Fronteiras do Tempo: Revista de Estudos Amazônicos
ARTIGOS
Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013.
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Fronteiras do Tempo: Revista de Estudos Amazônicos, nº 4, 2013, p. 107-138.
PERIODISMO LORIGUENSE:
A VOZ DOS EXPATRIADOS D...
Geraldo Sá Peixoto Pinheiro
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esforço que representam para manterem viva uma determinad...
Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras...
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patrícios residentes naque...
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Além dessas particularidades, outro dado importante é que...
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José Martins de Pina, Alba...
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daqueles que em nada “tem ...
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simples dever patriótico e àqueles que se queriam politic...
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feitos “heroicos” da colôn...
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Com a exceção de dois pequenos artigos, um sobre a “Illum...
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ideais de vida, em geral r...
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infância, e que sempre evitava fazer proselitismo sobre p...
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O apelo ao mito histórico ...
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A quantia existente para tal fim não é de todo insignific...
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formação de uma típica com...
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Do outro lado, uma voz vibrante, toda nupcial, que parece...
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compatrícios residentes em...
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Distinguindo-se entre tantas colónias que se disseminam p...
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recursos e identidade”15. ...
Geraldo Sá Peixoto Pinheiro
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Francisco Ferrer, comungava com ideais antimonarquicos e ...
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vergonha o dizemos, libert...
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ordem religiosa que nutria particular ódio mortal pela su...
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Crítico ferrenho do cleric...
Geraldo Sá Peixoto Pinheiro
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hoje, os srs. Pina & Ferreira, da casa commercial A Brasi...
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É pois chegada a ocasião d...
Geraldo Sá Peixoto Pinheiro
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dos loriguenses. No rio Solimões, José Mendes Cabral era ...
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levou ao fracasso o Echos ...
Geraldo Sá Peixoto Pinheiro
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daqueles outros loriguenses que tomavam a consciência que...
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HISTORY. Loriga, Serra da Estrla Portugal, Elementos de Estudo. Fronteiras do Tempo: Revista de Estudos Amazônicos - nº 4, 2013 - Periodismo Loriguense, A Voz dos Expratiados das Serras na Planice Amazônica. Brasil. Trabalho do Senhor Professor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, M. D. Professor Doutor da Universidade Federal do Amazonas, Brasil, Doutor em História pela Universidade do Porto.

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  1. 1. Fronteiras do Tempo: Revista de Estudos Amazônicos ARTIGOS
  2. 2. Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 106
  3. 3. Fronteiras do Tempo: Revista de Estudos Amazônicos, nº 4, 2013, p. 107-138. PERIODISMO LORIGUENSE: A VOZ DOS EXPATRIADOS DAS SERRAS NA PLANÍCIE AMAZÔNICA _______________________________________________________ *GERALDO SÁ PEIXOTO PINHEIRO A Vila de Loriga, situada nas encostas da Serra da Estrela, Portugal, está, hoje, fartamente referenciada no universo virtual da Internet através de várias comunidades e redes sociais de relacionamentos, como homepages, blogs, links, perfazendo muitas dezenas de páginas oficiais ou não que incluem, segundo consta em alguns casos, “os melhores sites da terra de Viriato”. Na maioria dessas páginas eletrônicas, em geral direcionadas para saciar a curiosidade turística daqueles que são atraídos pelo paisagismo da região, é possível encontrar um conjunto relativamente variado de informações históricas, algumas das quais sobre a e/imigração loriguense para o Brasil no final do século XIX e início do século XX, notadamente sobre aqueles que se dirigiram para as cidades amazônicas de Manaus e Belém do Pará. Em que pese o caráter um tanto arbitrário dessas informações, na maior parte das vezes episódicas, fragmentadas, quase nada revelando de denso sobre dimensões concretas dos processos históricos que envolveram e/ou foram protagonizadas por migrantes loriguenses, elas guardam a sua importância relativa e devem ser louvadas pelo grande * Professor da Universidade Federal do Amazonas. Doutor em História pela Universidade do Porto.
  4. 4. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 108 esforço que representam para manterem viva uma determinada memória. Da mesma forma, esse tipo de informação também está presente em alguns jornais da chamada imprensa regional, como por exemplo, os periódicos Garganta de Loriga, um informativo regional da Serra da Estrela, e Portas da Estrela, de Seia1. Na verdade, o processo migratório de lorigenses no final do século XIX e início do século XX ainda não recebeu a atenção merecida dos historiadores, permanecendo uma grande lacuna na produção acadêmica de base historiográfica, não obstante a força relativa que esse processo exerceu em termos de fluxo e refluxo migratório, com inegável importância para os estudos históricos e etno-históricos sobre interações sociais e identitárias nas cidades planiciárias de Manaus e Belém, e sobre os desdobramentos que o mesmo provocou na vida econômica, política, sociocultural e paisagistica da própria Vila de Loriga, na época, uma típica e acanhada aldeia portuguesa. Das poucas tentativas conhecidas, ressalta-se o artigo do escritor e jornalista loriguense Eugênio Leitão de Brito, residente na cidade de Belém do Pará, que, preocupado em publicizar alguns aspectos históricos que marcaram a emigração dos compatrícios nas cidades de Manaus e Belém, antes e depois da crise da borracha, reuniu determinadas considerações sobre “Os Loriguenses na Amazónia”, pelas quais evidencia, também, a sua importância, mesmo que a expressividade desse processo migratório ainda não tenha sido devidamente quantificada em termos demográficos. Por ele, fica-se sabendo que: Nos fins do século passado e nas primeiras décadas do actual, Manáos e Belém, eram as duas localidades que possuíam a maior população loriguense depois da terrra natal. Durante muito tempo, estas cidades foram os destinos de quase todos os rapazes que ao atingir a idade de trabalho, não conseguiam colocação na industria local ainda um tanto absoleta, enquanto a agricultura era pouco tentadora, porque não tinha grandes possibilidades em terrenos pobres e muito acidentados. Daí, a emigração contínua para o norte do Brasil que tinha ligação marítima de navios mistos de nacionalidade inglesa, portuguesa, alemã, brasileira e, em certa época, até italiana. As capitais dos Estados Pará e Amazonas, foram as cidades de maior importância econômica do país, no período áureo da borracha também chamada de “ouro negro”, que chegou a constituir o terceiro produto de exportação, logo a seguir ao café e ao açucar, no total do país.2 Para além destas conclusões de Eugênio Leitão de Brito, outro forte indício que sugere um acentuado grau de importância sobre a diáspora loriguense na Amazônia é a grande quantidade de jornais que um pequeno grupo de loriguenses letrados criou e tentou manter nas cidades de Belém e Manaus, com o objetivo de fortalecerem suas redes de solidariedade e afetividade grupal, como elemento importante de promoção social entre os 1 No Garganta de Loriga, são exemplos as edições de abril de 2000, com a matéria “Loriga e Brasil: A propósito das comemorações dos 500 anos da descoberta da terra de Vera Cruz”; de junho, com o artigo de Adelino Manuel M. de Pina, “Emigração e um Alerta”, e o artigo de António Conde, “Se não forem eles (os loriguenses) a tomar a iniciativa, nada feito!”; julho, com os artigos “Emigração esse fenômeno”, de Adelino Manuel de Pina, e “Como vejo Loriga”, simplesmente assinando por Maria e a notícia sobre a “Festa de N. S. da Guia: A grande festa de verão em Loriga”; outubro, com a notícia da “Comenda de Mérito para o insigne loriguense Eugénio Leitão de Brito”. No Portas da Estrela, edição de 15 de agosto de 1981, com o artigo sobre “Os Loriguenses na Amazônia” de Eugênio Leitão de Brito. 2 Eugênio Leitão de Brito. “Os Loriguenses na Amazônia”. In: Portas da Estrela. Seia, 15 ago. 1981.
  5. 5. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 109 patrícios residentes naquelas cidades, que também reclamam o trabalho historiográfico neste campo particular de estudos. Tudo indica, como já foi observado no capítulo sobre os jornais editados pela colônia portuguesa em Belém do Pará, que a primeira experiência periodística lorigeunse foi realizada no início do século XX, com a publicação no dia 27 de outubro de 1901 do jornal O Patriota, redigido por António Fernandes Mendes e sob alegada responsabilidade da “mocidade loriguense”. Apesar de terem circulado onze números d’O Patriota entre os anos de 1901 e 1902, não foi possível localizar um único exemplar deste jornal nos acervos dos principais centros documentais brasileiros e portugueses, inclusive na própria cidade de Loriga3. Dessa forma, todas as informações disponíveis sobre a sua existência são oriundas das fontes secundárias, notadamente o já citado catálogo organizado por Manoel Barata. Neste, é possível perceber-se, ainda, que, mesmo tendo sido um jornal impresso nas dependências tipográficas do Diário Oficial do Estado do Pará, tudo leva a crer que se trata de um tipo de periódico dirigido exclusivamente para a colônia loriguense residente naquela cidade e com um programa editorial acentuadamente “bairrista”, razão pela qual ostentava em todas as primeiras páginas das suas edições, o pequeno dístico: “O’ nossa terra querida,/O’ terra de nossos paes”, versos extraídos de um poema que informam ser da autoria do “Dr. Trindade Coelho”. No início do ano de 1901, coincidentemente ou não, é também editado o primeiro jornal em Loriga, no dia 2 de fevereiro, com o título A Estrella D’Alva. A iniciativa vinha da parte de dois loriguenses, Antônio Mendes Lages (redator principal), e José Fernandes Carreira (editor responsável). Através de uma informação inserida no catálogo de João Batista Faria e Souza, sabe- se, também, que no dia 26 de setembro de 1905 foi lançado, em Manaus, mais uma iniciativa jornalística dos loriguenses com a publicação do número único do jornal Loriga Literraria. Um pouco antes do lançamento do Loriga Litteraria, já havia sido editado no dia 6 de agosto, também em Manaus, o número único do jornal 6 de Agosto, alusivo à principal efeméride de Loriga. Mesmo que estes dois jornais não tenham sido localizados, é possível perceber através de outras fontes que, neste ano de 1905, a grande maioria de loriguenses já se encontrava vivendo uma fase bastante promissora de suas vidas nas cidades de Manaus e Belém, tendo alguns, inclusive, reunido consideráveis fortunas, como disse Eugênio Leitão de Brito em seu artigo acima referenciado. A colónia loriguense em Manaus, foi muito florescente naquele período, quando diversos dos seus componentes alcançaram situações económicas desafogadas e muito contribuiram para o progresso de nossa terra, quer construíndo boas casas residenciais para a época, quer promovendo a realização de diversos melhoramentos públicos. O mais importante, foi, sem dúvida, o abastecimento de água à Vila, através da construção de magníficos fontenários, em bairros diferentes, os quais ostentam placas de mármore a lembrar a posteridade que foram legados pela “Colónia Loriguense de Manaus – anos de 1905-1909”. 3 A pesquisa em Loriga foi realizada em meados de outubro de 2000, quando contei com os prestimosos auxílios dos loriguenses Joaquim Gonçalves Brito e Alvaro Pinto Assunção. Na oportunidade, foi importante o apoio institucional recebido pelo presidente e pelo tesoureiro da Junta da Freguesia, respectivamente José Manoel Almeida Pinto e Luís Manoel Pereira Fernandes.
