POLIDEZ E IMPOLIDEZ:
UM LEVANTAMENTO HISTÓRICO DO SEU ESTUDO

Luana Antero de MELO
Marcelo Augusto Mesquita da COSTA1

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republicado em 1987. O objetivo de sua teoria era proporcionar uma ferramenta auxiliar, de análise
transcultural, das rela...
no discurso e nas consequentes inferências do falante ao considerar o “papel” do outro (interlocutor).
Além disso, o autor...
seguiram complementam a obra de Austin, já que a delimitação entre força e enunciado foi
importantíssima para a constituiç...
A máxima de aprovação é uma das mais comuns e usuais de todas as outras e que menos tem
diferenciações culturais. Frases c...
ser um comportamento polido ou não. Para diferenciar a polidez do senso-comum daquela teórica ele
usa, respectivamente, os...
AUSTIN, J. L. 1962. How to do things with words. Harvard University. Willian James Lectures 1955.
Oxford.
BROWN, P. & LEVI...
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POLIDEZ E IMPOLIDEZ: UM LEVANTAMENTO HISTÓRICO DO SEU ESTUDO Luana Antero de MELO Marcelo Augusto Mesquita da COSTA

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RESUMO: A teoria da polidez tem sido um componente essencial nos estudos sobre a interação social em diversas disciplinas, trazendo luz para as áreas da antropologia, sociologia, psicologia social e linguística. A abrangência de aplicação fez surgir, ao longo das últimas décadas, vários modelos e propostas teóricas diferentes para o estudo desse fenômeno essencial na comunicação humana, tornando relevante um levantamento histórico na evolução dos estudos sobre o tema e sobre o próprio conceito de polidez. Dessa forma, este trabalho tem como objetivo traçar a evolução dos estudos sobre a polidez assim como do seu inverso, a impolidez, menos considerada nos estudos interacionais.

Graduandos do curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e bolsistas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Projeto “Estratégias de (im)polidez em gêneros do domínio pedagógico” e sob orientação da professora doutora Kazue Saito Monteiro de Barros. A pesquisa em que este trabalho se ancora está sendo desenvolvida no âmbito do Núcleo de Estudos da Fala e da Escrita (NELFE), da UFPE, e conta com o auxílio do CNPq.

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POLIDEZ E IMPOLIDEZ: UM LEVANTAMENTO HISTÓRICO DO SEU ESTUDO Luana Antero de MELO Marcelo Augusto Mesquita da COSTA

  1. 1. POLIDEZ E IMPOLIDEZ: UM LEVANTAMENTO HISTÓRICO DO SEU ESTUDO Luana Antero de MELO Marcelo Augusto Mesquita da COSTA1 RESUMO: A teoria da polidez tem sido um componente essencial nos estudos sobre a interação social em diversas disciplinas, trazendo luz para as áreas da antropologia, sociologia, psicologia social e linguística. A abrangência de aplicação fez surgir, ao longo das últimas décadas, vários modelos e propostas teóricas diferentes para o estudo desse fenômeno essencial na comunicação humana, tornando relevante um levantamento histórico na evolução dos estudos sobre o tema e sobre o próprio conceito de polidez. Dessa forma, este trabalho tem como objetivo traçar a evolução dos estudos sobre a polidez assim como do seu inverso, a impolidez, menos considerada nos estudos interacionais. PALAVRAS-CHAVE: Linguística, (im)polidez, face, Máximas ABSTRACT: Politeness theory has been an essential component on social interaction studies in many disciplines, bringing attention to the fields of anthropology, sociology, social psychology and linguistics. The scope of application made arise, during the last decades, many different theoretical models and proposals for the study of this phenomenon which is essential in human communication, making relevant a historical approach on the evolution of studies about the theme and on the concept of politeness itself. Thus, the objective of this work is to trace the development of the studies about politeness as well as its inverse, impoliteness, less considered in the interactional studies. KEY WORDS: Linguistics, (im)politeness, face, Maxims 0. Introdução O foco deste estudo é o desenvolvimento histórico das diversas abordagens da teoria da polidez, iniciadas no final da década de 1970 com a publicação da