O Rio e os Homens

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Tese de mestrado da FCSH da Universidade Nova
Autor: João Simas

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O Rio e os Homens

  1. 1. O RIO E OS HOMENS A COMUNIDADE RIBEIRINHA DE MÉRTOLA Este trabalho foi feito no âmbito de uma dissertação de mestrado de Culturas Regionais Portuguesas, apresentado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa no ano de 2000. As revisões efectuadas foram sobretudo no aspecto gráfico, mantendo-se o texto com alterações mí- nimas. Desde essa data houve mudanças com algum impacto e novos estudos que não puderam ser tidos em conta.
  2. 2. FICHA TÉCNICA: TÍTULO | O RIO E OS HOMENS A COMUNIDADE RIBEIRINHA DE MÉRTOLA EDIÇÃO | Câmara Municipal de Mértola AUTOR | João Francisco Baeta Rebocho Simas COORDENAÇÃO GERAL | João Miguel Palma Serrão Martins COORDENAÇÃO | Manuel José Dias Marques Manuel Passinhas FOTOGRAFIA | João Francisco Baeta Rebocho Simas - (JS) Luis Pavão - (LP) Jorge Branco - (JB) António Mendes Sequeira - (AS) Autor desconhecido - (AD) DESIGN GRÁFICO | Milideias - Comunicação Visual, Lda. IMPRESSÃO | SOCTIP, S.A. TIRAGEM | 1 000 ISBN | DEPÓSITO LEGAL | 256232/07 AGRADECIMENTOS: Quero agradecer a todos os que apoiaram nos trabalhos inerentes a esta investigação, em particular ao Professor Doutor Moisés Espírito Santo que me orientou e incentivou ao longo deste estudo. Também a todos os professores que participaram neste mestrado e em especial ao Professor Doutor João Nazaré pelo estímulo que me deu desde o início. A todos os que vivem e viveram no rio e que se prestaram a relatar as suas experiências e conhecimentos. Saliento aqui informantes que foram fundamentais como João Luciano da Encarnação Confeiteiro, Pedro da Costa Rita, Sebastião dos Reis Soeiro, Pedro Simão, Ilda da Encarnação Simões Santana Alho, Fer- nando da Palma Vargas, Maria Luísa da Encarnação Simões, Maria Januária Simões, Pulquéria Simões, Vivaldo da Palma Vargas, Eugénio da Encarnação Simões e Manuel Santana Alho, Manuel Eugénio da Encarnação. Ao capitão de porto de Vila Real de S. António e aos funcionários da capitania, pela amabilidade com que me trataram e pela facilidade no acesso à documentação. À minha mulher e aos meus filhos que me acompanharam mesmo nas horas mais difíceis. Aos meus pais que sempre me motivaram nos estudos e me permitiram a liberdade de escolha, e ao meu pai em particu- lar que me ensinou a respeitar os outros, letrados ou não. À Câmara Municipal de Mértola, um agradecimento especial pela publicação deste trabalho.
  3. 3. ÍNDICE GERAL 5 Prefácio 7 Introdução 7 O Problema 8 Metodologia 11 I. O rio Guadiana no Concelho de Mértola 13 1.1.Um rio Peninsular 15 1.2. A Precipitação e as Cheias 17 1.3. As Marés 18 1.4. Rio Novo, Rio Velho: A erosão 18 1.5. A Poluição: velho e novo problema 21 II. Mértola e o Guadiana 23 2.1. Entre o Passado e o Presente 24 2.2. A Toponímia 25 2.3. Do Presente para o Passado: A demografia. Instrução e Actividades Económicas 29 2.4. Uma Sociedade Rural? 31 III. O Guadiana como via de comunicação 33 3.1. Os limites do Guadiana no Concelho de Mértola 36 3.2. Do Concelho de Mértola até à Foz 38 3.3. Os Portos 40 3.4. As Margens do Rio 43 3.5. Dificuldades estruturais 45 3.6. O transporte de pessoas e mercadorias 50 3.7. O Guadiana e a fronteira 50 3.7.1. Uma Fronteira nem sempre Fechada 52 3.7.2. Estrangeiros Presentes em 1890 53 3.7.2. O Contrabando 55 IV. A Pesca no Guadiana 57 4.1. A Pesca: Uma actividade ancestral 58 4.2. As Técnicas 58 4.2.1. Os Barcos 61 4.2.2. O Tresmalho 61 4.2.3. O Caneiro 62 4.2.4. Tarrafa 62 4.2.5. O Conto 62 4.2.6. A Pesca à Colher 62 4.2.7. Outras Técnicas 63 4.3. Arquitectura de produção e a habitação 64 4.4. A Aprendizagem pelo trabalho 71 V. A comunidade Ribeirinha 73 5.1. Os Marítimos de Mértola 75 5.2. Nomes, Apelidos e Alcunhas 75 5.2.1. Nomes e Apelidos 81 5.2.2. Alcunhas 82 5.3. Parentesco 90 5.3.1 Uma Família Alargada 93 VI. A Religião dos Marítimos 95 6.1. Religião Institucional e Religião Popular. Um conflito Multissecular 97 6.2. Santos, Senhor e Senhoras 97 6.2.1. S. António 98 6.2.2. Senhor dos Passos 99 6.2.3. Outras Manifestações Públicas de Religiosidade em Mértola 100 6.2.4. Nós e os Outros face aos Rituais Colectivos 101 6.2.5. Senhora das Neves, Senhora dos Mártires 101 6.2.6. Outros Santos 103 6.3. Práticas religiosas - o que nos dizem os etnotextos 109 Conclusão 114 Anexos 124 Fontes e Bibliografia 126 Índices 126 Gráficos e Diagramas 126 Mapas 126 Imagens 129 Imagens
  4. 4. 5 PREFÁCIO Estranhamente pouco ou nada se tem escrito sobre o Guadiana, o Grande Rio do Sul, e, principalmente, sobre os Homens do Rio. O meu amigo e colega de faculdade, João Simas - como eu, filho adoptivo e apaixo- nado de Mértola -, certamente tocado pelas histórias românticas e romanceadas so- bre as aventuras e desventuras vividas no rio ao longo de décadas, contadas à mesa dos petiscos por familiares e amigos, quis conhecer melhor e registar para os vindou- ros a vida das gentes das comunidades piscatórias ribeirinhas. Em boa hora o fez porque com o inevitável desaparecimento das figuras mais caris- máticas e conhecedoras da História do Rio, perder-se-iam para sempre as informa- ções mais preciosas e “pitorescas” que permitem imaginar e, sobretudo, sentir o fer- vilhar deste mundo quando o curso de água ainda era o seu centro. Mértola, através da sua Câmara Municipal, ao publicar em livro, esta tese de mestra- do, mais não faz do que prestar um testemunho de gratidão ao seu autor pelas lon- gas horas de trabalho e dedicação apaixonada ao estudo e investigação das raízes do passado mas sempre com os olhos postos num futuro mais promissor para o nosso Concelho. Não poderia terminar este breve texto sem deixar ao João Simas, porque sei que ele tem a sensibilidade e a capacidade para responder positivamente, o desafio para que ele, com base na documentação recolhida, se abalance a escrever um romance sobre este Grande Rio do Sul. Parabéns e obrigado João!
