Técnicas+de+contar+histórias

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  1. 1. 1 Técnicas de contar UM GUIA PARA DESENVOLVER AS SUAS HABILIDADES E OBTER SUCESSO NA APRESENTAÇÂO DE UMA HISTÓRIA
  2. 2. 2 Técnicas de contar histórias
  3. 3. 3 Coordenação Geral: Vania DAngelo Dohme Teoria Vania DAngelo Dohme Histórias: O urso do final do arco-íris Boa ação Vovó sapateadora O pote de Baiaré Autoria.:Vania DAngelo Dohme A caixa de Pandora O rei Midas O rei nu A lenda do Tsuru Domínio público O mágico de Oz Autoria: l. Frank Baum Os saltimbancos Autoria: Irmãos Grimm O aguilhão do rei KotickReproduzido da obra "O livro da Selva" de autoria de Rudyard Kipling com autorização da Editora Melhoramentos lida Adaptações: Vania DAngelo Dohme Projetos Vania DAngelo Dohme Walter Dohme Desenhos Walter Dohme Diagramação & Produção Dohme Propaganda Revisão Doris & Roland Kõrber Maria Lucia Meirelles Reis Produção de fotos Antonio Ruiz Capa Cledson Soares de Carvalho Walter Dohme Fotos Sergio Tegon
  4. 4. 4 Fotolito SM FotolitoA todas as pessoas relacionadas abaixo que comigo viveram as grandes emoções do curso "Técnicas de ContarHistórias". Elas foram o incentivo e a razão para a realização deste livro. Mais do que isso, muitas delas,contribuíram com sugestões e idéias.A todos o meu agradecimento e carinho.Adriana Chaves da Silva Adriana Cristina R. Lopes Adriana F, da Rocha Adriana Moreira dos Santos Adriana ReginaLopes Nunes Adriana S. P. Gorgozinho Alda de Oliveira Silva Alessandra Gafanovitch Udlis Alfredo Alexandre S.Santos Alice Meira dos Santos Aline Aparecida P Eugênio Aline de Lima Santos Altair João Mossi Alzira Pelais dosSantos Amanda Batista de O. Santos Amanda F. G. Uehara Amanda Herrera Ana Claudia G. N. Montanari Ana KazumiShimozato Ana Luisa Fulan Dal Bom Ana Maria Cordeiro Ana Mana Oliveira Pinto Ana Maria Rodrigues Ana PaulaBelinário Ana Paula Gosta Ana Paula Favaro Ana Paula M. 1). J. Gregório Ana Paula Maria da Silva Anderson AlmeidaBatista Andréa Alves dos Santos Andréa Charan Andréa Guimarães Andréa Rejane C. Silva Andreza de Moraes CarlotaAngela Ap. O. Nascimento Angela Bassin Silbestyen Angela Maria Candida Angela Raquel Piccolo Anna Paula AlvesM. Vieira Antonia P. da Silva Monier Antonia Regina Q. de Oliveira Antonio de Pádua Peixoto Anísia SukadolnikAparecida C. de Oliveira Aparecida Maria da Silva Aparecida Neto Cano Aparecida Silmara de OliveiraBárbara Cristine da Silva Diaz Bárbara Dalcanale Meneses Batia Mandelbaun Berenice Ap. R. de Olheira Bernadete deMoraes e Silva Camila Artoni Gonçalves Camila Castanho SantAna Carla Damiana Chada Dentini Carla DiamentCarlos Sereno Carmem Barreira Carmem R. Garcia de Lima Cássia Aparecida Gonçalves Cecília Helena A. Prado CéliaCristina Novato Célia Machado Azevedo Célia Regina de Godoy Chaim Nitzky Charles Alexandre de Santana CíceraFerreira Bispo Claudia Afonso Lima Cardoso Claudinete G. de Lira Silva Claudinete Santos Rocha Cláudio Casotti deCampos Cleonice Barros Silveira Cleonice de Jesus Santos Cleuza de Rezende Cliciê R. Resende Azevedo Conceição A.T. Rozendo Coquelin A. Leal Neto Cristiane Bueno Terzi Cristiane Câmara Soares Silva Cristiane Cociuffo CristianeDemetre P. Bacci Cristine Lins Cynthia Costa Dagoberto R. Golovattei Daniela Aparecida Pereira Daniela H. ArnarimDaniela Leal Daniela Tomaz Luz Danielle Cristina Paes Darlene Soares da Rocha Davi Mendes Débora Cristina C.S.Venâncio Débora Freund Débora Prado Lopes Débora Ribeiro Amaral Deise Lúcia M. dos Santos Deise Maia TebaldiPedro Denildes Araújo Grosso Denise B. B. Bissacot Diana Francisca da Silva Dilza Ilza Pereira Silva Djanira PedrosoMacedo Duxtei Vinhas Itavo Edcarlos P. do Nascimento Édina Ferreira de Oliveira Edinaura Arcanjo Barcelos EdleusaSantos da Purificação Elaine Andrade Rocha Elaine Cristina de Barulos Elaine Cristina Isaac Elaine Guastalla AugustoElaine Rodrigues de Almeida Élcio Aparecido Pires de Assis Eledinalva Simões dos Santos Eliana Pereira MachadoEliane Sá da Silva Andrade Elisabete Amaral C. Moura Elisabete Moreira Cavicchio Elisangela B. Baêsso Elisangela daSilva Neves Elisangela Medeiros Carneiro Elizabete M. de Mello Szana Elizabeth Ferreira Elizabeth Pedroso E PereiraErica Maiara Biazotto Érika Jeke de Freitas Eunice Pinheiro de Lima Eva S. Zelloskraut Fabiana Barbosa GonçalvesFabiana Fioreti Frigene Fabiana Gomes dos Santos Fábio Roberto M. Santos Fabiola B. Moreira Jacinto Fátima IreneMarques Palesi Fernanda Amaral Almeida Fernanda Juvanteny Rocha Francisco Salomão Junior Genilda Doas dosSantos Geovana Ribeiro P. Soares Gerson Peixe Gislaine Cristina Candido Graziela Zlotnik Chebaibar Gustavo Pires deOliveira Helayne Peres Cardoso Heloísa G. M. Zulian Heloísa Oléa Granito Helvécio Ribeiro Pinto Indira Baptista daSilva Iracema T. de Lima Conceição Irene dos Santos Irene Vidotto Vianna Ireni Pereira da Silva
  5. 5. 5Irineo Carlos de Almeida Irma Carvalho Palmeira Isabel Maria J. Simões Ivone Alves Babilônia Ivone Bellottilvoneth S. Malaquias Izilda P Matsunaga Janete Ap. da Silva Joaquim Ferreira Magalhães José Paulo Comes FilhoJoselma T. Albuquerque Josiane do Rocio Franco Josiane Leite Bizarri Josiane Patrícia P Paixão Josiane Q. BorrasquiJosiney Barbosa Júdice Judete Maria Scaburi Sasse Juliana Albuquerque Melo Juliana Ap. Teixeira da Cinz JulianaCristina Domingues Juliana Neves Fernandes Juliana R. C. M. Chaves Juliana R. Chiavone Jusmari do Carmo GumieroKamila Góes Papa Kátia Regian Possendoro Keila Moysés Betagna Keli Cristina Fabrício Maria do Carmo Pina LailaNicolau Maria do Carmo Z. Mezzarapa Lenira Maria Borges A. Calio Maria Eduarda Eluf Welsch Lenita de AbreuPessoa Maria Elvira do Nascimento Leonardo de Andrade Vecchi Maria Helena Bueno Gurgel Leonor Fernandes RamosMaria Henrique de Lima Lídia dos Santos Lourenço Maria Isabel Arieta Lídia F. F. de Campos Maria José Gomes deMoura Lídia Monteiro P. Santos Maria José Gonçalves Lígia Maria Pin Maria Julita Santos João I.ilian Amélia CorrêaPereira Maria Laudice M. dos Santos Lilian Maria dos Santos Maria Lourdes de L. Almeida Lilian Pereira Maria LúciaBandeira da Silva Liliane Costa Maria Lúcia Dias de Barros Luanne Aparecida Rotta Maria Lúcia S. F. Arruda LúbiaCristina R.O. Araya Maria Luiza Altoé Lemos Luciana Regina América Maria Luzimar F. Siebra Luciana Rodrigues daCosta Maria Núbia de Oliveira Lucilene Ferreira Pontes Maria Rita Barros Lucilene Silva dos Santos Maria RobertaVeiga Luisa Helena M. Pires Vila Maria Salma Silveira Santos Magda C. P de C. Lupinacci Maria Tereza Mallol M.Cruz Marcelo Ferreira Maria W. M. Vasconcelos Marcia Cordeiro de Barros Mariana Sanchez de Martins MarciaDAngelo Marieta Castelli A. Duarte Marcia Freyberger Marília Silva dos Santos Marcia M. Gomes Pinheiro MarilísMaldonado de Moraes Mareia S. Pinto de Oliveira Marilu Cefalli Marcio Anastácio de Lima Marilvia Marcondes MarcioAparecido R. Chaves Marinalva Nogueira Ciarelli Marcos Aurélio A. Valentim Mario de Ulhôa Cintra Maria AparecidaA. Tiengo Marisa R. J. Santana Maria Aparecida da Costa Marli Aparecida da Silva Maria Aparecida da Rocha MarliBecker dos Santos Maria Aparecida G. de Souza Marli Moysés Bertagna Maria Aparecida R. Camargo Marlne C.Barbosa Maria Aparecida S. Albertin Marly C. Figueiredo Maria Aríete Nelo de Oliveira Marose Leila e Silva MariaAux. Amaral de Araújo Marta Muniz Barreto Maria Balbina Soares Maura de Souza Jovino Maria Benavente TendeiroMaurício Duran Pereira Maria Claudia R. Souza Meire Brito Macedo Maria Cristina Merlo Mênfis Cristina Glória ManaCristina Barbosa Reis Milânia Cezar da Cunha Maria Cristina do Vale Vieira Milena Cristini Tabossi Maria Cristina dosS. Saluti Milene Sipné Maria da Gloria V. Rodrigues Milton Gonçalves Chagas Maria Daniela C. Gimenez MiriamFagundes da Cruz Maria de Fátima S. Oliveira Míriam Palma Mônica Alves da Silva Silvia Helena Madricardi MônicaB. Sterza Nicoletta Silvia Helena Vicente Mônica Edele Von Winckler Silvia Maria Davoli Mônica L. F. GuimarãesSimoni Francini de Oliveira Neide Antunes Guimarães Simony de Sena Dotto Neide Maria Neto Sirlene R. DuarteCorreia Neusa Cabra Lima Sonia Ap. de Lima Neusa de Souza Davi Sonia Minematsu Neusa Maria Marques OliveiraSuely Ferreira Lima Níobe A.S. Marengo Suzana da Cunha Lima Norma Alcântara A. Almeida Suzana S. Oliveira OdeteImaculada Artioli Tania de Mello Gimenes Olívia Volker Rauter Tania Lobato Neves Orlando N. de Lima TatianaBonfim Moreira Patrícia Bullara Rotundo Tatiana Costa Magro Patrícia Serafim Rodrigues Tatiana Maria Sanches PaulaCristina Lopes Tatiana Marques Cintra Priscilla Silva Dias Tatiana Pereira de Souza Rachel Vitor Cury Terezinha S. deSouza Regina Célia Cuiselini Terue Sonia Teramoto Regina Sznelwar Touna Anker Renata Cocato Costa Uilma R.Duarte Ferreira Renata Rocha Potaszinik Úrsula Aparecida de Paiva Renata Sampaio Simões Valdineuma O. S.Nascimento Renato Michelsohn Valdir dos Santos Rita de C. A. Dias Pinheiro Valdirene de Almeida Rita de CássiaFloriano Valéria Costa Guedis Silva Rita de Cássia N. Santana Valéria R. B. P. Serra Roberta Marangoni Vanda SfirandaRoberta Queiros Lívia Vanessa Batista Roberta Yumi H. Bertune Vanessa M. DAlbuquerque Ronald MichelsohnVanessa Pereira Damasceno Rosa Cristina de A. Perônico Vanessa Pereira Teixeira Rosana B. Baêsso Brunetti Vany F.