obra de Brown & Levinson (1978 [1987]) e cuja fundamentação teórica parte de outros trabalhos seminais sobre os atos de fala, como o de Austin (1955), e do Princípio de Cooperação Conversacional de Grice (1957). Este artigo divide-se em cinco partes. As duas primeiras são breves estudos das obras seminais da polidez, ressaltando seus pontos em comum e suas divergências. A terceira parte está dedicada à análise de alguns exemplos tomando por base as Máximas de Polidez de Leech (1983). A penúltima parte é uma confrontação das obras seminais com o seu legado, os estudos mais recentes sobre o tema. Por fim, a última parte apresenta as considerações finais a respeito do estudo da polidez. 1. Polidez: primeiras abordagens Baseados nos estudos sobre os atos de fala de Austin (1955) e no Princípio da Cooperação Conversacional de Grice (1957, 1975, 1981), principalmente, Brown e Levinson lançam sua teoria da polidez em 1978 com a publicação de Politeness: some universals in language use 1, reeditado e 1 Graduandos do curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e bolsistas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Projeto “Estratégias de (im)polidez em gêneros do domínio pedagógico” e sob orientação da professora doutora Kazue Saito Monteiro de Barros. A pesquisa em que este trabalho se ancora está sendo desenvolvida no âmbito do Núcleo de Estudos da Fala e da Escrita (NELFE), da UFPE, e conta com o auxílio do CNPq. 1
  2. 2. republicado em 1987. O objetivo de sua teoria era proporcionar uma ferramenta auxiliar, de análise transcultural, das relações sociais. Elemento central nesta teoria, o conceito de face como a autoimagem pública do interactante foi emprestado de Goffman (1967). Há a face positiva, a qual quer ser bem aceita socialmente, e a face negativa, a qual deseja ter suas ações desimpedidas. Este é um dos componentes da pessoa modelo – espécie de interactante ideal – e pode ser perdida, melhorada ou mantida. A consciência dessa vulnerabilidade em ambas as partes faz com que os participantes cooperem para a sua manutenção, a não ser que um queira, deliberadamente, atingir uma das faces do outro (a positiva ou a negativa) fazendo um Ato de Ameaça de Face (AAF). Além da face, cada pessoa modelo é dotada de racionalidade, a capacidade de enxergar o fim almejado e saber articular os meios para atingi-lo. Sendo assim, a interação passa a ser um jogo no qual os participantes estão constantemente avaliando a sua posição e a do interlocutor para saber se, quando e como devem fazer os AAF. Isso está simplificado num esquema presente no livro (BROWN & LEVINSON, 1987:60), aqui traduzido: Há, no mínimo, quatro faces envolvidas nesse jogo: a face positiva e a face negativa tanto do falante (S – do inglês speaker) quanto do ouvinte (H – do inglês hearer). Cada uma delas é passível de ameaça, que pode ser explícita ou implícita. Ao ameaçar explicitamente, o falante, por exemplo, está deixando sua face mais vulnerável, pois seu ouvinte pode querer retribuir a ameaça. Dessa forma, para amenizar o feito, ele pode lançar mão de ações corretivas, que são estratégias de polidez propriamente ditas. As estratégias de polidez positiva são aquelas que favorecem a face positiva do ouvinte, isto é, mostram que o desejo que ele tem de ser bem aceito pelo interlocutor foi realizado – com um elogio, por exemplo; e as estratégias de polidez negativa são as que favorecem a face negativa do ouvinte, por exemplo, o fato de o falante dar opções ao invés de impor sua vontade ao outro. A escolha da estratégia e a forma como vai ser realizada, se explícita ou implicitamente, está intimamente ligada a três variáveis sociológicas: (i) a distância social entre S e H; (ii) o poder relativo entre S e H; e (iii) o ranking absoluto de imposições da cultura (BROWN & LEVINSON, 1987:64). Essa teoria propõe universais da polidez baseada na afirmação que a consciência mútua das faces é universal, embora seu conteúdo varie de acordo com a cultura, medido pelo ranking absoluto supracitado. Para isso, são analisados dados de três línguas bastante distintas: o inglês, o Tzeltal e o Tamil – línguas aborígenes do México e da Índia, respectivamente. Os dez artigos da obra máxima de Leech 2 