  5. 5. 6
  6. 6. 7 INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO O PROBLEMA O que pretendemos estudar é a relação do rio com os homens, de que maneira este os influencia e de que modo estes se apropriam dele. Problema demasiado vasto e sujeito a diferentes abordagens e a inúmeras investiga- ções, que interessa aqui delimitar, e dependente de condicionalismos inerentes ao investigador: as questões que ele inicialmente se propôs, “a espantosa realidade das coisas” que o levaram a pôr problemas, a sua formação teórica que lhe permite ou não interrogar, observar e descrever essa realidade e a propor explicações, o tempo disponível, útil e necessário para a consecução dessa investigação, a empatia conjuga- da com a necessária distanciação, e aparentemente contraditória com esta, o conhe- cimento prévio de parte dessa realidade. Comecemos pelo rio. Escolhemos o rio Guadiana e a sua população porque os co- nhecíamos melhor e porque nos interessava mais. No início há mais uma motivação do que uma razão, um desejo de explicar aspectos de uma cultura de que até certo ponto fazemos parte. Existirá também aqui alguma contradição entre as motivações psicológicas e o racionalismo científico. Mas “a humanidade só levanta os proble- 1 Karl Marx, Contribuição para a mas que é capaz de resolver”1. Diria o mesmo em relação aos estudos que podere- Crítica da Economia Política, Lis- mos efectuar. boa, Editorial Estampa, 1975, p.29 De imediato põe-se aqui a questão de ultrapassar o senso comum, os dados imedia- 2 Louis Althusser, Marxismo, Ciên- tos do sensível pois “uma ciência, longe de reflectir os dados imediatos da experiên- cia e Ideologia, S. Paulo, Ed. Sinal, cia quotidiana, só se constitui com a condição de pô-los em questão e de romper com 1967, pp. 23 e 24 eles, a tal ponto que os seus resultados, uma vez adquiridos, parecem mais o contrá- rio das evidências da prática quotidiana que o seu reflexo”2. Entremos em Mértola pela estrada que vem de Beja. A primeira sensação que temos é que a vila está “virada ao contrário”, que não obedece à forma de povoamento da maioria das vilas alentejanas. Mas, se subirmos o Guadiana a partir da foz começa- mos a perceber alguma coisa, a descobrir uma relação antiga e especial com o rio: ru- as, casas, armazéns, ruínas debruçadas para o Guadiana, construídas por pessoas que viviam com e do rio. Das primeiras evidências passámos às interrogações: quem vive no rio como e por- quê, quem são e por que continuam ou não aqui, quais são as suas formas de pensar e agir, em que medida o facto de se relacionarem com o rio os faz parecer diferentes e ao mesmo tempo iguais aos outros que vivem no mesmo concelho? Como delimitar o espaço utilizado por estas pessoas que vivem essencialmente num meio aquático, fluvial? Bastaria cingirmo-nos aos limites administrativos ou procurar um espaço mais vasto imposto pelo rio, pela economia, pela administração, pela cul- tura? Como estudar esta população sem lembrar que o rio enquanto navegável nos leva e nos traz até à foz, permite as trocas entre um interior rural e um litoral mais ur- banizado, que se tornou uma fronteira mais ou menos fechada por vontade de quem manda? E o rio em si, com as suas cheias e correntes, influências de montante e ju- sante, forças historicamente pouco controladas pelo homem, que trazem consigo as espécies de que vivem estes homens, não os obrigariam a um olhar constante e a um ritmo de vida próprio? O que os fez continuar: a família, o estado, a religião, os negócios? Até que ponto houve continuidade ou mudança, resistência cultural ou ruptura. Mudou apenas a ci- vilização ou a cultura? Perante esta panóplia de questões tentámos materializá-las incidindo essencialmen- te em alguns pontos. Começámos pelo primeiro sujeito, o Guadiana, delimitado ao Baixo Guadiana e ao concelho de Mértola, mas sem esquecer que este funciona co- mo um sistema, com interdependências a jusante e a montante. Delimitámos tam- bém esta população ao concelho de Mértola, especialmente a vila de Mértola, em- bora esta comunidade tenha mantido relações com outras populações que viviam do rio, nomeadamente no transporte de pessoas e mercadorias. Chamámos-lhes maríti- mos, embora vivam do rio, porque assim eles se assumem e são assim considerados pelas autoridades administrativas, apesar de não utilizarem o mar e terem um modo
  7. 7. INTRODUÇÃO 8 de vida diferente das populações marítimas do litoral. Actualmente, no concelho de Mértola vivem apenas cerca de vinte pescadores e a maioria já só exerce esta profis- são esporadicamente. Estudámos esta área do Guadiana como via de comunicação, o transporte de pessoas e mercadorias, relacionando-as com a fronteira entre Portugal e Espanha. Interessou-nos as pessoas pelo que faziam: o seu trabalho, as técnicas, a vida quoti- 3 Émile Durkheim, Os Grupos Pro- diana, mas também o modo como aprenderam a trabalhar e o que os fez ou não con- fissionais, Lisboa, Editorial Inqué- tinuar nesses trabalhos. Ao pretender saber quem eles eram ou são, preocupámo-nos rito, 1940, p. 39 em estudar os nomes e apelidos e as relações de parentesco. Até porque “A família é 4 Émile Durkheim, op. cit., p. 12 uma espécie de sociedade completa cuja acção se estende tanto sobre a nossa activi- 5 Henri Mendras, Princípios de So- dade económica, como sobre a nossa actividade religiosa, política, científica, etc.”3. ciologia, uma iniciação à Análise Terminámos com a religião, porque o estudo desta permite-nos perceber melhor a es- Sociológica, Zahar Editores, Rio pecificidade da sua cultura: “a religião, facto eminentemente colectivo, é a fonte de de Janeiro,1975 p.10 onde derivam todos os conceitos que constituem as categorias do entendimento, tais 6 Como escreveu Robin Fox “For como as noções de espaço, tempo, género, causa, força, personalidade, etc., e por ela me, and I hope for the reader, e com ela se faz a ciência”4. part of the sheer enjoyment of this analysis lies in the reconci- ling of anthropological and histo- METODOLOGIA rical materials and methods, in a way that illustrates their mutually supportive roles”, in Robin Fox, Partimos do princípio que “na sua perspectiva teórica e metodológica a Ciência So- The Tory Islanders, a People of the cial é uma só”5 Neste sentido procurámos uma abordagem interdisciplinar e sobretu- Celtic Fringe, London, Universi- do transdisciplinar. Assim, não nos interessaram questões como a delimitação de de- ty of Notre Dame Press, 1994, pa- terminada ciência social e muito menos a questão do imperialismo de certa ciência, o ge. Xxiii que por vezes se torna mais um problema ideológico do que espistemológico. No fun- 7 A. R. Radcliff-Brown e Daryll do perspectivámos as contribuições dessas ciências de acordo com as questões que Forde, Sistemas Políticos Africa- pretendíamos tratar, o que significa que utilizámos conceitos e metodologias nomea- nos de Parentesco e Casamento, damente da Sociologia, Antropologia Cultural, História e Geografia Humana. Lisboa, Fundação Calouste Gul- O mesmo poderemos dizer em relação aos autores que utilizámos. Não nos interes- benkian, 1982, 2ª ed, p.14 sou a sua ideologia ou filosofia da História, mas a operacionalização dos conceitos e 8 «On prend comme point de o seu método”6. départ une période, caractéri- Pretendemos partir do presente para um passado próximo que, pensamos, se expli- sée par un événement ou une sé- carão mutuamente. Uma análise puramente sincrónica poderia dar-nos uma imagem rie d’événements historiques da realidade actual, mas dificultaria a explicação dessa mesma situação. Como com- connus, dont les effets peuvent preender os pescadores de hoje sem estudar o seu percurso de aprendizagem? Como être suivis jusqu’au moment de compreender a existência destes “marítimos do rio”, que continuam contra tantas ad- l’enquête. » Ce concept prend versidades a viver do rio, o que os faz parecer um pouco diferentes da restante popu- alors un sens précis par rapport lação do concelho de Mértola? à l’aboutissement des recher- Pareceu-nos que seria importante recuar um pouco no tempo. Mas em que tempo, ches ainsi que par rapport à la se todas as sociedades têm história, não apenas as elites, mas também os outros que multiplicité des étapes parcou- anonimamente construíam essa história? “Para tanto temos primeiro de conhecer tu- rues, [...] »Paul