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PRÓLOGO: Sobre a menção "A ser editado"Há vinte anos todos os meus livros vêm anunciando esta obra aos leitores. Pelomenos...
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um conjunto de idéias, de pesquisas, de métodos, de instrumentos de análises,que formam a convicção de uma vida.Que convic...
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Alain peyrefitte e a sociedade de confiança Resumo do livro

  1. 1. Alain Peyrefitte: Prólogo e Introdução de A Sociedade de Confiança
  2. 2. Após mil e um adiamentos, causados por motivos contrários à minha vontade,vai finalmente sair pela Topbooks, com patrocínio do Instituto Liberal do Rio deJaneiro, a obra-prima de Alain Peyrefitte, A Sociedade de Confiança, estudosobre as condições culturais do desenvolvimento econômico, cuja importânciasó se compara à de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de MaxWeber, do qual constitui, de certo modo, um prolongamento e uma resposta.Peyrefitte, que animadamente se dispunha a vir ao Brasil para o lançamentodesta tradução feita por sua amiga Cylene Bittencourt, já não poderá estarpresente: faleceu em 27 de novembro, aos 74 anos, vítima de um câncer. Doisdias antes ainda fôra pessoalmente entregar ao editor os últimos capítulos dolivro em que vinha trabalhando, a parte final do vasto depoimento C´Était deGaulle, obra indispensável à compreensão da história da França neste século,que Cylene já está traduzindo. Diretor do Figaro, membro da AcadémieFrançaise, amigo, confidente e várias vezes ministro de Charles de Gaulle,celebrado pelo Institut de France e reconhecido como um dos maiores cientistassociais do nosso tempo por críticos tão diferentes quanto Alain Touraine ePierre Chaunu, Peyrefitte escondia por baixo de uma encantadora modéstia atremenda força de sua autoridade intelectual e política. Não hesito em dizer quefoi o último grande homem político do século XX. Não veremos outro como eletão cedo.Agradeço, nesta oportunidade, a todos os que me ajudaram na edição de ASociedade de Confiança: ao embaixador José Osvaldo de Meira Penna, que meapresentou este livro e seu autor; à tradutora Cylene Bittencourt; a CarlosNougué, incansável e meticuloso revisor; a José Mário Pereira, editor; esobretudo ao Instituto Liberal do Rio de Janeiro e a seu presidente, ArthurChagas Diniz, que tanto confiaram neste empreendimento. — O. de C. A Sociedade de Confiança Ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento
  3. 3. PRÓLOGO: Sobre a menção "A ser editado"Há vinte anos todos os meus livros vêm anunciando esta obra aos leitores. Pelomenos aos leitores mais atentos, aqueles que notavam, no final "Do mesmoautor", a menção "A ser editado":A Sociedade de Confiança.Isso significa que carreguei esse rebento durante muito tempo. Muito maistempo mesmo do que parecia, já que o concebera bem antes — ao deixar a ruad’Ulm e a ENA, quando ainda esperava conjugar esses dois aprendizados econtinuar pesquisas, enquanto me iniciava na diplomacia. Minha teses paratirar o diploma de estudos superiores fizera com que eu explorasse o"sentimento de confiança". Em 1948, apresentei na Sorbonne um, ou melhordois temas de tese (principal e complementar: Fenomenologia da confiança; Féreligiosa e confiança). Em Le Mal français, a conselho de meus professoresRené Le Senne e André Siegfried, expus a experiência de um ano mergulhadonuma "sociedade de desconfiança", tal como era a Córsega profunda. Desdeentão acumulei leituras sem cessar, e mais ainda observações, no decorrer deviagens através dos cinco continentes, de experiências vividas como políticoeleito — regional, nacional e europeu — ou como ministro e, acima de tudo,talvez, de incontáveis encontros com esses homens que os pensadores daeconomia negligenciaram e que me pareciam personagens-chave: os"empreendedores".A maioria dos meus livros não passaram de bastardos nascidos do encontrodessa idéia com diversas ocasiões. O primeiro foi Le Mythe de Pénélope (1949),réplica pretensiosa do Mythe de Sisyphe de Camus, cujo estoicismo no coraçãodo absurdo parecia-me estéril. Faut-il partager l’Algérie? (1961 mostrava aimpossibilidade de manter, no mesmo solo, na proporção de dez para um, semum reagrupamento prévio, uma sociedade subdesenvolvida tomada peloespírito de rebelião, e uma sociedade moderna crispada em seusprivilégios. Quand la Chine s’eveillera (1973) descrevia uma população arcaica,arfante — uma "sociedade de desconfiança" dopada pelo entusiasmorevolucionário. Meus outros livros sobre a China prolongaram essa exploração.Assim, através da narrativa detalhada de uma embaixada britânica junto aoimperador da China, apresentei um "choque de culturas" entre uma nação emrápido desenvolvimento e O Império imóvel (1989).
  4. 4. Le Mal français (1976) tinha-se aproximado mais do objeto desejado. Esboceios traços essenciais desse objeto: o papel decisivo do fator mental nodesenvolvimento econômico, a diferença de êxito entre sociedades protestantese sociedades católicas, ou melhor, entre "sociedades de confiança" e "sociedadesde desconfiança". Coloquei nesse livro muito da minha experiência pessoal paramostrar concretamente a extensão dos nosso bloqueios mentais, e uma poucode história para mostrar que vêm de muito longe. Mas o essencial limitava-se aocaso francês.O ano de 1981 mostrou que o acolhimento que se dá a uma obra é apenas umaminúscula ondulação nas águas profundas de uma cultura; a ilusão estatalseduziu os franceses e provocou as devastações previsíveis. A reflexão tronou-seum combate. Participei dele três vezes: Quand la rose se fanera (1982),Encoreun effort, Monsieur le Président (1985), La France en désarroi (1992). Foramcapítulos acrescentados ao Mal français.Nesse meio tempo, o marxismo desmoronava na Europa e recuava tanto naAmérica quanto na África; o comunismo chinês, por uma reviravolta ideológica,adotava a economia de mercado. Enquanto isso, uma longa crise econômicalevou os ocidentais a se interrogarem sobre a irreversibilidade do progressomaterial. Paradoxalmente, a sociedade liberal, com a qual sonhavam tantoshabitantes dos países socialistas, começava a duvidar dela mesma.Era hora de voltar às fontes do desenvolvimento, de discutir as diversasconcepções que dele foram feitas, de determinar o que é permanência e o que écircunstancial. Coloquei-me em campo aberto em 1948, na forma de uma teseque defendi na Sorbonne em fevereiro de 1994.Durante esses quarenta e seis anos nunca parei de estudar esse assunto, ou pelomenos de refletir sobre ele, e de reunir material a respeito. Retomando-oquando a alternância democrática deu-me alguns momentos de folga, preferiesperar mais ainda para abortar sua defesa, até ter passado dos 65 anos, isto é,até estar impedido de assumir uma cadeira na Universidade. Esse ato gratuitosimplesmente visava — dentro do respeito pelas regras da Universidade,aceitando estritamente o jogo — "defender uma tese" no sentido exato daexpressão: submeter minhas pesquisas a especialistas internacionalmentereconhecidos nas disciplinas nas quais me havia aventurado, para queemitissem um julgamento sobre sua validade (ou sua invalidade), isto é, sobre
  5. 5. um conjunto de idéias, de pesquisas, de métodos, de instrumentos de análises,que formam a convicção de uma vida.Que convicção? A de que o elo social mais forte e mais fecundo é aquele que tempor base a confiança recíproca — entre um homem e uma mulher, entre os paise seus filhos, entre o chefe os homens que ele conduz, entre cidadãos de umamesma pátria, entre o doente e seu médico, entre os alunos e o professor, entreum prestamista e um prestatário, entre o indivíduo empreendedor e seuscomanditários — enquanto que, inversamente, a desconfiança esteriliza.Decerto é temerário propor uma chave para a interpretação de fenômenos tãouniversais e essenciais como o desenvolvimento e o subdesenvolvimento; e maistemerário ainda arriscar-se multiplicando as abordagens que as diversasdisciplinas oferecem, forçando mesmo suas fronteiras.Foi o conhecimento do Terceiro Mundo que me convenceu de que o Capital e oTrabalho — considerados pelos teóricos do liberalismo tradicional, assim comopelos teóricos do socialismo, como os fatores do desenvolvimento econômico —eram na realidade fatores secundários; e que o fator principal, que com umsinal de mais ou com um sinal de menos afetava esses dois fatores clássicos, eraum terceiro fator, que há vinte anos chamei de "terceiro fator imaterial", emoutras palavras, o fator cultural.Aquilo que eu havia explorado, adorando o estilo do ensaio, em meus diversoslivros sobre a França ou a China e em inúmeros artigos, gostaria, como secostuma dizer, de aqui "teorizar". Mas como provar a existência desse terceirofator imaterial?Um terreno pareceu-me fecundo nesse sentido, o da história econômica doOcidente no decorrer destes quatro últimos séculos. É um terreno firme, sobre oqual hoje dispomos de grande número de informações incontestáveis. Foi defato nesse período, e em nenhum outro, em algumas sociedades da Europa,e não em outras, que nasceu o desenvolvimento.Qual foi o fator de desencadeamento, o primum movens, que fez passarem — naHolanda, depois na Inglaterra, depois na Europa do Norte, depois em toda aEuropa ocidental — sociedade tradicionais, sempre ameaçadas pelas epidemias,pela fome e por choque sangrentos, ao estado de sociedades desenvolvidas?