  6. 6. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 110 Além dessas particularidades, outro dado importante é que, do ponto de vista da organização formal entre os loriguenses, a Comissão de Melhoramentos em Loriga, por eles criada no início do século XX na capital amazonense com a finalidade de promover o desenvolvimento econômico e uma série de melhoramentos urbanos na terra natal, já apresentava, em 1905, crescente vitalidade financeira, com significativo volume de recursos então reunidos através das diversar doações específicas que os loriguenses faziam para executarem as mais váriadas iniciativas do gênero. Neste particular, a leitura de alguns balanços da “Comissão Central da Colonia Loriguense em Manáos” não deixam dúvidas que a referida organização já contabilizava, naquele ano, recursos cada vez mais crescentes e os valores arrecadados continuavam sendo transferidos periodicamente para Loriga sem maiores dificuldades.4 Não resta dúvida de que estas remessas representavam uma importante contribuição para a economia interna de Loriga, possibilitando significativas transformações no seu espaço urbano. Um bom exemplo é que, ainda, no correr do ano de 1905, os valores para a compra da tão almeijada “Cruz de Prata” e da “Caldeirinha” para o Santíssimo Sacramento da igreja de Nossa Senhora da Guia já estavam totalizados, mesmo que só tenham sido remetidos posteriormente pelos loriguenses de Belém do Pará. Depreende-se, por essa doumentação, que a riqueza auferida por alguns loriguenses, em geral fortemente comprometidos com os ideais de progressos e desenvolvimento econômico, motivava novas iniciativas. Em Manaus, avançavam favoravelmente as subscrições para a construção das fontes e canalização da água. No campo do jornalismo, surge, em 1º de agosto de 1906, o número único do O Loriguense, de propriedade do loriguense Abílio Freitas de Azevedo, e editado com a colaboração dos patrícios José Luiz Monteiro e Afonso Duarte, na condição de redatores principais. Por outro lado, Mateus de Moura Galvão, Joaquim Gomes de Pina, Augusto Luís Mendes e Antônio Cabral já haviam reunido recursos para a criação da Banda de Música, festivamente inaugurada em Loriga um ano depois, no dia 1º de julho de 1906.5 Em 1907, sob a influência de Jeremias Pina, é criado, em Manaus, o “Grupo Premio Escolar Loriguense”, com o objetivo de estimular e prestar auxílio aos jovens estudantes loriguenses, “concedendo annualmente premios vantajosos aos alunos que frequentam as escolas de Loriga, que mais distincção obtenham nos exames e fornecendo livros aos alunos pobres”. Tinha como sócios honorários Jeremias Pina, João Marques da Fonseca, então professor aposentado, Pedro d’Almeida e Emilia Augusta, professor e professora em exercício, além do Dr. Monoel da Motta Veiga Casal, subinspetor escolar. Eram seus sócios contribuintes em Manaus: Emygdio Alves Nunes de Pina, Antonio Ambrosio Pina, José Ambrosio de Pina, Abílio Diogo Gouveia, Abílio Pinto Martins, Joaquim de Pina Monteiro, Antonio Duarte dos Santos, Alfredo de Moura Frade, João de Moura Pina, 4 Cópias de algumas destas atas e balanços da Comissão Central da Colônia Loriguense em Manaus, foram gentilmente cedidas por Eugênio Leitão de Brito. 5 A Banda de Música, posteriormente, Sociedade Recreativa e Musical Loriguense, foi fundada em 1º de julho de 1906, por Mateus de Moura Galvão, Joaquim Gomes de Pina, Augusto Luís Mendes e Antônio Cabral. O instrumental, no valor de 456 mil reis, adquirido por subscrição que se fez entre os loriguenses residentes nas duas capitais amazônicas. Os primeiros ensaios, sob a regência do espanhol João Martinez, foram feitos na casa de Joaquim Gomes de Pina, também responsável pela compra do primeiro fardamento. Cf. Boletim da Sociedade Recreativa e Musical Loriguense. Vouzela, 16 fev. 1992.
  7. 7. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 111 José Martins de Pina, Albano de Mello, José Pinto Matheus, João de Moura Pina, e em Belém do Pará: Manoel Nunes Ferreira, Antonio Diogo Gouveia, José Fernandes Maurício, Augusto Simões Carril, Antonio Aparício Martins, Alexandre de Moura Galvão, Antonio de Moura Lemos, Manoel dos Santos Silva, Antonio Duarte Pina e João de Moura Pina. 6 Não resta dúvida que a euforia da economia da borracha na Amazônia contagiava as ações filantrópicas e patriótica de vários loriguenses e neles refletia, quer individualmente ou em grupo, quer indistintamente entre ricos ou pobres, como sintetizou Eugênio Leitão de Brito. Foi um grupo de Loriguenses do Pará quem custeou a construção do belíssimo coreto de pedra e ferro que existe no Largo de Nossa Senhora da Guia, assim como também foram os conterrâneos aqui residentes que ofereceram o artístico altar de mármore que guarnece a capela da Padroeira dos Emigrantes. Deve-se também, aos loriguenses de Belém, a oferta à Igreja paroquial, da belíssima Cruz de Prata, trabalho do famoso escultor Teixeira Lopes. A colónia desta cidade, também contribuiu para o fornecimento da luz elétrica ao torrão natal, cujo contrato com a Hidrelétrica da Serra da Estrela, criada pelo génio empreendedor de Marques da Silva, foi assinado pelos conterrâneos Augusto Luís Mendes, José Mendonça Cabral e Augusto Moura Galvão, loriguenses residentes no Pará, naquela altura eventualmente em Loriga num período de férias. 7 Voltando para o campo das experiencias jornalísticas dos loriguenses na Amazonia, cinco anos depois da publicaçao d’O Patriota, e ainda em contexto de visível efervecencia economica na cidade de Belem, outro “Orgao da Mocidade Loriguense (...) surge no amphitheatro das lides jornalisticas”, no dia 28 de outubro de 1906, com o título Echos de Loriga e o subtítulo “Orgao da Colonia Loriguense no Para”, sob a responsabilidade de Jeremias Pina, seu redator principal, e a colaboraçao de Jose Lopes de Brito e Serafim da Mota, dentre outros.8 Com uma plataforma editorial bem definida, o jornal se propoe ter “por missao o combate aos desregramentos das cousas de Loriga”, alem de afirmar em seus objetivos programaticos que: Combatera os erros passados, os presentes e os que advierem no futuro, e pugnara pelo levantamento de ideas na vanguarda do progresso local. Estara sempre a frente dos humildes e dos opprimidos e sustentara no seu posto de honra, na polemica, a derrocada dos que forem contra a missao que ora emprehende. E por isso, os “ECHOS DE LORIGA” abraça a todos os loriguenses que o receberem com effusao d’alma, ao incetar, hoje, uma missao arriscada e difficil de contentar a todos. Uma das características que ressalta no Echos de Loriga e que ele vem formatado em dimensoes de um pequeno tabloide, com quatro colunas e quatro paginas, trazendo varias materias escritas por diferentes colaboradores patrícios, incluindo espaço na ultima pagina para a publicaçao de um “folhetim”. Surpreende tambem neste jornal a coerencia de 6 A Voz de Loriga. Manaus, 5 jun. 1909. 7 Eugênio Leitão de Brito. “Os Loriguenses na Amazônia”. In: Portas da Estrela. Seia, 15 ago. 1981. 8 O jornal Echos de Loriga não se encontra referenciado em nenhum dos catálogos e instrumentos de pesquisa compulsados e seu acesso só foi possível através de uma fotocópia precária, em papel “A 4”, gentilmente oferecida pelo loriguense Eugênio Leitão de Brito.
  8. 8. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 112 princípios que permeia todo o seu conteudo editorial, inclusive quando comparado com os objetivos propostos, a sugerir que ele vem a publico como fruto da indignaçao de um grupo de imigrantes loriguenses que se diz expressar, a partir “da alma patriotica dos nobres loriguenses que mourejam n’estas plagas Equatoriaes do Brazil”, contra alguns patrícios de alem-mar que ousam qualificar impiedosamente de “homens arbitrarios”, expressao do “azarrague da hipocrisia e da politica nefasta” ou, quando nao, pela expressao indignada de “homens grandes de Loriga, que a todo tranze procuram um tropesso ao progresso originado pelos Loriguenses que mourejam no Brazil”, segundo consta, pela grave razao de manterem “sempre a opressao do povo de Loriga que galga as ameias d’um povo martyrisado e humilde”. No centro de todas estas críticas apresentadas pelo periodico, esta o vigario da vila, tido pelos editores do Echos de Loriga como um dos fortes símbolos do conservadorismo e da resistencia aos projetos de modernizaçao entao protagonizados pelos loriguenses residentes na Amazonia, que, de alguns anos antes, haviam se lançado na luta para “que sejam ali introduzidos os aperfeiçoamentos que a arte e a thecnica moderna aconselham”, enquanto “um attestado vivo de patriotismo”. A principal divergencia que ora apontavam, nao era mais ditada pelas posiçoes contrarias que o paroco manifestou em relaçao a criaçao da banda de musica e da construçao do coreto na praça da igreja de Nossa Senhora da Guia. O fato novo, agora, era pelo controle da fanfarra que ele passou a exercer de forma tal que “com sua MUSICA, foi desorganisando a musica”, expulsou o maestro e manietou o diretor da banda, razao pela qual ter atraído a “revolta patriotica” de Jeremias Pina que se achava inconformado com os acontecimentos e com pleno direito de contestar-lhe publicamente: Ademiramos, e o director ceder aos deseijos do vigario de Loriga. O director sabe milhor do que nos, que se Loriga possue uma musica, deve-se a sua iniciativa, e o vigario de Loriga foi o primeiro dos homens grandes a refurtar-se a esse emprehendimento. Portanto, ao director competia ser mais conciso n’esse caso, e nao permitir a espulsao do mestre da musica por forma tao violenta. Por outro lado, a “missão arriscada e difícil de contentar a todos”, a qual Jeremias Pina temia enquanto redator do Echos de Loriga exigia algum tipo de moderação retórica não só da sua parte, mas também dos demais colaboradores patrícios preocupados com um possível isolamento que eventualmente determinasse o insucesso do jornal. Na verdade, tudo leva a crer que havia uma nítida zona de discórdia, uma verdadeira competição entre loriguenses daquém e dalém-mar que colocava em causa a unidade de um sentimento de solidariedade partilhado entre os patrícios, principalmente quando as questões resvalavam para o campo da política da cultura e das ideologias sociais em curso, em especial aquelas que diziam respeito às obrigações e deveres patrióticos de ambos os lados para com a terra natal.9 Neste caso, o próprio Jeremias Pina torna-se prudente ao escrever um artigo incisivo sobre “O valor dos homens”, criticando a falta de compromisso e responsabilidade sociais 9 Para uma compreensão do atual debate do estudo da cultura como política e da etnicidade como dimensão que se vincula às ideologias sociais e aos nacionalismos, é sugestivo o artigo de Katherine Verdery sobre “Etnicidade, Nacionalismo e a Formação do Estado”. (VERMEULEN; GOVERS, 2003: 44-74).
