Desejo mimético,               violência e educação:           Contribuições de René Girard                               ...
1 Apresentação                                               da compreensão humana. De fato, ele pretende                 ...
2 Desejo mimético e violência                                      o verdadeiro impulso que o motiva a desejar a          ...
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  1. 1. Desejo mimético, violência e educação: Contribuições de René Girard Leandro de Proença Lopes Doutorado em Educação – Uninove – Brasil leandro_proenca@hotmail.com José Rubens Lima Jardilino PPGE/Uninove – Brasil jrjardilino@gmail.com O tema da violência tem feito parte de muitos estudos, pois se trata de um dos grandes obstáculos para a prática pedagógica. Ademais, a violência extrapola os limites da escola, e está presente em diversos setores da sociedade. A obra de René Girard contribui para a compreensão da violência enquanto fenômeno social. Sua contribuição é decisiva para as pesquisas em educação, embora pouco explorada nesse contexto. O conceito de desejo mimético de Girard permite uma compre- ensão dos mecanismos da violência, bem como permite o desenvolvimento de uma solução, a saber, a educação do desejo. Sua tese é reforçada com o interesse de Paulo Freire por uma Pedagogia do Desejo, e a discussão sobre a violência é ampliada na consideração dos processos de exclusão social. Palavras-chave: Desejo. Desejo mimético. Violência. Educação. The violence subject has been part of several studies as it has been a great issue concerning to peda- gogical practice. Furthermore, violence is wider than school limits and its part of most social sec- tions. René Girard’s work contributes to the comprehension of violence as a social phenomenon. Its contribution is decisive for the research in Education although it is poorly explored within this context. Girard’s concept of mimetic desire allows the understanding of violence mechanism as well as the development of a solution, the desire education. His thesis is reinforced by Paulo Freire’s interest for a Pedagogy of Desire, and the discussion on violence is broaden evolving the processes of social exclusion. Key words: Desire. Mimetic desire. Violence. Education.Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009. 157
  2. 2. 1 Apresentação da compreensão humana. De fato, ele pretende uma compreensão do humano, em tudo o que A vítima expiatória, mãe do rito, apa- lhe é característico, buscando uma origem co- rece como a educadora por excelência da mum para a cultura, a sociedade e as institui- humanidade, no sentido etimológico de ções humanas. Para isso, ele parte da conside- educação. O rito faz sair pouco a pouco ração deste traço antropológico fundamental: o os homens do sagrado; permite que eles desejo mimético. Desta forma, ele precisa con- escapem de sua violência, afasta-os dela, siderar também quais são as implicações deste confere-lhes todas as instituições e todos desejo. O desejo mimético consiste na imitação os pensamentos que definem sua huma- do desejo. O ser humano é livre para desejar, e nidade (GIRARD, 1990, p. 373). é impulsionado para desejar. Porém não sabe o que desejar. Mas a indicação de que um objeto é Girard pontua o início de sua trajetória desejado por alguém indica que tal objeto é dig-intelectual e de sua teoria a partir do estudo no de ser desejado. Assim, o ser humano imi-literário. De fato, sua teoria do desejo mimé- ta os desejos de outro. Obviamente, um objetotico praticamente não encontra fundamento desejado por duas ou mais pessoas não podeno campo científico. Todavia, sua teoria não se pertencer a todos que o desejem. É inevitávelcaracteriza como uma “descoberta” do desejo a disputa daqueles que desejam o mesmo obje-mimético. Girard apenas elaborou uma teoria to. O conflito é a conseqüência direta do desejocientífica de uma idéia que aprende de clássi- mimético.cos da literatura, em primeiro lugar, e depois Assim, o desejo e a violência são traçosde textos das mais variadas tradições religiosas. fundamentais de sua antropologia. Todavia,Em sua primeira obra, Mensonge romantique não há como evitar o paradoxo: Os elemen-et verité romanesque, dedica-se ao estudo dos tos que constituem o humano se tornam osromances de Cervantes, Stendhal, Flaubert, elementos que podem causar a sua própriaDostoievski e Proust. Nesta obra Girard for- destruição. Para manter sua intuição antro-mulará um dos conceitos-chave de sua teoria: pológica, Girard precisou compreender comoo de “desejo mimético”, contraposta à “mentira foi possível a sobrevivência humana na suaromântica” que supõe a autonomia do sujeito. origem, ou seja, como a espécie humana con-Conseqüência da modernidade, o romantismo seguiu conviver com sua tendência à violênciapostula a idéia de um sujeito radicalmente autô- e evitar a sua destruição. E ele consegue essanomo e independente, com idéias e desejos úni- compreensão na análise dos ritos e dos mitos.cos. A teoria do desejo mimético põe em che- Para ele, a origem dos ritos e dos mitos é a so-que esta idéia, concluindo que o desejo sempre lução encontrada pela comunidade humanafoi mimético, imitativo. A autonomia do sujeito para evitar os efeitos desastrosos de sua violên-foi somente uma ilusão, o desejo humano conti- cia. A origem da religião se explica pela análisenua mimético1. Grandes clássicos da literatura da violência e do sagrado. Nessa perspectiva ao confirmam. religião, na origem da cultura, é a educadora Não seria exagero dizer que a atividade do desejo. Ou seja, educa a humanidade paraacadêmica de Girard é movida por essa ética conviver com seu desejo mimético.158 Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009.
