Quadro de adoecimento de docentes

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Quadro de adoecimento de docentes

  1. 1. O professor, as condições de trabalho e os efeitossobre sua saúde*Sandra Maria GaspariniSandhi Maria BarretoAda Ávila AssunçãoUniversidade Federal de Minas Gerais Resumo O estudo das relações entre o processo de trabalho docente, as reais condições sob as quais ele se desenvolve e o possível adoecimento físico e mental dos professores constituem um de- safio e uma necessidade para se entender o processo saúde-do- ença do trabalhador docente e se buscar as possíveis associa- ções com o afastamento do trabalho por motivo de saúde. Este artigo apresenta o perfil dos afastamentos do trabalho por motivos de saúde de uma população de profissionais da educa- ção. Buscando elementos na literatura disponível, aventa a hipó- tese de que as condições de trabalho nas escolas podem gerar sobreesforço dos docentes na realização de suas tarefas. Foram analisados os dados apresentados no Relatório preparado pela Gerência de Saúde do Servidor e Perícia Médica (GSPM) da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais, relativos aos afastamentos do trabalho de funcionários da Secretaria Mu- nicipal de Educação, de abril de 2001 a maio de 2003. Os afas- tamentos foram indicados pelos atestados médicos fornecidos pela própria instituição. Os dados obtidos, embora não permitissem discriminar o número de professores envolvidos, possibilitaram o conhecimento do número de afastamentos entre os professores, sendo que os transtornos psíqui-Correspondência:Ada Ávila Assunção cos ficaram em primeiro lugar entre os diagnósticos que provocaramAv. Alfredo Balena, 190, 8009 os afastamentos.30130-100 – Belo Horizonte – MGe-mail:adavila@medicina.ufmg.br Palavras-chave* Agradecemos à Profa Dalila Andrade Trabalho docente – Professor – Saúde do trabalhador – Saúde men-Oliveira pelo esforço na coordenação tal e trabalho.do Grupo de Estudos sobre Trabalho Do-cente – GESTRADO. Este Grupo, apoi-ado pelo CNPq e pela FAPEMIG, estáligado ao Núcleo de Estudos sobre Tra-balho e Educação [NETE] da Faculdadede Educação/UFMG, que proporcionao ambiente necessário para as refle-xões tratadas neste artigo.Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005 189
  2. 2. The teacher, working conditions and their effects onhis health*Sandra Maria GaspariniSandhi Maria BarretoAda Ávila AssunçãoFederal University of Minas Gerais Abstract The study of the relations between the teaching work process, the real conditions under which it is developed, and the possible physical and mental ailment of teachers constitutes a challenge and a necessity to understand the health-sickness process of teachers, and to seek new associations with sick leaves. This article presents the sick leave profile of a population of professionals in education. Drawing from the available literature, the study raises the hypothesis that the working conditions at schools may be leading to teachers’ overload when carrying out their duties. The study analyzed data presented in the Report prepared by the Worker Health Administration and Medical Examination Office (GSPM) of the City of Belo Horizonte, Minas Gerais, corresponding to sick leaves by employees of the Municipal Secretary for Education between April 2001 and May 2003. The sick leaves were recommended in medical reports issued by the GSPM itself. The data obtained, although not allowing to ascertain the total number of teachers involved, made is possible to know the number of sick leaves among teachers. Psychiatric disorders were top of the list among the diagnostics that resulted in sick leaves.Correspondence:Ada Ávila Assunção KeywordsAv. Alfredo Balena, n. 190, 800930130-100 – Belo Horizonte – MGe-mail: adavila@medicina.ufmg.br Teacher work – Teacher – Worker health – Work and mental health.* We would like to thank ProfessorDalila Andrade Oliveira for her work atthe coordination of the Study Group onTeacher Work – GESTRADO. Thisgroup, sponsored by CNPq andFAPEMIG, is associated to the Centerfor Studies on Work and Education(NETE) of the Faculty of Education –UFMG, which provides the adequateenvironment for the reflectionspresented in this article.190 Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005
