Imaginário e matérias

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Que relação da nossa imaginação com os quatro el

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Imaginário e matérias

  1. 1. O Impressionismo Literário da Erudição (uma resenha crítica de A Heresia Humanista – Ensaio Sobre as Paixões de Fim de Século, de José Fernando Tavares) «Colocando-nos no papel do ensaísta, dir-se-ia ainda que o interesse pelo tempo que nos é presente também se fundamenta numa tentativa de vivissecção de um estádio da história que procuramos valorizar a todo o custo, como se dessa valorização dependesse o grau de importância da vida e do destino que nos coube.» José Fernando Tavares, «Balanço Literário de 2002», In VÉRTICE, 113, Setembro- Outubro 2003. 1. Uma nota sobre o autor. José Fernando Tavares nasceu em 1965 e é professor. Docente doEnsino Secundário já leccionou, a nível universitário, Literatura Comparada,Teoria da Literatura e Literatura Medieval. Entre a Redacção Principal e aDirecção de jornais e revistas, foi também professor universitário de Língua eCultura Portuguesa, Evolução da Comunicação Linguística IV, LiteraturaInfanto-Juvenil, e Expressão Poética. Mestre em Literatura Comparada preparadoutoramento na área da Literatura Portuguesa do século XVI. Crítico,ficcionista, ensaísta e autor de inúmeras recensões literárias, bem como detextos sobre arte, conferencista convidado em várias latitudes do nosso país, jáeditou mais de duas mil páginas, não publicadas outras tantas. Obviamente que José Fernando Tavares não vive da sua pena – quemvive dela em Portugal?!... Também não é a quantidade que implica a qualidade(a inversa também é verdadeira). No entanto, e sabendo quanto é forte odesapego que a nossa praça estrangeirada e consumista demonstra pelosditosos filhos da pátria sua amada, queremos acreditar que algum dia virá emque não deitemos fora o que de melhor temos. Somos um país de luxo cultural:desperdiçamos sem pestanejar! 1
  2. 2. Dos nove livros publicados pelo autor destacamos três (pela importânciaque possuem para a cultura actual): Fernando Pessoa e as Estratégias daRazão Política (1998), Damião de Góis: Um Paradigma no HumanismoPortuguês (1999) e Fernando Pessoa: da Razão Histórica à UtopiaTeleológica (2002). 2. Identificação da obra. José Fernando Tavares, A Heresia Humanista – Ensaio Sobre asPaixões de Fim de Século, Instituto Piaget, Colecção Epistemologia eSociedade, n º 196, Lisboa, 2002, 342 pp., 23 x 15,5 cm, (aprox.) 18 Eur. Acapa, menos aberrante do que é habitual na «imagem de marca» das EdiçõesPiaget, remete-nos para uma figura alquímica algo diabólica (não identificadana Ficha Técnica). Das diversas componentes textuais da obra mais susceptíveis de seremobjecto de um estudo crítico, referimos toda a Segunda Parte, intitulada«Paixões de fim de século», nomeadamente os Capítulos 10 («O lugar dosmonstros numa sociedade da aparência») e 11 («A loucura domesticada»). Munido de uma densa, vasta e apreciável bibliografia, de Hecateus deMileto e Aristóteles a Sartre e a José Gil, de Edgar Allan Poe a José Régio, deDuarte Pacheco Pereira a Jacques Le Goff, com autores Hebraicos e Latinosmedievais, o décimo capítulo refere, do modo mais excelente, toda acosmovisão do passado século eivada pelo espírito da fantasia e do terrorexacerbados. Como consequência natural do imaginário colectivo estudam-se,por exemplo, a esfinge, a serpente, o dragão, o unicórnio e a sereia (enquantoenigmáticas figuras da por assim dizer categoria do monstro nos finais daIdade Média); os homens monstruosos das várias tradições geográficas e dasnarrativas da literatura de viagens, como os acéfalos, amanos, anotitos,centauros, gigantes, etc.); todo um fabulário de animais monstruosos (aanfisbena, o caládrio, a cerasta, os dragões) e as entidades sobrenaturais (fadas, 2