  3. 3. 2 Desejo mimético e violência o verdadeiro impulso que o motiva a desejar a liberdade: parecer-se o mais possível com seu Já que estamos tratando de mimesis, vamos dono! Livre, Prudêncio se encarrega de possuirimitar a trajetória de René Girard e começar seu próprio escravo e de tratá-lo de pior manei-com uma referência à literatura, pois não po- ra da que era tratado quando escravo. O desejoderíamos deixar de citar uma cena antológica de imitação pretende saciar-se com a violência.da literatura brasileira: trata-se de uma cena do Como já indicamos, o percurso de Girard co-romance de Machado de Assis, Memórias póstu- meça pela compreensão do desejo mimético.mas de Brás Cubas, na qual relata um encontro Com essa compreensão, vem a conclusão de queentre Brás Cubas e Prudêncio. Este era escra- desejo e violência são inseparáveis. Esta será avo de Brás Cubas, mas havia adquirido sua li- posição de Girard em sua primeira obra, já ci-berdade. O protagonista do romance presencia tada, e também em A violência e o sagrado, obrauma cena que chama sua atenção: em que apresenta a primeira formulação de sua teoria antropológica. Mas Girard abre novas era um preto que vergalhava outro na perspectivas em Eu via Satanás cair do céu como praça. O outro não se atrevia a fugir; um raio e também em Um longo argumento do gemia somente estas únicas palavras: princípio ao fim. Neste último livro, ele mesmo – “Não, perdão, meu senhor; meu faz essa consideração: senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia No início, enfatizei principalmente a com uma vergalhada nova. […] Era mímesis competitiva e conflituosa. Fiz um modo que o Prudêncio tinha de isso porque foi por meio da análise de se desfazer das pancadas recebidas, – romances – nos quais a representação transmitindo-as a outro. Eu, em crian- de relações conflituosas é essencial – ça, montava-o, punha-lhe um freio na que comecei a compreender o meca- boca, e desancava-o sem compaixão; nismo mimético. Em meu trabalho, ele gemia e sofria. Agora, porém, que predomina a mímesis “má”, por assim era livre, dispunha de si mesmo, dos dizer; porém, a mímesis “boa” é bem braços, das pernas, podia trabalhar, mais importante, estou de acordo. folgar, dormir, desagrilhoado da anti- Sem esta última, não haveria mente ga condição, agora é que ele se desban- humana, não haveria educação, nem cava: comprou um escravo, e ia-lhe pa- transmissão de cultura (GIRARD, gando, com alto juro, as quantias que 2000, p. 100). de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!2 (ASSIS, 1999. p. 131-2). A análise da mímesis “boa” virá com o es- tudo da tradição judaico-cristã. Porém, tratare- É uma cena reveladora, que põe em evi- mos disso mais adiante. Como a consideraçãodência a dimensão da violência no desejo mi- da mímesis “boa” vem numa progressão, pode-mético. Trata-se de um escravo, Prudêncio, que mos considerar que ela será melhor compre-desejava sua liberdade. Após obtê-la, é revelado endida nessa mesma progressão. Não é erradoCadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009. 159