exploram as regras gramaticais, a semântica e principalmente a pragmática por diversos focos e tomando diferentes exemplos. A base teórica não é muito diferente da já explorada por Brown & Levinson (1987), contando com autores como Austin (1955) e Grice (1957, 1975, 1981), porém com uma abordagem distinta: Leech não procura acoplar tantos padrões e/ou conceitos aos seus exemplos como Brown & Levinson. A teoria do autor não procura “manipular” a interação com o intuito de explorar determinados comportamentos, mas incentiva o leitor a questionar e a considerar certos elementos (como os princípios especificados a seguir) que são decisivos no desenvolvimento do discurso do falante e do interlocutor. Na verdade, Leech também introduz além do PP (Princípio de Polidez) o IP (Princípio de Ironia) e, mais adiante, também o BP (Banter principle – Princípio de gracejo). Leech escreve que os três princípios – o CP (Princípio da Cooperação) de Grice, o PP (princípio da Polidez) e o IP (Princípio da Ironia) – correlacionam-se na “Retórica Interpessoal”, isto é, dividem um mesmo espaço 2
  3. 3. no discurso e nas consequentes inferências do falante ao considerar o “papel” do outro (interlocutor). Além disso, o autor não nega os custos acoplados a cada uma das ações tomadas na interação tanto para o falante quanto para o interlocutor, independente do princípio utilizado. Vale salientar ainda que o linguista explora algumas máximas de Grice as quais, para ele, não são suficientes para explicar muitas das maneiras que usamos para nos expressar e que são complementadas pelo princípio da polidez (PP). Apesar dos esforços do autor ao acrescentar o domínio da polidez nas interações, nem todas as formas de expressão são atos locucionários e ilocucionários, isso é restringir demais o que podemos fazer com a linguagem. Sobre isso, Araújo (2004:204) afirma: Uma análise restrita ao patamar da produção de frases gramaticais, ao patamar das sentenças com significação e referência, ou restrita aos atos de fala com valor ilocucionário, ainda não deu o passo seguinte, a nosso ver, essencial, em direção ao discurso. As seis máximas de polidez descritas são “um acréscimo” às Máximas Conversacionais de Grice. Se considerarmos os conceitos de polidez positiva e negativa poderíamos ainda fazer a seguinte classificação: Máxima do Tato Polidez Negativa Máxima da Generosidade Polidez Negativa Máxima da Aprovação Polidez Positiva Máxima da Modéstia - Máxima da Concordância Polidez Positiva Máxima da Simpatia Polidez Positiva Como o próprio Leech escreve, as máximas não podem (nem devem) ser consideradas valores absolutos, estáticos; isto é, elas só podem ser consideradas até certo ponto (em determinadas situações de interação). Além disso, o exagero de qualquer uma das máximas pode ter o efeito inverso do esperado (como um custo maior à face do interlocutor ou até mesmo a impolidez) e também devem ser consideradas as variações de cultura para cultura. O Princípio da Ironia (IP) descrito na seqüência não foi explorado pelo autor e muito ainda falta para uma maior sistematização sobre os usos da ironia na interação. O autor ainda considera o “silêncio” como fator determinante na interação podendo ser considerado um ato de impolidez pelo falante (na verdade não-falante) dependendo da situação. Ainda foi preocupação de Leech estudar os performativos e os speech-act verbs. Novamente, é importante destacar que a teoria dos atos de fala é insuficiente em muitos aspectos relativos à interação e por isso não pode ser analisada como base de todo o pensamento linguístico na área do discurso, mas a importância que o autor dá aos usos irônicos na linguagem e da polidez são, sem dúvida, importantes para um maior incentivo aos estudos desses tópicos. 