  3. 3. Avaliando o contexto das políticas que É pertinente defender que o sistemavisam à educação para todos, este artigo apre- escolar transfere ao profissional a responsabi-senta a hipótese da defasagem das condições lidade de cobrir as lacunas existentes na insti-de trabalho em face das metas traçadas e efe- tuição, a qual estabelece mecanismos rígidos etivamente alcançadas, as quais acabam geran- redundantes de avaliação e contrata um efeti-do sobreesforço dos docentes na realização de vo insuficiente, entre outros. A título de exem-suas tarefas. plo, em 2002, o IV Congresso Nacional de A Organização Internacional do Trabalho Educação registrou o déficit nacional de profes-definiu as condições de trabalho para os pro- sores em educação básica no Brasil, pois eramfessores ao reconhecer o lugar central que es- necessários mais 836 731 para a educação in-tes ocupam na sociedade, uma vez que são os fantil, 167 706 para o ensino fundamental eresponsáveis pelo preparo do cidadão para a 215 mil para o ensino médio (Souza et al .,vida (OIT, 1984). Tais condições buscam basi- 2003). Os dados do Ministério da Educação, jácamente atingir a meta de um ensino eficaz. em 2004, esclarecem que, somente no ensino As transformações sociais, as reformas edu- médio, faltam na rede, para citar apenas um doscacionais e os modelos pedagógicos derivados das casos de insuficiência de efetivo, 23,5 mil pro-condições de trabalho dos professores provocaram fessores de física (MEC/INEP, 2004).mudanças na profissão docente, estimulando a Como obter sucesso nos objetivos esta-formulação de políticas por parte do Estado. De belecidos para o ensino num período de pou-acordo com Souza et al. (2003), até os anos de ca oferta de vagas, com salas de aula repletas1960, a maior parte dos trabalhadores do ensino de crianças e adolescentes? Quais seriam osgozavam de uma relativa segurança material, de efeitos para o professor, se, no espaço da pro-emprego estável e de um certo prestígio social. Já dução do ensino, não lhe são garantidas asa partir dos anos de 1970, a expansão das deman- condições adequadas para atingir as metas quedas da população por proteção social provocou o orientam as reformas educacionais recentes?crescimento do funcionalismo e dos serviços pú- Sob essas condições, o único elemento deblicos gratuitos, entre eles a educação. ajuste é o trabalhador, que, com seus investi- Na atualidade, o papel do professor extra- mentos pessoais, procura auxiliar o aluno ca-polou a mediação do processo de conhecimen- rente comprando material escolar e restringin-to do aluno, o que era comumente esperado. do o seu tempo supostamente livre para criarAmpliou-se a missão do profissional para além da estratégias pedagógicas que compensem asala de aula, a fim de garantir uma articulação ausência de laboratórios, de salas de informá-entre a escola e a comunidade. O professor, além tica e de bibliotecas minimamente estruturadasde ensinar, deve participar da gestão e do plane- (Noronha, 2001).jamento escolares, o que significa uma dedicação Na última década, o trabalho docentemais ampla, a qual se estende às famílias e à co- tornou-se, por demanda do sindicalismo, temamunidade. de vários estudos e de investigações, incenti- Embora o sucesso da educação dependa vando a formação de grupos e de redes dedo perfil do professor, a administração escolar pesquisadores organizados para esse fim. Sou-não fornece os meios pedagógicos necessários à za et al . (2003, p. 106) resumem sete projetosrealização das tarefas, cada vez mais complexas. de pesquisa com resultados consistentes eOs professores são compelidos a buscar, então, abrangentes que dão visibilidade, nos anos depor seus próprios meios, formas de requalificação 1990, às precárias condições do trabalho do-que se traduzem em aumento não reconhecido e cente e mostram sua associação com sintomasnão remunerado da jornada de trabalho (Teixeira, mórbidos e a elevada prevalência de afasta-2001; Barreto e Leher, 2003; Oliveira, 2003). mentos por motivos de doença na categoria.Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005 191