  4. 4. considerar que sem a mímesis “má” não teremos de carência as pessoas se sujeitam a comer auma boa compreensão da mímesis “boa”. Por comida que sobra dos porcos. A caracterizaçãoisso é necessário começar pela relação entre do desejo de consumir como necessidade é umadesejo e violência. Seguindo a argumentação invenção da sociedade de consumo, com vistasde Girard: “Não obstante, é preciso enfatizar a a reforçar a lógica que a sustenta.mímesis “má”, pois sua realidade continua des- A principal diferença entre instinto e dese-percebida e é sempre negligenciada, tomada er- jo é que os instintos são predeterminados, comoroneamente por comportamento não mimético, já dissemos. Não resultam de uma escolha livre,até mesmo negada pela maioria dos pesquisa- são estranhos ao tema da liberdade, mas per-dores e estudiosos” (GIRARD, 2000, p. 100). tencem ao domínio das necessidades vitais. Mas A primeira consideração a se fazer sobre uma vez saciadas as necessidades básicas, os se-o desejo é enfatizar a diferença entre desejo e res humanos estão livres para desejar, poréminstinto. Instinto é o conceito que Girard vai sem saber o que desejar. Como não são guiadosusar para classificar as necessidades humanas. por nenhum instinto na escolha concreta dosÀs vezes essa idéia aparecerá com outras classi- objetos de desejo, precisam de algum critérioficações, como “desejos primários”, “necessida- externo que diga o que é digno de ser desejado.des naturais” ou “apetites”, enfim, enfatizando Este é o dado bom do desejo. Ele é a primeirao fundamento biológico dos instintos. A carac- característica essencialmente humana.terística principal dos instintos é que eles sãopredeterminados, com o objetivo de suprir a Se os nossos desejos não fossem mi-sobrevivência pessoal e garantir a sobrevivência méticos, fixar-se-iam para sempre emda espécie. No domínio dos instintos não há objetos predeterminados, seriam umanenhuma característica essencialmente huma- forma particular de instinto. Os ho-na. Nisto não há diferença entre os seres huma- mens não seriam capazes de mudar denos e os outros seres vivos. desejo mais do que as vacas num pra- É preciso não confundir desejo e instinto, do. Sem desejo mimético não haveriamesmo que às vezes algumas semelhanças pos- liberdade nem humanidade. O desejosam gerar algumas confusões. Por exemplo, a mimético é intrinsecamente bom. Ocomida e a bebida, que são necessidades vitais, homem é uma criatura que perdeusão exploradas nas sociedades de consumo, em parte do seu instinto animal para ace-que, através das propagandas, há vários modelos der àquilo que se chama desejo. Umamostrando o que está na moda comer e beber. vez satisfeitas as suas necessidadesMas certamente alguém só poderá se permitir o naturais, os homens desejam intrinse-luxo de imitar os modelos da propaganda quan- camente, mas não sabem exatamentedo não estiver em situação de carência, quando o quê, pois nenhum instinto os guia.sua sobrevivência não estiver ameaçada. Em si- Não têm desejo próprio. Para dese-tuações de carência, as pessoas não recorrem ao jarmos verdadeiramente, temos de re-desejo mimético, mas visam somente atender correr aos homens que estão à nossasuas necessidades vitais. O premiado documen- volta, temos de lhes imitar os desejostário A ilha das flores mostra que em situações (GIRARD, 1999, p. 32).160 Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009.