  9. 9. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 113 daqueles que em nada “tem concorrido para a desopressão de um povo esmagado ao poder dos homens ricos e do triste destino que lhes traçaram”, censura que compensa com um contraponto um tanto gongórico feito para enaltecer as ações solitárias de algumas personalidades do porte de Joaquim Gomes de Pina, um dos principais idealizadores da banda de música, pessoa que, em seu entender, era uma “alma nobre e exemplar”, característica típica de “homem que a labuta na vida pelos seus e os outros é o ideal que abraça, é de um coração extremoso e bemfazejo e de uma alma diamantina e grandiosa”. De igual forma, também, procedeu o seu confrade José Lopes de Brito em seu artigo de primeira página enaltecendo a determinante influência dos loriguenses residentes na Amazônia no que diz respeito às grandes transformações que estavam se processando nos últimos anos em Loriga. Usando o clássico diapasão de “dar a Cesar o que é de Cesar” e “justiça a quem entendermos que a mereça”, destaca as ações que estão sendo realizadas por diversos loriguenses, fossem eles “humildes anônimos”, “humanitario capitalista”, ou “benemérito e abastado proprietario”, a exemplo de João Marques da Fonseca, Augusto Luiz Mendes, os irmãos Leitões, Abilio Luiz de Brito Freire e de Emilio Mendes dos Reis. Este último, tido como “padrão de gloria”, porque “todos os pobres lhe reconhecem a grandeza d’alma”. Para além destes destacados “exemplos de patriotismo”, José Lopes Brito reconhece que a grande participação fica mesmo por conta dos “humildes e anônimos” loriguenses, mais especificadamente daqueles: (...) filhos de Loriga, com especialidade os que rezidem no Brazil, [que] têm concorrido de um modo extraordinário para que sejam ali introduzidos os aperfeiçoamentos que a arte e a técnica moderna aconselham. É assim que, divididos em pequenos grupos, já conseguiram erigir, na praça de N. Senhora da Guia, um soberbo pavilhão destinado á musica em épocas de festa. E enquanto uns se ocupavam com esta obra que é um attestado vivo de patriotismo, outros cotisaram-se entre si e ofereceram uma valiosa e belíssima cruz de prata com incrustrações de oiro, á igreja de Santa Maria Maior – padroeira de Loriga; na opinião das artistas não há, a não ser na capital portugueza uma cruz que possa fazer paralelo com aquela. Agora promove-se uma subscripção cujo resultado será aplicado á canalização de agua para abastecimento da população. Projectam levantar pelo menos quatro magnificos chafarizes nos logares mais concorridos da villa, o que constituirá um dos mais importantes melhoramentos que se podiam imaginar. Junte-se a tudo isto a abertura da estrada de rodagem que brevemente será entregue ao trafego publico, e que vae ligar-se á estrada real que passa em Cea e ahi temos nós um recanto de Portugal onde qualquer viajante poderá passar uma boa temporada, rodeado de todas as comodidades. Tudo indica que o Echos de Loriga não tenha ultrapassado o seu primeiro número, frustrando, de alguma forma, as expectativas de Jeremias Pina e de seus poucos colaboradores. Fica claro, também, que as tentativas de politizar o envolvimento e a forte solidariedade dos loriguenses em relação aos melhoramentos urbanos e outros aspectos ligados ao processo de modernização que estavam em curso na pequena Loriga, eram um tema difícil e de pouca adesão para uma grande maioria dos imigrantes “exilados das Serras”. Neste sentido, o dado relevante é que a zona de tensão no seio de alguns loriguenses não era em nada desprezível, notadamente entre os que pretendiam colaborar financeiramente na modernização da sua pequena vila de forma desinteressada, enquanto consciência do
  10. 10. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 114 simples dever patriótico e àqueles que se queriam politicamente engajado em todas as ações que resultavam, ou se desdobravam dessas mesmas contribuições. Seja como for, o resultado foi que o jornal Echos de Loriga, ao invés de aglutinar a solidariedade entre os “filhos de Loriga” e promovê-los socialmente, acabou por provocar uma verdadeira celeuma, agravando pequenas e grandes divergências que, em certo sentido, determinaram o seu próprio fim, como relembrou, anos mais tarde, o próprio Jeremias Pina ao fazer um balanço da sua experiência e do esforço intelectual que alguns loriguenses tentaram desenvolver no campo das letras para editarem vários jornais em Belém e Manaus10. No curto interstício de dois anos, entre 1907 e 1908, a voz dos “Expatriados das Serras”, como gostava de ressaltar Jeremias Pina, deixa de ser ouvida através dos seus meios de imprensa. Mas esta situação não se prolonga por muito tempo e vem a ser revertida quando Jeremias Pina se transfere definitivamente para Manaus e de lá lança o número único do jornal A Voz de Loriga, no dia 5 de junho de 1909, como “Orgão da Colonia Loriguense em Manáos”, e com uma plataforma editorial que não deixa de ser esperançosa para os seus objetivos. Vê a luz da publicidade, cheio de ufania, sobranceiro e altvo, na grande senda que teve por principio Guttemberg, o grande inspirador da mais nobre e altivalente missão – a imprensa – o jornal que serve de epigraphe a estas linhas. Inspirado em bases solidas, moralista, e na saudade dos filhos de Loriga pelo berço muito seu amado, que labutam quotidianamente nesta terra hospitaleira do Brasil. A Voz de Loriga vem juntar-se ao numero desses periódicos inspirados no patriotismo dos Loriguenses expatriados da sua terra abençoada, que entre os loiros da gloria vão abrindo a estrada clarividente da consagração da posteridade. A missão que ora desempenha A Voz de Loriga é o dever cívico e moral que os Loriguenses tem para os seus Alem Atlantico, mostrando-lhes que só pela comunhão das letras podemos destruir essa densa obscuridade em que Loriga tem permanecido, provindo dessa comunhão civilizadora o grande destino do nosso berço, regenerando a sociedade Loriguense e mostrando a mocidade inteligente o caminho da instrucção, do dever, da verdade e do direito. De há muito que apontamos a estrada por onde havemos de caminhar para a senda civilizadora do espirito Loriguense. E se essa tem sido a nossa missão por entre os abrolhos de um caminho calcinado de sacrifícios, tentando reduzir ao desaparecimento um rosário de conceitos creados por espíritos perniciosos à cultura instructiva de um povo inteligente desde o berço, não menos honrosa é hoje a nossa tarefa, fazendo sahir um jornal moralizador, encarnação viva da sua alma grandiosa, onde germina a essência da virtude ao par das grandes ideias. E por isso, A Voz de Loriga, que vem mostrar mais uma vez o quanto pode a iniciativa dos filhos de Loriga no Brasil, num programma de moralidade e regeneração, cumprimenta a todos os Loriguenses e suas gentis conterrâneas, esperando que a recebam como uma das estrelas fulgurantes do nosso porvir moral, intelectual e material. Este programa pode transparecer à primeira vista que Jeremias Pina retorna às lides jornalísticas menos rancoroso e muito pouco afeito às polêmicas que lhe haviam caracterizado anos antes nas páginas do Echos de Loriga. Na verdade, ele é uma tradução parcial dos seus objetivos e deve ser lido com reservas pela natureza com que se reveste este número único d’A Voz de Loriga: uma iniciativa momentosa, preocupada em divulgar os 10 A Voz de Loriga. Manaus, 6 jun. 1909.
  11. 11. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 115 feitos “heroicos” da colônia loriguense em Manaus, enquanto expressão do “patriotismo dos Loriguenses expatriados da sua terra abençoada”, assim como o ideário patriótico de Jeremias Pina, o seu principal ideólogo. Jornal A Voz de Loriga (Manaus, 05 de Junho de 1909) Fonte: Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.
  12. 12. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 116 Com a exceção de dois pequenos artigos, um sobre a “Illuminação Publica em Loriga”, e o outro sobre o “Grupo Premio Escolar Loriguense” assinados por Albino Diogo de Gouveia; do poema de Gomes de Amorim, transcrito do Echo Luzitano, de 8 de maio de 1908, e de uma pequena “Nota Interessante” de tonalidade humorística, escrita por Maria Pranchiata, todas as demais matérias divulgadas nas oito páginas d’A Voz de Loriga, são da própria autoria de Jeremias Pina, que insistia dizer, em várias oportunidade, tê-las escritas com palavras de forte entusiasmo para “poder triumphalmente calar o espirito de todos”, com a ressalva típica de um jornalista que se pretende neutro e imparcial diante dos fatos, que a sua “pena será a espada da Justiça, recta e impoluta, dando elogios a quem os merecer e condemnando aos que da verdade se tenham divorciado”, ou como rediz alhures sobre a natureza dos seus próprios escritos: “Escrevemos desapaixonadamente, não vizando ferir este ou aqulle; damos a Cesar o que é de Cesar, pesando na balança da Justiça o proceder de cada um: o bem e o mal na Justiça encontra a recompensa que merece”. Deste modo, fazendo valer sua coerência de princípios declaradamente ancorados nas virtudes dos valores morais e espirituais, Jeremias Pina se mantêm autêntico como antes fora nas páginas do Echos de Loriga, acreditando sempre que as virtudes desses seus valores constituíam uma arma eficaz no combate à obscuridade e ao atraso intelectual entre os patrícios. Arma poderosa que também encontrou para viabilizar o seu grande sonho de tudo se fazer através da “comunhão das letras”, das “grandes ideias”, da “instrucção” e da “cultura instructivas”, enquanto condição necessária para promover o progresso e a prosperidade econômica da sua terra natal, em seu sentido mais amplo possível. A missão que ora desempenha A Voz de Loriga é o dever cívico e moral que os Loriguenses tem para os seus Alem Atlantico, mostrando-lhes que só pela comunhão das letras podemos destruir essa densa obscuridade em que Loriga tem permanecido, provindo dessa comunhão civilizadora o grande destino do nosso berço, regenerando a sociedade Loriguense e mostrando a mocidade inteligente o caminho da instrucção, do dever, da verdade e do direito. Esta era uma das suas principais preocupações, reiterada por várias vezes simplesmente por acreditar que nada de materialmente consistente e duradouro poderia ser feito à margem das “grandes ideias” e da “educação intelectual”: Os grandes empreendimentos são o produto das grandes idéas. Quando se levam a cabo, idealizados em doutrinas jorradas por espiritos inexgottaveis de radiação pelo progresso que nos chama ao grande aperfeiçoamento, tem-se cumprido com o grande dever de trabalharmos pelo levantamento moral e civico, ao par desse grande factor que forma o baluarte estavel do nosso adiantamento civilizador, a educação intelectual junto ao esforço material. Valores morais e princípios cívicos que obviamente não são exclusivamente seus, muito menos uma criação espontânea e original que usa para ornar a missão ou o “programma de moralidade e regeneração” que propõe para o jornal. São valores que fazem parte do seu contemporâneo histórico, influenciando profundamente o ideário uma pequena minoria de portugueses letrados de além-mar que, através deles, nutriam seus sonhos e
  13. 13. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 117 ideais de vida, em geral revelados por suas próprias penas.11 Mais ainda, se os traços da ideologia que sustentam os sonhos e desejos civilizacionais de Jeremias Pina estão marcados por ideias e valores morais que contagiavam muitos dos homens de letras em Portugal da sua época, os seus conceitos de pátria e patriotismo não se faziam diferentes dos denominadores comuns que diziam das ligações afetivas dos migrantes portugueses com a terra natal e com o dever cívico para com as suas origens. Daí por que: “A aldeia distante torna-se ponto de referência emocional, ganhando uma representação imaginária que a identifique e caracterize, por via da adopção de um conjunto de símbolos distintivos”, como realçou Maria Beatriz Rocha-Trindade no seu artigo “As micropátrias no interior português”, na parte que faz alusão à força histórica que, ao longo dos séculos, vem definindo o conceito de pátria entre os portugueses no contexto das suas migrações internacionais e internas. (ROCHA-TRINDADE, 1987: 726). Por outro lado, se A Voz de Loriga elucida dimensões ideológicas do idealismo de Jeremias Pina, como suposto “interprete do sentir d’uma colônia”, o jornal não deixa por menos em esclarecimentos sobre aspectos nebulosos e pouco conhecidos da vida associativa entre os loriguenses de Manaus e Belém. Segundo palavras do próprio Jeremias Pina, naquela altura, a maioria dos loriguenses, ao contrário de uma minoria formada por “espíritos pessimistas, divorciados do progresso da nossa terra”, não concordava com a ineficiência e o descaso do poder público em Loriga e, muito particularmente, com aqueles “homens envolvidos n’essa politica nefasta que os tem levado a ocupar cargos na Camara Municipal de Cea”, verdadeiros “parasitas que vivem da censura aos indiscutivelmente dignos da consagração da posteridade”. Esta cáustica conclusão que resulta do seu indignado fervor crítico em relação ao mandonismo político local, não guarda correspondência quando o assunto político transcende os limites do paroquialismo loriguense, ou quando o problema brota de determinadas discórdias e divergências no seio da colônia loriguense. Neste último caso, Jeremias Pina mostra-se compreensivo, e com apelos para considerações um tanto filosóficas, entendendo-as como simples frutos naturais do que chama de “ciumes patrioticos” entre os conterrâneos. Quasi sempre acontece surgir a discordia entre corporações, concorrendo muitas vezes para a sua dissolução. E se dissermos que entre esta corporação, depois de concluidos os trabalhos apareceu a divergencia com suas garras de hyena, não iremos desmoralisar os homens e as coisas. A discordia tem o seu valor moral na base em que é fundamentada. E se alguma alteração de espirito houve na grande obra dos Loriguense em Manáos, é certo que isso provinha do ciume patriotico dos mesmos. E tal o entusiasmo de patriotismo que existe entre os filhos de Loriga, que um podendo concorrer só para a grande idéa, evita que outro passe por essas decepções que a cada passo se encontram. Quanto à vida política em Portugal, Jeremias Pina mostrava-se muito pouco engajado, para não se dizer reticente ou apático. Até o lançamento d’A Voz de Loriga, pouco se observa nesse sentido. No mais, o que se sabia é que Jeremias Pina era um crítico até então reservado da monarquia portuguesa, defensor moderado dos ideais democráticos desde a 11 Para uma compreensão sintética e mais alargada desses valores entre mulheres e homens, ricos e pobres, é oportuno referenciar o artigo de Susana Serpa SILVA (2011: 382-427).