  4. 4. As condições de trabalho, ou seja, as cir- Resultados e Discussãocunstâncias sob as quais os docentes mobili-zam as suas capacidades físicas, cognitivas e Os dados da Gerência de Saúde do Ser-afetivas para atingir os objetivos da produção vidor e Perícia Médica (GSPM), reunidos noescolar podem gerar sobreesforço ou hiperso- Relatório já mencionado, em Belo Horizonte,licitação de suas funções psicofisiológicas. Se mostram freqüência importante de atendimen-não há tempo para a recuperação, são desen- tos médicos com solicitação para afastamentocadeados ou precipitados os sintomas clínicos do trabalho por motivos de saúde (Belo Hori-que explicariam os índices de afastamento do zonte, 2003)trabalho por transtornos mentais, conforme A análise dos dados mostra que a GSPMdescrito no que segue. realizou 16.556 atendimentos de servidores da educação no período de maio de 2001 a abril deMetodologia 2002. Infere-se, a partir disso, que as razões de procura da perícia médica não são banais, uma Esta pesquisa documental foi realizada vez que, no universo citado, 92% (15.243) dostendo como texto base o Relatório da Prefei- atendimentos provocaram afastamento do traba-tura Municipal de Belo Horizonte (Belo Hori- lho. Os afastamentos no grupo geral de servi-zonte, 2003) elaborado juntamente com o dores são concentrados na categoria dos pro-Sindicato Único dos Trabalhadores em Educa- fessores, totalizando 84% dos servidores afas-ção em Minas Gerais – sind-UTE, representante tados (tabela 1).da categoria. Os dados presentes no referido Re-latório foram analisados e serão apresentados aseguir. Além do texto base, foram utilizados ossites Bireme e PubMed, acrescidos dos serviçosda Biblioteca J. Baeta Viana do Campus Saúdee da Biblioteca da Faculdade de Educação,ambas da Universidade Federal de Minas Gerais,e da Biblioteca da Faculdade de Ciências Mé-dicas de Minas Gerais. As bases de dados con-sultadas foram: Medline, Lilacs, Scielo, Ovid,Prodoc e periódicos Capes. Deixar as siglas naweb foram encontradas referências da “Organi-zação Internacional do Trabalho” (OIT) sobre otrabalho docente e suas implicações. As pala-vras-chave usadas isoladas e/ ou em cruzamen-tos foram: doenças dos professores (teachers’diseases), trabalho docente (teachers’ work), Os dados de afastamento não podem ex-doenças ocupacionais (occupational diseases) , pressar os problemas de saúde vividos pelosestresse e trabalho (stress and work), e burnout servidores, tampouco é possível estabelecerem professores (burnout among teachers ). associações diretas desses problemas com o Procedeu-se a uma análise das informa- trabalho por eles desenvolvidos. Contudo, taisções do Relatório à luz da literatura disponível fatores são indicadores que nos permitem ela-sobre o assunto de modo a permitir a verifica- borar hipóteses articuladas aos dados da litera-ção de convergências, divergências e possíveis tura citados ao longo deste artigo. Ou seja, oslacunas no conhecimento acumulado. resultados das pesquisas isoladas, quando ana-192 Sandra M. GASPARINI; Sandhi M. BARRETO e Ada A. ASSUNÇÃO. O professor, as condições...
  5. 5. lisados em conjunto, mostram coerência entre contratadas, na cidade de Nova York, com oos seus achados e permitem a elaboração de objetivo de estimar os efeitos das condições dehipóteses de pesquisa que visem a identificar trabalho sobre sintomas depressivos no grupoassociações do adoecimento com as caracterís- alvo. Esse autor avaliou os sintomas depressivosticas das escolas e as condições de trabalho pelo Center of Epidemilogic Studies — Depressionvividas em suas dependências. Scale). O suporte social foi avaliado pelo Interper- No período de maio de 2001 a abril de sonal Support Evaluation List. Para avaliar o grau2002 (tabela 2), os transtornos psíquicos ocu- de nocividade do ambiente escolar, foram desen-param o primeiro lugar entre os diagnósticos volvidos dois instrumentos: o Episodic Stressorque provocaram os afastamentos (15%). O Scale e o Strain Scale, distinguindo estressoresdado indica uma situação grave, e apesar de o eventuais de permanentes. Os resultados mostra-Relatório não ter fornecido meios para distin- ram uma forte associação entre sintomasguir os indivíduos, a freqüência do diagnósti- depressivos e ambientes de trabalho nocivos,co de transtornos psíquicos entre as causas de bem como o surgimento precoce dos efeitosafastamento no trabalho é inquietante. Em se- pesquisados, que se mantêm mesmo quandogundo lugar, estão os afastamentos por doen- outros fatores de risco são controlados. Nesseças do aparelho respiratório (12%) e, em tercei- estudo, o autor lembra também os resultadosro, as doenças do sistema osteomuscular e do de sua pesquisa anterior, que