2. Os Atos do Discurso e as Máximas Conversacionais É importante enfatizar o papel da obra de Austin (1955) na constituição dos estudos sobre a interação empreendidos por Leech descritos acima. Esses são voltados para a área da pragmática e eram encarados inicialmente com preconceito e descrédito justamente por estudar algo extremamente variável: os usos da linguagem ordinária, cotidiana, usual. A primeira pergunta dos linguistas mais estruturalistas, ligados mais à forma do que à função, era a seguinte: isso pode ser considerado ciência? Ou apenas aquilo que temos segurança total para afirmar deve ser o objeto de nosso estudo? Apesar dos questionamentos, Austin não desistiu de buscar um maior conhecimento na área e sua obra How to do things with words (1955) é considerada uma das mais importantes bases para o início de uma teoria mais coerente acerca dos usos efetivos da linguagem. A perspectiva do autor vai de encontro a todas as teorias que antes “separavam” língua de mundo, língua de usos, de contexto, de interação propriamente dita. Assim, não é de se impressionar que a obra de Austin seja tão considerada ainda atualmente. É até possível dizer que as obras que 3
  4. 4. seguiram complementam a obra de Austin, já que a delimitação entre força e enunciado foi importantíssima para a constituição de teorias interacionistas. O estudo desse autor se baseia na classificação da maioria dos usos na fala dos atos do discurso ou atos de fala, isto é, através da análise das intenções por trás daquilo que falamos (ato ilocucionário) ou das ações e efeitos que causamos através da fala (ato perlocucionário). Austin acreditava ser possível enumerar uma série de situações usuais, padronizadas, mas que poderiam variar dependendo do contexto. Para ele, falar simplesmente, enunciar (enunciado) não era o suficiente, era preciso analisar o que existia inserido no enunciado, as intenções, os objetivos (força). Através dessa perspectiva Leech também procurou classificar situações atreladas ao fenômeno da polidez advindas de atos ilocucionários. Uma outra participação clara na teoria de Leech, na criação de suas Máximas de Polidez, é a obra de Grice (1957) na qual este explora, entre outros pontos, o Princípio da Cooperação e as Máximas Conversacionais. O nome Máxima faz menção direta à teoria de Grice: o autor acreditava que para existir uma interação efetiva os participantes deveriam seguir uma série de regras para evitar confusões ou incompreensões (Princípio da Cooperação). As máximas de Grice são quatro: Máxima de qualidade, de quantidade, de relevância e de maneira. Segundo o autor, se os interactantes seguissem essas regras, isto é, as máximas, eles se compreenderiam perfeitamente. Porém, o próprio Grice deparou-se com situações em que a quebra de suas regras não só não atrapalhavam o andamento da interação como também criavam efeitos completamente diversos e curiosos. A quebra das regras criadas pelo autor se tornou mais interessante do que propriamente segui-las como se fossem perfeitas. De certa forma Leech complementa as máximas de Grice ampliando o conceito e considerando as ativações de polidez na interação. As Máximas da Polidez e o Princípio da Polidez seguem a mesma linha de pensamento de Grice. As Máximas de Leech são seis, como descritas no quadro acima. 3. As Máximas da Polidez Considere os exemplos abaixo:  Máxima do Tato – ex: “Posso interrompê-lo professor? Se eu pudesse gostaria de esclarecer meu ponto de vista”. Neste exemplo, se a frase fosse traduzida na íntegra teríamos algo como “May I interrupt you, professor?” sendo a partícula “may” por si só, culturalmente falando, uma palavra mais polida do ponto de vista linguístico do que a palavra “can”, por exemplo. Quando traduzimos perdemos um pouco essa ativação pelo simples fato de não haver tradução perfeita ou ideal, mas a aproximação descrita acima, ainda assim tem uma preocupação do falante com o interlocutor e consequentemente com sua reação e atitude em vista da pergunta.  Máxima da Generosidade – ex: “Você, relaxe e me deixe arrumar o quarto. Você é nosso convidado e hóspede”. No segundo exemplo, sobre a máxima de generosidade, novamente acontece uma “aproximação” do exemplo para o português. Em inglês, a frase teria menos a conotação de “ordem” como no português: “You relax and let me get the room tidy”. Na língua japonesa, o aumento do custo para a face do falante (fator sócio-cultural) é muito maior e a frase é repetida várias vezes até o interlocutor aceitar o pedido, fato que a aproxima da Máxima de modéstia.  Máxima da Aprovação – ex: “Eu assisti à sua apresentação e ela estava muito boa. Você fez um ótimo trabalho”. 4
