samos, surge Pitágoras e, eterno movimento, os átomos seriam também infinitos e posteriormente os seguidores deste que constituirão a indestrutíveis. Sendo de diversas espécies, seriam – os “escola pitagórica”. Voltado para a matemática, átomos – diferentes quanto à forma e ao tamanho. Pitágoras será o responsável pela criação do termo Seriam as combinações destes átomos portanto, que filosofia. Considerado sábio pelos seus conterrâneos, o formariam os diversos tipos de substâncias existentes no matemático dirá que sábios seriam os deuses e que, ele, Universo. Criticados na antiguidade como atribuindo seria um amigo (philo) da sabedoria (sophia). Criador do tudo à casualidade, os atomistas na realidade eram famoso teorema que recebe seu nome, será um dos deterministas rigorosos, que acreditavam que tudo responsáveis pela íntima ligação entre a matemática e a filosofia nos tempos que se seguirão. Para ele “todas as 16 Id., p. 40. coisas são números”, representando estes não 17 quantidades mas a própria essência dos seres. Id., ibid. 18 Descobriu a importância dos números na música e, RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro desta descoberta estabelecendo a relação entre música primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 61. 19 Id. Ibid. 20 15 RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro Id., p. 63. 21 primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 31 Id., p. 66. 9
  • 10. acontece de acordo com as leis naturais.22 Aproximando- se mais da ciência moderna do que os seus antecessores, os atomistas produzem uma explicação mecanicista do Universo. Considerando não o princípio original do mundo mas sim que, uma vez este existindo, o seu desenvolvimento posterior teria sido fixado de forma inalterável por princípios mecânicos. Ao contrário de Sócrates, Platão e Aristóteles, procuravam explicar o mundo sem introduzir a noção de ‘propósito’ ou ‘causa final’.23 Revivida nos tempos modernos para explicar os fatos da química, a teoria atômica era original nos gregos, dada a questão de que eles desconheciam completamente estes “fatos”. Sem ser uma proposta empírica real, os atomistas contudo chegaram a uma hipótese cuja comprovação se verificou mais de dois mil anos depois. 22 Id., p. 76. 23 Id., p. 77 10
  • 11. UNIDADE 5 – HERÁCLITO E PARMÊNIDES: sobre o SER e o DEVIR. * João Vicente Hadich Ferreira. Heráclito (544-484 a. C.) ser é’ e o ‘não-ser não é’. Mais tarde, os lógicos chamarão a isto de princípio de identidade, base de toda Nascido em Éfeso, na Jônia (atual Turquia), construção metafísica posterior.28 Considerando que só Heráclito é aquele que trata do devir. É a idéia do o ser existe, isto deve ser para sempre, de forma única, movimento, de que tudo flui, nada é imóvel e os permanente, imóvel, imutável e eterna. Ou seja, não contrários formam uma unidade. Neste entendimento, pode mudar a todo instante. Por isso ele pode concluir para Heráclito, a unidade do mundo resulta da contínua que o ser é único, imutável, infinito e imóvel. tensão da oposição das coisas: a harmonia nasce da Para explicar a questão do movimento (as própria oposição. Aliás, a contradição não só produz a coisas nascem, morrem, mudam de lugar...), unidade do mundo, mas também a sua transformação. Parmênides afirmará que as mudanças, as contradições O mundo é como um rio que flui continuamente; é e os aspectos diferentes que o mundo apresenta são impossível banhar-se duas vezes na mesma água.24 simples ilusões, aparências, fruto de opiniões e não de Buscando compreender a multiplicidade do conhecimento do verdadeiro ser.29 Tudo isto existe real mas, contrariando os pré-socráticos anteriores, apenas no mundo sensível e, este, é o mundo da ilusão. Heráclito não rejeita as contradições e quer aprender a Desta forma, só o ‘mundo inteligível’ é verdadeiro, pois realidade na sua mudança, no seu devir. Conforme o está submetido ao princípio que hoje chamamos de esclarecimento de ARANHA & MARTINS (2003), todas identidade e de não-contradição.30 Em consenso com as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de ARANHA & MARTINS (2003), afirmamos que a teoria nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e parmenídea produz como conseqüência a identidade do que será depois25. Por isso é impossível nos entre o ser e o pensar, ou seja, a idéia de que o que eu banharmos duas vezes no mesmo rio pois, na segunda não posso pensar equivale a dizer que não existe. O que vez nós já mudamos e o rio também. Portanto, no está fora de mim deve ser idêntico ao meu pensar e, entendimento heraclitiano não há ser estático e, o deste modo, o ser é pensável e por isso existe. Assim, dinamismo de tudo pode ser representado pela metáfora ser e pensável se equivalem31. Parmênides estaria aqui do fogo, forma visível da instabilidade, símbolo da inaugurando a lógica com esta teoria, que encontra-se eterna agitação do devir, ‘o fogo eterno e vivo, que ora no seu poema Sobre a Natureza. Dividido em três partes se acende e ora se apaga’.26 – introdução, “via da verdade” e “via da opinião” -, o O ser em Heráclito é múltiplo. Esta poema parmenídeo permite deduzir que ele inaugura ao multiplicidade não refere-se à idéia da existência de mesmo tempo a lógica e a metafísica. Enquanto a lógica múltiplas coisas apenas, mas ao entendimento que o ser se coloca contra a “via da opinião”, a metafísica é composto de oposições internas, por isso múltiplo em investiga o que está por trás das coisas naturais e si mesmo. Para este pré-socrático, o que mantém o físicas; procura algum princípio ou essência das coisas. fluxo do movimento não é o simples aparecer de novos Em Parmênides, a idéia abstrata de Ser indica seres, mas a luta dos contrários, pois ‘a guerra é pai de precisamente o conjunto de toda realidade como a sua todos, rei de todos’. E é da luta que nasce a harmonia, essência.32 Por isso a identidade entre o ser e o pensar. como síntese dos contrários.27 Heráclito intui, com muita antecedência, a lógica dialética, uma das grandes FRAGMENTOS: contribuições do pensamento hegeliano - e depois marxista, no século XIX -, para a filosofia. Heráclito: Parmênides (540-470 a. C.) “Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi feito nem pelos deuses nem pelos homens; mas sempre foi, é Tendo vivido em Eléia, sul da Magna Grécia e será um Fogo eterno, com unidades que se acendem (que é configurada na atual Itália), Parmênides é o e unidades que se apagam. [...] As transformações do principal expoente da escola eleática. Defendendo a Fogo são, antes de tudo, os mares; e o mar é metade imobilidade do ser, afirmará que os contrários jamais terra, metade turbilhão. [...] Os homens não sabem – diz podem coexistir. Elaborou importantíssima teoria êle – de que maneira o que não concorda está de filosófica na medida em que influenciou de forma acôrdo consigo mesmo. É uma harmonia de tensões decisiva o pensamento ocidental. Ocupou-se opostas, como a do arco e a lira. [...] As coisas pares longamente em criticar a filosofia heraclitiana opondo ao são inteiras e não inteiras, o unido e o separado, o "tudo flui"(panta rei) de Heráclito, a imobilidade do ser. harmonioso e o discordante. O uno é feito de tôdas as Na sua teoria entende como absurdo e impensável considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. À contradição opõe o princípio segundo o qual ‘o 28 Idem, Ibid. 29 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo 24 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49. Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 48. 30 ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires. 25 ARANHA, M. L. Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119. Filosofando: introdução à filosofia, 2003, p. 119. 31 PAIM, Antonio; PROTA, Leonardo; RODRIGUEZ, Ricardo 26 Idem, ibid. Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 49. 27 32 Idem, ibid. Idem, ibid. 11