associam ambien-tecido conjuntivo (11%). Vale registrar, contu- tes perigosos, frustrantes ou carentes de con-do, que um mesmo professor pode ter sido trole a doenças depressivas.afastado mais de uma vez. Pitthers e Fogarty (1995) avaliaram o estresse e a tensão ocupacionais em professo- res utilizando o Occupational Stress Inventory, instrumento que avalia estresse ocupacional, sobrecarga acumulada e estratégias adotadas. Os maiores escores foram encontrados entre os professores, quando comparados com outros profissionais. Os resultados foram associados à sobrecarga de trabalho e aos conflitos com os superiores e as normas. Os autores ainda citam o estudo de Punch e Tuetteman, realizado em 1990, que avaliou 574 professores na Austrá- lia e encontrou níveis de estresse psicológico Outros estudos obtiveram resultados se- duas vezes maior do que na população emmelhantes e encontraram associações com as geral. Estudos realizados nos EUA (1976), Aus-condições de trabalho existentes. Zaragoza trália e Nova Zelândia (1982) e Reino Unido(1999) focalizou a evolução da saúde dos pro- (1991), citados pelos mesmos autores, mostra-fessores de 1982 a 1989, contabilizando as ram que um terço dos professores avaliadoslicenças médicas oficiais dos professores de consideram seu trabalho “estressante” ou “mui-ensino não universitários de Málaga e concluiu to estressante”.que, no período de sete anos, o número de Um estudo quali-quantitativo, envolven-professores em licença triplicou. Os diagnósti- do 163 professores do ensino fundamental decos mais freqüentes foram: distensões do tor- Santa Maria (RS), investigou o estresse e osnozelo, laringites e depressões. seus principais agentes desencadeadores, frente Shonfeld (1992) realizou um estudo lon- à inclusão de alunos com necessidades educa-gitudinal envolvendo 255 professoras recém- cionais especiais. Nesse estudo, foram identifi-Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005 193
  6. 6. cados vários agentes estressores com os quais de professores sem DPM. No estudo, foramo professor tem de lidar no seu cotidiano pro- associados aos DPM os fatores que dizem res-fissional. A falta de preparo dos professores peito à organização do trabalho, tais como tra-para o processo de inclusão foi a principal fonte balho repetitivo, insatisfação no desempenhogeradora de estresse por eles apresentada. Os das atividades, ambiente intranqüilo e estres-docentes pesquisados citam como fatores de sante, desgaste da relação professor-aluno, faltaagravamento do problema a quase inexistência de autonomia no planejamento das atividadesde projetos de educação continuada que os e ritmo acelerado de trabalho e pressão dacapacite para enfrentar a “nova” demanda edu- direção (Araújo; Silvany-Neto, 1998).cacional; o elevado número de alunos por tur- Zaragoza (1999) chamou de mal-estarmas; a infra-estrutura física inadequada; a fal- docente a sensação de mal-estar difuso e elabo-ta de trabalhos pedagógicos em equipe; o rou um modelo para explicar as relações funcio-desinteresse da família em acompanhar a traje- nais existentes entre os múltiplos fatores indica-tória escolar de seus filhos; a indisciplina cada dores do sintoma. Esse modelo considera quevez maior; a desvalorização profissional e os uma determinada combinação de fatores podebaixos salários, situações que fogem de seu conduzir os professores a um estado de ansiedade,controle e preparo. Sentimentos de desilusão, denominado esgotamento docente, que afeta suade desencantamento com a profissão foram personalidade. São mencionados os professoresfreqüentemente relatados, evidenciando a vul- que souberam elaborar respostas efetivas e inte-nerabilidade dos profissionais estudados ao gradas ante o aumento de exigências e a enormeestresse. A autora desse estudo conclui que as transformação a que se viu submetida a profissãoatividades pedagógicas permeadas por circuns- docente. Às situações problemáticas que solicitamtâncias desfavoráveis forçam a uma reorganiza- uma resposta do professor para reduzir o pesoção e improvisação no trabalho planejado, dos estímulos ameaçadores o autor chama dedistorcem o conteúdo das atividades e tornam “tensão” e “estresse”.o trabalho descaracterizado em relação às ex- Ainda para Zaragoza, o absenteísmo se-pectativas, gerando um processo de permanen- ria um mecanismo de defesa utilizado contra ate insatisfação