Teoria da Razão - Kant

3.204 visualizações

Publicada em

Texto de apoio

0 comentários
2 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
3.204
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
48
Comentários
0
Gostaram
2
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Teoria da Razão - Kant

  1. 1. Jorge BarbosaFILOSOFIACurso de Artes VisuaisFevereiro, 2013 O U S O T E Ó R I C O DA R A Z Ã O - K A N TA Vida de Kant A vida de Immanuel Kant Reuter não teria nada de interessante para um homem típico do nossotempo. Ele, que é considerado por muitos o maior filósofo alemão e até de todo o Ocidente, nasceuem 1724 em Konigsberg, na Prússia oriental, justamente quando a Rússia começava a ser consideradaum país europeu, graças à acção do imperador Pedro, o Grande. Atualmente, embora Kant sejaconsiderado alemão (alemão era a sua língua), Konigsberg chama-se Kaliningrado e situa-se emterritório russo. O seu pai, Johann Georg Kant, era soldado de carreira, de costumes sóbrios, e a sua mãe, AnaRegina Reuter, tinha fortíssimas convicções religiosas que transmitiu aos seus filhos. A família eraeconomicamente muito modesta e foi atingida por numerosas desgraças (morreram cinco irmãos deKant, ainda crianças, sendo Kant o quarto de nove filhos e o que viveu mais tempo). Um dos seusirmãos foi pastor protestante e as suas duas irmãs foram artesãs. O seu pequeno corpo, de 1,52m. dealtura, e o seu ombro direito mais alto do que o esquerdo convenceram o seu pai de que não serviriapara soldado, pelo que basicamente foi criado pela mãe, de acordo com as ideias da rigorosa seitapietista. Kant era ruivo e tinha uma voz tão débil que os seus alunos da terceira fila tinham dificuldadeem o ouvir. Com oito anos, foi inscrito por sua mãe no Collegium Fridericianum, dirigido pelo pastor F. A.Schultze. Ali estudou até aos 16 anos. O forte sentimento moral que impregna toda a obra de Kant émuito influenciado por esta seita pietista e pela sua própria mãe. No entanto, mais tarde repudiará adureza da educação que ali recebeu. Manteve sempre a sua fé cristã, mas afastou-se da Igreja oficial eda participação nos seus rituais e cerimónias. Após os estudos secundários, aos 16 anos, portanto,Kant começou a dar aulas particulares como preceptor dos filhos de nobres que viviam no castelo deKonigsberg, situado a menos de 10Km da cidade; diz-se que esta foi a maior distância da sua cidade aque se deslocou durante toda a sua vida. Por essa altura, e durante seis anos, frequentou a universidade da sua cidade. De facto, Kantestudava em casa do seu mestre, Martin Knutzen, tendo acesso à sua biblioteca pessoal. Martin
  2. 2. Kuntzen era professor de Lógica e de Metafísica Racionalista. Após a morte de seu pai, Kant teve deabandonar os seus estudos universitários, e dedicar-se exclusivamente a dar aulas particulares. A suaformação em Filosofia ficou muito incompleta: conhecia mal a filosofia grega e tinha quase nenhumainformação sobre a filosofia medieval. As suas leituras filosóficas não foram abundantes, mas teveacesso a vastos conhecimentos sobre geografia e história, como prova a sua biblioteca pessoal. Mesmo assim, 11 anos depois (em 1755, ano do terramoto de Lisboa) apresentou a sua tese dedoutoramento em Filosofia. Foi-lhe de imediato oferecido o lugar de “leitor” de filosofia naUniversidade, o que lhe permitiu apresentar ainda no mesmo ano a sua tese de habilitação para adocência. Assim se manteve como professor da Universidade durante 15 anos. Recebia de acordocom as horas de aula que desse e com o número de alunos que tivesse. Por isso, dedicou-se a ensinartudo o que podia para poder sobreviver economicamente: Lógica, Metafísica, Antropologia, Pedagogiae até Mineralogia (tinha publicado em 1756 um livro sobre Terramotos e outro sobre