Felicidade

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Felicidade

  1. 1. Filosofia AFELICIDADE JORGE NUNES BARBOSA
  2. 2. • CAPÍTULO 1 • A FELICIDADE DEPENDE DE NÓS? A Por Liberdade outras Origina a Lei palavras:A felicidade reside na realidade LOLdos acontecimentos vividos ou noestado de espírito adotado face aeles?
  3. 3. • Secção 1 • IntroduçãoA felicidade parece ser uma coisa que depende do acaso. período de luto, por exemplo, um volte de novo a serSeria feliz aquele tivesse sorte. Com efeito, se ser feliz feliz e outro não consiga. Ser feliz é, com efeito, sentir-significa ver todos os seus desejos satisfeitos, não se feliz, em todas as circunstâncias. A ser verdade estadeveremos admitir que isso depende mais do acaso do afirmação, então a felicidade encontrar-se-ia mais noque da nossa vontade? A saúde, o amor parecem, por estado de espírito adotado do que nos acontecimentosexemplo, ser domínios nos quais a vontade não basta vividos. Desde logo, não dependerá de nós experienciarpara nos afastar dos caprichos da sorte. Não seremos, este sentimento de plenitude, a que se chamaentão, impotentes face aos acasos da vida, dos quais felicidade? Mas como aceder a esse sentimento, quandodepende a nossa felicidade? Uma resposta positiva a os acontecimentos lhe criam obstáculos?esta questão implicaria a aceitação de uma certa formade fatalismo. Não seríamos suficientemente livres para Em resumo, não estará a felicidade ligada aos acasos dacorrigir o curso da nossa própria existência. vida, responsáveis pela produção de satisfação e de insatisfação? Mas não poderemos gerir a nossa vida deMas será que a felicidade não pode mesmo ser forma a estarmos completamente satisfeitos com ela?produzida pela nossa ação, pela nossa capacidade de Mesmo quando os acontecimentos são desfavoráveis,fazer evoluir as situações a nosso favor? Será que não não será possível sermos felizes?podemos ser os verdadeiros artesãos da nossa própriafelicidade? Mais, não poderemos ser felizes, mesmo quenão consigamos mudar a nossa sorte? No final decontas, acontece que em circunstâncias iguais, após um 2
  4. 4. • Secção 2 • Felicidade e AcasoSer feliz significa, antes de mais, que nada nos falte. felizes de forma duradoura. Como podemos ter aOra, um tal estado de satisfação total parece difícil, certeza de que a riqueza não nos trará maismesmo impossível, de alcançar. Mal acabamos de preocupações do que satisfação, de que o saber não nossatisfazer um desejo, logo um novo desejo aparece levará a tomar conhecimento de factos que eradando-nos a sensação de que há sempre alguma coisa preferível ignorar para nos mantermos numa felizque nos faz falta. O desejo não parece ser algo que ilusão? Então não podemos ser os autores de umapossamos gerir, mas uma força que nos domina. Pior satisfação duradoura e total, porque não sabemos emainda, a felicidade supõe uma satisfação duradoura, que coisa se transformará amanhã aquilo que tantocontínua. O prazer, essa descarga pontual desejamos hoje. Seguindo esta linha de pensamento, aexperimentada quando um desejo é satisfeito, não basta felicidade não depende de nós: para isso, seria precisopara nos dar a felicidade, uma vez que esta tem de ser que fôssemos omniscientes, como diz Kant.contínua e duradoura. Nestas condições, parece nãodepender de nós aceder a um tal estado. Mesmo que De resto, como poderíamos ter a esperança de alcançarsejamos capazes de alcançar a satisfação pontual de um a felicidade vivendo em sociedade? A felicidade nãodesejo, ou de muitos, como podemos ter a certeza de depende de nós, indivíduos, porque depende de nós,que isso vai durar? Nos Fundamentos da metafísica comunidade. A nossa felicidade dependerá, então, tantodos costumes, Kant define a felicidade como um “ideal da regulação pública que pode conceder-nos essada imaginação” impossível de definir, precisamente satisfação do ponto de vista económico (assegurandoporque nos é impossível garantir que aquilo que nos um crescimento que nos garanta a satisfação material),satisfaz pontualmente esteja em condições de nos fazer do ponto de vista social (protegendo-nos, precisamente, 3
  5. 5. do aleatório da existência, como a doença, os acidentes,o desemprego), e do ponto de vista político (mantendo-nos livres). Em suma, se a declaração de independênciados Estados Unidos da América reconhece, em 1787, odireito à busca da felicidade como um direito natural einalienável, reconhece também que esse direito deve sergarantido pelo Estado, que não depende só de nós, masdo ambiente que a coletividade a que pertencemos nosoferece.Não depende, portanto, de nós ser felizes, pois, sendo afelicidade um estado de satisfação total e duradouro,não somos nós quem tem o domínio sobre o curso dascoisas, para evitar acontecimentos que possam impedira nossa total satisfação. Isto quer dizer que o homem éimpotente face ao curso da sua própria existência. Masa liberdade, de que é suposto sermos dotados, nãoimplicará que sejamos capazes de agir sobre o curso dascoisas? 4
