Um Dia, Isto TinhaQue AcontecerCLICARPor: Mia Couto
Está à rasca a geração dos pais que educaram osseus meninos numa abastança caprichosa,protegendo-os de dificuldades e esco...
E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seusjovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.Deslumbradas com a melhori...
          Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações,os pais investiram nos seus descendentes:proporcionaram-lhes ...
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mãesestar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegandopara comprar (quase) tudo, ...
          Os pais, à rasca, não vão a um concerto, masos seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos efestivais de música e ...
São pais que contam os cêntimos para pagar,à rasca, as contas da água e da luz e do resto,e que abdicam dos seus pequenos ...
      São estes pais, mesmo à rasca, que já nãoaguentam, que começam a ter de dizer "não".É um "não" que nunca ensinaram o...
Eis agora uma geração de pais impotentes efrustrados.Eis agora uma geração jovem altamentequalificada, que andou muito por...
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas quenão sabe estar em sítio nenhum. Uma geraçãoque tem acesso à informação, sem...
Uma geração que deseja saltar as etapas daascensão social, à mesma velocidade que queimouetapas de crescimento. Uma geraçã...
Eis uma geração tão habituada ao muito e aosupérfluo, que o pouco não lhe chega e o acessório selhe tornou indispensável.E...
Os jovens que detêm estas capacidades - caracterís-ticas que não encaixam no retrato colectivo, poucose identificam com os...
          E nós, os mais velhos, estaremos em vias de sercaçados à entrada dos nossos locais detrabalho, para deixarmos li...
      Tudo o que atrás escrevi serve apenas parademonstrar a minha firme convicção de que aculpa não é deles.A culpa de tu...
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A nossa verdade e o que fazemos parecer.

  1. 1. Um Dia, Isto TinhaQue AcontecerCLICARPor: Mia Couto
  2. 2. Está à rasca a geração dos pais que educaram osseus meninos numa abastança caprichosa,protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhesas agruras da vida.Está à rasca a geração dos filhos que nunca foramensinados a lidar com frustrações.A ironia de tudo isto é que os jovens que agora sedizem (e também estão) à rasca são os que maistiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi,como esta, tão privilegiada na sua infância e nasua adolescência.
  3. 3. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seusjovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.Deslumbradas com a melhoria significativa dascondições de vida, a minha geração e as seguintes(actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-sedas dificuldades em que foram criadas, no antes ouno pós 1974, e quiseram dar aos seus filhoso melhor.
  4. 4.           Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações,os pais investiram nos seus descendentes:proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles ageração mais qualificada de sempre (já lá vamos...),mas também lhes deram uma vida desafogada,mimos e mordomias, entradas nos locais dediversão, cartas de condução e 1.º automóvel,depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolsopara que nada lhes faltasse. Mesmo quando asexpectativas de primeiro emprego saíram goradas,a família continuou presente, a garantir aos filhoscama, mesa e roupa lavada.
  5. 5. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mãesestar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegandopara comprar (quase) tudo, quantas vezes emsubstituição de princípios e de uma educação paraa qual não havia tempo, já que ele era todo para otrabalho, garante do ordenado com que se compra(quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida,o desemprego...A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.Foi então que os pais ficaram à rasca.
  6. 6.           Os pais, à rasca, não vão a um concerto, masos seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos efestivais de música e bares e discotecas onde nãose entra à borla nem se consome fiado.Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante,para poderem continuar a pagar restauranteaos filhos, num país onde uma festa deaniversário de adolescente que se preza é norestaurante e vedada a pais.
  7. 7. São pais que contam os cêntimos para pagar,à rasca, as contas da água e da luz e do resto,e que abdicam dos seus pequenos prazerespara que os filhos não prescindam da internetde banda larga, a alta velocidade, nem dosqualquercoisaphones ou pads, sempre deúltima geração.