Teoria dosVentos). Como leitor da Universidade, continuava a expor livros de texto oficial, apesar de já terproduzido teses próprias interessantes. Kant era, então, um homem de saúde frágil e cheio de achaques, que sobreviveu, podemos dizer,doente durante oitenta anos, graças à sua sobriedade e simplicidade. Levantava-se às cinco da manhã,tomava chá e preparava as suas duas horas de aulas (das 7 às 9, ou das 8 às 10h da manhã); depoisdas aulas, regressava a casa, onde estudava até às 13h. A esta hora, almoçava e, depois, dava sempre àmesma hora um longo passeio, de que regressava às 5 horas da tarde em ponto, acompanhado peloseu criado Lampe, que o protegia, sempre que necessário, da chuva com um guarda-chuva. Da parteda tarde, continuava a trabalhar até à hora de se deitar, 10 horas da noite em ponto. Do quarto, ondeestudava, só se via uma torre. Nunca se casou e não se lhe conhece nenhuma amizade com algumamulher. A sua relação com o irmão e com as irmãs foi sempre muito fria, embora os tenha, algumasvezes, ajudado economicamente. Apesar disso, tudo indica que era bastante avarento, e, quandomorreu, foi encontrada uma grande quantidade de dinheiro em sua casa, pelo que, apesar de sempreter vivido modestamente, morreu rico. Os últimos dois ou três anos de vida foram terríveis paraKant, que perdeu a visão, deixou de falar e até ficou amnésico. Quando morreu, em 12 de Fevereirode 1804 (com oitenta anos), a sua fama tinha-se espalhado de tal forma, que era considerado demuito bom tom que damas da Alta Sociedade se dedicassem a ler as suas obras. Na sua campa, foiescrito o seguinte epitáfio: “O céu estrelado sobre mim, e a lei moral em mim.”A Crítica ao Racionalismo Dogmático Por “dogmatismo” Kant entende a pretensão de avançar nos nossos conhecimentos, partindo depuros conceitos filosóficos, sem que a razão tenha sido examinada quanto à possibilidade deconhecer, isto é, sem que a razão investigue sobre as suas possibilidades e os seus limites. Kant foi
  3. 3. inicialmente um racionalista dogmático. O dogmatismo inicial de Kant foi perturbado pelo empirismode Hume. O seu racionalismo dogmático inicial tinha origem nas lições do seu mestre Martin Knutzene era inspirado em Leibniz (o tal que dissera que tudo tinha uma razão). Este racionalismo é umaposição dogmática, é um “sonho dogmático”, na medida em que os racionalistas não questionam apossibilidade de a razão conhecer, não se questionam sobre os limites da razão, antes, partem doprincípio de que a razão conhece, como um dado de facto. É justamente esta doutrina que serácriticada por Kant (numa fase mais madura da sua filosofia). Antes de avançar nas nossasinvestigações, diz ele, é preciso saber se o “órgão” encarregado de conhecer pode de facto conhecer.“Dogmático” opõe-se então a “crítico”, daí o termo “crítico” que qualifica a filosofia de Kant. Segundoele, foi precisamente este dogmatismo da postura racionalista que conduziu muitos à posiçãocontrária, representada pelo próprio Hume: o cepticismo.A Crítica ao Cepticismo Empirista Tudo indica que, num primeiro momento, Kant passou de uma convicção racionalista para ocepticismo contrário. No entanto, Kant sai deste cepticismo, sobretudo por influência de uma leituramais atenta de Leibniz. Este autor tinha influenciado o dogmatismo racionalista, mas merecia umaleitura mais cuidadosa do que a que tinham feito dele os dogmáticos. E foi isso que Kant fez. Leibnizconcorda com a fórmula de Locke e de Hume, segundo a qual “nada há no entendimento que nãotenha estado antes nos sentidos”, mas acrescenta, e este acrescento foi inspirador para Kant, “a nãoser o próprio entendimento”. Portanto, lendo Leibniz, Kant despertou do seu breve “sonhocéptico”, tal como lendo obras de empiristas tinha despertado do seu “sonho dogmático”. Para