  6. 6. Quanto mais se estuda as origens da Revolução econômica, mais se duvida deque trata-se de uma ruptura brusca, resultante de uma causa única e que podeser datada com precisão. E os historiadores estão sempre recuando oaparecimento do fenômeno. Sem dúvida é nos três ou quatro últimos século queé preciso procurar a prova de toda "teorização" do desenvolvimento.Examinando a cristandade ocidental no século XVI, somos levados a concluirque havia uma quase-igualdade de chances, com um evidente avanço no Sul.Nada poderia induzir a prever, na época, o impulso das nações que aderirão auma das Reformas protestantes, nem o declínio relativo, ou até absoluto, dasnações que permanecerão "romanas".Ora, a partir do final do século XVI, a cristandade ocidental torna-se o teatro deuma distorção econômica. A Europa nórdica substituir a Europa latina comofoco de inovação e de modernidade.Contudo, é redutivo demais, para não dizer simplista demais, afirmar que aReforma protestante seria como uma galinha dos ovos de ouro, e que deteria emsi mesma o segredo do desenvolvimento econômico, social, político e cultural. Adivisão entre uma Europa "romana", que entra em declínio econômico, e umaEuropa das Reformas protestantes que toma impulso, reflete menos umadeterminação do econômico pelo religioso — ou do religioso pelo econômico —do que a expressão de uma "afinidade eletiva" entre um comportamento socio-econômico espontâneo e uma escolha religiosa. Pelo menos é essa a minhaconclusão.A sociedade de desconfiança é uma sociedade temerosa,ganha-perde: umasociedade na qual a vida em comum é um jogo cujo resultado é nulo, ou aténegativo ("se tu ganhas eu perco"); sociedade propícia à luta de classes, ao mal-viver nacional e internacional, à inveja social, ao fechamento, à agressividade davigilância mútua. A sociedade de confiança é uma sociedade emexpansão, ganha-ganha ("se tu ganhas, eu ganho"); sociedade de solidariedade,de projeto comum, de abertura, de intercâmbio, de comunicação. Naturalmente,nenhuma sociedade é 100% de confiança ou de desconfiança. Do mesmo modoque uma mulher nunca é 100% feminina, nem um homem 100% masculino:este comporta sempre uma parte de feminilidade, aquela sempre um pouco devirilidade. O que dá o tom, é o elemento dominante.Quando se terminará de explorar esse enigmático e gigantes fenômeno decivilização? Um estudo das proezas econômicas que balizaram a história serviu
  7. 7. de tema para um curso que dei como professor convidado (Du "miracle" enéconimie, Leçons au Collége de France, 1995).Trata-se de ilustrações (centradas nos "milagres" holandês, inglês, americano ejaponês) das pesquisas apresentadas na tese — aqui reescrita visando o públicoculto.Terá este longo percurso de reflexão encontrado aqui seu ponto final? Desejariaque me fosse dado tempo para levar mais longe minhas investigações nestadisciplina ainda balbuciante que é aetologia humana comparada, ciência doscomportamentos, costumes, mentalidades dos diferentes grupos humanos.Em todo caso, que essa "sociedade de confiança" possa um dia estender-se atodas as sociedades e lhes trazer, na diversidade das suas personificações, naunidade da sua inspiração, os benefícios morais e materiais por ela prodigadosaos raríssimos povos que souberam realizar essa revolução cultural, a maior dahistória! Quando a estes, possam eles não se mostrarem nem filhos ingratosnem filhos pródigos, e compreender melhor o porquê do seu sucesso, não parareservar para si o privilégio, mas para dele guardar viva a força exemplar... INTRODUÇÃOUm único e mesmo enigmaOs países "subdesenvolvidos" representam uma esmagadora maioria geográficae demográfica. De nada adianta chamá-los pudicamente de "países do Sul","países em vias de desenvolvimento", "países de crescimento lento", é inútil.Não se muda uma sociedade por meio de palavras. Às vezes se diz que essespaíses são destinados a ter uma grande futuro; mas correm o risco de conservá-lo durante muito tempo à sua frente, segundo as palavras cruéis de Paul Valéry,enquanto a encantação verbal fizer o papel de medicina, e as piedosas mentirasideológicas o de esconder a miséria.O "subdesenvolvimento" é freqüente ainda hoje; e raro o "desenvolvimento".Considerados separadamente, esses dois fenômenos são enigmas. Ou melhor,
  8. 8. um único e mesmo enigma: obviamente procedem de uma origem comum,como as saídas postas de um mesmo labirinto.De bom grado esquecemos que o subdesenvolvimento — desnutrição, doença,violência endêmicas — constitui, desde que a humanidade surgiu na terra, seulote comum, seu regime usual. O desenvolvimento é sempre a exceção. E aindaessa exceção é precária, veja-se os bolsões de miséria e exclusão que ressurgemno próprio seio das sociedades ditas "adiantadas".Reconheçamos que o subdesenvolvimento e o desenvolvimento não formam opassado e o futuro de uma sociedade, como os dois estágios sucessivos de umamaturação irreversível; mas um bifurcação, diante da qual os grupos humanoshesitam, sem que apareçam claramente os aceleradores do seu impulso ou osmotivos da sua resignação.Podemos descrever diferentes roteiros, definir mecanismos, fixar critérios dodesenvolvimento, momentos iniciais de crescimento: não compreenderemos oque acontece enquanto não entendermos por que uma sociedade avança, porque outra permanece imóvel, ou se imobiliza. Não são os mesmos homens, efreqüentemente as mesmas condições geofísicas, que sofrem — ou provocam —destinos opostos? A história do homem é semeada de acidentes, acasos,encontros. Mas é a ele que cabe enfrentar ou não a fatalidade. Ascensão edeclínio só são irresistíveis se ele não resistir a uma ou ao outro.Quando aparece o "desenvolvimento"No alvorecer dos tempos modernos aparece o "desenvolvimento", cercado deameaças, emergindo penosamente num mundo amaldiçoado desde temposimemoriais pela fome, pelas endemias, por confrontos sangrentos. Algumassociedades "decolam", enquanto que a maioria continua a se arrastar rente àterra, quando não retrocedem.Entre a descoberta da América em 1492 e a divisão da África por volta de 1892, acondição humana nos países mais favorecidos mudou mais em quatro séculosdo que nos três ou quatro milhões de anos precedentes. Nenhuma evolução tãoradical tinha ocorrido em tão pouco tempo. A "revolução neolítica" haviatransformado nômades habituados à predação da flora e da fauna naturais emlavradores sedentários. Mas ela estendeu-se por vários milênios; no século XVI,