  3. 3. elfos, lobisomens, Satanás, Lúcifer, Belzebu ou, simplesmente, a Besta) – eis«a emergência do grotesco no seio da vida quotidiana» (p.180). Também, daliteratura ao cinema, o autor proclama toda uma original «estética damonstruosidade» (Drácula, Golem, Dr. Jekill e o Sr. Hyde, Quasimodo, etc.),associando-se o sangue à sexualidade numa mesma personalidadeantropomórfica, através de um fascinante bestiário da imaginação humana. O capítulo 11, menos munido de bibliografia é certo, ensaia no entantoprosseguir com o espírito sistemático da investigação. Estuda-se a possibilidadeda relação das perturbações mentais com a superstição e revisita-se o tema pelaóptica psicossocial, nomeadamente em Portugal. Desde a profana e medieval«festa dos loucos», eventual antecessora do (não menos católico) Carnaval, atéao «louco perigoso» (passando pela «loucura normal», a «camisa de forças», aloucura invertida, loucura domesticada, etc. – conceptualização inspirada emparte pela leitura de Foucault, em parte pela de historiadores não-filósofos comoJacques Heers – tudo isto marca este capítulo com um tom fortementesubjectivo, com uma aceitável componente dóxica, tanto quanto é aceitável (ede acordo com o grau de exigência de cada leitor) a maior ou menorcientificidade em ensaios de livre interpretação/investigação temática oupanorâmica. 3. Leitura da obra. 3.1. Interesse geral. A estrutura geral utilizada por José Fernando Tavares revela um conscienteespírito académico, ao mesmo tempo que uma necessidade literária de exaltaçãopessoal. Na verdade toda a literatura traduz o modo de ser do seu autor. Formalmente organizado em Prólogo («O espírito herético e a condiçãotemporal»), Primeira Parte («Falência do espírito») com seis capítulos, SegundaParte («Paixões de fim de século») com cinco capítulos, Terceira Parte(«Problemática da cultura») com cinco capítulos, Epílogo Provisório («Da 3
  4. 4. heresia humanista à ordem cósmica») e Índice Onomástico, este ensaio pecapela ausência de uma bibliografia no final, pela pobreza do Índice Geral (umavez que existem dezenas de subtítulos, ou parágrafos, que pela sua importâncialiterária e filosófica deveriam constar nesse índice para fácil consulta) e,inclusive, pela inexistência de um Índice Analítico (que por si só seriariquíssimo e justificaria uma segunda edição desta obra), bem como de umaIntrodução (o que conferiria ao volume uma outra unidade sistemática maisenvolvente, para o leitor sem dúvida mas também para a compleição temáticado livro, que veria, assim, criar-se nele um texto específico de resumo ousumário mais alargado para primeiríssima leitura. O mesmo poderia dizer-se deuma Conclusão acerca das principais teses lançadas a lume em páginasanteriores. De facto, tanto o Prólogo como o Epílogo, e mais este do que aquele,se resumem, na sua essência, a um texto aberto, a um conjunto de consideraçõesou meditações pessoais que, no nosso ponto de vista, fariam ainda, em termospráticos, parte do próprio corpo da obra. Mas, convenhamos, a importância do interesse geral do livro não se deixasubsumir nas críticas acima descritas. Sob o signo do pessimismo, que dealguma forma aparece mitigado mediante uma fulgurante crença na humanidade(futura...) do homem, encontramo-nos perante um ensaio algo disperso emdezenas de grandes temas literário-filosóficos (e não filosófico-literários) queteimam em unificar-se através de uma grelha tipificada no próprio título,heresia humanista. Todavia, o subtítulo, Ensaio Sobre as Paixões de Fim deSéculo, impõe uma visão de conjunto em detrimento de uma (suposta) visãotemática de cariz (mais) sistematizante. Sem dúvida que nos confrontamos comuma excelente reflexão (e informação) sobre cultura (e literatura) de massas. Trata-se portanto de uma escrita a que gostaríamos de chamar«impressionista», quer dizer, procedimento e atitude pessoalista não-sistemáticade extensa e antidogmática explicitação panorâmica de(os) assunto(s)autodidacta, propondo uma arriscada experimentação polémica e persuasiva de 4
  5. 5. factos vivenciados de forma mais ou menos quotidiana e mais ou menoscientífica. Tal predisposição experimental para o confronto - como bem referiuo clássico Sílvio Lima (Ensaio Sobre a Natureza do Ensaio, 1944) implica umaautonomia mental e juízo crítico – é o que melhor caracteriza esta obra de JoséFernando Tavares. Denota-se pois uma implicação experiencial do sujeito nareflexão produzida, propondo uma outra forma de conhecimento que não ofilosófico ou científico estritos na literatura, que não a ciência literária portanto.Tal modo de escrever ensaio, tal «filosofia sem doutrina» - para seguir umacontundente expressão de A. Tournon – é o que ilustra o impressionismoliterário deste autor, eventualmente o que marca também grande parte, se não amaior, do ensaio produzido em Portugal. Gostaríamos ainda de indicar algumas das grandes teses