ele, oempirismo tinha razão quando afirmava que a metafísica é uma ilusão, se prescindir do conhecimentoempírico. Mas, se admitirmos os pressupostos empiristas de que só conhecemos o que provém dossentidos, e se formos radicais nesta posição, então cairemos no cepticismo de Hume. Esta doutrinanão só destruiria toda a possibilidade da metafísica, como também qualquer possibilidade deconstrução de uma ciência empírica como a Física. Não haveria ciência nem conhecimentonecessários, mas só ciência e conhecimento aparentes, ou, na melhor das hipóteses, prováveis. Nonosso tempo, esta consequência de uma ciência provável não incomoda verdadeiramente muitagente, mas, no seu tempo, Kant considerava que a Física de Newton era uma ciência comprovada ecerta, com conhecimentos necessários e não meras probabilidades. Na verdade, a admiração de Kantpor Newton é o ponto de partida para a sua doutrina filosófica. Por outras palavras, o empirismo, nassuas consequências, não só elimina a metafísica, mas também a ciência, e, para Kant, a ciência é umFacto. Por outro lado, Kant defende a objectividade, isto é, o facto de que, face a algumas proposições,todos os homens terem de se pôr de acordo. Se eu disser “hoje está um lindo dia”, é muito provávelque alguns não concordem comigo, mas se disser “o calor dilata os corpos”, isto não é uma simplesopinião subjectiva, mas um facto científico que não pode ser negado, como não pode ser negado queum triângulo tem três lados.
  4. 4. Nem Dogmatismo nem Cepticismo: Idealismo Transcendental Kant procurou um caminho intermédio entre o dogmatismo racionalista e o cepticismoempirista, não no sentido de um caminho conciliador, mas como uma nova alternativa. Segundo Kant,na razão pura, o primeiro passo é próprio de um estádio infantil, o dogmatismo, sendo o segundo, ocepticismo, o próprio de um juízo posto à prova pela experiência. Mas temos de considerar ainda “umterceiro passo, próprio do juízo maduro e viril, que se baseia em máximas firmes e de comprovadauniversalidade, consistente com submeter a exame não os factos da razão, mas a própria razão, tendo emconta todas as suas capacidades e aptidões para os conhecimentos a priori. Já não se trata de umacensura, mas de um crítica da razão; crítica, em virtude da qual se prova não só que a razão tem limites,mas também quais são esses limites; não simplesmente a ignorância deste ou daquele aspecto, mastambém a ignorância a respeito de todas as questões de uma certa categoria.” Então, se Hume despertou Kant do seu sono dogmático, Leibniz despertou-o do seu sonocéptico. Kant opõe-se à tese empirista de que todo o conhecimento provém, tem origem, naexperiência. Por outras palavras, admite que todo o conhecimento comece com a experiência, masnão aceita que todo o conhecimento tenha origem, provenha dela. O princípio, segundo o qual nadaestá no entendimento que não tenha estado primeiro nos sentidos, corresponde a uma tradição quevem de Aristóteles e que passou pela filosofia medieval até ao século XVII. O racionalismo, na versãode Platão, opunha a esta perspectiva a teoria das ideias inatas, sempre difíceis de definir. Admitindo aideia de Leibniz, segundo a qual tudo o que está no entendimento provém dos sentidos, excepto opróprio entendimento, Kant defende a existência de elementos no conhecimento que não têmorigem na experiência, que são a priori, anteriores à experiência. O racionalismo defendia que existeuma certa intuição intelectual das ideias, admitindo muitas vezes as ideias inatas, como faz Leibniz. Kantirá mais longe do que o racionalismo, defendendo que o a priori, como fonte de conhecimentoanterior à experiência, não é constituído por ideias inatas das coisas, mas pela própria estruturado entendimento, da subjectividade cognoscitiva. Deste