Construtivismo

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Texto de apoio para alunos do ensino secundário

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Construtivismo

  1. 1. Construção  do  ConhecimentoPara  uma  Teoria  das  RepresentaçõesJ.  B.  Em quase todas as teorias do conhecimento, ao longo da história ocidental, osautores partem do pressuposto de que o conhecimento deveria fornecer umaimagem do mundo real, isto é, de um mundo tal como ele é sem a intervenção doobservador humano.Os céticos de todas as épocas constataram que este pressuposto é absurdo,porque todo o saber tem origem na experiência ou em fatores inatos, e nestascondições, não conseguiremos nunca confrontar o saber obtido com o mundo“objetivo” que existe, antes de ser pensado e transformado pela experiênciahumana e pelas propriedades do espírito humano, agente do conhecimento.Apesar de todas as tentativas dos filósofos - e houve algumas muito belas e muitopoéticas -, o argumento dos céticos é tão incontestável hoje quanto o era há 2500anos, no tempo dos pré-socráticos.Mas, o termo usado no início “quase todas as teorias do conhecimento” quersignificar justamente “nem todas” ou “só algumas”. Há, com efeito, algumasexceções. Uma delas é-nos dada por Giambatista Vico, um filósofo napolitano doinício do século XVIII. Vico é o verdadeiro pai do construtivismo. A sua ideiaprincipal foi vertida na seguinte frase: “O homem só pode conhecer aquilo que fez”.Por outro lado, Vico deixou-nos um conjunto muito vasto de construçõesconceptuais, das quais uma boa parte é claramente próxima do espírito dasanálises de Piaget. Esta coincidência é interessante, enquanto facto histórico,porque Piaget nunca leu o tratado epistemológico de Vico, um tratado escrito emLatim que se manteve quase desconhecido até aos dias de hoje.Não é este o momento nem o lugar adequados para falar da revolução cuja origem,em retrospetiva, podemos encontrar nas ideias de Vico. Mas é fundamental explicaro ponto central desta revolução conceptual que propõe uma mudança radical noconceito de saber.Em Português, temos alguma vantagem para compreender o problema, pordispormos de duas palavras, “saber” e “conhecimento”, que nos facilitam acompreensão de uma distinção muito importante: a distinção entre a atividade deconhecer e o seu resultado, o saber. (Em inglês, só se recorre a uma palavra paraos dois conceitos, e esta característica linguística e cultural não é neutra).
  2. 2. No entanto, esta distinção, facilitada na nossa língua por dispormos de duas palavras, torna-se muito complexa edifícil, não por razões lógicas, mas porque em todas as línguas e nos nossos hábitos de expressão somosfortemente influenciados pela tradição realista que sempre esteve presente na tradição filosófica ocidental. Éextremamente difícil substituir o conceito de conhecimento como devendo produzir uma imagem do mundo real(imagem incompleta, talvez, mas mesmo assim imagem) pelo conceito de “acção”. Mas é precisamente estasubstituição que é necessário fazer para compreender os fundamentos do construtivismo.Todo o conhecimento é o resultado de uma acção ou de uma série de acções. Uma acção não surge por acaso. Aacção dirige-se sempre para um fim - e o fim é necessariamente uma estrutura construída ou por reflexos inatos oucom base nas experiências do agente. Piaget mostrou muito bem como isso funciona no domínio da perceção etambém no domínio da concetualização. Nos dois domínios, é o sucesso de uma ação ou operação que nosfornece a medida da sua validade. Neste ponto, o construtivismos aproxima-se claramente do pagmatismo, porexemplo, de William James.Para se ter sucesso, todavia, não é uma imagem “correta” o que nos faz falta, mas sobretudo uma espécie demapa que nos permita evitar os obstáculos que o mundo real poderá colocar no caminho das nossas acções. Poroutras palavras, trata-se não de fazer uma cópia da estrutura do mundo real, mas sim de construir um mapa deitinerários, através dos quais nos podemos orientar no mundo e alcançar os fins que escolhemos.Imaginemos uma noite sem luar. Encontramo-nos numa floresta e queremos encontrar o caminho para sair dela.Avançamos lentamente. A cada dois ou três passos, as nossas mãos encontram um obstáculo - uma árvore, umapedra… - que nos obriga a desviarmo-nos do caminho que pretendíamos seguir. Após um certo tempo, se tudocorrer bem, começaremos a ver as estrelas e apercebemo-nos de que finalmente conseguimos deixar a florestapara trás. Se nessa altura nos questionarmos sobre o que realmente sabemos a respeito daquela floresta, sópodemos dizer uma coisa que ficamos a saber: um caminho possível