de A HeresiaHumanista, aquelas que mais directamente concretizam o seu carizantidogmático. Assim nos surge a principal ideia que cobre a temática do livro:a «traição do humanismo» abordada numa perspectiva por assim dizer deSociologia da Cultura, já que se admite o «desinteresse generalizado pelacultura dita erudita e o crescente interesse por manifestações culturais deconteúdo marcadamente medíocre» (p.96). Detecta-se uma crítica directa aohomem contemporâneo enquanto aprendiz da história e da sua própria vida,pois a «impreparação cultural» é gritante e a cegueira perante o que mais«directamente pode afectar a sua vida» transforma o aparente em ilusório e oessencial em acidental. Eis o pessimismo da triste realidade confessado (emagressividade latente) pelo autor: «É o pecado da ira que nos faz escrever destamaneira.» (p.125). Eis o que ensombra, pela sua «diabólica» escrita, o livro deJosé Fernando Tavares. Por conseguinte, a «insistência nas paixões humanas» (p.134), justifica-se pela existência de toda uma prática ritual que se mantém, ora bela oragrotesca, nas sociedades contemporâneas, mais especificamente na sociedadeportuguesa. A intolerância, o fanatismo, o ódio, são apenas alguns dos 5
  6. 6. elementos da vitória da morte sobre a vida. Escreve o ensaísta: «Seria umaqualidade maior da humanidade se pudéssemos assistir por dentro aoespectáculo da morte. Assim ela deixaria de ser uma verdade pressentida etornar-se-ia uma disciplina do conhecimento, uma manifestação autêntica dosaber. O arrepiante testemunho da morte seria essencial para a conquista deuma humanidade igualmente essencial, uma humildade construtiva queascende ao absoluto, também este uma qualidade humana maior raramenteexplorada pela vida quotidiana. Ela representa a justiça máxima, a verdadeirajustiça divina, mesmo que aos nossos olhos essa justiça se afigure contráriaaos princípios que nela gostaríamos de lhe reconhecer.» (p.135). Daqui aalusão às entidades demoníacas, um tema trabalhado no estatuto de metáforaque possibilita a explicação de que «a criatividade nunca esteve emconcordância com o poder instituído» (p.148), e advertindo para isso o leitormais desprevenido, já que a crença no demónio é a contradição do bom-senso,afigurando-se mais como uma forma de desespero próxima da loucura. O ensaísmo impressionista do autor materializa-se de igual modo nasmultifacetadas visões (históricas, estéticas, sociológicas, filosóficas) quecompõem este estudo – como é dito: «A reflexão também se cumpre naimponderabilidade, e será esta, talvez, o seu desafio maior.» (p.179). Reflecte-se essencialmente com o objectivo de compreender «de que modo o homemocidental penetrou no coração do fantástico» (p.180), examinando-se assim omodo de ser do grotesco. Tal preocupação temática pauta-se também por umaséria exigência feita à razão: esta tem de se equilibrar com a sensibilidade sobpena deixar escapar a compreensão da «existência de uma dimensão oculta»(p.189). Daí a importância conferida à chamemo-lhe assim «categoria damonstruosidade» que, através da literatura, do cinema e da BD, se imiscuiutotalmente na mundividência do homem contemporâneo (p.195) e na sociedadeocidental (p.214). Ironicamente são referidos os «monstros sagrados» do 6
  7. 7. cinema e do rock e as «aves raras» das artes, enquanto evidentes exemplos do«bestiário privado do imaginário burguês» (p.291), para em seguida se partirao encontro da grave e profunda função catártica da teratologia – outra dasgrandes teses de A Heresia Humanista. Dentro da lógica reflexiva tomam inclusive lugar as utopias, elasrepresentam «o anseio de verdade». E afinal, a própria arte literária «consisteem descortinar novos caminhos para a humanidade». Em boa verdade, toda autopia é um «grande projecto literário» (p.254). Mas a utopia não se esgota na«simples matéria literária» (p. 253), por isso invariavelmente anuncia a suaessência mitológica (desde o fenómeno sebástico até à Revolução dos Cravos). No fundo, tudo gira à volta da questão da eternidade (ideia previamenteanunciada logo no início da obra numa belíssima epígrafe de Jean Guiton),especialmente aquela que é personificada pela arte, «o verdadeiro rosto deDeus reflectido» (p. 282). José Fernando Tavares não pretende que esta obra seja uma distracção doespírito mas uma reflexão sobre a própria criação, nomeadamente a