  14. 14. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 118 infância, e que sempre evitava fazer proselitismo sobre política partidária, ao ponto de ridicularizar certos patrícios que, em Belém do Pará, outra coisa não sabiam fazer. No seu artigo intitulado “Balança da Justiça”, editado neste mesmo número da Voz de Loriga, mas escrito em fins de janeiro quando se encontrava debilitado no leito do Hospital Português do Pará, clarifica sua posição político-partidária. Com o objetivo de aclarar controvérsias sobre a tragédia do Terreiro do Paço, que um ano antes havia prostrado morto o rei de Portugal e seu filho princepe herdeiro, resolve “dizer alguma coisa sobre a politica portugueza, dando a Cesar o que é de Cesar, para cujo fim escolhi a balança da Justiça onde se deve pesar os pecados de todos”. Não precisamos entrar em detalhes minuciosos dos acontecimentos que precederam ao fim tragico dos monarcas, porque eles todos já foram exteriorizados, pela imprensa, mesmo deturpados; e o que mais de ridiculo se tem alegado n’esta terra de Santa Cruz, é a contenda de monarchistas e republicanos portugueses, empreendidas nas columnas da imprensa local. Uns e outros têm dito muito para nada dizerem, chegando a descer à valla dos improperios atirando às faces uns dos outros o calão de chacal, sahindo fôra da orbita que tem por lemma a lucta honrosa do jornalismo, para externar idéas. Todos falam com uma pontinha de paixão e se deixam dominar por pensamentos cegos, e oh! Deus o que não se tem dito pelas duas partes em litigio, coisas de fazer corar um frade. Não sei se estes homens discutem convictos as suas idéas, ou se representam um papel mal ensaiado, apenas para se apresentarem no publico. Nutro as idéas democraticas desde os meus verdes anos. Mas, até hoje, nunca alguem me viu envolvido n’essas discussões banaes em que Patria e a pessoa nada têm a lucrar. Além de democrata e idealista, Jeremias Pina foi um visionário. Ardoroso defensor da ideia de que Loriga foi o berço natal do grande Viriato, “o redemptor da Luzitania”, “o grande pastor e guerreiro que destroçou as grandes legiões dos exercitos romanos”, sempre que possível, não perdia a oportunidade para celebrá-lo como tal. Em Belém do Pará, por mais de uma vez, escreveu artigos nas páginas do Echos Lusitano, “dando Viriato como filho de Loriga”, e não podia ser diferente agora, no justo momento que editava A Voz de Loriga. “Viriatho – O Tragico: onde foi o seu berço” é o título que usa em seu artigo para contraditar o historiador Braz Garcia de Mascarenha, que “dá Viriatho como filho de Vizeu”, usurpando a glória dos loriguenses. Mesmo que evoque em favor dos seus argumentos “annaes da historia Patria” e as conclusões de Teófilo Braga, “essa grande mentalidade hodierna”, para quem “Viriatho existiu em Loriga, sendo o julgador das cousas ou questões que entre os povos circumvizinhos se davam”, o grande objetivo de Jeremias Pina, era sensibilizar os conterrâneos para que fosse construída uma estátua na sua terra com a finalidade “de immortalisar o nome de Viriatho como filho de Loriga”. E nós, filhos de Loriga, temos já inspirada a idéa de immortalisar o nome de Viriatho como filho de Loriga, erigindo-lhe um monumento n’uma das praças publicas, d’aquella pedra tosca, “dura e informe”, para perpetuar mais o nome do grande heroe e que nas nossas veias corre o sangue azul que o enalteceu. Para isso, levanto o apelo aos loriguenses residentes no Brasil, ficando certo de que a idéa concebida ha muito, será mais uma pagina a ouro archivada nos annaes dos seus grandes feitos, tendo como recompensa as bênçãos da sagraçõ posterita.
  15. 15. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 119 O apelo ao mito histórico de uma origem comum, nobre e heroica, que Jeremias Pina tão bem manipulava, impedia que o conteúdo cultural da identidade étnica dos loriguenses se fragmentasse ou se dissolvesse por força do exílio, além de possibilitar uma maior e mais ampliada galvanização na solidariedade grupal, na coesão intraétnica e nos sentimentos de pertencimento com a terra natal12. Dessa forma, não surpreende o êxito imediato que este tipo de campanha alcançou, refletido positivamente nas subscrições para esta nova finalidade que totalizava nada menos do que 145 contos de réis no próprio dia do seu lançamento. Uma contribuição toda ela vinda de forma espontânea da parte de catorze compatrícios, dentre eles: Manoel Jesus de Pina, Augusto Mendes de Gouvêa, Carlos Lopes de Brito, Antonio Luiz M. Pina Jorge, Jeremias Pina, José Alves Nunes de Pina, Augusto Moura Pina, Antonio Pina Pires, João Luiz Moura Pina, Manuel Moura Pina, Antonio L. M. Pina, Antonio M. Cabral, Alfredo M. Frade e José L. C. Moura. Os feitos do passado recente ou remoto, individuais ou coletivos, consagrados pela memória histórica ou na expectativa da “sagração posterita”, foram também poderosamente manipulados na construção retórica dos vários artigos que Jeremias Pina escreveu e fez publicar nas páginas d’A Voz de Loriga. “Agua e Luz” não foge à regra, quando, através dele, conclama os conterrâneos para mais um novo e necessário empreendimento. A transcrição deste artigo na íntegra é oportuna por revelar não só facetas dessa estratégia, mas também o modo de agir colocado em prática por certas lideranças loriguenses com o objetivo de angariarem os recursos necessários para as transformações que estavam promovendo, ou pretendiam promover em Loriga. Entre os melhoramentos levados a efeito em Loriga, pela colonia Loriguense em Manáos, destaca-se até hoje a canalização de aguas para abastecimento publico. Outro está concebido de mais trabalho e dinheiro, cujo virá perpetuar os esforços dos seus iniciadores e concorrentes pelos melhoramentos de que estão dotando o seu berço. Esse melhoramento é a illuminação publica, á força de energia electrica, que muito virá embellezar o ditoso berço de Viriatho. Sendo um dos melhoramentos de que Loriga mais se recente, os seus propugnadores já teem em mãos uma fabulosa quantia para tal fim, cujo é o accrescimo da importância do abastecimento d’agua ao publico e seus sobejos do mesmo liquido, vendidos a diversos para as regas da cultura agricola. E já que o trabalho das fontes está concluido, seria de summa utilidade que os iniciadores dos melhoramentos extinguissem a comissão que ainda existe, das fontes, convocando uma reunião da colonia para assentar definitivamente as bases fundamentaes para a iluminação publica. D’esta forma chegariamos aos fins mais em breve, fazendo um estudo acurado sobre o assumpto, facilitando aos concorrentes o meio de irem entrando com as suas quotas, sem prejuízo à sua bolsa. Pois que, muitos que as suas condições monetarias não admitem dispender de uma importancia em desacordo com o seu rendimento, de uma só vez, farão-n’o por tantas quotas se veja que o possa fazer, resultando d’isto chegar-se ao fim satisfatorio e sem grandes dificuldades. 12 Anthony Smith, incluí o exílio como um dos acontecimentos que pode promover a alteração cultural no conteúdo das identidades e das comunidades étnicas: “Entre os acontecimentos típicos que originam alterações profundas no conteúdo cultural de tal identidade, incluem-se a guerra, as conquistas, o exílio e a escravização, a influência de imigrantes e a conversão religiosa”. (SMITH, 1997: 42).
  16. 16. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 120 A quantia existente para tal fim não é de todo insignificante e com mais um pouco de esforço e boa vontade teremos chegado á conclusão de tão dignificante empreendimento. Nunca faltou coragem e patriotismo a qualquer iniciativa posta em pratica pelos filhos de Loriga. E d’esta se espera um desempenho cabal, que satisfaça as nossas aspirações de patriotismo e amor ao berço, ficando crente que jamais um Loriguense se refutará a prestar o seu auxilio a obra que tanto enaltecem a quem as pratica, esquecendo ressentimentos que porventura possam separar uns de outros e que em nada se prendem e tem com o beneficiamento que o nosso amado berço necessita. De todos espero uma união inquebrantavel para obra tão meritória, e do intimo de minha alma os estreito a todos n’um amplexo de fraternidade e igualdade, para a unificação d’um só pensamento, para nossa honra e do berço querido e amado. No mesmo diapasão, segue o longo balanço que Jeremias Pina escreve sobre as realizações dos loriguenses em Manaus. Marcado por um discurso subjetivo, um tanto prolixo e repetitivo se comparado com o acima exposto, reafirmando palavras de louvores à organização associativa e à solidariedade entre os patrícios, destaca, com alguns poucos dados factuais o que resultava do “esforço intelectual e material” realizados pelos conterrâneos. E para atestar a preponderancia dos filhos de Loriga, residentes no Pará e Manáos, sobre as coisas de Loriga, bastará fazer menção do seu esforço intelectual e material. Entre eles se destacam, nas letras, diversos periódicos que fizeram publicar, como seguem abaixo: O 6 de Agosto, Loriga Litteraria, O Loriguense e o presente – A Voz de Loriga, em Manáos, e o Echos de Loriga e O Patriota, no Pará. Entre estes, detacou-se o Echos de Loriga, que combateu com denodo os desregramentos em Loriga, levantando uma celeuma infernal, cujo foi suspenso e em breve ressurgirá. Entre o seu esforço material, destaca-se o serviço de canalização de aguas, possuindo a villa quatro soberbos e magnificos chafarizes, disseminando-se por diversos largos alguns postes fontenarios. O trabalho que este melhoramento ao berço deu á comissão central, não se pode imaginar: só um amor ferrenho, como o das pessoas que compunham a dita comissão, podia arrostar com tantas humilhações e sacrificios. No bojo desse relatório, faz questão de destacar o papel de relevo no conjunto dessas iniciativas desempenhado por Manuel Jesus de Pina, Joaquim Ambrosio de Pina e Augusto Mendes de Gouveia e, com grande ênfase, para a importante colaboração dos “laboriosos e rudes trabalhadores”. Não deixaremos de fazer mensão aos donos das olarias e seus trabalhadores. Loriguenses que habitam a margem esquerda do “Rio Negro” [leia-se Manaus]. Todos foram de um sentimento patriotico indestructivel, pois que sem o auxilio d’esses laboriosos e rudes trabalhadores, que amassam o barro e fazem o tijolo que o diabo compra e não paga, não se teria conseguido o empreendimento conseguido em Loriga. Pelo conjunto destas informações, depreende-se que a existência de uma solidariedade geral entre os loriguenses era suficientemente capaz de construir poderosos elos entre sujeitos e classes sociais, atributos que ao lado do mito da origem comum e de memórias históricas partilhadas, como propõe Anthony Smith, eram indispensáveis na
  17. 17. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 121 formação de uma típica comunidade étnica, ou diaspórica.13 Por outro lado, mesmo que estes dados não sejam apresentados nas páginas d’A Voz de Loriga de maneira suficientes para a construção das genealogias familiares, eles não deixam de sugerir a existência entre os loriguenses de Manaus e Belém de uma poderosa interligação de laços familiares, formando verdadeiras “superfamílias” que, no fundo, assumiam a liderança do movimento, reservando a Jeremias Pina a condição de “guardião da tradição” e da mobilização vernácula necessária para tal fim14. Funções que Jeremias Pina esteve a cumprir exemplarmente em todos os momentos que encontrou condições de exercê-las enquanto intelectual e homem de letras, quer quando fazia em suas polêmicas, arvorado em pretensa condição de suprema magistratura, dando “a Cesar o que é de Cesar, pesando na balança da Justiça o proceder de cada um”; quer em seus apelos morais e cívicos para cobrar e/ou enaltecer a união entre todos os compatrícios. Alem disso, não lhe faltava sensibilidade para construir narrativas sobre a sua Loriga distante, “verdadeiro paraizo de sonhos dourados”, “terra amada” que supunha, de maneira messiânica, ser “predestinada a um grande destino”. Seu artigo “O Sentimentalismo” é uma peça documental exemplar de como, a partir das suas aparentes desmedidas subjetivações e elocubrações poéticas, procurou conferir sentido concreto às suas representações sobre sua terra de origem e, como tal, o artigo deve ser visto não como invenção ou puro devaneio intelectual, antes, porém, como mais uma estratégia de mobilização comunitária colocada em prática por Jeremias Pina, muito próximo da compreensão de Anthony Smith sobre o papel do intelectual no âmbito das etnias “laterais”, e bem mais de acordo com o que Benedict Anderson chamou de uma “comunidade imaginada”, cuja definição já foi avançada em nota do primeiro capítulo. É majestosa, poetica, cheia de vida, paz e tranquilidade, no seu labor quotidiano, essa villa granitica, sem esthetica, que se chama Loriga, desde Viriato – O Tragico. Envolvida, no roda-pé, n’um manto de uma vegetação luxuriante, levanta-se soberba, no seu thono altivo, com suas casas apinhadas, a saudar a primavera, a vinte e dois de Março de todos os anos. Tudo é maravilhoso, tudo é alegria, emquanto ao desabrochar as flores no campo e ao chilrear das andorinhas, as donzelas vão de cântaro á fonte umas, outras se disseminam pelos campos, a lavrar as terras, entre canticos sonoros que nos dá a ideia de que habitamos um verdadeiro paraizo. Tudo é viver e não morrer para quem junto a essas castas e ingenuas almas compartilha desses sentimentos. E quando o murmurio d’um regalo de agua chrystalina corre no areal, matizado de juncos e salgueiros, uma voz Divinal echoa alem no oiteiro: Ai que aroma brotam as flores. Ai que alegria ver os milharaes! Oh rapazes galantes da terra Porque não dançais, dançais, dançais. 13 Smith (1997: 36) define como sendo seis, os atributos principais que são partilhados no interior de uma comunidade étnica, a saber: “Um nome próprio colectivo; um mito de linhagem comum; memórias históricas partilhadas; um ou mais elementos diferenciadores de cultura comum; associação a uma terra natal específica; um sentimento de solidariedade em sectores significativos da população”. 14 Smith analisa a importância do papel dos intelectuais na mobilização vernácula no âmbito das etnias “laterais”. (Ibidem: 83 a 90).