modo, o a priori de Kant não éum a priori passivo, como nos racionalistas, mas converte-se num a priori activo e estrutural. Trata-se,em definitivo, de um entendimento que é sempre activo, que se situa no centro do conhecer comocondição de possibilidade de conhecimento, e que é também um entendimento não intuitivo deideias inatas como afirmava o racionalismo de Platão. A Filosofia de Kant tem muitas consequências.Uma dessas consequências, talvez uma das mais importantes, tem a ver com o facto de, nos dias dehoje, não ser completamente absurdo falar do conhecimento como uma construção. Kant éclaramente o primeiro construtivista (no que diz respeito ao conhecimento) da era moderna.A “Revolução Copernicana” de Kant Para Kant, era claro que a metafísica tradicional, dogmática tinha falhado completamente, devidoao seu dogmatismo e ao seu afastamento da realidade empírica. Para ele, o caminho para alcançar umverdadeiro conhecimento especulativo consiste em aprender o já percorrido pelas ciências empíricas,como a Física. Essas ciências recorrem a hipóteses e a um método a priori. Por outras palavras, os
  5. 5. cientistas trabalham de um modo tal que, ao Nota muito importante: muitaformular em primeiro lugar as suas hipóteses, se gente fala de “construtivismo” sem saberadiantam à resposta da natureza, obrigando esta a a que é que ele se refere; muitos outrosresponder às questões prévias do investigador, que, têm uma ideia privada deposteriormente, procurará confirmar as suas construtivismo (que não dizem ou nãohipóteses com a experiência. Kant conclui, assim, que sabem qual é), e usam essa ideia só“a razão só conhece o que ela própria produz, de deles para criticar qualquer coisa queacordo com o seu esboço”. lhes apeteça dos outros, sem se aperceberem que a única crítica que Do mesmo modo que Copérnico refutou as deviam fazer seria à sua própriaideias de Ptolomeu, segundo as quais a Terra seria o ignorância. Está na moda, sobretudo nocentro do Universo (geocentrismo), defendendo campo da educação, criticar oque era o Sol esse centro (heliocentrismo), assim construtivismo. Mas o que acontece étambém Kant combate a concepção epistemológica que, na esmagadora maioria das vezes,realista, desde Aristóteles até ao seu tempo, essa crítica resulta da ignorância e dodefendendo que o conhecimento humano não é empenho com que alguns “pensadores”conhecimento por se reger ou se adequar aos pretendem manter-se nela. Sãoobjectos, mas que é precisamente o contrário o que “pensadores” tão importantes que se háacontece: os objectos subordinam-se ao sujeito. algo que não entendem, então isso não presta. Só a sua importância presta. O Então, Kant propõe que os problemas construtivismo tem diferentestradicionais da filosofia se resolvam adotando, como modalidades, mas todas elas partem dahipótese, o ponto de vista de que o conhecimento doutrina kantiana, segundo a qual onão se rege pelo objecto, mas que o objecto se rege conhecimento, qualquer conhecimento,pelo conhecimento, uma vez que, embora todo o só é possível graças à atividade deconhecimento comece com a experiência, nem estruturas já presentes no nossotodo o conhecimento tem origem na experiência. entendimento e anteriores àPor conseguinte, só se conhece quando é possível experiência concreta que queremosimpor ao objeto os elementos a priori, próprios do conhecer, ou que estamos em vias desujeito. São esses elementos a priori, comuns a todos ter. Esta doutrina é obviamenteos homens, que permitem um conhecimento criticável, mas há que ter cuidado com auniversal e necessário. ligeireza com que os opinadores oficiais falam de assuntos que não dominam bem, só porque lhes apetece ou sóO Espaço e o Tempo como Formas Puras porque precisam de notoriedade. da Sensibilidade Segundo Kant, a possibilidade ou não da matemática como ciência pura será demonstrada, muitocuriosamente, na Estética Transcendental. É nesta obra que Kant determina quais são os seuselementos a priori ou “formas puras”: o espaço e o tempo. Contra o racionalismo de Leibniz, queos entende como “conceitos discursivos”, contra Newton, que concebe o espaço e o tempo comoabsolutos e contra o empirismo de Locke e Hume, que os entende como conceitos empíricos, Kant