  9. 9. quando apareceram os primeiros pródromos da revolução do desenvolvimento,as populações da metade das terras emersas não tinham ainda realizadoa sua revolução neolítica. Nos séculos seguintes, essas duas revoluçõescolidiram violentamente.Os últimos cem anos forçaram ainda mais a velocidade. Um homem que hojefesteja seu centenário viu precipitar-se — fosse através de crises e guerras — umfenômeno designado por nomes variados: "o progresso", "a decolagem", "ocrescimento", "a expansão", "a aceleração da história", "a modernidade", "aera pós-industrial", "a globalização".Esses fenômenos de modernização rápida nasceram na Europa ocidental,acentuaram-se em sua parte setentrional, estendendo-se depois pela América doNorte; mas só se difundiram bem mais tarde, e muito lentamente, na Europa doSul, na América Latina e nos outros continentes; enquanto que o Japão, no finalno século XIX, depois os "pequenos" dragões — Coréia do Sul, Taiwan, HongKong, Macau, Singapura — no final do século XX juntavam-se a passos largosaos Estados que haviam monopolizado a "modernidade". Hoje, começam asurgir o "grande dragão" chinês, a Indonésia, a Malásia, a Tailândia. Os paísesdo desenvolvimento permaneceram durante muito tempo num estritoisolamento; e ainda estão circunscritos.Como um sismógrafo, nossa visão do mundo registra — não sem atraso — essasperturbações econômicas. Cada tremor acarreta transformações da nossapsicologia — de nossas mentalidades, de nossos comportamentos individuais,de nossos costumes, de nossas crenças, de nossos preconceitos, da nossacultura.Mas não seria o caso de admitir a idéias de que essas mudanças econômicasdevem elas mesmas alguma coisa, talvez até o essencial, a esses fatorespsíquicos antes de transformá-los por sua vez?Explicações que se invertemA Inglaterra industrializou-se antes da França, e mais do que ela. Por que? Ocarvão é o responsável pela diferença, respondem os manuais. Mas então, oimpulso manufatureiro e comercial holandês, um século antes da Inglaterra, aque fator devemos imputá-lo? Os pôlders não substituem as minas de carvão?
  10. 10. Resposta: mas justamente foi a pobreza de recursos naturais que forçou osholandeses a comerciar e produzir.A explicação pelo argumento dos recursos naturais inverte-se como uma luva.Quando são abundantes, o impulso vem sozinho. Quando faltam, sua própriacarência é invocada como fator de desenvolvimento: na teoria da desvantageminicial, a insuficiência de recursos voa em socorro das insuficiências daexplicação pelos recursos. Essas teorias ainda vigoram nos mais recentesestudos de histórica econômica. Nós tentamos refutá-las em Du "miracle" enéconomie.O materialismo histórico consagra essa visão do mundo, caracterizada pelaprimazia das condições geofísicas e das infra-estruturas. O homem não é levadoem conta; nem sua engenhosidade, nem sua iniciativa — fugazes"superestruturas", semelhantes a "fogos fátuos numa lagoa".Já o realismo histórico não pode ignorar o homem. As políticas econômicas,quer sejam liberais ou dirigistas, "científicas" ou coercivas, sempre encontraramo homem no seu caminho: ora como motor, ora como obstáculo. É precisocompor com ele. O sésamo do desenvolvimento não é ele próprio?Como é possível, indagam-se com freqüência os dirigentes africanos, conduzirao desenvolvimento econômico operários indígenas que param de trabalharlogo que seu salário permite que comprem o guarda-chuva ou a bicicletacobiçados? Como a Índia poderá prosperar enquanto seus habitantes deixaram-se morrer de fome ao lado de uma vaca sagrada? E como a democraciarepresentativa à maneira ocidental funcionária sem choques em sociedadesestratificadas em castas e em clãs? Os hábitos seculares têm aqui um pesoevidente. Um antigo reflexo etnocentrista não hesitava em colocar osubdesenvolvimento por conta da raça ou da etnia.Uma preciosa experiência de laboratórioTodos os países desenvolvidos são — ou eram, até a modernização do Japão nofinal do século XIX — de raça branca e de cultura greco-judáico-cristã. Nenhumpovo homogêneo dessa categoria figura na lista dos países subdesenvolvidos.Devido a um velho reflexo eurocentrista, poder-se-ia ficar tentado a falar de"inaptidão natural para o progresso", de "alergia congênita à sociedade
  11. 11. industrial", de "etnias retardadas", ou ainda, como se fazia correntemente noséculo XIX, de "raças inferiores". O desenvolvimento e o subdesenvolvimentoestariam inscritos em nosso genes. A biologia deteria a chave do problema.A distorção que é o objeto da presente obra coloca-nos ao abrigo dessa tentação.Ela opõe na Europa ocidental, a partir do Renascimento e da Reforma, paíseslatinos e nações protestantes. Tanto uns quanto as outras pertenciam até oséculo XVI à mesma cristandade do Ocidente: mesma raça, mesma cultura,mesmo enquadramento pela igreja, mesma malha feudal temperada pelamesma eclosão de franquias municipais. A circulação das pessoas, dos bens edas idéias fluía com facilidade. Não se percebia entre uma monarquia e outranenhuma heterogeneidade, a não ser avanço persistente do Sul com relação aoNorte.Em algumas décadas essa paisagem é alterada. A Holanda depois a Inglaterra,tomam um rápido impulso; são seguidas pelos outros países protestantes,enquanto que Portugal, a Espanha, os principados ou repúblicas da Itáliaentram em decadência, e a França, cujo caso é intermediário, se arrasta.Unidade de ação, de lugar, de tempo: o que ocorre durante um curto período,nesse campo restrito, oferece uma preciosa experiência de laboratório,apropriada para isolar os elementos constitutivos do desenvolvimento e dosubdesenvolvimento, livres de todo preconceito racial ou étnico — etologia semetnologia.Dizemos "o desenvolvimento" como dizemos "a evolução". Mas assim como nãose viu os animais paleontológicos tornarem-se os animais que conhecemos,ninguém pode observar o mecanismo do desenvolvimento. Seleção cega?Triagem mecânica? Avanço consciente? Busca de uma meta inconsciente? Aespessura da história encobriu o processo.Assim como a evolução, o desenvolvimento é um conceito que procura explicaruma diferença num espaço de tempo. Divergência, atraso, distorção, essestermos surgirão com freqüência nas páginas que se seguem. Eles permitem quese descreva a história do desenvolvimento econômico, político e social dacristandade ocidental como um desenvolvimento "a duas velocidades".Tentaremos descrevê-lo com exatidão, em bases agora bem estabelecidas, e emseguida explicá-lo.