  5. 5. Essa citação de Eu via Satanás cair do céu de um objeto capaz de conferir umacomo um raio é uma das primeiras vezes que plenitude de ser ainda mais total. NãoGirard se referiu ao desejo mimético como in- é através de palavras, mas de seu pró-trinsecamente bom. De fato, ele não pretende prio desejo que o modelo designa aofazer um julgamento de valor sobre a natureza sujeito o objeto sumamente desejável.do desejo mimético, mas quando diz que em Retomamos uma idéia antiga, cujasseu trabalho predomina a mímesis “má”, está implicações, no entanto, talvez sejamse referindo às praticamente inevitáveis rela- mal conhecidas: o desejo é essencial-ções entre desejo e violência. Aqui o desejo mente mimético, ele imita exatamentemimético aparece como bom não pela possi- um desejo modelo; ele elege o mesmobilidade de romper essa relação, mas por ser o objeto que este modelo (GIRARD,elemento que confere às pessoas a sua huma- 1990, p. 179-80).nidade. O desejo mimético surge, assim, comoum paradoxo: ao mesmo tempo em que é de- Girard critica os teóricos modernos porterminante para a humanização, também traz ignorarem a natureza mimética do desejo. Aoconseqüências que ameaçam a sobrevivência. não reconhecerem o desejo mimético, perma-Vejamos uma definição parecida com a última, necerão ignorantes também das suas implica-mas retirada de A violência e o sagrado, em que ções, não sendo capazes de entender a violên-Girard acentua com mais ênfase a natureza cia. A importância que Girard atribui a essaviolenta do desejo: compreensão é devido ao fato de ser ela a porta de entrada para a sua teoria. É preciso compre- Ao mostrar o homem como um ser que ender a natureza mimética do desejo para uma sabe perfeitamente o que deseja, ou, se boa compreensão da violência, sempre presente aparentemente não o sabe, como um e incompreendida na existência humana. ser que sempre tem um “inconsciente” O ser humano deseja intensamente porque que sabe por ele, os teóricos moder- se sente privado do ser. Esta é uma privação que nos talvez tenham negligenciado um nem toda a satisfação de seus instintos pode sa- domínio onde a incerteza humana é ciar. Trata-se de um vazio, em linguagem laca- mais flagrante. Uma vez que seus de- niana, um imenso e eterno vazio. O sujeito, ao sejos primários estejam satisfeitos, e se sentir privado de tal ser, tem a impressão de às vezes mesmo antes, o homem de- que o outro é dotado dele. Assim, o outro pode seja intensamente, mas ele não sabe indicar a forma de adquirir este ser. O sujeito, exatamente o quê, pois é o ser que ele sendo alguém que deseja intensamente, sem deseja, um ser do qual se sente priva- saber, porém, o que desejar, acredita estar aí a do e do qual algum outro parece-lhe causa do sentimento de privação. É necessário ser dotado. O sujeito espera que este saber desejar para adquirir o ser do qual se sen- outro diga-lhe o que é necessário dese- te privado. O outro, que deseja, parece, assim, jar para adquirir este ser. Se o modelo, indicar o que deve ser desejado, como algo ca- aparentemente já dotado de um ser paz de conferir plenitude. Assim surge o desejo superior, deseja algo, só pode se tratar mimético. O desejo é uma busca de plenitude,Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009. 161
  6. 6. mas precisa de um modelo que lhe indique o É preciso enfatizar o fato de que a vio-que deve ser desejado. Se soubesse exatamen- lência é uma conseqüência imediata do desejote o que desejar, esse desejo não seria mais que mimético. Não devemos considerá-la como umuma forma particular de instinto. fato acidental, assim como não podemos consi- A primeira relação do desejo é imitativa, e derar acidental a convergência de dois desejosa conseqüência inevitável desta é a relação com- para um mesmo objeto. Neste caso, o objeto depetitiva do desejo. Por imitar o desejo do outro, desejo seria o deflagrador da violência, e seriahá uma convergência de dois desejos sobre um também o responsável por despertar o desejo.mesmo objeto. Assim, a competição conflituosa Mas estamos insistindo que a natureza do de-é inevitável, pois “Dois desejos que convergem sejo é o mimetismo. Devemos evitar a interpre-para um mesmo objeto constituem um obstá- tação dos conflitos a partir dos objetos.culo recíproco. Qualquer mimesis relacionadaao desejo conduz necessariamente ao conflito” A rivalidade não é o fruto da con-(GIRARD, 1990, p. 