  6. 6. • Secção 3 • Interferir no Curso das Coisas para Ser FelizNão haverá uma espécie de má fé em pretender que nós. Mesmo que vivamos em situações que nãosomos infelizes por azar, ou má sina? A liberdade não escolhemos, continuamos a ser livres de decidir o quepressupõe, pelo contrário, que sejamos capazes de agir fazer nelas ou delas.sobre a realidade para a transformar? Dizer que afelicidade não depende de nós, seria renunciar a essa Talvez seja esta a razão por que nem todos conseguemliberdade que é, de qualquer modo, essencial para nós. ser felizes. A felicidade dependeria da nossa potência,A liberdade designa a capacidade de agir de acordo com da nossa força de vir a ser. Enquanto satisfação dosa nossa vontade, face e contra a realidade material, nossos desejos, a felicidade depende essencialmente danatural, social, etc. Escondermo-nos atrás dos nossa liberdade. Nem todos conseguem obter o queacontecimentos para justificar a nossa infelicidade é desejam: a felicidade é, então relativa, não só porqueconfessar que fomos vencidos pela realidade. Este não temos todos a mesma definição de felicidade, massubterfúgio é uma espécie de má fé, no dizer de Sartre, também porque não somos todos iguais em potência.que consiste precisamente em nos refugiarmos nas Não possuímos todos o mesmo poder de infletir acircunstâncias, para nos libertarmos do enorme peso realidade, mas é precisamente por isso que a felicidadedas responsabilidades ligadas à nossa total liberdade. depende de nós.Ora, até aquele que está na prisão é, segundo Sartre, Então, a felicidade, como satisfação dos nossos desejos,capaz de agir sobre o seu destino para melhorar a sua depende de nós. É relativa ao nosso grau de liberdade esituação, tentar reconquistar a liberdade, fugir da de potência. No entanto, numa mesma situação, deprisão... Se tivermos que levar a nossa liberdade a sério, doença, por exemplo, é possível que alguém, mesmoentão temos que admitir que a felicidade depende de 5
  7. 7. sem força, seja feliz, enquanto um outro não o é. Seráque isto quer dizer que a felicidade depende de nós, najusta medida em que reside mais no nosso estado deespírito, do que nas circunstâncias vividas que seimpõem a nós? 6
  8. 8. • Secção 4 • Felicidade e Maneira de SerA felicidade também pode ser encarada como um Ultrapassado o choque e a dor do luto, por exemplo,sentimento, um estado vivido. Nesta perspetiva, ela podemos lutar pela felicidade, se não nos focarmos nodepende mais do que pensamos a respeito das que não temos ou já não temos, para prestar maiscircunstâncias, do que das próprias circunstâncias da atenção àquilo que ainda temos (as recordações quevida. Mesmo em circunstâncias desfavoráveis, é-nos conservamos, por exemplo, daquele que faleceu).possível ser felizes, graças ao modo como abordamos os Assim, viver um luto, mesmo dolorosamente, não anulaacontecimentos. Não é isto mesmo o que fazemos por as possibilidades de uma felicidade futura. Compete-um amigo que atravessa um período difícil? Não nos amarrar o nosso espírito ao que temos, em lugar deficamos silenciosos, pelo contrário tentamos o fazer pensar só no que não temos. É este o sentido dareconfortá-lo, argumentando de modo a que ele encare máxima estóica, que nos convida a distinguir o quea possibilidade de uma futura felicidade, para além da depende do que não depende de nós. Alcançamos asua tristeza imediata. Se é isto o que fazemos pelos felicidade através da vontade, pois é ela que nosoutros, porque haverá de ser impossível fazer o mesmo permite ver e pensar a realidade sob o ângulo certo parapor nós próprios? Estamos habituados a acreditar que ser felizsomos impotentes perante a má sorte. Mas não são osacontecimentos que temos de mudar para sermos A perspetiva de Rousseau vai no mesmo sentido, apesarfelizes, mas é nós próprios que temos de forçar para nos de chegar a uma conclusão contrária, a de nos convidarobrigarmos a ver o que há de positivo nas razões da a refugiarmo-nos no “país das quimeras”. Paratristeza que nos domina. Rousseau também, não é tentando transformar a realidade, face à qual somos muitas vezes impotentes, 7
  9. 9. que conseguimos alcançar a felicidade, massatisfazendo-nos com o que temos: seja o que dependede nós, seja o refúgio da imaginação, seja a antecipação,essa felicidade anterior à felicidade do desejo.A felicidade depende, então, de nós. Certamente, ascircunstâncias exteriores pesam sobre nós e fazem-nossentir, pontualmente, tristeza ou alegria, mas afelicidade, estado de plenitude que se prolonga notempo, não se encontra nos acasos das circunstâncias.Encontra-se naquilo que fazemos delas.Fraca consolação esta para aquele que é atingido poruma tragédia e que, em muitos casos, não tem paraonde se virar para compensar o que já não tem. Talvez omais certo é que talvez não nos seja possível ser semprefelizes. Mas se pudermos sê-lo, isso depende de nós e danossa capacidade para aceitar os acontecimentos. 8
  10. 10. • CAPÍTULO 2 • ESQUECER O PASSADO PARA TER FUTUROViver não é ser esmagadopelo peso do passado.