Mercier, citado do quanto pudermos sobre como funcionava o sistema antes das mudanças que são por João Nazaré, Prolégomenes a objecto da nossa investigação”7. L’Ethnosociologie de La Musique, Tentámos definir uma linha de base: os finais do século passado. Linha de base se- Paris, Fondation Calouste Gul- gundo a definição de Paul Mércier: “Tomamos como ponto de partida um período, benkian, 1984, pág 195 . caracterizado por um acontecimento ou uma série de acontecimentos históricos co- 9 «“Le concept d’accident histo- nhecidos, a partir dos quais os efeitos podem ser conhecidos desde o início da investi- rique”, issu de l’interaction qui gação”8. Por um lado, porque a memória de alguns informantes ainda é capaz de nos s’établit entre la “tendance cul- dar referências sobre pessoas que viveram nessa época, por outro lado encontrámos turelle” et la multiplicité de fac- registos dos marítimos a partir de 1893. Procurámos também encontrar momentos de teurs extérieurs à une culture qui mudança e empregámos aqui o conceito de acidente histórico: “as inovações bruscas la conditionnent, désigne “ [...] les que aparecem numa cultura ou em consequência do contacto entre os povos”9. innovations brusques apparaissant No entanto pensamos que é preciso distinguir mudanças que são superficiais, em ge- dans une culture ou résultant du ral alterações produzidas pela introdução de novas técnicas, essencialmente civili- contact des peuples” in João Na- zacionais, de mudanças culturais que, no fundo, raramente ocorrem. “Aceitamos na zaré », op. cit.,pág. 202 prática o que diz a teoria: a cultura (modo de pensar e agir) é imutável, as mudanças 10 Moisés Espírito Santo, Origens constatadas são de ordem civilizacional ou não afectam o fundamental. As inovações Orientais da Religião Popular Por- são o velho tornado novo; o novo só é aceite na condição de perpetuar o antigo”10. tuguesa, Lisboa, Assírio e Alvim, Efectuámos trabalho de terreno e com espírito terra a terra. A observação participan- 1988, pág. XIV
  8. 8. 9 INTRODUÇÃO te foi essencial. Começámos do presente para o passado, com entrevistas a informan- tes que viveram no rio, como marítimos ou pescadores, com as dificuldades inerentes à erosão da memória. Tentámos chegar à memória social, entendida como exterior ao indivíduo. Mas a memória põe-nos problemas de objectividade. Como escreveu Maurice Halbwachs: “o que nós vemos hoje toma lugar no quadro das nossas anti- gas recordações, inversamente estas recordações adaptam-se ao conjunto das nossas 11 Maurice Halbwachs, La Mémoire percepções actuais”11. Também inquirimos outras pessoas que não estando já direc- Collective, Paris, P.U.F., 1968 tamente ligadas ao rio, passaram ali parte da sua vida, desde a infância até à aquisi- 12 “En effet je continue à subir ção de uma profissão e que pertencem a famílias com uma ligação ancestral com es- l’influence d’une société, alors mê- te meio. Estas pessoas ainda se apoiam na memória do grupo e continuam a sentir e me que je m’en suis éloigné », op. a viver sob a influência de uma sociedade de que já se afastaram12. Instrumentos bá- cit., p. 118 sicos foram o gravador, a máquina fotográfica, o caderno de apontamentos, o diário 13 Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, Lis- de campo. boa, Edições 70, 1981 p. 296 e 297 Concomitantemente também utilizámos a informação escrita. Mas aqui confronta- 14 “si l’écriture nous est apparue il mo-nos com outras dificuldades. A maioria dos protagonistas eram analfabetos ou y a un instant comme une condi- quase não utilizavam a escrita e nem estariam motivados para tal e, por isso, quase tion du progrès, nous devons pren- não deixaram registos escritos. Adivinha-se aqui o conflito entre uma memória e uma dre garde que certains progrès es- cultura orais, mais autênticas, e uma memória escrita a que o Estado, que se vai cons- sentiels, et peut-être les progrès es- truindo, obriga e tem por objectivo principal controlar. Também consultámos a im- sentiels que l’humanité ait jamais prensa periódica local. Mas esta também refere um ponto de vista: a dos notáveis da accompli, l’ont été sans son inter- terra e, se tivermos a em conta o número ínfimo de leitores, no fundo escrevem uns vention», Lévi-Strauss in Georges para os outros, mais opiniões que factos, embora se encontrem também informações Charbonnier, Entretiens avec Lé- de manifesto interesse. Utilizámos informações de arquivos nomeadamente do Ar- vi-Strauss, Paris, Presses Pocket, quivo da Capitania de Vila Real, todas as matrículas de marítimos de Mértola que aí 1991 p 31 constam, e Arquivo Distrital de Beja (alguns registos de baptismo e casamentos), Bi- blioteca Pública de Évora e Biblioteca Nacional de Lisboa. Também não menospre- zámos os pequenos “arquivos” pessoais, onde por vezes se encontra uma carta, uma fotografia, um bilhete. Mas nem sempre os registos orais e escritos coincidem ou fun- cionam segundo os mesmos propósitos. Segundo Lévi- Strauss: “(...) a escrita tem servido também para perpetuar “verdades” ou mistificações atra- vés dos séculos, por aqueles que detêm o poder. E os povos ou os indivíduos que an- tes não a conheciam “ao aceder ao saber acumulado nas bibliotecas tornam-se vul- neráveis às mentiras que os documentos impressos propagam em proporção ainda maior” . Contrariamente à propalada ideia da igualdade perante a lei que os liberais quiseram estabelecer, o autor afirma que “a luta contra o analfabetismo confunde-se com o re- forço do controle dos cidadãos pelo Poder. Pois é necessário que todos saibam ler pa- ra que este último possa dizer: ninguém pode ignorar a lei”13. É preciso também notar que a escrita não era uma condição essencial para o dia a dia destas pessoas14. Por isso torna-se difícil encontrar registos sobre as actividades dos pescadores e ou- tros marítimos feitos por eles próprios. Ainda hoje será difícil encontrar registos es- critos de contabilidade e os que eventualmente o possam fazer, omitem dados. Ne- nhum pescador está interessado em escrever oficialmente que pesca com algumas artes ilegais, que também vende eirozinhas (angulas) ou que trabalha, enquanto re- cebe subsídio de desemprego ou está reformado. Possivelmente para conseguir ob- ter dados mais exactos sobre a situação económica dos actuais teríamos que possuir uma intimidade e confiança inexcedíveis e com a condição de nunca divulgar esses dados, o que punha um grave problema ao investigador em termos éticos, nomeada- mente a questão da violação da privacidade, numa comunidade em que o interconhe- cimento ainda existe e onde um sinal de “quebra de confiança” pode fechar portas a uma continuidade da investigação. Não escolhemos esse caminho, nem pagámos a al- guém para obter informações, embora ouvíssemos falar de alguns casos recentemen- te ocorridos em Mértola (contados, felizmente ainda, com alguma admiração pelos informantes). Optámos por efectuar um estudo mais qualitativo que quantitativo, mas quando tive- mos acesso a dados e séries tentámos quantificá-los e exprimi-los graficamente. Deparámo-nos também com alguma memória oral reconstruída, isto é em que os in- formantes já contam o que esperam que o investigador goste, construindo respostas a questões já esperadas “le discours de parade, fait à l’étranger”. É um risco que po- de ser obviado, “que pode ser reduzido com a duração da investigação, o seu carácter