  12. 12. O imaterial comandaColocar essas questões em pauta é tentar realizar uma verdadeira revoluçãocopernicana no estudo do desenvolvimento. Os dados da história econômica —recursos em matérias primas, capitais, mão-de-obra, relações de produção,investimentos, trocas, distribuição, índices de crescimento — foram postos atéagora no centro das explicações do desenvolvimento. Os traços mais imateriaisde uma civilização — religião, preconceitos, superstições, reflexos históricos,atitudes perante a autoridade, tabus, motores da atividade, comportamentos notocante à mudança, moral do indivíduo e do grupo, valores, educação — eramrelegados ao nível de satélites insignificantes, gravitando penosamente em tornoda estrutura central. Ernest Labrousse, após tantos outros, afirmava que "omental atrasa o social", e "o social, o econômico". Propomos inverter os papéis.De subfator secundário, de longínqua e negligenciável conseqüência, asmensalidades tornar-se-íam o centro em torno do qual tudo gravita: motoressencial do desenvolvimento, ou obstáculo intransponível.Propomos em suam lançar as bases de uma etologia comparada dodesenvolvimento econômico, social, cultural, político. Etologia, isto é, estudosdos comportamentos e mentalidades respectivas das diversas comunidadeshumanas, na medida em que fornecem fatores de ativação ou de inibição, emmatéria de intercâmbio, de mobilidade intelectual e geográfica, deinovação. Etologia — pois não podemos nos contentar aqui nem com osesquemas descritivos, mais redutores, da etnologia, nem com as recomendaçõesconvencionais, mas sem efeito, da ética.A mola da confiançaEm quarenta anos de observações, a atitude de confiança na pessoa ou dedesconfiança — apareceu-nos, sob formas bem diferentes, como a quinta-essência das condutas culturais, religiosas, sociais e políticas que exercem umainfluência decisiva sobre o desenvolvimento.Nossa hipótese é de que a mola do desenvolvimento reside em definitivo naconfiança depositada na iniciativa pessoal, na liberdade exploradora e criativa —em uma liberdade que conhece suas contrapartidas, seus deveres, seus limites,em suma sua responsabilidade, isto é, sua capacidade de responder por simesma. Mas como uma liberdade dessa ordem ainda é muito pouco praticada
  13. 13. no mundo, é lícito temer-se que a escassez, a doença e a violência ainda rondempor nosso planeta durante muito tempo.Poderão até voltar com intensidade em zonas de onde se retiraram há algumasdezenas de lustros. O progresso perpétuo não existe; os agentes dinâmicos danossa sociedade podem sufocar-se ou esgotar-se seja pelo peso de um Estadoinvasor, de um igualitarismo excessivo, de uma reivindicação do "sempre mais"como um direito adquirido; pelo esquecimento dos deveres que são oindispensável reverso dos direitos; ou pela concorrência insustentável de povosatrasados que, para escapar da miséria, usam sua recentíssima capacidade deproduzir muito mais barato, em muito maior quantidade e igualmente bem.A questão do começoEis aí nossa hipótese. E eis aqui o modo pelo qual tentaremos fundamentá-la.É necessário colocar no começo a questão do começo. Os historiadores daeconomia muito se interrogaram e discutiram a respeito da data que poderia seratribuída à "revolução" do desenvolvimento, ou mesmo sobre a possibilidade delhe atribuir uma data mais ou menos precisa. Ouvindo seus argumentos e suaspropostas teremos a medida da complexidade do assunto. Será nossa PrimeiraParte.Por que o desenvolvimento não começou mais cedo, uma vez que a Europa dofinal da Idade Média já domina as técnicas do comércio e das finanças, que ocomerciante prospera em toda parte, que o livro impresso libera de mil pressõesa difusão do conhecimento ou das idéias, que a própria Igreja se moderniza,tanto na sua tolerância com relação ao dinheiro, quanto, sob o signo de Erasmo,na aceitação do humanismo?Por que o movimento não se iniciou nessas grandes cidades mercantis italianasonde se concentravam tantas riquezas, de conhecimento, de curiosidadeintelectual, de apetite de dominar? O que faltou a esses homens que dispunhamde tantas chaves que abririam, cada uma delas, a porta de um compartimentodo desenvolvimento, para encontrar a chave-mestra que abriria todas ao mesmotempo? É fascinante examinar essa Europa dinâmica, impaciente, mas que giraem círculos no liminar do seu futuro.
  14. 14. O futuro nascerá no final do século XVI na Holanda, onde ninguém o esperava,nem mesmo os holandeses. E de imediato essa "decolagem" aparece como umadistorção. Um fosso se cava; o desenvolvimento nasce sob esse signo.Empreguemos uma palavra que usaremos freqüentemente: "divergência", nassuas duas acepções. Uma sociedade diverge como faz uma pulha atômicaquando é acionado em seu interior um ciclo de reações em cadeia — é o processointerno. No mesmo tempo seu destino também diverge pelo contraste com asoutras sociedades; a prosperidade nela adquire muito rapidamente um ritmo esinais desconhecidos para seus vizinhos.A divergência religiosaOra, essa distorção parece coincidir com a fratura religiosa. A Holanda que seafirma, refúgio dos calvinistas, é inimiga de Felipe II. A divergência dodesenvolvimento não pode separar-se da divergência de credo, que rompe aunidade milenar da cristandade do Ocidente. Ocorre que o desenvolvimentosurge no campo protestante: primeiro a Holanda, breve a Inglaterra.Essa coincidência estabelece um difícil problema de causalidade histórica.Portanto, é preciso explorar previamente essa divergência religiosa, pelo menosnos aspectos que podem ter uma relação com a questão do desenvolvimento: asatitudes perante o dinheiro, as "ações", a atividade profissional. É precisoacompanhar as evoluções, entre tolerância e tabu, da Igreja católica, a de antesda Reforma e a da Contra-Reforma. É preciso afrontar o paradoxo doprotestantismo, movimento religioso que de certa forma entrega o homem semdefesa à escolha e ao julgamento de Deus, mas que no entanto concede um novolugar e dá um novo sentido à atividade "mundana". De que modo o dogma da"salvação unicamente através da fé" pode ocupar o centro religioso desociedades vigorosamente orientadas para o êxito material, para a criaçãocoletiva de riquezas? E de que modo uma religião da "salvação através dasações" suscitou, justamente, muito menos riquezas? Todas essas questões sãoobjeto da Segunda Parte.A divergência do desenvolvimento
  15. 15. Uma vez preparado o terreno, pode-se descrever e analisar as primeiras etapasda "divergência do desenvolvimento" (IIIaPARTE). Inúmeros campos — aaventura colonial, a inovação, o "mercantilismo", as evoluções políticas —permitem a comparação, entre países protestantes e países católicos, dosdesempenhos contrastantes. Eles destacam o papel de um pequeno número deatitudes mentais — responsabilidade, disponibilidade, tolerância, confiança nadescoberta científica, na invenção técnica e na difusão cultural; e também opapel de fenômenos sociais como as migrações, grandes fornecedoras dehomens liberados e empreendedores. A mobilidade geográfica não basta paraexplicar o desenvolvimento, mas nunca houve desenvolvimento sem mobilidadedos homens. É preciso sair da sua aldeia, não se limitar a ver a hora no relógioda igreja, ir "tentar a sorte".No essencial, paramos esta descrição histórica no século XVII porquejustamente não queremos fazer história, mas sim dela tirar lições. Ora, essaslições são mais claras no momento em que os mecanismos mentais ecomportamentais do desenvolvimento se instalam. Então, o desenvolvimentoestaria longe de ter produzido seus efeitos mais espetaculares, positivos ounegativos: a prodigiosa aceleração da criatividade técnica e da produção de bensde consumo, mas também a proletarização brutal da mão-de-obra industrial.Contudo, o movimento está lançado; ele se alimenta de si mesmo.Procurando as características do motor inicial, encontramos algo mais: umacoisa surpreendente, que foi muito pouco analisada e mesmo muito poucosentida. É que os países que não entram no movimento não são neutros.Servem-se de freios. Assim como há uma Contra-Reforma, existe um Contra-Desenvolvimento. A primeira e o segundo funcionam com força máxima emPortugal, na Espanha e na Itália. A França, em ambos os planos, ocupa um lugarà parte. É católica, mas galicana: não aceita o Concílio de Trento. É hierárquica,mas gaulesa, colbertista, mas rebelde. Enquanto que à sua volta aperfeiçoam-seos melhores motores ou os melhores freios, ela se serve de ambos ao mesmotempo, apoiando alternativamente sobre os dois pedais, e mesmosimultaneamente, arriscando-se a capotar...Em suma, não existem, simplesmente, desenvolvimento e não-desenvolvimento.Há mecanismos mentais, liberadores ou inibidores do desenvolvimento,desigualmente presentes em cada sociedade dessa época.