  5. 5. A máxima de aprovação é uma das mais comuns e usuais de todas as outras e que menos tem diferenciações culturais. Frases como “good work”, “nicely done”, entre outras, são muito improváveis de serem confundidas com outras ativações de polidez ou mal entendidas no contexto de interação.  Máxima da Modéstia – ex: “Que idiota que eu sou. Eu fiz o trabalho, mas o esqueci em casa”. Já no exemplo sobre a Máxima da Modéstia o cuidado deve ser um pouco maior: para algumas culturas a maximização de expressões que visam o ataque da própria face é mal visto. Por exemplo, quando os americanos recebem um elogio eles muito dificilmente irão negar até não poderem mais como os japoneses, mas o aceitarão com um simples agradecimento.  Máxima da Concordância – ex: “A: Eu não quero ficar responsável pela organização da festa, eu disse que talvez pudesse ajudar. B: Eu sei, amigo, mas acho que nós resolvemos tudo na outra reunião. Todos devem ajudar.” A máxima da concordância tem relação direta com o Princípio da Cooperação de Grice além de fazer referência à própria polidez positiva e negativa desenvolvida por Brown & Levinson: visa aumentar o acordo entre os falantes e diminuir a discordância, isto é, evitando mal entendidos. Essas ativações de concordância também são extremamente variáveis, tanto em nível de linguagem quanto cultural.  Máxima da Simpatia – ex: “Eu sinto muito pelo seu irmão. Ele era uma pessoa incrível”. A última das máximas, a de simpatia, também visa à aproximação e inclui atos de fala que vão de felicitações a condolências como no exemplo acima. Dessa forma, é possível observar que para Leech as ativações de polidez são dicotômicas, gerais; já pra Brown & Levinson elas são mais variadas e contam com outras variáveis tais como poder, aproximação social etc., isso sem mencionar que são muito mais específicas. É evidente que essas situações são extremamente clichê, porém a teoria de Leech é bastante ampla, diferentemente da de Brown & Levinson (1987) que trabalha com casos bem específicos. A teoria de Leech sobre a polidez e consequentemente suas classificações são bastante dicotômicas. Por exemplo, sobre a primeira, a Máxima do Tato, Leech (1983:104) escreve o seguinte: “Minimiza a expressão de crenças que implica custo ao outro; maximiza a expressão de crenças que implica o benefício do outro”. Isto significa dizer diminuir a imposição e atentar para os interesses do outro como acontece nos exemplos acima. Todas as seis máximas são descritas sobre esse ponto de vista dicotômico. 4. Perspectivas diferentes sobre o fenômeno da polidez Existem três diferenças que merecem ser apontadas entre os dois autores descritos nesse estudo que tem um cunho histórico, mas também comparativo: a manipulação dos resultados de um e a observação do outro; um modelo universal que se contrapõe a um modelo dicotômico; e, finalmente, um modelo mais prático contrastando com um modelo mais teórico. É interessante observar que ao focar os estudos em casos extremamente específicos, os autores Brown & Levinson pecam por manipular de certa forma os resultados e universalizarem situações que dificilmente podem ser encaradas da mesma forma para uma cultura diversa. Porém, o modelo de Leech é extremamente teórico e amplo, dificultando também um olhar mais objetivo sobre o fenômeno da polidez. Modelos dicotômicos como os de Leech também têm uma visão muito limitada sobre os aspectos interacionistas. Partindo dessas observações, os estudiosos mais recentes do fenômeno da polidez passaram a propor novas abordagens quanto ao tema e a complementar os estudos já existentes. Watts (2003), por exemplo, propõe que o estudo teórico da polidez leve em consideração o senso-comum do que vem a 5