  9. 9. INTRODUÇÃO 10 não directivo, a intimidade adquirida, a confrontação eventual da mesma informa- ção entre vários informantes, o nosso conhecimento, a nossa “impregnação” global no terreno e sobretudo, a longo prazo, a qualidade dos nossos informantes15”. A me- 15 Jean-Claude Bouvier (dir. de), mória oral, no Alentejo em particular, também está influenciada por alguns discursos Tradition Orale et Identité Cultu- do poder local ou regional, especialmente pelo “mito da desgraça” e “heroicidade da relle, Problèmes et Méthodes, Paris, vítima” o qual verificamos que tem uma base bem real. C.N.R.S., 1980, p. 57 As imagens foram também fundamentais. Socorremo-nos de algumas fotografias an- tigas e tirámos outras centenas. Aqui, a dificuldade foi escolher e inserir apenas aqui- lo que fosse pertinente e não meramente ilustrativo. O essencial da recolha foi efectuada entre 1997 e 2000. No entanto, como já conhe- cíamos a área desde 1978, aproveitámos também informações, entretanto recolhidas com finalidades diferentes. Conhecemos o rio desde Mérida até à foz, incluindo alguns afluentes. Percorremos em diferentes barcos o Guadiana desde próximo do Pulo do Lobo até Vila Real de S. António. Em Espanha visitámos várias localidades da margem esquerda (Castellejos, San Lúcar, Ayamonte, etc.). Na redacção do texto pretendemos respeitar a linguagem dos informantes que fre- quentemente não pronunciam as palavras segundo as regras do português padrão, porque se perderiam informações ao adaptar essa linguagem tão explícita e rica de significados. O recurso à informática revelou-se imprescindível, tanto durante a recolha de infor- mações como durante o seu tratamento e redacção final, nomeadamente os progra- mas Word e Excel da Microsoft, Claris Works (base de dados), Adobe Photoshop e Family Tree Maker para tratamento da genealogia. A nossa meta era contribuir para a antropologia de um rio e compreender a cultura daqueles que não puderam escrever a História. Procurámos dar um pequeno passo. FOTO - (LP)
  10. 10. 11 O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA
  11. 11. O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 12 I O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA
  12. 12. 13 O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 1.1. UM RIO PENINSULAR MAPA 1 Bacias hidrográficas da P. Ibérica. Segundo Amorim Girão.1 O Guadiana é um dos grandes rios da Península Ibérica, a par do Tejo, Minho, Dou- 1 A. de Amorim Girão, Geografia de ro, Ebro ou Guadalquivir, embora de menores dimensões que os três primeiros. Tal Portugal, Porto, Portucalense Edi- como os três primeiros é um rio comum aos dois países ibéricos, o que pode unir ou tora, 1949-1951, 2ª ed, p.137 separar como veremos. 2 Jorge Gaspar, Portugal em Mapas Estende-se por uma bacia imensa: 41 857 Km2, dos quais 11 511km2 em Portugal2 e Números, Lisboa, Livros Horizon- com um escoamento anual médio de 5,2 (1000 milhões m3) com um máximo de 13,9 te, 1978, p.40 (1 000 milhões m3) e um mínimo 0,3 (1 000 milhões m3).3 3 Orlando Ribeiro et al., II, 1988, Ao contrário de outros rios, não nasce nem atravessa grandes montanhas (Gráfico1): p.502 “Nos olhos do Guadiana, onde alguns autores colocam as nascentes deste rio, tem es- 4 A. de Amorim Girão, Geografia te apenas 810 m de altitude, e em Badajoz, que atravessa quase ao chegar à fronteira de Portugal, op. cit.p.144 portuguesa, não fica a mais de 150m sobre o nível do mar”.4 Sobre a sua origem subsistem divergências. Acresce que a elevada procura de água em Espanha tem alterado o curso das linhas de água superficiais e subterrâneas. Diz Amorim Girão:
  13. 13. O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 14 Logo na origem nos surgem dúvidas, pois nasce em an- GRÁFICO1 tiga região lacustre, de sedimentação terciária e qua- Perfil longitudinal do Rio Gua- ternária, que apresenta uma topografia muito indeci- diana. sa; basta dizer-se que, para desviar o curso do rio, nada (extraído de Amorim Girão5) mais é preciso em certas regiões do que atravessar al- guns troncos de árvores no seu leito, como fazem com frequência os povos ribeirinhos. Toma-se geralmente como curso principal superior o Alto Guadiana, que nasce na Mancha, nas Lagoas de Ruidera; mas tanto o Alto como o Baixo Guadiana, que correm perto de Ciudad Real, não merecem propria- mente o nome de rios, pois, atravessando uma região lacustre muito semelhante à dos chotts argelinos e de pronunciados caracteres kársticos, não têm um curso de águas determinado e constante. Parece, entretanto, que o Zâncara, afluente do Guadiana oriundo da ser- rania de Cuenca, onde se aproxima do Jucar, é que de- veria ser considerado como o segmento inicial, por nos apresentar mais acentuado desnivelamento do que os outros.6 5 Cf. A. de Amorim Girão, Geogra- fia de Portugal, op. cit.p. Garcia acrescenta: 6 A. de Amorim Girão, op. cit. pp. 144, 145 A Mancha é para o estudo do Guadiana a mais com- 7 João Carlos Garcia, A navegação plexa área, a morfologia tem aí um papel primordial: as no Baixo Guadiana durante o ci- águas do rio infiltram-se e ressurgem, formando lagoas, clo do minério (1857-1917), Porto, charcos e pântanos. Será só na Extremadura espanhola Univ. Porto, 1996, p. 46 que o Guadiana cria um corpo. 8 Mariano Feio, 1947, p.p. 8 e 33, Ao longo do seu percurso Norte-Sul, uma característi- cit. por João Carlos GARCIA ca que em traços largos se mantém: a impermeabilida- op. cit. de das rochas7. Mariano Feio propõe para o Guadiana em Portugal três subsecções: Desde a confluência com o Caia, ao chegar à fronteira portuguesa, até à foz do Terges (2,5Km a montante do Pulo do Lobo). Tem 164 Km. Perfil quase regularizado. Desde a foz do Terges até à azenha dos Canais, 17 Km. É a zona de rápidos do Pulo do Lobo. Da azenha dos Canais até à foz. É a secção vestibular, influenciada pe- las marés, 79 quilómetros8. Na Extremadura espanhola chega a ter uma largura considerável como o atesta a ponte romana da antiga capital da Lusitânia, Mérida, com 64 arcos. Mesmo assim é um rio de largura muito variável: O rio, não é um rio largo. Em Alcoutim (...) Silva Lo- pes diz que o Guadiana tem “250 varas de largo (p. 395). Daqui ao Pomarão, o leito estreita-se progressivamen- te: a média rondará os 100-150 metros. Para jusante de Alcoutim, a largura do leito aumenta lentamente, atin-
  14. 14. 15 O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA gindo os 400metros, frente a Ayamonte embora apre- sente três locais em que os valores se reduzem a 30-40 metros. (...) frente a Vila Real de Santo António, (...) a 9 João Carlos Garcia, A navega- largura do rio ronda os 600 metros (Fig. 18)9. ção no Baixo Guadiana durante o ciclo do minério (1857-1917) op. A jusante do Pulo do Lobo durante a corredoura de cerca de 9 km o rio tem apenas cit., p. 38 cerca de 3 metros de largura (Fig. 1 e 3). As profundidades também são variáveis: 10 A. Rodrigues da Costa, 1980, p. 666 e 679, cit. por João Carlos Os valores rondam os 5 metros de profundidade a uma GARCIA op. cit., p. 39 distância entre os 50 e os 100 metros das margens. Nos 11 “Catadupa ou despenhadeiro de “tornos”, em especial no da Pinta, os valores são nor- um rio…”, segundo Sousa Viterbo malmente mais elevados, como consequência da acção in Elucidário…, Lisboa, 1798, que da corrente contra as margens e no fundo do leito, atin- aliás cita parte desta passagem. gindo os 20 metros.10 12 Duarte Nunez de Leão, Descrip- ção do Reino de Portugal, Lisboa, Confirmámos estas profundidades durante as viagens no Vendaval (Fig. 30), que pos- 1610, f. 33 sui uma sonda. Sobretudo do Pomarão para Mértola as diferenças de profundidade 13 (Pardé, 1949), p. 575, cit. por podem variar quase subitamente, passando por vezes de 18 metros para 5 metros ou João Carlos Garcia, A navegação menos, mesmo com a maré cheia. no Baixo Guadiana durante o ciclo Sobre a riqueza da ribeira (margens) do Guadiana, os moinhos que nele são constru- do minério (1857-1917), op. cit. ídos, o assonjo11, a impetuosidade da corrente no Pulo do Lobo e as esculturas natu- 14 João Carlos Garcia, A navega- rais feitas pelas águas escreve quase emocionado Duarte Nunez de Leão nos inícios ção no Baixo Guadiana durante o do século XVII: ciclo do minério (1857-1917), op. cit., p. 7 Este rio dá de si muitos proueitos aa terra per onde pas- sa: porque alem dos moinhos que nelle há que todo o anno moem naquellas seccas terras de alem Tejo, on- de não há copia de outras moendas de rios perennaes, nem moinhos de vento, dà grande e louvado pasto aos gados em sua ribeira (…) E daqui cae a agoa, e se despenha em um altíssimo pe- go, que está em baxo, que terà de largo cem passos, e de altura oitenta braças. Alli onde se despenha se chama o assonjo por o grande roido e estrondo que a agoa faz, caindo de lugar tam estreito e tam alto que dahi ao pe- go são dezasseis braços, sendo as pedras donde cae alti- simas de hũa parte e outra. Na borda deste pego há mui fragosa penedia em que caindo a agoa com a força qũe leva lhe acrescenta o roído, e laura por tempo nas mes- mas pedras muitas figuras de diuersas cousas, de que algũas parecem feitas aa maão de official, e nam per ca- so. Deste pego sae a agoa ainda per duas rochas de pe- dra viua, onde também se estreita tanto que em partes não tem mais que doze passos de largo e em partes se estreita mais, que nam tem mais que três. E per entre este rochedo corre espaço de três legoas pouco mais ou menos até dar em Mértola.12 1.2. A PRECIPITAÇÃO E AS CHEIAS O Guadiana “é provavelmente dos grandes rios europeus possuidores de grandes ba- cias, o pior alimentado”13. O elemento climático preponderante é a precipitação que cai abundantemente, de Novembro a Março, mas repartido por pequeno número de dias. Corresponde-lhe uma estação de águas altas (Dezembro-Abril) bem marcada. A estação seca é sempre mais prolongada e a estiagem (Agosto- Setembro) atinge va- lores mínimos (0,58 m3/s em Setembro de 1927, em Ponte de Palmas -Badajoz14. A irregularidade interanual é bem marcada. A anos de intensa pluviosidade podem su-