  18. 18. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 122 Do outro lado, uma voz vibrante, toda nupcial, que parece vir do infinito, baixando sobre a terra, rumoreja aos ouvidos: As donzelas são mui puras, Como as flores da primavera! O poder da pedra d’Era Faz prodigios ás criaturas, D’ella depende a minha sorte, N’este valle de penar! penar! Na vida até á morte. Só quero amar! amar! Entre as vozes poéticas d’estas almas puras, os rapazes, entregues aos seus afazeres quotidianos, uns de sachar ao hombro em demanda do seu pomar, outros repenicando canções na flata, dando-lhes umas notas amorosas, lá vão elleseleso coração bafejante, com o pensamento preocupado com o que ha de ser a sua companheira no amor conjugal. Loriga foi predestinada a um grande destino, porque a indole do seu povo é a encarnação viva do sentimentalismo; lá estão os velhos, os moços, para atestar o que é formação psichologica d’esse grande povo. Á todas as horas, muito principalmente ao sahir e por do sol, nos caminhos das herdades, se cruzam velhos, moços e donzelas, numa conversação ingênua, de verdadeiros philosophos. Operarios de nove fabricas movidas por possantes rodas, á força d’agua, artistas de todas as esferas, camponezes e camponezas e tudo mais que compõe a alta roda de Loriga – a elite – lá se encontram nos seus misteres de um viver fraternal, e aos domingos e dias santos se cruzam e fazem grupos que se destacam aqui e ali, formamdo um conjunto todo de harmonia, com que retribuindo á prodiga majestade do seu infinito firmamento, os belos dias de uma primavera em flôr, enebriando-os com a aragem subtil, aromatica, acalentadora e fortificante. É um verdadeiro paraizo de sonhos dourados! D’um lado ouve-se o acorde sentimentalista d’uma guitarra, do outro a nota alegre d’uma viola, penetrando ao mesmo tempo, em nossa alma adormecida n’aquelle conjunto harmonioso, o vibrar melancolico d’um violão, que gemebundo executa um fado sepulchral. ................................................................................................................. Não é só nisto que encarna a alma meiga e gentil d’este povo apaixonado que versa o sentimentalismo do seu viver. N’este viver santo, fraternal, que alenta os desiludidos d’uma existencia calcinada de espinhos, junto a um cruzeiro antiquissimo, já denegrido pelo rugir das tempestades, que batem d’encontro aos seus braços de conforto aos religiosos do logar, alguns rapazes estacionam ali, versando ao desafio: .......................................................................................................... Aqui está o sentimentalismo da alma Loriguense. Simples, ingenua, caracteristica na poesia popular com que minoram os momentos de tristeza, não deixa de ser bello, sublime, para os que causticados pelas peripecias d’uma vida martyr, que se perde no turbilhão de vicios dos grandes centros populosos, se chega a envolver a aquelle horizonte vivificante, encarnação viva das mais puras almas, longe da corrupção que degrada e aniquila até morrer. No dia 5 de Junho de 1910, precisamente um ano depois do lançamento da edição única do jornal A Voz de Loriga, circula nas agitadas ruas da cidade de Manaus, o primeiro número do jornal O Povo de Loriga, sob a direção do incansável e destemido combatente Jeremias Pina, enquanto um jornal mensal, segundo consta, “concebido com ardor pelos filhos das serras expatriados do seu berço querido”. Dessa forma, Jeremias Pina realiza, na capital amazonense, o seu grande sonho, anunciado um ano antes nas páginas d’A Voz de Loriga, de reeditar em Manaus o Echos de Loriga, uma experiência frustada que feneceu no nascedouro vítima das incompreensões de patrícios e de alguns dos seus próprios
  19. 19. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 123 compatrícios residentes em Belém do Pará. É muito provável que, por esse motivo, o futuro d’O Povo de Loriga, enquanto “Orgam da Colonia Loriguense em Manáos”, seja anunciado logo no primeiro número como incerto e imprevisível, razão pela qual entendeu o seu redator-chefe ser oportuno advertir e orientar de imediato os seus leitores em caso de um eventual insucesso em relação ao novo jornal: Não tendo nós resolvido ainda sobre a continuada circulação d’este jornal, pedimos aos interessados o obsequio de entenderem-se com o nosso conterraneo e amigo, sr. Antonio Ambrosio Pina, ou remeterem suas correspondencias para a caixa no Correia, n. 528. Se a incerteza quanto ao futuro do jornal O Povo de Loriga era um fato assumido por Jeremias Pina e seus colaboradores, o mesmo não se pode dizer em relação ao seu lema, princípios e objetivos. Pautados pela mesma filosofia que orientou o Echos de Loriga na cidade de Belém, a única “novidade” é que essa nova iniciativa não se faz por ato solitário ou vontade própria do seu redator, pois, segundo consta, vem lastreada pela íntima comunhão de interesses com “a mocidade loriguense [que] de há muito vem empregando o seu esforço e sacrifício para a verdadeira regeneração dos seus costumes”, em constante luta contra a corrupção dos valores morais, “a degradação e oppressão que por formas diversas apparecem dia a dia n’essa sociedade humana em que os dogmas ou seitas de todas as naturezas lançam as suas garras de anniquillamento e obstrução”. Princípios em que Jeremias Pina reiterava insistentemente em todas as oportunidades que se fazia necessário conclamar pelas responsabilidades sociais e patrióticas dos conterrâneos efetivamente comprometidos com o futuro “d’esse pedaço da comunhão portugueza, d’essa particula de terra em que nasceu o grande Viriato, que deu principio a historia gloriosa de nossa Patria”. Seu idealismo persistente retorna desta feita com bastante ênfase na sua grande ideia utópica de que “Loriga se prepara para destaque nos grandes feitos, esperando de futuro elevar-se a estrella fulgurante nos destinos da liberdade da Patria e do livre pensamento”. Uma utopia cuja legitimidade e autoridade de dizer vêm da força representativa dos feitos loriguenses desterrados em “paragens longínquas” de além-mar, e que tudo fazem em benefício da promoção e do “progresso do seu berço querido”. É d’estas paragens longínquas onde com afan os filhos de Loriga se entregam, sob um clima tropical, ás luctas da vida moral e material que, saudosos e offegantes pelo progresso do seu berço querido, levantam altivos o grito da instrucção, estimulando os seus irmãos de Loriga, que d´alli nunca se arredaram, a proseguir n´essa tarefa gandiosa que há tempo incetaram, levar a instrucção aos espiritos envoltos nas densas trevas d´essa grassa ignorancia. No realce deste dever cívico e patriótico dos autodenominados “expatriados das serras”, que se materializam “na sua tarefa altruistica” de tudo fazerem pelo “torrão abençoado onde receberam a primeira luz da vida, onde creanças se dedicaram aos brinquedos infantis, recebendo os ternos carinhos da mãe extremosa”, transparece os traços de uma identificação básica que, segundo Jeremias Pina, se afiguram como o verdadeiro símbolo que mais caracteriza o vir a ser dos loriguenses na Amazônia e os distengue dos demais patrícios.