  11. 11. • Secção 1 • IntroduçãoQuando o futuro se apresenta sombrio, quando não se Pior ainda, o que seriam um país, uma comunidade quevê a luz ao fundo túnel, se, mesmo assim, queremos ter esquecessem a sua história, que se recusassem afuturo, então temos que esquecer. Para que algo de recordar-se dela?novo aconteça, é absolutamente necessário deixar derepetir. A novidade exige a ausência de repetição. A questão é tão pertinente do ponto de vista individual como do ponto de vista coletivo. A identidadeMas será assim tão fácil passar uma esponja sobre o individual, tal como a identidade coletiva, implicapassado, fazendo com que deixe de ter qualquer sempre uma relação com o passado. Mas com qualrepercussão no presente? Numa das suas famosas peças passado? O que é devemos fazer do passado? Ade teatro, O viajante sem bagagem, Jean Anouilh conta dificuldade deste tipo de questões prende-se com oa história de um homem reencontrado amnésico no fim facto de todos concordarmos facilmente quer com ada Primeira Guerra Mundial. Não se lembra sequer do necessidade de esquecer quer com a necessidade deseu nome, nem tão pouco do que quer que seja da sua recordar. Mas esquecer o quê, recordar o quê?vida anterior. Vivendo só no presente, este homem nãotem verdadeiramente lugar na sociedade, no seio daqual ele se sente um estranho. É que recusar todas asligações ao passado, negá-lo, é também negar asrelações que tenhamos conseguido manter com osoutros, com a sociedade, com o mundo; e esta é umaboa razão para fazer de nós pessoas muito estranhas. 10
  12. 12. • Secção 2 • A Necessária Rutura com o PassadoA. Romper com o que já não é: a necessidade de trabalho de reconstrução das ligações com o mundo: a luto ausência de luto é um obstáculo à existência.Se o passado se define como aquilo que já não é, sendo B. A dimensão mortífera da memória.o futuro aquilo que ainda não é, se o passado é um não-ser, não é difícil compreender como é que a ligação a A memória pode paralisar. Aquele que fosse capaz deessa dimensão do tempo corre o risco de ser um travão se recordar de tudo, rapidamente se transformaria emda ação. Viver é, com efeito, antes de mais, viver no alguém incapaz pensar, e até de existir. Pensar épresente, o único tempo que é. Transportarmo-nos distinguir, discernir, separar e este tipo de atividadespermanentemente para o passado só pode impedir-nos implica a de classificar e de hierarquizar. Viver não é serde viver. Os sentimentos de nostalgia e de saudade são esmagado pelo peso do passado. Por isso, é-nosuma boa ilustração desse impedimento de viver. O indispensável uma boa dose de esquecimento.homem nostálgico é aquele que, tendo saudades do Imaginemos um ser que não esquecesse nada, comopassado, acha que o presente e o futuro nunca estarão à Funes, personagem de um romance de Jorge Luíssua altura. Esta prisão ao passado pode mesmo tomar Borges. Porque retém absolutamente tudo na memória,contornos patológicos. O luto é, então, um trabalho é incapaz de comparar ou de classificar: incapaz denecessário, que todas as pessoas devem ser capazes de esquecer, acaba por morrer de uma congestãorealizar, se a sua intenção for a de viver. Fazer o luto de pulmonar, abafado pelas suas recordações. Devemos,uma pessoa, ou de um modo de vida pressupõe um então, aprender a esquecer, pois esquecer é não só uma condição para sobreviver, mas também para ser feliz. 11
  13. 13. C. O esquecimento, como condição para a Resumo/Balanço felicidade. É então necessária uma certa dose de esquecimentoNum estado de felicidade, somos absorvidos pelo para que o futuro seja possível, e isto é verdade, quer dopresente. Ser feliz é lutar contra o imperfeito, ponto de vista individual, quer do ponto de vistasimplesmente porque não é perfeito, e isso por uma coletivo. A história da construção europeia, porrazão óbvia: porque já não é, porque é o passado. Foi exemplo, baseia-se numa vontade de não-repetição,por esta razão que Nietzche disse que o homem tem num “isso nunca mais” que exige um rompimento cominveja do rebanho que nunca diz “eu era”, o rebanho o