  15. 15. O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 16 ceder-se anos de seca prolongada. No Verão o rio quase deixa de correr e a água es- tagna em pegos. “Tomando em conta os coeficientes mensais do caudal, relação entre o caudal médio mensal e o anual, as variações (...) são (...) no Guadiana, já na parte terminal, talvez cerca de 3 em Fevereiro, menos de 0,1 em Agosto”15. Atravessa-se a vau (Fig. 8) alguns lugares no Verão que, no entanto, são perigosos no Inverno quando 15 Carlos Alberto Medeiros, Geo- chove. A construção de numerosas albufeiras em Espanha e algumas em Portugal, tem grafia de Portugal Ambiente Na- contribuído para a retenção de águas, o que, apesar de algumas desvantagens, contri- tural e Ocupação Humana, uma bui também para a diminuição do nível das cheias. Estas, apesar disso, ainda surgem Introdução, Lisboa, Estampa, de uma forma repentina como foi o caso da cheia de 1998 que destruiu casas e os no- 1991, 2ª ed. vos cais de recreio que recentemente tinham sido construídos no Pomarão e Alcoutim. 16 O Mertolense, 15 Dez 1907 Desapareceram também vários barcos e as pequenas hortas foram levadas pela enxur- 17 Bivar Weinholtz, Rio Guadiana, rada à semelhança de numerosas árvores, animais e objectos vários. Contou-nos um Elementos para o estudo da evolu- pescador do Pomarão que a sua casa foi invadida durante a noite pela água, e que tudo ção da sua embocadura, Direcção o que tinham em casa foi levado pelas águas, inclusive uma mesa da largura da porta, Geral de Portos, 1964 que era da antiga escola primária, desapareceu sem deixar rasto. Essa cheia atingiu os arcos de sustentação do edifício do tribunal em Mértola (Fig. 10). No entanto, a maior cheia conhecida foi a de 1876, que em Mértola inundou a pra- ça, a mais de 25 m do nível médio do rio, onde subsiste uma lápide no actual tribunal (antigo edifício dos Paços do Concelho) e que reza assim: “Aqui mesmo chegou/a en- chente diluvial/do Guadiana/na terrível noite de/sete de Dezembro de 1876.” Em De- zembro de 1907 o Mertolense, semanário progressista recorda ainda esta cheia: O tempo estava bom, não obstante nos dias anteriores ter chovido alguma coisa, mas pouco. (...) Pelas 8 horas da noite o rio chegava apenas ao quartel que os soldados da guarda fiscal teem edificado ao pé do porto de desembarque (...) d’ahi a poucas horas ha- via galgado a grande muralha que cerca a villa, fazen- do da rua D. Pedro V um canal e da praça Luiz de Ca- mões um lago! Na margem esquerda as casas cahiam pelos alicerces, e, ás vezes – suprema força da natureza – as paredes arrancadas inteiras redemoinhavam e afastavam-se boiando na corrente como se fossem simples bocados de cortiça (...) Horrivel, tenebrosa, inolvidavel noite.16 Também em Alcoutim há uma placa a assinalar a mesma cheia que inundou a par- te baixa da vila. O mesmo em San Lúcar (Espanha). Essa “enchente” diluvial permi- tiu pôr a descoberto numerosos vestígios arqueológicos em Mértola, sobretudo ro- manos, que Estácio da Veiga explorou, numa breve, mas bem sucedida campanha em termos de inventariação. Já o mesmo não se pode dizer de alguns materiais que en- viou para Lisboa e que desapareceram ou foram destruídos inutilmente. O efeito des- sa cheia fez-se sentir em todo o curso baixo do Guadiana. No Inverno desse ano houve uma terrível cheia, a maior de que há memória (...) no Pomarão elevou-se a 50 m acima da cota da baixa-mar. Essa grande cheia entrou no mar rompendo a direito e esfrangalhou o banco de O’Bril abrindo através uma “golada” uma nova barra orientada a SW.17 Escreve Baldaque da Silva: “As intensas correntes das águas das cheias que sáem o Guadiana, atingindo bastantes vezes 8 a 10 milhas de velocidade por hora, e tem su- bido em uma cheia extraordinaria a 13 milhas”. Às águas que vêm de montante jun- tam-se as enxurradas ou ribeiradas dos afluentes do Baixo Guadiana: ribeira de Ter- ges e Cobres, Oeiras, Vascão, Foupana, Odeleite e Beliche na margem direita e um, da margem esquerda, o Chança, que apesar de estar contido numa albufeira espa- nhola (água que serve a zona de Huelva) por vezes tem que efectuar descargas. As cheias não provocam apenas prejuízos materiais; por vezes, mesmo pescadores ex-
  16. 16. 17 O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA perimentados podem sucumbir perante a violência das águas como aconteceu com dois irmãos, José e Marcelino, cujo barco voltou-se numa cheia tendo desaparecido os dois. As cheias são quase sempre notícia, hoje e ontem, apesar de serem frequen- tes em anos invernosos. Os jornais locais vão-nos informando dessa situação, como é o caso de O Mertolense, em 1907: O rio Guadiana encheu no dia 29 do mez passado, con- servando-se tão grosso, que o vapor que faz a carrei- ra entre esta villa e Villa Real de Santo Antonio se viu obrigado a não sahir nesse dia, o que só poude conse- guir no dia 3. (...) Os individuos que moram no porto do rio viram-se obrigados a retirarem-se das suas casas. As ribeiras que deságuam no Guadiana também trou- xeram cheias, sendo a de Chanças, que tem a sua foz no Pomarão, a que mais volume d’água trouxe. (...) No dia 28 a ribeira de Carreiras impediu o transito, motivo porque não chegou a esta villa o correio de S. Sebastião dos Carros. A impectuosidade da corrente do rio arrastou muita le- nha, tendo-se também visto passar, à tona d’água, um chibato e alguns porcos. (...)18 18 O Mertolense, 08/12/1907 19 S. Daveau, in O Ribeiro et al., II, 1988, p.516, citado por João Gar- 1.3. AS MARÉS cia, op. cit., p. 261 20 R. Da Costa, 1980, p. 665), citado por João Garcia, op. cit., p. 39 A partir de 7 km a montante de Mértola (...) o fluxo 21 Pedro da Costa Rita e refluxo alternados da maré circulam poderosamen- te no vale sinuoso, transformando bruscamente um rio de caudal irregular e muitas vezes insignificante, num comprido e profundo estuário, apertado entre coli- nas escalvadas, que lhe compõem um cenário agreste, de fisionomia puramente continental. As águas salga- das penetram mais ou menos para o interior, segundo a afluência do rio, chegando até cerca de 20 km da foz durante as habituais águas baixas, mas até menos de 10 km quando das cheias, mesmo moderada.19 Produzem-se correntes que tanto permitem o movimento das espécies como a nave- gação: Segundo Rodrigues da Costa: “na vazante, as velocidades da corrente são da ordem dos 3,5 a 4 nós em marés vivas e da ordem dos 2 nós ou menos em marés mor- tas, na enchente, estes valores são ligeiramente inferiores”20. Em anos de seca prolongada as águas salgadas sobem cada vez mais e nestas alturas chegam a aparecer em Mértola espécies piscícolas características de águas salgadas como a corvinata. As marés são essenciais para a afluência de determinadas espécies. As marés têm uma influência, mas uma influência em for- te. A água aqui vaza sete horas e enche 5 horas, eu não sei como é que eles fizeram isso - era para ser a mesma coi- sa, não era? A lua nova, a lua cheia, o quarto crescente, o quarto minguante, isso tudo tem influência com o peixe. Três dias antes da lua ser nova, o peixe dá logo pancada. A gente sinte “olha o peixe já deu pancada (já está a apare- cer mais peixe) Três dias antes das águas serem vivas o pei- xe também dava logo pancada.(...) Mesmo o peixe quando tem a ova também é três dias antes e três dias depois, com a lua cheia, com a lua nova dá sempre pancada, e quando não tem ova também dá, mas quando tem ova dá mais.21