  6. 6. 6Carnaval Rosana da Silva Vera Ap. Salgueiro Pereira Rosangela C. B. R. Dias Vera Lúcia Conceição Borges RosariaEliza da Silva Vera Lúcia F. Melo Roseli Aparecida Corrêa Virgínia Maria Silva Rosemeire Pola Viviana BonfimMorena Rosineide J. do Nascimento Viviane Azeredo Noguchi Rozilene Ap. Vitor da Silva Viviane Emi Nakano RúbiaSilva Waléria M.C. de Carvalho Ruth de Souza Santos Walker Pedroza Rocha Sara Sales de Souza Walkyria MendonçaMazzoni Selma Maria Santos Farici Wilma Trentin de Moraes Selma Mascarenhas Zenaide Fardini Soares SérgioFernando Ferraz Perez Ziete Ap. Lopes Sibele Tereran Miquelon Costa Zoica A. Caldeira Silvaria Vasconcelos MartinsZuleika Scatena Martins Cintra e em especial ao elenco Ana Lucia Carvalho, Dineli da Costa, Antonio de Pádua Peixoto,Edmundo Públio , Dineli da Costa, Flávia Gomes Cardozo, Samanta Dohme, Vanessa Dohme, Walter Dohme ewanderson Isaías Caetano.
  7. 7. 7ÍNDICE
  8. 8. 8Prólogo................................................05Prefácio de Tatiana Belinky..............09Prefácio de Valdir Cimino. ...............11Como usar este livro...........................13Teoria..................................................470 valor educacional das histórias......19Transmissão de valores através dashistórias..............................................22Estudando uma história..................26Ficha descritiva (modelo)................33Ficha descritiva (demonstração)....35Fazendo a narração..........................37Tirando maior proveito da voz.......40Vivendo e suscitando emoções.......45Recursos auxiliares............................50Textos............................................... .53O urso do final do arco-íris...............55A caixa de Pandora...........................59O aguilhão do rei................................63Boa ação.............................................67Kotick.................................................72O mágico de Oz................................ 77O rei Midas.........................................85O rei nu...............................................88Os saltimbancos.................................94A lenda de Tsuru................................98Vovó sapateadora.............................100Recursos Auxiliares.......................... 107Narração com efeitos especiais.......109Narração interativa............................112Maquete...............................................114Bocão...................................................126Radionovela........................................139
  9. 9. 9
  10. 10. 10 Técnicas de contar Histórias Prefácio UmA advogada Vania Dohme foi durante 12 anos Comissária Nacional de Lobinhos -escoteirinhos de 7 a 11 anos de idade.Uma atividade que fez aflorar a sua verdadeira vocação: educadora de crianças para a cidadania. Mesmo porque oEscotismo é por definição uma escola de cidadania, que privilegia, na base das suas atividades, a honra, a verdade, asolidariedade, a lealdade, a coragem — em suma, a essência do civismo e da ética nas relações humanas...Mas o que isto tem a ver com a temática deste livro, cujo título é "Técnicas de Contar Histórias"? Tudo a ver. Neste livro,Vania ensina - e como ensina bem! - não só a arte milenar de contar histórias, mas de contá-las de maneira a fazê-lasrender o máximo das suas potencialidades. Isto é, sabendo como usar a voz, a expressão, o ritmo, o gesto - em suma, a"técnica" propriamente dita. E principalmente, a fazê-lo com amor, tanto pela própria arte, como pelos jovens ouvintes, opúblico (aliás, de qualquer idade), despertando seu interesse, prendendo a atenção e, last but not least, transmitindovalores -valores estéticos e éticos -oferecendo cultura e informação, com emoção, a serviço da formação harmoniosa docidadão de amanhã.Tudo isso com o auxílio fundamental de bons textos populares, folclóricos, literários, de varias origens. Sim, porque olivro de Vania traz uma rica seleção de textos, histórias acompanhadas de uma serie de elementos auxiliares, tais comodramatizações, adaptações, etc, para teatro de bonecos e marionetes, cineminha, rádio, teatro de sombras, sugestão defigurinos e outros recursos, com instruções para a sua realização, desenhos, diagramas e também jogos interativos - umaverdadeira riqueza...Este é, sem dúvida, um livro de inestimável valor e utilidade para contadores de histórias profissionais ou semi-profissionais (como os voluntários do programa Viva e Deixe Viver) e também "amadores" como pais, avôs, professores,educadores (que no fundo todos nós, que vivemos em contato com crianças e jovenzinhos, somos) — e até curiosos einteressados em geral.Melhor do que aprender lendo e estudando este precioso livro, só mesmo assistindo a um dos cursos de capacitação deadultos, ministrados por Vania Dohme - mas isto já é outra história. Tatiana Belinky
  11. 11. 11Tatiana Belinky nasceu em S. Petersburgo, Rússia, em 1919 e aos dez anos de idade veio a São Paulo com sua família.Foi casada durante 50 anos com o já falecido Júlio de Gouveia, médico psiquiatra, terapeuta, educador, produtor e diretorde teatro. Em 1948 começou a fazer teatro para crianças, escrevendo e adaptando textos que o marido dirigia. Em 1951,com o advento da televisão, o casal passou a apresentar suas peças na TV Tupi - Canal 3, onde permaneceu até 1964. Osespetáculos eram apresentados ao vivo, com textos que Tatiana adaptava e traduzia da literatura nacional e estrangeira,um acervo estimado hoje em cerca de duas mil histórias.F de sua autoria a primeira grande série adaptada para a televisão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato,com cerca de 360 capítulos.Tatiana tem cerca de 100 livros publicados desde 1952 por diversas editoras. É tradutora profissional e poliglota, tendoocupado diversos cargos importantes no cenário cultural brasileiro, cronista, articulista e crítica de literatura infantil ejuvenil dos principais periódicos nacionais e justa merecedora de diversos prêmios de Teatro, Literatura e Televisão.Tatiana Belinky e seu marido, Júlio de Gouveia, são indubitavelmente os grandes precursores da boa televisão infanto-juvenil brasileira, que souberam usar este veículo como poucos, mesclando a fantasia e a arte com um propósitoeducacional cônscio e moderno, capaz de gerar efeitos pessoais e sociais positivos e construtivos. Prefácio DoisDesde 1997, quando virei um contador de histórias, tenho observado com especial interesse tudo o que está relacionadoao universo infantil. A tarefa de contar histórias inicialmente pareceu-me bastante complexa, mas com o tempo percebique é possível aprender mais sobre ela, e torná-la não apenas mais simples como também mais responsável.E foi justamente esse o aspecto que mais me sensibilizou no trabalho da Vania. Sensível, ela percebeu mais cedo quemuitos de nós a importância de contar histórias e não economizou esforço para treinar os voluntários da Associação Vivae Deixe Viver.Contar histórias para crianças até que é relativamente fácil. Mas exige do contador um real interesse nesserelacionamento. Mais que isso, exige respeito aos limites, às emoções e aos valores dessa criança. É preciso ainda estardisposto a ouvir atentamente. No entanto, há um obstáculo que pode tornar-se intransponível para alguns: é preciso voltara ser criança.Imaginem a importância dessa tarefa quando executada por voluntários, vindos das mais diferentes profissões, nãoremunerados, atuando em hospitais junto à crianças hospitalizadas!Pois os contadores de histórias da nossa Associação são especializados nisso. Eles passam por um programa detreinamento no qual o pensamento de Vania está muito presente. Ela tem sido uma companheira séria que nos ajuda atreinar objetivamente os voluntários e buscar sempre a inter-relação entre os diversos públicos, o desenvolvimento detalentos, a motivação constante, o estímulo, a responsabilidade. Graças a esse comprometimento, conseguimos formarcompetentes contadores de histórias, que, através do seu bom humor, das leituras e das brincadeiras, reforçam a nossamissão: levar entretenimento e informação educacional para dentro dos hospitais.Na era da globalização, quando o avanço tecnológico afasta mais e mais os indivíduos, recebo com entusiasmo a notíciadeste livro, que nos remete de forma simples ao conceito inicial: ver o sorriso nos olhos de uma criança. Valdir Cimino
  12. 12. 12 Diretor - Presidente da Associação Viva e Deixe Viver.A Associação Viva e Deixe Viver é uma sociedade civil sem fins lucrativos, que conta com o apoio de voluntários pararealizar sua missão: promover o entretenimento e a informação educacional, visando tomar a internação da criança nohospital e a vivência na sua casa de apoio um momento mais leve, agradável e alegre. Atualmente os principais recursosda Associação Viva e Deixe Viver são a leitura de obras infantis, as brincadeiras, a criatividade e o bom humor de seusvoluntários.www.vivaedeixeviver.org.brEste livro tem um duplo objetivo. O primeiro é mostrar como as histórias podem ser importantes em um processoeducacional. O segundo é dar dicas e apresentar projetos para que estas histórias possam ser contadas de uma formaatrativa, para que qualquer pessoa possa passar bem a mensagem.Assim, ele constitui-se de três partes:* Teoria* Textos* Recursos auxiliares: descrição e projetosA primeira parte - Teoria, procura dar conta do primeiro objetivo: mostrar a importância e a utilidade educativa dashistórias. Ela discorre sobre os aspectos que podem ser desenvolvidos na criança através das histórias, como aimaginação, criatividade e senso crítico, dando especial ênfase àqueles relativos à ética e à questão dos valores.Aborda a importância de se estudar bem uma história para garantir uma boa performance, dando critérios para a escolha eum roteiro para o seu estudo. Enfatiza, em seguida, a importância das adaptações, para permitir que a história leve amensagem desejada e esteja adequada ao recurso auxiliar que será utilizado. Este trabalho é auxiliado por uma fichadescritiva que apresenta estes diversos itens de forma ordenada, permitindo que o estudo flua com mais facilidade e que oseu arquivamento seja possível para futuras consultas.Em seguida enfoca as habilidades que o contador deve observar e desenvolver. Como trabalhar a voz quanto à dicção,volume, velocidade, tonalidade e vocabulário. A importância da expressão corporal e facial, como trabalhar as imitações,elementos externos e como dar o "timing" certo à narração, tirando o máximo proveito das emoções que a históriacontém.Finalmente, dá dicas de como fazer a narração: disposição do público, domínio das interrupções, etc. e introduz o uso dosrecursos auxiliares que serão amplamente explorados na terceira parte deste livro.A segunda parte traz onze histórias, mescladas entre conhecidas e inéditas. É importante observar que todas elas trazemuma mensagem educacional, voltada principalmente para valores éticos, e que a adaptação procura ressaltar isto. Assim,
  13. 13. 13o leitor poderá, através da sua leitura, observar como se desenvolve um enredo, dando ênfase adequada a fatores que irãocompor a mensagem que se deseja transmitir.Outra característica é que cada uma dessas histórias encontra-se relacionada a uma técnica de apresentação específica,descrita na terceira parte. O valor desses textos, além do conteúdo em si, é que todos eles estão adaptados a uma técnicade apresentação. Assim, o leitor poderá estudar as diferenças entre a adaptação de uma história que será apresentadaatravés de fantoches e aquela adaptada para uma apresentação através de maquetes, por exemplo.Abaixo dos títulos de cada história há referência ao recurso auxiliar para o qual ela foi escrita e a indicação da páginarespectiva em que descrição e projeto se encontram na parte três. É claro que o leitor não necessitará ater-se estritamentea isto e apresentar a história somente de acordo com esta indicação. Isto é apenas um auxílio para o estudo da história eformas de adaptação.A terceira parte traz a descrição de onze recursos auxiliares, sendo eles: narração interativa, maquete, bocão,radionovela, fantoche, dramatização, velcômetro, teatro de sombras, dobradura, marionete e cineminha. Todos eles estãoacompanhados do projeto de execução de todas as peças necessárias para uma apresentação.() projeto de cada recurso auxiliar está adequado à cada uma das histórias contidas na segunda parte. É claro que elespoderão ser aplicados genericamente a qualquer história que o leitor desejar, mas a sua correlação a uma históriaespecífica facilita a compreensão, dando um exemplo do tipo de história apropriada a cada técnica e de como fazeradaptações eficientes.Por exemplo, na história "O mágico de Oz" indicamos que ela é adequada para ser apresentada através de fantoches.Assim, na parte de projeto, quando falamos do recurso auxiliar fantoche, indicamos passo a passo como fazer o teatro erespectivos bonecos que fazem parte desta história.É importante ressaltar que as técnicas de confecção são todas simples, dando-se preferência à praticidade e à economia.Cada um dos projetos poderá ser sofisticado ao gosto de cada artesão, mas a forma apresentada é suficiente para passar amensagem e encantar as crianças.Cada um dos recursos é acompanhado de uma ficha técnica em que ele é minuciosamente estudado. Esta ficha dáindicações de como fazer as adaptações para esta técnica, para que tipo de enredo ela é adequada, quais as habilidadesque o operador precisa ter, quais os recursos adicionais que podem ser inseridos, dicas sobre o local e número de pessoasideais para a apresentação. A comparação entre as diversas fichas técnicas e as fichas descritivas de cada história dará umexcelente panorama ao contador sobre qual recurso escolher para cada história, como fazer as adaptações e os diversospreparativos.As adaptações feitas em cada história não se aplicam exclusivamente a uma técnica, muitas delas poderão ser usadas emtécnicas semelhantes; por exemplo, a técnica empregada para fazer apresentações através de fantoches é muito parecida
  14. 14. 14com a técnica das sombras, de forma que o texto escrito para "O mágico de Oz" pode ser apresentado em teatro desombras sem qualquer alteração.Após ter tomado contato com as recomendações da parte teórica e com cada história e seu projeto, o leitor estará apto afazer as mais variadas combinações entre as histórias da segunda parte e os recursos apresentados na terceira, incluindooutras histórias que fazem parte ou venham a fazer parte de seu acervo.Contar histórias é uma arte, não há dúvida, mas é arte que pode ser desenvolvida. Mesmo por que não há nada que não sepossa alcançar com dedicação e estudo. Assim, pretendemos que este livro seja muito mais do que um guia, mas umafonte inesgotável de consulta e incentivo para aqueles que acreditam na magia da fantasia e que tem o dom detransformá-la em "realidade".