de saída, uma forma de a atravessar, depassar por ela. Este saber só foi adquirido, avançando, superando os obstáculos que nos afastavam da saída etendo em conta os nossos próprios movimentos que nos conduziam pelo caminho possível. É neste preciso sentidoque podemos falar do saber que nos permite caminhar através do mundo e da vida.Vejamos, então, alguns exemplos de construções, na esperança de que possa ser mais fácil mostrar um ou outroaspeto desta forma de pensar. Os exemplos mais claros são os que descrevem ou analisam construçõesnecessárias ao desenvolvimento cognitivo das crianças.Essas construções estão na origem de estruturas cognitivas a que se dá o nome de representações. Mas aqui háuma questão que tem de ser esclarecida antes de tudo o resto.A palavra “representação” é uma palavra muito ambígua. Falamos de representações para nos referirmos aimagens, a símbolos, à atividade dos atores de teatro ou cinema, etc. A lista de significados possíveis dessapalavra é uma das mais ricas do dicionário. Aquilo que devemos reter no uso que aqui se faz do termo“representação” é que ele não se refere nunca a uma imagem ou cópia de uma coisa exterior, de uma coisa comrealidade ontológica. Pelo contrário, devemos considerá-lo como referindo-se a uma re-apresentação de uma coisapreviamente construída. De algum modo, Platão teve a intuição de que assim deveria ser o conhecimento, masesteve muito longe de dar à sua perspetiva uma dimensão construtivista. A sua busca incessante do universal eimutável impedia-o de alguma vez equacionar o problema deste modo. A sua “re-apresentação” (reminiscência)seria a das Ideias do Mundo das Ideias, vislumbradas pela alma humana numa vida anterior.Este conceito de “representação” aplica-se igualmente às representações ditas “icónicas”, como os desenhos e aspinturas. Se desenharmos numa folha de papel uma bicicleta, é possível que a maior parte das pessoas“reconheça” o desenho como representando uma bicicleta. Sublinhemos, desde já, a palavra “reconhecer”. O seuuso quer significar que essas pessoas veriam no desenho algo que já tinham visto antes. Poderíamos dizer que odesenho as faz repetir uma experiência conhecida. O mesmo se pode dizer da forma como os visitantes de umagaleria de arte representam no seu espírito os quadros que lá encontram expostos, ou da forma como cada um serepresenta mentalmente o sorriso da Gioconda.
  3. 3. Se mostrasse o mesmo desenho a um, digamos, indígena da Amazónia que nunca tivesse visto rodas nembicicletas, não lhe seria possível representar a mesma coisa que representa a maioria dos indígenas da Europa.Para ele, o desenho nunca poderia representar uma bicicleta, proque não a reconheceria nele.Este será, porventura, um exemplo banal e até improvável, mas ilustra bem aquilo que pretendo pôr em evidência,que mesmo uma representação icónica (de um desenho) só funciona através do recurso à evocação deexperiências ou “conhecimentos” que já possuímos. Do ponto de vista construtivista, podemos formular esta tese,dizendo: uma re-apresentação só funciona se nos levar a executar uma operação (ou uma série de operações) quejá tinhamos aprendido antes.Passemos agora, então, a um exemplo de construção mental. Escolho uma situação muito simples, mas mesmoassim, inteiramente abstrata: a situação da criança que se encontra na fase de começar a aprender a formação doplural na sua língua materna.Na língua portuguesa, isso é mais compliacdo do que, por exemplo, em língua inglesa, porque o fonema que indicao plural é mais variável. Em Inglês, com muito poucas exceções, o plural forma-se sempre com um “s” final. Masnão é o código fonémico que aqui está em questão. É, pelo contrário, o estádio anterior à codificação linguística, oestádio em que a criança aprende a distinguir os elementos experienciais sobre os quais constrói o conceito deplural.Imaginemos, então, uma mesa e, sobre essa mesa, cinco ou seis ovos. Uma criança que já tenha aprendido areconhecer um ovo como uma coisa independente e isolada no seu campo visual, e que também tenha aprendidoque essa coisa é, na maior parte das vezes, associada à palavra “ovo”, ao olhar para a mesa e para os ovos,poderia dizer: “Ovo… ovo… ovo… “ - até chegar ao último exemplar dessa coisa. Para não se enganar, talvezacrescentasse a essa espécie de contagem, o movimento de um dedo apontado para cada um dos objetos aoritmo da sua fala.Para “reconhecer” uma coisa, é preciso possuir uma espécie de estrutura modelo, mais ou menos permanente,com a qual possam ser comparadas as experiências atuais (a cada momento do presente). No entanto, emborapossamos admitir que o processo, a que