  17. 17. O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 18 1.4. RIO NOVO, RIO VELHO: A EROSÃO Cremos que poderiam aplicar-se estas palavras de Orlando Ribeiro que aqui têm uma intensidade particular. “O Mediterrâneo, pelo contrário, é o país da pedra. A juventude tectónica, o vigor da erosão por ela desencadeado, a concentração das chuvas que favorece o descar- nar das rochas, o longo passado agrário e pastoril que degradou os arvoredos, fa- zem-na aparecer por toda a parte, quer como pano de fundo montanhoso, quer co- mo elemento do solo que as culturas e a vegetação, esparsa e aberta, não chegam a ocultar”.22 22 Orlando Ribeiro, Mediterrâneo Como já dissemos anteriormente, o rio, apesar da sua calma aparente, sobretudo no Ambiente e Tradição, Lisboa, Fun- Verão, está sujeito a movimentos fortíssimos das águas. O próprio vale foi modifica- dação Calouste Gulbenkian, 1987, do. Como diz Mariano Feio: 2ª ed. 23 M. Feio, 1947, p. 9-10, in João A partir da confluência do Terges (2,5 Km a montante Carlos Garcia, op. cit. p. 36 do Pulo do Lobo) faz-se sentir intensamente o apelo da 24 Joaquim Ferreira Boiça, e Maria queda do Pulo do Lobo. O rio aumenta de velocidade, de Fátima Rombouts Barros, As revigora de poder erosivo e começa a cavar novo vale Terras, As Serras, Os Rios, Memó- no fundo do primitivo leito. Esta acção acentua-se até rias Paroquiais de 1758 do Con- ao sítio denominado Pulo do Lobo (...) onde brusca- celho de Mértola, Mértola, Cam- mente o rio se precipita de uma altura de 13,5 metros, po Arqueológico de Mértola, abandonando o primitivo leito, para correr num canhão 1995, p. 73 de paredes verticais, com cerca de 20m de altura e pou- co mais de largura (...) Para jusante do Pulo do Lobo, o vale primitivo, que o rio abandonou, continua, a princí- pio perfeitamente conservado, depois representado por uma rechã pouco nítida que se rebaixa a pouco e pou- co mas pode seguir-se até 29 Km da foz (Guerreiros do Rio), onde se submerge.23 E acrescenta ainda a propósito da corredoura que se segue ao Pulo do Lobo (Fig. 3 e 4): O canhão que o vale inferior forma logo à saída do Pu- lo do Lobo mantém-se com toda a perfeição, apertado e com as paredes abruptas, quase verticais, onde aqui e além se vêem restos de marmitas, até pouco antes do Porto Largo (...) O rio tem, então um vale em V mui- to jovem. (Quanto mais caminhamos para jusante, mais “velho” é o vale inferior, isto é, está há mais tempo ex- posto à acção da erosão, formou-se há mais tempo(...) Não nos parece ousado supor que se trate de um abai- xamento relativo do nível do mar que desprendeu uma vaga de erosão regressiva, isto é, um novo ciclo de ero- são. 1.5. A POLUIÇÃO: VELHO E NOVO PROBLEMA A excelência das águas de Mértola era realçada nas Memórias Paroquiais de 1758: 11°. Se tem alguma virtude particular as suas agoas? De experiência própria sey que a agoa deste rio tem a virtude dos banhos das Alcarias de Lixboa, cura os affectos hipocondriacos, humedece muito as entranhas. E athe os gados que della bebem, posto que sam raros os que se veem muito gordos, todos em suas carnes sam mais gostozos que os outros.24
  18. 18. 19 O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA A poluição é um problema antigo em Mértola que existe, de formas diferentes, desde o século XIX. O problema principal era o despejo das águas da Mina de S. Domin- gos. Esta empresa, que se comportou, desde o início, como se estivesse numa colónia, fazia frequentes despejos, sobretudo no Inverno, quando havia cheias, como se pode ler nesta notícia de um periódico local. OS PESCADORES DE MÉRTOLA Uma reclamação justa No pretérito domingo foi o Sr. administrador deste con- celho procurado por uma grande quantidade de pesca- dores desta villa, que lhe foram pedir a sua interferen- cia num assunto verdadeiramente importante para o que pedem prontas e imediatas providencias. Disseram os reclamantes que a Empreza da Mina de S. Domingos, ao contrario do que está combinado man- dou despejar as aguas da Mina, já por trez vezes, duran- te a melhor época das pescarias, que é a presente, tendo este despejo sido feito - o primeiro em fins de Feverei- ro, e os dois ultimos em Março; mas o que mais prejui- zo causou foi o que fez em 26 de março. Disseram mais que estava combinado, que as aguas da Mina podiam ser vasadas em outubro, novembro e dezembro, época que não faria mal algum ao peixe, quando estes trez me- zes fossem invernosos, pois que, quando eles forem se- cos não convém que esses despejos se façam alem de 15 de novembro. Os despejos das águas feitos fora da épo- ca apontada trazem grande prejuizo à sua classe, que foi o que agora sucedeu, pois ficaram sem peixe e com as redes completamente queimadas. Por todas estas ra- zões pedem ao Sr. Administrador a sua valiosa interfe- rencia no assunto, porque a Empreza da Mina de S. Do- mingos tem alegado que a agua que mata o peixe não é 25 O Futuro de Mértola, n.º 17, 3 de daquela mina, mas sim a que vem do Malagão (...)25 Abril de 1917, Desde os finais da década de 70 que se vem sentindo o problema da poluição. Já não se trata da poluição química das Minas (embora possa eventualmente haver proble- mas com as Minas de Neves Corvo, na ribeira de Oeiras) mas a poluição bacteriológi- ca. As cianobactérias estão presentes no Guadiana, produto da poluição, cuja origem tem fontes diversificadas, como seja as inúmeras explorações porcinas, em Portugal e em Espanha (Almendralejo, por exemplo) e os esgotos urbanos com deficiente tra- tamento (Mérida, Badajoz e até Mértola). A agricultura intensiva, sobretudo a que se relaciona com o plano de rega da Extremadura tem contribuído profundamente também para a eutrofização das águas, que se apresentam, sobretudo na estação seca com um aspecto esverdeado, tendo até havido pragas como a azola, que transformou o rio num manto verde. Devido às marés estas águas poluídas demoram a escoar-se no mar e o rio apenas se limpa quando vêm novas cheias. Os dados oficiais confir- mam a poluição do Guadiana (quadro 1). Esta situação tem provocado o desaparecimento de espécies piscícolas, como o so- lho, e a rarefacção de outras como o sável. Continua o muge que é o mais resistente, mas a sua pesca é frequentemente proibida, o que tem dado origem a alguma confli- tualidade entre os pescadores (quase sempre apoiados pela Câmara Municipal) e as autoridades sanitárias (ver anexo 1) acusadas de falta de compreensão pela situação social. Uma das consequências é a pesca ilegal, por parte de alguns pescadores e ou- tra é a permanência de vários meses do ano no desemprego. Esta situação é “resolvi- da” com subsídios de desemprego ou com o recurso aos POC (programas de ocupa- ção temporária). Em anos de seca os pescadores já têm sido levados para albufeiras da região, para extraírem o excesso de peixes destas, dado a elevada carga de matéria
  19. 19. O RIO GUADIANA NO CONCELHO DE MÉRTOLA 20 orgânica. Outros pescadores ainda, procuram outra profissão, como pedreiro, ou a emigração temporária (Suíça, sobretudo). A situação social só não é mais agravada, porque a média das idades é já bastante alta, estando alguns destes pescadores em situação de reforma, não tendo, por isso, os filhos a seu cargo. A poluição nota-se também através de outras espécies animais. Em 1999 foram encontradas mortas, várias dezenas de cegonhas em Mértola e no Pomarão, junto ao rio. O quadro 1 mostra os níveis de poluição atingidos. Parâmetro OXIDA- TEM- CONDU- AZOTO OXIGÉNIO CLAS- FOSFA- NITRA- COLIFOR. COLIFOR. BILI- PERA- SST pH TIVIDA- AMO- DISSOLVI- CBO5 CQO SIFICA- Estação TOS TOS TOTAIS FECAIS DADE TURA DE NIACAL DO ÇÃO Ardila 11.9 28 44.0 9.0 422 0.19 4.05 0.16 68 13.4 56.3 702900 844 D Caia 1.8 24 7.7 8.4 173 0.18 4.09 0.32 26 5.9 24.0 14200 194 C Pulo do Lobo 6.0 27 35.8 8.8 549 0.20 8.65 0.17 84 4.8 21.1 76600 522 C Rocha da Nora 5.6 28 52.4 8.5 520 0.21 8.82 0.28 74 5.0 20.4 71700 589 D QUADRO 1 A SEM POLUIÇÃO Critério Qualitativo de classifica- B FRACAMENTE POLUÍDO ção da água (1998) C POLUÍDO Retirado (e simplificado) da página D MUITO POLUÍDO da Direcção Regional do Ambiente E EXTREMAMENTE POLUÍDO25 na Internet. Classe Nível de Qualidade A - Sem poluição Águas consideradas como isentas de poluição, aptas a satisfazer potencialmente as utilizações mais exigentes em termos de qualidade B - Fracamente poluído Águas com qualidade ligeiramente inferior à classe A, mas podendo também satisfazer potencialmente todas as utilizações Águas com qualidade “aceitável”, suficiente para irrigação, para usos industriais e produção de água potável após tratamento ri- C - Poluído goroso. Permite a existência de vida piscícola (espécies menos exigentes) mas com reprodução aleatória; apta para recreio sem contacto directo Águas com qualidade “medíocre”, apenas potencialmente aptas para irrigação, arrefecimento e navegação. A vida piscícola pode D - Muito poluído subsistir, mas de forma aleatória Águas ultrapassando o valor máximo da classe D para um ou mais parâmetros. São consideradas como inadequadas para a maio- E - Extremamente poluído ria dos usos e podem ser uma ameaça para a saúde pública e ambiental FOTO - (LP)