  15. 15. 15
  16. 16. 16O valor educacional das históriasAs histórias são excelentes ferramentas de trabalho na tarefa de educar e vários motivos existem para isso:* as crianças gostam muito* levam a uma empatia com os alunos* a variedade de temas é praticamente inesgotável* pouca exigência de recursos materiais para sua aplicação* os vários aspectos educacionais que podem ser focadosPor meio dos exemplos contidos nas histórias, as crianças adquirem maior vivência. O contato com os impulsosemocionais, as reações e os instintos comuns aos seres humanos e o reconhecimento dos fatos e efeitos causados porestes impulsos são exemplos de vicia. Histórias são bastante úteis para trabalhar os seguintes aspectos internos da criança :* Caráter: Histórias escolhidas de feitos heróicos, conteúdos que encerram lições de vida, fábulas em que o bemprevalece sobre o mal são lições que as crianças absorvem. Por meio das histórias, os meninos defrontam-se comsituações fictícias e percebem as várias alternativas que elas oferecem, podendo antever as conseqüências que a decisãopor cada uma delas trará. Com isso adquirem vivência e referências para montar os seus próprios valores.* Raciocínio: As histórias mais elaboradas, de enredos intrigantes, agitam o raciocínio das crianças, que as acompanhammentalmente, interrogando-se como agiriam naquela situação.* Imaginação: Os meninos ouvem atentos as narrações e com isso acompanham-nas mentalmente. Desta formaconsegue-se situações verdadeiramente formidáveis! Com elas podemos transitar pelo tempo e o espaço, estando ora napré-história, ora pisando em galáxias estranhas. Podemos "bater um papo" com Hércules, participar de rituais indígenasou conhecer a selva. Nas histórias tudo é possível!O exercício da imaginação traz grande proveito às crianças, primeiro porque atende a uma necessidade muito grande queelas têm de imaginar. As fantasias não são somente um passatempo; elas ajudam na formação da personalidade namedida em que possibilitam fazer conjecturas, combinações, visualizações como tal coisa seria "desta" ou "de outraforma".* Criatividade: Uma vez que a criatividade é diretamente proporcional à quantidade de referências que cada um possui,quanto mais "viagens" a imaginação fizer, tanto mais aumentará o "arquivo referencial" e, consequentemente, acriatividade.As histórias aumentam o horizonte dos ouvintes, com elas: eles "conhecem a China", "pisam na Lua", voam através dotempo, da pré-história aos dias de hoje, travam conhecimento com fadas, duendes, monstros e heróis.Estas emoções semeiam a imaginação e estimulam a criatividade.* Senso Crítico: A cada dia que passa assistimos abismados à falta de senso crítico nos indivíduos. Aumenta a procurade elementos massificações, tais como grifes e modismos, tolhendo e até envergonhando o indivíduo de ter as suaspróprias idéias.É preciso que as pessoas tenham olhos para ver a realidade da sociedade que as cerca, identificando as atitudes que levamà prosperidade, para incentivar estas e reprimir as danosas, e saber manejar as suas opiniões, para que em conjunto com opensamento dos demais, possam ter uma vida útil e feliz.
  17. 17. 17As histórias atuam como ferramentas de grande valia na construção desse senso crítico, porque por meio delas os alunostomam conhecimento de situações alheias ã sua realidade, uma vez que podem "navegar" em diferentes culatras, classessociais, raças e costumes.A visão de outras realidades fará com que vejam "os dois lados de uma mesma moeda", gerando tomadas de posições econstruindo uma personalidade ativa.* Disciplina: É entendida como aceita e praticada espontaneamente pela criança e não como algo impostoinquestionavelmente pelo educador.No momento que trabalhamos com algo que a criança realmente gosta, que sente que foi preparado com carinho para ela,as chances de ter uma postura atenta e participativa aumentam muito.Ela não irá gritar ou fazer algazarra se tiver algo muito mais interessante para fazer: ouvir uma história!Algo que ela espera ser interessante, porque confia que foi preparado especialmente para ela e para o seu grupo.A situação fará a criança perceber que existe momento para tudo: brincar, se divertir e também para prestar atenção, e oque é melhor: que vale a pena prestar atenção!Isto contribuirá para o aumento de sua capacidade de concentração e para o desenvolvimento de uma atitude crítica emrelação ao seu comportamento e ao dos demais, ou seja: levará a uma disciplina consciente e assumida pela própriacriança. Transmissão de valores através das históriasOs valores são fundamentos universais que regem a conduta humana. São elementos essenciais para viver em constanteevolução, baseada no autoconhecimento em direção a uma vicia construtiva, satisfatória, em harmonia e cooperação comos demais.Fazer uma análise de quais valores desejaríamos passar por meio de um processo educacional demandaria uma maiorreflexão, mas algumas indagações podem ser feitas:• Quais os valores que me importam? O que é importante para mim como educador?• Que tipo de valores eu reconheço como importante nos demais?• Quais deles eu gostaria de poder ajudar a construir?• Quais são adequados a uma criança?• Quais deles eu posso transmitir por meio de um processo educacional, levando em conta os meus recursos materiais ehumanos?As respostas não serão iguais de uma pessoa para outra, mas certamente muito semelhantes. De um modo geral, começara preocupar-se com a transmissão de valores é o grande passo, o envolvimento com a matéria será natural e a satisfaçãoque o retorno das crianças proporcionará será uma mola propulsora para o constante desenvolvimento no trabalho comvalores na educação.Alguns autores dão algumas sugestões que podem servir de base para reflexão e escolha. De qualquer forma a eleição dedeterminado valor não deve ser um processo isolado. Ela deve fazer parte de um planejamento em que se levam em contaas características dos alunos, o conjunto de objetivos educacionais e os recursos disponíveis. Na medida do possível, aparticipação dos pais no processo de escolha e o envolvimento na aplicação são altamente desejáveis. Vejamos alguns valores que podem ser trabalhados com crianças:
  18. 18. 18* Alegria: Boa disposição para fazer as coisas. Propensão a ver e mostrar o lado divertido das coisas.* Amor: Desejar o bem para outras pessoas. Ter apego às suas produções e bens, ao meio em que se vive e às pessoas.* Compartilhar: Dividir suas coisas com os demais. Reconhecer o direito ou o legítimo desejo das outras pessoasusufruírem igualmente de pertences ou oportunidades.* Confiabilidade: Ter uma conduta constante e verdadeira, capaz de conquistar crédito de um bom procedimento.* Cooperação: Capacidade de atuar com outras pessoas de forma consistente e produtiva.* Coragem: Resolução, perseverança, constância e firmeza perante situações novas ou desafiantes.* Cortesia: Ser afável, atento e bem-educado.* Disciplina: Obedecer a ordens preestabelecidas, combinadas e anteriormente aceitas. Capacidade de praticar atos queresultem no aprimoramento de si próprio ou de sua comunidade* Honestidade: Apropriar-se exclusivamente do que lhe pertence. Conhecer os limites de suas propriedades em relaçãoàs de outras pessoas. Ter atitudes coerentes com o seu pensamento e suas convicções. Compartilhar os seus sentimentosde forma verdadeira.* Igualdade: Reconhecimento de direitos iguais a todas as pessoas. Não se ater a preconceitos e tratar todas as pessoasda mesma forma.* Justiça: Capacidade de fazer julgamentos desassociados de seus próprios interesses. Ter sensibilidade edisponibilidade para ouvir e entender as razões que levam outra pessoa a determinada conduta. Capacidade de dar a cadaum o que lhe pertence.* Lealdade: Amor e fidelidade à verdade. Incapacidade de trair, falsear ou enganar.* Limpeza: Reconhecer os benefícios da limpeza interna e externa. Ter atitudes para obtê-las.* Misericórdia: Reconhecimento e compaixão pelas necessidades alheias. Aceitação e compreensão das limitações dosdemais.* Paciência: Ter resistência para suportar os reveses. Tranquilidade para esperar. Aceitar as características e limitaçõesdos demais. Entender que cada um tem o seu "ritmo" e saber conviver com isso.* Paz: Capacidade de reconhecer os benefícios da harmonia e trabalhar em prol dela.* Respeito: Atenção às outras pessoas. Consideração pelas suas opiniões e atitudes.* Responsabilidade: Estar consciente de suas obrigações e disposto a trabalhar por elas. Estar comprometido com aquiloque afirma e com a forma com que se comporta.* Solicitude: Estar disposto a ajudar e a fazer favores, prestar voluntariamente um serviço ao próximo.* Tolerância: Respeito e consideração pelas opiniões e atitudes dos demais.Nota: Não existindo a pretensão de encontrar uma hierarquia para classificação dos valores citados, os mesmosencontram-se em ordem alfabética.As histórias são úteis na transmissão de valores por que dão razão de ser aos comportamentos humanos. Tratam dequestões abstratas, difíceis de serem compreendidas pelas crianças quando isoladas de um contexto.A criança é incapaz de raciocinar no abstrato. Assim, virtudes, maus hábitos, defeitos ou esforços louváveis queinterferem no comportamento social do indivíduo, gerando conseqüências na sua vida, não podem ser entendidos comesta clareza pelas crianças. Falta referencial capaz de associar uma questão de comportamento a um fato: Fulano agiuassim e deu-se mal... a falta de lealdade de Beltrano fez a verdade vir à tona...