  16. 16. Olhar contemporâneoJá que se trata de mecanismos mentais, estes deveriam deixar traços por escrito.De fato, eles não faltam. São também muito mal conhecidos; o leitor faráconosco descobertas curiosas nesse "olhar contemporâneo sobre a divergência"(Quarta Parte). O fenômeno da divergência era tão novo, tão perturbador, queprovocou inúmeras reações, descrições, reflexões.Devemos acreditar piamente nesses testemunhos? Claro que não, e teremosocasião de observar diferenças sensíveis, até na maneira como são emitidos. Astestemunhas são reveladoras sobre elas mesmas. O olhar de um comercianteinglês sobre a Holanda ensina-nos mais a respeito das causas profundas doêxito holandês e, mais tarde, do êxito britânico — pois ele se interroga sobre osdesempenhos econômicos — do que o de um intelectual francês, seja ele Voltaireou Diderot. Porquanto estes revelam suas próprias obsessões na sua maneira deadmirar mais aquilo que se relaciona com a política ou a religião — liberdade,tolerância — do que o que diz respeito à economia e à sociedade. Seria decorosoadmirar um povo de ricos burgueses? Até os franceses que celebram a Holandaevidenciam suas inibições antieconômicas.Ao nos familiarizamos com o olhar contemporâneo, ficamos surpresos diante dalucidez com a qual os personagens do desenvolvimento, sobretudo oscomerciantes, descrevem os valores que fazem essa verdadeira revolução,através da qual o "ato de comerciar" é colocado no coração dinâmico dasociedade. Em compensação, com que vigor é expresso o tabu do"rebaixamento" que bloqueia, na França e em seus vizinhos meridionais, osenormes recursos da elite aristocrática! Mas quer se trate de uma atitudefavorável ou desfavorável, é espírito humano que está em jogo, e não osmecanismos econômicos. Todos esses contemporâneos têm uma visãohumanista do tipo de sociedade que eles querem. Seus valores incarnam-se ouno comerciante, ou no nobre; no homem criador de atividades e riquezas, ou nohomem livre de coações e cultivando sua humanidade superior como umprivilégio de casta.Do lado do desenvolvimento, o valor central é a liberdade. Na prática, ele seafirma primeiro no domínio religioso, aquele onde justamente a idéia daVerdade poderia impor sua ditadura. É extraordinário que a Holanda, primeiroEstado nascido a partir de um fundamento religioso — a revolta dos calvinistasdos Países Baixos — tenha quase concomitantemente inventado a tolerância. Os
  17. 17. textos mais interessantes para nossa para nossa exploração são os que ligamessa idéia de tolerância a um conjunto de valores políticos, sociais e econômicos,que são os de uma sociedade de desenvolvimento. Pois o desenvolvimento éalérgico ao dogmatismo.Impasse das teorias do desenvolvimentoOs personagens do desenvolvimento vivem da liberdade, sem procurar defini-la.Os filósofos, por seu lado, têm dificuldade para elaborar uma teoria a respeito.Não surpreende no caso de Spinoza, seu espírito sendo tão totalizante.Surpreende mais em Locke, que se considera um filósofo da liberdade, mas queconstrói logo um sistema, sem pesquisar as raízes antropológicas. Algumaspáginas de Bacon sobre a inovação ou a usura Vão mais fundo, mas sem parecertocar no ponto.Ora, essa dificuldade de teorizar aquilo que faz o desenvolvimento persistirá.Até aqui, ficamos no quadro dos seus dois primeiros séculos —aproximadamente de 1580 a 1780 — tal como foi vivido e tal como foi pensado.A Quinta Parte nos leva a abordar uma época na qual o fenômeno adquiriutoda a sua amplitude, na qual a revolução técnico-industrial o impõe a todos osolhares e a todas as reflexões.Deixando de lado a história dos fatos econômicos e passando à história dasidéias, vamos nos aproximar de alguns daqueles que se consideram os teóricosdo desenvolvimento. Com eles, chegaremos a alguns impasses.O impasse de Adam Smith, tão preocupado em recusar a clássica abordagem dobem comum, mas incapaz de dela desligar-se, que estabelece como um axiomaque o livre jogo de todas as liberdades individuais aí desembocanecessariamente. Esse postulado, porém, é indemosntrável. E não se obtém oesperado, ficando a impressão de um imenso maquinismo onde se perde osentido real da liberdade.O impasse de Karl Marx, cuja fantástica coerência — rejeitando ao mesmotempo a troca, o mercado, a liberdade, a sociabilidade, a confiança — tem omérito de sugerir a contrarioa força do elo que une esses valores.