e induzindo a sentimentos de tensão derivada do exercício docente, umaindignidade, fracasso, impotência, culpa e de- forma de atingir um alívio para escapar dassejo de desistir, entre outros (Naujorks, 2002). tensões acumuladas. Possivelmente, esse meca- A investigação das condições de saúde e nismo está presente na população de educado-trabalho de professores da rede particular de res de Belo Horizonte afastados do trabalho porensino do estado da Bahia destaca uma gran- motivos de saúde no período estudado. Nade proporção de adoecimento numa popula- população-alvo, do total dos afastamentos entreção relativamente jovem, com queixas impor- maio de 2002 a abril de 2003, 85% referiam-tantes relacionadas ao funcionamento psíquico, se à categoria dos professores (tabela 3). Comocomo cansaço mental e nervosismo. Os resul- mencionado anteriormente, um mesmo profes-tados revelam uma freqüência de 20% de dis- sor pode ter sido afastado mais de uma vez.túrbios psíquicos menores (DPM) aferido pelo Diversos estudos citados por ZaragozaSelf Reporting Questionnaire (SRQ-20). Foram (1999) buscam identificar os ciclos de estresseclassificados como suspeitos de apresentar DPM ao longo do ano escolar. Nos finais de trimestreos professores que responderam positivamente (especialmente do primeiro) e no final do curso,a sete ou mais questões dentre as vinte propos- o número de licenças médicas aumenta progres-tas apresentadas pelo teste. O referido grupo sivamente. No início do primeiro trimestre, emapresentou maior prevalência de problemas especial, o número de licenças médicas aumentagerais de saúde, quando comparados ao grupo bruscamente, detendo-se após feriados e tornan-194 Sandra M. GASPARINI; Sandhi M. BARRETO e Ada A. ASSUNÇÃO. O professor, as condições...
  7. 7. do-se insignificante durante as férias de verão. tamento (16%). As doenças do aparelho respi-Na pesquisa do autor, os problemas de saúde ratório vêm em segundo lugar (12%) e, asdos professores foram estudados exaustivamente doenças do sistema osteomuscular e do tecidono período de 1982 a 1984 e as causas de li- conjuntivo (10%) permanecem em terceiro lu-cença mais importantes foram os diagnósticos gar entre os diagnósticos que provocaram ode traumatologia, geniturinários e obstétricos e afastamento do trabalho.os neuropsiquiátricos. Essas última causas, ain-da que em terceiro lugar, constituíram o segundolugar de importância pelo número de dias de li-cença que provocaram. O estudo de Siqueira e Ferreira (2003) en- controu resultados semelhantes. Com o objetivo de investigar o absenteísmo docente no ensino fundamental, as autoras estudaram as professo- ras das séries iniciais da rede pública de ensino da cidade de Florianópolis (SC) por meio da análise dos prontuários dos docentes que se afastaram do trabalho para tratamento de saú- de. Constatou-se que as causas mais freqüentes Diversos estudos realizados em Hong Kong geradoras desses afastamentos foram, em ordemnos últimos anos têm mostrado que ensinar é decrescente: as doenças do aparelho respirató-altamente estressante. Cerca de um terço dos rio, os problemas do aparelho locomotor, os pro-professores pesquisados apresentavam sinais de blemas de saúde na família e problemas psico-estresse e burnout, entre os principais problemas lógicos e/ ou psiquiátricos. Embora no estudode saúde. Observou-se distribuição heterogênea citado os transtornos psíquicos ocupem o quartodos sintomas, sendo que alguns professores apre- lugar nas causas de afastamento do trabalho emsentaram sinais mais graves do que outros, vari- docentes, ainda assim se encontram entre osando de quadros leves de frustração, ansiedade e mais prevalentes, bem como os problemas res-irritabilidade até o quadro de exaustão emocional, piratórios e do aparelho locomotor.com sintomas psicossomáticos e depressivos se- Neto et al. (2000) estudaram o perfil deveros (Chan, 2002). professores de 58 escolas da rede particu- Os dados disponíveis no Relatório da lar de ensino de Salvador (Bahia). Os resultadosPrefeitura de Belo Horizonte, já mencionado, de seus estudos descrevem uma população cujamantêm-se no período seguinte, entre maio de média de idade é de 35 anos, mulheres (75%) e2002 e abril de 2003. Os transtornos psíquicos casados (56%) em sua maioria. Chama atenção ocontinuam ocupando o primeiro lugar (tabela 4) duplo vínculo de trabalho com escola públicaentre os diagnósticos que provocaram o afas- (20%), sendo o número médio de aulas por se-Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005 195