  19. 19. 19Se nós adultos, com tanta vivência, muitas vezes nos perdemos na tentativa de associar tendências a fatos, tendodificuldade de prever se determinada atitude levará à melhor situação, o que pensar das crianças com pouca experiência ecom um mundo todo a descobrir!A história trará este referencial, transformará o abstrato em concreto.Toda vez que Pinochio dizia uma mentira, o seu nariz crescia.A cigarra cantou no verão, mas chorou no inverno.Na história de Mowgli, o povo-macaco sem lei e disciplina aparentemente só brincava, mas padecia de fome e doenças.A perseverante e lenta tartaruga venceu a lebre.A história traz o abstrato ao entendimento das crianças, e com isso municia-as com experiências que aumentarão a suavivência, aumentando suas possibilidades dentro do relacionamento social.O trabalho com estas figuras que sintetizam uma série de conceitos também proporcionará ao educador um maiorconhecimento das suas crianças, que, expressando suas opiniões dentro do concreto que é a temática da própria história,manifestarão os sentimentos abstratos que povoam o seu íntimo.Em última análise, as histórias ensinam a criança a crescer e a pensar. Estudando uma história1 - A escolhaÉ preciso muito esforço e dedicação para estudar o mundo a que pertencem nossas crianças.O excesso de apelos a que a criança está sujeita nos dias de hoje faz com que diversas outras fantasias despontem no seucenário (infelizmente quase nenhuma delas objetivando construir algo positivo no comportamento da criança) e nós nãopodemos ficar indiferentes a essa situação.Temos de pesquisar, ler literatura especializada, feita para elas, conhecer seus heróis, sejam eles pertencentes aosdesenhos animados ou histórias em quadrinhos, assistir a filmes, conhecer suas brincadeiras e preferências. É só destaforma que saberemos escolher, dentro de um repertório conhecido, qual história se adapta àquele comportamento quedesejamos (ou precisamos) abordar.A pesquisa, o teste e o treino farão com que de uma história se chegue a outra e, com alguma habilidade e dedicação,estaremos aptos a fazer adaptações à técnica desejada ou mesmo criar nossas próprias histórias. Quanto ao tema podemos recorrer a diversas fontes:* história de fadas, que usam a fantasia* fábulas* lendas folclóricas* passagens bíblicas* fatos históricos* fatos do cotidiano* narrativas de aventurasPara orientar a escolha dos textos úteis é importante saber exatamente os assuntos preferidos relacionados às faixasetárias:
  20. 20. 20Até 3 anos: Histórias de bichinhos, de brinquedos, animais com características humanas (falam, usam roupa, tem hábitoshumanos), histórias cujos personagens são crianças.Entre 3 e 6 anos: Histórias com bastante fantasia, histórias com fatos inesperados e repetitivos, histórias cujospersonagens são crianças ou animais.7 anos: Aventuras no ambiente conhecido (a escola, o bairro, a família, etc), histórias de fadas. fábulas.8 anos: Histórias que utilizam a fantasia de forma mais elaborada, histórias vinculadas à realidade.9 anos: Aventuras em ambientes longínquos (selva, oriente, fundo do mar, outros planetas), histórias de fadas comenredo mais elaborado, histórias humorísticas, aventuras, narrativas ele viagens, explorações, invenções.10 a 12 anos: Narrativas de viagens, explorações, invenções, mitos e lendas. 2 - A compreensão aprofundadaUma vez escolhida a história escrita em um livro, que faça parte de uma gravação, de um filme, um trecho histórico,enfim, de nossa fonte de pesquisa, é necessário estudá-la para ter elementos para preparar a narração, fazer adaptações,escolher se serão utilizados recursos auxiliares e, sendo este o caso, qual é a melhor técnica.Às vezes pode acontecer de termos mais de uma fonte de pesquisa, em que cada narrativa apresenta peculiaridadespróprias, sendo iguais na sua essência mas divergindo em detalhes. Neste caso, poderemos escolher uma das versões oufazer uma média das versões, ressaltando os elementos que preferimos ou que melhor aproveitam a mensagemeducacional que ela encerra.Para estudar uma história é preciso, em primeiro lugar, divertir-se com ela, captar a mensagem que nela está implícita e,em seguida, após algumas leituras, identificar os seus elementos essenciais.A ficha que apresentamos no final deste capítulo auxilia o estudo de uma história. O preenchimento de cada tópicopermitirá uma análise do que ressaltar, quais são os elementos que realmente interferem na sucessão de fatos e quais sãoacessórios. 2a - Estudo dos elementos da históriaOs seguintes elementos devem ser destacados pois influem diretamente na trama, na forma da narração, na identificaçãodo público a que se destina e na escolha da técnica de apresentação. São eles:* Enredo*Personagens principais, secundários e supérfluos e Ambiente (local, época, civilização)* Cenários (quantas cenas são necessárias para o seu desenvolvimento)* Mensagem e conteúdo educacionalEstes elementos também indicarão onde estão as dificuldades para a produção de caracterizações e cenários e quaispontos podemos explorar para dar um colorido especial. 2b - O fluxo do enredoUma história pode ser compreendida em 4 partes:* Introdução* Enredo* Ponto Culminante* Desfecho
  21. 21. 21* Introdução: É o que situará os ouvintes no tempo e no espaço e apresenta os principais personagens. Deve ser clara,sucinta, curta mas suficiente para esclarecer os elementos que comporão a história. Se a versão original não satisfizertodos os requisitos, caberá ao narrador complementá-la com alguma pesquisa ou mesmo com a sua imaginação.No verão, as focas corriam para a ilha de Saint Paul, situada no Pacífico norte, para que as fêmeas dessem cria. A praiaficava superpovoada e era o palco ideal para que homens impiedosos e gananciosos caçassem as focas jovens para vendersuas peles. Neste cenário é que nasce Kotick, a foca branca.* Enredo: A sucessão de episódios, os conflitos que surgem e a ação dos personagens formam o enredo. É importantedestacar o que é essencial e o que são detalhes.O essencial deve ser rigorosamente respeitado, já os detalhes podem variar conforme a criatividade do narrador, asituação que se deseja abordar, as facilidades ou limitações da técnica usada ou mesmo o tipo de audiência.Às vezes encontramos histórias muito boas para as crianças, mas que trazem uma linguagem árida, difícil para a suacompreensão. Neste caso, é preciso "captar" o essencial da história, a sucessão de fatos que levará à mensagem, parapoder transportá-la para uma linguagem que possa ser entendida. Tomemos por exemplo "Kotick": o que é importante?* A praia era superpovoada.* Os chefes de família (focas machos) precisavam brigar muito para conseguir um bom lugar.* O pai de Kotick era um deles.* As focas jovens (por terem a pele ainda intacta) eram caçadas impiedosamente pelos homens para que estes depoisvendessem suas peles.* Kotick não corria perigo por ser branco e os homens terem medo, por acreditar que ele fosse "de outro mundo”.* As focas ficavam conformadas com esta situação e, mesmo correndo perigo, sempre voltavam para amesma praia.* A preocupação de Kotick com o fato que o leva a conversar com o Leão Marinho e ser aconselhado.* A sua incansável busca pelos mares.Já o encontro com o elefante marinho e com a gaivota, o fato de Kotick voltar para a família todos os anos e de estarcomprometido com um casamento são detalhes e não prejudicam o entendimento da história quando omitidos. Adescrição do massacre das focas e as peripécias de Kotick no mar recebem a ênfase que o narrador quiser dar,valorizando os aspectos que julga mais importantes de acordo com suas próprias características, o tempo que tem para anarração e o grau de compreensão de sua platéia.* Ponto Culminante: Em uma história bem produzida, o ponto culminante surge como uma consequência natural dosfatos arrolados de forma ordenada e sucessiva.Uma história poderá conter vários pontos de emoção. Ainda em "Kotick":* A foca branca encontrará a praia ideal?* As demais focas a seguirão ou ele será desacreditado, perdendo todos os seus esforços?Mas, indubitavelmente, é no momento da luta que está o clímax da questão.O narrador deverá estudar a intensidade da emoção em cada fato e as estratégias para despertar as sensações desejadas.Porém o ponto culminante deverá merecer atenção especial.* Desfecho: A história, seguindo num crescendo, atingiu o ponto culminante e agora só resta terminá-la!Uma semana mais tarde, um exército de aproximadamente dez mil focas partiu para atravessar o túnel das vacasmarinhas, em busca da praia que nenhum homem jamais pisara.