  20. 20. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 124 Distinguindo-se entre tantas colónias que se disseminam pelo Brazil, pela sua grandeza d’alma na pratica do Bem, nas causas que pedem o cumprimento sagrado do dever, elles, estes moços em que brota todo o fervor d’um patriotismo que dignifica, procuram dar ao seu berço o que a descuração de quem os representa nos poderes competentes, negam dar-lhe. Um traço distintivo que não remete obviamente para uma identidade essencial entre os loriguenses, mas construído e habilmente manipulado por Jeremias Pina como um dos elementos preferidos para legitimar e colocar em prática a sua ação social. Estratagema usual percebido por sociólogos contemporâneos para realçarem o complexo jogo identitário entre grupos étnicos no decurso de suas interações sociais, cuja finalidade é “exprimir a solidariedade ou a distância social, ou para as vantagens imediatas que o ator espera obter pela apresentação de uma identidade étnica”, em precisas e determinadas circunstâncias em que a ênfase identitária se faz imprescindível nesse jogo, segundo os argumentos que Poutignat e Streiff-Fenart utilizam para conceituarem a própria noção de saliência ou realce entre grupos étnicos e comunidades imigrantes. Ela exprime a idéia de que a identidade é um modo de identificação em meio a possíveis outros; ela não remete a uma essência que se possua, mas a um conjunto de recursos disponíveis para a ação social. De acordo com as situações ele se coloca e as pessoas com quem interage, um indivíduo poderá assumir uma ou outra das identidades que lhes são disponíveis, pois o contexto particular no qual ele se encontra determina as identidades e as fidelidades apropriadas num dado momento. (POUTIGNAR; STREIFF-FENART, 1997: 168 e 167). Neste aspecto, a ação de Jeremias Pina foi exemplar, principalmente quando se fazia através dos seus próprios empreendimentos jornalísticos, na permanente e necessária vigilância que sempre procurou manter contra a incúria dos maus políticos e administradores do “amado torrão”. Particularidade que não deixa dúvidas na sua histórica luta contra os desvios da Filarmônica e do poder constitido em sua terra natal, e que não poderiam faltar nas páginas do primeiro número do Povo de Loriga, um típico jornal de autor único igual aos anteriores que fundou, persistindo numa tendência um tanto defasada para a sua época, não obstante ter sido uma prática peculiar nas primeiras décadas do século XIX, quando dos primórdios da imprensa no Brasil. O simulácro da contemporaneidade vinha pela agressividade das suas críticas em defesa da terra natal. Os homens de quem queremos fallar são os que a si tomaram a vara da politica local, ha longos annos, que, valha-nos a verdade, têm-se feito umas figuras de cêra, servindo apenas para darem echo n’uma exposição de ceramica. Porque, convictos da nossa missão de pequenos chronistas, a nossa confrontação dá em cheio, pois, que papel desempenham essas figuras de cêra? Evidentemente que Jeremias Pina não era uma voz isolada e pouco representativa entre os seus patrícios loriguenses. Enquanto sujeito que atua em campo social específico, com ações concretas e conscientes que orientam sua forma de existência e de pertencimento, torna-se num indivíduo importante, muito próximo daqueles imigrantes “com um posicionamento central e que mantém um elevado nível de contactos com a terra natal, funcionando como nódulo de intersecção de um circuito por onde passam informação,
  21. 21. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 125 recursos e identidade”15. Por outro lado, sua posição social de destaque, reforçada por outros fatores convergentes, a exemplo de encarnar na sua discursividade uma história comum de desterro, integrar na sua prática quotidiana postura de uma linhagem familiar que havia reunido prestígio e fortuna no país de acolhimento, faziam-lhe uma personalidade de relevo dentro e fora de seu grupo de pertencimento, como integrante de uma rede social bem mais vasta16. E se não bastassem estes atributos sobre sua personalidade, a sua condição de letrado e homem de imprensa aumentava ainda mais a sua proeminência social, conferindo- lhe prerrogativas de porta-voz da colônia, com legitimidade suficiente para advogar em defesa das causas coletivas. E O Povo de Loriga, nome que emprestou para este seu novo jornal, veio ao encontro de seus anseios que, diga-se de passagem, não eram exclusivamente seus como aparentemente pode transparecer, mas compartilhado por um conjunto significativo de loriguenses residentes em Manaus e Belém. Agora, a contundência das suas palavras não podia ser confundida com os Echos de Loriga ou com A Voz de Loriga, mas por um outro nome carregado por uma abstração bem mais poderosa: O Povo de Loriga. E será em nome deste “povo” que Jeremias Pina fará a justificação para suas mais diversas e radicais críticas. Se assim o fazemos, é porque nos assiste o direito de defendermos os interesses do povo, tornando-nos advogados d’uma causa nobre, altruistica, fazendo os semi- deuses dos destinos d’um povo infeliz, enveredar pelo caminho da redempção, ou do contrario recolherem-se ao silêncio da sua pequenez, deixando de apregoar pelas trombetas do seu porta-voz, um prestigio iniquo, ôco, sem paginas nos annaes dos homens que trabalham n’um terreno firme e não falso. Assim, quer em seu nome, ou em nome do Povo de Loriga, suas críticas não eram passíveis de serem submetidas à prova, seja qual fosse a circunstância; escritas em prosa ou em versos, em sátiras ou ironías, elas eram autoproclamadas como a própria expressão da verdade e da justiça. E em tudo encontrava motivos e pretextos. Em seu artigo sobre a morte de Francisco Ferrer “O Martyr do Bem”, revela uma estreita afinidade com o pensador anarquista catalão, “martyr da justiça, da liberdade e do bem”, “morto às mãos de Affonso XIII”, “crime perpetrado dentro das muralhas sepulchaes do forte-cemiterio e immundo de Montjuich”, em 13 de outubro de 1909, simplesmente por apregoar um projeto de educação libertária, “por semear a instrucção, levando a luz da redempção á juventude dos dois sexos, apontando-lhe o caminho da independencia, da consciencia livre, do direito e da justiça, ensinando-os a amar e confraternizar na escola da egualdade”. De igual forma como 15 Para uma compreensão do conceito de campo social transnacional enquanto “conjunto encadeado de múltiplas redes de relações sociais através das quais se trocam, organizam e transformam, de forma desigual, ideias, práticas e recursos”, com a consequente distinção entre formas de existência e formas de pertença, cf.: LEVITT e SCHILLER, (2010: 35). 16 Neste particular, Jorge Fernandes Alves sugere o uso analítico da noção de “rede”, alertando que: “Isto implica que, ao nível metodológico, se desça ao nível do emigrante e do grupo familiar para seguir trajectórias e dependências, se restrinja o espaço de análise para a intensificar e delinear relações mais complexas, sem deixar de articular os resultados assim obtidos com os factores estruturais e históricos, pois não podemos esquecer a dimensão económica ou, por exemplo, o simples facto de que é a construção da nação e da sua linha de fronteira que, em última instância, define a emigração, afinal um movimento entre dois espaços de referência”. (ALVES, 1998: 413- 424).
  22. 22. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 126 Francisco Ferrer, comungava com ideais antimonarquicos e anticlericais. Para ele, “O rei é o mal, a vergonha, o opprobio e dagradação de um povo”, em contraposição ao cidadão que “é o bem, a piedade, a benevolencia e o salvador d’uma Patria. Porque com uma só bala, faz voar os miolos d’um rei, resgatando a Patria ás mãos do verdugo”. Mesmo que lamente a ausência desse ato patriótico e heroico, não deixa de conjecturar sobre o que brevemente irá acontecer com as monarquias portuguesa e espanhola, quando diz: A natureza está muda. Assiste calada ao baquear das instituições corruptas da Peninsula Eberica. A Hespanha estorce-se em convulsões fatidicas ás mãos de Affonso XIII, e Portugal agonisa desde o despotismo de Carlos I”. Na sua perceção, havia fatos novos, uma nova conjuntura que se esboçava com o entendimento que tinha da proximidade da completa derrocada da mornaquia em Portugal, “uma questão de tempo”, então timidamente profetizada nas páginas do Echos de Loriga, em meados de 1909, mas agora, um ano depois, de forma resoluta e incisiva. Por outro lado, a emergência de uma intensa mobilização republicana em Manaus e Loriga, assegurava-lhe a certeza de se tratar de um momento especial, oportuno e adequado para aprofundar o seu radicalismo e avançar destemido com o seu ideário. Em Manaus, mesmo sem filiação político-partidária, fez-se solidário com os republicanos patrícios, divulgando entusiasmadamente a notícia de que eles haviam enviado uma corajosa mensagem de solidariedade ao lider dos republicanos em Portugal, deputado Afonso Costa: A mensagem verberava inergica repulsa aos monarchistas que n’esta hora de incertesas para a Patria e se teem arvorado em degradantes parasitas e tyrannos do povo portugues, e inaltecia a maneira como o deputado republicano combateu tenasmente o negocio Hinton que locupletava as algibeiras dos ladroes do trabalho do povo, gatunos esses que vivem abrigados á sombra da monarchia e das gentes do palacio das necessidades. A mensagem assignada por 60 republicanos, terminava por protestar o voto de solidariedade dos signatarios, na proxima implantação da Republica. A alma portuguesa vibra enthusiasta pela sua independencia democratica, em todos os recantos do mundo em que se encontra. Ainda bem que a alma Luza é a mesma dos tempos idos em que as estrophes do wate echoavam ao toar dos canhoes e de: “A’s armas e os barões assignalados”. 17 Por outro lado, a condenação em Portugal do jornalista França Borges, repudiada pelos republicanos portugueses residentes em Manaus aumentava ainda mais a sua indignação contra o regime monárquico. O pequeno telegrama que dirigiram ao jornal lisboeta O Mundo condenando o ato é transcrito: “Mundo, Lisboa. Republicanos portuguezes protestam injusta condemnação França Borges saudam defensor sua attitude”. Epsódio que Jeremias Pina logo transforma em matéria que explora num longo artigo planfletário, contra a “nefasta monarchia” que “ha de rolar ao sorvedouro dos exgotos putrefactos”, junto com “esses esbirros que se dizem juizes, orgam da Justiça, e que se atholdam simplesmente a servir de instrumentos criminoso d’um sceptro ja no seu fatal eclipse, são apenas, com 17 “Noticiario”. In: O Povo de Loriga. Manaus, 18 Jul. 1910, p. 3-4.
  23. 23. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 127 vergonha o dizemos, liberticidas e patricidas”18. E avança para espicaçar com mais revolta a monarquia e as suas instituições jurídicas formais: Agora mesmo acabam de mostrar ao Universo, que contamina a sede de desgraças e miserias, pois, os juizes que julgaram o grande marthyr da liberdade do povo portuguez, o pujante jornalista França Borges, esses juizes, repito, sem respeito á toga que se diz a encarnação da justiça, calcaram e rasgaram a lei, e não obstante privarem e amôrdaçarem o deffensor do réo, não o deixando entrar em esclarecimentos de deffeza conforme é facultativa por Lei, auctoaram este como insultador ao tribunal e sentenciaram á condemnação monstruosa o réo que não teve deffesa nem tribunal legalmente constituido. Por fim, reitera sua convicção em relação ao breve fim da agonizante monarquia em Portugal: “Esta monstruosidade da Monarchia é da ultima hora. Mas daqui á ultima hora da Monarchia – dessa réles rameira que arrastou á prostituição esse infeliz Portugal – não dista, um decenio de mezes”. Outra notícia lisonjeira que lhe havia enchido de entusiasmo e orgulho foi a criação em Loriga do Club Recreativo Luzo Brasileiro, no dia 12 de junho passado, tendo à frente da sua fundação um número expressivo de membros da colônia loriguense no Pará e Manaus, que lá se encontravam. Diz a notícia: O club tem por presidente o distincto professor do sexo masculino n’aquella villa, sr. Pedro d’Almeida, o qual, no momento da inauguração aliciou, por espaço de uma hora, em oração brilhantissima, os resultados beneficos que aos povos traz o conjunto de edeas pela esphera associativa, enaltecendo os sentimentos dos loriguenses repatriados quando se trata de emprehendimentos nobres e altruisticos no levantamento benefico d’um povo por muito tempo vilipendiado e opprimido, negando-lhes os tiranos e sectarios do poder e do dinheiro, a moral e rejovenecimento progressivo.19 Bem mais que o discurso prolixo e laudatório do presidente Pedro d’Almeida, obviamente que reescrito e realçado por palavras do próprio Jeremias Pina para compor a notícia do evento, contava para ele a força do delírio e da agitação popular manifestos em passeata pública pelas ruas de Loriga. Apos o incerramento da sessão, que teve por fim a inauguração e posse dos membros de directoria, o ilemento associativo e uma massa de duas mil pessoas, aproximadamente, tendo á frente a briosa banda da Philarmonica Loriguense, percorreran as principaes ruas da villa, erguendo vivas inthusiastas aos membros em evidencia n’aquelle meio, ás colonias loriguenses no Pará e Manáos, e no Brazil.20 Doravante, a natureza tinha voz, já não mais se via calado “o baquear das instituições corruptas”, com o povo nas ruas para manifestar seus sentimentos, provavelmente um bom sinal percebido por Jeremias Pina para investir na radicalização dos ânimos. E não havia melhor espaço para fazê-lo do que através das próprias páginas d’O Povo de Loriga. E o melhor pretexto para dar vasão ao seu anticlericalismo, um tanto contido nas experiências anteriores, era avançar seus ataques de maneira radical e irreverente contra os jesuítas, uma 18 O Povo de Loriga. Manaus, 20 Ago. 1910, p. 3. 19 O Povo de Loriga. Manaus, 18 Jul. 1910. 20 Idem.