criaçãoliterária. É esta, pois, o «verdadeiro ADN da alma» (p.285), é ela que explica oque identifica uma cultura e os seus modos de vida. Não a morte da literaturacomo Foucault a concebeu, ou a «morte do autor» mas, em vez disso, a«decadência» ou a «falência do espírito», o «esmorecimento» ou o«desinteresse generalizado». E é aqui que radica a «suspeição metafísica»(capítulo 14), algo que de alguma forma já Nathalie Sarraute anunciara, em1956, na sua L’Ere du Soupçon. A juntar à falência do espírito humanistaencontramos a «aceitação generalizada» dos subprodutos culturais, aceitaçãoessa que bastas vezes é feita de modo consciente pelo público que a consome.Só a poesia consegue ainda escapar a tal suspeição metafísica, se bem que não ésobre a poesia que recai (in)felizmente(?!...) a atenção do consumista (p. 297).Todavia, e apesar da «falência interior» dos tipos de fenómenos literários, háque perceber a sua incontornável importância filosófica geral: são eles quem 7
  8. 8. revelam uma determinada consciência do mundo e concepção do homem.Diríamos que apesar da heresia do humanismo é o próprio homem que (pode)mata(r) essa heresia. Este último tema é defendido num capítulo intitulado «A crise dohumanismo ou a divergência à tradição». Escreve José Fernando Tavares: «Ohumanismo instalou-se no seio da história dos homens para que estes, maistarde, pudessem negá-lo e, eventualmente, esquecê-lo. Trata-se, contudo, deum esquecimento temporário, pois toda a humanidade, mesmo que sucumba aopeso do tempo, acaba por sobreviver a si mesma – todo o homem poderásobreviver a si mesmo desde que reconheça a sua força anímica, desde quesaiba reconhecer o seu próprio canto.» (p.307). Existe por isso uma esperança:a «saudade do futuro» ou a transmutação do mesmo. É num tom hegeliano de dialéctica que o autor se move para apresentar,finalmente, uma última tese da A Heresia Humanista, a violência. Esta, aviolência, mesmo que tão-só psicológica, corresponde a um fenómeno denadificação, é a «obscura política dos escombros» (p.324). O homem actualnão se encontra ainda preparado para converter as sua próprias limitações emqualidades civilizacionais maiores. 3. 2. Doutrinas. No que diz respeito à posição retratada nas ideias de José FernandoTavares relativamente a doutrinas destacamos, sem dúvida, a presença dedoutrinas filosóficas. O autor anuncia, logo à partida, no Prólogo, a apologia darelação entre o estádio estético de Kierkegaard e a dimensão dionisíaca daPaideia grega vista por Nietzsche. Pretende-se justificar por um lado, com ofilósofo dinamarquês, a fundamentação da falência espiritual do nosso tempomas também a procura da superação da humanidade por si própria, na dimensãoestética da vida portanto (ideia esta retomada mais à frente, v. g. p.262), e por 8
  9. 9. outro justificar também, com o autor de A Origem da Tragédia e a antevisãogrega representada nas divindades Diónisos e Apolo, a existência de um traçocomum a todo o desenvolvimento futuro do homem, mais especificamente, oequilíbrio e a justa medida numa parte, e o excesso e o vício noutra. JoséFernando Tavares recorre também e preferencialmente a Hegel (treze registos),contrariamente ao que seria de supor, uma vez que os dois filósofos enunciadosno Prólogo seriam os preferidos para defender as suas ideias. Mas é de factocom Hegel que se pretende justificar o seguinte: é na tomada de consciência doespírito por si mesmo, através da dialéctica da negação e da superação, quereside a emancipação do humanismo do homem. Nesta medida, as recorrências aos filósofos são de um modo geral ditadaspela necessidade idiossincrática do próprio escritor, e não por imperiosafundamentação do trabalho científico – sabemos que estamos falar, nestaresenha crítica, de um claro exemplo de impressionismo ensaístico português.São, na verdade, «impressões» que José Fernando Tavares oferece ao seu leitorquando tematiza as ideias filosóficas. Defende, por exemplo, recorrendo aPlatão, que toda a «reflexão filosófica séria» encontra na «estesia poética umadas suas forças mais sólidas» (p.258) – o adjectivo «sério» está a mais! De outro modo interpreta também a metafísica num sentido não-sistemático, mas não descortina quais os alicerces teóricos que sustentam estetipo de metafísica (p.266). Alude ainda a um «preconceito cósmico» paraexplicitar que tanto na história da humanidade como na história da naturezaexiste uma ordem pré-estabelecida: o princípio da sincronia negadora doexcesso, uma vez que «não é permitido ao homem ultrapassar os limites que ahumanidade lhe impõe» (p.307), recorrendo para isso uma vez mais a Hegel –resta justificar a relação entre essa ordem pré-estabelecida e a própria dialéctica! Em síntese, e é o próprio autor que auto-criticamente escreve: «[...] seaqui existe uma abordagem filosófica, ela refere-se apenas àquilo que a 9