  8. 8. mana de 25 horas. Entre as queixas de saúde colegas de trabalho foram considerados “amigá-foram citadas: dor na garganta, dor nas pernas e veis”. O Self Questionnaire Report-20 estimou umacostas, rouquidão e cansaço mental. As caracte- prevalência de distúrbios psíquicos menores emrísticas do trabalho associadas às queixas foram: 41,5%, variando de 17 a 66%, a depender dasalas inadequadas, trabalho repetitivo, exposição escola onde o profissional se inseria, estando for-ao pó de giz, ambiente de trabalho estressante, temente associada ao trabalho repetitivo, ao volu-ritmo acelerado de trabalho, desempenho das ati- me excessivo e ao ritmo acelerado de trabalho, àvidades sem materiais e equipamentos adequados intensa concentração em uma mesma tarefa e tem-e posição de trabalho incômoda. Ressaltam-se os po insuficiente para a realização de outras.aspectos positivos do trabalho mencionados pelos Em Campinas, estudo realizado entre osprofessores, que destacam a boa relação com os professores do ensino fundamental da redecolegas, a autonomia de planejamento, a satisfa- particular no ano de 2000 coloca em evidên-ção no desempenho das atividades e a existência cia a contaminação do tempo extratrabalho,de banheiro privativo e existência de espaço para sendo freqüentes as dificuldades em realizar asdescanso. tarefas diárias com satisfação explicando o Delcor et al. (2004) realizaram um estudo quadro encontrado de nervosismo, tensão etransversal na rede particular de ensino da cida- preocupação (Oliveira, 2001).de de Vitória da Conquista (Bahia) no grupo de Codo (1999) estudou uma amostra deprofessores do pré-escolar ao ensino médio. Foi quase 39 mil trabalhadores em educação emutilizado um formulário auto-aplicado com cinco todo o país e identificou que 32% dos indiví-blocos de questões com informações sobre as duos apresentavam baixo envolvimento emo-características sociodemográficas, econômicas e cional com a tarefa, 25% se encontravam comocupacionais e sobre a saúde física e mental dos exaustão emocional e 11% com quadro dedocentes. Os resultados apontam uma população despersonalização, podendo-se dizer, em ter-jovem (idade média de 34,5 anos), composta, mos práticos, que 48% da população estudadaprincipalmente, de mulheres (83%), em sua mai- apresentava burnout. O autor esclarece os ele-oria casadas (65%), com nível de escolaridade su- mentos que podem estar associados às queixasperior (72%), sendo que mais da metade (52%) e ao adoecimento. Lembra que o trabalho dotrabalhava em outra escola. Entre as queixas de professor não se restringe ao exercício de suasaúde apresentadas destacaram-se: cansaço men- função dentro da sala de aula, exige atualiza-tal (60%), dor nos braços e ombros (52%), dor ção e preparação constantes para ser realizadonas costas (51%), formigamento nas pernas de modo satisfatório. Muitas tarefas são reali-(47%), dor na garganta (46%) e rouquidão zadas sem a presença dos alunos, fora da sala(60%). Permanecer em pé e corrigir trabalhos de aula e, freqüentemente, fora da escola, es-escolares foram os esforços físicos mais freqüen- tendendo a jornada de trabalho. Quando otes. O Job Content Questionnaire, incorporado ao professor ministra aulas em várias turmas paraquestionário, identificou como aspectos negati- alunos em níveis de ensino, escolas e turnosvos para o bom desenvolvimento do trabalho o diferentes, a preparação das aulas vai requererritmo acelerado (68%), posição inadequada ou avaliações múltiplas e esquemas variados. Serãoincômoda do corpo (65%), atividade física rápi- necessários maior investimento de tempo nada e contínua (64%) e longos períodos de con- execução de um volume maior de trabalho ecentração numa mesma tarefa (52%). Mais de mais dedicação e esforço intelectual.90% dos professores que participaram do estudo É Codo ainda que enfatiza o maior in-demonstraram necessidade de maior criatividade vestimento emocional, na medida em que dia-e de maior nível de habilidade para aprender riamente são estabelecidos vínculos com oscoisas novas. Segundo a população estudada, os alunos, com outros professores e funcionários196 Sandra M. GASPARINI; Sandhi M. BARRETO e Ada A. ASSUNÇÃO. O professor, as condições...