  18. 18. O impasse do próprio Max Weber: sua pesquisa pioneira sobre correlações entreprotestantismo e capitalismo deixou-se apanhar na armadilha de um sistema decausalidades unívocas, cujas dificuldades ele só percebeu para cair nosparadoxos que provocam incerteza, antes de cair num determinismo biológico.O impasse de Fernand Braudel, brilhante e avisado pintor do desenvolvimento,mas que, sentindo os limites das suas ferramentas de leitura marxistas, ficoureduzido a demonstrar a divergência, o "aqui e não em outro lugar", apenasatravés de uma história de batalhas econômicas — uma nova espécie denarração histórica dos acontecimentos.Roma, da reação à evoluçãoUm outro pensador se impõe, o Papa — pensador coletivo, preocupado com suaprópria continuidade, que garante a credibilidade do Magistério; mas tambémpensador evolutivo, marcado pela personalidade dos grandes pontífices.Consagramos a ele a Sexta Parte. Ninguém nem sonha em enclausurar a SantaSé num anti-economismo primário; mas não haveria um certo conluio entre aascendência espiritual que ela exerceu e a manutenção de uma mentalidadeautoritária, hierarquizante, anti-individualista e hostil à inovação nas questõestemporais? Pode-se considerar Roma culpada de resistência aodesenvolvimento e da regressão das nações "latinas"? Resta o fato de que asafinidades comportamentais e institucionais entre catolicidade e atrasoeconômico são inegáveis: dogmatismo, telecomando, resistência à inovação,desconfiança ante a difusão de uma cultura individual, obscurantismo, recusada modernidade...A Igreja dos séculos XIX e XX confrontou-se com o dinamismo, eprincipalmente com a universalização, fenômenos contra os quais preferiraproteger-se no século XVI, e que acreditara poder acantonar nas sociedadesreformadas. O perigo ainda se agravara devido ao fato de que as idéias"perigosas" eram menos religiosas do que seculares. Os filósofos das "Luzes", o"josefismo" na Áustria, Pombal em Portugal, o grão-duque da Toscana, osConstituintes franceses: era nos países católicos que o Estado se posicionavacomo adversário da Igreja, arrancava-lhe a escola ou a caridade, fechava seusconventos, pretendia ditar-lhe sua organização. Com a exceção dos direitosnaturais, aliás dissociados de qualquer referência divina, o pensamento políticoa caminho da democracia colocava a "vontade geral" como sendo a origem
  19. 19. absoluta de todo direito, ou até de toda moral. Em suma, a Igreja tinha algumasrazões para desconfiar: o século XIX será para ela um século de combate, cujareduza está impressa nas encíclicas de Pio IX sobre, ou melhor, contraaliberdade.No final do século XIX, porém, Roma, pela primeira vez, toma conhecimento deuma industrialização que, ao longo do tempo, chegou até a Itália e a Espanha, eque já concerne milhões de católicos. Em 1893, Leão XIII promulga RerumNovarum, uma encíclica que abre uma série de notáveis textos pontificais —longa meditação a muitas vozes que após mais um século resultará,com Centesimus Annus de João Paulo II, na aceitação de uma economiafundada na liberdade dos princípios econômicos. Mas quanto tempo terá sidopreciso, antes que a Igreja católica abandonasse o modelo de uma sociedadefundamentalmente agrária e patriarcal, para finalmente colocar a liberdade nocentro da sua antropologia... Por tempo demais o ensino da Igreja ignorou aeconomia moderna, e manteve com seus adversários da laicidade militante umcombate que desviou as sociedades católicas dos verdadeiros desafios daliberdade — aquela que suscita as riquezas.Representava também seu papel de instituição-testemunha de um reino "quenão é deste mundo", contra as pompas de Satã e a idolatria de Mammon. À suamãe inquieta, Jesus em meio aos doutores responde: "Devo ocupar-me dosassuntos do meu Pai".Milagres e santos, a Igreja é sempre lenta para reconhecê-los quando osreconhece. A fortiori, para ela que vive na escala dos milênios, uma adesão semexame a um desenvolvimento anárquico, sem outra finalidade a não ser elemesmo, não era concebível. As ameaças que pesam sobre o mundodesenvolvido, depois de dois,, três ou quatro séculos de progresso, sãosuficientes para nuançar a crítica de cegueira que espíritos sistematicamenteanti-clericais ficariam tentados a lhe fazer. Ela precisava de tempo para separaro bom grão da liberdade que cria, do joio da liberdade que corrói.Para uma abordagem etológicaApós esses numerosos impasses, é hora de voltar atrás para procurar, com aajuda de alguns espíritos lúcidos, uma pista que nos leve mais longe. É o objetoda Sétima é última Parte.
  20. 20. As primeiras referências encontram-se em algumas observações deMontesquieu ou, mesmo que isso possa surpreender, de Hegel, observador dadistorção entre a América do Norte e a do Sul. Mas o primeiro que realmenteexplorou os mecanismos mentais da mentalidade econômica moderna foiBastiat. Ele merece ser lavado dos sarcasmos com que Marx o ataca, o que naverdade revela a pertinência das suas análises. Depois dele, com Schumpeter eHayek, a reflexão finalmente se interessa pelo indivíduo. Por trás da abstração"capitalismo", existem capitalistas. Por trás das empresas, ou melhor à suafrente, há os empresários. Por trás do mercado, há vendedores e compradores,negociantes e consumidores, divulgadores e transportadores.Nenhuma história ocorre sem indivíduos. A história econômica menos do quequalquer outra, já que a característica particular da economia é mobilizar asenergias através da competição e colocá-las em sinergia através do intercâmbio.A história imóvel do Egito ou da China pode se desenrolar com homensmoldados para serem intercambiáveis. Os escribas, ou os mandarins, têm comomissão conservar cuidadosamente a ordem estabelecida; como evitariam assapatas do freio da novidade? A história do desenvolvimento assenta-se numainfinidade de histórias individuais, feitas de iniciativas, de riscos assumidos, demobilidade intelectual, geográfica e social, dentro de um clima propício àmudança.Podemos dispensar uma demonstração matemática, um modelo, um sistema?Inúmeros economistas tentaram reduzir o desenvolvimento a uma equação.Logo esbarraram numa incógnita radicalmente incognoscível. A expansão nãopodia ser medida por uma simples combinação do Capital e do Trabalho. Foipreciso admitir a intervenção de um fator residual, e resignar-se a nele englobarvariáveis complexas, que só podiam ser resumidas numa única palavra: cultura.Confiante nessa caução, pode-se definir aquilo que poderia ser umaantropologia do desenvolvimento. Dissemos acima que nas décadas das origens,podia-se observar um combate entre atitudes, comportamentos, valores, unsestimulantes, outros paralisantes. Os trabalhos de um Lorenz e de um Ruffiépropõem uma abordagem fecunda: fornecem chaves de interpretação, capazesde nos dar acesso ao enigma do desenvolvimento.Se o desenvolvimento, no seu nascimento, em suas formas mais ativas, acionatodo o potencial humano, e se, por essa razão, procura-se dar-lhe umaexplicação antropológica, esta deve forçosamente inscrever-se na coerência de
  21. 21. uma visão da humanidade. Não é um novo que nasce na Holanda por volta de1580. Não assistimos a nenhuma mutação genética, ao aparecimento deum Homo Modernus. O homem de antes e o homem de depois do clique dodesenvolvimento detêm o mesmo potencial; diferem somente nas suasmotivações.Cada homem carrega consigo comportamentos inibidores e comportamentosliberadores. A maior parte das sociedades só utilizaram uma pequena partedestes últimos. A segurança rotineira oferece o conforto dos caminhosconhecidos. A exploração de novas vias — não apenas geográficas — semprecomporta um risco. Tem um custo psicológico importante; até mesmodesencorajador para quem não tem confiança nos benefícios futuros, na suaprópria capacidade para suscitá-los, na sociedade da qual é um membro. Odesencadeamento se produz onde são deliberadamente favorecidos oscomportamentos emancipadores, onde são superados os comportamentosentorpecedores, onde equilíbrio e estabilidade encontram-se revelam-semovimento.Remanescências da divergênciaSem pretender tratar a fundo um assunto que poderia ocupar numerosospesquisadores durante vários anos, podemos inventariar em alguns pontos asituação estranha da Europa: nos séculos XIX e XX — quando a presença sociale mental das Igrejas, católica ou protestantes sem distinção, recua, os Estadossecularizam-se, a "ciência" e o "progresso" conquistaram sua autonomia —esbarra-se no paradoxo de uma repartição geográfica do desenvolvimento quecontinua, de um modo geral, a reproduzir o mapa religioso do século XVI. Afratura que se produziu então entre a Europa da Reforma e a da Contra-Reforma continua a dividir as sociedades do continente — como também separaas sociedades de civilização européia transplantadas para o Novo Mundo.Limitar-nos-emos da dar, nos Anexos, alguns exemplos dessa surpreendentereminiscência, que atrapalha tanto nosso modernidade que geralmentepreferimos ocultá-la. Aliás, são esses contrastes que me levaram, há quasecinqüenta anos, a me envolver com esta pesquisa sobre o desenvolvimento, suamatriz mental, sobre a confiança na liberdade.