  24. 24. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 128 ordem religiosa que nutria particular ódio mortal pela sua forte presença “nefasta” na “realeza-clerical”, e “perniciosa” influência que exercia na própria vila de Loriga. No artigo que escreveu sobre “O martyr do bem”, uma homenagem póstuma a Francisco Ferrer, deu início aos seus ataques contra os “sectarios de Loyola”, concebidos como membros de uma “seita sem dignidade e sem brio, vampiros da honra, do dinheiro, da liberdade e da vida preciosa dos apostolos do bem e da livre consciencia, do direito e da justiça, das crenças positivas e da tranquilidade da familia”21. Em seu artigo “Almas Podres”, escrito “com esmagador despreso” no segundo número do Povo de Loriga, volta a atacar “os Loyolas das trevas inacessiveis do Terreiro do Fundo”, “os Torquemadas que infelismente Loriga viu nascer”, com o objetivo de alertar os conterrâneos sobre o perigo que representam “os irmãos da seita Negra, miseraveis instrumentos da decadencia dessa pobre patria”. Essas féras que ahi vedes, queridos conterraneos, jamais tiveram a noção da consciencia que todos os bons possuem e poem em pratica. Entregaram-se aos infames sectarios da tal Companhia de Jesus, fingindo que são bons, para se acobertarem dos males que teem e continuam a espalhar. São esses jesuitas degredados ao mais torpe despreso dos caracteres altivos, irregulaveis poltrões de batina que querem amesquinhar pessoas de bem que valem mais pela sua vida moral do que seu ouro e beatices. Ernegumenos ferozes onde o odio armou a tenda, e o perdão jamais teve guarida. 22 Sua luta contra o jesuitismo não conhece trégua. Dizendo-se acusado de maçon, sob a ameaça permanente da excomunhão e vítima “após tantas luctas ardilosas” em torno do seu nome, defende-se com um artigo que dá o título: “Padre que prevarica”. Na verdade, um libelo contra o páraco de Loriga, no qual Jeremias Pina se mostra mais destemido e insolente. Quem de ha longo tempo vem residindo em Loriga, não será difícil encontrar a qualquer hora do dia ou da noite, um typo baixo, acaçapado, rosto deslavado ao poder de uma navalha e ás mãos do barbeiro, aliado á desfaçatez e cynismo que o caracteriza, ao alto da cabeça corôa de presbytero, com cartola posta ao de leve e provocadora ao mais tranquiberno gaiato, bengala em attitude de senhoril que poderá quebrar as proprias costellas de seu dono, emfim, ao seu todo um verdadeiro manequim para gaudio de sua propria presunção. É um padre marôto, vadio, notivago que agora apresenta-se na téla escorado a uma esquina, esperando a penitente que ha pouco foi ao confessionario lavar a alma por ter faltado á honra precisa com o almoço ao marido, para attender a outros mesteres do lar domestico, e d’aqui a pouco é um sacerdote que na egreja apresenta uma cara beatifica e de santo, mas a um dominuns-Vobiscum, enganando a fé do crente que o ouve, furta uma piscadela d’olho á amante, que n’um logar certo da egreja com olhar afogueado lhe assiste a todos os movimentos. ................................................................................................................. Esse padre é um verdadeiro rebento do mal, e vae mostrando com suas doutrinas falsas e ôcas, bebidas nos casarões sacros da cella e do confessionario, que o povo deve preparar-se para espulsal-o do seu seio, pois não é raro vêl-o rodeado das beatificas e santas mulheres, a toda hora do dia e da noite, mulheres estas que se deixam imbuir ás suas doutrinas lamorosas, sem pejo á sua honra de mãe e esposas. O Monsenhor glutão que desavergonhadamente se lança no atascadeiro do lupanar, vae ver com a sua lambarisse se põe o olho nú, e das suas lambisgoias.23 21 O Povo de Loriga. Manaus, 5 Jun. 1910. 22 O Povo de Loriga. Manaus, 18 Jul. 1910. 23 O Povo de Loriga. Manaus, 3 Ago. 1910.
  25. 25. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 129 Crítico ferrenho do clericalismo e das instituições clericais, Jeremias Pina não era um ateu na acepção precisa da palavra. Vez por outra, quando inquirido sobre a razão das suas críticas aos jesuítas, gostava de responder taxativamente, e aproveitava da oportunidade para reafirmar a sua devoção por Deus e Jesus, de forma sublime e muito particular. Disse ele certa vez: Não sei odiar. Sei castigar os maus, os despotas com esmagador despreso. É assim que vos trato porque mereceis muito mais desdem. Conheceis Deus? Conheceis o Martyr do Golgotha? Não! Pautae a vida pelos actos do Nazareno e tereis alcançado o conhecimento de Deus. Deus é a consciencia pura e limpida. Deus é a virtude personificada no bem geral e na caridade espontanea!24 Jeremias Pina também não era um anarquista ou libertário como tantos outros gráficos, tipógrafos e jornalistas patrícios foram. Acreditava nos poderes constituídos e nos homens públicos de uma forma tal que estampou em toda a primeira página do segundo número do Povo de Loriga uma enorme gravura do senador pelo estado do Amazonas, Jorge de Moraes, com os seguintes dizeres: É com palmas e applausos que os homens se elevam. E vós, povo amazonense, que sabeis retribuir com enthusiasmo de vossa alma viril, com palmas e applausos e manifestação espontanea, aos homens que trabalham para elevar bem alto o vosso nome, estou certo que sabereis cumprir com o vosso dever, estreitando em vossos braços, na hora opportuna, a estrella fulgurante e esperançosa de vossos destinos, no povir, o integerrimo deffensor de vossa causa. – O sr. senador Jorge de Moares. Seu longo artigo como “homenagem d’O Povo de Loriga” pela data do aniversário do senador Jorge de Moraes ocupa nada menos do que três das cinco colunas de toda a segunda página, e vem todo ele ornado por uma sucessão de palavras de louvores, realçando traços de sua carreira profissional enquanto médico e da sua trajetória política recente, escritos como expressão do que considera “o dever indeclinavel de nossa admiração aos seus dotes indistructiveis como honesto, virtuoso e parlamentar, caracter insinuante, e finalmente interregimo deffensor das causas d’este infeliz povo que tantas vezes tem sido victima da ignomia dos mandões que nasceram para destruir e não edificar”. Não menos laudatório é o artigo que compõe e publica na mesma página para noticiar a passagem do aniversário do então governador do estado do Amazonas, Antônio Bittencourt, transcorrido no dia 23 de julho. Suas manifestações de elogio para com determinados políticos do estado do Amazonas era uma manifestação inequívoca de que Jeremias Pina, mesmo na sua condição de imigrante português, se achava com pleno direito de interagir politicamente e manter-se integrado no país de acolhimento, como de fato também fizeram vários de seus conterrâneos, uns até mesmo de forma estrondosa e populista, como se depreende desta pequena notícia: Apezar do exmo. sr. dr. Jorge de Moraes achar-se ausente d’esta capital, os seus admiradores não se esquecem da data do seu anniversario natalicio, e por isso, 24 O Povo de Loriga. Manaus, 18 Jul. 1910.
  26. 26. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 130 hoje, os srs. Pina & Ferreira, da casa commercial A Brasileira, farão grandes demonstrações de apreço ao ilustre senador. A casa commercial A Brasileira, está hoje sobebamente ingalanada, tendo na fachada principal uma extensa facha de pano de linho, na qual se divisa, em letras salientes, o seguinte: “Dr. Jorge de Moraes. Salvé 18 de Julho”. A noite o edificio será illuminado a bações venesianos e demais conjuntos de forma a caracterisar uma illuminação dos costumes do minho, e entre as manifestações de apreço ao ilustre parlamentar, será distribuida esportulas aos pobres.25 Vale ressaltar que, imiscuir-se na vida política do país de acolhimento, não se torna para o imigrante uma prática deslocada ou aberrante, mas parte de um jogo de interações entre formas complexas de existência e pertença em contextos de campos sociais transnacionais26. Isto é, essa dupla ligação com a terra natal, e o novo espaço de acolhimento não caracteriza fenômenos diametralmente opostos ou excludentes, quando muito, variações de sentidos e na intensidade do ritmo das oscilações entre um lugar e outro, ou seja: Se as relações e as práticas sociais transfronteiriças em que os indivíduos se envolvem constituem uma característica regular da sua vida quotidiana, então revelam uma forma transnacional de existência. Quando as pessoas o reconhecem explicitamente e realçam os elementos transnacionais que fazem parte de si, então também estão a expressar uma forma transnacional de pertença. Evidentemente, estas duas experiências nem sempre se encontram associadas. (LEVITT e SCHILLER, 2010: 38). No rastro desse entendimento, fica evidente que um segmento expressivo de loriguenses ao participar de forma ativa da vida política em Manaus e Belém, nada mais estava a fazer do que o uso de um jogo no qual a integração política nessas duas cidades lhe conferia status e tornava mais fácil gerir formas de mobilização suficientemente capazes para intervirem com sucesso na própria vida política da sua terra natal, até então fortemente marcada por uma profunda assimetria entre poder político e poder econômico que os marginalizava. Dentre outros, o artigo “Nós e eles” que Jeremias Pina escreve para o terceiro número d’O Povo de Loriga dá a dimensão exata da instabilidade política vivida em Loriga, desse clima de marginalização entre aqueles que lançados na aventura da árvore das patacas conseguiram angariar fortuna e prestígio, quando em relação comparativa com os “marechais representativos junto às instituições e idéas politicas que nos regem”27. Participação política que Jeremias Pina reivindica e entende como possível desde que seu apelo seja ouvido pelos “homens de Loriga que se julgam colocados nas aras de Chefes”: 25 O Povo de Loriga. Manaus, 18 Jul. 1910. 26 O conceito de campos sociais transnacionais é de Levitt e Shiller que o distingue da noção de campo social nacional restrito: “definimos campo social como um conjunto encadeado de múltiplas redes de relações sociais através das quais se trocam, organizam e transformam, de forma desigual, ideias, práticas e recursos. Os campos sociais são multidimensionais, envolvem interacções estruturadas, com formatos, profundidades e amplitudes diferenciadas, que na teoria social são distinguidas pelos termos organização, instituição, e movimento social. As fronteiras nacionais não são necessariamente contíguas aos limites dos campos sociais. Os campos sociais nacionais são aqueles que se encontram confinados às fronteiras nacionais, ao passo que os campos sociais transnacionais ligam actores por vias de relações transfronteiriças, que podem ser directas ou indirectas”. (LEVITT e SCHILLER, 2010: 35). 27 O Povo de Loriga. Manaus, 3 Ago. 1910.