  6. 6. sustenta uma concepção do espaço e do tempo como formas a priori da sensibilidade, comointuições puras da sensibilidade. O espaço e o tempo, em Kant, não provêm da experiência dos sentidos, mas são coisas em si,são, pelo contrário, aquilo que faz com que seja possível qualquer experiência. O espaço e o tempotêm uma realidade subjectiva, existem como formas que possibilitam a intuição, e têm uma “realidadeempírica”, na medida em que são condições de qualquer experiência possível, mas não pertencempropriamente às coisas tal como elas são. Por outras palavras, o espaço e o tempo não sãoimpressões empíricas nem sensíveis; o espaço e o tempo não estão nos objectos, mas são a condiçãosubjetiva de possibilidade da intuição empírica: todos os objectos são percebidos no espaço e notempo. Estas “formas da sensibilidade”, ao mesmo tempo que conferem necessidade e universalidade aosjuízos sintéticos a priori1 , também fazem com que o objecto percebido nunca seja o objecto tal comoele é em si mesmo, mas tal como é apreendido pela sensibilidade humana. Não representam as coisasem si mesmas, mas, sendo simples condições da sensibilidade, estas fontes de conhecimentodeterminam os seus próprios limites, referindo-se aos objectos só como “fenómenos”, e não comoessências, isto é, como as manifestações das coisas a que as estruturas espaço e tempo conseguemdar sentido. Portanto, e em resumo, segundo Kant, decididamente, o tempo e o espaço não “estão” nascoisas, não são propriedades das coisas, não nos são dados pela sensibilidade. Não sendo qualidadesobjectivas (relativas aos objectos) acontece exatamente o contrário: o espaço e o tempo são ascondições subjectivas (relativas ao sujeito) a priori que possibilitam qualquer experiência, interna ouexterna. Deste modo, o espaço e o tempo não são só condições de possibilidade de conhecimentosensível, mas de todo o conhecimento, na medida em que se referem a algo “inato” no homem,a sua própria estrutura cognitiva.O Entendimento - As categorias Até aqui, Kant ocupou-se em explicar as condições que nos permitem “intuir” empiricamente umobjecto (através da sensibilidade ou capacidade para “sentir” o objecto). Já vimos que essas condiçõesque o sujeito tem de possuir (condições subjectivas) são os elementos a priori espaço e tempo. Emfunção deles, apreendemos o “fenómeno”, isto é, como o objecto se manifesta face a esses elementosa priori. Também já sabemos que estes elementos, espaço e o tempo, são condições subjectivas da1 Juízos analíticos são aqueles em que o predicado só explicita o que já está contido no sujeito (o triângulo tem trêsângulos, por exemplo). Estes juízos não acrescentam nada ao que já se sabe. Juízos sintéticos são aqueles, cujopredicado proporciona um novo saber acerca do sujeito, sendo portanto extensivos e tendo a particularidade deaumentar o nosso conhecimento (por exemplo, os alunos de filosofia sabem o que é um juízo sintético, isto é, saber o queé um juízo sintético não é uma característica incluída no conceito de aluno de filosofia). Os juízos sintéticos a priorisão as sínteses, através das quais a ciência, que se exprime sempre com juízos sintéticos, determina o fundamento das suaspróprias verdades. É nas sínteses, dito de outro modo mais simples, em que o entendimento se apoia para fundamentarnovos conhecimentos científicos.