  8. 8.       São estes pais, mesmo à rasca, que já nãoaguentam, que começam a ter de dizer "não".É um "não" que nunca ensinaram os filhos aouvir e que, por isso, eles não suportam nemcompreendem, porque eles têm direitos, porqueeles têm necessidades, porque eles têmexpectativas, porque lhes disseram que eles sãomuito bons e eles querem e querem, querem oque já ninguém lhes pode dar!A sociedade colhe assim, hoje, os frutos do quesemeou durante, pelo menos, duas décadas.
  9. 9. Eis agora uma geração de pais impotentes efrustrados.Eis agora uma geração jovem altamentequalificada, que andou muito por escolas euniversidades mas que estudou pouco, e queaprendeu e sabe na proporção do que estudou.Uma geração que colecciona diplomas com queo país lhes alimenta o ego insuflado, mas quesão uma ilusão, pois correspondem a poucoconhecimento teórico e a duvidosa capacidadeoperacional.
  10. 10. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas quenão sabe estar em sítio nenhum. Uma geraçãoque tem acesso à informação, sem que issosignifique que é informada; uma geraçãodotada de trôpegas competências de leitura einterpretação da realidade em que se insere.Eis uma geração habituada a comunicar porabreviaturas e frustrada por não poderabreviar, do mesmo modo, o caminho para osucesso.
  11. 11. Uma geração que deseja saltar as etapas daascensão social, à mesma velocidade que queimouetapas de crescimento. Uma geração que distinguemal a diferença entre emprego e trabalho,ambicionando mais aquele do que este, numtempo em que nem um nem outro abundam.Eis uma geração que, de repente, se apercebeuque não manda no mundo como mandou nos paise que agora quer ditar regras à sociedade como asfoi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
  12. 12. Eis uma geração tão habituada ao muito e aosupérfluo, que o pouco não lhe chega e o acessório selhe tornou indispensável.Eis uma geração consumista, insaciável ecompletamente desorientada.Eis uma geração preparadinha para ser arrastada,para servir de montada a quem é exímio na arte decavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.Há talento e cultura e capacidade e competência esolidariedade e inteligência nesta geração?Claro que há. Conheço uns bons e valentespunhados de exemplos!
  13. 13. Os jovens que detêm estas capacidades - caracterís-ticas que não encaixam no retrato colectivo, poucose identificam com os seus contemporâneos, e nemsão esses que se queixam assim (embora estejam àrasca, como todos nós). Chego a ter a impressão deque, se alguns jovens mais inflamados pudessem,atirariam ao tapete os seus contemporâneos quetrabalham bem, os que são empreendedores, os queconseguem bons resultados académicos, porque,(que inveja! que chatice!) são betinhos, cromos quesó estorvam os outros (como se viu no último Prós eContras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes deabarbatar bons ordenados e a subir na vida.
  14. 14.           E nós, os mais velhos, estaremos em vias de sercaçados à entrada dos nossos locais detrabalho, para deixarmos livres os invejadoslugares a que alguns acham ter direito e quepelos vistos - e a acreditar no que ultimamenteouvimos de algumas almas - ocupamos injusta,imerecida e indevidamente?!!!Novos e velhos, todos estamos à rasca.Apesar do tom desta minha prosa, o que eutenho mesmo é pena destes jovens.
  15. 15.       Tudo o que atrás escrevi serve apenas parademonstrar a minha firme convicção de que aculpa não é deles.A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemosformar nem educar, nem fazer melhor, mas éuma culpa que morre solteira, porque é detodos, e a sociedade não consegue, não quer,não pode assumi-la. Curiosamente, não é destaculpa maior que os jovens agora nos acusam.Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
  16. 16. ““A amizade, aA amizade, asolidariedade e o amoraosolidariedade e o amoraopróximo jamais sairão depróximo jamais sairão demoda.”!moda.”!FIMAutor: Mia CoutoTexto recebido por e-mail de: Orestes FerrãoComposição em pps: Linito

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