  20. 20. 21 MÉRTOLA E O GUADIANA
  21. 21. MÉRTOLA E O GUADIANA 22 II MÉRTOLA E O GUADIANA
  22. 22. 23 MÉRTOLA E O GUADIANA 2.1. ENTRE O PASSADO E O PRESENTE Os Rios de Espanha Choram de Tristeza Os rios de Espanha choram de tristeza em fluido pranto pela sede de sangue que não foi saciada. Chorou sua pena o Guadalaviar com lágrimas correntes incessantes. Guadalquivir seu irmão chorou por não poder saciar a sede das sanguessugas que grasnaram. O Jucar esteve a ponto de secar quando se encolerizou pelo dano que os ruivos causavam por toda a parte. Gemeu o Guadiana em seu Ocidente cheio o saco lacrimal de copioso pranto. Os dois rios da Fronteira Superior, o Tejo e o Ebro, queixavam-se ambos e a própria fronteira se queixava de sede encadeada de tristeza embora tivesse a água dos rios entre a boca e as fauces. 1 Abú Aláçane Hazime ibne Mo- ALCARTAJANI1 hamede Alcartajani. Nascido em Cartagena, pertence à geração dos exilados. Morre em Tunes em 23 A historicidade está presente na paisagem e em particular no urbanismo2. Sem pre- de Novembro de 1285. Citado por tendermos fazer uma resenha histórica, convém referir que Mértola é uma povoação António Borges Coelho (org. de), que tem origens pré-romanas, ainda mal conhecidas e certamente relacionada com o Portugal na Espanha Árabe, vol. IV, transporte de mercadorias, assumindo relevante importância os produtos resultantes Lisboa, Seara Nova, 1975, p. 393 da mineração da área ou região considerada hoje como o Baixo Alentejo; a mina de 2 A investigação científica dirigi- S. Domingos foi efectivamente explorada, pelo menos na época romana. da pela equipa de Cláudio Torres É reconhecida, durante o império romano como cidade e até cunha moeda. Os vestí- desde a segunda metade da década gios materiais da época romana mantêm-se aqui e noutros lugares, afora aqueles que de setenta foi fundamental para as se perderam em tempos mais recentes ou mais antigos. Uns porque as civilizações, ou ideias aqui expostas. melhor as culturas, tudo fizeram para que eles desaparecessem, outros porque a incú- ria, uma atitude que se insere também numa cultura, apagou evidências do passado, mesmo em épocas mais recentes. Do cripto-pórtico inserido na zona palatina às está- tuas, lucernas e moedas romanas são inúmeros os testemunhos do período romano. A época paleo-cristã, a que alguns chamam visigótica está patente na basílica a que sucederia a igreja de Nossa Senhora do Carmo e os respectivos enterramentos com as suas estelas, umas em latim, outras até em grego, o que mostra a continuidade de uma civilização mediterrânea que já vem de épocas pré-romanas. Também a influên- cia mediterrânea no séc.VI se fez sentir como demonstram os mosaicos encontrados na zona palatina. O cristianismo teria também assumido formas heterodoxas expri- mindo-se no rito monofisita. A civilização mediterrânea continua sob a forma islâmica, reocupando os mesmos es- paços, por vezes sobrepondo-se, como se pode ver através das habitações islâmicas sobrepostas à zona palatina romana, casas com um pátio central, intimistas, corres- pondentes a uma família extensa, mas em todo o caso urbanas, como o demonstram as fossas e as canalizações das águas. A muralha da antiga cidade é, no essencial islâ- mica, com uma couraça que a protege do inimigo, que pode vir do rio e que lhe per- mite acesso à água, mas que uma certa memória escrita e oral ainda continua a cha- mar “pontes romanas”, como se essa civilização fosse a única matriz (Fig. 12). A actual igreja matriz provém de uma antiga mesquita (Fig. 44), cuja planta se man- tém, assim como o mirhab e algumas colunas (aliás reaproveitadas). Da época islâ- mica há também uma literatura poética, política e religiosa em língua árabe e inúme-
  23. 23. MÉRTOLA E O GUADIANA 24 ros objectos, principalmente de cerâmica que revelam antigas vias de circulação para a Andaluzia, o Magrebe ou até para Meca. Continuando a tradição mediterrânea, os centros civilizacionais para Mértola são Córdova, Sevilha e Badajoz, uma ligação es- pecial com o Norte de África, particularmente visível nas invasões dos almorávidas e dos almóadas, além de Meca (esta sob o ponto de vista essencialmente religioso). É nesta época (1144) que estala em Mértola uma revolta, liderada por Ibn Caci, que se proclama mahadi e chefia a seita sufi dos muridines, e que alastra a Évora, Silves e a Niebla e por grande parte do Andaluz. No período almóada Mértola é amuralhada de novo e grande parte da cerâmica islâmica encontrada é também desta época. A Reconquista cristã (1238) terá tido um efeito devastador em termos civilizacionais, aliado a um choque cultural, embora com episódios em que se fazem alianças entre cristãos e muçulmanos. O castelo (Fig. 44), reconstruído pela ordem de Santiago, do- mina e são arrasadas construções próximas. Os 18 esqueletos de guerreiros, provavel- mente de origem berbere encontrados no cripto-pórtico são um exemplo dessa des- truição. Impõe-se uma nova religião e reprime-se a antiga, à qual estava associada uma moral e uma lei, mesmo que não fosse a mais ortodoxa, e até os cristãos moçára- bes se vêem obrigados a respeitar os princípios católicos romanos. Ainda hoje o bra- são de Mértola mostra um Santiago triunfante, a cavalo e brandindo uma espada. O corte com a civilização islâmica, nomeadamente com o Norte de África terá leva- do à diminuição das ligações com o exterior, o estabelecimento de uma fronteira com Castela terá ainda acentuado essa decadência. Regride o cosmopolitismo. Há dúvidas sobre o impacto dos descobrimentos, por falta de estudos suficientes. É provável que as relações comerciais se tenham animado. Duarte D’Armas, no sécu- lo XVI, quando desenha as fortificações de Mértola, mostra caravelas no Guadiana (Fig. 21). Daqui até aos finais do século XIX ainda há um grande hiato a ser preenchido pe- la investigação, embora já tenham sido efectuados alguns estudos que demonstram a importância de Mértola no que respeita sobretudo ao transporte de cereais e às su- as crises cíclicas.3 3 Cf Rui Santos, O Socorro aos La- vradores de Mértola em 1792, Mér- tola, Câmara Municipal de Mér- 2.2. A TOPONÍMIA tola, 1987 Albert SILBERT, Le Portugal Méditerranéen à la fin de l’Ancien Régime, Lisboa, I.N.I.C., Também a toponímia nos revela aspectos de uma cultura. Tudo é nomeado e geral- 1978, 3 vols mente de uma forma concreta: 4 Maurice Halbwachs, La Mémoire Collective, Paris, P.U.F., 1968 p.163 (...) cada aspecto, cada pormenor desse lugar tem ele próprio um sentido que não é entendido senão pelos membros do grupo, porque todos as partes do espaço que ele ocupa correspondem tanto a aspectos diferen- tes da estrutura e da vida da sua sociedade, como ao que nela há de mais estável.4 A maioria dos topónimos são antigos e torna-se difícil explicar o significado de alguns, pois o significante atribuído pode derivar de uma língua que deixou de se utilizar. Re- corde-se que aqui viveram povos com línguas diferentes, como fenícios ou cartagine- ses, árabes e berberes, romanos etc. As línguas sobrepõem-se e por vezes fica apenas o significante, eventualmente “deturpado”, que assim adquire outro significado. Por exemplo, o local conhecido por rio Tamuje é hoje atribuído à existência de uma planta, a tamugeira, mas poderia ter origem num antigo deus oriental que se relaciona com as águas (ver capítulo sobre a religião). Há topónimos que se repetem num dos seus termos, referenciados um a outro mas em contradição. Existe o Pulo do Lobo (que mete respeito e tem uma conotação agressiva e masculina) e há o Pulo da Zorra (raposa, símbolo da manha); assim como há o Barranco do Azeite e mais a Sul o Barranco do Vinagre.