  • 12. coisas, e tôdas as coisas provém do uno. [...] Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fom; mas Êle adota várias formas, como o fogo, que, quando é misturado a especiarias, é chamado segundo o sabor de cada uma delas. [...] O fogo vive a morte do ar, e o ar vive a morte do Fogo; a água vive a morte da terra, a terra a da água. [...] Devemos saber que a guerra é comum a tudo, e que a luta é justiça. [...] Não se pode pisar duas vêzes nos mesmos rios, pois as águas novas estão sempre fluindo sôbre ti.”33 Parmênides. “Não podes saber o que não é – isso é impossível – nem manifestá-lo; porque é a mesma coisa que pode ser pensada e existir. [...] Como pode, então, o que é vir a ser no futuro? Ou como poderia vir a ser? Se vem a ser, então não é; tampouco o é, se vai ser no futuro. Assim, o tornar-se desaparece, e o passar não se percebe. [...] A coisa que pode ser pensada, e aquilo pelo qual existe o pensamento, é o mesmo; porque não podes encontrar uma idéia sem algo que é, e a respeito do qual ela se manifesta.”34 33 RUSSEL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental – livro primeiro: a filosofia antiga, 2.ª ed. p. 50-51. 34 Id., p. 56. 12
  • 13. UNIDADE 6 – SÓCRATES E A BUSCA DO CONCEITO. * João Vicente Hadich Ferreira Sócrates (469 ou 470 - 399 a.C.) necessário produzir-se um “parto”, um “parto de idéias.” Neste sentido Sócrates cria um método que, em Considerado um marco na filosofia, nunca homenagem a sua mãe, que era maieuta – parteira em escreveu nada. Filho de um escultor – Sofronisco - e de grego -, chama-se maiêutico. “Parir idéias” é a proposta uma parteira – Fenareta -, nasceu em Atenas, onde para o “conhecer-se a si mesmo”, encontrar a essência viveu o apogeu e a crise da democracia. Levando a dos conceitos e compreender do que se está falando. É filosofia para a ágora, criticando os sofistas e atraindo a deixar o mundo da opinião e alcançar a ciência. admiração dos jovens, Sócrates provoca também o Como funciona este método? Pautado na desafeto de outros que o combatem por considerá-lo um ironia, o grande mérito dele é a busca do conceito. A perigo para as tradições da pólis e uma má influência ironia tem um duplo aspecto: a refutação e a maiêutica. para a juventude. Admirado e criticado, Sócrates foi A primeira significa não responder à pergunta formulada, figura controversa e causou problemas à sociedade da mas retomar a resposta do interlocutor e demonstrar as época. O que sabemos de Sócrates foi-nos legado por contradições nela contidas. A função da refutação seus discípulos ou detratores. Dentre os discípulos, os portanto, é a libertação do espírito, preparando-o para principais são Platão e Xenofonte. Platão é o grande encontrar a solução. Esta será encontrada pelo próprio divulgador do mestre, colocando-o como o principal interlocutor, já que Sócrates finge ser capaz de atuar interlocutor de seus diálogos e enaltecendo sua unicamente como parteiro, porém incapaz de conceber sabedoria. Na crítica, o principal desafeto socrático era por conta própria; quer dizer, capaz de interrogar e não Aristófanes, um comediante. Valoroso, virtuoso e de ensinar, porque o conhecimento já está dentro de destemido, Sócrates foi levado a julgamento acusado de nós. Trata-se tão somente de extraí-lo do nosso interior. “não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas Aqui temos a maiêutica propriamente dita. Um claro divindades e corromper a juventude”. O julgamento, exemplo da aplicabilidade do método está na obra relatado por Platão no texto Apologia de Sócrates, chamada Laqués, de Platão. Laqués e Nícias são dois apresenta-nos o pensador enfrentando seus opositores famosos generais que travam uma discussão com dois – o poeta Meleto, o político Anitos e Licão, um cidadãos sobre o exercício militar. A questão levantada é personagem de pouca importância – e mantendo sua se “é útil ou não este exercício, se ele serve ou não para integridade, suas convicções. Condenado por uma formar homens corajosos”. Convidado a participar da pequena margem de votos, Sócrates beberá cicuta e discussão, Sócrates muda o rumo da conversa: para morrerá entre os seus amigos de forma serena e sabermos se a arte militar é útil para formar homens confiante. Poderia ter evitado a morte – ele podia fixar corajosos, deve-se saber em primeiro lugar, o que é outra pena para si – mas não abriu mão de sua coragem. É a busca pela essência do conceito, aquilo consciência pois, escapar à morte seria admitir a culpa que é o verdadeiro ponto