passado. Assim ele se faça. Dar-se um futuro a sidesses animais que vivem unicamente “rebitados à mesmo exige, no mínimo, que não assimilemos o outroestaca do instante” e que, em nenhum momento, àquilo que ele pode ter sido num dado momento dadobram a espinha face ao passado. Não se trata tanto de história, não o congelar numa recordação.imitar o animal, mas antes de cultivar uma faculdadeaparentemente negativa: “a capacidade de esquecer”. É Transiçãoo esquecimento, não a memória, que desempenha uma Todavia se é verdade que é indispensável fazer umafunção vital. Como nos diz Nietzche, o apaixonado, ou ruptura com o passado, nem sempre é garantido queaquele que tem um grande projeto seleciona muito bem essa ruptura seja sinónimo de esquecimento, ou quedas suas experiências aquelas que respondem à sua uma implique o outro. Podemos invejar certos animais,paixão exclusiva, e esquecem ou desconhecem tudo o mas o problema é que nós não somos como os outrosresto. Tudo o que os apaixonados pretendem é fazer ser animais. Nós temos uma história, os outros bichos, peloo que ainda não é, fazer chegar um tempo novo. que parece, não a têm. O que seria um homem sem história? 12
  14. 14. • Secção 3 • A Recuperação do PassadoA. A R u p t u r a c o m o p a s s a d o n ã o é moderno” tal como nos é retratada por Hannah Arendt: necessariamente esquecimento um homem sem história, sem bagagem, que já não consegue cultivar uma existência social, precisamenteSe o luto supõe o ressurgimento do acontecimento, porque perdeu toda a sua identidade, ao tentarentão a ruptura com o passado não é exatamente preservá-la na mais absoluta individualidade.sinónimo de esquecimento. Quando Anna O., umacélebre doente histérica de Freud, consegue viver de Sem memória, não pode haver identidade, só umanovo, encarar, dar-se a si mesma um futuro, é, antes de rapsódia de momentos isolados, destituídos demais, graças à evocação de um acontecimento qualquer significação, seja do ponto de vista individual,traumatizante do passado, até então recalcado para fora seja do ponto de vista coletivo.das recordações conscientes. B. O dever de memóriaDizer que é preciso esquecer tudo parece ser demasiadoradical. Romper é sobretudo refrear uma repetição, é Como podemos ter a coragem de afirmar a necessidadedar-se a si mesmo as condições que permitam o acesso de esquecer, quando somos confrontados com asa uma forma de novidade. Mas esta ruptura, supõe, atrocidades da história? Parece, pelo contrário, impor-talvez, uma tomada de consciência do passado e não a se sobretudo um dever de memória. Como já vimos, nãosua rejeição. O homem, sem passado, seria um homem se trata de nos limitarmos a apreender do outro só odesenraizado que correria permanentemente o risco de que pode ter feito num dado momento, e reduzi-lo àsse perder no presente. Esta é a “condição do homem 13
  15. 15. suas ações do passado. Mas esquecer os mortos é esquecimento não pode incidir sobre todo o passado. E,condená-los a morrer de novo. por seu turno, o passado não pode ser objeto de fascínio.Se é verdade que o dever de memória nos surge comoum imperativo, então também será verdade que ele é Transiçãouma condição para a construção de um futuro comum,um futuro coletivo. Permite, por um lado, garantir a Abordar as questões deste modo, coloca-nos, nouma comunidade, ou a uma nação, a continuidade da entanto, em face de um problema difícil de superar.sua história e, por via disso, a construção da sua Poderíamos dizer: “devemos esquecer, mas não tudo.”identidade; por outro lado, permite-lhe ultrapassar os Mas o que é que deve ser esquecido? E o que é que nãoconflitos que possa ter alimentado com outras deve ser esquecido? Podemos todos concordar com ocomunidades, ou nações. princípio, mas nem por isso deixa de ser muito vago defender “uma certa dose de esquecimento”. Os pioresEste é o sentido do perdão que torna possível a vida em ideólogos também têm este discurso e, por via dele,comum num mundo futuro. Perdoar não é esquecer. O pretendem escolher aquilo que querem pôr emperdão pressupõe a lembrança do sofrimento, mas de evidência e aquilo que preferem escamotear. É desteum sofrimento que se ultrapassa. modo que todos os ditadores reconstroem o passado. O princípio segundo o qual “devemos esquecer, mas nãoResumo/Balanço tudo”, para além de ser vago, é também muito perigoso.A relação com o passado é necessária, mas o passadonão pode transformar-se num objeto de adoração. Se énecessária uma certa dose de esquecimento, isso nãodeve conduzir-nos à negação da história. A exigência de 14