  22. 22. 22A conclusão deverá ser simples, preferivelmente sem fazer alusão à moral da história ou às lições que ela encerra. Umaboa narração expõe a conclusão: cabe aos ouvintes encontrá-la. Pode-se usar depois da narração uma técnica de debatesobre a história, mas isto seria outra atividade.No estudo da história, deve-se identificar estas quatro fases, a fim de dar o tratamento adequado a cada uma. É útil fazerum resumo de cada uma delas por meio do preenchimento dos espaços correspondentes na ficha descritiva de cadahistória. Esta sinopse servirá de base para o treino da narração. Seria ideal que a história estivesse bem preparada, paraque a ficha fosse dispensável no momento da narração. Se isto, porém, não for possível, o narrador poderá recorrer a esteresumo para apresentá-la. 2c - Detectando o potencial educacional da históriaDe acordo com nossa tese, as histórias, além de encantarem e divertirem, são uma importante ferramenta educacional, deforma que faz parte do estudo de cada uma delas detectar em que pontos ela contribuirá com o desenvolvimento de seusouvintes.O preenchimento dos itens correspondentes na ficha descritiva auxiliará nesta tarefa.Todas as histórias contribuem de uma forma ou de outra para a educação, porém diferenciam-se quanto a intensidade ecaracterísticas. Umas desenvolvem a imaginação, outras o senso crítico, por exemplo. O mesmo se dá com a questão dosvalores. É preciso destacar os aspectos éticos de cada história para poder enfatizá-los na sua adaptação e narração.Ter bem claro os objetivos educacionais que cada história atinge facilita o planejamento do educador, que dosará asdiversas histórias ao longo do período que tem disponível, tendo em vista um desenvolvimento em todos os sentidos, deforma globalizada. 2d - Determinando o uso de recursos auxiliaresApós estudar bem o enredo da história, seus elementos e a mensagem que ela transmite, ficará claro a que técnica ela seadapta melhor.A narração simples sempre poderá ser usada, porém é útil determinar neste estudo quais as variações poderiam ser feitase avaliar quais as vantagens que este uso poderá trazer.No capítulo "Projetos" apresentamos fichas técnicas de cada um dos recursos auxiliares enfocados neste livro. Elas dãoindicações da aplicabilidade da técnica em relação ao número de personagens, ao cenário, às caracterizações dashistórias, bem como às habilidades necessárias ao educador e às características de local e público. A comparação dasFichas Técnicas de Recursos Auxiliares com a Ficha Descritiva de cada história auxiliará a determinação da técnica oudas técnicas com que cada história poderá ser apresentada.No bojo do estudo de uma história fica mais fácil visualizar que tipo de interação se pode ter com as crianças, tem comoque atividades podem ser aplicadas após a apresentação, valorizando e potencializando os efeitos da história. Estas idéiasdevem ser registradas na ficha descritiva. Isto facilitará a tarefa de desenvolvimento de atividades na oportunidade emque a história for aplicada. 3 - A personalizaçãoMuitas vezes é interessante apresentar a história às crianças tal como está escrita nos livros, aproveitando o talento deseus escritores e sua maestria em expressá-lo. Mas, na maioria das vezes, o narrador terá necessidade de fazer a suaprópria adaptação da história, isto porque ela é:* muito extensa e detalhada, a apresentação ficaria muito longa, maçante, ou, pelo contrário:
  23. 23. 23*muito resumida, faltam detalhes, não possui elementos para suscitar a imaginação e sustentar a narração com tempoadequado.Pode acontecer que uma história tenha no seu enredo um excelente potencial para desenvolver determinado aspectoeducacional ou valor ético, mas este não está claro na versão que temos à mão. À medida em que vamos estudando, istoirá aparecer e começa-se a visualizar a importância de reforçá-lo na narração que faremos. Assim, será lícito e desejávelfazer a adaptação incluindo elementos capazes de enriquecer este aspecto, a fim de torná-lo mais evidente.As adaptações tornam-se realmente necessárias quando se deseja utilizar determinado recurso auxiliar.Quando se utilizam personagens (marionetes, fantoches, bonecões, dramatizações), a adaptação deve ser feitatransformando a história em diálogos. A trama se desenvolve através de uma sucessão de cenas "interpretadas" pelospersonagens.Quando se está fazendo a adaptação, deve-se antever como será criada a ambientação. Se for possível utilizar cenário,será mais fácil levar os espectadores a imaginar, mas se não for possível, as falas dos personagens deverão descrever oambiente:João: NOSSA! O feijão que plantei ontem cresceu tanto!Mãe: Olha lá, João! O pé de feijão é tão alto que perfura as nuvens! E suas folhas são tão fortes que você poderia até seapoiar nelas!A adaptação deverá atentar também para não colocar em cena muitos personagens, para dar tempo para troca de roupas,colocação de algum adereço, uso de músicas e efeitos especiais.O ideal é que toda a história se desenvolva por meio dos personagens, porém o uso de um narrador poderá ajudar. Elefará a introdução, criando a ambientação e apresentando os personagens.O narrador poderá entrar em cena para solucionar as passagens mais difíceis, que necessitariam de cenário maiselaborado ou que seriam muito longas.As técnicas de maquete, velcômetro, dobraduras e sombras geralmente não são apresentadas com diálogos, mas por meioda narração de uma só pessoa.O adaptador, conhecendo bem os recursos da técnica escolhida, deve valorizar os trechos da história que usarão os seuspontos fortes.É muito interessante arquivar as adaptações feitas, notas, observações, idéias de interações com as crianças e de jogospara serem aplicados posteriormente á narração. O uso de um fichário de tamanho grande poderá ser útil para o arquivodestes trabalhos: a Ficha Descritiva e uma cópia do original (ou originais quando for o caso de mais de uma fonte) dahistória. Este acervo constituirá, ao longo da vida do educador, um importante instrumento de pesquisa, um verdadeiropatrimônio cultural do contador de histórias.
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  28. 28. 28Narrar uma história recorrendo apenas à memória e aos recursos dramáticos da voz é, sem dúvida, o que mais desafia oeducador. Por outro lado, é também o que mais fascina tanto o narrador como a platéia.Contar histórias é uma arte, que poderá ser nata em muitas pessoas. Porém, há um certo nexo em pensar que essaqualidade, mesmo não sendo visível em alguns, encontra-se "incubada" em todos aqueles que procuram um trabalho comcrianças, uma certa predisposição que poderá eclodir mediante treino e estudo. Algumas dicas vão ajudar:Conversa informal: É útil, antes da narração propriamente dita, iniciar com um bate-papo informal. Isto evitaráinterrupções e constrangimentos. Por exemplo:Vou contar uma história sobre uma fazenda. Alguém já esteve em uma?Isto evitara interrupções do tipo:Quando eu fui à fazenda do meu tio... Quando eu tomei o trem para..Esta conversa também identifica se a história poderá ferir alguma sensibilidade. Sendo este o caso, poderá ser suspensa atempo.Disposição: Os ouvintes deverão sentar-se em círculo. O narrador deverá fazer parte deste círculo, sentando-se junto comos ouvintes. No caso de ser um orador que gosta de gesticular e dramatizar, poderá ficar ajoelhado, pois desta forma terámais domínio de seus movimentos, e afastado cerca de meio metro das crianças que estão ao seu lado. E absolutamentedesaconselhável ficar em pé quando a platéia está sentada no chão ou vice-versa: ficar sentado quando a platéia está empé. Conforme o domínio que o narrador tem de sua platéia, ele poderá permanecer em pé quando os ouvintes estiveremsentados em cadeiras.Local: A escolha do local é fundamental para o sucesso da narrativa. Ele deve ser calmo e permitir que as pessoas fiquembem acomodadas. Não se deve concorrer com outros ruídos ou com outras "atrações", por exemplo: ruídos de trânsito,pessoas conversando, pessoas passando. As crianças têm um poder de concentração muito pequeno e qualquer fato torado normal desviará a atenção, ficando difícil para o narrador retomar o fio condutor da história.Horário: É interessante ser usada após um jogo movimentado, pois a energia estará mais descarregada e a atenção serámaior.É conveniente não utilizar o recurso de contar histórias após as refeições e tarde da noite: a atenção poderá ser pequena eo sono... inevitável!Interrupções: É raro ocorrerem interrupções se a história for bem contada, mas se existirem casos...É conveniente não interromper a narração de forma alguma. Um gesto, um sorriso, no máximo uma palavra deverábrecar o ouvinte mais inquieto.E, para finalizar, um segredo: para uma boa narração é preciso absoluta segurança e naturalidade, e isto só conseguequem está perfeitamente entrosado com o assunto, domina a técnica e está convenientemente preparado para contá-la.Em resumo, apresentamos o seguinte roteiro para as narrações simples:1 - Fazer a escolha cuidadosa da "sua" história. Procurar aquela que se identifica com seus valores pessoais que incita asua imaginação e que lhe dá prazer em trabalhar.
  29. 29. 292 - Estudar a história, lendo-a atentamente para saber de toda a trama, tendo com clareza na mente o ambiente e oesquema geral.3 - Identificar os quatro elementos: introdução, enredo, ponto culminante e desfecho. Anotar as características dospersonagens, seus nomes, frases essenciais, lugares e situações que chamem atenção. Fazer anotações breves de coisasque poderiam ser esquecidas. A ficha descritiva apresentada no capítulo anterior será útil neste estudo.4 - Certificar-se de que conhece, ou procurar conhecer, elementos suficientes sobre as situações ou os fatos que compõema história, como: o local onde ela se desenvolve, a época, fatos históricos, aspectos culturais, etc. Adquirir noção exata decomo será o cenário no qual a história se desenrolará para incluí-lo no relato, possibilitando às crianças imaginarem ondea história acontece. Tomar cuidado para não entrar em detalhes demais e cair na monotonia.5 - Decorar os aspectos principais de cada uma das partes da história (introdução, enredo, ponto culminante e desfecho).Embora seja esperado que o narrador tenha desenvoltura para discorrer a narração com suas próprias palavras, decorar afrase exata que inicia o relato poderá ajudar e diminuir o natural nervosismo cio começo. Ter absolutamente decorada afrase final poderá garantir que um esquecimento não comprometa aquilo que se deseja passar na conclusão.6 - Contar a história para si mesmo, em voz alta, de preferência diante do espelho. Marcar o tempo gasto, que não deveráultrapassar 10 minutos.Exercitar a narração procurando utilizar palavras simples, do conhecimento da criança. Treinar a entonação de vozadequada, dramática, porém com boa dicção, dar uma voz própria a cada personagem e controlar o tom de voz de modo apassar sentimentos de calma, segredo, atenção, emoção, medo, etc. Os gestos também devem ser exercitados, elesajudam muito a dar ênfase na narração, mas deve tomar cuidado para dar a medida exata, de modo a não exagerar e nãocair no ridículo.8 - Reler a história no dia em que for contá-la e repassar os pontos principais alguns minutos antes.9 - Se ela fizer parte de um conjunto de atividades, deverá entrar na programação sempre após um jogo agitado; isto farácom que se obtenha maior atenção.10 - Acomodar bem a audiência e dar pequenas dicas sobre o enredo a fim de que as manifestações ocorram.11 - Pedir silêncio e dar uma introdução sobre o que se dirá.12 - Entregar-se à história, sendo fiel ao que foi ensaiado.13 - Em muitos casos, é bom incentivar uma discussão entre as crianças ou aplicar uma atividade que permita com queelas façam alguma reflexão sobre o que foi narrado. TIRANDO MAIOR PROVEITO DA VOZUma platéia receptiva, uma boa história e muita disposição poderão ser a receita ideal para uma sessão de fantasia.O "contador" senta-se confortavelmente, acomoda as crianças à sua volta, recorda mentalmente a seqüência que usará epronto: começa a narrativa.Mas será isto suficiente?Muitas vezes, só estar preparado não adianta, é preciso que a audiência entenda as palavras que serão ditas. O raciocíniopode estar perfeito, todos os detalhes vivos, o encadeamento das idéias absolutamente sincronizado, porém podeacontecer que, por diversas razões, a audiência não consiga entender o que está sendo dito.Uma coisa é indiscutível: para se falar em público, mesmo que seja simplesmente contar uma história para um pequenogrupo de crianças, não se utiliza a voz da mesma forma que em uma conversa coloquial entre duas ou três pessoas. Deve-
  30. 30. 30se ter consciência de que a voz está sendo usada para comunicação com um grupo. Isto faz com que a atenção sejadiferente, a distância entre as pessoas maior, além do objetivo a ser alcançado ser outro.Alguns elementos são fundamentais para que a platéia entenda o que está sendo dito e aproveite o conteúdo damensagem. Estes elementos estão ligados principalmente à voz e são:* Dicção* Volume* Velocidade* Tonalidade* Vocabulário* DicçãoA dicção é frequentemente culpada quando uma mensagem não é entendida. Se as palavras não forem bempronunciadas, a mensagem é recebida de forma truncada, porque a não-compreensão de uma palavra pode levar àincompreensão de toda a frase, e não entender uma frase pode prejudicar o entendimento de toda a história.O pior é que, se a dicção for ruim, não é só uma palavra que não é entendida, são várias. No final, a comunicação éreduzida a uma sucessão de palavras incompreensíveis, apenas porque não se cuidou de falar claramente palavra porpalavra, ou, para ser mais exato, sílaba por sílaba.Para ter boa dicção, o primeiro passo é tomar o cuidado de pronunciar de forma clara cada uma das sílabas que compõema palavra, sentindo cada um dos seus sons.Problemas mais comuns:R, S e L no final das palavras: devem ser cuidadosamente pronunciados.Encontro de vogais no meio da palavra: ae, ei, ou, etc. Principalmente o i é muito esquecido quando se encontra no meioda palavra: peneira, madeira, ribeirão, etc.Encontros consonantais: br, dr, pl, gr, tr, etc. Sóbrio, sobrado, dramático, planetário, platinado, grupo, gravura, triturado,troféu, etc.Troca do 1 no final da palavra por u: Brasiu (no lugar de Brasil)Outra atenção que se deve ter é dar espaço entre uma palavra e outra, procurando não emendar as palavras de umamesma frase. No final das frases, onde há vírgula ou ponto, o espaço deve ser um pouquinho maior.Muito conhecido é o exercício da rolha, porque contribui de fato com a melhora da dicção. Ele é desenvolvido daseguinte maneira:• Escolher um texto e fazer a sua leitura pausadamente e em voz alta.• Colocar uma rolha entre a arcada dentária superior e a inferior.• Ler novamente o mesmo texto, esforçando-se para pronunciar as palavras com clareza.• Ler novamente o texto sem a rolha e perceber a diferença.• Se for possível, acompanhar o exercício com um gravador, será mais fácil notar as diferenças.A rolha provoca dificuldade para pronunciar corretamente as palavras. O exercício faz com que, para vencer estadificuldade, o treinando movimente mais os lábios, a língua e o palato mole. A repetição do exercício acaba tornandoestes movimentos habituais, consequentemente melhorando a dicção.O treino ajudará a dar naturalidade no uso correto das palavras, porque uma preocupação exagerada no momento danarração atrapalhará o raciocínio e dará um tom artificial, o que de certa forma chega até a ser antipático.