da discussão. Conforme nos no processo. Que ela recaísse sobre seus algozes. Ele indicam PAIM, PROTA & RODRIGUEZ (1999), as cumpriria a lei. questões que Sócrates privilegia são as referentes à Mas, por quê Sócrates incomodou tanto? moral. Por exemplo: o que é a coragem? O que é a Conversando com todos, discutindo e instigando seus justiça? O que é a virtude? Quer saber o que é a interlocutores, o filho do escultor buscava a essência dos "coragem em si", o universal que representa, ou seja, conceitos, a definição destes para fugir ao relativismo um conceito que seja o mesmo para todos e não apenas sofístico, tão comum naquele momento. A crítica construído conforme o interesse de quem o expõe. socrática aos sofistas está tanto na cobrança pelos Dando novo sentido ao termo logos - que na linguagem ensinamentos que eles dão quanto na “manipulação” comum significava conversa, palavra -, Sócrates que eles fazem dos conceitos para atender aos desenvolve a idéia do mesmo com o sentido de “a razão interesses de quem os contrata. Tal atitude mantém os que se dá de algo”, o conceito. Por isso, buscando a homens na ignorância, sem desenvolverem o verdadeiro essência das coisas nunca vai diretamente a pergunta o conhecimento. Aqui Sócrates entende sua missão: que é. Antes, ouve e apresenta objeções aos “libertar” os homens desta ignorância. argumentos dos outros. A pergunta remonta ao tempo Sobre esta “missão”, ela teria tido início dos jônios. Enquanto estes buscavam resolver o praticamente depois da visita de um amigo seu, problema da natureza - physis –, Sócrates pretende Querofonte, ao oráculo de Delfos. Este, querendo saber indagar o problema dos valores. Acompanhando a se havia homem mais sábio do que Sócrates, obtém decadência da democracia ateniense, momento em que uma resposta negativa dos deuses, ou seja, Sócrates é os valores políticos e morais aparecem sempre mais o mais sábio. Recebendo o relato do amigo, e não se conflitantes, Sócrates procura algo que constitua a considerando sábio, Sócrates fica pensativo e resolve essência de todas as virtudes particulares como a descobrir por que é considerado sábio. Intrigado, aborda coragem, a sabedoria, a justiça. Ele identifica a virtude um político considerado sábio e, na discussão descobre com o Bem que, por sua vez, é identificado com a que este na realidade se considera sábio, sem saber de própria Razão. Conhecer a virtude portanto é o objetivo nada. Entende então que ele – Sócrates - é mais sábio da ciência, do verdadeiro conhecimento. No por saber que nada sabe, ou seja, tem consciência de entendimento socrático só pratica o mal quem sua ignorância. Lembrando-se da inscrição na entrada desconhece o que seja a Virtude. Quem tem o do Templo de Delfos, o “conhece-te a ti mesmo”, e verdadeiro conhecimento só pode praticar o bem. A afirmando que “de tudo quanto sabe só sabe que nada ciência para Sócrates é, desta forma, a ciência do sabe”, Sócrates entende que o conhecimento está universal, do permanente. Do indivíduo mutável só se dá dentro do homem e que este o desconhece por não opinião. Desta forma Sócrates prepara a doutrina de buscá-lo. Para encontrá-lo, ele entende que é Platão: se com efeito, somente o conhecimento dos 13
  • 14. conceitos é verdadeiro conhecimento, será verdadeira realidade, unicamente, o objeto destes conceitos, isto é, o mundo das Idéias eternas.35 Este é outro assunto. FRAGMENTOS: DISCURSO SOCRÁTICO. “Enquanto viver, não deixarei jamais de filosofar. E, de instruir quem quer que eu encontre, dizendo-lhe à minha maneira habitual: Querido amigo, és um ateniense, um cidadão da maior e mais famosa cidade do mundo, pela sua sabedoria e pelo seu poder; e não te envergonhas de velar pela tua fortuna e pelo seu aumento constante, pelo teu prestígio e pela tua honra, sem em contrapartida te preocupares em nada conheceres o bem, e a verdade, e com tornares a tua alma o melhor possível? E se algum de vós duvidar disto e asseverar que com tal se preocupa, não o deixarei em paz; nem seguirei tranqüilamente o meu caminho, mas interrogá-lo-ei, examiná-lo-ei e refutá- lo-ei; e se me parecer que não tem qualquer