180). vergência acidental de dois desejos Essa relação conflituosa é complexa na para o mesmo objeto. O sujeito desejadinâmica das relações sociais, porém não é di- o objeto porque o próprio rival o dese-fícil de ser compreendida e explicada. Girard ja. Desejando tal ou tal objeto, o rivalenfatiza que a causa das rivalidades são igno- designa-o sujeito como desejá-lo. O ri-radas porque as semelhanças invocam uma val é o modelo do sujeito, não tanto noidéia de harmonia (GIRARD, 1990, p. 181). plano superficial das maneiras de ser,Considera-se positiva a semelhança dos gos- das idéias, etc., quanto no plano maistos, o fato de que duas pessoas apreciem as essencial do desejo (GIRARD, 1990,mesas coisas; todavia a semelhança de desejos p. 180).ignora o fato de que o desejo precisa saciar-sede alguma forma. A convergência de dois de- Os papéis que caracterizam o princípiosejos para um mesmo objeto provoca o confli- da relação mimética são de modelo e discípu-to, pois um mesmo objeto não pode pertencer lo. Com a rivalidade que surge, esses papéisàs duas pessoas que o desejam ao mesmo tem- se transformam em rival e sujeito, para usarpo. Esses conflitos tendem ainda a se estender, os termos de Girard. No princípio, modelo epois a relação pode deixar de ser triangular discípulo não reconhecem essa transição depara envolver mais pessoas, sucessivamente. papéis, ou seja, não reconhecem o surgimentoA conseqüência é lógica, pois se duas pessoas da rivalidade recíproca. O modelo, mesmo en-estão disputando um mesmo objeto de desejo, corajando a imitação do desejo, o que se podeos observadores deste conflito só podem con- considerar como um fato positivo, em termoscluir que se trata de um objeto muito digno de vaidade, se surpreende com a concorrênciade ser desejado, e passam a desejá-lo também. que surge com a convergência do desejo, e in-Assim, aumentam a relação conflituosa. Aqui terpreta essa concorrência como uma traiçãojá temos uma primeira indicação do contágio do discípulo. O discípulo, por sua vez, in-mimético e da voracidade da violência que se terpreta na concorrência uma censura e umadesencadeia e nunca se sacia. humilhação, pois o modelo não o considera-162 Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009.
  7. 7. ria digno de possuir tal objeto de desejo. Essa Há aqui um processo que se alimen-relação de modelo e discípulo é característica ta de si mesmo e que se exacerba edas relações humanas. Mas é necessário com- simplifica incessantemente. Semprepreendê-la bem: um discípulo escolhe um mo- que o discípulo acredita encontrar odelo por considerá-lo dotado de um ser do qual ser diante dele, esforça-se por atin-ele, o discípulo, se sente privado. Todavia essa gi-lo, desejando o que o outro lhesensação de privação é uma característica es- designa; e inexoravelmente ele en-sencial humana que, mesmo aquele que serve contra a violência do desejo adverso.de modelo numa determina relação partilha. Por um processo de abreviação aoO papel de modelo não é definitivo. Alguém mesmo tempo lógico e demente, eleque serve de modelo numa relação certamente se convence rapidamente que a pró-terá seus próprios modelos em outras relações. pria violência é o signo mais seguroDo mesmo modo, a relação entre modelo e do ser que sempre se esquiva. A par-discípulo não é fixa. Pode se transformar. O tir de então, violência e desejo per-próprio discípulo pode servir de modelo ao manecem ligados (GIRARD, 1990,seu próprio modelo. “Evidentemente, a posi- p. 182-3).ção de discípulo é a única essencial. É atravésdela que deve ser definida a situação humana O desejo mimético é o detonador das rela-fundamental” (GIRARD, 1990, p. 181). ções conflituosas, e ele tende mesmo a desapa- Essa relação de modelo e discípulo não recer conforme o desenvolvimento da violência.tarda a se transformar numa relação confli- Melhor dizendo, o desejo não desaparece, mastuosa, de rivalidade e sujeito, que tem inicio o desejo do objeto que gera o conflito dá lugarna própria contradição que a caracteriza. O ao desejo de violência. O objeto de desejo inicialimperativo à imitação acompanha sempre, desaparece e dá lugar à violência, ou seja, a vio-inevitável e paradoxalmente, o imperativo à lência torna-se o objeto de desejo. Mais ainda,não imitação; pois mesmo que a imitação seja conforme os conflitos atinjam o nível da crise,lisonjeira num primeiro momento, a concor- “a violência