  24. 24. 25 MÉRTOLA E O GUADIANA Ao longo do rio as pedras ou penhascos têm nomes também muito concretos: a Mesa do Rei (Fig. 4), por ser grande (há outra da Rainha), a Rocha da Galé (Fig. 7), que de longe parece um barco, a Rocha dos Grifos (abutre), a Biblioteca (Fig. 15). Os açudes chamam-se Brava, cujo local é um pouco inóspito (Fig. 5), Canais, onde há peque- nas “ilhas” de cascalho que canalizam a água (Fig. 6). Uma pequena praia fluvial cha- ma-se Areia Gorda. Os vaus a sul de Mértola são o Vau da Pedra, o Vau da Vaqueira (permitia a passagem de animais na maré vazia) e o da Bombeira (o significado per- deu-se mas existe uma quinta com o mesmo nome). As curvas do rio podem ter o no- me de Torno: o Torno da Pinta. Alguns cerros são chamados de castelo ou castelos ou outra palavra com o mesmo significado: Alcaçarim (de alcácer, castelo na língua ára- be); também podem chamar-se Penha. Há inúmeros lugares nomeados de porto ou portela, frequentemente em barrancos: seriam lugares por onde passava o gado. Há topónimos com nomes de animais: Barranco do Bufo (mocho grande) e outros de plantas: duas povoações chamadas Álamo, Laranjeiras, Amendoeira, Zambujal, Azinhal. A toponímia assinala intensamente a presença islâmica (provavelmente com raízes mediterrâneas mais antigas) em todo o Vale do Baixo Guadiana: Porto de Alcácer (castelo) e Alfavacas, na ribeira de Oeiras, perto de Mértola, Alcaria (há várias, sig- nifica aldeia) Almoinha Velha (horta velha), Mesquita (uma povoação), Alcoutim, Al- 5 Cf. Carolina Michaëlis de Vascon- caçarim, Odeleite, Almada (a mina) de Ouro. O próprio Guadiana, que já foi Odiana, cellos, Lições de Filologia Portugue- também em parte tem essa etimologia (Anas seria o nome pré-romano)5. sa, Coimbra, 1911/1913 Os nomes de alguns lugares sugerem-nos também a existência de famílias extensas 6 Quase todas as vilas tinham uma em épocas mais remotas: no concelho de Mértola, na margem esquerda há aldeias Rua Direita, em geral a rua princi- com os seguintes nomes: Fernandes, Picoitos, Salgueiros, Costa, Alvares, Morenos, pal. O mesmo se passava no Brasil, Giraldos; na margem direita: Lombardos, Vicentes, Javazes, Besteiros, Crespos, Se- por exemplo, em Ouro Preto, Mi- das. Outros ainda um pouco mais afastados do rio como Brites Gomes, Sapos, Cor- nas Gerais. vos, etc. No concelho de Alcoutim há uma povoação ribeirinha, Guerreiros do Rio, 7 Esta nobilitação do espaço é mui- apelido bastante comum no Algarve (sobretudo no Sudeste). to comum no país. Em Alcoutim a Em Mértola os nomes dos espaços têm sido alterados, sobretudo a partir da segun- actual Casa da Cultura, chama-se da metade do século XIX, reflectindo o espírito positivista dos que quiseram romper Casa do Conde, porque a vila per- com a tradição. Antigamente havia a rua do Forno, porque lá existia um forno, a Rua tenceu a um dos maiores potenta- Direita, porque era directa à Praça6 e que hoje tem o nome de um antigo professor, dos do país até ao século XVII, o mas que toda a gente conhece por Rua do Relógio. Há ruas nobilitadas como a de D. Marquês de Vila Real. Provavel- Sancho II, em homenagem à conquista de Mértola aos mouros e, portanto, à humi- mente poucos saberão que os mar- lhação dos vencidos de quem a população tanto (hoje) se orgulha7. queses raramente visitaram a ter- Os espaços onde viviam os pescadores eram tratados um pouco depreciativamente ra e que o último Marquês de Vila pelos notáveis locais. À parte baixa da vila, onde eles viviam (vivem) chamavam-lhe Real optou por ser leal à monar- o “Bairro Favela”. Pior ainda à parte de Além-Rio, menos urbanizada e com menos quia espanhola, tendo por isso D. pergaminhos: era tratada por alguns como a “Aldeia dos Macacos”. João IV confiscado os seus bens, Actualmente devido ao prestígio que a História já tem em Mértola os mertolenses co- por considerá-lo traidor. meçaram a apreciar mais a sua vila desde que esta começou a ser notícia. Até a desig- 8 Fichas de Caracterização Conce- nação Bairro Favela deixou de ser usada; hoje é o Centro Histórico da Vila Museu. lhia, INE, 1999. Os restantes grá- ficos foram efectuados por nós de acordo com os dados dos Censos 2.3. DO PRESENTE PARA O PASSADO: A DEMOGRAFIA, do I.N.E. INSTRUÇÃO E ACTIVIDADES ECONÓMICAS Actualmente, a população o concelho de Mértola tem uma população residente de 8 880 habitantes (dados de 1997), com uma densidade populacional de 6,9 hab./km2, uma das mais baixas do país (país 108,3; Alentejo 19,1)8. É uma população envelhecida com um índice de envelhecimento de 234,8 % (país 88,5, Alentejo 147,2), uma taxa de crescimento demográfico total de –13,3 %, uma taxa bruta de natalidade também inferior ao país e região: 5,9 %0 (país 11,4; Alen- tejo 9,0).
  25. 25. MÉRTOLA E O GUADIANA 26 A população residente segundo a idade é a seguinte: 65+ anos 2630 25-64 anos 3950 15-24 anos 1180 0-14 anos 1120 GRÁFICO 2 População residente segundo a ida- 0 1000 2000 3000 4000 5000 de (Mértola 1997). E distribui-se pelas seguintes freguesias: GRÁFICO 3 População residente por freguesias (concelho de Mértola 1991). A taxa de analfabetismo ainda é grande: 29,6% (país 11%, Alentejo 21,8%). A maioria das pessoas apenas tem o ensino bási- co como se vê pelo seguinte gráfico: GRÁFICO 4 População residente segundo o ní- vel de instrução em1997 (%).
  26. 26. 27 MÉRTOLA E O GUADIANA A iliteracia ainda será superior (não sabemos a percentagem de analfabetos funcio- nais), no século passado era uma sociedade predominantemente oral, onde raros ti- nham acesso à escrita, como se vê pelo gráfico seguinte: GRÁFICO 5 Analfabetismo (Mértola 1890). Tal como no resto do país a tendência, no que respeita aos sectores de actividade é para o aumento do terciário. Segundo o censo de 1991 a população activa estava as- sim distribuída: GRÁFICO 6 Sectores de actividade (Mértola 1991). Cerca de cem anos a estrutura era completamente diferente: GRÁFICO 7 Sectores de Actividade (1890). No entanto, a simples observação da população activa pode levar a alguns equívocos, nomeadamente devido à diferença de critérios dos diferentes censos (a noção de in- dústria não é a mesma) e pelo facto de a actividade mineira e a pesca estarem inclu- ídas no sector primário, o que no caso do concelho de Mértola tem uma importância 9 Conceito elaborado por Vitorino fundamental. Haverá também ainda um “terciário de Antigo Regime,”9 em 1890, que Magalhães Godinho, Cf. Vitorino inclui a “criadagem”. Por isso, apresentamos também “as grandes divisões profissio- Magalhães Godinho, Estrutura da nais” segundo o citado censo: Antiga Sociedade Portuguesa.
  27. 27. MÉRTOLA E O GUADIANA 28 improdutivos 842 trab. doméstico 692 vivendo dos seus rendimentos 92 prof. liberais 126 administração pública 91 força pública 679 comércio 587 transportes 675 indústria 3935 extracção de materiais minerais 2777 GRÁFICO 8 pesca e caça 51 População de facto ou presente se- gundo as grandes divisões profis- 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 sionais (1890). De salientar o peso da população relacionada com a extracção de materiais mine- rais, excepcional no distrito e a indústria que certamente estarão relacionadas com a Mina de São Domingos. De relevar também o número de indivíduos relacionados com pesca e caça, apenas suplantados no distrito pelo concelho de Odemira (onde se efectuavam actividades semelhantes no rio Mira). O sector dos transportes parece ter também alguma importância, o qual incluiria não apenas o transporte pelo rio, mas também por terra (carreteiros, almocreves). Verificámos a evolução demográfica no concelho a partir dos dados dos censos des- de 1878 e construímos o Gráfico 9. De salientar que há um crescimento contínuo até à década de quarenta, com alguma quebra na década entre 1911 e 1921. Mas nos anos cinquenta e sessenta a descida é vertiginosa, à semelhança da tendência do inte- rior do país e particularmente do Alentejo, o que se relaciona com a mecanização da agricultura que assim liberta mão de obra para a indústria em crescimento na Gran- de Lisboa. Mas aqui a queda ainda é mais acentuada pela decadência e encerramen- to da Mina de S. Domingos, o fim dos transportes fluviais que alteram a posição de Mértola no sistema viário. Acrescente-se ainda a exaustão das terras após a célebre Campanha do Trigo dos anos 30, que quase desertificou em termos ambientais este concelho de terras delgadas. Repare-se que a população actual do concelho de Mér- tola é menos de um terço do que era na década de 40 e cerca de metade da existen- te no século passado. Sintomático deste êxodo é a quantidade de pessoas que vivem na Margem Sul do Te- jo, mas também na Margem Norte, como Sacavém. Continuam a defender a sua cul- tura, desde o Coral da Mina de S. Domingos na Margem Sul, à Casa do Alentejo em Lisboa, ou até mesmo, na Casa do Alentejo em Toronto. 35000 30000 25000 20000 15000 10000 5000 0 GRÁFICO 9 Evolução da população residente 1878 1890 1900 1911 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1981 1991 1997 (concelho de Mértola).

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