arete, mas que apenas a aparenta, investigá-lo-ei, dizendo- lhe que sente o menor respeito pelo que há de mais respeitável, e o respeito mais profundo pelo que menos respeito merece. E farei isto com os jovens e com os anciãos, com todos os que encontrar, com os de fora e com os de dentro; mas sobretudo com os homens desta cidade, pois são por origem os mais próximos de mim. Pois ficai sabendo que Deus assim me ordenou, e julgo que até agora não houve na nossa cidade nenhum bem maior para vós do que este serviço que eu presto a Deus. É que todos os meus passos se reduzem a andar por aí, persuadindo novos e velhos, a não se preocuparem nem tanto, nem em primeiro lugar, com o seu corpo e com a sua fortuna, mas antes com a perfeição da sua alma”. Sócrates, Livro Paidéia. 35 MONDOLFO, Rodolfo. In.: Paim, Antonio; Prota, Leonardo; Rodriguez, Ricardo Velez. Filosofia – curso de Humanidades 5, 1999, p. 51. 14
  • 15. UNIDADE 7 – PLATÃO E O MUNDO DAS IDÉIAS. * João Vicente Hadich Ferreira, em parceria com José Roberto Garcia. Para compreensão da concepção de conhecimento personagens de seus escritos iam desenvolvendo temas sustentada por Platão (428-347 a.C.), temos que polêmicos a partir de discussões entre si. Nos “Diálogos analisar alguns traços principais de sua vida e de seu Platônicos”, Sócrates era o personagem principal. pensamento filosófico. Podemos dizer que Platão tentava reproduzir, em seus Platão nasceu em Atenas e seu verdadeiro nome escritos, o jogo de perguntas e respostas sobre o qual era Arístocles. Platão é um apelido que provavelmente se assentava a “Ironia Socrática”. Através da boca de tenha derivado ou de seu vigor físico ou da largura de Sócrates, Platão cuida de disseminar suas teorias sua testa (platos em grego significa amplidão, largura). epistemológicas e políticas. Algumas de sua principais Nosso filósofo era descendente da fina flor da obras são: A República, Laqués, O Banquete, Fédro, aristocracia ateniense, pelo lado paterno, Platão Fédon, Teeteto, Timeu e Hípias Maior, entre outras. descendia do rei Codros e pelo lado materno do grande legislador Sólon. Diante disso, é natural de desde tenra 6.1 - O mundo das idéias. idade ele tenha tomado contato com questões importantes, principalmente de ordem política e Considerando os conceitos como convenções, epistemológica. os sofistas estabelecerão assim também a questão da Platão foi discípulo de Sócrates, com quem entrou justiça ou injustiça. No entendimento socrático uma e em contato, provavelmente, com vinte anos de idade. outra se confundem, fato devido ao desconhecimento Acredita-se que, no início, ele freqüentou o círculo que os homens têm da essência da justiça. Recusando a socrático com os mesmos objetivos da maior parte dos concepção sofística, Platão aprofunda a idéia de outros jovens atenienses, ou seja, para melhor se Sócrates. O mundo dos sentidos seria constituído de preparar para a ativa vida política da Cidade Estado. No aparências. Chamado de mundo sensível, nele tudo é entanto, a convivência com o mestre e os demais instável e variável, sujeito às circunstâncias. Neste acontecimentos de sua vida orientaram-no para outro sentido, há muitas opiniões variadas e divergentes rumo. relacionadas à forma como cada um percebe o mundo. O profundo desgosto com a política praticada em Viver desta opinião - doxa, no grego - não permite ao Atenas chegou ao ponto máximo com a condenação à homem alcançar o conhecimento real, verdadeiro. Este é morte do amigo e mestre Sócrates. A partir daí, o nosso chamado de episteme, ou seja, o conhecimento das filósofo resolve manter-se afastado da política militante. essências, das realidades que estão acima da opinião. Em 388 a.C., Platão empreende uma grande Tal conhecimento implica no que Platão chamou de viagem passando, entre outros lugares, pelo Egito e pela mundo inteligível ou, mundo das Idéias. Para que esta Itália. Durante sua estadia na península itálica, Platão foi passagem ocorra, ou seja, do sensível para o inteligível, convidado por Dionísio I para ir até Siracusa, na Sicília. da doxa para a episteme, é fundamental admitir que Parece claro que Platão