  16. 16. • Secção 4 • Devemos Peneirar o PassadoA. Os perigos de uma reconstrução do passado. B. Distinguir a memória da história.Como peneirar? Como separar e classificar as coisas do A memória tem sobretudo uma dimensão afetiva:passado? Colocar estas questões, só por si, já é um lembramo-nos de acontecimentos marcantes, ou entãoproblema e um perigo, na medida em que equaciona a recalcamo-los. A memória é seletiva, e a sua seleçãopossibilidade de reconstruir ou inventar a História, ou a depende muito frequentemente de circunstâncias esua própria história individual. Podem alguns pensar condições individuais. De um ponto de vista coletivo, oque poderíamos decidir lembrar só o que nos interessa, perigo consiste em operar uma seleção de naturezaou só o que nos dá jeito. Não é difícil detetar a idêntica, uma seleção que serve interesses próprios, ouambiguidade ou mesmo o absurdo de tal coisa. uma ideologia. É neste sentido que o historiador Vidal-Primeiro, porque, de um ponto de vista individual, Naquet sublinha a diferença, a tensão mesmo, que podesimplesmente não somos capazes de tomar decisões existir entre a memória e a história. O historiador devedessa natureza; depois, porque, de um ponto de vista preocupar-se em dar conta dos acontecimentoscoletivo, corremos sérios riscos de nos precipitarmos. passados, em permitir a sua compreensão, sempreAs atitudes revisionistas e negativistas são visando a objetividade. É esta objetividade que aprecisamente manifestações desse absurdo de memória nunca alcança, justamente porque é semprereinventar a História. Na verdade, a precipitação e o acompanhada por uma dimensão afetiva.absurdo destas atitudes resultam da tentativa de evitara concorrência entre memórias. É que há um diferençaimportante entre memória e história. 15
  17. 17. C. A realidade do passado ou aquilo que devemos recordar. Este é o grande e sério problema da existência. Levantar uma injunção sobre oDe um ponto de vista individual, a própria ideia de que recordar, à qual tenhamos de obedecer, é travestir aobrigação de esquecer ou de recordar parece dever ser existência. Pretender que o esquecimento ou a evocaçãorejeitada. Quando me pergunto que coisas devo dependem de uma decisão voluntária é artificial. Naesquecer e de que coisas devo lembrar-me, pretendo verdade o que importa é que nos resguardemos dosoperar uma seleção do passado, individual ou coletivo. pensamentos travestidos do passado, dos fantasmas doPor outras palavras, represento-me o passado, o meu passado, com origem numa representação do passado,passado, e questiono-me sobre o que deve ser isolado do presente.conservado em memória. Digo a mim mesmo que paraagir, pois disso depende o meu futuro, tenho de Lutar pelo futuro exige então que não fujamos da nossaseleccionar, classificar, distinguir e, portanto, tornar-me condição, que não construamos uma falsa realidade.em espectador do meu próprio passado. É por isso que Lutar pelo futuro é abrirmo-nos à novidade, isto é,uma semelhante conceção do passado e relação com ele evitar a repetição. Para isso, o passado não deve sernão nos permitem evitar os escolhos da reconstrução, esquecido, mas ultrapassado. Finalmente, a únicado artifício e também do fantasmático. De facto, que sou exigência não é a de esquecer, mas a de não confundir aeu senão a totalidade do que vivi, a totalidade da minha realidade com a ficção.história? Na verdade, só consigo agir com a totalidadedo que sou.Conclusão.Nenhum discurso oficial, nem nenhuma autoridadepodem dizer-nos, do exterior, o que devemos esquecer, 16

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