  6. 6. ser um comportamento polido ou não. Para diferenciar a polidez do senso-comum daquela teórica ele usa, respectivamente, os termos “polidez de primeira ordem” ou politeness1 e “polidez de segunda ordem” ou politeness2. A grande questão é a complementaridade dessas duas noções, ao contrário das abordagens dicotômicas em voga até então. Percebe-se nessas novas abordagens da polidez uma tentativa de melhor considerar o aspecto interacional das relações, passando a ser feito um estudo não só lingüístico, mas também comportamental dos dados. De acordo com Locher & Watts (2005) e Spencer-Oatey (2005), entre outros, os estudos iniciais, fortemente baseados na noção de face não eram, propriamente, teorias da polidez, mas sim “trabalhos de face” (do inglês facework). Como supracitado este conceito, desenvolvido a partir da expressão losing face (“perder a face”), foi elaborado por Goffman (1967) levando em consideração as características de uma sociedade ocidental e uma aplicação dessa teoria sem nenhuma reformulação para o Oriente é, no mínimo, forçada. Um aspecto comum que todos os críticos mais recentes enfatizam é a relativização da polidez de acordo com os atos ilocucionários, o contexto e, principalmente, a cultura (Spencer-Oatey, 2005:97), sendo este último aspecto o que menos tem sido considerado até o momento, já que não guarda relação nem com a universalidade nem com as máximas da polidez. Autores como EscandellVidal (1998) propõem usar o termo adequação social no lugar de estratégias para dar mais visibilidade a tal aspecto. Ademais, há estudos que relacionam etnocentrismo e polidez nas estratégias de chamamento (como o de Bargiela et al., 2002), vistos como tentativas de incorporação de variáveis culturais. 5. Considerações finais O fenômeno aqui exposto ainda é pouquíssimo estudado e, de certa forma, desconhecido por muitos linguistas. A polidez não se encaixa em padrões e muito menos em regras fundamentadas apenas pela vida social, mas conecta-se a diversas variáveis que tornam o seu estudo único e multifacetado: posição social, cultura, língua/linguagem, entre tantas outras explicadas anteriormente. Dois fatores ainda mais interessantes em empreender uma pesquisa voltada para esta área são a garantia de uma dificuldade desafiadora e um caminho tortuoso para alcançar os resultados esperados. Estes se relacionam a como esse fenômeno auxilia o simples convívio até a busca de melhores resultados e objetivos ligados ao relacionamento social. Ao utilizar nossa língua e, mais especificamente, formas mais eficazes de aproximação e distanciamento sociais através do uso da polidez, conseguimos obter resultados mais eficientes e menores problemas de relacionamento com o(s) outro(s) (impolidez). O caminho aqui descrito de nenhuma maneira busca dizer qual método é o mais eficaz, se é o de Leech ou o de Brown & Levinson, ou ainda os mais atuais como o de Watts. O traçado histórico da polidez aqui teve por objetivo destacar a importância de sua pesquisa para os estudos linguísticos atuais e discutir a criação de um aparato teórico suficientemente capaz de direcionar corretamente o seu estudo. Notas 1 Sem tradução para o português. 2 Principles of Pragmatics, sem tradução para o português. Referências ARAÚJO, I. N. Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem. São Paulo: Parábola, 2004, 284 p. BARGIELA, F.; BOZ, C. et al. Ethonocentrism, politeness and naming strategies. Working papers on the web, vol. 3, Linguistic politeness and context, 2002. Disponível em: < http://extra.shu.ac.uk/wpw/politeness/bargiela.htm>. Acesso em: 11 jun. 2009. 6
  7. 7. AUSTIN, J. L. 1962. How to do things with words. Harvard University. Willian James Lectures 1955. Oxford. BROWN, P. & LEVINSON, S. Politeness: Some Universals in Language Usage. Cambridge: CUP, 1987, 345 p. ESCANDELL-VIDAL, V. Politeness: A Relevant Issue for Relevance Theory. Rivista Alicantina de Estudios Ingleses 11: 45-57, 1998. GOFFMAN, E. Interaction ritual: essays on face-to-face behaviour. New York: Garden City, 1967, 288 p. LEECH, G. N. Principles of Pragmatics. London: Longman, 1983, 250 p. ______. Politeness: Is there an East-West Divide? Journal of Foreign Languages, no. 6, general serial no. 160, November, p. 1-30, 2005. LOCHER, M. A. & WATTS, R. J. Politeness theory and relational work. Journal of Politeness Research 1: p. 9-33, 2005. SPENCER-OATEY, H. (Im)Politeness, face and perceptions of rapport: unpackaging their bases and interrelationships. Journal of Politeness Research 1: p. 95-119, 2005. VILKKI, L. Politeness, face and facework: current issues. SKY Journal of Linguistics, vol. 19, p. 322332, 2006. WATTS, R. J. Politeness. Cambridge: CUP, 2003, 318 p. 7

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