tinha a intenção de inculcar no existem as essências. Partindo de dois princípios – tirano o ideal do rei filósofo, exposto no seu diálogo identidade e permanência – Platão recorre aos exemplos Górgias. Esta pretensão do filósofo ateniense logo fez da geometria, onde temos diversas figuras que, na surgir uma indisposição entre Dionísio I e ele. O tirano realidade, não existiriam neste mundo sensível mas, ficou tão irado com Platão que acabou vendendo-o como apenas no inteligível (somente lá elas permanecem, não escravo a um embaixador espartano na cidade de Egina. mudam, não são diferentes de acordo com a Felizmente foi resgatado por um amigo da cidade de interpretação de cada um). É o caso das diversas Cirene que, por sorte, se encontrava naquela cidade. árvores ou diversos cavalos. Apesar das diferenças Ao retornar a Atenas, Platão funda sua famosa entre os vários tipos, há algo, um essência que nos faz Academia num ginásio que se situava em um parque perceber, reconhecer em cada um algo que não muda, dedicado ao herói Academos, de onde derivou seu que permanece e lhe dá identidade de cavalo ou árvore. nome. Para Platão isto se dá no inteligível. Assim também se Não contente com sua malfadada experiência dá com os conceitos. Da justiça, por exemplo, o homem anterior, Platão retorna a Siracusa em 367 a.C., depois tem uma certa intuição. As opiniões divergem mas, da morte de Dionísio I. Quem assumiu o trono foi todos trazemos em nós a essência do que seja a justiça. Dionísio II que, para desespero de Platão, herdara do Denominadas por Platão de Eidós ("idéia" ou "forma"), pai a mesma incompreensão e truculência, basta dizer as essências existem como idéias perfeitas lá no mundo que manteve o filósofo ateniense prisioneiro por alguns inteligível. Dentro do sistema platônico, a teoria do meses, somente permitindo que este retornasse à mundo das idéias (hiperurânio) é um dos pontos Grécia porque Siracusa estava envolvida em uma centrais, pois nos dá a chave para a compreensão de guerra. boa parte de seu pensamento político e epistemológico. Em 361 a.C., Platão retorna pela terceira vez a O “Mundo das Idéias” é uma espécie de mundo Siracusa atendendo a um convite do próprio Dionísio II, transcendente, um lugar onde se encontram as formas, no entanto o tirano não queria outra coisa senão cuidar os modelos perfeitos, os paradigmas eternos e imutáveis se sua formação pessoal, o que causou uma nova e de tudo o que existe e dos quais os objetos que se definitiva decepção em Platão, que retornou a Atenas, encontram no mundo de nossa experiência sensível são onde permaneceu na direção da Academia até sua apenas cópias imperfeitas. Em resumo, as idéias que morte. estão no hiperurânio são as verdadeiras e supremas Durante sua vida, Platão escreveu muitas obras e, causas e modelos do mundo sensível (o nosso). segundo os especialistas, seus escritos chegaram até nós na totalidade (cerca de 36 trabalhos). Normalmente ele escrevia na forma de diálogos, ou seja, os 15
  • 16. 6.2 - O conhecimento como reminiscência Não podemos nos esquecer que Platão é um (anamnese) e seus graus: a opinião (doxa) e a idealista, isto é, alguém que acredita que as idéias são ciência (episteme). mais perfeitas e reais que as próprias coisas do mundo sensível. Portanto, quando falamos em contemplação Embora o problema do conhecimento tenha sido das “coisas verdadeiras” estamos falando em ventilado por alguns filósofos precedentes. Foi com contemplação do “Mundo das Idéias”. Platão que o problema ganhou um tratamento mais A análise da alegoria da caverna pode ser feita a pormenorizado e claro. Sem entrar nas minúcias do partir de duas perspectivas: a epistemológica (relativa ao problema, podemos afirmar que o nosso filósofo conhecimento) e a política, neste caso vamos nos ater à percorre um caminho totalmente novo, ou seja, para ele primeira. o conhecimento é anamnese, isto é, uma forma de Quanto à dimensão epistemológica, Platão recordação daquilo que já existe desde sempre no compara os homens acorrentados aos homens comuns, interior de nossas almas, cumpre dizer que, para Platão, que permanecem dominados pelos