  9. 9. da escola. No conjunto, os fatores citados ex- professor face às normas educacionais vigentes,plicariam a sobrecarga mental, situação que assim como a obrigatoriedade de formação es-culmina com a exaustão mental, em que o pro- pecífica em cursos estipulados pelo seu gestorfessor se sente exaurido emocionalmente e o e, também, prescrição do tipo de avaliação dostrabalho perde o sentido. As situações mais alunos.freqüentemente vividas, geradas pelo sofrimen-to no trabalho, são: depressão, fadiga, insatis- Conclusãofação, frustração, medo, angústia e ansiedade,até chegar à exaustão. Os dados e as conclusões dos estudos A pesquisa de Noronha (2001) também interessados em descrever o perfil de adoeci-identificou os sentimentos de insatisfação, frustra- mento dos professores são convergentes, inde-ção e ansiedade relatados nas entrevistas eviden- pendentemente da população e da região estu-ciando a associação entre as queixas de cansaço dada. Observou-se que os professores têm maise sobreesforço físico e mental solicitados pelo risco de sofrimento psíquico de diferenciadosconjunto das atividades estudadas por meio das matizes e a prevalência de transtornos psíqui-técnicas da escola francesa de ergonomia. cos menores é maior entre eles, quando com- O estudo ergonômico realizado por Gomes parados a outros grupos.(2002) em um grupo de onze professores (sete Embora os dados acerca de afastamen-mulheres e quatro homens), com idade entre 26 tos por licenças médicas não indiquem a reale 60 anos, em uma escola estadual do Rio de dimensão do problema de saúde de uma cate-Janeiro, com 283 professores e cinco mil alunos, goria de trabalhadores, os indicadores podemsendo 40 a 45 alunos por turma, divididos em ser tomados como pistas sobre situações quetrês turnos, evidenciaram: insatisfação por traba- merecem maior aprofundamento e análise. Nolhar em mais de uma escola; referência à sobre- caso estudado, os dados da literatura são coe-carga de trabalho determinada por diferentes rentes com os registros na Gerência de Saúde dofatores (gestão, política, infra-estrutura e tempo). Servidor e Perícia Médica, em Belo Horizonte,A autora menciona a invasão do tempo e do apresentados anteriormente, os quais colocamespaço extra-escolar pelo trabalho, a intensifi- em evidência a prevalência de afastamentos doscação das atividades no final do ano letivo e o professores, sendo os transtornos psíquicos res-número excessivo de alunos por turno. Final- ponsáveis pelo maior número de casos.mente, o estudo citado aborda os efeitos da si- O acúmulo de conhecimentos no campotuação diagnosticada, refletindo-se em agitação, de estudo das relações saúde e trabalho permi-estresse e irritação do professor, que se sente res- te supor associações entre os problemas deponsável pela formação ética e moral dos alunos. saúde identificados na categoria dos professo-Os problemas de saúde identificados foram: sen- res e as condições ergonômicas de trabalhosação de intenso mal-estar generalizado; ansieda- também descritas na literatura consultada.de, tensão, nervosismo, irritabilidade, depressão, Seriam úteis desenhos de estudos volta-angústia e esgotamento; perturbações do sono; dos para compreender a inadequação entre asproblemas digestivos; problemas respiratórios e mudanças educacionais propostas e imple-da voz. Os professores estudados expressaram mentadas, e a realidade que os trabalhadores en-frustrações diante da precariedade de recursos frentam nas escolas. As contradições existentesmateriais que dificulta o cumprimento de objeti- podem estar na origem da exposição aos fato-vos planejados. O cenário da escola deixa pou- res de risco para o adoecimento da categoriaca margem para a criatividade e autonomia do dos trabalhadores do ensino.Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 189-199, maio/ago. 2005 197