é ao mesmo tempo o instrumento, orência conseqüente ameaça a posse do objeto objeto e o sujeito universal de todos os desejos”de desejo. Assim, o modelo percebe que a não (GIRARD, 1990, p. 179).imitação não colocaria em risco a satisfação de Da mesma forma que insistimos na ne-seu desejo. A relação de concorrência é inter- cessidade de diferenciar desejo de instinto,pretada pelo discípulo como uma condenação convém ressaltar que a violência não se explicapor parte do modelo. Esta condenação parece- em termos de instinto. Girard chama a aten-rá injusta e absurda, mas será ao mesmo tem- ção para o fato de que animais são individual-po confusa, pois o discípulo não deixará de mente dotados de mecanismos reguladores daconsiderar a autoridade do modelo, e, assim, violência que favorecem a perpetuação da es-se questionar se essa condenação não seria jus- pécie. Podemos observar que tais mecanismostificável. O não reconhecimento da rivalidade impedem quase sempre que os combates, nestesrecíproca e as confusões que cercam os confli- casos, levem à morte. Somente em referência atos tendem a alimentar a violência. tais mecanismos, é legítimo utilizar a palavraCadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009. 163
  8. 8. instinto (GIRARD, 1990, p. 179). Tal não é o aqui justamente do processo de humanização,caso do que acontece com seres humanos. que não ocorre dissociado do processo de so- cialização. Não há como ignorar que as con- A idéia de um instinto […] não passa seqüências dos desejos e das rivalidades mi- de uma posição mítica de recuo, um méticas, do contágio mimético da violência, e combate de retaguarda da ilusão an- da crise mimética que então se instauram têm cestral que impulsiona os homens a efeitos devastadores. Surgem questionamentos colocar sua violência fora deles mes- inevitáveis, tais como: como foi possível a socia- mos, transformando-a em um deus, lização se considerarmos a inevitabilidade desse um destino, ou um instinto, pelo qual caos? Como foi possível que os seres humanos eles não são mais responsáveis e que criassem uma sociedade humana a partir de um os governa de fora. Trata-se, mais processo essencialmente humano que conduzi- uma vez, de não encarar a violência, ria à sua própria destruição? Teria sido neces- de encontrar uma nova escapatória, sário um mecanismo que impedisse os efeitos de arranjar, em circunstâncias cada catastróficos e aniquiladores desse caos instau- vez mais aleatórias, uma solução rado. O simples fato de existirmos hoje revela sacrificial alternativa (GIRARD, que de fato esse mecanismo foi criado, assim 1990, 179). como revela também a sua eficácia. Associar violência a um instinto nos im-pediria de compreender a sua origem, bem 3 A educação do desejocomo as suas implicações e seus desenvolvi-mentos. Gerada pelo desejo mimético, a riva- A teoria de Girard é mais extensa e com-lidade recíproca gera os conflitos que desen- plexa do que o apresentado até então. Não te-cadeiam um ciclo de violência, um processo mos espaço para uma abordagem completa deque se alimenta de si mesmo, como observou sua obra, até porque sua análise se concentraGirard. As rivalidades recíprocas e as relações nas sociedades primitivas, nas quais a religiãoconflituosas, ao mesmo tempo em que são ali- desempenhava o papel que queremos focar nes-mentadas pela violência, a alimentam cada vez te artigo: o da dimensão pedagógica. Para estemais. A violência se mostra com uma voraci- autor, o papel pedagógico da religião era o dedade insaciável e tende a ganhar proporções educar o desejo das pessoas para que não su-cada vez maiores à medida que vai contagian- cumbissem à voracidade da violência. E con-do cada vez mais e mais pessoas, fenômeno siderando o desejo como essencialmente mi-que Girard denomina de contágio mimético. mético, algumas iniciativas, chama a atençãoEsse contágio mimético instaura o caos, a crise Girard, foram mais bem sucedidas, como a tra-da violência. dição judaico-cristã, que compreende o meca- A esta altura, convém ressaltar que, em- nismo do sacrifício expiatório como solução pa-bora o desejo mimético seja uma característica liativa, e propõe, lucidamente, modelos a teremessencialmente humana e as suas implicações imitados desejos que os livrem das armadilhassejam fenômenos universais, estamos tratando do desejo mimético.164 Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009.