  7. 7. sensibilidade, mas também de todo o conhecimento. Já sabemos como “sentimos” os objectos, e jásabemos que essas condições de “sentir” os objectos são condições subjectivas de todo oconhecimento. Mas, agora, como é que “pensamos” os objectos? O entendimento é essa faculdade humana que“pensa” os objectos. Vejamos o que diz Kant: “O nosso conhecimento surge basicamente de duas fontesdo psiquismo: a primeira é a faculdade de receber representações (receptividade das representações); asegunda é a faculdade de conhecer um objecto através dessas representações (espontaneidade dosconceitos). Através da primeira, acedemos a um objecto; através da segunda, pensamo-lo em relaçãocom a representação”. Uma primeira diferença entre as duas faculdades fica desde logo clara: enquantoa sensibilidade é “passiva” e receptiva e tem intuições empíricas, o entendimento é activo e não temintuições empíricas. Se do intuir passarmos agora para o pensar, também deveremos examinar quais são os elementospuros do entendimento, assim como as condições de possibilidade que devemos acrescentar àsensibilidade para constituir a experiência. Enquanto a sensibilidade intui objectos, o entendimentopensa os objectos, e fá-lo através de juízos que podemos decompor em conceitos. O entendimentoé, então, a capacidade de o homem pensar o objecto da intuição sensível. “A nossa natureza é de modoa que a intuição só possa ser sensível, isto é, que só contenha o modo segundo o qual somosafectados (passivamente) pelos objectos. A capacidade de pensar o objecto da intuição é, por outro lado,o entendimento. Nenhuma destas propriedades é preferível à outra: sem sensibilidade, nenhum objectonos seria dado, e sem entendimento nenhum seria pensado”. Julgar, “pensar”, pressupõe a utilização de conceitos que sintetizem os fenómenos para os dotarde significado, pois o fenómeno, só por si, é desordenado e caótico. Segundo Kant, existem dois tiposde conceitos no entendimento ✦ Os primeiros são os conceitos empíricos, que correspondem basicamente a generalizações abstraídas e induzidas da experiência (conceito de árvore, como referindo-se à apreensão do fenómeno várias árvores); precisamos destes conceitos para pensar, mas são insuficientes, porque estes são conceitos a posteriori. ✦ Os segundos são os conceitos puros ou a priori do entendimento. Trata-se de categorias, que são estruturas formais da mente, indispensáveis para pensar os fenómenos que, de outro modo, seriam caóticos. Deste modo, enquanto a sensibilidade traz ao nosso psiquismo a matéria ou o conteúdo dopensamento, o entendimento comporta a forma, ou a estrutura, isto é, as categorias.
  8. 8. ANEXO: TABELAS DOS JUÍZOS E DAS CATEGORIAS, E DOS PRINCÍPIOS DO ENTENDIMENTO PURO DE KANTGRANDES JUÍZOS CATEGORIASCATEGORIAS Universais Todo o A é B Unidade QUANTIDADE Particulares Algum A é B Pluralidade Singulares Só um A é B Totalidade Afirmativos A é B Realidade QUALIDADE Negativos A não é B Negação Infinitos A é não B Limitação Categóricos A é B Inerência e Subsistência (substância e acidente) Hipotéticos Se A é B, Causalidade e Dependência RELAÇÃO então é C (causa e efeito) Disjuntivos A é B ou C, ou Comunidade (acção D... recíproca entre agente e paciente) Problemáticos A é Possibilidade - Impossibilidade possivelmente B Assertivos A é realmente Existência - Não-existência MODALIDADE B Apodíticos A é Necessidade - Contingência necessariamente B
  9. 9. GRANDES CATEGORIAS PRINCÍPIOSCATEGORIAS Unidade QUANTIDADE Pluralidade Axiomas da Intuição Totalidade Realidade Antecipações da QUALIDADE Negação percepção Limitação Inerência e Subsistência Analogias da (substância e acidente) experiência. Princípios: Causalidade e Dependência 1.Da permanência da (causa e efeito) substância RELAÇÃO 2.Da sucessão temporal Comunidade (acção (segundo a lei da causalidade) recíproca entre agente e 3.De simultaneidade (segundo paciente) a lei de comunidade ou acção recíproca) Possibilidade - Impossibilidade Postulados do pensar empírico: MODALIDADE Existência - Não-existência 1.Postulado da possibilidade 2.Postulado da existência Necessidade - Contingência 3.Postulado da necessidade

×