  22. 22. Leia também: Alain Peyrefitte e a sociedade de confiança por J. O. de Meira Penna Alain Peyrefitte e a sociedade de confiança J. O. DE MEIRA PENNA O Estado de S. Paulo, Domingo, 19 de dezembro de 1999A morte de amigos e pessoas ilustres é uma fatalidade com a qual jamais nosreconciliamos. Por mais que saibamos ser parte inevitável da condição humana,o sentimento de revolta que nos atinge é tanto mais pronunciado quanto mais aessa pessoa estamos presos por laços de afeto e admiração. Foi assim que reagi ànotícia do falecimento de Alain Peyrefitte, com o qual havia marcado umencontro, no início do mês passado, para comunicar-lhe os esforços do InstitutoLiberal do Rio de Janeiro no sentido de publicar um de seus livros. Homemextremamente discreto, até o último momento Peyreffite escondeu a moléstiaque o consumia. Disseram-me que na antevéspera de seu falecimento, ainda foientregar ao editor as provas finais de sua última obra, o terceiro volume deCÉtait De Gaulle.Escritor, político ativo e teórico, membro do Institut e da Academia Francesa,senador, oito vezes ministro, maire da cidade medieval de Provins, Peyrefitteera uma combinação excepcional daquele ideal platônico, tão freqüentementefrustrado, de filósofo e governante ao mesmo tempo. Julgo que, como amiúdeocorre, acabou preferindo as letras ao exercício do poder. Em sua enormementeprolífica atividade como escritor, dedicou-se a três temas favoritos, com umquarto ocasional.Foi em primeiro lugar o cronista de De Gaulle e alguns de seus contemporâneoso compararam a outros, como Commines, Saint Simon e Las Cases, os de LuísXI, Luís XIV e Napoleão. No terceiro volume, por falar nisso, esperemos quefaça referência à viagem do general à América do Sul em 1966 em que,
  23. 23. presumivelmente, encontraremos observações sobre nosso país. Comohistoriador de um dos períodos mais importantes da história moderna daFrança (e da Europa), Peyrefitte tem seu nome já consagrado como intérpretedo renascimento de sua pátria após o colapso que a afetou na primeira metadedo século. Inicialmente diplomata, formado na famosa ENA, a escola superiorque prepara a elite da administração francesa, e havendo alcançado o grau deministro plenipotenciário, serviu em Bonn, na Cracóvia e na Conferência deBruxelas após o que, em 1958, entrou para a política, sendo sucessivamentereeleito deputado até tornar-se senador em 1995.Como um dos mais fiéis gaullistas, foi ministro da Informação e ministro daCiência e Tecnologia Atômica (1966/67), em cuja capacidade contribuiu para aentrada da França no clube fechado das potências nucleares. Como ministro daEducação, colocou-se no centro do chienlit estudantil de maio de 1968, queconseguiu conter sem violência.Foi como ministro da Justiça (Garde des Sceaux) que Peyrefitte visitou o Brasil,em outubro de 1978, com o presidente Giscard dEstaing, quando tive a honrade conhecê-lo, interessado como estava em um de seus primeiros e maisimportantes livros, Le Mal Français, publicado dois anos antes. Traduzido parao inglês, e para o espanhol e italiano com o título O Mal Latino, tenho tentadoem vão interessar editoras brasileiras na soberba análise crítica empreendidapor Peyrefitte, já agora como sociólogo, dos fundamentos religiosos, culturais emorais dos males que têm prejudicado o desenvolvimento e a modernização detoda a área latina.Tocqueville e Weber - Revela-se aí fiel discípulo de Tocqueville e Weber.Responsabiliza inclusive a contra-reforma, como fazemos nós, liberaisbrasileiros, e a tradição do autoritarismo absolutista pelas mazelas queembaraçam, senão impedem, nossa emergência como democracias liberais,abertas ao mercado e sobrepujando o ranço patrimonialista de nossa estruturasocial. Creio que em nenhuma outra obra de sociologia as origens de nossosvícios coletivos foram tão objetiva e sabiamente perscrutados em suasprofundas raízes culturais ou psicossociais. Talvez seja o vezo weberiano dacrítica ao romanismo centralizador e interventor de nossa estrutura sócio-política o motivo das suspeitas de que alimentasse convicções huguenotes.Peyrefitte, infelizmente, não estendeu suas pesquisas sociológicas à AméricaLatina e, particularmente ao Brasil como eu esperava, após a segunda visita que
  24. 24. realizou a nosso país, em 1987, a convite do Estado e da Associação Comercialde S. Paulo. Nessa ocasião lhe servi de intérprete, em conferência pronunciadana Avenida Paulista, e de cicerone no Rio e Brasília. Estava, na ocasião,acompanhado do filho mais moço, Benoit. Ao invés, o ilustre acadêmico preferiudesviar sua atenção para um outro tema que desde então o fascinou.Paixão de aprender - Sofrendo, como notou o jornalista e autor liberal GuySorman, da "paixão de aprender", Peyrefitte publicou uma série de obras sobrea China, que visitou mais de uma dúzia de vezes. Talvez tenha almejado realizarpara os chineses o mesmo que Tocqueville com sua De la Démocratie enAmérique. Em 1973, parafraseando uma frase célebre de Napoleão publicouQuand la Chine s_Éveillera... le Monde Tremblera. Esse livro foi seguido deChine Immuable, L_Empire Immobile (1989), La Tragédie Chinoise (após oepisódio do massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial) e de um pequenoensaio, com fotografias, terminando com La Chine s_Est Éveillée (1996),ocasião em que manteve uma longa entrevista com o atual presidente chinêsJian Zemin.Em todos esses ensaios, julgo tenha o autor compensado seu deslumbramentocom o Império do Meio (Djung Guó), graças a uma crítica objetiva da complexaproblemática levantada pela necessidade da China se abrir ao mundo global,enquanto procura preservar sua identidade confuciana e a difícil unidade dopovo de Han, de mais de 1 bilhão de pessoas.Teimosia oriental - O Império Imóvel foi publicado em português em 1997pela Casa Jorge Editorial do Rio. Acompanhado de mais três volumescomplementares, relata a embaixada chefiada em 1792/94 por lorde Macartney,na primeira e frustrada tentativa dos ingleses de provocarem a abertura doimenso império, então governado por seu último grande imperador, Kien Long.A China obstinava-se na arrogância de ser a potência mundial hegemônica,postura estimulada pela desconfiança da classe dominante imperial mandchú.Os volumes anexos cobrem uma enorme documentação relativa às reações dosjesuítas de Pequim, dos ingleses e dos próprios chineses àquela missãodiplomática sui-generis - que demorou dois anos e comportou o envio de umaesquadra e 2.000 homens de comitiva. Macartney não pôde contornar, contudo,a teimosa insistência dos mandarins no sentido de lhe exigir o humilhantekowtow, as nove prosternações diante do Filho do Céu, obrigatórias para osrepresentantes dos vassalos.