  9. 9. Caminhando em direção da discussão so- encontrar alternativas de trabalhobre a educação, o pensamento deste antropólogo que propiciem em contexto favorávelainda foi pouco estudado. Mas queremos propor para que isso ocorra? […] Superaralgumas portas, já abertas, por onde esses estu- um entendimento fatalista da históriados podem entrar e dar sua contribuição. necessariamente significa descobrir o Citamos um texto de Maria Luiza Guedes, papel da consciência, da subjetividadepreparado para uma publicação do governo na história (FREIRE, 2001, p. 37).de São Paulo, no qual ela dialoga com Girard,entre outros, para analisar a violência na esco- A educação do desejo resolveria um pro-la. Guedes, todavia, analisa os estudos sobre o blema que Paulo Freire apontou como um dosmecanismo do bode expiatório, desconsiderando principais obstáculos para os processos de liber-as análises nas quais Girard analisa “soluções” tação: o desejo do oprimido de se tornar igual aopara o problema da violência. Segundo a auto- opressor. Poderíamos considerar também que ara, “a escola, assim como outras instituições or- proposta de educação do desejo, ao exigir a com-denadoras, tem como função manter a ordem. preensão dos mecanismos do desejo mimético,Para isso, disciplina só se consegue por meio de possibilita a superação dos mecanismos sacrifi-ações violentas e excludentes, com a produção de ciais, que nas sociedades modernas, ao invés dovítimas expiatórias” (GUEDES, 2004, p. 76). A rito religioso bode expiatório, é uma das causasautora analisa somente uma obra de Girard, A para os mecanismos de exclusão social.violência e o Sagrado, na qual ele ainda não havia Mais especificamente ao analisarmos asdesenvolvido essas questões que citamos, e assim sociedades capitalistas de recorte neoliberal,considera a disciplina escolar como uma violên- percebemos que a exploração e a manipulaçãocia necessária para o processo educativo, assim do desejo são algumas das principais marcas dacomo era o mecanismo da vítima expiatória. cultura de consumo, acentuando os mecanis- Mas é em Paulo Freire que encontramos mos de exclusão social e de violência, ao acirrara melhor possibilidade de contribuições de a competição e o individualismo.Girard para a educação, em nosso entendimen- Desta forma, a educação do desejo é evi-to. Numa obra póstuma, é registrada uma en- denciada como projeto de libertação, mostran-trevista de Freire que citamos abaixo: do que a consideração e o tratamento da temá- Interesso-me pela criação de uma pe- tica, em que pese as contribuições Girard, são dagogia do desejo. Como educadores necessárias e urgentes. progressistas, uma de nossas maiores tarefas parece dizer respeito a como Notas gerar nas pessoas sonhos políticos, 1 Uma das críticas ao conceito de desejo mimético é a sua oposição à autonomia do sujeito, um dos objetos anseios políticos, desejos políticos. das pedagogias críticas. Girard, entretanto, não é A mim, como educador, é impossível contrário ao ideal de liberdade, mas reconhece os seus limites, considerando que livre é o sujeito que construir os anseios do outro ou da compreende o mecanismo de seu desejo. outra. Essa tarefa cabe a ele ou a ela, 2 ASSIS, Machado de. (1881). Memórias póstumas de não a mim. De que modo podemos Brás Cubas. p. 131-2.Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009. 165
  10. 10. ______. Um longo argumento do princípio ao fim.Referências Diálogos com João Cezar de Castro Rocha e PierpaoloASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Antonello. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.Cubas. São Paulo: Klick, 1999. ______. O Bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São GUEDES, Maria Luiza. A escola: território sagrado,Paulo: Unesp, 2001. democrático, e agora violento? In: COSTA, Adriano, etGIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: al. (orgs.). Desenvolvimento da educação. Diretoria deUNESP, Paz e terra, 1990. projetos especiais. São Paulo: FDE, 2004.______. Eu via Satanás cair do céu como um raio.Lisboa: Instituto Piaget, 1999.166 Cadernos de Pós-Graduação – Educação, São Paulo, v. 8, p. 157-166, 2009.

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