instintos e só as almas dos homens, antes de se encarnarem tiveram alcançam um conhecimento imperfeito da realidade como morada o Mundo das Idéias e, portanto, as (conhecimento do mundo sensível, corruptível e recordações seriam a partir das “marcas” ou impressões mutável) , a esse conhecimento imperfeito do real o deixadas pelas idéias em nossas almas. filósofo dá o nome de doxa (opinião). O homem que se Vamos agora tentar ilustrar a questão dos graus de liberta dos grilhões é o filósofo, ele ultrapassa os limites conhecimento a partir do capítulo VII do diálogo “A do conhecimento sensível e alcança o conhecimento do República”, onde Platão expõe o mito da caverna, na mundo das idéias, a esse conhecimento (das essências verdade uma alegoria usada para tornar mais clara a eternas e imutáveis das coisas, as idéias) Platão chama sua teoria. Segundo esse famoso relato, os homens de episteme (ciência). encontram-se acorrentados em uma caverna desde sua Resumindo, as almas de todos os homens tiveram, infância, de tal forma que, não podendo voltar para sua em um dado momento, como morada, o mundo das entrada, enxergam apenas o fundo da mesma. Aí são idéias, e ali conheceram as essências de todas as projetadas somente as sombras das coisas que passam coisas. No entanto, estas foram esquecidas no momento às suas costas. Ora se um desses homens conseguisse da encarnação, quando as almas se tornaram libertar-se dessas correntes para contemplar, à luz do prisioneiras do corpo. Por isso para nosso filósofo toda dia, os “verdadeiros objetos”, quando voltasse para busca pelo conhecimento nada mais é do que o esforço contar o que vira, não mereceria o crédito de seus para lembrar daquilo que outrora conhecemos, antigos companheiros, que o tomariam por insano e passando assim da doxa para a episteme, esta é a possivelmente o matariam. teoria da reminiscência. FRAGMENTOS: A ALEGORIA DA CAVERNA. Trata-se de um trecho do livro VII de A República: no diálogo, as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. ---Agora --- continuei ---representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha toda a largura uma entrada aberta para a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que não podem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vem de um fogo aceso sobre uma eminência, ao,longe atrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imagina que, ao longo desde caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem à frente deles e por cima dos quais exibem as suas maravilhas. --- Vejo isso --- disse ele. --- Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo o gênero, que ultrapassam o muro, bem como estatuetas de homens e animais de pedra, de madeira, e de toda a espécie de matéria: naturalmente, entre estes portadores, uns falam e outros se calam. ---Eis---exclamou---um estranho quadro e estranhos prisioneiros! ---Eles se nos assemelham ---repliquei---mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de si próprios e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está a sua frente? ---E como poderiam?---observou---se não forçados a quedar-se a vida toda com a cabeça imóvel? ---E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo? ---Incontestavelmente ---Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tomariam por objetos reais as sombras que avistassem? ---Necessariamente ---Considera agora o que lhes sobreviverá naturalmente se forem libertos das cadeias e curados da ignorância. Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço , a caminhar, a erguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedira de distinguir os objetos cuja sombra enxergava há pouco. O que achas, pois que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira até então eram fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneira mais justa? Se enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas passantes, o obrigar, à força de perguntas, a dizer que é isso? Não crês que ficará embaraçado e que as sombras que viu há pouco lhe parecerão mais verdadeiras do que objetos que ora lhe são mostrados? ---Muito mais verdadeiras ---reconheceu ele. 16