  25. 25. Surpresa - Peyrefitte manifestou sua surpresa quando descobriu que euconhecia a extrema pertinência desse episódio, no relacionamento entre oOcidente e Ásia. Expliquei-lhe que minha carreira se iniciou na China (1940/42e 1947/49) e que, durante anos, estudei sua história e cultura. O que destaca atese central da obra é o contraste entre a inflexível imobilidade e introversãoautárquica dos chins, postergando durante dois séculos a abertura do ImpérioCentral, até o esforço de modernização encetado por Deng Xiaoping - e aflexibilidade com que, em meados do século 19, os japoneses se adaptaram àinevitável globalização. Se o Japão é hoje a segunda potência econômica domundo enquanto só agora "a China acorda para fazer tremer o mundo", aorigem do descompasso se coloca nas peripécias dessa missão diplomática.Criminalidade - O quarto tema que interessou o eminente escritor francês foio problema da Justiça e da criminalidade no mundo moderno, fruto de suaexperiência como ministro da Justiça. Les Chevaux du Lac Ladoga - la Justiceentre les Extrêmes apareceu em 1982 e lhe custou caro: quase foi morto poruma bomba terrorista que explodiu na frente de sua residência, em Provins,sacrificando seu motorista. Peyrefitte defende uma legislação mais rigorosacontra bandidos, assassinos e terroristas - antecipando a idéia central queestamos emergindo da Idade das Guerras para entrar na Idade do Crime.Mas retornemos agora ao tema principal das preocupações de Peyrefitte,expresso em escritos que vão desde 1947, Le Sentiment de Confiance, ao DuMiracle en Économie e, finalmente, a La Société de Confiance, de 1995. Comtradução patrocinada pelo Instituto Liberal, essa obra será brevementepublicada pela Editora Topbooks, sob o comando esclarecido e corajoso de JoséMário Pereira e com tradução primorosa de Cylene Bittencourt.Comentemos a questão levantada por Peyrefitte. Num artigo de 2 de março de1997, Roberto Campos se pergunta por que, apesar das cerebrizações deeconomistas e sociólogos, o desenvolvimento econômico continua a seressencialmente um mistério. Campos oferece como exemplos de problemas nãoesclarecidos o despertar da China de um sono de 500 anos, o "milagrebrasileiro" da década dos 70 que desembocou na "década perdida" dos 80, e os"dominós" asiáticos que se tornaram "dínamos".A pergunta levantada é daquelas a que inúmeros pesquisadores têm tentadoresponder desde que, em 1776, Adam Smith pesquisou As Causas da Riquezadas Nações, ora salientando o ambiente cultural; ora favorecendo o tipo de
  26. 26. estrutura institucional no mercado aberto; ora apontando para a iniciativa degovernantes excepcionais que, convencidos dos méritos superiores da receita dolivre câmbio sobre o planejamento socialista centralizador e uma pertinaztradição patrimonialista, tomaram a iniciativa de atos concretos de sábiapolítica, graças aos quais um surto de desenvolvimento milagrosamente seregistou. Estou, neste caso, pensando especialmente em Pinochet, no Chile, eem Deng Xiaoping, na China. As duas nações registram índices inéditos dedesenvolvimento acelerado, que a "crise" atual não parece haver senãotemporariamente interrompido.Um caso particular que desperta nossa curiosidade é o da França. Trata-se,afinal de contas, da quarta economia mundial (depois dos EUA, Japão eAlemanha). É também uma nação que, por não se decidir francamente nem porum lado, nem pelo outro, continua dividida, angustiada e sofrendo de umaespécie de incurável moléstia social. A pátria de Alain Peyrefitte não parecehaver superado a fatídica cisão esquerda X direita que a dialética dojacobinismo revolucionário em 1793 engendrou, com seu contraponto nobonapartismo ditatorial; nem tampouco o absolutismo ("O Estado sou Eu")herdado do Rei Sol, Luís XIV.Para a integração profícua na comunidade regional e num mundo globalizado,deve todo cidadão convencer-se que a liberdade de iniciativa, a confiança nahonestidade dos outros, o espírito inventivo e o estado de direito, forte elimitado, são definidos como as causas da riqueza coletiva - não havendo outras.Ora, foi justamente Peyrefitte quem melhor procurou analisar o que chama lemal français. Ao vislumbrar as condições da sociedade de confiança quefavorece o progresso, o grande ensaísta enfrentou um de seus maiores desafios.No esforço hercúleo de penetrar no "mistério" ou "milagre" do desenvolvimento(uma de suas obras prévias chama-se, justamente, Du Miracle en Économie),nosso amigo é o maior participante francês num debate ardente que data dapublicação, em 1835/40, da Démocratie en Amérique e, em 1905, de um dasobras fundamentais da sociologia moderna, A Ética Protestante e o Espírito doCapitalismo.Falsidades perversas - A polêmica que esses livros provocaram muito longeainda está de se esgotar - e confesso me haver dedicado, com furor, a promovê-la no Brasil. O propósito weberiano era escaparmos das perversas falsidades dodeterminismo materialista que fez a fortuna inidônea do marxismo. Peyrefitte
  27. 27. elaborou extensamente o tema da preeminência dos fatores morais, desde apublicação daquele primeiro título há 20 anos, até seus mais recentes. E é estaobra fundamental precisamente, a Sociedade de Confiança, que foi precedida deum compte-rendu do colóquio internacional, realizado no Institut de France emsetembro de 1995 - em que me surpreendendi com a identidade dos problemaslevantados, na França e no Brasil, quanto às condições morais e culturais dodesenvolvimento e às políticas adequadas a seu sucesso.No livro, o pensador francês coroou seu trabalho monumental com um estudohistórico e sociológico exaustivo da ética de livre iniciativa e incentivos ao setorprivado da economia, suscetíveis de assegurarem o progresso. Renovando com oinquérito que, pela primeira vez, Adam Smith empreendeu no sentido dedescobrir, na liberdade e na simpatia, o segredo do progresso, ele acentua oparalelismo entre o que chama a "divergência" religiosa entre os latinos,autoritários, patrimonialistas e desconfiados - e os holandeses e anglo-saxões,mais liberais, mais tolerantes, mais racionais e livres, e nutrindo maiorconfiança nos méritos da troca e divisão do trabalho.Questão de confiança - A divergência explicaria o ritmo diverso decrescimento e progresso das respectivas sociedades. Esse desenvolvimento temsido sustentado, de um lado, pelos sentimentos de confiança dos cidadãos unsnos outros; e, do outro, pela capacidade do estado de direito de fazer cumprir oprincípio pacta sunt servanda. Pois não devem os contratos e a propriedade serrespeitados, sendo a honestidade pressuposto de toda transação econômica?O descompasso histórico no ritmo de desenvolvimento se foi acentuando.Peyrefitte compara, por exemplo, o take-off inglês a partir do século 18 com odeclínio espanhol. Chegando a nossos dias, diagnostica a mentalidadedesconfiada, com o pressuposto generalizado que, até prova em contrário, todoo mundo é desonesto e sem-vergonha, se não pertence a nosso círculo deamizades e família. Os governantes podem ser tacanhos, mas só a eles o povoacredita que cabe a tarefa altruísta de nos salvar do egoísmo entranhado de todocapitalista. E insiste no fato de que a resistência enfadonha a qualquer inovaçãoe o conservadorismo inquisitorial da Igreja cooperam para erguer barreirasburocráticas e impasses legais a qualquer oportunidade de avanço nos paísesobedientes à ética tridentina sob a qual fomos educados e sofremos.Introversão - Peyrefitte amplia e aprofunda estudos setoriais que, em TheMoral Basis of a Backward Society, foram realizados pelo sociólogo americano
  28. 28. Edward Banfield ao analisar o comportamento familista, desconfiado eintrovertido numa aldeia do mezzogiorno italiano, dominada pela Máfia; e pelonipo-americano Francis Fukuyama que, em seu livro Trust, tenta explicar osucesso das sociedades da Ásia oriental por motivações oriundas da disciplinada moral confuciana.Os dados elementares do desenvolvimento são a liberdade, a criatividade e aresponsabilidade. Mas utilizar os recursos da liberdade com autonomiaindividual e explorar essas virtudes na fase educacional da vida fazem suporuma confiança muito forte no homem, trabalhando dentro das normas de umasociedade livre. É esse o fator, por excelência, do desenvolvimento.Querer o desenvolvimento, o progresso, o enriquecimento do país comporta, naconclusão do livro, a "confiança na confiança". Peyrefitte é otimista. O tomhortativo do trabalho representa o esforço de um homem que, tendo ao morreralcançado o topo da elite intelectual francesa, incentiva seus compatriotas àsuperação dos traços culturais viciosos que configuram o "mal francês".Estamos em suma, em presença de um novo Tocqueville cujo valor e reputaçãotenderão, estou certo, a crescer e se estender fora do âmbito da língua e culturafrancesas.http://www.olavodecarvalho.org/convidados/peyref2.htm

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