  31. 31. 31* VolumeEmbora pareça ser uma coisa simples, o principal problema que impede a compreensão de um discurso ou narração équando ele é feito em voz muito baixa. As pessoas simplesmente não escutam...O narrador deve ter consciência de que ele não está à mesma distância das pessoas do que quando está conversandoinformalmente. Outro fator é que, quando se está próximo, as pessoas complementam a interpretação por meio dosmovimentos dos lábios e das expressões faciais, o que também fica prejudicado com a distância.O inverso é muito desagradável: falar alto demais, gritando.Assim, pessoas que estão falando em público devem ajustar o volume da voz á situação em que se encontram.Cada ambiente exigirá um volume de voz adequado e isto precisa ser avaliado. Os seguintes fatores devem ser levadosem conta nesta avaliação:Distância entre o narrador e sua platéia: Evidentemente, quanto mais longe estiverem os ouvintes, mais alto deve ser ovolume da voz para a narrativa.Tamanho da sala : Se o ambiente é grande, ele exigirá um volume maior, mesmo que as pessoas estejam perto donarrador. O "pé direito" (altura entre o chão e o teto) influencia muito: se ele for muito alto, a voz se "perderá" enecessitará ser um pouquinho mais alta.Acústica da sala: .O formato da sala e os materiais que a revestem influenciam a propagação da voz.Ruídos externos; Se houver concorrência com outros ruídos, certamente será necessário fazer um ajuste paracontrabalançá-los.Contar uma história ao ar livre, tendo a natureza como palco, é muito agradável, mas deve-se tomar cuidado com ovolume, uma vez que estamos em um lugar amplo (a voz se dispersa) e, na maioria das vezes, concorremos com ruídosexternos.Com a prática, estes fatores são automaticamente avaliados e acaba-se calibrando a voz adequadamente, sem perceber.No início, porém, é mais fácil fazer este ajuste com a ajuda de outra pessoa. Basta que esse colaborador se coloque naparte mais distante da platéia e verifique como a voz está chegando lá.Outro cuidado que se deve ter é não diminuir o volume da voz no decorrer da narrativa, um vício comum que precisa ser"policiado".* VelocidadeA velocidade pode ser medida pelo número de palavras que uma pessoa pronuncia em um espaço de tempo determinado.Cada narrador tem uma velocidade na fala, isto é uma característica individual. Mas deve-se cuidar quando estavelocidade influi na compreensão do texto.A velocidade está muito ligada à boa dicção. Quem estiver com a sua dicção em desenvolvimento, precisaobrigatoriamente falar mais devagar, para ajudar na compreensão da sua comunicação.Variar a velocidade da voz pode auxiliar na interpretação do texto: falar mais rápido pode passar mais emoção, umsentimento de urgência, e falar mais devagar é adequado quando se deseja passar um sentimento de paz, harmonia,serenidade.Combinando-se as diversas variações de velocidade e volume, podem-se conseguir efeitos interessantes.Modular a voz entre o baixo (limitado a um volume que todas as pessoas possam entender) e o alto (sem exageros, éclaro) e variar a velocidade dá o colorido à narrativa e tira a monotonia. A fala monocórdica, sempre na mesma cadênciae ritmo é um dos principais fatores de desinteresse, principalmente em se tratando de narrativa de histórias infantis.* Tonalidade
  32. 32. 32Os sons classificam-se em graves e agudos. Cada pessoa tem o seu registro vocal próprio, mas facilmente pode alcançaralguns tons abaixo e acima desse registro. Isto será suficiente para conseguir efeitos surpreendentes.A adoção de certos estereótipos ajudam a compreensão do texto, por exemplo: meninas têm fala aguda, falam "fininho",homens corajosos e ursos sempre falam grosso, grave, velhinhas falam levemente agudo e tremido, fadas adocicado ebruxas têm voz aguda e estridente.Os diversos personagens dentro de uma narrativa podem ter característica vocal própria, o que será muito atraente, mastambém perigoso, pois necessita de atenção do narrador para manter a característica de cada personagem e alterná-larapidamente na mudança de personagens e nos diálogos.* VocabulárioOutro fator importante: as pessoas podem não estar entendendo a comunicação simplesmente porque não conhecem osentido das palavras que estão sendo usadas. Principalmente quando estamos falando com crianças.Também neste caso a não-compreensão de uma palavra prejudicará o entendimento de toda a frase. A incompreensão deuma frase pode levar a uma sucessão de incompreensões, que acaba levando ao desinteresse e à desistência emacompanhar a narrativa.O correto é usar palavras simples, das quais se tem a certeza absoluta de que as crianças as entenderão. Jamais usar gíriasou palavras vulgares: isto desprestigiará o conto e poderá dispersar a atenção das crianças.Uma história cheia de fantasia poderá até permitir algumas palavras mais elaboradas, as quais darão um certo charme, umar de "elegância" na narração, além de introduzir um novo vocabulário. Mas estes casos, que não devem ser usados comexagero, devem ser acompanhados de um reforço na frase, explicando com outras palavras o que já foi dito. Porexemplo: "A pele da bela princesa era alva como a neve. Todas as pessoas admiravam aquela sua pele branquinha... quedava muito contraste com os cabelos pretos e olhos muito azuis."Sem abusar, também se pode usar alguma explicação no meio da narrativa, por exemplo:"Entre os raios do Sol, as pessoas viram a figura de Pégaso, o maravilhoso cavalo alado. Vocês sabem o que é um cavaloalado? Alado quer dizer com asas. Cavalo alado, então, é um cavalo com asas. Imagine como este cavalinho era bonito,com grandes asas de um azul clarinho...”Enfim, a voz é o instrumento principal do narrador, saber usá-la é primordial e isto se consegue, como tudo, com treino ededicação.Tudo o que falamos com respeito à voz é adequado para qualquer orador, mas este capítulo é destinado especialmenteàqueles que se dedicam à arte de contar histórias.Porque contar histórias é mais do que simplesmente falar bem, é ser um pouquinho ator. Contar bem uma históriasignifica interpretá-la, e, às vezes, é necessário, além de narrar, interpretar um, dois e até mais personagens.* Expressão corporal: O bom narrador não se senta e fica falando, impávido. O corpo deve acompanhar o que estásendo descrito. Todo corpo fala: a posição do tronco, os braços, as mãos, os dedos, a postura dos ombros, o balanço dacabeça, as contrações faciais e a expressão dos olhos.Os gestos devem estar coerentes com a narração, usados para reforçá-la. Os gestos nunca devem ser usados de forma nãocalculada, sistemática, principalmente quando se está contando uma história. Isto irá confundir a platéia, ainda mais seestiver composta de crianças.Outra coisa que se deve evitar são os gestos exagerados, bruscos. Eles competirão com a própria narração e, seganharem... o conto vai por "água abaixo".
  33. 33. 33* Comunicação do semblante: As emoções do nosso interior são transmitidas através da expressão do rosto. Tristeza,alegria, surpresa, espanto... A expressão facial poderá falar mais do que muitas palavras.Para desenvolver esta técnica é preciso treino. Temos que ter consciência de que é necessário exagerar um pouco quandose está interpretando. Não se deve ter medo do ridículo. Muitas vezes as pessoas têm o sentimento e por isso acham queestão transmitindo, mas isto pode não ser verdade. O narrador pode até estar sinceramente emocionado, mas se a suafisionomia estiver transmitindo pouco, ninguém perceberá e sua tarefa não será bem cumprida. O treino na frente doespelho auxiliará bastante.A observação de como a platéia reage também é um indicativo:Fiz uma cara de extremo espanto, mas ninguém reagiu desta forma. Será que minha expressão facial está ruim? Ou: Osolhos das crianças estavam esbugalhados e elas soltaram até gritinhos ao verem minha expressão de espanto aodescrevera entrada naquele castelo...Outra boa dica é acompanhar a expressão que os atores de televisão e teatro atribuem a cada sentimento que queremtransmitir. Um olhar, a semi-abertura dos lábios, o que transmitem? Será possível fazer igual?As pessoas que realmente desejam melhorar sua performance poderão gravar as imagens de suas narrativas para depois iracompanhando. Existe muita diferença entre o que pensamos que estamos transmitindo e o que estamos transmitindorealmente.* Uso do silêncio: Pode parecer até engraçado, mas o silêncio fala, é uma forma de expressão. O narrador deve utilizarpausas, pois elas dão uma sensação de suspense e, conseqüentemente, valorizam o que se falará em seguida. Além disso,paradas bem estudadas dão tempo para as crianças organizarem suas idéias. Deve-se cuidar para não exagerar, pois seuma pausa for muito longa, dará ensejo para alguma brincadeira que poderá dispersar a atenção.* Fazer imitações: Este é um instrumento muito útil em se tratando de narração de histórias infantis. O monstro falagrosso, grave, alto, pausadamente! O seu corpo é truculento, o que se consegue mostrar com as pernas afastadas e"arredondadas", com o pescoço esticado movimentando-se em conjunto com a cabeça. A princesinha tem uma vozadocicada, seus gestos são comedidos, graciosos, harmoniosos, como em uma postura de ballet clássico. Já uma criançafala fininho, sua gesticulação é vivida, agitada, e às vezes quem a representa dá até pulinhos. Outra característica muitousada para imitar uma criança é dispersar-se, de repente começar a olhar para outro lado ou interessar-se por outra coisa.A imitação de vozes de animais é fácil de se fazer e fica engraçada.Enfim, a imitação traz a brincadeira e as crianças estão sempre prontas para isso.Normalmente uma narração utiliza sempre a terceira pessoa e vez ou outra faz menção de como determinado personagemfalou:O dragão entrava na caverna escura. Estava úmido e mal cheiroso lá dentro, ele sentia a pedra áspera do chão e seu pé,embora revestido de uma pele muito grossa, parecia estar começando a sangrar. Os morcegos voavam sobre a sua cabeçae isto estava deixando o pesado dragão com medo. Subitamente ele pára e fala com seus botões:- Sou um dragão ou um rato? Darei meu super urro e quero ver quem é que vai ficar com medo!UUUUUUHHHHHRRRRRRRR!!!!!!!!Este momento é exato para treinar os dotes de imitação do narrador. Ele usa sua voz normal no decorrer da narração,mas, quando menciona a frase falada pelo dragão, seu corpo fica ereto, o pescoço estica-se e a cabeça se inclina, sua vozfica grossa, rouca e alta. Ao urrar, deve-se ter certeza de que o barulho será emitido de forma realmente assustadora.