a criança recorre, até funciona muito bem, a verdade é que ele não ésuficiente para que consiga reunir várias coisas reconhecidas sob o conceito de plural.Para que tome consciência de que há uma pluralidade - neste caso, de ovos - é ainda necessário que a criança seaperceba de que realizou uma comparação com a sua estrutura modelo chamada “ovo” mais do que uma vez, e deque esta comparação conduziu a um resultado positivo mais do que num caso.Este exemplo, apesar da sua simplicidade, mostra claramente que a atribuição de um plural a uma situaçãopercetiva requer, para além do trabalho percetivo, uma operação reflexiva, isto é, uma espécie de consciência doque nós próprios fazemos. No exemplo dos ovos, é precisamente a consciência de ter reconhecido um ovo mais doque uma vez.Se compreendeu este exemplo, poderá ser tentado a perguntar o que é que ele tem a ver com o problema dasrepresentações. Pois bem, já vimos que, para reconhecer um ovo, precisamos de ter uma estrutura modelo comotermo de comparação. Digamos que esta “estrutura modelo” é um tipo de representação indispensável. Se não ativermos, não seremos nunca capazes de recolher experiências a partir de um conjunto, de uma classe de coisas.Todas as coisas que isloamos no campo visual, por exemplo, seriam indivíduos e nunca seríamos capazes deconcluir que um indivíduo é semelhante a outro.Prosseguindo no exemplo até à construção do plural, é necessário introduzir um segundo tipo de “re-apresentação”, justamente aquela representação que é necessária para reconhecer essa operação reflexiva a queme referia quando fazia apelo à operação específica a que corresponde a formação do plural linguístico. Se não areconhecermos como tal, não seremos nunca capazes de saber quando e em que condições devemos formar umplural.Se aceitarmos esta análise, então teremos de falar de dois tipos de representações: ✤ As re-apresentações de objetos sensoriais; ✤ As re-apresentações de operações ou operatórias.
  4. 4. Como veremos daqui a pouco, o primeiro tipo de representações pode ser dividido em outras categorias de acordocom a sua função. Mas, para já, falemos um pouco sobre as de segundo tipo, o das representações operatórias.O que é se passaria na sua cabeça se eu lhe propusesse que “imaginasse uma pluralidade”. O que qualquer umseria capaz de imaginar seria uma coleção de unidades. Isto parece paradoxal, porque parece estranho consideraruma unidade que não é uma unidade de algo bem específico. No entanto, era isso mesmo o que faria qualquer umem resposta ao meu pedido. Imaginaria uma pluralidade de pontos, de zeros, de árvores ou de pessoas, ou dequalquer outra coisa.Passar-se-ía mais ou menos aquilo que o filósofo irlandês George Berkeley dizia no início do século XVIII: nãoconseguimos imaginar uma ideia abstrata sem a aplicarmos a algo de concreto. Tinha toda a razão. Mas Berkelyestava completamente errado ao concluir que essa incapacidade provava que as ideias abstratas ou universaisnão existiam. Se a ideia abstrata de pluralidade não existisse, não seria possível imaginar uma pluralidade deunidades do que quer que fosse. Não saberíamos o que fazer com as ideias de ponto, de zero, de árvore ou depessoa. Pelo contrário, sabemos muito bem que para construir uma pluralidade a partir de uma unidade qualquer,temos de a repetir pelo menos uma vez.O termo “pluralidade” refere-se, então, a uma atividade, precisamente a operações mentais.O exemplo mais evidente de operações mentais encontra-se talvez na matemática. Quando vemos os sinais daaritmética, “+”, “-”, “=”, etc., não procuramos um objeto que possa ser representado por esses sinais, mas sabemosmuito bem que esses sinais indicam que devemos realizar a operação de somar, de subtrair, de comparar, etc.Não temos, até agora, a mais pequena ideia sobre como essas operações são armazenadas em memória. Noentanto, sabemos que conseguimos guardá-las para o futuro e sabemos que fazem parte de informações quaseinesquecíveis que resistem mesmo a lesões cerebrais, com mais eficácia do que as informações a respeito deacontecimentos e objetos. Não será esse processo de armazenamento muito diferente daquele que corresponde ànossa capacidade para reter em memória programas de ação (rotinas motoras), como andar de bicicleta, jogarténis, etc. Neste caso, compreendemos sem dificuldade como é que um jogador de ténis é capaz de imaginar omovimento do braço no lançamento de uma bola, nos momentos em que não está jogar, isto é, sem realizar omovimento correspondente. Essa imagem que ele constrói conterá talvez elementos visuais; mas a maior parte daimagem será constituída por elementos motores, por