  10. 10. Referências bibliográficasARAÚJO, T. M.; SILVANY-NETO, A. M. (Orgs.). Condições Trabalho e Saúde dos Professores da Rede Particular de Ensino rabalho Ensino. Sindicato dos Professores no Estado da Bahia/ Universidade Federal da Bahia/ Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino, Salvador, set. 1998, pp. 5-42.BARRETO, R. G.; LEHER, R. Trabalho docente e as reformas neoliberais. In: OLIVEIRA, D. A. Reformas educacionais na América Reformas Latina e os trabalhadores docentes Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 39-60. docentes.CHAN, D. W. Hardiness and its role in the stress-burnout relationship among prospective Chinese teachers in Hong Kong. Teaching and Teacher Education v. 19, p. 381-395, 2003. Education tion,CODO, W. (Org.). Educação carinho e trabalho. Petrópolis: Vozes, 1999. Educação:DELCOR, N., S. et al. Condições de trabalho e saúde dos professores da rede particular de ensino de Vitória da conquista, Bahia, Brasil. Cadernos de Saúde Pública Rio de Janeiro, v.20, n.1, p. 187-196, jan.-fev. 2004. Pública,GOMES, L. Trabalho multifacetado de professores/as a saúde entre limites. Dissertação (Mestrado) - Escola Nacional de Saúde, rabalho professores/as: Fundação Osvaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2002.MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. O déficit de professores no país Disponível em: portaldoprofessor.inep.gov.br/ país. estatisticas.jsp.NAUJORKS, M. I. Stress e Inclusão: indicadores de stress em professores frente a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. Cadernos de Educação Especial Universidade Federal de Santa Maria. Centro de Educação/ Departamento Especial. de educação Especial/ Laboratório de Pesquisa e Documentação (Lapedoc), v. 1, n. 20, 2002.NETO, A. M. S. et al. Condições de trabalho e saúde de professores da rede particular de ensino de Salvador, Bahia. Revista Bahiana de Saúde Pública v. 24. n. 1/2, p. 42-56, jan/dez. 2000. Pública,NORONHA, M. M. B. Condições do exercício profissional da professora e dos possíveis efeitos sobre a saúde estudo de saúde: casos das professoras do ensino fundamental em uma escola pública de Montes Claros, Minas Gerais. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte, 2001. 157 p.OLIVEIRA, D. A. As reformas educacionais e suas repercussões sobre o trabalho docente. In _____. Reformas educacionais na América Latina e os trabalhadores docentes Autêntica: Belo Horizonte, 2003, p. 13-35. docentes.OLIVEIRA, M. G. Condições de trabalho, gênero e saúde sofrimento e estresse. um estudo de caso com os profissionais saúde: docentes do ensino superior privado de Belo Horizonte. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2001.ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. A condição dos professores recomendação Internacional de 1966, um instrumento professores: para a melhoria da condição dos professores. Genebra: OIT/ Unesco, 1984.PITHERS, R. T.; FOGARTY, G. J. Symposium on teacher stress: occupational stress among vocational teachers. British Journal of Educational Psychology , v. 65, p. 3-14, 1995. Educational PsychologySCHONFELD, I. S. A longitudinal study of occupational stressors and depressive symptoms in first-year female teachers. Teaching & teacher education v. 8, n.2, p. 151-158, 1992. education tion,SIQUEIRA, M. J. T.; FERREIRA, E. S. Saúde das professoras das séries iniciais; o que o gênero tem a ver com isso? Psicologia, Psicologia, Ciência e Profissão v. 23, n. 3, p. 76-83, 2003. Profissão,SOUZA, K. R. et al. Trajetória do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ) na luta pela saúde no trabalho. Ciência e Saúde Coletiva v. 8, n. 4, p. 1057-1068, 2003. Coletiva,198 Sandra M. GASPARINI; Sandhi M. BARRETO e Ada A. ASSUNÇÃO. O professor, as condições...
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