  10. 10. filosofia pode conter de especulação intuitiva; nem a nossa dissertação poderiater sido realizada de outro modo.» (p.325). É ainda importante referir a doutrina cristã. É ela que, assumida peloautor enquanto forma ideológica, é também criticada na sua dimensão patrísticae moralista extremas (pp. 149 e ss. - «Os prazeres proibidos e a criação doobstáculo moral»). Assume-a, todavia, como ponto de partida da sua reflexão,dado que foi ela que permitiu compreender duas coisas: que «o homem é pornatureza intolerante» e que «todo o homem é vítima de si mesmo quando nãocoexiste uma inteligência uniforme» (Prólogo, p.16). 4. Coerência expositiva, estilo e linguagem. A conexão de cada uma das dezenas de partes constituintes de A HeresiaHumanista de José Fernando Tavares, advém do estilo utilizado. O seuensaísmo caracteriza-se pela coragem da arrogância, suficiente para escrever oque pensa e dá-lo à estampa. Estamos perante uma escrita empolgante,moderadamente adjectivada e cheia daquele brilho literário próprio dosescritores de qualidade. Este conjunto de reflexões, todas elas envolvidas num mesmodenominador comum, as paixões heréticas fruto do humanismo, acolhe ummodo de expressão dialógico essencialmente caracterizado pelo recurso àconvicção na argumentação e à refutação de teses contrárias devidamenteanunciadas, não se preocupando tanto com a estrita progressão lógica doraciocínio (a indução ou a dedução por exemplo) nem com a adaptação do textoao destinatário (uma vez que este se pode alargar desde o público-alvofilosófico ao senso comum mais ilustrado – daqui inclusive, a grande riquezadesta obra). Relativamente à convicção na argumentação, o discurso de José FernandoTavares pauta-se, invariavelmente, por algumas coordenadas. A produção de 10
  11. 11. afirmações categóricas, com conotações positivas (quando defende) e negativas(quando ataca). Por isso, a sua contra-argumentação e/ou refutação sai ligeira eencadeada numa credível e legítima narrativa que, por sua vez, a torna robusta.A metáfora por exemplo, esse verdadeiro instrumento de persuasão, é mantida,suavemente, pelo (já antigo) treino da escrita ficcional – com a qual JoséFernando Tavares se estreou no mundo da literatura em 1985 1- permitindo ligarideias que à partida viveriam eventualmente separadas para o leitor. Nestaperspectiva, também o recurso ao exemplo ilustra de modo constante oargumento, nomeadamente as partes mais dedicadas à cultura de massas. Enfim,faz participar o leitor da «verdade» do seu raciocínio. O léxico apropriado ao grau de certeza que se pretende transmitir; ocampo do verosímil que brota das palavras e expressões que persuadem (pelosentimento) e convencem (pelo raciocínio lógico); o estilo intelectual mas algofamiliar; a celeridade de compreensão cognitiva com que brinda quem o lê;alguma impertinência semântica inclusive; permitem, com mestria, associarpelo menos(!) o subconsciente do leitor à tese em discussão. Finalmente encontramos duas mensagens contidas nesta «heresia» deJosé Fernando Tavares: uma objectiva, que nos indica o pessimismo e mal-estarcaracterísticos da chamada «modernidade» e da «pós-modernidade» - conceitosdiscutidos com rigor - como vector dinâmico da cultura humanista desde hávários séculos; outra subjectiva, que abre ao intérprete não só os resultados dainvestigação do próprio autor mas também a possibilidade de os questionar, deos colocar sob perspectiva - o que torna este livro numa obra notável a reter nanossa biblioteca pessoal ou para consulta em qualquer escola do país. Como disse Joseph Vialatoux: «O pensamento do homem inquieto e àbusca da sabedoria deve ser um pensamento corajoso, porque é um pensamentodramático».1 Cf. Kauchemar, O Touro Vermelho, o n º 12 da saudosa Colecção Fantástica das Edições Rolim. 11
  12. 12. Joaquim Carlos Araújo 12

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