uma espécie de programa. Assim, fica claro, que algures, osjogadores de ténis mantêm uma espécie de registo do programa que governa esse movimento, e que podemapresentar a si mesmos (re-apresentar) esse programa, sem o executar com o braço. A re-apresentação de umprograma deste género é, então, a apresentação de uma sequência de movimentos, sequência essa que foiprogramada, organizada e armazenada em memória previamente.Para acabar com o exemplo do ténis ou do desporto em geral, podemos dizer que, no caso de um especialista, aescolha e o controlo destes programas de acção foram empurados para o inconsciente, isto é, que após aaprendizagem essa escolha e controlo foram automatizados. É-nos legítimo defender que essa automatização semanifesta de igual modo no domínio das operações mentais mais abstratas. Assim, um matemático especialistapõe em evidência a sua especialização, justamente, quando deixa de precisar de pensar na escolha e no controlode certas operações mentais; e essas operações podem ser ditas mais abstratas, porque não comportammovimento físico, mas tão só o movimento da atenção (que inclui componentes físicas, mas subordinadas) dirigidopara as estruturas conceptuais.Vejamos, então, agora o outro tipo de re-apresentação a que se pode chamar “representação de objetossensoriais”. Em primeiro lugar, convém lembrar que todas as representações contêm elementos de repetição deum programa. Nas representações de objetos, trata-se de um programa que governa a reconstrução de umaestrutura que contém elementos sensoriais específicos.É o facto de aquilo a que chamamos “representação mental” - e a representação de objetos sensoriais é umarepresentação mental -, implicar sempre uma repetição, que justifica porque, por vezes, escrevo a palavrarepresentação com um hífen, separando o prefixo “re” (re-apresentação). “Re” indica precisamente a repetição dealgo que já se possui.
  5. 5. Evidentemente, o objeto dessa representação ou reconstrução pode ter origem numa vasta diversidade de classesde objetos sensoriais. Somos, com efeito, capazes de representar uma maçã, uma paisagem de inverno, a Torredos Clérigos, um pôr-do-sol, o sorriso de Mona Lisa. Evidentemente, podemos re-apresentar-nos coisas estáticas ecoisas dinâmicas, processos. É por isso que, em todos os casos, a representação é uma reconstrução:reconstrução de uma estrutura de elementos sensoriais, num caso, e reconstrução de uma sucessão, no outro.Para estes dois tipos de programação, precisamos de um programa de composição, digamos, de “compaginação”.Esta “compaginação” não se faz sem conflitos, sem desequilíbrios, e da gestão desses conflitos e dasuperação dos desequilíbrios resulta o desenvolvimento cognitivo ou das “estruturas mentais” que são ocontexto “ecológico”, com tendência para o equilíbrio, das representações.Mas resta ainda um outro problema: como podemos representar (re-apresentar) uma estátua como uma mulher deolhos vendados com uma balança na mão, e como um símbolo da justiça? Encontramos, aqui, com efeito, duasrelações bem diferentes uma da outra. Uma baseia-se numa analogia icónica (de imagem), a outra baseia-se numaassociação semântica escolhida arbitrariamente, e estabelecida por convenção.No que diz respeito às analogias icónicas - que no seu conjunto formam aquilo a que chamo “imaginário” -podemos verificar que elas se reduzem sempre ao facto de a percepção do objeto representante conter uma partedas operações perceptivas que é necessário realizar quando percepcionamos o objeto representado. Por outraspalavras, reconheço uma estátua como imagem de uma mulher com os olhos vendados, se e somente se, aopercepcionar a estátua, me apercebo que executo certas operações que tinha executado anteriormente quandocategorizava uma experiência como um exemplar do género “mulher com olhos vendados e uma balança na mão”.Esta coincidência parcial de operações dá lugar à relação que Jackobson, na sua brilhante análise de conceitos,incluiu no termo “metáfora”.Todavia, no que diz respeito às associações semânticas, onde não há nenhuma analogia experiencial, mas umadecisão arbitrária de empregar um como sinal ou símbolo do outro, a relação pode ser considerada como umacaso de “metonímia” (figura de linguagem que consiste em substituir um termo por outro, por semelhança ou porconvenção).Por isso, ao contrário do que pensou Nietzche, o conhecimento científico não é uma metáfora (embora seja umaforma de falar), mas é mais uma metonímia. Esta distinção parece fundamental para compreendermos algumasdas limitações cognitivas nos sujeitos em causa….(…)

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