  34. 34. 34Quando se usa imitação, deve-se ter o cuidado de mantê-la em todo o conto. Não se pode esquecer a tonalidade e apostura empregada para a fada e para a bruxa. Se estes detalhes forem desprezados, as crianças ficarão confusas e oprocesso não será produtivo.*Elementos externos: Os narradores habilidosos poderão utilizar alguns (poucos) recursos, sem que isto descaracterizeuma simples narração. Quando falar de um gnomo pode-se usar o seu chapéu típico, pode-se usar a "varinha de condão"de uma fada, uma bola de cristal reveladora ou o espelho vermelho onde a Fera via a sua Bela.Este recurso deve ser usado com cuidado, porque poderá distrair tanto a atenção das crianças que a narrativa seráprejudicada.* Timing: Por "timing” entendemos a capacidade de adequar as diversas fases de uma exposição às reações do público,ou seja, dar o "tempo certo" em uma narração.O narrador preparou-se para desenvolver a história da melhor maneira, espera ter êxito e se esforçará para isso. Porém,deve ter consciência de que a sua maneira poderá não ser exatamente a melhor para seus ouvintes. As pessoas sãodiferentes e podem sentir as mesmas coisas de outras formas.Contaram-se uma história para que os outros gostem, podemos dizer que o público é o nosso real termômetro deavaliação. Para utilizá-lo precisamos nos acostumar à "leitura" de suas reações.Por exemplo: para criar um clima de suspense, é necessário um determinado timing, pois as pessoas precisam ficaransiosas esperando pelo que virá. Primeiramente serão criadas as emoções, que levarão às indagações, as diversasalternativas de respostas gerarão a expectativa, cada pessoa poderá até formular suas próprias preferências sobre o queacontecerá, e isto aumentará a excitação, o suspense. Se a narração for muito rápida, não haverá tempo suficiente paraque esta sucessão de fatos aconteça. Por outro lado, se for muito longo, começará a cansar, e a excitação inicial poderátransformar-se em descaso, um sentimento de que "não vale a pena esperar" e a narração inteira estará seriamentecomprometida.A melhor maneira de ter o timing certo é observar atentamente a reação de nossos ouvintes. Percebe-se muito bemquando estão atentos, interessados e também quando estão cansados. Com o tempo começa-se a perceber as nuances:quando o público está ficando interessado e quando começa a se aborrecer. O narrador experiente aproveita bem estesestágios, intensifica a retórica para atender e aumentar o interesse que está sentindo ou, no caso contrário, conclui estaparte da história (que aparentemente está indo longe demais) passando para outra fase ou, sentindo-se seguro, poderecorrer a um efeito especial para reaver o interesse.É penoso, porém necessário, acelerar a conclusão de uma história quando, embora para o narrador tudo esteja correndobem, como planejado, a platéia denotar claramente que não está mais gostando. Penosa ou não, esta é a melhor coisa parafazer: buscar fôlego, caprichar na entonação, dramatizar com a maior ênfase possível e... encerrar! O fracasso foi evitado.A análise posterior demonstrará onde está a falha e o fato de não ter fracassado permitirá outras tentativas que, com oserros corrigidos, certamente tenderão ao sucesso.Mas nem sempre as coisas são tão drásticas assim. Com treino, a sensibilidade para a leitura das reações do públicoaumenta, e o narrador passa a adquirir verdadeira simbiose com o público, onde todos passam a ser um único corpoharmônico, mergulhado prazerosamente nas profundezas de outros mundos de infinitas dimensões.Em resumo, quando o narrador usa somente os seus próprios recursos para dar vida a uma história, ele deve estar bempreparado. Conhecer a história e estar disposto a interpretá-la realmente com vontade é a única forma de suscitaremoções nas crianças. Suas reações certamente vão compensar qualquer esforço.
  35. 35. 35Porém se as habilidades não forem suficientes ou ainda estiverem em treinamento e desenvolvimento, existe uma série derecursos que permitem às crianças viajarem no maravilhoso mundo da fantasia, reservado, em sua magnitude,exclusivamente a elas.Para nós, adultos, resta a oportunidade, quase um dever, de transportá-las a estas emoções. Recursos auxiliaresA narração de uma história poderá ter diversas técnicas como suporte, cada qual se constituindo em um novo desafio paraos educadores no tocante a aperfeiçoar seu conhecimento de aplicação. Alguns exemplos:* Usar o próprio livro: Se a história for baseada em um livro com boas e fartas ilustrações, este poderá ser apresentado,apontando-se as figuras correspondentes ao momento da narrativa. O livro poderá ser utilizado com ajuda de um recursoque o exponha melhor. O cineminha que apresentamos em "Projetos" é um exemplo disso. As folhas (originais oucópias) são anexadas umas às outras, formando um rolo de filme", que é apresentado às crianças através da "tela" deuma caixa de madeira.* Gravuras: fazer uma seqüência de quadros (cópias ampliadas do próprio livro ou fotografados, sendo nesse casoprojetados em slides), que serão expostos à medida que a narração evolua.* figuras sobre o cenário: o cenário será um quadro básico, e as figuras (talvez cada personagem em algumas posiçõesdiferentes) irão compondo as cenas conforme o desenrolar. As figuras poderão ser presas com tachinhas, ou ser do tipovelcômetro (modernização do flanelógrafo, também apresentada em "Projetos").* fantoches: São muito apreciados pelas crianças e podem ser usadas por mais de um narrador. Outra vantagem é que sepode ter o roteiro escrito, o que facilitará a tarefa. Os fantoches também podem ser usados de forma interativa com ascrianças, elas mesmo manuseando-os, ou mesmo fazendo os bonecos de cartolina com roupas de papel crepom.* Teatro de sombras: Uma luz projeta figuras em uma superfície opaca. A sombra de bichinhos feita com as mãosexerce grande fascínio sobre as crianças e com figuras recortadas não é diferente. Elas são muito fáceis de fazer e aapresentação pode conter músicas e efeitos especiais.* Dobraduras: Outra arte que pode representar tantas figuras quanto nossa imaginação possa alcançar. É verdade quenão é uma técnica acessível a todos, mas há os que fazem... e o efeito é surpreendente! Proporciona uma boa interaçãocom as crianças quando a narrativa acompanha a sucessão de dobraduras feitas por elas.* Maquete: Também alcança resultado. E é mais simples do que parece: uma floresta de papel crepom, uma casinha depapelão e pequenos bonecos de feltro comandados por um contador habilidoso operarão maravilhas.* Bocões: (tipo ventríloquo): São bonecos grandes que ficam sentadas no colo do narrador. Pode ser só um (uma vovó,um duende, etc.), que contará a história. Ou tantos personagens quantos houver na história. As crianças ficam encantadascom o efeito e praticamente esquecem-se do narrador, que pode se aproveitar deste efeito de forma hábil.* Marionetes: São bonecos comandados por fios presos na cabeça, nas mãos e nos pés. A cena desenrola-se no chão e osoperadores ficam colocados atrás de um pequeno cenário. As histórias com bastante movimento, engraçadas, são as quemelhor se ajustam a esta técnica. Como os bonecos são esguios, eles se prestam às mais diversas caracterizações epodem, inclusive, trocar de roupa conforme a cena.* Interação com a narração: Poderá ser feita uma canção para ser usada em momentos-chaves: no perigo ou quandoaparece determinando personagem.
  36. 36. 36* Dedoches: São pequenos fantoches utilizados nos dedos. A vantagem é que têm um custo de material muito baixo, oque permite ter uma grande variedade deles. Também podem ser feitos e posteriormente apresentados pelas própriascrianças. A desvantagem e que não podem ser usados para uma platéia muito grande (cinco ou seis no máximo).Não há limites para a criatividade. Coisas simples, quando usadas na hora apropriada, enriquecerão a história:* Inclusão de um objeto real que faz parte do enredo fantasioso da história: em "Pandora", por exemplo, o suspenseaumenta se no interior do círculo o narrador colocar uma misteriosa caixa.* Um personagem que toma vida no desfecho da história: todos ficarão excitados se o cacique aparecer com seuresplandecente cocar. Ou, se ao final da história, a Emília "em pessoa" surgir para ser entrevistada pelas crianças.* Pedir para que as crianças fechem os olhos e criar sensações de vento com um ventilador, de odor com spray deambiente, de chuva com borrifos de água.* Poderão também ser usados gestos, um para cada personagem (é claro que são gestos discretos, para nãotumultuar). Ao contrário do que parece, este recurso não desvia a atenção: prende-a.Na seção Projetos, há fichas descritivas que dão maiores detalhes sobre a utilização de diversas técnicas. A análisedestas fichas associadas às fichas descritivas de cada história auxiliará na escolha da técnica mais adequada.