  27. 27. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 131 É pois chegada a ocasião dos homens de Loriga que se julgam colocados nas aras de Chefes, mostrarem que são qualquer cousa, trabalharem pela instalação da luz electrica ao poder do seu ouro ou de sua influencia politica perante os poderes da nação, e dado isso, mostrarão que pensão já d’outra forma, compenetraram-se dos deveres a cumprir, e depois, aqui nos encontrarão prontos com a nossa colaboração em tudo que for útil ao berço, a si e a todos que vivam na orbita que nos diz respeito. Mas quem são concretamente esses “nós” loriguenses até então alijados da participação política em seu torrão natal? Para o caso específico dos loriguenses em Manaus, o jornal O Povo de Loriga oferece indicações importantes que permitem perceber algumas características sobre o perfil sócioeconômico desses “expatriados das Serras”. Entre os loriguenses que quotidianamente moirejam n’esta florescente capital, se destacam entre elles um grande numero que se dedicam a um mister trabalhoso, encongruento, penoso, que assim mostram cabalmente o quanto o loriguense é forte para as luctas insanas da vida, procurando, com todo o esforço e sacrificio, não olhando ás peripecias que um certo numero de trabalhadores acarreta, os meios de subsistencia e integridade moral. Queremos nos referir aos oleiros, na margem opposta a esta capital, onde alli se encontram esses grandes factores que produzem o tijollo que dia a dia vão servindo para a remodelação d’esta capital, levantando aqui e além de vastos, muito vastos, soberbos e magníficos palacios. ........................................................................................................... As olarias, no seu todo, são de propriedade de loriguenses, admittindo para seus serviços conterraneos nosso e de outros povos limitrophes a Loriga, tratando-os com carinho e facilitando-lhe os meios de auferirem grandes proventos. Entre esses abnegados proprietarios existe uma cordialidade indistructivel, um élo forte e inquebrantavel que causa inveja aos mais affectos á união d’um povo e d’uma classe, O sr. Joaquim Pina Pires, conhecido por Joaquim Velho, vulto proeminente entre a colonia e a classe, é uma alma que possue os mais nobres sentimentos, e de um tino incomparavel para o ramo da industria de que vimos tratando. Proprietario da olaria Fazenda, o sr. Joaquim Pina, que tem alcançado grandes meios de fortuna, é o decano dos proprietarios oleiros d’esta grande industria amazonense. Egual mensão temos a fazer dos srs. Francisco Duarte dos Santos, Antonio de Britto, Joaquim Pina Monteiro, Joaquim Monteiro e Antonio Gomes Leitão, os quaes bem merecem a apologia de todas as pessôas que possúem um coração justiceiro e bem formado. Já esquecia mais alguns dos que pertencem á classe, que são o sr. José Gomes Apparicio e Antonio Mendes Cabral. Por outras informações dispersas nas secções “Vida intima” e “Noticiarios”, depreende-se que além destes principais proprietários de olarias de Manaus, muitos outros loriguenses amealharam suas pequenas e grandes fortunas em atividades comerciais embrenhados pelos principais rios da Bacia Amazônica. No rio Negro, por exemplo, atuavam vários loriguenses, como Armando Lopes de Brito e Plácido Duarte Pina, este último emigrado em meados do século XIX, e mantendo o seu comércio na ilha de Ábada, nas proximidades de Santa Isabel, cidade em que Alberto Duarte Pina Reis mantinha também um florescente comércio. No rio Madeira, João Duarte dos Santos, filho de Albino Duarte dos Santos, antigo proprietário de olaria na região do Cacau-Pirera, na margem direita do rio Negro, do outro lado da cidade de Manaus, onde estava concentrada a totalidade das olarias
  28. 28. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 132 dos loriguenses. No rio Solimões, José Mendes Cabral era um afortunado comerciante. No distante rio Juruá, na fronteira brasileira com o Peru, Abílio Duarte Pina Reis tinha um importante estabelecimento comercial na cidade de Remate de Males. Nessas mesmas colunas, há informações importantes dando conta que havia aguns loriguenses trabalhando como empregados no comércio. Fato também importante é que as transações comerciais eram preferencialmente realizadas entre os próprios loriguenses, como, por exemplo, nestas duas pequenas notícias: O sr. Abilio Duarte dos Santos, nosso amigo e conterraneo, adquiriu por compra o carro de gelo de propriedade do nosso conterraneo sr. Antonio Mendes Cabral. ** O sr. Antonio Mendes Cabral comprou a olaria que pertencia ao sr. Abilio Duarte dos Santos, a qual tinha sido comprada, ha pouco tempo, ao sr. Joaquim Pina Monteiro. Outras informações sobre as atividades comerciais entre os loriguenses de Manaus podem ser percebidas nos anúncios publicitários divulgados sempre nas últimas páginas do jornal O Povo de Loriga, a exemplo da mercearia “A Brasileira”, de Pina & Ferreira; da “Mercearia Parada Campelo”, de Pina & Gouveia; do “Café Manduca”, de Brito e Pina; além das mercearias “Moura & Pina”, “A Loriguense”, “Mercearia a Democrata”, até anúncios do pequeno estabelecimento comercial de J. Pinto Mateus, no quarto número um do mercado municipal. Numa visão de conjunto destas informações sobre as atividades sócioeconômicas dos loriguenses, tudo indica ser defensável a hipótese de que eles, em Manaus, tenham se estruturado a partir de um complexo jogo de relações familiares tipicamente patriarcais, além de se constituírem numa verdadeira minoria comerciante, historicamente compreensível28, e na justa forma que este conceito vem sendo pensado e explicado por antropólogos contemporâneos. O que devemos entender por minorias comerciantes? Não devemos pensar que se trata de minorias que vivem exclusivamente do comércio; se interpretássemos o termo num sentido tão restrito, provavelmente nunca teriam existido minorias comerciantes. Entende-se por minorias comerciantes aquelas para as quais o comércio constitui uma actividade económica dominante, o que implica que uma parte relativamente grande do grupo étnico viva do comércio, que este desempenhe uma função importante na construção da imagem do grupo, tanto para o exterior como para o interior da própria minoria, e que essa atctividade tenha uma influência importante na cultura do grupo. Faz pouco sentido traçar fronteiras rígidas impondo, por exemplo, o requisito de que uma dada percentagem do grupo étnico tenha que estar activa no comércio para poder ser designada como minoria comerciante. No modo como aplico o termo, há, por conseguinte, exemplos mais e menos óbvios. (VERMEULEN, 2001: 109). É muito provável que o jornal O Povo de Loriga não tenha ultrapassado os seus quatro números iniciais, e tenha sido interrompido bruscamente e pela mesma razão que 28 As relações dos loriguenses com as atividades comerciais são históricas e remontam a meados do século XIX, quando muitos deles – chamados de cartagenos – andavam pelo país afora vendendo peças de lã feitas à mão, principalmente em regiões do Norte de Portugal.
  29. 29. Periodismo Loriguense: A Voz dos Expatriados das Serras... Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 133 levou ao fracasso o Echos de Loriga, em Belém. Seja como for, com o fim d’O Povo de Loriga, com ele também se encerra um interessante capítulo da história da imprensa loriguense na Amazônia. Desaparecidos do cenário jornalístico por mais de uma década, os loriguenses só reaparecem através da sistemática colaboração que Joaquim Mendes Simão e Francisco Mendes Campos emprestam ao Jornal Lusitano e A Colónia, como vimos, editados por Godinho Ferreira, na cidade de Belém, durante a década de 1920. O primeiro deles, Joaquim Mendes Simão, era provavelmente nascido em Fontão, Serra da Estrela, no final do século XIX e emigrado de lá muito jovem e sem qualquer escolaridade. Em Belém, viveu vida humilde como empregado comercial, depois vendedor ambulante de frutas até tornar-se proprietário de uma pequena mercearia no Mercado de Ferro da cidade. Autodidata, com acentuado pendor para as letras, em especial para a poesia, participou de todas as associações portuguesas no Pará, chegando, inclusive, a exercer em algumas delas funções diretivas. (BRITO, 2000: 198-199). Nas páginas do jornal A Colônia, Mendes Simão experimentou um profundo desconforto. Primeiro, quando foi acusado indevidamente de ter sido o autor das críticas contra o jornal A Voz de Loriga29, e ter que exigir a publicação de nota esclarecedora: “Em Tempo” – Propalando-se, insistentemente, caber-me a mim a paternidade de um desaguisadi artiguete dado a publicidade em o último número deste jornal, sob o título “Na péle dos outros”, em o qual se fazem referéncias menos airosas a determinadas pessoas de Loriga, previno aos que me julgam ser eu capaz de escrever tamanho amontoado de sandices, que minha pessoa é inteiramente avessa a exibições dessa natureza, mormente quando for para ferir suscetibilidades de quem quer que seja. Publicação que me pertença, tenho por habito nunca furtar-me é responsabilidade de assiná-la com o meu nome próprio, ou pseudônimo bem conhecido (Joaquim Mendes Simão – JMS). Posteriormente, quando identificou a autoria, teve que travar uma acirrada polêmica com o conterrâneo Albano Fernandes Gomes que havia usado o pseudônimo de “Vu Fangue” para denegrir o corpo redacional do jornal A Voz de Loriga. A partir de então, Mendes Simão começa a enviar diretamente de Belém as suas colaborações para o jornal “A Voz” que acata e publica na íntegra a sua resposta contra o conterrâneo Albano Fernandes Gomes. A partir daí, o jornal passa a publicar outras colaborações de Mendes Simão, em especial alguns dos seus sonetos. O poema “Canção do Exílio” era um tipo de colaboração potencialmente problemática para ser publicada facilmente nos jornais da colônia portuguesa editados por Godinho Ferreira, pelo inconveniente, na altura, de realçar as dores da partida, as agruras vividas “em terra estranha”, ou redizerem sobre as dores da saudade da terra natal e da infelicidade “de quem a Pátria não espera”. Uma representação dos seus sentimentos e 29 A Voz de Loriga foi um jornal bimensal efêmero fundado na pequena povoação de Loriga, na Serra da Estrela, Portugal, em 11 de maio de 1924, tendo como diretor e editor Antonio Cabral Leitão e como redatores Joaquim de Moura Simão Junior e Carlos Fernandes dos Santos. Tinha por subtítulo: “Defensor e Propagandista de Loriga e Serra da Estrela”, com uma linha editorial assumidamente bairrista. Seu principal objetivo era “pugnar pelos interesses de Loriga, combatendo, louvando e incitando estes e aqueles, tornando-nos assim algo dignos desta nossa querida terra”. O jornal teve larga aceitação na cidade de Belém do Pará, tendo como representante (delegado) e um de seus principais propagadores o comerciante e também loriguense José de Brito Crisostomo.
  30. 30. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro Fronteiras do Tempo, nº 4, 2013. 134 daqueles outros loriguenses que tomavam a consciência que o sonho em busca da “árvore das patacas” era completamente inatingível. Canção do Exilio São quinze anos depois! e ainda o pranto, Hoje, a inundar meus olhos, como então, A partida revejo com espanto E sinto a mesma dor no coração! Ah! como tempo passa!... Entretanto, As maguas que cruciam não se vão! Saudades, dores, pertinaz quebranto, Meu pobre peito alanceando estão! O que mais me tortura e intristece, É ver que o tempo passa de era a era Sem que possa rever quem me estremece... Ai! Triste de quem no exilio anda penando, Infeliz de quem a Pátria não espera E em terra estranha sempre vai ficando! J. M. Simão Com Francisco Mendes Campos, a situação não foi diferente. Personalidade de destaque entre os portugueses residentes no Pará, nascido na Vila de Loriga, em 1901, emigrou para Belém um pouco antes de 1920, logo se dedicando ao magistério como professor de português e contabilidade. Ainda segundo o seu biógrafo, foi “assíduo colaborador do Jornal Lusitano e A Colônia, com artigos patrióticos sempre em defesa de portugueses que eram vítimas de ataques e perseguições de uma minoria dotada de xenofobia”.30 Ao lado de J. M. Simão, foi também um dos arautos de uma portugalidade castiça e aldeã. Um tanto descontente com os rumos do jornal A Colónia, editado pelo patrício Godinho Ferreira, fez-se também um entusiasmado colaborador do jornal A Voz de Loriga, granjeando simpatia e muito prestígio entre os membros do seu corpo editorial. Agraciado pelo teor dos seus artigos, foi convidado para manter naquele periódico uma coluna permanente que intitulou de “Cartas para Loriga”. Na verdade, Mendes Campos soube tirar partido dessa situação e apostou fortemente num eventual efeito bumerang para as suas colaborações. O seu primeiro artigo na sua coluna, estampado na primeira página do quarto número da “A Voz”, mais do que um simples pleito de gratidão aos fundadores do jornal a quem dedica “toda a expressão do meu sentir, e todos os liames da minha amizade e da minha gratidão”, é a reafirmação de um patriotismo que ele faz revestido pela evocação de um amor extremado por sua aldeia natal: E é dentro dos limites desse amor pátrio, que eu idolatro e venero a nossa Loriga de ontem, de hoje, de sempre, onde ficaram os meus primeiros sonhos e as minhas primeiras ilusões, onde aprendi a amar-vos e a querer-vos com o estremoso carinho de irmão. Eu vos bendigo e vos louvo, a vós que trabalhais na cruzada do 30 O descontentamento de Mendes Campos do Jornal Lusitano é progressivo. A edição de 30 de setembro de 1923 lança uma nota de pesar comunicando, a pedido, o afastamento de Mendes Campos da condição de secretário do jornal.

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