  37. 37. 37 O Urso do final do arco-íris
  38. 38. 38Recurso Auxiliar sugerido: Narração interativa - pg. 109Som Sensação TextoRonco: Nós vamos fazer uma caminhada por uma trilha ecológica.Jeep: Inicialmente seremos transportados por um jipe, fechem os olhos e boa viagem!Passarinhos: Quando chegamos, podemos ver a entrada da selva: a grama é rente everde e se estende por uns duzentos metros, onde se pode ver uma parede de árvores enormes. Nossos companheiros, ospassarinhos, cantam, homenageando nossa chegada! Vamos caminhar até lá.O dia está agradável, o Sol promete ser forte e a floresta certamente terá uma sombra agradável.Mais para frente a grama fica mais alta, atinge os nossos joelhos e podemos ver um tapete de flores coloridas. São floresbrancas, pequenas, amarelas, que se formam em cachinhos, mais à frente uma touceira de flores rosas. E as azuis, que sãoas mais difíceis de se ver.Perfume: correm rasteiras ladeando a estradinha. A medida que vamos avançando começamos a sentir o perfume dasflores. Vamos respirar profundamente. É tão bom sentir um perfume no ar, principalmente os naturais. Agora, com omato já à altura da nossa cintura, passamos no meio de uma planta quase sem folhas, de onde pendem cachos de floreslilás e o perfume fica realmente inebriante, o perfume toma conta do local.À frente existem duas árvores, ipês amarelos carregadíssimos, elas parecem formar um portal natural.Atingimos a entrada da floresta passando entre as duas árvores floridas e já podemos ouvir o seu barulho. Macacada: Osmacacos parecem não gostar de nossa intromissão e começam a guinchar desesperadamente. A mata é fechada comgalhos entrelaçados. Na maioria das vezes, estes "abraços" são no alto mas, às vezes, os galhos se emaranham perto dosolo, e é preciso se abaixar, até mesmo rastejar, para poder passar.Som de coco caindo: Estes movimentos sacodem as árvores e vez por outra caem aos nossos pés frutos que já estavammaduros ou quase secos. Ai! Nem sempre caem no chão, pois este acertou bem na minha cabeça!Abelhas: Enxame de... Epa! Este fruto é grande! Mas o que é isto? SOCORRO! Abelhas! ABELHAS!!!! Temos quecorrer, pois o menos aconselhável neste dia é ser picado por elas.À medida que vamos avançando, penetramos cada vez mais na mata e ela fica tão escura que, embora seja dia, éimpossível ver a luz do sol.Água: Um som refrescante chega aos nossos ouvidos. Abrindo passagem caindo por entre os arbustos chegamos perto deuma cachoeira. A água que cai de forma caudalosa por entre as pedras cobertas de samambaias. Borrifo de água espirra emolha a nossa face. Com o calor que estamos sentindo isto é a melhor coisa que poderia acontecer.Música de êxtase:Olhando para a frente vê-se uma luz rompendo as árvores: são faixas brilhantes e multicoloridas parecidas com as de umarco-íris. Mas olha! E mesmo um arco-íris. Vamos segui-lo? Isto é muito tentador, mas a nossa bússola aponta que éoutra a direção que devemos seguir.TilintarDo caminho aéreo de luz começa a cair um pozinho minúsculo, e a tentação de colher um pouquinho com a mão égrande. Olhando de perto vemos que cada grão é uma pequena estrela brilhante. Estas estrelinhas se depositam sobre asfolhas e formam um caminho prateado. Não vamos mais resistir, vamos segui-lo. Haveremos de nos achar depois.Ventania Vento
  39. 39. 39No momento que pisamos no caminho forma-se ao nosso redor uma nuvem feita do pozinho de estrelas caídas do arco-íris, e isto dá a sensação de uma brisa suave tocando a nossa face. A brisa vai se fortalecendo, tornando-se aos poucosuma ventania.Este vento parece conduzir-nos sob a luz do arco-íris, e esta nuvem não nos deixa ver nada.Aos poucos, o nevoeiro vai terminando e podemos ver o arco-íris terminar em uma clareira.Música de SuspenseOba! Todos dizem que no fim do arco-íris existe um pote de ouro. Se isto for verdade, agora é a nossa vez! O arco-íristermina em uma luz intensa e não podemos ver nada, mas podemos ouvir um gemido abafado saindo por trás de algumapedra. É um urso. Socorro!Urro de ursoEle olha para nós! Nós olhamos para ele e o desejo é começar a correr imediatamente. Mas, e as pernas? Estão grudadasno chão!Ele dá um urro: Uau!E nós um grito: Ai!PassosEle se coloca de pé e é agora que nós vamos correr. Mas ele olha fixamente nos nossos olhos e começa a caminhar.Embora não desejemos, sentimos que não há outra coisa que possamos fazer além de segui-lo. Finalmente, seguimos ourso como se ele tivesse um ímã.Ventania VentoPercorremos novamente o caminho do pó prateado e outra vez não podemos ver nada, só sentimos aquela misteriosabrisa que se transforma em ventania.Finalmente a névoa termina e podemos ver o vulto do urso nos aguardando. Ele não parece agressivo, pelo contrário,olha para nós com certa docilidade e em seus olhos pequenos e castanhos podemos perceber que escorrem duas grossaslágrimas.Sentimos dó. Ele se vira lentamente e nós precisamos segui-lo. Neste momento podemos ver o que talvez seja a causa desuas lágrimas: ele tem uma fenda profunda nas suas costas. Um corte de cerca 30 cm aparece entre os seus pelosespessos. Coitado, quem teria feito isso?Cachoeira BorrifoCaminhamos, agora até com certa intimidade, passamos ao lado da cachoeira que, felizmente, molha novamente a nossaface, a nossa e certamente também a do urso.Abelhas Enxame de ABELHAS! Eu havia esquecido! Corre, amigão, senão nossa situação não vai ficar boa, não!!!Barulho da noiteJá está caindo a noite e percebemos isto pelos ruídos da floresta. Pulando sobre galhos, rastejando, e com váriosarranhões à mostra estamos, finalmente, perto da saída da mata. Isto é bom, pois já sentimos o cansaço e é preciso fazeralgo para cuidar do imenso corte do urso.Já podemos até imaginar o cheiro agradável da relva florida que nos espera na saída. A mata já começa a rarear e aclaridade está cada vez mais forte. Mais alguns passos e estaremos de volta.Pronto, lá estão os dois imensos ipês amarelos denunciando que a floresta chegou ao fim. Em um impulso abraçamos umdeles, e parece que ele está nos dando as boas vindas à civilização.Música de suspense
  40. 40. 40Mas, onde estão as flores, a touceira de flores rosas, os cachinhos amarelos, as rasteiras florzinhas azuis?A terra parece acabar na frente das duas árvores de ipês e um imenso precipício despenca, íngreme e assustador.Música com mais SuspenseCanto de tribo indígenaUm penhasco de paredes praticamente retas, com pedras pontiagudas encravadas em uma terra careca, árida, alonga-sepor cerca de 100 metros. O urso parado, estático, à beira do abismo aponta para o fosso e olha para nós com cara deindagação.Olhamos para baixo assustados, não sabendo o que poderá nos surpreender mais ainda. O que é isso?Nota 1: A palavra grifada indica o início do efeito especial (som ou sensação). Nota 2: Os ouvintes fecham os olhos eescutam a história que será acompanhada dos efeitos especiais. Após a narração os participantes abrem os olhos ereunidos em equipe escrevem o final da história. A Caixa de PandoraRecurso Auxiliar sugerido: Narração interativa - pg 109A história que vamos contar passa-se no Olimpo, morada dos deuses, em uma época em que só existiam coisas boas. Océu estava sempre azul, os rios sempre limpos e claros, com peixinhos multicoloridos nadando alegremente. Das árvoresfrondosas pendiam cachos de frutas doces e deliciosas e as flores, sempre viçosas, enfeitavam o gramado de um verde-turquesa claro. As pessoas viviam felizes e desconheciam doenças e as tristezas próprias dos seres humanos, comoinveja, preguiça, medo e intolerância, dentre tantas outras.No Olimpo, quem reinava era Zeus, rei dos imortais, "todo-poderoso" que tinha completo domínio não só sobre osanimais e as plantas, mas também sobre todas as pessoas que habitavam na Terra. Até que nasceu Prometeu (que emgrego quer dizer "premeditado"), que de todos os Titãs imortais era o mais esperto. Era defensor da humanidade eensinou aos seres humanos, pobres mortais, o dom do pensamento, muitos ofícios e habilidades, dentre elas o estudo dasestrelas e o seu uso na navegação.Um belo dia Prometeu roubou o fogo do carro do Sol e levou-o para a terra, e depois ensinou a humanidade a usá-lo parase aquecer e cozinhar. Quando Zeus olhou para a terra e viu o brilho das fogueiras, ficou muito abalado, temendo que,tendo o domínio do fogo, Prometeu viesse também a dominar o Olimpo. Resolveu subjugá-lo antes que fosse tardedemais. Como a melhor forma de subjugar um homem é uma mulher, ele pediu ajuda para outros deuses, para criarem amulher perfeita. A primeira chamada foi Afrodite, a deusa da beleza, que contribuiu moldando um rosto delicadoenfeitado com olhos infinitamente azuis e cabelos negros e sedosos, e um corpo perfeito recoberto com pele macia.Apolo deu-lhe voz de mel, bonita e suave. E Hermes, mensageiro dos deuses, tratou de ensinar-lhe como usar a bonitavoz para convencer as pessoas. Por último, Eros, deus do amor, ensinou-lhe técnicas de conquista às quais seriaimpossível resistir. Seu nome: Pandora. Aí estava a mais perfeita das mulheres que o Olimpo tinha visto.No dia em que Pandora saiu para procurar Prometeu, Zeus entregou-lhe uma caixa construída de um material vermelho,brilhante e ao mesmo tempo macio, até então desconhecido. Era adornada com rosetas de ouro e pedras preciosas, mas oprincipal era que essa caixa, misteriosamente, exercia um encantamento que tornava quase impossível desviar os olhosdela. E, com ar de seriedade, deu à Pandora as seguintes instruções:- Sua tarefa é levar esta caixa a Prometeu. Para cumpri-la, não meça esforços. Você foi criada para isso! Somente eledeverá abri-la. Mesmo que isto demore muito, nunca deixe outra pessoa se aproximar da caixa. Somente Prometeupoderá lidar com seu conteúdo.
  41. 41. 41E lá se foi a insinuante Pandora com sua caixa, espalhando beleza e perfume por onde passava.Prometeu ficou muito impressionado com a beleza da moça e sua conversa interessante, mas a caixa passou-lhedespercebida. E tampouco passou por sua cabeça a idéia de se encontrarem novamente ou pedi-la em casamento,conforme esperava Zeus.O tempo foi passando e Prometeu, a julgar pelo seu comportamento e suas falas, havia-se esquecido de Pandora. Omesmo não aconteceu com Epimeteu (que em grego quer dizer o que pensa depois). Este, depois que colocou os olhosem Pandora, nunca mais pôde tirá-la de sua cabeça. Sua beleza insinuante era presença constante em seus sonhos. E amisteriosa caixa aguçava a sua curiosidade ao ponto de que daria qualquer coisa para poder simplesmente tocá-la.Como Pandora não conseguia nada com Prometeu, julgou que poderia se aproveitar da paixão que Epimeteu tinha por elae com ele se casar. Dessa forma teria mais chances de se aproximar do irmão e entregar-lhe a caixa. De qualquermaneira, a sua missão estaria cumprida.Para colocar seu plano em ação, bastaram alguns olhares e Epimeteu julgou-se o mais feliz dos homens: além de ter abela mulher que desejava, teria a chance de descobrir o conteúdo da caixa que ela cuidadosamente levava.Após as bodas, celebradas com grande festa, Epimeteu pediu que Pandora lhe mostrasse a caixa e, nesse momento, elarevelou seu segredo:- Você não pode abri-la, ela pertence a outra pessoa. Vou guardá-la em um cômodo seguro em nosso palácio, até quechegue o momento de entregá-la ao seu verdadeiro dono, que a abrirá, e assim todos saberemos o que ela contém.Isto não seria fácil para o curioso rapaz: dia após dia ele parava na porta do quarto onde se encontrava a caixa e lá ficavaadmirando-a e imaginando o que ela conteria.Após alguns meses, a ousadia fez com que Epimeteu entrasse no salão para mais de perto admirar os contornos da caixa eseus delicados desenhos, e ficar sonhando com o dia que seu misterioso dono aparecesse e revelasse o seu conteúdo.- Mas que mal haveria se eu a tocasse? Eu não posso abri-la, mas tocá-la, certamente, eu posso.E seu próximo passo, foi deleitar-se acariciando o tecido suave que revestia o objeto.Sem que Pandora percebesse qualquer coisa, o salão que guardava sua caixa passou a ser o aposento preferido do marido,lá ele ficava horas e horas acariciando e conversando baixinho com a caixa. Nos momentos de maior curiosidade elearriscava abrir um pouquinho, outras vezes a sacudia, tentando escutar seus barulhos, sentir um odor, descobrir pelomenos uma pista.Certo dia, ao fazer suas manobras costumeiras de revirar e abrir parte da caixa, uma fumaça preta começou a sair dela.Isto fez com que a curiosidade vencesse Epimeteu que, não resistindo mais, finalmente a abriu.Um estampido ensurdecedor se fez ouvir por todo o palácio, e fez com que as pessoas começassem a chorar de dor. Afumaça que saía da caixa elevava-se grudenta ao teto e, lá chegando, transformava-se em monstros alados, pretos efétidos, que saíam voando pelas janelas.Esses pássaros invadiram todo o Olimpo, queimando as árvores e os gramados, fazendo as flores murchar, calando ematando os passarinhos. As pessoas começaram a adoecer e envelhecer. Com raiva umas das outras, passaram a brigar ea se matar entre si.- O que foi que eu fiz? chorava Epimeteu, sentindo o seu corpo sujo e dolorido. Suas mãos rachadas e ensangüentadasnão conseguiam achar a tampa da caixa para fechá-la e fazer parar de sair a maldita fumaça que estava empesteando tudoe trazendo todo tipo de desgraça, antes desconhecida no Olimpo.- Mais prudente seria que eu me matasse, pensou, pois sou o mais desgraçado dos homens e não sei mais o que fazer.

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